Título - Princess and Paladin Challenge

Desafio por: Co-Star & Miyavi Kukumaru

Tema 05 - Chuva

Ele olhava para o lado de fora, onde a chuva titubeava a janela, complacente, calma, o céu escuro sendo seu eterno protetor e aliado, acrescendo a melancolia, as pessoas passando, correndo com os guarda-chuvas, entrando apressadas nos metrôs. Era tudo uma ilusão.

Era como um filme, tudo distante, os sons batidos e ritmados, um que já vira muitas e muitas vezes e não conseguia deixar de ver.

Ele olhava a janela sem nenhum ânimo, as gotas parecendo atravessar o vidro e lavar a sua alma. O barulho ao seu redor, os bêbados fanfarrões não mais que uma mancha em um mundo distante. Ele tinha o olhar vidrado, o cérebro trabalhando.

Agora, ninguém mais sentia sua falta. Não era importante para ninguém.

Um copo de bebida forte que os amigos logo enchem novamente, tentando controla-lo depois do término.

Ela fora a única, a única a realmente enxerga-lo, a única a vê-lo como era, a reparar nele, a se preocupar, a sorrir verdadeiramente, ela não era como os outros, não julgava pela casca rígida que ele mostrava para todo mundo, ela tinha o cuidado de descascar todas as suas máscaras, até alcança-lo. Era fora única, e só agora, tarde demais, ele notava isso.

Acostumara-se a ela, sua presença suave e cálida, a tivera como garantido.

Seus amigos tentaram de todos os jeitos convencê-lo que aquilo era melhor, que eles não eram feitos um para o outro, que eles só se faziam sofrer, que se sufocavam. Eles podiam estar certos, pois para ele, ela era como o ar que ele respirava, sempre a rodea-lo, sem que pensasse no assunto, mas totalmente essencial para sua existência. E só agora que não o tinha, percebia que não conseguia mais respirar.

Será que a sufocava tanto assim? Será que lhe fazia falta alguma? Queria encontra-la de novo, queria tirar tudo a limpo, mas ela se fora, sumira no mundo e ele nem ao menos sabia onde ela poderia estar. Não tivera o trabalho de conhecê-la, como ela a ele.

Ela acabara sendo como a chuva lá fora, chegara como uma tempestade em sua vida, uma que ele tentara de todos os jeitos empurrar e afastar-se, protegendo-se, sentindo-se exposto, mas ela entrara por todos os poros, com seu sorriso delicado, seus cabelos esvoaçantes.

Disseram-lhe que ele devia estar obcecado. Talvez eles tivessem razão.

Se via de frente a um espelho de água, encarando seu passado e procurando, desesperadamente, como um tolo, seus erros, sem conseguir enxerga-los no meio da chuva demasiadamente forte e negra, sua tempestuosa mente de pensamentos caóticos.

Nunca antes dela notara o quanto detestava a sua pútrida solidão. Também nunca analisara o quanto ela o mudara com o passar dos anos, o quanto o fizera precisar dela. A necessidade era física e sentia a falta doer enquanto puxava o ar, acostumando-se a dor.

Grunhi baixo, mas seus amigos não o olham, já vacinados de jeito, principalmente agora. De tempos em tempos, o relanceavam para ver se estava bem, mas ele continuava a olhar a janela, totalmente alheio.

Ela fugira como em uma nuvem, passageira, leve, sem deixar vestígios. Teria tanta pressa assim em fugir dele? A quebrara a tal ponto? Lhe fizera tanto mal?

-Relena... - O nome lhe escapa pelos lábios, como fel, machucando-o, ferida cortante.

Os amigos o encaravam ao ouvir o nome dela, mas ele se levanta e sai, sem dar-lhes tempo de o seguirem. Precisava ficar sozinho. Sem se preocupar em cobrir a cabeça, sai na chuva, as luzes do chão, borradas, agora refletindo em seus olhos, como em um espelho profundo e ainda, estranhamente, vazio.

Tudo o lembrava dela, mas a cada dia, os detalhes embaçavam-se mais, e ele se via mais desesperado. As memórias desvaneciam-se com a fumaça do tempo, com a neblina dos dias frios. Não conseguia aceitar a realidade.

Podia ouvir o sorriso dela ecoando distante, em sua cabeça e se indaga por quanto ainda poderia ouvi-lo. Andava, o barulho alto da chuva, escorrendo-lhe pelo corpo sem que percebesse, pesada. Um casal passa gritando a sua frente, entrando em um restaurante.

Não se lembrava da textura de seus cabelos, e volta a focar-se neles, que cada vez lhe pareciam mais distantes, como um sonho estranho. O brilho refulgente de dourado.

Suspira. Aparentemente, sua única escolha era a que jamais admitiria a si mesmo. Precisava deixa-la ir, como a chuva que cai e depois evapora em um processo natural.

Não conseguia. Tentava agarra-la com força, mas ela fugia-lhe pelos dedos, como gotas de água que se separam, como uma sereia que escorrega de volta para o mar. Seus olhos estavam secos, ele nunca conseguira chorar e não pretendia começar agora, mas em seu interior, a tempestade aumentava, não se acalmando como deveria por cada copo forte que tomava, mas agitando-se, nervosa, inquietante, poderosa.

Olha em volta, notando-se no meio da rua pela primeira vez. Estava escuro, e os postes brilhavam, falhando de tempos em tempos. Ele era o único na rua e os carros passavam com tranquilidade, as lojas abertas de seus dois lados cintilavam, convidativas. Ele estava bem onde estava. Estava na chuva, dando as boas vindas a ela. Fecha os olhos, com um suspiro, sentindo-a escorrer por sua roupa, pelos seus olhos, nariz e cabelo, deixando-o pesado, a acaricia-lo. As gotas grudavam-se a ele, como que para procurar alento, embora ele soubesse que não estariam mais ali pela manhã.

Um trovão, um raio, uma luz efêmera, como tudo o que ele estivera pensando, como o relacionamento deles, como a vida que ele levava, como ele mesmo, e ela.

A chuva que caía agora não era nada, nada mais que uma calmaria, um efeito passageiro que remexia e bagunçava para depois equilibrar-se novamente. A verdadeira chuva caía em seu interior vazio, chacoalhando-o por dentro, deixando uma marca que nunca poderia secar.

Não havia mais nada. Tudo o que ele acreditava ter possuído havia sido levado, como um castelinho na areia, destruído pelas idas e vindas do mar. E enquanto tentava, em um ínterim perdido nas águas do tempo, agarrar-se a semelhante quimera de um passado, deixava a chuva chocar-se...Lavando seu rosto, seu corpo, sua alma...


Ok, depois de ter esse texto muito tempo de molho, finalmente resolvi publica-lo, as ideias não ficariam mais concretas que isso. Desculpem qualquer confusão.
Vou ver se consigo terminar logo de publicar os desafios, tanto atrasados como novos. :)
O próximo tema é 'fim', que eu já tenho praticamente pronto, segurem um pouco.
Obrigada por tudo e até a próxima.
Beijinhos.

08.11.2012