Título - Princess and Paladin Challenge
Desafio por: Co-Star & Miyavi Kukumaru
Tema 02 – Reino
Hoje em dia, era um homem austero, fechado e frio. E embora, em parte, sempre o tivesse sido, muito se transmutara desde a juventude. Ele parecia rasgar sua passagem pelo mundo, mas, ao contrário do resto das pessoas, que o faziam como borboletas em uma teia de aranha, sempre de forma tortuosa, perturbadora, ele o fazia quase entorpecido, andando reto, sem parecer nada sentir.
Era um rei, um conde, um nobre, e tinha tudo o que era importante, abundantemente em suas mãos: Tinha terra, um reino, um lugar onde morar e plantar. Seu império particular.
Sua aparência era de linhas retas e duras, e embora já tivesse idade, não parecia ter marcas dela, pois raramente demonstrava alguma emoção.
Por alguns em suas terras, poucos é verdade, era considerado um tirano, mas, em sua maioria, era simplesmente considerado imóvel, inabalável, calculista. De seu lado, a razão sempre imperava, gélida, sem espaço para erros, ou caridades extraordinárias. Era um homem prático, um soldado, um veterano de batalha. E embora, hoje em dia fosse assim, poucos sabiam sua história, sobre como chegara aqui, como um dia, realmente tivera algo pelo que lutar.
E de como, na verdade, em sua essência, se perdera, pois tivera um reino, verdadeiro, e acabara por perde-lo, para sempre.
O Reino Sank era muito mais do que um homem poderia sonhar em ter. Era grande, próspero, rico, e prometia continuar a crescer ainda durante longos e duradouros anos. Era quase uma utopia, bom demais para ser verdade.
Seus habitantes sempre haviam vivido em paz, cultivando suas terras, servindo a seu senhor, em um trabalho que, apesar de duro, tinha bons resultados. Muitos vinham de longe a procura de um pedaço de terra por ali, o lugar onde a labuta não matava e a comida, em outros lugares escassa, realmente existia.
Mas todo o homem tem ganância, todo homem tem instinto de proteção, espírito de guerra dentro de si, e esse homem decidiu aumentar seu reino enquanto o defendia, juntando as duas faces da moeda. Orgulhoso, jovem, cheio de pompa, vestia sua armadura de metal, amarrando-a, com a dureza característica de sua personalidade.
Estava sentado na beirada da cama de lençóis limpos, da colcha costurada a ouro, tudo isso sendo apenas um detalhe esquecido no atual momento. Nenhuma riqueza compensa uma vida.
No quarto de formato redondo, o ocaso brilhava, vermelho, acalentando a pele, como veludo, destacando com cuidado as duas feições do local. Uma indecifrável, fechada, frígida, e a outra, caída na elucubração, o olhar dolorido lendo uma alma conturbada.
-Não entendo por que faz isso – A voz frágil sussurra, delicada, estremecendo. Ele não responde.
A cortina mexia de leve, o vento entrando por esta mostrando o verde, agora amarelado, que ia longe. O quarto ainda não tinha as velas ligadas, mas tudo caía em um truque de luz e sombra, tornando a paisagem exótica.
As cadeiras forradas de um tecido caro, combinavam com o ambiente, em vinho, uma logo atrás da dama, que teimava em permanecer em pé, assistindo o homem que amava vestir-se para uma batalha da qual ela esperava que ele retornasse.
Tinha os olhos cheios de vontade e mágoa. Gostaria de poder mudar sua mente, forçá-lo a ficar, mas o conhecia, e sabia que, uma vez que decidisse por lutar, era impossível faze-lo voltar atrás.
A menina morde os lábios, engolindo o choro, encolhendo-se e ele se levanta, viril, pronto para a batalha, pronto para seu vaticínio, seguindo para a porta no arco, de madeira maciça. A loira se desespera, segurando as lágrimas, sempre mais forte do que aparentava a aparência angelical.
-Você não deve ir, não pode! Isso é inútil! – Tentava, prostrando-se a sua frente, insistindo, mas a dureza de sua face, a frivolidade de seus olhos, o obrigou a empurra-la para o lado, embora o fizesse com cuidado. O soldado permanecia inescrutável a seu apelo.
Para ela, era pressa de morrer, era não se dar conta de sua finitude, era não pensar em maneiras alternativas. Sabia que definharia sem ele ali, que sua falta acabaria por mata-la, e a amargura dentro de si, gritando de seu âmago a avisava que de lá, ele não voltaria.
E embora pensasse assim, sabia não existir outra alternativa, e isso a punha em um desespero em ebulição, lívida.
Para ele, sua terra estava em perigo, e além disso, tinha a chance de expandi-la, tornando-a maior para os descendentes que viessem depois dele. Como poderia negar-se aquela situação? Tudo tão perfeitamente montado a sua frente? Tudo o que precisava fazer era chegar lá e vencer, e então, todo o estado e a glória seriam seus. Simples o suficiente, sempre havia sido assim.
Sua mente estava lúcida como nunca antes, clara. Tinha um objetivo e iria cumpri-lo.
E apesar de amar a mulher a sua frente, a única pessoa pela qual seria capaz sentir-se assim, era disso que ela não passava, uma mulher, e embora inteligente, superior a qualquer outra, a moça não entendia as artes da guerra, do confronto e nem sua necessidade, coisa essa que Heero entendia muito bem.
Não falaria nada, sempre era assim, e sempre seria. A via prostrar-se, triste, aborrecida. Despedia-se com um beijo, abraçando-a suavemente, demonstrando que sempre a teria como a pessoa mais importante, e sairia pela porta, rumo a mais uma conquista.
Volta atrás, puxando-a de leve pela cintura, sentindo-a tremer contra si, mas abraçando-o com todas as forças, os braços cor de leite, delicados e finos, circundando sua cintura com força, o rosto enterrando-se em seu peito.
-Você sabe que eu voltarei... – E ele sorri de leve, abraçando-a de volta, beijando seus cabelos dourados – Eu sempre volto. – Porque, para ela, sempre voltaria.
A nobre levanta-se, o rosto agora banhado de lágrimas, decidida, como nascera, para ela, Heero já endossara em demasiadas campanhas. Era chegada a hora de um fim.
Sabia que, se descoberta, aquilo seria um labéu em sua vida, e também, na de Heero, e por isso, com sua mente mordaz, rápida, planeja tudo o que precisaria ser feito. E, mesmo que não conseguisse colocar um ponto para finalização, poderia entender, ver um lado dele que não conhecia, e que não conseguia ver, por mais que se esforçasse.
E, enquanto descia rapidamente, já trocada, com roupas de um servo moribundo, as paredes do castelo, de pedra cinza e fria, passando rápida, sentia o coração bater contra a coluna, a experiência nova lhe dando medo, fazendo-a suar, suas mãos tremerem.
Era tão teimosa e altiva quanto ele e havia resolvido conferir com os próprios olhos, aquilo que os homens chamavam de guerra, e ao mesmo tempo, tinha sua cabeça a idéia fixa, de protege-lo, pois sentia, de alguma forma, que ele não seria capaz de faze-lo.
Arrumava seu cavalo, penteando-o, colocando sua cela.
Os cavaleiros passavam a seu lado, com desinteresse, alguns conversando, alguns apressados, agrupando-se à frente, aprontando-se, em fila, para seguir caminho para a batalha. A moça segura firme a rédea do cavalo, a armadura fazendo-a faltar-lhe equilíbrio.
Seu elmo encobria quase todo o seu rosto, e tinha de ajeita-lo com constância, para que não bloqueasse sua visão. Ludibriava-se, mas tentava, dizendo que era capaz, que era forte o bastante. E mesmo que tivesse algumas lições de esgrima, sabia ser um pouco suicida, por isso, se manteria longe da linha de fogo, apenas observando, estudando, com olhos de falcão, tomando conta de sua presa.
Alguns homens armados passam a seu lado a pé, saindo de onde se guardavam os cavalos, a palha forrando todo o lugar.
Ela esconde-se o máximo que conseguia, abaixando o rosto, tentando não ser reconhecida, temerosa, as mãos delicadas quase não conseguindo segurar o escudo pesado, enquanto estava em cima da cela do cavalo.
Cavalga durante horas, a coluna começando a sentir cada movimento da estrada irregular, travando, fazendo-a suspirar alto. Agüentaria cada etapa, cada refeição com gosto de estragado, tudo. Eram apenas dois dias inteiros a cavalo até o acampamento.
Aquilo nada era se comparada à personalidade indômita e desabrida de Heero, a qual havia aprendido a se acostumar, e até conviver com o passar dos anos. Toma chuva e sua roupa torna-se mais molhada. Dorme com o cavalo em movimento, e acha que vai desmaiar quando acorda.
Era mais forte do que isso, era mais forte do que isso.
Volta a se sentir pequena, e um arrepio passa em sua espinha, quando vê um homem ser partido em dois, a partir do ombro, a apenas alguns metros a sua frente. A batalha começara, e, escondida em uma elevação rochosa, no meio do campo árido, considerava-se com sorte ao poder ver todo o campo de batalha.
Essa começara a algumas horas, e até agora, a areia despendia-se do chão, parecendo névoa, escondendo os corpos que caiam, e ali ficavam. O sangue banhava o chão, como água, fazendo um vapor avermelhado e estranho, gritos altos eram ouvidos, e barulhos de metal eram desferidos, em um inferno sem fim.
A moça assistia, horrorizada, novamente falhando em entender. O que era aquilo que presenciava? O que justificaria a perda de tantos homens, que nunca mais veriam suas famílias, suas pessoas amadas? Eles simplesmente deixariam de existir na imensidão infinita do mundo, sendo esquecidos, levados pelo tempo.
Sua armadura a fazia sentir calor, o sol bem acima de sua cabeça, causando suor, o ar a fazendo enjoar, o misto de algo salgado e denso.
Nenhuma teofania aconteceria e a moça permaneceria horrorizada, a cena tecida a sua frente como algo em uma pintura dantesca, assustadora, por alguns momentos até a fazendo esquecer-se de olhar pela figura importante.
O corcel negro o mais bonito e mais rápido de todos, ele no meio do campo, em um mar de inimigos, aliados, corpos, lanças e flechas, lançados, perdidos. Era o caos, e ela era Éris, a única rainha da discórdia. Era impossível concordar com aquilo.
Por fim, nota Heero distraído, e seu coração aperta, levando-a a agir por instinto, saindo de onde estava, antes que percebesse, correndo pelo campo de batalha, abaixando-se, desferindo golpes nos desprevenidos, sendo mais rápida do que qualquer soldado masculino.
Não estava longe dele, e o alcança com relativa facilidade, sentindo-se mais viva do que nunca, seus sentidos aguçados, cada poro dentro de si gritando para que saísse, que largasse aquela loucura.
Segura com força a espada, passando a defender as costas de Heero com tudo que tinha, chamando sua atenção, fazendo-o intrigado.
O soldado era peripatético, nunca havia visto outro com os mesmos movimentos.
E ainda por cima, o cavaleiro interpunha-se, protegendo suas costas, lutando com a maior braveza e vontade que Heero já havia visto. Ele, frígido, com a mente limpa como estava, não se deixa impressionar, e, com ele protegendo-o, volta a lutar, o suor quase fazendo sua mão grudar a espada, pelo número de horas que a segurava e força que despedia.
Seu corpo todo clamava, doendo, podia sentir cada um de seus ossos, pesando em seu corpo, quebradiços quando se virava para atacar. E, quando se vira, atacando um inimigo em seu flanco direito, vê o soldado da pena vermelha virar-se em uma posição estranha, esticando-se, e só então percebendo o que ele fazia. Interpunha-se entre ele e uma flecha.
Dessa vez seus olhos arregalam-se, a surpresa muda percorrendo seu corpo como um sentimento líquido, evasivo. A flecha entra por debaixo da armadura, perfurando-o no pescoço. Sem saber por que, o líder sente-se sem reação, uma amargura desesperadora tomando-o, embalando-o sem razão.
Assim como ele viera, se fora, uma brisa de vento instável, não durando mais do que dez minutos a seu lado. A sensação de perda o abate, por aquele que tanto tentara defende-lo.
Grita, apenas para faze-lo de novo, jogando-se na batalha. Seu sangue estava quente, e o sol, vermelho, como estivera quando se despedira, no que parecia, a tantos anos, de sua preciosa princesa esquecida em um castelo sem calor.
Arrostava a situação, como o verdadeiro nobre que era.
A batalha dura o resto do dia, pontuada por encruzilhadas e falsas esperanças, chegando a seu clímax sangrento, apenas para decair. O sol agora parecia fogo, a queimar cada um dos presentes, e seus gritos de dor e de vontade.
As labaredas pareciam chegar ao céu, suas pontas tocando as nuvens, pintando-as de negro, de fuligem, assim como o crepúsculo que insistia em cobri-los, de desesperança, provando que tudo tinha de chegar a um fim, nesse mundo mordaz e escarninho.
Mas, como toda a calmaria é precursora da tempestade, assim era o fogo, que tocava os céus, e a chuva vinha, pesada, colocando fim as labaredas da batalha, apagando o resquício das forças de vontade.
Heero havia vencido.
Estava jogado no chão, as costas grudadas na terra molhada, o céu cinza rugindo acima de si, mostrando a força rústica da natureza, banhando seu rosto, acalmando seu espírito. Respirava fundo, sabendo que muito tempo se passaria, antes que recuperasse apenas um pouco de seu fôlego.
Tinha um ombro deslocado, uma flecha em sua perna, um dedo esfacelado, um corte profundo em seu rosto e outro em sua coxa, assim como uma distensão em seu tornozelo. Seu corpo inteiro reclamava, parecia estar em uma dor obscena, pungente, cruel, e não ousava se mover.
Mas, se não fosse o soldado do elmo vermelho, agora estaria morto. O pensamento vem como um sonho em sua mente exaurida. Por ele tivera força para lutar a metade final da batalha. Era por ele, que agora seria capaz de voltar para casa, para aquela que amava, e que tão nervosamente o esperava.
Suas preocupações estavam certas dessa vez.
Gemendo, grunhindo com a garganta, rangendo os dentes, se põe em pé, apoiando-se na espada para conseguir faze-lo, enficando-a no chão, como apoio para andar. Havia soldados por todos os lados, seus soldados, vitoriosos, que agora se encarregavam de levar os feridos para cuidado, limpando o funesto campo de batalha.
O homem anda alguns passos, apenas para cair de novo.
Não desistia, isso não estava em si, e por isso, volta a se levantar, arrastando-se alguns passos, sua perna parecendo rasgar, metade ficando para trás, quando o fazia. Range os dentes com todas as forças, e volta se arrastar, contendo sua dor.
Quem o visse, o diria impassível, enquanto mancava pela colheita banhada de musgo carmesim.
Tão concentrado estava em chegar ao outro lado, aos curandeiros, médicos, que não percebe quão devagar avançava, só o notando, quando um chumaço vermelho em particular chama sua atenção.
Sua pena era de uma cor tão anormal, tão pouco usada, e agora se lembrava de seus movimentos esquisitos, que tanto chamaram sua atenção. O corpo provava não passar de um rapazinho, franzino, pequeno.
Aproxima-se, determinado a prestar as honras a ele merecidas, afinal, não importava o quão pequeno fosse, aquele homem salvara sua vida, e tudo o que tinha agora, devia a ele.
Abaixa-se, retirando a flecha de seu pescoço em um som de desentupimento, estranho. O sangue coagulara, e estava seco por sua armadura e seu pescoço, os cabelos claros, manchados.
É então que seus olhos, atentos, repousam não mão pequena, que estava jogada sobre o próprio corpo, de maneira desajeitada, eram mão pequenas e claras, delicadas, e, inconscientemente, ao toca-las, sente a conhecida sensação de veludo, sentindo seu interior voltar a gelar, o mundo parecendo girar e escurecer.
Desesperadamente, sem cuidado, arranca o elmo da figura desfalecida a sua frente, apenas para encontrar o rosto de quem menos esperava encontrar.
Seu chão parece ruir, tudo a seu redor desaparece.
Tenta gritar, mas suas voz morrera em sua garganta. O mundo vermelho e negro gritava por si, alto, enlouquecido, e a chuva, que parava, dava lugar a raios ensurdecedores de sua mente. Não sabia se chorava, ou se havia conseguido gritar, só sabia que a abraçava contra si, o corpo frígido, os olhos abertos de maneira anormal, o rosto delicado repousava em seu colo, apertados contra a sua cintura, enquanto estava ajoelhado.
É quanto olha para o céu, para as nuvens escuras, e, por um momento, crê-se cego.
Agora, eternamente, sua alma seria o campo de batalha.
E embora tivesse todo um reino pela frente, glorioso, quase infinito, longínquo, até onde a vista podia alcançar, seu verdadeiro reino, o lugar reconfortante entre os braços delicados da jovem a sua frente, sua companhia e presença, sua mera existência, esse ele perdera em um vermelho campo de batalha.
E não bastando que a terra, o mais importante tesouro, que sempre pudesse ser batalhado, se mudando de um dono para outro, tornando-se de outrem, a vida preciosa, o elixir mágico que a fazia mexer-se, agora se encontrava perdido, bem diante de seus olhos, e nunca mais poderia ser batalhado, e se encontrava perdido pela eternidade, em um dos fios entrelaçados do tempo e da história.
Apenas mais uma perda no meio de todas.
Todo o seu reino, tudo o que construíra, via agora levado de si, como que papel queimado, areia levada pelo vento, não passando de uma ruína, que para todos os outros, seria esquecida.
E agora, ele simplesmente não passava de mais um homem, glorioso, poderoso, que perdera tudo.
Ok, tentei ser um pouco mais Nique, o que acharam? i_i
Uma história mais longa e montada dessa vez, mostrando uma visão agonizante da realidade. Espero que gostem e prometo que na próxima, tentarei algo mais feliz!
Obrigada pelo incentivo, sempre ^^~
É isso aí, esse é o tema dois pessoal (a atrasada que já deveria estar no três, mas beleza...)
Beijinhos e até semana que vem!
PS - Antes que me esqueça, gostaria de dizer que voltei a trabalhar no blog de Heero & Relena. Alguém é da época dele, ainda se lembra de existência distante dele? :P É, pois é, pois é, pois é!
o endereço, para os que quiserem dar uma conferida é: heero-relena-4ever (.) blogspot (.) com
É só tirar os espaços e os parênteses! Have fun...E, se tiverem sugestões, é só deixar na caixinha ali do lado :)
12.01.2012
