A mão de Quinn estava firmemente agarrada no corrimão das escadas. Seu pai estava avançando em direção à ela, seu punho levantando ameaçadoramente.
A porta no fim do corredor voou abrindo. Russell parou o seu avanço na filha e virou o rosto para o recém-chegado.
Quinn viu a pequena figura por baixo do braço esticado do pai dela.
Era Rachel.
"Você!" Russell gritou, avançando agora para a garota grávida ao invés da própria filha – que estava deitada de bruços no chão, medo tomando o corpo inteiro.
Rachel estava parada na porta, uma luz pálida brilhava do lado de fora resultando em um halo rodeando o corpo dela inteiro.
Meu anjo, Quinn pensou.
Rachel levantou o dedo, começando a balança-lo no rosto de Russell.
Mas isso não o parou dele bater no rosto dela com as costas da mão – mandando-a girando em direção ao chão.
Ele pisou sobre o corpo imóvel dela e bateu a porta, bloqueando a luz.
"Não!" Quinn gritou.
Mas era tarde demais.
"Não! Rachel!" Quinn gritou. Sua voz estava grossa. Sua garganta parecia como se estivesse em chamas. Ela tentou se sentar – mas ela se achou em uma cama estranha pela segunda vez naquele dia e com uma queimadura fervorosa doendo através do peito dela por causa das costelas dela. Acessos conectavam o corpo dela para as máquinas perto da cabeça dela, e ela se achou inapta a se mover pra mais longe. O fato dela não estar na sua própria casa deu quase nenhum alívio. O que ela tinha visto – o que a mente fodida dela tinha mostrado pra ela – tinha parecido muito real, muito crua.
Seu coração tinha literalmente gritado de dentro do peito dela quando ela viu Rachel cair no chão. Meses atrás – quando ela tinha mandado todo mundo parar de torturar Rachel, quando ela tinha segurando a pequena garota em seus braços no estádio de futebol, quando ela tinha a ajudado a escolher o lindo vestido amarelo – Quinn tinha apontado a si mesma como protetora de Rachel. E em seu sonho – em sua mente – ela tinha falhado horrivelmente.
As lágrimas estavam agora fluindo livremente pelo rosto dela.
Quinn forçou seus olhos a abrirem, forçando a ver o ambiente que lhe rodeava. Ela já tinha discernido que ela estava em um hospital. Novamente. Estava escuro. A única janela no quarto dela mostrava que já era claramente noite. Ela deu uma olhada ao redor, procurando por algum relógio em algum lugar da parede.
23:24
Quinn fungou. Ela não estava certa de quando ela foi trazida pro hospital, mas estava claro que as horas de visitas já tinham acabado há muito tempo.
Ela estava sozinha no quarto. Nada além de uma camisola de hospital e os lençóis finos cobriam seu corpo machucado. O bipe dos monitores próximos à cabeça dela estava começando já a dar nos nervos dela.
Mesmo assim, é melhor do que o silêncio absoluto, Quinn pensou.
Infelizmente... Ainda era estranhamente quieto. E os pensamentos de Quinn começaram imediatamente a vagar. Sua mente estava pregando peças nela. As sombras se tornaram figuras pairantes na escuridão. Quinn estava assustada. E ela se sentia boba, jovem, e inocente para admitir isso pra si mesma. Você tem 16 anos de idade, Fabray. Acalme-se. Mas ainda assim, ela fechou seus punhos no tecido repousando sobre ela. Ela puxou as cobertas pra cima, pra ficar embaixo do queixo, sem conseguir realmente forçar seus olhos a se fechar. Ela não estava cansada – muita adrenalina correndo pelas veias dela.
Quinn decidiu que era realmente terrível que ela tinha acordado sozinha.
Outro minuto bateu no largo relógio digital sobre a porta. Quinn suspirou. Vai ser uma noite longa. Mas seus pensamentos foram interrompidos quando a maçaneta da porta começou a virar há alguns centímetros da cabeça de Quinn. Seus olhos imediatamente correram para a moldura da porta, tentando pegar uma visão de quem quer que estivesse entrando. Uma enfermeira. Um amigo. Talvez sua irmã mais velha tenha voltado pra casa?
Seu... Seu pai?
A porta abriu devagarzinho e Quinn quase deu um grande suspiro de alívio quando ela percebeu que não era o pai dela. Pequeno demais.
A figura tinha se imprensado pra dentro, virado-se e bem lentamente fechado a porta. Eles estavam tentando não fazer nenhum barulho, Quinn percebeu. Eles estavam tentando não acordá-las.
Os olhos de Quinn já tinham se ajustado à escuridão nesse momento, mas os olhos do visitante dela não. Ela logo reconheceu que era Rachel. Linda, perfeita Rachel. Quinn não podia estar mais feliz.
A garota grávida estava segurando um pequeno copo de plástico, segurando-o com ambas as mãos agora, tentando não derramar uma única gota enquanto ela quietamente andava nas pontas dos pés pro outro lado da cama de Quinn. Esta misericordiosamente esperou até que Rachel colocara o copo fumegante do que quer que fosse na mesinha de cabeceira dela antes de suavemente dizer, "Oi."
"Oh!" Rachel baixinho engasgou antes de se levantar – ela tinha se preparado para voltar a sua vigilância sobre Quinn da (irritantemente desconfortável) cadeira do hospital próxima à cama. "Quinn?" ela questionou em um sussurro, sentando cautelosamente na beira da cama de Quinn. A mão de Rachel se esticou e levemente acariciou a bochecha de Quinn, retirando a umidade residual com o polegar dela. "Por que você está chorando, querida?"
Quinn trouxe ambas as mãos pra apertar a de Rachel.
Ela não precisava mais estar assustada. Ela não precisava mais se preocupar em passar a noite sozinha – temerosa – pensando em todas as formas que seu pai podia chegar a ela... Ou à Rachel. E desse que ela não precisava mais temer o que podia potencialmente acontecer, seus pensamentos mudaram para o que já tinha acontecido. E ela começou a se despedaçar.
Soluços pesados fez com que toda a parte superior do seu corpo tremesse. Ela pressionou a mão de Rachel nos lábios dela, desesperada para achar conforto em sentir a pele da outra garota na sua. Ela fechou suas pálpebras com força – mas imediatamente abriu-as novamente quando imagens horrorosas do dia inteiro começaram a piscar na sua mente. Ela agarrou o pulso de Rachel, puxando a outra garota para mais perto dela.
"Eu estou bem aqui," Rachel murmurou contra o lado do rosto de Quinn. "Eu não vou a lugar algum. Eu prometo." Rachel colocou a mão livre no cabelo de Quinn, levemente o acariciando, tentando gentilmente acalmar a garota que chorava. "Você pode se mover só um pouco pra mim?" Rachel perguntou. Ainda soluçou – ainda que menos – Quinn cedeu, movendo-se um pouco o melhor que podia para abrir espaço para Rachel.
Rachel não perdeu a encolhida que cruzou o rosto de Quinn enquanto esta se movia.
Rachel se moveu para deitar ao lado de Quinn – nunca forçando Quinn a soltar o aperto grande na mão de Rachel. Ela deitou de lado, colocando a cabeça na mão livre, cotovelo descansando na cama. Rachel procedeu a encarar amorosamente o rosto machucado de Quinn. Esta encarou a distância, seus olhos levemente opacos, perdidos em pensamentos.
"Ei," Rachel quietamente sussurrou. Quinn piscou e seus olhos viraram-se para Rachel. Ela engoliu com dificuldade enquanto se virava e olhava Rachel nos olhos. Os cantos dos lábios dela tentaram levantar-se em um sorriso. "Você está com sede?" Rachel perguntou. Quinn concordou com a cabeça.
Rachel lentamente extraiu a mão da de Quinn, gentilmente tocando a outra garota na bochecha, e então rolou pra longe – alcançando o copo de água que ela tinha colocado pra si mesma mais cedo (antes de se distrair e sair à procura de alguma forma de cafeína). Virando-se de volta pra Quinn, copo na mão, ela ajudou a garota a se inclinar pra frente só o suficiente para tomar alguns goles do líquido calmante e gelado.
Rachel colocou o copo de volta na mesinha de cabeceira antes de se virar de volta pra Quinn. Um olhar de desconforto estava claramente desenhado nas feições de Quinn.
"Doendo?" Rachel perguntou.
Quinn concordou. "Minhas costelas parecem estar em chamas."
Rachel resistiu à vontade de fumegar de raiva – resistiu a vontade de achar e desmembrar Russell Fabray. Ao invés disso ela trouxe a mão de volta ao rosto de Quinn, novamente procedendo a acariciar a pele macia da garota e remover qualquer traço de lágrimas do rosto dela. A mão de Quinn novamente achou o pulso de Rachel, deixando a mão de Rachel livre para continuar as carícias, mas segurando firmemente na garota para que não a deixasse se mover pra longe.
"Sim, bem, você tem algumas costelas quebradas, baby. Elas estão enfaixadas agora, mas ainda haverá algum desconforto. Vamos só tentar manter você tão parada e confortável quanto possível, ok?"
Quinn tinha passado por muito. Ela tinha sofrido muito em apenas algumas horas e ela sabia disso. O pensamento de sorrir – de estar feliz e abertamente expressando isso de alguma forma – parecia completamente estranho e deslocado e errado. Mas ela não pode deixar de fazer isso quando Rachel a chamava de 'baby', enquanto Rachel a segurava gentilmente em seus braços, enquanto Rachel dava estabilidade, amor, calor e segurança.
"Eu gosto disso," ela sussurrou suavemente.
"Você gosta do que?" Rachel respondeu, tão suave quanto. Ela se inclinou ligeiramente pra frente e beijou a testa de Quinn.
"Você. Você me chamando de 'baby.' Você beijando minha testa. Eu não acho que eu deveria estar feliz desse jeito nesse momento. Eu não sinto como se eu devesse ser capaz de experimentar essa emoção de forma alguma – agora mesmo ou amanhã ou a qualquer momento, não depois do que aconteceu hoje. Mas só de ter você ao meu lado faz a vida ficar milhões de vezes melhor. Isso... isso é horrível?"
Rachel pareceu pensar por um momento. "Eu acho... que você passou por mais em um dia do que qualquer um deve ter que passar numa vida inteira. O que aconteceu à você é absolutamente injusto e não legal. E eu estou tão, tão feliz que eu consigo estar aqui para você agora mesmo, Quinn. Eu estou tão feliz de estar próxima à você, tocando você, segurando você, sabendo que você está bem, que você vai ficar bem. E que eu vou me certificar de que isso aconteça. Se eu estar aqui para proteger você te faz feliz e sorridente? Num dia como esse? Baby, isso é uma coisa linda."
Quinn soltou a respiração que ela nem percebera que estava segurando. Veio como uma mistura entre uma tossida, uma risada e um soluço. Ela ainda estava sorrindo.
Rachel pensou que ela parecia mais linda do que nunca, deitada ali ao lado dela. Ela se inclinou pra frente, pressionando os lábios dela nos de Quinn. Uma das mãos de Quinn deslizou pelo braço de Rachel para o pescoço dela, suavemente segurando Rachel no lugar. Os lábios delas se moviam gentilmente juntos e então se separaram, um pequeno espaço entre elas – antes delas se reconectarem. Foi suave e lento e cheio de paixão. Foi lindo e delicioso e delicado. Quando elas finalmente se separaram – testas descansando uma na outra – os lábios delas ainda estavam se tocando, a respiração delas se misturando. Olhos flutuando para se fechar.
"Você é tão linda e tão perfeita, que dói." As palavras de Rachel suavemente acariciaram os lábios de Quinn. Esta levantou um pouco a cabeça, levando Rachel para outro beijo breve. "E, ai meu Deus, seus lábios são provavelmente as coisas mais macias que eu já senti na minha vida. Total."
Quinn deu risadinhas, deitando a cabeça para olhar pra Rachel. "Sério?" ela perguntou.
Rachel concordou. "Sério."
"Bom," Quinn disse, recolocando as mãos no antebraço de Rachel e levemente acariciando a pele embaixo dos dedos. "Por falar nisso," Quinn perguntou, suas sobrancelhas cerrando ligeiramente. "Eu estou obviamente contente que você está aqui, mas... Como exatamente você está aqui? Eu sei que o hospital tem horas de visita específicas. E não importa o que você diga, eu sei que eles não estenderam as horas de visitas pra depois da meia noite porque você 'pediu educadamente'.
A boca de Rachel caiu aberta de forma brincalhona, um arfar chocado escapando dos lábios dela. "Quinn!" ela quietamente exclamou. "Você insinuar que eu pressionaria a equipe para me permitir privilégios especiais é absolutamente absurdo," ela parou, levantando ligeiramente o queixo dela e então disse, "e ainda assim, chocantemente acurado."
Quinn deu risadinhas novamente. Rachel sorriu com a felicidade que ela podia sentir radiando da garota ao lado dela. Ela deixou uma risada baixa sair – sua própria felicidade borbulhando antes que ela pudesse contê-la.
"Então?" Quinn perguntou.
"Então o que?"
"Então..." Quinn disse. "Como exatamente você fez isso?"
"Ahh," Rachel respirou profundamente. "Bem, eu estava na verdade temerosa de que minhas próprias táticas não iriam funcionar. Eu parecia conseguir um passo pra frente só pra ser empurrada de volta dois... E então a Treinadora Sylvester veio."
"Treinadora Sylvester?" Quinn perguntou.
Rachel concordou. "Treinadora Sylvester."
Era cinco e meia da tarde. As horas de visita estariam oficialmente terminadas em uma hora. Rachel tinha que totalmente achar uma solução para esse obstáculo antes desse momento. Ela se recusava a aceitar que Quinn podia potencialmente acordar no meio da noite – sozinha, confusa, assustada. Rachel tinha que conseguir permissão pra ficar.
Ou então ela ia aceitar a oferta de Santana em ajudar a fazer com que Rachel entrasse despercebida mais tarde.
Os outros membros do clube do coral todos estavam sentados pelo cômodo nas cadeiras desconfortáveis da área de espera do hospital. Sr. Schuester andava pra cima e pra baixo. Mike e Matt estavam conversando em vozes sussurradas com Tina e Artie. Kurt e Mercedes estavam ocupados mandado mensagens como loucos. Santana e Brittany estavam sentadas em um dos dois sofás disponíveis – a cabeça de Brittany estava deitada no colo de Santana enquanto esta acariciava levemente o cabelo da loira.
Santana tinha assistido a troca entre Rachel e a enfermeira chefe – a claramente dura enfermeira chefe. Há dez minutos, Santana tinha sacado o celular dela e mandado uma única mensagem. Ela estava certa de que o recebedor da mensagem iria aparecer a qualquer momento...
Dentro de momentos, Santana ouviu as portas de vidro deslizarem para se abrirem. A cabeça dela virou. Como ela tinha esperado, Sue valsou pra dentro do hospital como se ela possuísse o lugar.
"... E minha relação pessoal com ACLU garante que você seriamente reconsidere a decisão que você tão obviamente tomou apressadamente sem sequer considerar as ramificações –"
"Berry," Sue andou pra perto, colocando uma mão no ombro de Rachel. Os olhos desta se arregalaram, mas ela imediatamente parou de falar. "Assim é melhor," Sue disse antes de virar pra enfermeira atrás do balcão. "Agora," ela começou. "Você irá permitir que essa jovenzinha permaneça com a Srta. Quinn Fabray durante a noite. Sem mais perguntas a serem feitas. Se isso for um problema, você pode, pessoalmente, contatar o administrador do hospital – diga a ele que Sue Sylvester diz... Olá."
A enfermeira piscou uma vez antes de suspirar e acenar com a mão para o par.
Enquanto Sue e Rachel se afastavam da mesa, Rachel abriu a boca pra falar, mas Sue a cortou. "Não precisa me agradecer. Eu estou fazendo isso por Q." Sue virou novamente para ir embora. Passando pelos garotos do coral, ela se dirigiu a eles – "respiradores bucais" – e Santana e Brittany foram reconhecidas com ligeiros acenos de cabeça na direção delas – "S, B" – e Sr. Schuester, um ligeiro virar de desgosto pelos lábios dela – "William." E então ela foi embora.
"Me desculpe por não estar aqui quando você acordou," Rachel murmurou no cabelo de Quinn.
Quinn estava achando excepcionalmente difícil manter os olhos abertos. Eles estavam flutuando para se fechar. A escuridão a envolvia. Mas Rachel estava ao lado dela. Ela estava segura – Rachel estava segura.
"Está tudo bem," Quinn conseguiu dizer quando o sono começou a dominá-la. "Você está aqui agora."
Rachel suavemente começou a cantar. Enquanto Quinn dormia, ela sonhou com Rachel e sua linda voz.
"Eu sei que você está cansada,
Deixe-me cantar para você dormir..."
