Quinn Fabray odiava jantares festivos.

Desde que ela se entendia por gente, Russell Fabray tinha oferecido jantares desse tipo para os poucos privilegiados de Lima, Ohio. A elite social, a burguesia, os Batistas... Quinn usava vestidos e saltos altos desde que ela tinha 10 anos de idade e a mãe dela tinha convencido o pai que ela era velha o suficiente para participar das festividades dos adultos. Festividades tais como... Risada falsa com piadas horríveis, concordar falsamente com histórias que você realmente não se importa, e freneticamente tentar lembrar dos nomes das pessoas – mesmo se você já tivesse os visto cem vezes antes.

Pessoas estavam sempre bajulando Quinn – como ela era bonita, como excitante devia ser que ela era a Capitã das Cheerios, quão orgulhosos seus pais pareciam, perguntas sobre em que universidades ela ia se inscrever – toda festa, era tudo igual. Todo mundo era igual. Todo mundo era falso.

Incluindo Quinn. E ela meio que se odiava por isso.

Mas seu pai tinha deixado claro – várias e várias vezes desde que ela tinha 10 anos – que Quinn devia se comportar de uma certa maneira. Ela devia se vestir de uma certa maneira (a mãe dela ajudou, obviamente). Ela devia agir de uma certa maneira. Ela devia falar de uma certa maneira. Ela devia ser uma certa versão de si mesma. Isso era como sempre tinha sido. Quinn estava com medo que, ultimamente, era assim que sempre ia ser.

Pelos últimos meses, ela tinha aprendido que as coisas podiam mudar – que pessoas podiam mudar – mas Russell Fabray não era uma dessas pessoas. E desde que ele não estava mudando, quando Quinn estava na casa dele... Bem, ela também não mudaria.


Era sexta feira à noite. Os Fabrays estavam tendo uma das suas festas Batistas – pastores, suas esposas e seus filhos. E havia congregações Batistas suficientes em Lima para causar uma larga reunião na casa de Quinn. Entretanto, em noites como a noite passada, não parecia realmente como um lar pra Quinn.

Ela tinha escapado da festa tão logo quanto fosse humanamente possível sem incorrer na ira do seu pai. Ainda, era quase dez da noite antes dela conseguir ser bem sucedida em fazer seu caminho pelas escadas acima.

Ela fechou a porta do quarto atrás dela e se inclinou contra a mesma, sua cabeça batendo na superfície suave e os olhos dela fechando. Ela suspirou. Apenas outra noite com os Fabrays, ela pensou consigo mesma antes de lentamente começar a atravessar seu quarto em direção à cama. Enquanto ela, ela chutou pra fora do pé o Jimmy Choo, salto cinco centímetros, preto que sua mãe tinha comprado para a ocasião. Eles aterrissaram descuidadamente – um na porta do armário dela e o outro perto da mochila esportiva das Cheerios. Eles seria esquecidos em breve, junto com o vestido que ela já estava abrindo – sua mão cegamente alcançando o topo do vestido e lentamente libertando seu corpo dos confins do material preto. Ela se viu no espelho. Ela sabia que o vestido era lindo – sua mãe não teria comprado de outra forma.

O vestido empilhou aos seus pés. Ela ficou só de roupa de baixo. Os cachos suaves do seu cabelo loiro caíram em forma de cascata ao redor dos ombros dela. Ela tocou os braços, onde os machucados costumavam ficar. Sua pele estava agora limpa, intocável. Ela tremeu quando ela pensou no comportamento de Finn. Ela começou a sacudir quando isso se tornou um gatilho das memórias do pai dela – memórias de um Russell Fabray com uma raiva mal controlada pairando sobre ela, uma Quinn mais jovem, uma Quinn incapaz de se proteger.

Ela podia se proteger agora? Se ele estivesse com raiva, se ele estivesse bêbado, se ela tivesse derramado ponche de frutas no carpete branco?

Se ele soubesse que ela tinha terminado com a estrela do futebol da Escola William McKinley e ao invés disso ela tinha começado uma amizade crescente com a estrela residente do New Directions?

Quinn abriu o sutiã enquanto ela andava pra suas gavetas. Ela puxou um top e shorts – roupa de dormir. Depois de se vestir pra cama, ela andou até a sua mesa e abriu o laptop. A tela acendeu e Quinn sentou-se à cadeira com um dos seus joelhos puxados em direção ao peito.

Ela abriu o navegador e navegou pro Facebook.

Sim. Facebook.

É. Facebook.

Ela gostava do Facebook. Quinn era popular – e facebook permitia que Quinn 'socializasse' sem ter que socializar na vida rela. Ela podia ser 'amiga' de todo mundo do WM que quisesse ser amigo dela. Ela não tinha machucar o sentimento de ninguém. E no final da noite, ela podia deslogar.

Entretanto, haviam alguns aspectos desagradáveis associados com essa mídia social. Um dos piores efeitos colaterais era Jacob Ben Israel. Sem falha, ele começaria a conversar com Quinn dentro de segundo dela logada.

Jacob Ben Israel: Quinn Fabray, quer comentar sobre os rumores envolvendo seu término dúbio com o garoto dourado Finn Hudson?

Quinn mudou o status dela para 'invisível.' Ela não estava com humor de dar um fora em Jacob hoje à noite. Na verdade, na maior parte das noites.

Ao invés disso, ela navegou pelo seu inbox. Nas últimas duas semanas, ela e Rachel tinham trocado comunicações. Seus pensamentos, suas preocupações – eles se dissiparam. Isso era um sentimento eufórico.

E era basicamente culpa de Rachel.

Quinn clicou no histórico de mensagens que ela tinha aumentado quase toda noite com Rachel. Ela estava cansada, mas ela também tinha sido forçada a aguentar socialização sem futuro pelas últimas horas. Ela iria se recompor em reler as mensagens de Rachel de mais cedo nessa semana.

Rachel Berry

Quarta, 19:28

Quinn,

Eu sei o que você quer dizer, as amarras que enfrentamos vivendo em uma cidade tão pequena pode ter um impacto significativo nas formas que nós escolhemos viver nossas vidas. Algumas vezes, as decisões difíceis se tornam 1000 vezes mais difíceis simplesmente por causa de onde vivemos, onde nós somos educadas, com quem vamos à escola ou... ou quem são nossos pais, estou certa?

Mas para responder sua pergunta, Quinn, não. Eu não soube sempre que eu era fisicamente (e emocionalmente, realmente) atraída tanto por garotas como caras. É algo que, talvez, eu esteja mais ciente por causa de quem meus pais são. Quando seus pais são dois homens gays – bem, você não é particularmente protegido desse estilo de vida. Obviamente. Mas na verdade há um momento definidor na minha vida que eu lembro como se fosse ontem. Eu não posso acreditar, mas estou bem certa de que estou ficando vermelha só de pensar sobre! Eu não acho que eu posso contar você por mensagem. Isso é provavelmente algo que eu tenho que contar à você pessoalmente. Talvez depois da nossa excursão de compras no Sábado? Estou muito excitada sobre isso, por falar nisso! Eu tenho um sentimento de que isso vai ser bem divertido.

Enfim, meus pais estão me chamando. É noite de comida tailandesa! E cheira deliciosamente. Me desculpe por resumir isso. Eu espero que você ache dentro de si mesmo um jeito de me perdoar.

Sua,

Rachel Berry * ( - esse 'asterisco' é o mais próximo que eu consigo de assinar meu nome com uma 'estrela' de verdade, mas acho que você entendeu – sempre lembre, Quinn, que metáforas são importantes)

Quinn riu um pouco. Era quase nojento o quão fofa Rachel podia ser, mesmo que simplesmente através de palavras numa tela de computador. Não era justo, realmente.

Quinn começou a digitar uma resposta pra Rachel – algo que ela estivera muito ocupada para fazer até agora – mas ela em breve entendeu que estava incrivelmente cansada. Seus olhos começaram a fechar. Ela não se importou em desligar o computador, optando por simplesmente fechá-lo para que ela pudesse terminar a mensagem dela depois da corrida matinal.

Ela desligou a luz da mesinha e foi pra cama, se acomodando embaixo das cobertas. Ela pegou o telefone dela e, num impulso, mandou uma mensagem de texto para Rachel dizendo boa noite. Ela colocou o telefone de volta na mesinha de cabeceira, mas ela deitou de lado para que ela pudesse encarar mais efetivamente diretamente pra ele – na improvável situação de que ela realmente conseguisse pegar Rachel antes do 'bebê fazê-la dormir' ou qualquer desculpa que ela estava certa que a garota grávida inventaria no dia seguinte. Ela sorriu um pouco.

E quando o telefone vibrou, o sorriso iluminou as feições de Quinn quando ela rapidamente pegou o telefone para ler a resposta de Rachel. O texto era curto, mas Quinn sentiu seu coração flutuar mesmo assim. Rachel era uma querida. E Rachel estava tentando não ultrapassar algum tipo de limite invisível, Quinn podia dizer. Nunca aquela a deixar outra pessoa ter a última palavra, Quinn pensou momentaneamente sobre o que ela poderia dizer pra outra garota antes de rapidamente digitar a mensagem dela. Quando ela adicionou beijos e abraços no final, ela lambeu os lábios. Bem que eu queria, ela pensou.

Contente, Quinn deslizou o telefone dela pro lugar dele e arrumou o alarme dela pra manhã.

Doces sonhos de fato.


Quando Quinn acordou na manhã seguinte, ela se sentiu bem. Ela colocava o alarme pra bem mais tarde nos sábados. Era legal. Ela se sentia renovada e pronta pra dominar o mundo. Na verdade realmente, ela estava apenas pronta pra passar a tarde na presença de Rachel Berry. E, claro, Santana e Brittany também. Mas principalmente Rachel.

Ela rapidamente mudou das roupas que vestiam para correr, amarrando seus Nikes antes de deixar o quarto dela. Enquanto ela saía do quarto, ela puxou delicadamente a porta atrás dela. Não clicou, mas Quinn não se importou. Ela estava preparada para experimentar o sentimento calmante do pavimento batendo embaixo dos seus tênis. Ela pegou o iPod da mesa perto da porta da frente e começou a playlist que Rachel tinha feito pra ela correr.

Enquanto ela fechava a porta da frente atrás dela e se virava pra olhar pro mundo, ela não pôde deixar de rir um pouco. Tudo estava coberto de neve. E se não estivesse coberto pela neve, estava coberto pelo gelo. Ótimo, Quinn pensou. Essa deve ser uma aventura interessante. Ela saiu numa corrida leve, confiando que seus sapatos a manteriam firme. Espero que se eu de fato cair, ninguém esteja por perto pra ver. Mas os vizinhos já estavam do lado de fora tirando a neve. Pessoas estavam tentando dirigir (provavelmente para as compras de Natal, assim como todo mundo no país). Basicamente – as pessoas estavam do lado de fora; e se ela caísse, pessoas iriam ver.


Quinn fez seu caminho de volta pra porta da frente em segurança. Ela estava um pouco insatisfeita com sua corrida – ela não pôde manter seu passo normal por causa das condições traiçoeiras. Isso também resultou em ela levar um pouco mais de tempo pra chegar em casa do que ela esperava.

Tanto faz, é sábado. E eu ainda tenho tempo suficiente pra ficar pronta pra Rachel. Errr... Pra ficar pronta pro shopping. É.

Ela abriu a porta da frente e tirou os sapatos devagar. Eles estavam na maior parte molhados e cobertos por neve, e ela sabia que sua mãe não apreciaria a bagunça – e seu pai teria ainda outra razão para gritar e ameaçá-la.

Só não valia a pena.

Ela deixou o iPod dela na mesa perto da porta onde ela sempre o deixava – fones envolvidos cuidadosa e seguramente ao redor do dispositivo. Quinn foi em direção às escadas, com a intenção de tomar um longo e quente banho. Ela tinha conseguido manter seu ritmo cardíaco alto então ela não estava necessariamente fria durante a corrida, mas temperaturas de único dígito sempre iriam ser temperaturas de único dígito e por isso incrivelmente frias.

Logo que seu pé alcançou o primeiro degrau, ela ouviu a voz do seu pai chamá-la.

"Quinn."

Ela parou abruptamente. Aquele tom de voz... Ela não o tinha escutado em anos. Sua mão agarrou violentamente o corrimão. O que eu fiz? Ela começou a freneticamente vasculhar o cérebro dela pela mínima dica. Ela não achou nada.

Então, completamente e totalmente aterrorizada, Quinn virou e andou de volta pro escritório do pai. Ela sabia que o acharia lá, sentando em sua cadeira alta de couro envelhecido.

Claro como água, ela virou o canto e lá sentava Russell Fabray. Perna direita cruzada sobre a esquerda. Queixo empinado – arrogante. Copo de uísque descansando em sua mão direita contra o braço da cadeira (mesmo que mal fosse uma hora da tarde). Tudo isso era esperado. Tudo isso, Quinn achou normal – e estranhamente confortador em sua normalidade.

O que não era normal – o que fez com que o sangue nas veias de Quinn ficasse frio que nem gelo e seu batimento cardíaco acelerar para um ritmo completamente não natural – era o fato de que o laptop de Quinn estava na mesa na frente do pai dela. Estava aberto. E a última tela que Quinn mesma tinha visto estava encarando-a da entrada do escritório.

"Papaizinho, Eu –"

"Não," ele disse simplesmente. Para a pessoa mediana – para alguém que nunca tivesse encontrado Russell na vida dele ou até mesmo alguém que fosse conhecido de Russell – nada iria parecer estranho. Mas de repente, Quinn se achou temerosa. Indescritivelmente aterrorizada. Por um momento, ela lutou contra o início de pânico que surgiu quando ela percebeu que seu celular não estava no seu bolso – ela não podia mandar uma mensagem pra Santana. Ela não podia pedir que a Latina a protegesse ou até mesmo acalmar Quinn com as palavras dela. Ela estava sozinha.

Seu pai levantou o copo de uísque até o rosto dele. Os olhos dele nem uma única vez deixaram os de Quinn. O copo estava um pouco mais do que meio cheio quando ele o colocou nos lábios. Ele balançou o copo pra trás – mais e mais – até que nada ficasse lá.

"Eu fui até o seu quarto para acordá-la. Eu queria lhe contar sobre as ótimas respostas que eu recebi noite passada na festa de todo mundo. Sobre você." Quinn ouviu a última sílaba como mais um grunhido e menos como uma palavra discernível. "Ao invés disso, eu vejo sua cama vazia. Eu vejo os sapatos que sua mãe acabou de comprar pra você – os sapatos caros, os sapatos que saíram do meu pagamento – jogados sem cuidados ao redor do seu quarto. E aquele vestido," ele virou o lábio em desgosto. "Em uma pilha no chão como um despojo. Você nem se importou em pendurar. Então eu estava zangado com isso, mas eu estava disposto a ver além disso. Eu lembrei que você estivera bem cansada na noite passada. Isso estaria bem. Mas algo estava me perturbando no fundo da minha mente. Eu não conseguia saber o que." As mãos de Quinn ficaram penduradas nos lados dela e elas estavam começando a tremer. "Então eu andei até a sua mesa. E abri o seu computador. E isso," ele acena com a cabeça pro laptop dela. "É o que eu encontro."

"Papaizinho, não é o que você pensa –"

"Você sabe melhor!" ele grita. "Não me faça de idiota, não tente me fazer soar como ignorante." Ele estava de pé nesse momento, raivosamente brandindo o copo de brandy vazio dele na direção de Quinn. "Eu o abri, e vejo isso." Ele pega o laptop e o vira pro rosto dele. Antes mesmo dele sequer começar a ler, Quinn sabe as palavras que ele vai dizer. Ela as escreveu, afinal de contas. "Rachel, você não tem ideia o quanto corajosa eu acho que você é. Você é sortuda por ter dois pais gays," as palavras deixaram a boca de Russell com desgosto. "Estou contente que você me contou que gosta de garotas, porque, Rachel... Eu gosto de garotas também. Muito, na verdade. E, desde que nós estamos sendo honestas uma com a outra, eu acho que você deve saber... Eu acho que estou apaixonada por você."

Russell virou para olhar para a filha. O corpo inteiro dela parecia vibrar, já que ela estava tremendo tão fortemente. Os lábios dele estavam curvados em completo e total nojo. A boca de Quinn abriu e fechou – ela queria dizer algo. Ela queria tão desesperadamente poder dizer alguma coisa. Ela queria dizer a ele que não era verdade, que tudo que ele tinha lido era uma mentira horrível, que ela nunca faria nada algo para desgraçá-lo dessa forma.

Mas essas mentiras simplesmente não podiam cruzar os lábios dela.

Sem aviso, o rosto do pai dela se contorceu em uma máscara horrível e ele jogou o laptop do outro lado do cômodo tão forte quanto sua força permitia. Quebrou em um milhão de pedacinhos.

De todos os pensamentos que Quinn devia ter tido naquele momento – pensamentos de perda, autopreservação e medo – ela ao contrário se achou pensando, Eu não estou certa de que eu terei mais a coragem pra dizer à Rachel.

Livre do laptop, Russell então avançou pra figura trêmula de Quinn. Sem hesitação, ele puxou pra trás a mão direita dele – ainda segurando o copo de brandy – e então o jogou em um arco com todo o poder que ele tinha. Direto no rosto de Quinn.

A mente de Quinn retornou àquela noite quando Santana e Brittany estiveram lá para salvá-la. Ela tinha sentido uma dor intensa então; o gelo tinha ajudado – mas a dor tinha sido inesquecível.

Essa dor era algo inteiramente novo. Seu pai não tinha se segurado. De fato, Quinn estava tão estupefata pela dor e pela ação do pai dela batendo nela que ela estava confusa quando ela percebeu que ela estava no chão de quatro, um continuo fluxo de sangue pingando no chão de madeira embaixo das suas mãos. O golpe tinha a jogado no ar – ela estava olhando pra longe do pai dela.

E desde que ela não estava vendo o seu pai, o único aviso que ela teve que ele não havia terminado com ela foi o aperto firme das mãos dele nos ombros dela, puxando-a com força pra ficar de pé. Ele a empurrou contra a parede mais próxima e ela gritou de dor quando a quina de uma estante de livros rudemente enterrou-se no quadril dela.

Quando Russell falou novamente, sua voz não era uma que Quinn reconhecesse mais. "Nenhuma filha minha," ele respirou pesadamente no rosto de Quinn, o cheiro de álcool enchendo os sentidos dela. "praticará tais atos nojentos e sujos de perversão na minha casa! Você é uma desgraça. Que você seja até mesmo amiga com aquela vadiazinha que se engravidou, aquela-aquela-aquela abominação com dois pais? Isso sequer é uma família real! É abominável. É errado. É um maldito PECADO e eu não permitirei isso na minha casa!" Quinn estava chorando copiosamente, suas lágrimas estavam misturando-se com o sangue que estava pingando do seu lábio aberto. "Você recolherá suas coisas. Você deixará essa casa. E você nunca voltará aqui. Isso está entendido?"

Tudo que Quinn podia fazer era acenar com a cabeça. Seu corpo inteiro estava entorpecido. O que era uma boa coisa, pois a próxima ação do seu pai foi bater nela de novo – e dessa vez quando ela caiu no chão, ela não conseguiu se levantar.


Quando Quinn de fato acordou, foi com o sussurrar frenético da voz da mãe dela no ouvido dela.

"O qu..." Quinn tentou falar, mas sua cabeça estava pulsando e seu rosto doía feito o inferno e ela realmente não tinha ideia do que estava acontecendo. Por que estou no chão? Ela imaginou.

E então tudo veio correndo de volta.

Focando no rosto da mãe, ela conseguiu que o lugar parasse de girar tanto.

"Quinnie... Oh, Quinnie, você tem que levantar. Você tem que pegar suas coisas, seu pai está –"

"Que?' Quinn tentou novamente, interrompendo o falatório da mãe. Pegar suas coisas?

"Venha," Judy disse, segurando Quinn e ajudando a garota a ficar de pé.

Quinn estava mole. Suas pernas mal a permitiam ficar de pé. Judy estava apressando-a pra subir.

Havia uma mala extra-grande na porta da frente de Quinn. Ela deixou um gemido sair quando viu.

Judy removeu a mão dela da cintura de Quinn. Esta quase caiu. Ela conseguiu se segurar na moldura da porta bem a tempo. O que foi bom. Ela não tinha certeza de que conseguiria levantar mais.

"JUDY!" Russell rugiu do corredor. O coração de Quinn começou a correr novamente. Judy esfregou as mãos nervosamente.

"Quinn, eu eu não sei o que dizer. Seu pai está –"

"JUDY!" Ele rugiu novamente. Judy levemente bateu na bochecha da filha – o que só resultou em um guincho quando a dor permeou o rosto de Quinn – antes de sair correndo pro marido dela.

Então Russell veio trovejando pelo corredor. Quinn não achou dentro dela a habilidade de se mover. Ela tropeçou sobre a mala e pra dentro do quarto, mal conseguindo chegar até a cama dela – onde ela prontamente caiu.

"Estou indo lá pra baixo. Vou colocar o temporizador do micro-ondas para 30 minutos. Se você não estiver fora desta casa – e fora da minha vida e da sua mãe – quando soar, houverá consequências terríveis. Você me entendeu?" A voz dele estava mais baixa agora. Quinn percebeu que ela preferia a gritaria.

"Mas Papaizinho –"

Ele levantou a mão dele ameaçadoramente, não permitindo que ela falasse sequer uma palavra mais pra ele. Ele deixou o quarto dela, parando na porta. "Trinta minutos," ele reiterou sobre o ombro.

Quinn permitiu que tudo fosse processado por dois minutos. Dois minutos era tudo que ela estava se dando. Ela virou para olhar o relógio dela.

15:16

Estou atrasada pras compras, ela groguemente pensou.

Ela fechou os olhos. Dois minutos. Era isso. Então ela tinha que se mover. Ela tinha que arrumar suas coisas. Suas roupas. Seus sapatos. Suas coisas da escola. Seu laptop – bem, não. Não o laptop dela. Seu celular. Sua carteira. Fotografias. Animais de pelúcia que ela tivera por toda a vida dela. Ela abriu os olho.

15:18

E ela começou a trabalhar. Ela encheu a mala que ou sua mãe ou seu pai tinha deixado no corredor. Ela encheu a mochila dela. Ela encheu a mochila das Cheerios até o topo. Ela mudou de roupa – ela deixou suas roupas de correr abandonadas no chão.

Ela não as queria.


Seu cabelo estava puxado pra trás, pra longe do seu rosto em um apertado rabo de cavalo. Suas bolsas estavam jogadas sobre os seus ombros ou sendo carregadas atrás dela enquanto ela fazia o caminho traiçoeiro da garagem para o seu carro. Ela não tinha ouvido o temporizador do micro-ondas soar ainda. Apesar disso, ela não tinha visto nenhum dos pais dela enquanto saía da casa.

Ela jogou as mochilas na mala e andou pra porta do motorista, quase perdendo o passo no gelo e se segurando a tempo. Se os vizinhos estavam olhando, ela achou bem mais fácil ignorá-los. Ela entrou e ligou o carro, tentando aquecê-lo. Ela estava pra lá de fria. Ela estava congelada.

E então as lágrimas vieram novamente. Um lado do rosto dela já estava tão inchado que ela não tinha inteiramente certeza de como as lágrimas estavam conseguindo sair, mas elas estavam.

Finalmente, com as lágrimas que ainda caíam sem trégua pelo seu rosto, Quinn decidiu que seu carro estava descongelado o suficiente para que ela pudesse dirigir. Seu primeiro pensamento foi dirigir até a casa de Santana. Ou a de Rachel. Mas elas estavam no shopping. Ela iria lá. Ela iria até o shopping e ligaria para as garotas encontrarem-na lá fora. Elas iam descobrir algo. Juntas.

Sua mente feita, Quinn saiu da sua rua – talvez um pouco mais descuidada do que ela normalmente faria. Mas ela não podia achar dentro de si força pra se importar.

Ela chegou ao sinal no final da sua vizinhança. Ela estava esperando pra virar à esquerda. O sinal tinha aparentemente escolhido ficar vermelho por toda a eternidade. Uma onda nova de lágrimas abateu-se sobre Quinn e ela bateu seus punhos fechados no volante.

Ela ouviu antes de ver pelo retrovisor – o barulho dos pneus enquanto alguém valentemente tentava parar o carro nas estradas congeladas. Quando ela os viu, ela percebeu que eles estavam logo atrás dela – o freio do carro estava claramente travado e o motorista do outro carro estava obviamente prestes a bater no de Quinn.

Instintivamente, Quinn pisou nos freios também para preparar o veículo dela para o impacto.

Mas as estradas congeladas tinham criado uma situação que nunca seria favorável. Quando o outro carro bateu no de Quinn, ambos os carros foram pra frente pra intersecção lotada.

Quinn ouviu as buzinas buzinando os freios freando e metal amassando. E então ela não ouviu nada.