Rachel deu uma olhadela ao redor confusa. Sua mente estava correndo a cem quilômetros por hora... E ainda assim, estava parada ao mesmo tempo. Havia uma névoa envolvendo o corpo dela – ela não podia ver sequer dois centímetros na frente dela. Tão logo Rachel pensou, 'Eu imagino onde estou,' a névoa mudou e rodopiou e se partiu ao redor dela, empurrando as bordas dela para revelar...

O estádio de futebol?

Rachel levantou as mãos na frente dela. Ela examinou as costas dos dedos dela e então os virou para examinar as palmas dela. Ela tocou o rosto e passou as mãos pelo corpo examinando sua barriguinha de grávida. Ela olhou pra baixo para o que estava vestindo – um simples par de shorts e uma camiseta.

Ela olhou pra trás pro estádio ao redor dela. Havia árvores a distância e elas estavam desprovidas de folhas. Ela podia ver os galhos se movendo devido ao vento que não parava. Tinha que estar congelado aqui fora – e ainda assim, Rachel não estava.

Ela colocou as mãos dela (palmas pra baixo) nas coxas dela. Ela simplesmente sentou as encarando por um momento. O tempo estava passando, ela tinha certeza, mas ela não podia realmente dizer. Seu cabelo caiu sobre o ombro, e ela o empurrou pra trás da orelha.

Movimento chamou sua atenção. Ela olhou pra cima e ela viu uma figura de branco correndo em direção a ela. Rachel ficou parada. Enquanto a figura se aproximava, Rachel sentia seu coração voar. Era Quinn – a garota estava vestindo uma camiseta de gola V impressionantemente branca brilhante com um par de jeans azul escuro apertados. Rachel lambeu os lábios.

Quinn parou bem na frente da Rachel. As mãos dela estavam nos quadris e um sorriso nos lábios dela e ela estava encarando-a com um olhar de amor e adoração.

Rachel queria dizer oi, mas ela se encontrou impossibilitada de falar.

"As mesas viraram dessa vez, não é mesmo?" Quinn perguntou em forma de enigma.

Rachel achou as palavras dela. "As mesas tinham virado?"

Quinn deu risadinhas e passou sobre o pequeno corrimão que estava separando as garotas. Ela colocou as mãos no corrimão atrás dela e inclinou a bunda nela. "Você provavelmente não lembra da última vez que você esteve aqui. Bem," Quinn ponderou. "Tecnicamente não era você, na verdade. Só uma projeção de você no meu subconsciente. Ou algo assim," ela acenou com a mão desfazendo o próprio pensamento.

"Quinn, você está –"

"Louca?" Quinn interveio, sacudindo a cabeça alegre. "Eu pensei a mesma coisa sobre a Rachel Onírica quando eu estava aqui."

"Quando você estava aqui?" Rachel perguntou.

"Depois do meu acidente de carro. E você apareceu aqui." Ela sorriu enquanto relembrava e gesticulava ao redor delas. "Você foi muito doce – mas também muito misteriosa, evasiva, esclarecedora." Quinn enfatizou a última palavra e Rachel foi deixada com um olhar confuso no rosto.

"Eu acho que a próxima pergunta racional é, onde é aqui?"

O corpo de Quinn se chacoalhou com a risada dela. Rachel pensou que era adorável. Até que ela percebeu que Quinn estava rindo dela – então Rachel só ficou com um olhar duro no rosto, bronqueando a namorada dela. "Isso era o que eu também queria saber." Quinn parou de rir e ao invés disso só sorriu pra Rachel. "Novamente, você foi bem misteriosa. A resposta simples é – eu não tenho a menor ideia."

"Então nós não estamos no estádio de futebol da escola?" Rachel perguntou.

Quinn colocou o dedo dela nos lábios, levantando as sobrancelhas em um gesto contemplativo de brincadeira. "Hmmm," ela disse. "Você poderia dizer isso. Você poderia dizer também que nos estamos no chão do palco do auditório."

"Mas Quinn," Rachel começou. "Isso seria –"

E então elas estavam no chão do palco do auditório.

"Idiota?" Quinn perguntou. "Eu sei, né?"

Rachel suspirou, um franzir pensativo começando a se formar nos lábios dela. Isso era completamente confuso. Isso era uma experiência extracorpórea? Ou ela estava simplesmente morta, com sua mente pregando pegadinhas cruéis e não usuais nela?

Ao invés de vocalizar as preocupações dela sobre sua iminente morte (a não ser que já tivesse ocorrido – se fosse o caso, isso realmente importaria?", Rachel disse, "Então o que eu te disse quando você esteve aqui antes?"

Quinn sorriu e foi um gesto tão lindo e inocente que o coração de Rachel quase inchou até explodir. Ela se inclinou pra frente para acariciar o rosto de Quinn – mas esta imediatamente começou a desaparecer. Instantaneamente, a mão dela voltou ao colo dela.

"Bem," Quinn disse. "Primeiro de tudo, você me disse que era uma chatice total que nós não pudéssemos nos tocar aqui,"

"Eu não disse, 'chatice,'" Rachel se defendeu com um bufo e um cruzar de braços.

"Oh, sim, sim você disse. E então você disse, 'Acredite em mim, eu realmente queria tocar você, também. Mas não é assim que as coisas funcionam aqui.' E isso levou a discussão sobre o que exatamente 'aqui' é. E agora, aqui estamos nós."

Rachel colocou o cotovelo no joelho e o queixo na mão dela. "Entendo," ela disse. Apesar do que ela realmente não entendia. "O que mais eu disse?"

"Você disse que eu ficaria bem, que eu iria acordar em breve,' Quinn respondeu. Rachel sentiu como se ela devesse estar chorando, mas ela não estava. "Você basicamente me disse que a Rachel fora dessa realidade – a Rachel no mundo real – era alguém que eu podia tocar. E abraçar. E beijar. E estar junto. E você me disse para não perder mais tempo. E então você correu para fora do palco."

Rachel sorriu. "Eu sempre tendo a dizer as coisas certas." Ela parou momentaneamente, contemplando as palavras de Quinn. "Você disse que eu disse a você quando você iria acordar."

O sorriso de Quinn desvaneceu. Ela concordou.

"Você irá me dizer quando eu irei acordar?" Rachel perguntou.

Quinn estava silenciosa em resposta, abaixando a cabeça dela e evitando o olhar de Rachel.

"Quinn," Rachel perguntou – sua voz era autoritária mas ainda amorosa. "Você pode me dizer. Quanto tempo?"

Quinn olhou pra cima com uma tentativa corajosa e valente de um sorriso no rosto. "Quanto tempo leve, quanto tempo você esteja aqui – eu prometo que não te deixarei sozinha."


A mão de Shelby tremeu quando ela abaixou o celular do rosto dela. Ela tinha ficado surpresa quando o número piscou na tela dela – um DDD de Lima seguido por um número que ela não reconhecia. E então a voz de Will Schuester – o homem que ela tinha beijado no sofá dele antes de descobrir que ele era casado, o diretor do clube do coral da filha dela – soou em seus ouvidos e ela quase entrou em pânico quando ela ouviu as palavras 'Rachel' 'ferimento à mala' e 'ainda em cirurgia' ressoaram pelos tímpanos dela.

Ela estava confusa, assustada e incerta. Ela tremulamente ficou de pé e começou a se mover sem direção no apartamento dela. Ela pegou o pote de café e olhou dentro dele. Vazio. Sentando-se de volta, ela foi em direção à pia dela e olhou pros pratos sujos. Eles podiam esperar. Decidindo-se, ela agarrou o casaco do cabide perto da porta, agarrou suas chaves e foi em direção ao carro dela.


"Eu posso conseguir um pouco de gelo pro meu rosto?" Russell perguntou ao oficial que tinha acabado de passar pela cela de detenção dele.

"Vai se foder," o oficial respondeu.

Russell bufou e se inclinou de volta na parede antes de virar a cabeça pro lado e cuspiu um monte de sangue.


Depois que as três Cheerios tinham partido do ônibus fretado, Sue fez o motorista ir até a escola onde o resto das garotas foram deixadas.

Elas todas tinham encarado solenemente no concreto sujo de sangue e a fita da polícia.

Sue então fez uma prisão por cidadã da Judy Fabray e a escoltou pessoalmente até o fórum.


A sala de espera do Hospital Geral de Lima estava depressiva e sombria. Toda a equipe do Novas Direções estava ali – junto com os avôs de Rachel (os pais de Brendon) e o Sr. Schuester. Enquanto todos que estavam sentados na sala de espera estavam nervosos, Quinn Fabray estava completamente alheia a tudo.

Literalmente, ela estava sentada sozinha no canto. Brittany e Santana trocavam turnos tentando confortá-la – para reassegurá-la e prometer a ela que tudo ficaria bem. Mesmo que, Quinn pensou com tristeza, elas não pudessem prometer isso. Nem por um segundo. Mas as garotas precisam de alimentos e tinham saído para a cafeteria do hospital para achar algo pra comer, prometendo trazer algo para Quinn, perguntando a ela o que ela desejava comer. 'Não se incomode,' ela tinha respondido. 'Eu não poderia comer agora, nem se eu quisesse.'

Quinn estava apaixonada por Rachel Berry – ela sabia disso, todos na escola sabiam disso, agora (obviamente) os pais dela sabiam disso. Quinn não podia negar o fato com uma única fibra do ser dela, mesmo que sua vida dependesse disso. Tinha se tornado uma parte inerente de quem ela era, e não havia como mudar isso. O pai dela – ela ainda estava o chamando de 'pai' porque ela não tinha criado outro termo mais apropriado ainda – tinha atirado em Rachel e Brendon. Ele tinha atirado neles a sangue frio. Quinn não precisava ouvir as razões ou motivos por trás das ações dele.

Ele estava morto pra ela agora.

E, sim – Quinn acreditava com todo o seu coração que isso era culpa dela. Mas ela também sabia que a culpa era pra ser dividida com o homem insano, sob cujo teto ela tinha vivido por dezesseis anos da vida dela (sim, isso era apropriado). Nenhuma pessoa sã, nenhum homem de Deus, nenhum pai faria o que Russell Fabray tinha feito. E enquanto Quinn sabia que era por causa do amor dela por Rachel que a garota estava atualmente em uma mesa de operação lutando pela vida, ela também sabia que ela não era responsável pelas ações de Russell.

Então ela sentou. E ela esperou.

E ela orou. E na primeira vez que Marcus tinha ido até a sala de espera (nesse momento, já fazia algumas horas), Quinn tinha imediatamente pulado da sua cadeira e corrido pros braços dele. Ele tinha a abraçado, e Quinn tinha sentido um alívio tremendo. Mas esse alívio foi extinto tão rapidamente quanto tinha aparecido com as palavras dele. 'A condição de Brendon é menos séria do que a de Rachel. A bala evitou qualquer artéria mais importante. Ele ainda está em cirurgia, mas o resultado é promissor. Eu estou no time trabalhando em Rachel agora mesmo... Ela,' a voz dele tinha ficado embargada e Quinn tinha apertado o braço dele embaixo da mão dela. 'Ela perdeu muito sangue. A bala a atingiu em uma área cheia de vasos sanguíneos e conexões musculares complexas. Ela só está na sala de cirurgia há uma hora mais ou menos, mas vai ser uma noite longa.' Ele tinha suspirado profundamente e acariciado a bochecha de Quinn. 'E muito estresse desnecessário foi posto sobre o bebê. Apenas continue forte, eu prometo que você será a primeira a saber algo enquanto a noite progrida.'

Ele tinha ido embora e Quinn tinha encostado na parede mais próxima e imediatamente caiu aos prantos. Brittany tinha rapidamente agarrado Quinn em um abraço quente, murmurando palavras de conforto no ouvido dela, mas sem sucesso.

Até que Rachel estivesse a salvo fora da sala de operação e estável – até lá, Quinn estaria pensando, orando e esperando contra todas as possibilidades e segurando suas lágrimas. Porque Rachel tinha que sair dessa.

Ela só precisava sair dessa.


"Descreva seu dia perfeito," Rachel perguntou. As garotas estavam deitadas lado a lado de costas, ainda no chão do auditório.

"Isso é fácil demais," Quinn respondeu, virando a cabeça pra direita para olhar pra Rachel.

Rachel virou para olhar para Quinn também. "Então você não deve ter nenhum problema em responder." Ela piscou.

"Eu teria que dizer," Quinn parou enquanto contemplava sua resposta. "25 de abril." Rachel olhou pra ela confusa, preparada para abrir a boca e questionar a resposta de Quinn, mas então Quinn continuou. "Porque não é tão quente, nem tão frio – tudo que você precisa é de um casaco leve."

Quinn sorriu pra Rachel, mas a outra garota estava suspirando e virando-se de volta para encarar o teto. "Você não está me enganando, Quinn. Eu lembro de ver esse filme com você."

Quinn riu levemente para si mesma antes de virar os olhos pra cima também. "Ok, eu serei séria."


Algumas horas depois, Marcus tinha dado à Quinn a primeira atualização sobre a condição de Rachel – antes de imediatamente voltar logo pra cirurgia – uma mulher de cabelo escuro entrou pra sala de espera. Ela olhou ao redor, parecendo um pouco perdida, antes de visualizar Sr. Schuester e fez uma linha reta até ele. Quinn cerrou os olhos. Aquele cabelo, aquela estrutura óssea – era tudo muito estranhamente familiar.

Quando Sr. Schuester viu a mulher se aproximando dele, ele pulou e disse, "Shelby!" e Quinn soube. Ela soube quem era essa mulher e ela estava bem longe de estar satisfeita.

Entretanto, Quinn não fez nada sobre, imediatamente. Não teria sido sábio se aproximar da mãe de Rachel pela primeira vez com uma vingança descabida em mente.

Então ela esperou. E ela esperou.


"Shelby!" Will a cumprimentou. Shelby instantaneamente agarrou a mão dele e insistiu que ele contasse tudo que ele sabia pra ela. Will a informou da situação – que o pai de Rachel tinha sido baleado e estava em cirurgia, mas que as coisas pareciam que iam ficar bem com ele; e que Rachel também ainda estava em cirurgia, mas que as coisas ainda estavam incertas. Ela tinha perdido muito sangue, ele dissera. Era uma operação muito delicada, ele disse. Poderia passar horas, ele disse.

Tremendo, Shelby se sentara numa cadeira vazia, tirando o casaco e o depositando no assento ao lado dela. Ela estava tentando processar tudo, ela realmente estava. Mas tudo que ela podia pensar era, Ela nunca sequer ligara pra mim. Certamente Rachel tinha lido a carta – certamente a filha dela tinha percebido que ela queria passar pelo limite de dezesseis anos que tinha as separado – certamente que Rachel iria naturalmente querer fazer o mesmo.

Certo?

Mas Rachel não tinha ligado. E Shelby tinha esperado. E agora Rachel estava machucada – ela estava machucada e as coisas estavam assustadoras agora, e Shelby não podia fazer nada. Ela se sentia mais inútil do que ela talvez já se sentira em toda a vida dela. Ela tinha controle quando ela dera Rachel aos homens Berry. E no final das contas, fora escolha dela fazer o que fizera. Mas agora? Ela não podia controlar esse sentimento de inutilidade. Não havia nada que ela podia fazer.

Ou talvez... Talvez houvesse algo que ela pudesse fazer.


As garotas estavam agora sentadas num banco de parque. Não havia outras pessoas ao redor, mas atrás delas estava o céu noturno de Nova York. Na frente delas, um brinquedo.

"Eu escolhi um nome," Rachel disse baixo. Sua mão esquerda estava no banco entre ela e sua namorada. A mão de Quinn estava há menos de um centímetro longe da dela. O ar entre os dedos dela tremeu.

"Conte-me." Não era uma imposição, realmente. Só uma declaração. Quinn sabia que Rachel contaria a ela no final.

Rachel sorriu e deu uma olhada pro colo antes de virar a cabeça e olhar pra Quinn com o canto do olho. "Colby," Rachel disse, preparada para julgar a reação de Quinn.

Os olhos de Quinn lentamente se fecharam e ela respirou profundamente antes de morder o lábio dela. Ela exalou lentamente pelo nariz antes de se virar completamente para olhar Rachel. "Lindo," ela disse.

Rachel sorriu – ela queria se inclinar pra frente e beijar Quinn, mas as limitações desse lugar não dariam essa chance a ela. Então ela se conformou em sorrir. "Eu pensei assim, também."

Quinn jogou a cabeça pra trás e riu, e Rachel pensou que nunca tinha visto nada mais perfeito. "E esse sempre foi meu tipo preferido de queijo," Quinn disse com toda a seriedade. Rachel bufou.


Os olhos de Quinn se cerraram mais ainda (se é que isso era possível) enquanto ela via Shelby se esticar e pegar o casaco dela antes de se levantar e se afastar do Sr. Schuester. Imediatamente, ela se levantou pra segui-la.

Quando Shelby virava a esquina, Quinn a alcançou. Ela se esticou e segurou o braço da mulher mais velha para pará-la. Shelby se virou e absorveu a aparição de Quinn, reconhecendo a garota como aquela que tinha beijado sua filha nas Seccionais.

"Posso lhe ajudar?" ela perguntou.

"Onde você está indo?" Quinn respondeu com sua própria pergunta.

"Só ao banheiro," Shelby respondeu depois de uma breve hesitação.

"Você precisa do seu casaco pra fazer isso?" Shelby abriu e fechou a boca, incerta de como responder. "Por que você está fugindo?" Quinn perguntou, agora furiosa que Shelby tinha sido incapaz de refutá-la quando Quinn a pegou no ato. Quando Shelby não respondeu, Quinn deu uma resposta por ela. "Você está com medo."

"Eu realmente quero que isso funcione," Shelby disse, lágrimas preenchendo os olhos. "Mas é tarde demais pra nós. Qualquer coisa que eu compartilhe com Rachel agora será confuso demais pra ela. Eu sou só a mãe biológica dela – eu não sou a mãe dela." Ela se virou e começou a ir embora.

"Você está dizendo adeus antes de sequer dar uma chance a ela de dizer olá," Quinn dirigiu o comentário em direção às costas de Shelby. A mulher parou o passo momentaneamente, a cabeça ligeiramente caída pro lado – mas no fim, ela se afastou.

Quinn andou de volta pra cadeira dela.

E ela sentou. E ela esperou.


"Eu amo seu sorriso," Rachel disse.

"Eu amo sua voz," Quinn disse.

A brisa do oceano assoprou o cabelo de Rachel para o rosto dela – mesmo que ela não pudesse de fato sentir o vento. Os sons calmantes das ondas quebrando na praia ressoaram nos ouvidos dela.

"Eu amo seus olhos."

"Eu amo seu cabelo."

Rachel passou o dedo pela areia na frente de onde ela estava sentada de pernas cruzadas. Quinn estava sentada na frente dela, imitando a posição dela. Elas estavam jogando jogo da velha. Era um empate.

"Eu amo suas mãos," Rachel disse baixo.

"Eu amo sua bunda."

Rachel engasgou. "Quinn!"

"É verdade," Quinn deu risadinhas.

"Certo," Rachel bufou, continuando o jogo delas. "Eu amo suas pernas."

"Eu amo suas pernas," Quinn disse. "Mas sério, para alguém tão pequeno, suas pernas são realmente longas."

Dessa vez, Rachel que deu risadinhas. "Eu amo sua inteligência."

"Eu amo seu coração."

Ambas ficaram em silêncio por alguns momentos. "É seu, você sabe," Rachel disse.

Quinn sorriu. "Eu sei."


Holly Holiday tinha ficado presa na delegacia por muitas horas. Tinha sido pedido dela que desse sua declaração sobre os eventos que tomaram lugar na escola – o que ela ficou feliz em fazer, claro – mas ela agora estava ansiosa para ir até o hospital e checar Rachel. Ela tinha sabido pela polícia que o pai de Rachel também tinha sido baleado. Era uma tragédia – ou, bem, tinha potencial para ser verdadeiramente trágico. Ela esperava que Rachel e o pai estivessem bem.

Ela encostou em um espaço de estacionamento vazio num lugar perto da entrada leste do hospital. Quando ela estava saindo do carro, ela percebeu que havia uma mulher sentada no carro ao lado do dela. Ela estava chorando – mas não estava se movendo. As lágrimas estavam simplesmente fluindo livremente pelas bochechas dela, não sendo impedidas por uma mão ou um lenço.

Só levou uma fração de segundo para que Holly se resolvesse. Ela bateu na janela da mulher. Assustada, a mulher olhou pra ela antes de descer a janela. "Sim?" ela perguntou.

"Oi," Holly respondeu. "Eu não pude deixar de notar que algo parecia errado. Você está bem?"

Ela balançou a cabeça. "Não, não realmente. Mas não há nada que eu possa fazer sobre isso agora."

"Eu acho isso difícil de acreditar. Há sempre algo que você pode fazer," Holly disse.

"Diga isso à minha filha – cuja vida está por um fio em uma mesa de operação."

Holly estava surpresa por ouvir que essa mulher era assumidamente a mãe de Rachel, mas ela não demonstrou. Ela sabia que Rachel tinha dois pais gays – de fato, ela tinha se inscrito pra ser a barriga de aluguel deles. Ela não estava magoada por não ter sido escolhida – de jeito nenhum. Ela sabia que isso era uma grande decisão, não algo que devia ser levado a toa, certamente. Mas havia algo fascinante sobre ver a mulher que eles tinham escolhido sentada aqui fora desse jeito – parecendo tão terrivelmente perdida que Holly podia praticamente sentir irradiando pelo espaço entre elas.

"Vamos fazer assim," Holly disse. "Eu acho que você e eu sabemos que precisamos estar naquele hospital agora – apoiando sua filha, quer ela esteja consciente para saber ou não. Mas você parece que podia usar uma bebida. Que tal eu levar você pra tomar um café aqui perto? E então nós voltaremos tão logo pudermos."

"Eles disseram que pode levar horas," Shelby respondeu suavemente.

"Então nós tomaremos dois cafés. E nós podemos trazer café de volta pra qualquer um que esteja esperando pela sua filha. Isso parece bom?"

Ainda parecendo muito como um cachorrinho perdido, Shelby simplesmente respondeu, "Meu nome é Shelby."

Holly enfiou a mão dela na janela aberta. "Holly Holiday. Prazer em conhecê-la."

Shelby sacudiu a mão oferecida e mordeu o lábio. "Você se importaria muito de dirigir? Eu não estou certa se posso agora."

Sorrindo docemente na janela aberta, Holly concordou. "Eu pensei que você nunca ia pedir."


Uma hora e meia depois, Holly e Shelby entraram na sala de espera com duas dúzias de cafés de vários tipos e sabores. As sobrancelhas de Quinn subiram ferozmente e quando os olhos de Shelby conectaram com os dela, ela apenas deu com a cabeça. Shelby concordou de volta.

E ainda eles sentaram. E ainda eles esperaram.

A noite tinha caído com força antes de Marcus aparecer na sala de espera. Muitas pessoas ao redor da sala se levantaram, mas Marcus imediatamente foi pros pais de Brendon.

"Ele vai ficar bem," ele disse enquanto segurava a mão da sogra firmemente nas dele. "Ele está se recuperando agora. Em uma hora mais ou menos, você pode ir checá-lo." Ele parou e abaixou a cabeça. "Ele não sabe nada sobre Rachel ainda. Então nós não podemos jogar isso sobre ele agora." A mulher concordou solenemente, a mão do marido apertando o ombro dela amorosamente.

Marcus se levantou e se aproximou depois de Quinn. Os outros membros do clube do coral – mais o Sr. Schuester, Shelby (cuja presença Marcus não se deu conta), e Holly – todos escutaram atentamente enquanto ele conversava com a loira. "Ela ainda está em cirurgia. Mas acreditamos que conseguimos reparar noventa por cento do dano. Haverá pelo menos mais uma cirurgia depois dessa, mas ela está estável. Eles estão terminando agora. O bebê está bem, mas o médico de Rachel está fazendo alguns testes extras pra ficar bem seguro." Quinn estava chorando silenciosamente agora, apertando a mão de Marcus na dela. "Não vai ser fácil, e nós não estamos certo que tipo de dano permanente Rachel terá que lidar." Quinn fechou bem os olhos, tentando imaginar Rachel incapaz de dançar pelo palco da Broadway. "Eu deixarei você saber mais quando eu puder."

Ele deixou a mão dela cair e se preparou pra ir embora, mas Quinn rapidamente se jogou nos braços dele, envolvendo os próprios no pescoço dele e apertando com tudo que ela podia. "Você é tão corajoso," ela sussurrou no ouvido dele. "E você tem sido tão forte pra ambos." Nesse momento, Marcus estava a abraçando de volta. "Você é como um pai pra mim, e eu não posso agradecer o suficiente por isso."

Afastando-se, Quinn percebeu lágrimas marejando os olhos de Marcus também. Ele concordou uma vez – o silêncio dele e seu olhar penetrante eram o suficiente para dizer à Quinn que ele estava muito tocado, além das palavras – antes de se virar e ir em direção à sala de operação. Ele enxugou os olhos quando virou no corredor.

Quando Quinn se virou, Santana e Brttany estavam há alguns centímetros atrás dela. Ela deu um passo à frente e abriu os braços, e ambas imediatamente agarram em um abraço feroz de apoio e amor. "Ela vai sair dessa," Quinn sussurrou fervorosamente no cabelo de Brittany. "Ela vai sair dessa."

Mas ainda assim... Eles sentaram. E eles esperaram.


Rachel bocejou. E então ela piscou e se achou e à Quinn no quarto dela. Parada no meio do lugar, Rachel de uma olhada ao redor.

"Por que nós estamos aqui?" ela perguntou.

Quinn sorriu e disse, "Nós estamos ficando sem tempo." Os olhos de Rachel correram pros de Quinn, a pergunta não feita bem ali pairando. "Sim, você acordará em breve. E o eu que está lá fora? Ela estará esperando por você quando você o fizer." O sorriso de Rachel poderia ter iluminado a noite. "Eu não posso mentir e dizer a você que será fácil –" o sorriso de Rachel vacilou "– mas ela não vai sair do seu lado. Você entendeu?"

"Sim," Rachel respondeu.

"Hora de descansar," Quinn disse, apontando pra cama de Rachel. Esta se moveu pra frente, puxando as cobertas e preparando para deslizar pra debaixo. Ela olhou de volta pra onde Quinn estivera parada antes, mas a garota tinha ido embora. Os olhos de Rachel flutuaram instantaneamente pra a porta – Quinn estava parada dentro da moldura da porta aberta, sua mão na maçaneta, pronta pra fechá-la atrás dela. Rachel abriu a boca para falar. "Esse é um adeus pra nós, Rach. Mas isso não é o fim. Nem de perto."

Enquanto a porta fechava, Rachel sentia calma. Ela sorriu. Entrando debaixo dos lençóis, ela sentiu a escuridão envolver a visão dela. Ela fechou os olhos e caiu num descanso pacífico.