Título - Princess and Paladin Challenge
Desafio por: Co-Star & Miyavi Kukumaru
Tema 07 - Segredo:
Música - Death Cab for Cutie - What Sarah Said
A menina saía do médico com um sorriso bonito e tenro no rosto, embora sua expressão fosse distante, os cabelos de lisos fios de trigo, presos em um rabo-de-cavalo alto. Mexe de leve as mãos de cor de mármore, tirando um fio da franja do caminho, mecânica.
-Muito obrigada - Ela exclamou, direcionando-lhe simpatia. Ele acenou e respondeu com educação polida. Ela fechou a porta de levinho, com cuidado. Ele ficou alguns segundos a mais pensando sobre ela, depois de sair. Era engraçado vê-la, tão jovem, de tão refinada beleza
Era engraçado pensar que, por mais perto que estivesse da morte, a moça continuasse a tratar de todos os assuntos da vida, a se preocupar com eles e a vivê-los, ao invés de deixá-los de lado e encara-los através de uma janela, tal como toda alma moribunda, perto do fim.
Era estranho pensar sobre isso, uma vez que ele, mesmo lidando tantas vezes com o assunto, o tendo tão presente em sua vida, cotidianamente, ainda assim, raramente ponderava sobre ele, deixando-o largado em uma estante, tomando poeira, como um brinquedo antigo de infância. Preferia esquecê-lo, só o enxergando quando era obrigado a vê-lo em toda a sua esplendorosa crueldade.
Tira o assunto da cabeça e volta para os papéis a sua frente, abanando a cabeça.
Relena suspira, com os braços levemente encostados com delicadeza, na parede branca e gelada atrás de si, o movimento costumava ser alto àquela hora, muitas pessoas se andando para lá e para cá, anúncios podiam ser ouvidos, chamando médicos e enfermeiros pelo rádio, assim como bipes e telefonemas. A menina suspira, desencostando-se.
A palidez mórbida de consultórios médicos sempre a deixaram desconfortável. Eram de uma cor fria e impessoal, parecendo expulsa-la, assim que colocava seus pés lá dentro.
Caminha rapidamente, por isso, segurando com força a bolsa de alça longa contra o corpo magro e esbelto. Não olha os outros pacientes e doentes no caminho, nem pensa neles, até se ver livre na calçada, novamente. Respira o ar da cidade, fundo, deixando escapar um suspiro apaziguado. O pesadelo dessa semana estava acabado, agora, somente na próxima semana passaria por isso novamente.
Não pensaria nisso, procurava nunca o fazê-lo.
Não era uma doente normal, era uma que se negava a aceitar. Analisando-a clinicamente, talvez se notasse com muito cuidado a estoicidade de seu sorriso, o movimento melancólico dos olhos, o jeito desancantado no canto de sua boca, tudo conscistente com a perspectiva de pacificação pela morte.
Não era para os olhos de leigos.
Voltando para casa, novamente entregava-se a divagações, sendo ajudada pelo vento que batia em seu rosto, cabelo, arrastando sua mente para lugares distantes e inseguros. Lugares onde sua mente não deveria habitar, mas que ultimamente não conseguia permanecer longe.
As perguntas sem resposta, as amarguras sem propósito. Como seria depois que se fosse? Tentava montar uma imagem mental da vida de seus amigos e, principalmente de Heero sem si. Como reagiriam? Gostaria que ele fosse feliz, que todos eles fossem, mas ainda assim, não conseguira isolar-se o bastante, não ainda, lhe doía, dentro das entranhas, em algum lugar desconhecido. Doía pensar em um mundo sem si mesma, onde as pessoas que amava seguiam suas vidas, como se, de certa forma, nada tivesse mudado.
Detestava essa sua fraqueza, sua insegurança, sua mesquinhez.
Nessas horas via-se encurralada, não havia deixado nada para trás, morreria deixando uma caixa de livros na sala, um amontoado de edredons no quarto. Não havia marca, nada que a fizesse memorável de alguma forma. O estranho era pensar que nunca achara que daria importância a isso. Mas ainda assim, não queria ser esquecida, não queria imaginar uma vida onde todos os seus amigos ainda se viam entre si, onde Heero amava uma nova pessoa, onde todos se encontravam e sorriam, mesmo que ela não estivesse presente.
Sua insegurança gritava alto e ela a abafava com veemente violência. Era errado pensar dessa forma e quase se batia por isso, egoísta e somítica, tinha de lembrar-se, os queria felizes. As razões e sentimentos conflitando em impactos dolorosos dentro de si. Era como o câncer a destrui-la por dentro, os pensamentos inundando-a como uma doença traçoeira, esgueirenta.
A única coisa pacífica dentro de si.
Não tinha medo da morte, tinha muito mais medo de machucar as pessoas que amava com a notícia do que dela em si e isso a trazia conforto, como uma pequena luzinha em um mar de escuridão. Era um suspiro no meio de sua crise.
Chega em casa batendo com força a porta atrás de si, lançando a bolsa no cabideiro, a luz forte entrando pela janela a sua frente, na sala, as cortinas se esvoaçando de leve, em um tom de dourado que dava a tudo cores mais bonitas e terrosas.
Heero estava no sofá, o laptop no colo, fazendo alguma coisa de trabalho. A menina sorri, conhecendo bem o noivo.
-Voltei de minha caminhada - Diz com um sorrisinho bobo no rosto, parando atrás dele e abaixando-se para beija-lo no rosto. Ele dá um grunhido baixo em resposta, mas não diz nada. Isso só lhe faz expandir o sorriso, indo para a cozinha a procura de um copo de água.
Era engraçado pensar que, por mais que quisesse deixar algo para trás, ficava feliz por não tê-lo feito. Agora, lidar com uma criança seria muito pior. Era outro dos fatores de alívio. Relanceia os cabelos castanhos sentados ao sofá e sorri, levando o copo a boca.
Era uma brincadeira que vinha fazendo muito ultimamente.
E se...
E se ela não estivesse doente, casaria-se com Heero? Costumava achar que sim, provavelmente, eram raros os dias que acreditava que algo poderia dar errado. E depois? Teriam filhos? Esse era um chute muito mais algo, mas gostava de pensar que sim...
O pensamento a sufoca e sente uma coisa entalada em sua garganta, torpe, segura o ar, tentando segurar o choro. O copo cai e ela se segura a parede atrás de si, levando a mão a boca. O peito doía, tem de morder com força o lábio inferior para conter-se. Não podia desmoronar, não ainda.
Era o sentimento negativo, clamando atenção, clamando que ela lhe reconhecesse.
-Relena! - O noivo entra correndo na cozinha, mirando-a preocupado. Ela tenta lhe sorrir, mas não consegue, algumas lágrimas escapando-lhe pelos olhos. Tenta mascarar o desespero que sentia tomar seu peito.
Deixar seu pai, sua mãe, seu irmão. Nunca ver sua melhor amiga se casar, nunca fazê-lo ela própria. Nunca ser velhinha ao lado da pessoa que amava, nunca segurar a mão de uma criança pequena... Nunca se suceder no trabalho, nunca viajar pelo mundo, se perder e se redescobrir, nunca planejar seu futuro, nunca viver sua vida. Tudo aquilo circulava e circulava em sua mente. Era o agora e o agora somente.
Chorava e estava tonta. O moreno lhe pega no colo, carregando-a até o sofá, sentando-a, seguindo-a logo em seguida, sentando-se a sua frente. Ele acaricia seu rosto.
-Relena, o que foi? O que está errado? - Aquilo só a faz piorar, mas ela segura o ar, contendo-se, o estupor era sufocante, mas não conseguia chorar direito, presa a razão, agarrando-se a ela com todas as suas forças.
Era como uma parede gigantesca a obliterar seus pensamentos, uma onda que vinha e a levava da praia, enquanto tentava nadar, afogava-se mesmo assim. Iria morrer, mesmo que não quisesse aceitar. Ia morrer e não conseguia a ninguém confessar.
Ia morrer mesmo que se negasse a aceitar.
Olha os olhos fundos de Heero a sua frente. Heero, a pessoa que amava. Não conseguia mais se segurar, e mesmo assim, uma última vez, sem se permitir abrir mão do que tinha, permite-se total entrega, agarrando-se, vivendo aqui, agora, sem dúvida, sem passado nem presente.
Como somos rápidos em esquecer, como tudo parece voar. Não conseguia largar. Como as coisas poderiam ser? Não era culpa dela, não era culpa de ninguém, mas por que?
Ela poderia ser tão maior...
Não queria morrer, não estava pronta, não queria morrer...Não estava pronta...
O segura com mais força contra si, inibriando-se com seu cheiro, esquecendo-se de tudo, prendendo-o contra si, tendo a certeza de que, pelo menos naquele momento, ela era real, ela existia e aquele calor estava ali, e só por agora, ele pertencia a ela...E a mais ninguém.
Nenhum daqueles pensamentos sai de sua cabeça. Ela os guarda para si, em silêncio, como uma tumba. E quando ele lhe interroga, depois que se acalmara, diz que estava cansada. Ele a olha estranho, claramente vendo através de si, mas não diz nada, apenas concordando levemente.
Estava perdendo a si mesma, uma última vez, antes de encontrar uma estranha na câmera mortuária. Sabia que iria mudar, iria conformar-se, só esperava poder continuar sendo a si mesma, não queria desistir de si, e por isso, sofria ainda mais, mudando sem querer, transformando-se por se negar.
De vez em quando, escondida, em seu quarto a noite, olhando para Heero adormecido a seu lado, pedia clemência, imaginando seus últimos dias, insegura, vendo-se na cama do hospital, o soro ligado sob sua pele, os sedativos mantendo-a viva e suportando. Podia ouvir os ruídos de todas as semanas, os bipes das máquinas a assombrando, podia até sentir o gelado do suporte da cama sob sua mão.
Nessa horas olhava para os próprios dedos de forma mecânica, sentindo uma súbita explosão, raiva de si mesmo. Por fora, tão perfeita, por dentro, infectada até a última célula.
Heero a seu lado na cama do hospital, dormindo no sofá, perto da janela, o acortinado fechado, sua dificuldade para falar, sua boca seca, os olhares de dura despedida.
No banho de noite, prepara-se para o jantar que faria a noite, encontrando-se com os amigos, sorrindo, interpretando um papel de si mesma, escondendo em quem transformara-se, um autômato programado.
Agora era só na amplitude e solenidade do silêncio que conseguia se encontrar e ser ela mesma, sem teatros, sem mentiras. E quem ela havia se tornado era uma sombra, uma sombra temente que os raios de luz da vida a queimassem. Não conseguia mais fazer amigos facilmente, embora tentasse permanecer dócil e branda como sempre fora. Ainda conseguia enganar-se. A quem mais, indagava.
Os jantares com amigos, as pessoas tinham luzes e em suas luzes, futuros brilhantes. Ela tornara-se um ponto escuro no meio da claridade da vida.
Ainda cheia de sorrisos plásticos e carinhos artificiais, começava a sentir seus braços pesarem, da essência que os largava, pouco a pouco. Fragilizava, começava a incapacitar-se dos lados bons da vida, voltando-se para o distante e utópico melancólico, por mais que a vida tentasse agarrar-se, com todas as forças que em si tinha munidas.
-Relena! - Cléo, a melhor amiga desde criança, chama sua atenção enquanto as duas lavavam a louça, os amigos rindo alto na sala. - Você precisa contar-lhe! Não é justo que ele não saiba!
E a loira suspira, cobrindo a boca, enquanto mordia o lábio superior, contendo o choro.
-Eu sei... - É tudo o que reúne forças para dizer.
Cléo então, com os olhos marejados, a abraça com força, os cabelos ruivos roçando-lhe e fazendo cócegas no rosto, espalhados pelas costas finas, que abraça de volta, emaranhando-se no volume familiar.
-Desculpe-me... É que nada disso é justo! Nada disso! - E ela consegue sentir o quanto a amiga se segurava, e quando olha em seus olhos, todos os sentimentos anteriores de mesquinharia se dissolvem, deixando espaço somente para uma grande e sufocante tristeza.
Não sabia lidar com aquilo.
Era uma melancolia tão profunda, que parecia traga-la para a profundeza de sua escuridão solitária, amarrando-a em um lugar longínquo. Sentia que começava a morrer, realmente, de alma, deixando de sentir, letárgica, os sentidos obstruídos. Podia ser o reflexo de seu próprio sentimento, impresso nas orbes esverdeadas a sua frente? Nunca saberia.
Abraça a amiga mais uma vez, com força, sentindo sua textura macia, a blusa xadrez que usava, seu calor, abraçando sua personalidade, seu ser, sua pessoa, tentando marca-la em si.
Aquele dia, a ruiva lhe disse algo que foi de uma força como um tapa no rosto, um desalento da alma cansada.
-Não se preocupe, não há um lugar nesse mundo para onde você eteja indo que eu não a siga, pouco depois. É só me esperar.
E a amargura e realidade do sentimento lhe pareceu tão forte, tão fadada a verdade, que um nó voltou a surgir em sua garganta, sufocando-a, impedindo que respirasse. Mas dessa vez, não foi embora. Engolindo a sensação, sorri enquanto se despedia de seus amigos.
Seu segredo era pesado, seu segredo a amassava, a fragmentava, a puía, transformava-a em pequenos pedaços perdidos do que um dia fora.
E naquele dia, durante a madrugada, encarando o relógio, o sentimento a sobrepujou e, sem aguentar, correu ao banheiro, trancando-se.
Era um sentimento opressor no peito, um peso sem igual, uma tortura que não pensava mais conseguir aguentar.
Aquela provavelmente não era a hora de estar sozinha. E ainda assim, provavelmente, nunca antes estivera mais. Quem seria obrigado a vê-la morrer? A quem era o castigo? A quem se estendia? A quem pertencia?
A menina tossiu e encostou-se a porta, sentindo o peso finalmente suplanta-la, fazendo-a ir de encontro ao chão de joelhos, para em seguida se encolher, as costas encostadas a porta frígida.
O silêncio a sufocava com sua imobilidade, a claridade artificial a castigava com seu zumbido maquinal. E ainda assim, jogada em um canto esquecido, enquanto a cidade lá fora rodava e os carros andavam, continuando com suas existências ininterruptas e frenéticas, intentava segurar as pérolas que teimavam escorrer de seus olhos, deslizando por sua face tão rígida e amargada pela vida.
Estava sem forças.
Na escuridão do quarto, ainda na cama, Heero tinha os olhos abertos e contraía a mandíbula. Relanceia para o lado, vendo o lugar usualmente ocupado por Relena, sua fragrância suave ainda podendo ser sentida no ar.
Ele olha para os lados, estreitando os olhos. Podia ouvir claramente o ensurdecedor tique-taque do relógio. Ele contava os anos, os meses, os dias...
Ela sabia que precisava contar-lhe, mas ainda não estava pronta. Não estava pronta para dizer adeus para ele...Para ela...Para eles...
Relena tinha um segredo, ela iria morrer em breve. Relena não parecia querer que ele soubesse tão já e por nada além disso, estava disposto a esperar pelo tempo dela, pela aceitação dela, para que ela estivesse pronta para lhe dizer.
O que Relena não sabia é que Heero também guardava um segredo, encarcerado dentro de si.
Heero já sabia, já sabia há muito tempo. E nos mais profundo e sinistro âmago de si, Heero guardava outro. Ele não sabia se teria forças para ficar e vê-la morrer.
Oláááááá!
Aqui está, mesmo que seja com cinco dias de atraso ^^'''
A verdade é que eu tinha uma ideia e foi outro o resultado. Com exceção do final, não fiquei nada, nada, nada satisfeita...Welllll, ossos do ofício, precisava postar e em vez de reescrever tudo, deixei como está. Espero que gostem :)
Mais um feito, próximo para essa semana hehe
A seguir, 'Nostalgia'. Essa é uma de minhas histórias favoritas, está quase pronta há muito tempo, vamos a ela! :)
23.01.2013
