Santana

Santana estivera sendo forte pra um monte de gente por um tempo muito longo. Ela foi forte para o irmãozinho dela quando o pai deles simplesmente parou de vir pra casa – Santana tinha 11, seu irmão, 8. Ela foi forte pela mãe dela que – eles logo depois descobriram – tinha um tino para escolher namorados abusivos. Ela foi forte por Quinn a cada final de semana ou perto disso quando as garotas dormiam juntas, ouvindo atentamente quando Quinn tentava diminuir o ambiente opressivo que era a casa dos Fabray – nunca sendo bem sucedida. Santana foi até mesmo forte por Brittany quando alguém – a irmã caçula de Brittany – disse a ela que os patos no parque não pertenciam realmente a Brittany.

Mas agora Santana se encontrava encarando uma situação que, pra todos os efeitos, deveria parecer familiar para ela. Ela estava acostumada a ser forte. Confortar pessoas – ameaçar outras – providenciar soluções e conforto. Essas foram todas as coisas que Santana Lopez tinha se achado bem próxima através dos seus poucos 16 anos de vida. Só que agora, o objeto da sua 'proteção' era Rachel Berry. E isso era diferente. Isso não era estritamente 'a norma' para Santana. Rachel Berry era a última na metafórica Lista de Pessoas que Santana Lopez Podia Possivelmente Ter que Proteger. Última.

E ainda, aqui estavam elas. Santana estava contente que ela tinha Brittany com ela.

Quando elas saíram, Brittany e Santana se acharam prendendo Rachel entre elas. Brittany – com sua vantagem na altura – tinha envolvido o braço esquerdo ao redor dos ombros de Rachel e estava balançando a garota menor no seu lado. Santana estava do outro lado de Rachel – seu braço direito estava envolvido seguramente ao redor da cintura de Rachel, apoiando-a enquanto elas faziam o caminho para o carro de Santana.

Santana abriu a porta de trás e permitiu que Brittany deslizasse pra dentro primeiro. Rachel podia ter muito bem caído dentro, de tão incrivelmente mole estava. Mas Brittany a segurou.

Antes dela fechar a porta, Santana se inclinou pra dentro e quietamente sussurrou pra Rachel, "Não se preocupe, Berry. Brittany e eu estaremos com você a cada passo do caminho. Nós podemos ser fortes por você. Mas no final, você tem que ser forte por Quinn. Você entende?" Rachel virou os olhos castanhos – brilhando de lágrimas – para Santana. Seu lábio estava fazendo um beicinho por si próprio, por causa das lágrimas que ela estava tentando segurar. Tudo que Rachel podia fazer era concordar com a cabeça. Em resposta, Santana colocou uma mão confortadora na bochecha de Rachel, levemente levando a garota emocionalmente frágil em sua direção e colocando um leve beijo na outra bochecha dela. "Ficará tudo bem."

Santana rapidamente se afastou do banco traseiro, fechando a porta atrás dela. Ficando de pé, ela fechou os olhos brevemente – respirando o ar frio, se recompondo – antes de finalmente entrar atrás do volante.

Maldita seja você, Fabray. Agora eu tenho que tomar conta da anã. E ainda assim, não havia nenhuma malícia por trás dos pensamentos dela enquanto ela prosseguia em cuidadosamente sair da vaga do estacionamento e ir em direção ao hospital. Ela olhou no retrovisor, e seus olhos grudaram nos de Brittany. Um sorriso pequeno e triste apareceu no rosto de Brittany. Santana fez com a boca 'Eu amo você' para ela e Brittany usou a mão para assoprar um pequeno beijo pra Santana.


Brittany

Eu estava assustada. Tipo, realmente assustada. Santana não fica assustada – nunca. Mas eu vi ela atendendo o telefone. Eu vi o jeito que ela estava se segurando – e eu vi mudando ali mesmo, diante dos meus olhos. Como podia todo mundo ao redor da gente não ver que algo terrível estava acontecendo? Quero dizer, o cara tocando piano estava realmente bom. Mas ainda assim... Eles sequer se importaram que Rachel estava sentada do outro lado na minha frente parecendo uma garotinha assustada – como seu mundo estivesse ruindo.

E nós ainda não tínhamos escutado o que estava acontecendo.

E agora estou sentada no banco traseiro de Santana. Não me entenda errado, é um banco traseiro legal. Eu seriamente aproveitei esse banco traseiro na maior parte dos dias. E teve aquela vez, depois que os Titans ganharam, aquele único jogo há algumas semanas. Todo mundo estava tão excitado e contente e havia festas pra ir e pessoas pra ver e provavelmente teria cerveja, música alta e dança... Mas ao invés disso, Santana me levou pro banco traseiro do carro dela. Nós tivemos momentos sexys. Foi divertido.

O problema é... Bem, o problema é que agora, esse banco traseiro é um local de tristeza. Rachel está praticamente deitada em mim – com o que eu estou na verdade super de boas. Rachel é realmente, realmente macia. O cabelo dela cheira bem. Eu acho que ela pode ter notado eu cheirando o cabelo dela bem agora, mas eu não acho que ela se importe. Ela está pensamento com força. É como se eu pudesse sentir os pensamentos dela quicando dentro da cabeça dela. Eu envolvi meus braços mais forte ao redor dela, pressionando meus lábios contra a cabeça dela. Eu dei nela um beijo suave. Estou tentando dizer a ela sem realmente dizer que eu estou aqui pra ela.

Eu vejo Santana olhando pra mim no espelho. Ela diz que me ama. Claro, eu já sei disso. Eu coloco meus dedos nos meus lábios e os beijo levemente antes de assoprar o beijo pra ela. Espero que ela o pegue...

Eu tenho um sentimento de que Santana se sente um pouco desemparada. Ela estava confortando Rachel desde o primeiro segundo que descobrimos que algo tinha acontecido a Quinn. E Santana está acostumada a confortar muitas pessoas – o irmão dela, a m~e dela, Quinn, eu – mas ela nunca teve que fazer alguém como Rachel se sentir melhor. Rachel é especial, eu sei que ela é. Ela não pode dançar tão bem quanto eu, mas não há muitas pessoas que possam. Mas ainda assim – quando Rachel canta, é como um anjo ou algo parecido. Esse pensamento me deixa triste... Porque quando Rachel canta, algumas vezes eu olho pra Quinn ao invés de pra Rachel. Eu ainda posso ouvir Rachel, então é bom. Mas eu gosto de olhar pra Quinn porque ela fica com esse olhar bobo e apaixonado no rosto – é lindo, realmente. Santana algumas vezes me vê olhando e isso faz com que ela olhe pra Quinn também. Santana diz que é nojento. Mas eu sei melhor.

Santana olha pra mim desse jeito o tempo todo.

Minha mão está molhada. Eu olho pra baixo e percebo que Rachel finalmente começou a chorar. Eu tento enxugar as lágrimas dela da minha mão, o melhor que eu posso sem fazer Rachel se sentir mal por deixar minha mão toda molhada. Então eu uso aquela mesma mão para gentilmente enxugar a bochecha de Rachel, tentando secar a pele dela. Ela meio que vira a cabeça dela um pouco e olha pra cima, pros meus olhos. Ela parece tão triste, eu sinto vontade de beijá-la – só para tirar a tristeza dela. É o que eu faria se estivesse segurando Santana nos meus braços e ela estivesse chorando. Apesar de que eu não sei se Quinn gostaria disso muito. Ou Santana.

"Obrigada," ela sussurra.

Eu a puxo pra mim, abraçando-a mais, pressionando minha bochecha na dela e tentando mostrar a ela – novamente, mais, tanto quanto humanamente possível – que eu estou aqui pra ela. "Ficará tudo bem," eu respondo.

O carro começa a diminuir – não que estivéssemos muito rápido pra começar porque as estradas estão seriamente horríveis agora. Mas eu olho ao redor da gente e vejo que estamos no estacionamento do hospital. Há muitos carros aqui neste momento. E algo sobre isso me deixa triste.

Nós saímos do carro e vamos em direção à entrada. Rachel está espremida entre San e eu. Nós estamos tentando de tudo para não desmoronar. Nós chegamos mais e mais perto do hospital – mais e mais perto de ver Quinn, eu espero. Eu tento acreditar nas palavras que eu disse pra Rachel. Ficará tudo bem. É. Ficará tudo bem.


Quinn

Quinn sabia que ela não podia estar sentada onde ela estava sentada. Só não fazia sentido.

Ela tinha sentido o carro batendo nela. Ela tinha ouvido os sons. Ela tinha sentido o que deve se sentir em uma batida de carro.

Ela sabia todas essas coisas com uma certeza inexplicável. Ela pensou consigo mesma que talvez, só talvez, isso era como parecia se sentir morta. Talvez ela estivesse experimentando a pós vida . Talvez ela iria conseguir ver Deus.

Ou talvez ela não iria. E isso era assustador, também.

Quinn estava sentada no estádio de futebol da escola. Ela estava na última fileira embaixo das arquibancadas. Suas mãos estavam em cima do seu colo coberto por uma saia. Ela estava vestindo o uniforme das Cheerios. Ela podia sentir que seu cabelo estava firmemente num rabo de cavalo – muito provavelmente, o rabo era bem preso, preciso e perfeito. Treinadora Sylvester ficaria satisfeita em saber que Quinn aderia estritamente às Regras das Cheerios até mesmo quando ela estava presa em algum tipo de realidade alternativa.

Parecia frio. Havia neve. Mesmo a pista parecia escorregadia. Mas Quinn não estava com frio. Na verdade, ela estava bem. Onde diabos ela estava? O que ela estava fazendo aqui? Ela estava dormindo? Seus pensamentos eram uma bagunça enorme...

Mas então a névoa subiu e Quinn se sentiu segura. Não, literalmente – havia ali até então uma névoa opressiva e pairando. E se levantou. E ela viu Rachel correndo em direção à ela.

Seu primeiro instinto foi gritar, "Rachel! Cuidado! É escorregadio!" Então ela o fez.

Tudo que ela ouviu em resposta foi as risadinhas de Rachel enquanto a morena pequena continuava sua aproximação rápida.

Rachel finalmente chegou em Quinn. Havia uma pequena balaustrada na frente de Quinn – Rachel ficou parada do outro lado da balaustrada com suas mãos firmemente plantadas nela. Ela sorriu brilhantemente pra Quinn e riu um pouco. Quinn não pôde deixar de retornar o sorriso. Sua face parecia tomada por um sorriso tão largo que seu rosto parecia que podia literalmente se dividir em duas. Ela riu com um pensamento e prontamente cobriu o rosto com a mão.

Rachel pulou – é, pulou – sobre a balaustrada e pegou o assento ao lado de Quinn. Esta virou o seu corpo totalmente a fim de ver tudo de Rachel. A garota estava linda. O cabelo dela estava baixo – longo, ondulado e cheirando deliciosamente na brisa suave. Ela estava vestindo – de todas as coisas – shorts e uma camiseta. Mas ela claramente também não estava frio. E as pernas delas pareciam deliciosas.

Quinn não podia evitar. Até mesmo quando ela estava trancada em sua própria mente, ela pensava que Rachel parecia deliciosa.

"Oi," Quinn suavemente sussurrou.

"Olá," Rachel respondeu.

Elas sentaram em silêncio por um tempo. Quinn hesitantemente começou a ir em direção à mão de Rachel. Enquanto sua mão aproximava a de Rachel, a garota mais morena parecia desaparecer – isso fez com que ela se afastasse abruptamente. Assim que ela o fez, Rachel pareceu voltar a ficar em foco.

"É," Rachel começou. "É uma droga, não? Acredite em mim, eu realmente quero tocar você, também. Mas não é assim que as coisas funcionam aqui."

"E onde é 'aqui'?" Quinn perguntou.

"Mmm..." Rachel colocou ambos os pés pra cima nas arquibancadas, envolvendo os braços ao redor dos joelhos dela. Ela colocou a cabeça nas rótulas e fez uma expressão pensativa, cabeça parcialmente de lado. "É difícil de dizer, realmente. Alguém podia facilmente dizer que nós estamos no estádio de futebol da escola." Quinn concordou com a cabeça. "Ou alguém podia tão facilmente dizer que estamos sentadas no chão do auditório."

Quinn abriu a boca dela para questionar Rachel – talvez sobre a sanidade dela – mas dentro de um piscar de olhos, as garotas estavam legitimamente sentadas na superfície de madeira e suave do auditório.

"Huh." Foi a coisa mais articulada que Quinn podia encontrar dentro de si para dizer.

"Exatamente," Rachel riu. "Esse 'aqui' não é exatamente definível. Talvez o 'por que' seria uma pergunta melhor."

"Bem, então, por que exatamente estamos -"

"Ah ah ah," Rachel interrompeu sucintamente, segurando um único dedo na frente do rosto de Quinn (cujos olhos ficaram vesgos a fim de vê-lo). "Nós estamos ficando sem tempo. Você vai acordar em breve. E adivinha?" Quinn só arqueou as sobrancelhas a guisa de pergunta. "Você vai ficar bem, querida. De fato, eu estarei lá quando você acordar. E o 'eu' que está lá fora? É, você pode tocá-la. E abraçá-la. E beijá-la. E estar com ela." A esse ponto, Rachel ficou de pé e espanou o assento dos shorts dela antes de começar a andar em direção à ala esquerda do palco. Com a cortina puxada pro lado na mão dela, ela virou pra Quinn. "Então não desperdice mais tempo, ok?"

Antes que Quinn pudesse responder, Rachel tinha ido embora. Quinn piscou novamente, e ela estava no quarto de Rachel. Ela imediatamente se sentia confortável, em paz. Escuridão começou a envolver a visão dela, então ela andou pra cama de Rachel. Ela puxou as cobertas pra trás e deslizou pra dentro. Cheirava à Rachel. Quinn sorriu. Ficaria tudo bem.


Rachel

Se havia uma pessoa (e pra falar a verdade, haviam muitas pessoas) que iria avidamente admitir que Rachel estava agindo como um total desastre, era Rachel. Mas quando as três garotas cruzaram a entrada do hospital – portas duplas abrindo-se na frente dela e o odor de hospital no sobre elas – Rachel lembrou das palavras de Santana. "Mas no final, você tem que ser forte por Quinn."

Algo dentro de Rachel voltou pro lugar. As garotas ao lado dela devem ter sentido alguma evidência tangível da mudança dela – elas soltaram o aperto delas ao redor dos ombros dela e quadris, permitindo que ela andasse mais por si própria ao invés com a assistência delas.

Rachel estava se sentindo mais confiante, mas ela ainda não sabia realmente o que estava procurando. Felizmente, Santana em breve viu uma mulher mais velha sentada em uma seção de cadeiras que pareciam altamente desconfortáveis. Ela saiu correndo dizendo, "Sra. Fabray!" A mulher instantaneamente levantou a cabeça dela das mãos dela e viu as garotas que se aproximavam rapidamente.

Rachel não pôde deixar de pensar que os olhos da Sra. Fabray continham uma quantidade incrível de tristeza. Ou talvez culpa. Ou completa e total confusão. O sexto sentido de Rachel estava apitando loucamente. Algo não estava certo. Suas mãos viram punhos, instintivamente.

Sra. Fabray ficou em pé enquanto as três garotas ficavam ao redor dela. Rachel permitiu que Santana perguntasse tudo, uma vez que ela nunca tinha encontrado essa mulher na vida dela.

"Como ela está? Você já teve alguma notícia?"

A boca da mulher abriu e fechou algumas vezes antes dela conseguir se recompor o suficiente para responder. "S-sim. Sim, o médico já veio. Ela está na uti agora mesmo. Uma vez que ela já está estável por tempo suficiente, eles irão movê-la para um quarto normal. Por algum milagre, ela não tem nenhum osso quebrado." Brittany bateu palmas. "Ela está uhh... Muito, muito machucada," A voz da Sra. Fabray tremeu violentamente. "Todo o corpo dela. Houve algum sangramento interno, mas eles acreditam que pararam. Ela tem uma concussão. Quero dizer, há muitas coisas pequenininhas. Mas nada está quebrado. Ela vai ficar bem."

Rachel sentiu como se um grande peso tivesse sido retirado dos ombros dela. Ela suspirou, e sua cabeça – com um sorriso atravessando seu rosto – caiu para o seu peito. Santana chegou perto e pegou o pulso dela, dando um aperto cuidadoso. Brittany gritou de alegria e alívio e chegou perto, puxando Sra. Fabray pra um abraço.

"Judy, isso é ótimo!" Brittany exclamou. "Quando podemos ver a Q?"

A atenção de Rachel voltou para a cena na frente dela. Ela definitivamente queria saber isso também.

"Apenas uma pessoa pode vê-la de cada vez enquanto ela está na uti. Eu já estive lá pra vê-la. Mas ela ainda está dormindo." Na verdade, é provavelmente melhor que ela não tenha me visto, Judy pensou consigo mesma.

"Rachel, você deve ir," Brittany disse. "No caso dela acordar logo."

"Você está certa?" Rachel questionou as outras garotas. "Ela iria querer ver uma das melhores amigas dela, eu acho."

"Exatamente," Santana disse. "Então vá em frente. Ela amará se for você."

Imediatamente depois dessas palavras de Santana, Rachel virou pra olhar pra Sra. Fabray. Ela quase perdeu o breve encolhimento que o rosto da mulher mais velha fez com as palavras de Santana.

Quase.

Rachel pegou as direções do quarto de Quinn de Judy e se encaminhou pra lá tão rapidamente quanto ela pôde. Ela não podia esquecer o sexto sentido e o sentimento que tinha algo faltando. Mas quando ela fez seu caminho até a porta por detrás de onde estava deitada uma machucada e adormecida Quinn Fabray, Rachel conseguiu pelo menos suprimir os pensamentos dela o suficiente para focar no que ela tinha que fazer – estar lá por Quinn.

Ficará tudo bem, Rachel pensou enquanto empurrava para abrir a porta.