Os dedinhos de Rachel dificultosamente – e apertadamente – amarraram suas sapatilhas. Uma vez que elas estavam apropriadamente colocadas em seus pés, ela colocou as pernas diante dela. Flexionar, apontar. Flexionar, apontar. Ela se esticou, colocando seu tórax sobre as coxas, cabeça entre os joelhos, dedos se esticando para tocar seus dedos estendidos.
Ela ficou de pé e encarou o espelho no vestiário das meninas. Sozinha agora, Rachel segurou seus braços diante dela, pontas se tocando. Primeira posição. Ela afastou levemente suas pernas, segunda posição. Então terceira posição. A quarta. Então a quinta. Então a primeira, segunda, terceira, quarta, quinta. Então a primeira –
"Rachel!"
Ela tropeçou, parando suas ações. "Sim, Srta. Sherry?"
"É hora! Você não quer seu número de abertura!" Srta. Sherry gritou pela porta aberta. Ela sempre gritava. E ela sempre conseguia soar entusiasmada – não degradante, superior ou amedrontadora. Só, apaixonada.
"Sim, Srta. Sherry." Dessa vez, as palavras de Rachel eram uma afirmação ao invés de um questionamento. Ela se virou de volta pro espelho. Seu cabelo estava puxado bem apertado pra trás. Sua roupa de dança – um corpete preto e um tutu branco – estavam imaculados. Isso era normal. Isso era Rachel, Rachel em sua Zona de Balé (como seus pais tão afetuosamente se referiam a noite tais como esta).
Rachel sorriu com o pensamento dos seus pais. Ela realmente os amava.
Esse era seu 6º Recital Anual de Dança com o estúdio de Sherry. Rachel tinha estudado com essa mulher desde que ela tinha seis anos. Agora, ela tinha doze. E hoje à noite, Rachel era a única solista.
Ela retirou do seu rosto a emoção, ela limpou a mente de pensamentos excessivos. Ela adaptou suas feições e entrou novamente em primeira posição antes de se arquear e ir em direção aos seus dedos dos pés. Ela manipulou os pés dela, os dedos dela, os tornozelos dela, as pernas dela – seu corpo inteiro trabalhou para mantê-la no mesmo lugar no chão.
"Rachel!"
Graciosamente, Rachel plantou seus pés novamente, agora em quinta posição – sua cabeça estava virada sobre seu ombro esquerdo, e seus braços estavam levantados acima da sua cabeça, delicadamente arqueados. Lentamente, ela relaxou o corpo dela e endireitou a cabeça. "Indo," ela disse baixinho. Ela sorriu brilhantemente pra si mesma no espelho – seu sorriso dourado – e então se virou e saiu correndo do vestiário.
Hoje à noite... Hoje à noite era a noite dela.
Rachel estava pra lá de frustrada. "Outra cirurgia?" ela exclamou.
Marcus concordou com a cabeça solenemente. Tinha se passado três dias desde a primeira cirurgia de Rachel, mas eles estavam determinados a corrigir todo e qualquer dano que tinha sido infligido o mais rápido possível – o sucesso da recuperação de Rachel caía pesadamente sobre isso. "Tem que ser feito, docinho." Brendon estava sentada em uma cadeira ao lado da cama de Rachel. O braço machucado dele estava descansando em uma tipoia, mas ele segurou em uma das mãos de Rachel com força com a outra mão dele. Ele deu nela um aperto confortador. Ela não o retornou.
Ao invés disso, ela fechou os olhos com força e tentou controlar a respiração dela. Ela não queria chorar, ela realmente não queria. Mas ela não podia controlar o fato de que ela estava assustada. E ela sabia que seus pais só fariam o que era melhor pra ela – era o que eles faziam, o que ele sempre tinham feito. Mas havia algo sobre esse momento – algo sobre o fato de que Quinn não estava aqui e parecia que eles estavam só jogando essa novidade sobre ela como se não fosse nada – que não parecia certo em seu íntimo. E Rachel também se ressentia do fato de que ela se sentia no momento tão dependente de Quinn. Porque na realidade, não deveria ter feito diferença se Quinn estava aqui ou não quando o Pai dela tinha dito que ela precisava de outra cirurgia – ela iria descobrir de qualquer forma. Ela faria a cirurgia de qualquer forma.
Mas ainda assim ela se sentia perdida. E isso não ajudava com seu atual problema.
"Quando?" Rachel perguntou. Seus pais deram um respiro coletivo de alívio – ela não iria mais brigar com eles.
"Tão logo possamos," Marcus respondeu. Ele se preparou pras próximas palavras – pois sabia que seriam mal recebidas. "Essa tarde, se possível."
"Essa tarde?" Tão logo as palavras deixaram os lábios de Rachel, ela sabia como ela tinha soado. Como uma criança. Como uma diva mal acostumada. Mas não era isso que ela tinha sido por anos? Velhos hábitos... "Me desculpe," ela suspirou. "Isso parece tão repentino." Respirando profundamente, Rachel disse, "Ok. Vamos fazer isso. Tão logo quanto possível."
Marcus concordou, se inclinando pra beijar a filha dela na testa. Ele e Brendon se encaminharam pra porta, preparados pra comer o almoço na cafeteria do hospital – e Marcus tinha uma sala de operação para agendar e planos pra fazer.
Enquanto eles estavam saindo, Rachel os chamou, "Mas nada acontece antes de Quinn chegar aqui."
"O estúdio da Sherry é o melhor na cidade," Brendon tinha explicado pra Marcus. Eles estavam sentados na mesa da cozinha deles, falando em cima de contas, anúncios e os mais variados panfletos. "E você sabe que nós podemos pagar pra Rachel ir lá. Ela é nossa garotinha, e ela não merece o melhor?"
"Sim, sim, claro!" Marcus tinha respondido ."Mas... Você não acha que ela é um pouco.. jovem?"
A boca de Brendon se abriu em um exagerado choque. "Jovem demais?"
"Sim, querido. Um pouco jovem. Ela mal tem dois."
"Mas ela pode andar."
"Sim, eu entendo que ela pode andar. Isso não a qualifica instantaneamente para lições de dança." Brendon bufou do outro lado da mesa, cruzando os braços desafiadoramente. "Deus, eu espero que ela não herde seu amor pelo drama," Marcus murmurou.
"Eu me ressinto disso," Brendon disse, fazendo beicinho com um lábio inferior.
Marcus não pôde deixar de rir com seu adorável marido. "Ok," ele disse. "Vamos negociar?"
Brendon tentou não parecer muito ávido para concordar. "E o que esse acordo traz?" ele perguntou com os olhos cerrados.
"Lições de dança. Mas não por mais alguns anos." Brendon abriu a boca para argumentar. "E –" Marcus o cortou "- nós deixamos Rachel decidir quando ela está pronta. E se ela quer ou não realmente tentar balé."
"Bem, naturalmente, balé não será a única forma de dança que ela estudará. Sherry tem programas para..." E então Brendon parou de falar, porque os olhos de Marcus estavam inteiramente preenchidos de diversão. "Por que eu sinto como se você estivesse rindo de mim na sua cabeça?"
"Provavelmente porque eu estou."
"Bem," Brendon bufou. Novamente. "Você sequer pode pretender como se ela não fosse perseguir a dança – ela mal pisca quando estamos vendo 'Funny Girl.' E se ela vai ser uma atriz, então ela vai ser uma atriz, estou certo?"
Marcus riu. "Você está certo, querido. Você está certo." Brendon empinou o peito e cruzou os braços novamente – apesar de que dessa vez, era de satisfação. "Quando ela for velha o suficiente," Marcus esclareceu. Brendon visivelmente desinchou.
Quinn estacionou no estacionamento do hospital. Ela não queria ter ido à escola – ela não queria ter deixado Rachel. Entretanto, fora uma necessidade. Ela tinha usado o tempo dela trancada no sistema público educacional sabiamente – recolhendo todo o dever de casa perdido de Rachel e os livros dela e já tinha alistado a ajuda de Santana, Artie e Tina para ensinar Rachel em cada uma das variadas aulas dela. Quinn podia cobrir cálculo. Santana estava programada para a aula de Inglês que ela dividia com Rachel. Artie tinha química. E Tina era uma gênia da biologia.
Carregando sua carga duplicada de materiais escolares pra dentro do hospital, Quinn ficou contente em escapar do vento cortante. Suas bochechas estavam rosadas e seu cabelo estava levemente desarrumado enquanto ela entrava no quarto de Rachel. Colocando a pilha de livros pro lado e depositando sua mochila perto da porta, Quinn se inclinou sobre sua namorada que cochilava e passou os lábios pela testa da garota. As pálpebras de Rachel flutuaram para abrir enquanto Quinn sentava de lado na cama, o corpo inclinado pra fora e os pés balançando sobre o chão.
"Oi, dorminhoca," Quinn cumprimentou.
"Quinn!" Rachel disse em retorno, se esticando para puxar Quinn para um beijo apropriado.
"Eu senti sua falta hoje," Quinn murmurou contra os lábios de Rachel.
"Você não tem ideia," Rachel respondeu. Quinn se inclinou pra trás para olhar melhor pra garota na frente dela, e, Rachel suspirou pesadamente.
"O que há de errado?"
Outro suspiro. "Eu tenho que fazer outra cirurgia. E eles querem fazer tipo, agora. Hoje, basicamente."
Quinn apenas concordou. Rachel ficou perplexa com o desdém dela. "Oh, sim. Seu pai mencionou algo sobre, depois da sua primeira cirurgia, enquanto eu estava esperando pra ver você."
A mandíbula de Rachel caiu momentaneamente, mas então ela a fechou e cruzou os braços sobre o peito, chateada. "E você só agora está decidindo me contar isso?"
As sobrancelhas de Quinn levantaram – ela estava mais do que chocada pela declaração de Rachel e seu aborrecimento óbvio. "Bem... Marcus tinha dito algo sobre se certificar de que sua perna estivesse completamente reparada. Você não quer nada por fazer lá embaixo, certo? É pro melhor." Rachel continuou a encarar. "Rach," Quinn implorou levemente. "Baby, é só algo que tem que ser feito."
Rachel desinchou, suas mãos caindo molemente de volta no colo dela coberto pelo cobertor. "Eu sei," ela suspirou. "Mas cirurgia é assustador."
Concordando novamente, Quinn respondeu, "Eu sei. Mas eu estarei aqui quando você sair, ok?"
Rachel sorriu tristemente. "Eu sei."
"Ela é bem uma pequena diva, não é?" Srta. Sherry sussurrou conspiratoriamente para Brendon. Mesmo que ela estivesse 'sussurrando,' a voz dela ainda era ouvida facilmente. Ela era uma mulher barulhenta e alegrinha.
Brendon riu. "Estou certo de que você diz isso pros pais de todas as garotas."
Sherry riu – uma gargalhada onde ela jogou a cabeça pra trás, e a risada literalmente ecoou até o teto. "Você está certa," ela disse, pegando o cotovelo de Brendon entre os dedos dela. "Eu digo, eu realmente digo isso bem frequentemente. Mas sua Rachel – ela é diferente. Ela é especial. Eu posso sentir isso."
Brendon olhou pra garotinha dela. Ela tinha acabado de fazer seis e ela tinha se aproximado de Brendon e Marcus uma noite antes do jantar. Eles estavam na cozinha preparando a refeição quando Rachel – mãos firmemente plantadas nos quadris – tinha dito, "Eu estou pronta pra começar minha jornada no mundo da dança.' E foi tudo que precisou, realmente. Não houve nenhum argumento quanto a isso. E agora Brendon assistia quando Rachel se movia pelas posições dela – Primeira, segunda, terça, quarta, quinta.
"Ela é natural!" Srta. Sherry disse.
Brendon sequer se importou em retirar os olhos da sua linda garotinha. Ele apenas respondeu, "Sim, ela é, não é? Ela vai ser uma estrela algum dia."
Rachel ainda tinha que dizer seu maior medo. Ela viu nos olhos do seu Papai quando eles estavam sentados um diante do outro na mesa da sala. Ela viu as preocupações não ditas nos olhos de Quinn também – mas a garota era uma profissional em manter a preocupação longe da voz dela. Tinha passado alguns dias desde a segunda – e último (como ela tinha forçado o Pai dela a assegurá-la múltiplas vezes) – cirurgia de Rachel, e Rachel estava marcada para começar a fisioterapia no dia seguinte.
"O fisioterapeuta que vai trabalhar com você é um ótimo cara. O nome dele é Jackson. Você vai amar ele"
"Nós vamos ver isso," Rachel grunhiu baixinho, mexendo algumas ervilhas no prato dela. Debaixo da mesa, ela sentiu os dedos de Quinn deslizarem pela coxa dela – a única não machucada, saudável, totalmente funcional coxa restante na coxa dela – e Rachel olhou pros olhos dela. Dessa vez – ao invés de preocupação, nervosismo ou medo pelo bem estar de Rachel – esta viu amor, conforto e força. 'Ficará tudo bem,' Quinn fez com a boca. 'Talvez ele seja um gatinho.' Rachel riu e ambas as garotas retornaram os olhares para as ervilhas para que Marcus e Brendon não questionassem o comportamento delas.
No dia seguinte, calhou de Quinn estar certa – Jackson era muito, muito gatinho. Definitivamente tirou um pouco do peso emocional. Mas Rachel em breve descobriu do jeito mais difícil que não fez nada para aliviar a tortura física que ela passava.
Só alguns minutos fazendo o primeiro exercício dela, ela estava ofegando pesadamente e piscando furiosamente para livrar os olhos das lágrimas. "Espere," ela arfou.
"Ok, sem preocupação," Jackson disse, colocando um banquinho diretamente debaixo de Rachel para que ela pudesse sentar momentaneamente. Ele se inclinou na barra que estava entre eles. "Mas parte do seu processo de recuperação será trabalhar através da dor. Você terá que se forçar na maior parte dos dias. Há uma linha tênue entre 'não o suficiente' e 'demais' e nós vamos forçá-la constantemente."
"Parece divertido," Rachel disse.
Por oito meses, Rachel tinha tomado lições com um grupo de garotas da idade dela no estúdio da Srta. Sherry. Hoje à noite era a noite do primeiro recital de dança de todos dela. Rachel apertou seu coque e ajeitou o cabelo no topo da cabeça dela. Ela tinha alguns perdidos voando, então ela alcançou o laquê para amansá-los. Enquanto ela terminava de se embelezar, ela pulou excitadamente nos dedinhos dela.
Ela realmente, realmente gostava de dançar. A única coisa que ela gostava mais do que dançar era cantar. Cantar era divertido. E todo mundo sempre parava e escutava-a quando ela cantava. Mas dançar era diferente. Quando Rachel dançava, ela não olhava ao redor e se certificava que todos estivessem olhando-a – porque ela sabia que todos estavam assistindo-a. Porque ela estaria se divertindo tanto, como eles poderiam não assistir?
"Rachel!" Srta. Sherry gritou.
"Sim, Srta. Sherry?"
"Venha, querida! Entre na linha! É a vez do seu grupo depois!"
"Sim, Srta. Sherry," Rachel respondendo, pulando para ficar parada na fila com as outras garota do grupo etário dela.
Quando elas preencheram o palco – cada uma posando identicamente com suas mãos levemente repousando em suas laterais, passos perfeitamente sincronizados – elas foram recebidas com aplausos.
Rachel sabia o que era aplauso, claro. Ela tinha aplaudido depois que assistira 'O Rei Leão' com os pais dela quando o show estava em turnê e eles tiveram que viajar pra ver em Cincinnati. El tinha aplaudido quando o Sindicato do Teatro de Lima tinha feito a produção de 'Grease'. Ela tinha até mesmo polidamente aplaudido depois de assistir a produção do Sindicato no ano seguinte de 'Les Mis' mesmo que ela não tivesse a menor ideia do que estava acontecendo.
Mas esse sentimento – o sentimento de estar no palco e terminar um número musical e se inclinar diante do público e ter pessoas aplaudindo por ela? Não era como nada que Rachel já tinha experimentado antes em sua vida. As outras garotas ao redor dela estavam correndo pra fora do palco para que o próximo grupo de garotas pudesse vir se apresentar, mas Rachel estava cativada – ela piscou com as luzes brilhantes do palco e olhou na direção geral do camarote. Ela se inclinou novamente – dessa vez, como uma dançarina solitária no palco.
"Rachel!" ela ouviu. Era Srta. Sherry, acenando freneticamente para que ela saísse pela direita do palco. "Venha aqui!" ela sibilou.
Rachel graciosamente correu pra fora do palco em direção à Srta. Sherry, mandando beijos para a plateia enquanto saía.
Tinha se passado algumas semanas com a fisioterapia de Rachel. Ela tinha caído num horário dirigido por paixão, convicção, (e café) e uma determinação incansável para ser bem sucedido. Ela tinha começado a frequentar as aulas regularmente novamente – apesar de que ela inicialmente foi em uma cadeira de rodas (o que todos os garotos do clube do coral estavam preocupados em ver, já que Rachel foi uma das piores motoristas de cadeira de rodas quando eles estavam praticando pra 'Proud Mary') e depois, de muletas.
Depois da escola, Quinn iria levar Rachel direto pra fisioterapia – onde Rachel suaria e cerraria os dentes em uma tentativa de não chorar. Onde ela iria se forçar – mais e mais e mais a cada dia. E quando ela caísse – o que era frequente demais, na opinião de Rachel – Jackson estaria lá para ajudá-la a se levantar, e Quinn estaria lá com palavras de encorajamento e smoothies.
Depois das sessões de terapia – o que acontecia seis dias por semana – Rachel e Quinn iriam pra casa. E então a diversão real iria começar. Jackson tinha ensino a Rachel e Quinn aproximadamente vinte exercícios diferente para Rachel fazer em casa – para reconstruir os músculos dela, inicialmente; para fortificar os músculos dela, nesse momento. Esses eram os momentos do dia (uma vez antes do jantar, e uma antes de dormir) onde Rachel não se segurava. Ela choraria e apertaria até a cor sumir das mãos de Quinn e ela imploraria pra Quinn deixá-la parar. 'Eu não posso fazer isso, Rachel,' Quinn tinha replicado. 'Você sabe que eu não faria isso.'
E então, Quinn tinha se tornado a rocha dela. Não, Rachel se corrigiu mentalmente. Ela se tornara minhas asas.
Rachel tinha dez anos de idade na primeira vez que ela caiu durante uma performance.
Era seu 4º Recital de Dança Anual com o estúdio da Srta. Sherry. Rachel tinha ido fazer uma dupla pirueta – uma pirueta, pelo amor – e ela tinha escorregado bem no final. Era um movimento que ela tinha sido apta a fazer desde que ela tinha sete. E quando ela tinha sete, Rachel não tinha só feito piruetas – ela tinha feito-as perfeitamente.
Então nesse único segundo que ela se achara no chão, Rachel quase entrou em pânico. Essa era uma sensação desconhecida. Claro, Rachel tinha caído antes. Mas não – Rachel quase certamente nunca caíra na frente de tão grande audiência. Isso era mortificante. Mas instantaneamente, Rachel pensou, 'O que Barbra faria?' e então ela estava de pé. Ela entrou de novo na formação e instantaneamente acompanhou as outras garotas.
Da plateia, Marcus e Brendon tinham segurado as respirações .Mas quando Rachel fez uma reverência com as outras garotas e correu pra fora do palco depois do número delas estar terminado, eles soltaram as respirações em suspiros de alívio.
Rachel segurou as lágrimas enquanto ela estava parava na coxia, esperando pelo próximo número musical do grupo dela. Srta. Sherry andou até ela e colocou a mão no ombro dela. "Você está bem, querida?" ela perguntou. Alto.
Rachel concordou, fungando.
"Vamos, Rachel. Cabeça erguida!" Sherry comandou, batendo dois dedos debaixo do queixo de Rachel. Esta imediatamente respondeu, levantando o queixo com força, desafiadora. "É assim que eu gosto! Agora," ela abaixou a voz (levemente). "O que aconteceu, aconteceu. Nada a se fazer sobre isso agora. Estou orgulhosa da sua recuperação, e você deve ficar, também!" Rachel concordou. "Todos aprendem humildade em algum momento, minha querida. Só lembre," e agora, Sherry estava legitimamente sussurrando e Rachel estava escutando atentamente. "Você foi a melhor lá no palco, mesmo com a sua queda."
Rachel sorriu brilhantemente enquanto Srta. Sherry se afastava.
E lá se foi a humildade.
"Você tem certeza que está pronta pra isso?" Brendon tinha perguntando uma última vez antes de Rachel passar pela porta.
Jackson tinha dado o aval dois dias antes. Marcus tinha dado o aval à ela nessa manhã. Quinn tinha dado a ela constante apoio emocional e físico nos últimos meses e estava nesse momento segurando apertado a mão de Rachel na dela.
"Tenho certeza, Papai," Rachel disse com amor, um sorriso doce no rosto.
Enquanto ela virava e andava pela calçada pro carro dela, ela tentava ignorar seu leve manquejar. Todos tinham dito a ela que talvez nunca fosse embora por completo – um fato que Rachel se recusara a aceitar, mas o fato de que ela podia viver com isso... Por agora.
Quinn abriu a porta do passageiro pra Rachel, fechando atrás dela uma vez que ela estava sentada segura dentro do carro. Correndo pro lado do motorista, Quinn estava em breve sentada ao lado de Rachel, ligando o carro. Quinn foi colocar o carro em marcha, mas ela achou seus movimento parados pela mão leve de Rachel descansando no topo da dela.
"Eu não estou certa," Rachel disse. E Quinn quase não ouviu – foi sussurrado tão baixo e Rachel soou tão insegura de si naquele momento. Quinn olhou-a nos olhos e ela sabia que Rachel estava assustada. Por dez semanas agora, Rachel tinha estado sob fisioterapia extenuante. Ela tinha feito seus exercícios religiosamente. E ainda assim, ela nunca tinha falado seu maior medo. Ela nunca tinha virado pra Quinn e dito, 'Quinn, e se eu nunca puder dançar novamente?' Ela nunca tinha dito e então Quinn nunca tinha perguntado. Mas ambas as garotas estiveram trabalhando incansavelmente para prevenir tal ocorrência. Uma Rachel Berry incapaz de dançar era uma Rachel Berry cujos sonhos de um Estrelato na Brodway fossem potencialmente só isso – sonhos.
"Mas eu estou certa," Quinn respondeu. Ela virou sua mão pra cima, agarrando a de Rachel, trazendo as juntas da garota aos lábios, beijando a pele dela gentilmente, amorosamente.
O sorriso de Rachel estava doce e triste e ao mesmo tempo um pouco esperançoso enquanto Quinn finalmente colocava o carro em marcha e elas se encaminhavam ao estúdio da Srta. Sherry.
Para os 6º e 7º Recitais Anuais de Dança, Rachel tinha sido uma solista acompanhada. Quando ela tinha doze e treze, respectivamente, ela tinha atuado em alguns pequenos shows longe do seu grupo etário de garotas – e quando a multidão aplaudia ao final de cada um dos números, Rachel sabia que o aplauso deles era pra todas as garotas, sim – mas era pra ela em particular.
Mas esse ano era o 8º Recital de Dança de Rachel sob a direção da Srta. Sherry. E nesse ano, Rachel era novamente uma solista acompanhada. Entretanto, nesse ano, Rachel iria fazer um número no palco – completamente sozinha. Não era necessário dizer, mas suas colegas bailarinas tinham diminuído ao longo dos anos. Realmente, Rachel, uma pequena garota asiática chamada Tina e poucas garotas de Carmel eram as únicas com catorze anos. Enquanto Tina – a garota tímida com uma gagueira que Rachel estava certa de que era falsa – e as outras eram tímidas demais para atuar em um número individual, Rachel não era.
Ela tinha ensaiado a coreografia dela por semanas. Srta. Sherry tinha deixado-a escolher a própria música. Ela tinha deixado Rachel fazer a coreografia (com ajuda). E agora era o momento.
Agora, Rachel estava andando graciosamente para o palco. Ela estava tomando sua posição debaixo da luz brilhante e inclinando seu corpo para o início.
E a música começou a tocar.
Srta. Sherry não via Rachel há meses – não desde que a garota tinha valsado pra dentro do estúdio dela um dia proclamando a gravidez dela e anunciando que ela estaria retornando em aproximadamente nove meses. Sherry tinha ficado chocada com a gravidez, naturalmente. Mas chocada que a garota estaria prontamente de volta as aulas depois de dar a luz? De jeito nenhum.
Então quando Rachel apareceu na porta do escritório dela numa tarde que ela não tinha nenhuma aula programada, Sherry ficou surpresa. Rachel – com uma linda garota loira no ombro – estava obviamente bem grávida. E ela estava também utilizando uma tala na parte superior da coxa.
Sherry tinha ouvido sobre o tiroteio – quem não tinha, afinal de contas? Ela tinha mandado flores enquanto Rachel ainda estava no hospital, mas ela não tinha visto Rachel desde que ela soubera sobre a gravidez. E agora, aqui estava ela – parada na sua porta vestindo calças de agasalho roxas, uma camisola, e um agasalho cinza grande com suas sapatilhas penduradas na ponta dos dedos. Então naturalmente Sherry estava surpresa – a garota parecia como se ela quisesse... Como se ela quisesse dançar.
"Rachel!" Sherry exclamou depois de se permitir três segundos para processar a situação. Ela pulou e correu ao redor da mesa dela para cumprimentar Rachel com um beijo em cada bochecha. Segurando a garota pelos ombros, ela a examinou. "Olhe pra você, querida! Eu estou tão contente que você está em pé."
"Oi, Srta. Sherry. Eu recebi suas flores no hospital. Elas eram adoráveis."
Sherry balançou a cabeça e sorriu para a pupila. "Claro, querida. Claro. Agora por que você não se senta para colocarmos a conversa em dia."
"Na verdade," Rachel respondeu. "Eu estava pensando... Você se importaria se eu só... Se eu tentasse alguns passos? Meu fisioterapeuta e meu Pai me deram o OK recentemente e, bem, tem me deixado absolutamente louca."
Sherry observou Rachel – ela realmente, honestamente olhou pra garota parada na frente dela. Pela primeira vez, ela notou o medo nos olhos dela. Eu temo que, Sherry pensou, ela finalmente aprendeu o verdadeiro sentido de humildade.
"Você é mais do que bem vinda para usar o estúdio. Há algo que você precisa?"
Rachel sacudiu a cabeça. "Não, eu tenho um cd para usar e todo meu equipamento." Sherry concordou com a cabeça e Rachel e a amiga se viraram pra sair.
"Boa sorte!" Srta. Sherry disse enquanto a cabeça desaparecia.
Rachel deu um passo pra trás, olhando por cima do ombro pro escritório novamente. Ela sorriu nervosamente antes de respirar profundamente e dizer, "Obrigada, Srta. Sherry."
Levou mais tempo do que o habitual para Rachel colocar as sapatilhas. Passara alguns meses desde que ela tinha realmente dançado. Mas ela sabia que podia fazer isso dormindo, não importava quanto tempo tinha passado. Ela se alongou – uma tarefa relativamente difícil com seu estômago largo. Quinn sentou do lado, puxando um cd em branco da bolsa de Rachel, examinando-o no colo.
Depois que ela acabara de se alongar, Rachel andou e se inclinou na parede ao lado da cadeira de Quinn, suas pernas na frente dela e suas mãos descansando na barriguinha de grávida. Ela respirou profundamente várias vezes enquanto se preparava mentalmente para o que ela estava prestes a tentar.
"Então o que vai ser?" Quinn perguntou, balançando o cd sem identificação em direção de Rachel. "Lago dos Cisnes? A Fada Roxa da Bela Adormecida? Ou seria o sonho de balé de Laurey com Curly?"
Rachel sorriu e levemente retirou o cd dos dedos de Quinn. Ela andou em direção ao som na parede oposta enquanto dizia, "Não, nada disso. Algo mais 'Rachel Berry' ao natural."
Rachel tinha terminado seu último movimento e graciosamente abaixou o corpo até o chão enquanto as notas finais da música dela tocavam. Ela permaneceu com o rosto pra baixo, suas pernas lindamente dobradas debaixo de si enquanto sons impressionantes da plateia aplaudindo admiradas jorravam sobre seus sentidos.
Ela não sorriu no começo. 'Isso é um sonho?' ela imaginou por um momento. 'Isso é a realidade?' Mas isso era a vida real. Estava acontecendo bem na frente dela.
"Rachel!" Ela ouvira da coxia. "Rachel, faça sua reverência!" Srta. Sherry – sempre aquela a observar tradições (em voz alta).
Rachel levantou a cabeça e através do holofote cegante, ela viu que a casa lotada estava inteiramente de pé.
Por ela.
Então ela sorriu enquanto se levantava. E ela sorriu enquanto agradecia. E ela sorriu quando assoprou pros seus pais (na fileira da frente) beijos enquanto saía do palco.
Quando ela corria de volta pro palco uma última vez – pra um final aceno e agradecimento – ela pegou uma única rosa que Brendon tinha jogado em sua direção. Ela pressionou-a contra o nariz, inalando profundamente seu cheiro.
Rachel nunca tinha realmente sonhado em se tornar uma princesa. Ela tinha sempre sonhado em se tornar uma estrela. E naquela noite – o sonho de Rachel estava solidificado. Ela seria uma estrela – não importava o que acontecesse.
Enquanto a música começava a tocar, Rachel se permitiu mentalmente voltar ao recital de dança quando ela tinha catorze. Ela tomou a mesma posição inicial que ela tinha tomado quase dois anos inteiros atrás. E então ela começou a se mover com a música.
Os passos de ponta de pé doíam. Demais. Mas ela podia fazê-los.
E dentro de segundos, Rachel sabia que sua perna estava bem – ela podia sentir, bem nos ossos dela. E ela sabia que ela não iria ter que parar, ela não iria ter que maneirar – ela iria continuar a fazer seus solo, e seria ainda mais infalível do que na primeira vez quando ela recebeu uma ovação de pé.
Quando Rachel terminou – graciosamente caindo no chão com suas longas mechas (que tinham caído do coque em algum ponto da performance) formando uma cortina ao redor do rosto dela – ela estava sorrindo e chorando ao mesmo tempo. Antes que ela tivesse tido tempo para sequer tentar levantar, Quinn estava correndo em direção à ela e caindo ao chão, envolvendo Rachel nos braços.
"Linda," ela estava sussurrando, várias vezes. "Você é incrível. Você é tão incrível. Nada nunca irá parar você."
Rachel continuou a chorar e rir, segurando em Quinn com tudo que ela possuía dentro de si. Minhas asas, ela pensou, pressionando o rosto no pescoço de Quinn.
Sherry estava parada na porta aberta do estúdio, uma lágrima no olho. Bem, ela pensou, Eu sempre soube que ela era especial.
