Título - Princess and Paladin Challenge

Desafio por: Co-Star & Miyavi Kikumaru

Tema 06 - Fim

Ele olhou a faca, ponderativo. O sangue ainda escorria pelo chão, frustrado, a chuva escorria por sua mente, a tempestade batia em seu cérebro. Era uma massa de sentimentos confusos que o arrebatavam de todos os lados, era como uma chuva de alfinetes que o perfurava, sem piedade, por todos e todos os lados.

A faca não funcionara e o sangue estava marrom, torrado, seco. Não pensava mais em usa-la.

Não voltaria mais a trás. Ainda podia ver o rosto dela, trancado para sempre em um instante de dor, seu sangue para sempre manchando suas mãos. O cabelo lindo e dourado, um borrão de manchas douradas e carmesim. Ele olhou para os olhos dela e eles diziam adeus, eles diziam aquilo que sua boca jamais conseguiria dizer, nem agora, nem nunca. Ele teve a certeza de tê-la visto sorrir. E então, imobilidade.

Seus olhos nunca mais se abririam.

Ele estava aqui, no chão da cozinha, olhando para a faca, inútil e ela estava morta.

Do lado de fora do apartamento, uma pomba pousava na janela, construindo um ninho para seus filhotes e ela estava morta.

Uma mãe era assaltada na esquina, e ela estava morta.

O mundo girava como se nada tivesse acontecido e ela estava morta.

A arma era gelada contra sua pele, agora mais do que nunca, como um veneno mortal, que mesmo frígido, conseguia queimar com o contato, machucando, marcando, mudando-o para sempre.

Essa arma não falharia com ele. Cumpriria sem delongas a sua promessa irresistível.

Não importava mais o que fizesse, pois, mesmo se saísse daquela situação, aquele dia, estaria mudado para sempre.

Matar-se-ia? Colocaria fim a própria vida? Faltava-lhe coragem? Não. Faltava-lhe vontade, vontade de fazer qualquer coisa. Ela era seu motivo, seu sorriso, sua razão. A mão delicada e cetinada caindo, queimada em sua retina, para que nunca mais esquecesse, fadado a repetir-se eternamente em câmera lenta.

Os olhos petrificados, o corpo molhado, o frio aterrador do corpo pequeno, o grito alto que saíra de sua própria garganta quando correra para o seu lado, pegando-a do chão, o carro que a acertara ainda indeciso.

Estava mudado, não queria mudar, agora estava imóvel e mesmo que vivesse, estava morto. Suas mãos não sentiam, seu corpo não sentia, seu sangue deixara de correr.

Não sentia frio, não sentia medo, não sentia dor. Desde que ela se fora, tudo perdera o sentido, nada mais parecia importar, nada era digno de seu olhar, sua atenção.

O toque dela contra sua pele, os lábios dela contra os seus. Uma lembrança distante e esfumaçada, uma brincadeira sórdida e de mal gosto, inventada por sua mente corrupta e distorcida, incapaz de diferenciar sonho e realidade.

A loucura da vida cotidiana, a loucura do amor, a loucura da morte.

Era uma liberdade total que o incendiava, que o enlouquecia, que o fazia gritar, que o fazia calar-se, que o fazia morrer, que o fazia ficar imóvel, a dias, com uma faca que lhe falhara ao lado de seu corpo, no chão da cozinha, olhando o revólver a sua frente. Uma única bala era tudo o que precisava.

Não sabia por que não havia começado logo com ele. Depois da primeira tentativa, precisara de alguns outros até sentir vontade de se mexer, de voltar a pensar, de olhar para o revólver esquecido a poucos metros de distância.

Sua garganta fechava e arranhava devagar. Não fazia diferença não conseguir respirar.

Afinal, para que, se nada mais sentia? Para que se já morrera? Para que se seu caminho parecia uma página em branco, uma proposta perdida, uma cartada mal jogada?

Rira de si mesmo, escarnhinho, enlouquecido. Superara. Estava louco, mas nunca antes estivera mais lúcido.

Nunca acharia alguém exatamente como ela. Nunca a tocaria novamente. Nunca amaria assim novamente, nunca sentiria novamente.

Uma decisão, uma vida já desperdiçada. Ninguém parecia se importar.

Um apartamento no centro. Um tiro alto sendo disparado.

A pomba voa da janela com o estrondo, o barulho dos carros abafa o tiro, um corpo jazia no chão da cozinha e ela estava morta.


Ok, isso sim é breu..
Desculpem-me, acho que o tema 'Fim' não me trouxe muitos pensamentos felizes a cabeça ^^''' Queria ter feito algo mais longo, mas não deu, acabei ficando contente com o resultado :)
Finalmente alcancei a senhorita Nique, agora é só continuar o desafio :vitória:

14.11.2012