Título - Princess and Paladin Challenge

Desafio por: Co-Star & Miyavi Kukumaru

Tema 08 - Nostalgia

Os dois entreolham-se, estranhando. Ele levanta a sobrancelha. O fato é que não demoraram um segundo para reconhecer-se, como era de se esperar. Ela se sente congelar, afinal de contas, o que estava vendo poderia ser verdade? Ela sorriu de leve, tímida, por puro reflexo, mas os olhos dele permaneceram sérios. Ela chegava a sentir o ar faltar em seus pulmões pela surpresa súbita e se segura com firmeza ao balcão a sua frente, tentando conter a vertigem que lhe sobressaltava, sorrateira.

Alguns segundos preenchem o silêncio de distância entre eles e é só então que ela a vê. Uma moça miúda, de olhos brilhantes, parada ao lado dele parecendo um pouco surpresa, olhando de um para o outro, percebendo a troca de olhares, para em seguida sorrir de leve. O sorriso era perolado e alinhado e parecia revelar uma alma verdadeira e amistosa.

No momento seus pulmões chegavam a arder e começara a ver estrelas no canto dos olhos pela dor da falta do oxigênio, sua mania quilofágica a obrigando a morder o lábio inferior, nervosa.

-Vocês se conhecem? - A moça era loira como ela e tinha uma voz doce, meiga, que ressoava no ambiente, perdurando-se, grave, porém feminina. Relena não pôde deixar de notar o anel que ela usava em seu dedo esquerdo. Ao observar o fato, sente-se subitamente autoconsciente de si mesma, era uma observadora forasteira. Abaixa o rosto e brinca com as mãos, entrelaçando os dedos, embaraçada, incerta do que viria a seguir, exposta.

O cabelo lhe cobria o rosto em cascata.

Ele nega com a cabeça, movimento que ela só vê com o canto dos olhos e os dois saem em seguida, subindo as escadas logo a seu lado, para seu quarto de hotel. Relena ainda sentia os olhos da menina loira, enquanto esta subia. A moça parada ali, sem saber como agir, presa e estática, como um boneco sem bateria. O coração ainda estava disparado. Como era boba... O que tinha sido aquilo? Teria sido o encontro ou a surpresa? Quantos anos teriam passado?

Levanta o rosto com um suspiro, afastando a densa franja loira dos olhos, introspectiva.

Apóia-se na mesa a seu lado, se sentindo tonta, enquanto todo ar que continha no corpo parecia escapar de si. O recepcionista pergunta se ela estava bem, mas ela não o escuta, presa em sua memória. O peito aperta e uma dor estranha toma conta de si. Há quanto tempo procurava não pensar no pretérito? Há quanto tempo teria fingido esquecer-se?

A memória era como uma sombra longa, que se esticava com o passar das horas, apagando tudo em seu caminho, cada dia cobrindo uma distância maior, escondendo mais do passado, velando mais suas lembranças com seus braços longos, distanciando-a mais do que um dia havia sido.

Nunca imaginara que mesmo depois de tanto tempo, um único olhar poderia trazê-la abaixo, com tanta facilidade. O nublado subitamente parecia nítido, tudo se dissipara.

Ele a olhara com tanta apatia e desinteresse. Havia esquecido o quão gélidos e ferinos seus olhos poderiam ser, impassíveis. Tentando recompor-se, segue seu caminho, entrando em seu próprio quarto, em silêncio.

A geladeira pequena gemia o único ruído em sua solidão.

Naquela noite não consegue dormir direito, seus sonhos sempre vagando para algum lugar perdido de outro período, memórias coloridas e difusas dançando em sua mente, sorrindo, como giz esfumaçado em um amarelado papel do tempo.

Deitada, sem conseguir pregar os olhos, permite-se as perguntas que costumamos sempre deixar para trás em solenes momentos como esses. Indaga-se para onde teriam ido as más memórias, as que os fizeram partir seus rumos. O que causara o desmoronamento, o que a levara até ali? A moça sorri com a sua própria inocência, a quimera criada por sua própria cabeça. Era onde o fato ocorrido estava borrado que preenchera com uma tinta perfeita, preenchendo-o a sua maneira, tudo agora não passando de uma bonita ficção, retocada pela passagem dos anos.

Um dia fora jovem, feliz e despreocupada, era outra pessoa, alguém perdida para si mesmo. Era alguém menos amarga e menos desiludida, uma imagem distante. Era jovem, jubilosa e simplesmente escutava seu coração, deixando-se conduzir sem as fracas hesitações características da vida adulta.

Nunca, por um instante sequer, imaginara que chegaria tão longe. Indaga-se desde quando aquela chuva que dominava seu interior teria se iniciado e sente-se subitamente pesada, como se nada daquilo fosse real.

Sentia e saudade de quem fora, de seu passado, da pessoa que costumava ser, as imagens extremamente claras insistindo em dançarem em sua mente, gravadas em sua retina quando fechados os olhos. Ao ver em quem se transformara, o aperto no peito aumenta.

Era alguém tão distante de quem costumava sonhar que seria. Sendo posta de frente com seu eu do passado, o vazio aumentava, sem que conseguisse enfrentar-se. Ela de agora e ela de outrora, olhando-se de frente em um espelho.

Decepção.

Sentia um vazio escurecido do não realizado. Era um desejo, uma vontade lânguida de algo sem nome. Era algo de cor e gosto agridoce, extremamente dolorido.

Era tarde, chovia do lado de fora e uma cortina cinza e espessa caía do céu. Ela tinha muito o que fazer, uma vez que viera a trabalho. Agora a ideia anterior de esticar a passagem para aproveitar um pouco a viagem parecia árida e descolorida.

Suspira. A chuva ainda caía lá fora. Tinha de se manter objetiva, como sempre fora. O passado não se muda, era hora de acordar.

Os sonhos desmoronam-se, sendo varridos pelas chuva, águas dos céus, arrastados pelo chão e entrando nos bueiros. Eram fragmentos de uma imagem quebrada. Eram passado, presente e expectativa frustrados, descartados. A Relena moça esvaía-se com a água, deixando-se desvanecer para o lugar onde pertencia, muito longe no tempo. Aquilo não mais fazia parte dela.

E no final, já havia dito adeus.


O dia era cinzento, com várias nuvens brincando de esconder-se no mar celeste, manchadas, trovejantes em seus atritos. A moça se encontrava sentada na cadeira em frente ao hotel. Estava frio e usava um pequeno manto rendado sobre os ombros, um chá quente preso nas mãos juntas, o cabelo preso em trança escorrendo pela frente do corpo, cobrindo-lhe o colo do lado direito.

Ela inspirava fundo, tranquila. Conseguia sentir a umidade no ar, o cenário bucólico de uma cidade acolhedora de interior. Sorri, percebendo que nunca imaginara que o encontraria ali, de todos os lugares, tão distante de onde deveriam estar. Os vértices da vida pareciam se encontrar nos lugares mais incomuns.

-Oi! - A moça do dia de ontem pára a seu lado e Relena se põe a olhá-la, sorrindo de leve, cumprimentando-a com o olhar, sem muita força de vontade, dando uma bebericada no chá quente que estava em suas mãos.

-Você é a moça de ontem, não? Qual o seu nome?

O vento castigava os cabelos levemente cacheados da menina que permanecia em pé. Ela não parecia se importar, usando um agasalho pesado, marrom claro, que ressaltava sua pele quase translúcida.

Relena a observa calada por um instante. Por mais que se parecesse consigo mesma, o cabelo era levemente mais claro, a expressão mais tenra, mais ardente, mais feliz.

-Não sou ninguém. - Digna de nota, completa com displicência, mas emenda - Mas se precisa do meu nome, sou Relena Darlian - E acena com a cabeça, movendo o pescoço ligeiramente - muito prazer - E sorri com a cumplicidade de uma garota que conhece outra.

A menina parecia encantada e afasta uma mecha do rosto, com um sorriso largo e afetuoso.

-Eu sou Sylvia, Sylvia Noventa - Nesse momento, a menina leva a mão aos lábios, surpresa, de maneira bonitinha, infantil - Desculpe-me, não sou mais - E bate na própria testa com o indicador, uma, duas, três vezes - Vivo me esquecendo de que agora sou Sylvia Yuy... - E estica ainda mais o sorriso de maneira despretensiosa.

Aquilo não parece surpreender Relena, que sorri verdadeiramente.

-Parabéns pelo seu casamento - mas de alguma forma incontrolável, uma memória incômoda parecia brincar no canto de sua mente, distante e levemente apagada, os tons já imperfeitos. De mãos dadas, duas pessoas caminhando à beira da praia, sem propósito, apenas esperando o dia acabar. A menina usava um anel no dedo esquerdo e parecia realizada, um sorriso bobo brincando em seu rosto. O anel era de plástico e a promessa era vazia, mas quando acontecera lhe fora tão real quanto o que real possa parecer.

Tudo o que lembrava a fazia ter certeza. Não devia brincar com o passado. Abana a cabeça com suavidade, espantando os fantasmas do tempo, que pareciam querer ficar pendurados às margens de sua mente.

-Obrigada! - E ela parecia radiante, causando inveja a qualquer mulher que pusesse os olhos em si. Relena apenas conforma-se, entre a felicidade por ele e a dor estranha que sentia no peito. Inspira e transpira, acalmando-se. Deviam ser as lembranças que a faziam transtornada, mostrando tudo perfeito, a faziam ter vontade de ter tudo de novo, a felicidade da mulher a sua frente, que poderia um dia, muito distantemente ter sido ela... Provavelmente era um dislate sequer considerar...

-Sylvia, vamos! - A voz distante, masculina, ríspida, a chama e o rosto da moça brilha ainda mais.

-Nós vamos almoçar aqui perto, quer vir conosco? - E convida, inocentemente. Relena sabia que deveria negar, que deveria dizer não, mas um impulso, a saudade que sentia desde que o vira novamente, a curiosidade de ver no que ele se transformara fala mais alto e ela confirma com um aceno de cabeça.

Tudo parecia voltar em preto e branco, diferente agora que se aproximava de um recipiente real. Sua redoma tão perfeita construída com tanto cuidado rompia-se, rachando nos lugares mais inusitados.

Ele não disse nada quando se aproxima com Sylvia. De alguma forma, ela duvidava que ele fosse fazê-lo.

Há um tempo atrás havia ouvido dizer que ele se casara, que estava trabalhando e que estava estabilizado e feliz. Infelizmente, ouvir a notícia sempre tem um gosto muito diferente de presencia-la. Não conseguia sequer lutar contra os sentimentos que a tomavam, violentos, espalhando-se como veneno por suas veias, como uma injeção dolorosa, um líquido gelado... A dor do passado, a dor do indelével, a dor de quem foi feliz.

O caminho feito de carro foi em silêncio, uma ou outra palavra trocada, Sylvia sendo a mentora da maior parte delas. Estava nervosa, sabia que havia feito a escolha errada. Mordia o lábio inferior com força e as mãos estavam fechadas com determinação, suadas, sobre o colo.

Se levantasse os olhos, mesmo que discretamente, para encarar o espelho retrovisor, os olhos pesados e profundos estavam sempre sobre si, frígidos, parecendo querer cortá-la com seus pequenos pedaços de gelo, parecendo querer cobrar por sua lembrança, parecendo querer apaga-la de onde estava.

Sente vontade de fugir, afinal o que tinha feito? Aparecendo do nada, sem ser convidada em sua vida? Xeretando-a como se tivesse o direito... Já o havia perdido, o perdera no momento que desistira, o perdera quando decidira criar o obstáculo...

As reminiscências são sempre as mais difíceis de serem apagadas, as pequenas ligações que tornam duas pessoas uma.

Entram no restaurante e se sentam, tudo parecendo surreal, a luz entrando pelas janelas de cortinas claras, o ambiente todo com pequenos barulhos de pessoas comendo e conversando, uma criança ou outra brincando, pratos que se chocam com talheres, tudo era um sinestesia de emoções.

Os olhos dela se fixam diretamente nos dele. Ele segura o olhar e ela sente a garganta fechar. O que estava fazendo ali? Não havia esquecido, superado? Não estava feliz com sua vida atual? Não era o que pensava até o dia anterior. Ou melhor, o que tinha certeza? O que acontecera com sua certeza?

E por mais que se perguntasse, a resposta era sim para quase todas.

Então o que fazia? Tudo a seu redor girava, só os olhos dele impressos em sua retina. A luz diáfana, o garçom de roupas clássicas a seu lado, as cadeiras e mesas de madeira entalhadas, típicas de restaurantes de interior, esperando turistas. Estaria torturando-se de propósito? Queria lembrar-se? Forçava-se àquele momento? E se sim, por que o fazia?

Agora parecia que ainda ontem havia sido o tempo de suas vidas. E agora, ali estavam eles, totalmente desconhecidos. Era um sentimento acidulce, o de vê-lo, mas não conhecê-lo, lembrar-se, mas deixa-lo no passado. Ele parecia tão real, embora ela soubesse muito bem que ele não passava de uma imagem. Como ela, ele não era mais quem ela um dia conhecera. Nem ao menos vira os anos passando, correndo por debaixo de seus pés, escorrendo por entre seus dedos.

-E então Relena, o que você faz? - a voz da loira veio súbita, a salva-la, quebrando o instante, o furacão, trazendo-a bruscamente para a realidade. Estava sentada e seu suco acabara de chegar.

-Eu trabalho com publicidade - Responde simplesmente, tomando um gole rápido, nervoso.

-Uau! Isso é tão legal, é uma área que sempre quis trabalhar, mas acho que não tenho a força necessária para isso. - Ela parecia genuinamente entretida e Relena se sente culpada por isso.

-E você Heero, o que anda fazendo nos dias de hoje? - E ela não se controla, olhando-o diretamente. Ele a encara por um instante, parecendo analisa-la, ver onde ela queria chegar. Ele não conseguiria, pois ela mesma indagava-se as mesmas perguntas.

-Sou analista de sistemas - Responde, seco. Ela abaixa o rosto. Por um instante, só ouvindo sua voz, o sentimento passa. Eram apenas velhos conhecidos conversando, sabendo o que se passava na vida um do outro. Retomavam o tempo perdido.

Sorri, constrangida e sua mão estica para o açúcar, cruzando-se com a mão dele, que pegava o sal ao lado, o branco se espalha pela mesa e a moça assusta-se, afastando as mãos.

-O que acha de fugirmos daqui agora? - A voz traquinas denunciava alguém infantil, que divertia-se.

-Tolice - A voz dele já era igual, gelada, mas tomada por um pontada de carinho que só ela parecia perceber, para com ela.

Ela ri em voz alta, puxando-o pela mão, correndo para água do mar. Ele não resiste e os dois caem com violência. Ela ri alto e ele a olha, inconformado.

-Ah, vamos, não foi tão ruim? - Ele rosna, ela aproxima-se, delicada, beijando-o com delicadeza. Ele segura sua cintura, colando os corpos.

Relena assusta-se, vendo-se no presente, mas ainda mantendo o sorriso usual nos lábios, cortês. Por um momento encara o rosto dele a sua frente, chegava a ser engraçado ele ser o rosto que fitava. Se fosse naquela época, jamais diria que um dia pensaria assim...

Nada nunca acaba no tempo, tudo parece durar para sempre. As lembranças se mesclam à realidade e embora tudo pareça tão distante, é tão tangível que parece que continuará eternamente. Era somente sua mente a pregar-lhe uma peça. A vida era formada de um tempo descontínuo, tudo acontecendo ao mesmo tempo, de novo e outra vez.

-Desculpe-me, acho que vou ao banheiro - E levanta-se, cruzando o salão cheio, entrando no local, trancando a porta atrás de si, jogando água no rosto.

Olha sua imagem refletida no espelho. Era muito mais velha do que da última vez que parara para notar. Seus olhos já não brilhavam como antes, o seu sorriso não era mais tão grande. Por um instante, volta a ver a si mesma como era e não se reconhece. A mão direita encosta de leve a imagem no espelho. O tempo passara voando. O tempo passara voando. O tempo passara voando. O tempo passara voando...

Dançavam devagar, o salão de baile era grande e aquela noite era especial, era especial porque era única e, em suas jovens concepções, não sabiam que todo o acontecimento é único e nada na vida se repete.

Sorriam um para o outro e todos os seus amigos estavam ali, sorrindo debaixo das luzes fortes da festa.

O sorriso dela era o mais radiante de todos. Jamais imaginou que ele viria. Então, quando ouviu a moto dele tocar, bem em frente a sua casa, desceu as escadas correndo, do jeito que estava, o vestido simples de praia, pulando para abraça-lo.

Ele sorriu, genuíno ao ver a felicidade em seus olhos. Os dois deram as mãos e trocaram um beijo antes de ela subir e eles seguirem caminho.

Ela o abraçava com força pela cintura, como se tivesse medo que ele fosse desaparecer a qualquer instante, com medo que ele fosse fugir, deixar de estar ali.

Os dois dançaram grande parte da noite e ele não reclamou nenhuma vez, a rodopiando pelo salão abafado, enquanto ela sorria, no paraíso.

Sai do banheiro, agora refrescada, voltando-se a cadeira anterior, sem perder a postura, retomando a conversa.

-Desculpe a interrupção - Sylvia não parece se importar, mas, assim que ela começa a falar, percebe seus olhos escorregando para Heero, tão perto, tão distante, como a imagem de um ídolo em um palco, que nunca conheceremos, mesmo que possamos toca-lo.

Tudo parecia ter acontecido em uma outra vida.

Eles tomam um gole de suco ao mesmo tempo e ela se foca em seus lábios. Um sentimento quente desponta pela primeira vez, era como uma pequena alegria nascendo no meio da agonia, um guarda-chuva em um vendaval.

Ouvia seus pais gritando com lágrimas nos olhos, corre de casa, fugindo do caos que era seu lar. Corre para a rua, andando em direção ao mar, tão perto de sua casa no topo da colina. Desce a rua correndo, sentindo o vento chocar-se com violência contra sua pele. Era a dor de libertar-se. Chega ao murinho onde sempre ficava, sentando-se no chão, as costas apoiadas a parede gelada, abraçando suas pernas, chorando com força.

Era engraçado ter a fúria do mar tão perto de si, podendo observa-la de fora e sentindo-a também a corroê-la por dentro.

Não percebe quando alguém pára a seu lado, se sentando no muro baixo, o barulho do mar logo atrás de si, o vento da maresia.

-O que aconteceu? - A voz era conhecida e ela levanta o rosto, uma marca pequena na pele, denunciando um tapa. Ela dá de ombros, nada que fosse fora da realidade que viviam. Ele sorri, vazio, estendendo-lhe a mão, que ela pega com certeza. Ele a abraça com força contra o seu peitoral e ela sente seu calor, sua proteção, não sabia o que seria de sua vida sem ele.

Ele olha dentro de seus olhos e não necessitam de palavras para se comunicar. Ele sabia pelo que ela passava todos os dias, se entendiam, se completavam. Ela agarra a blusa que ele usava, enterrando o rosto no peito dele, contentada, acalentada.

-Você vai ver - Ele diz, suavemente - Um dia, muito distante daqui, você nem vai se lembrar disso mais, nós vamos fugir... Vai parecer brincadeira...

Ela o olha um pouco surpresa da informação vindo de seus lábios e sorri, fraquinho, debilmente.

Eram seus dias de glória.

-Eu nunca vou esquecer! Ele me propôs em uma cidade vizinha, eu começava a achar que ele nunca o faria - E as duas riem juntas. Relena não a conhecia, mas sentia-se a traindo, vivendo tantas memórias secretas com o homem que aquela mulher amava. Ele não lhe pertencia mais, não tinha tal direito. Pausando, provavelmente nunca o tivera.

-E como ele fez? - Incentiva-a.

-Ele não disse nada, só passou o anel em cima da mesa. Eu caí em lágrimas de felicidade - A menina confessa, olhando o anel no dedo, animada. O tempo presente também lhe parecia distante, tão irreal como o que acontecera, tudo parecendo ser fruto de sua imaginação.

Teria mesmo vivido o que achara que viveu? A pessoa a sua frente realmente era aquele que a abraçara, prometendo que tudo ficaria bem, que eles superariam? Ou teriam sido outras pessoas? Já não sabia mais dizer. Tentava forçar-se a lembrar o que acontecera. Uma e outra vez.

De sobremesa ele pede um pedaço de bolo de nozes e ela sorri.

Toda vez que olhava para bolo de nozes, lembrava-se dele, e sorri com isso, vendo que ele ainda o apreciava. Aquele bolo para sempre representaria Heero em sua vida.

Estavam sentados, lado a lado, sem conversar. Ela olhava para baixo. Iria embora para a faculdade em menos de um mês e não estavam conseguindo se falar. Detestava aquela situação, detestava estar brigada com ele.

O vento batia forte naquele dia de verão.

Com cuidado ela estica a mão, depositando-a propositalmente encostada a dele. Sem olha-la, ele afasta a dele, fazendo-a abaixar os olhos e recolher a dela.

E então a epifania, escondida nos recândidos mais inabitáveis de sua alma vem bater-lhe no rosto, clamando sua atenção, acordando-a para a realidade. A lembrança começava a se formar, disforme e perdida, mas nítida.

Ela levanta os olhos, a lembrança da briga dolorosa, encontrando o olhar dele no dela, enquanto se levantavam. Ele a olhava com intensidade, uma saudade brilhante.

E por um pequeno instante, nada daquilo era verdade. E por um pequeno instante, um pertencia ao outro novamente. Por um pequeno instante, tudo voltara, tudo era como era antes. Mas os olhos piscam e o momento acaba e os dois percebem que nunca seria e o que quer que tivesse acontecido, era em algum lugar do passado que deveria permanecer.

-Eu vou pagar! - Sylvia anuncia, com um sorriso meigo, correndo na frente. Heero e Relena caminham juntos em direção a porta, desajeitados. A manga da blusa social dele raspava em seu braço.

Ele roubara uma bebida da loja de seus pais, e agora, sentados em uma casa abandonada, que sempre costumavam ir, a casa deles, o lugar de refúgio, os dois conversavam, sorrindo baixo, discretos, na madrugada.

-O que você acha que vai acontecer quando a gente sair daqui?

-Eu acho que você vai entrar para a política e me esquecer rapidinho - Ele comenta, zombeteiro e sorri. Ela lhe mostra a língua.

-Nunca. - Ela responde mais séria. - Eu e você contra o mundo não? - Ele revira os olhos e bebe um gole da bebida, como ele fazia quando estava constrangido, mas acenando no final de um minuto, fazendo-a sorrir, aprazida.

Ele era seu mundo. Ela era seu porto seguro.

-Você me promete algo? - Ela pergunta.

Ele a encara, os olhos frios prestando toda a atenção possível.

-Promete que não importa como for, não importa o que aconteça, mesmo que você seja velhinho e eu já tenha morrido, mesmo que estejamos separados para sempre... Que você nunca vai esquecer, nunca vai esquecer isso... Essa vida... Nunca vai esquecer-se de mim como eu fui?

Ele toma outro gole, sem quebrar o contato visual e faz um aceno positivo com a cabeça.

Ela sorri ao lembrar-se disso. Por um momento realmente se esquecera. Estavam do lado de fora e agora um sol suave batia, um sol de começo de tarde, simpático e preguiçoso, parecendo esticar seus raios, como um gato que se espreguiça.

Relena cobre os olhos, levantando a mão direita sobre o rosto.

Sylvia sai de lá de dentro, correndo. Heero e Relena estavam de frente um para o outro, sem falar nada, ele olhava para um lado, ela olhava para o chão. Assim que chega, a menina sorri, entrelaçando os dedos dela com os dele, depositando um beijo rápido em seus lábios.

-Vamos pegar as nossas coisas? - Pergunta e ele apenas confirma. Explica, olhando para Relena a sua frente - Vamos retomar viagem hoje, em algumas horas, você fica ainda quanto tempo?

-Acho que mais alguns dias - Responde, olhando de um para outro.

É só então que percebe, a cada sentença, a cada memória que passava, estava mais distante ainda da pessoa que havia sido e consequentemente, de Heero. Estava envelhecendo e amadurecendo e por mais que fosse duro sentir saudade do passado, não o reviveria. Era a chance que nunca tivera, era a chance de dizer adeus.

Tudo mudara e principalmente, seu interior, agora se transmutando novamente. Era um looping infinito de mudança. Era o eterno mais do mesmo.

Nisso, percebe que algo estava errado.

-Esqueci meu celular lá dentro! - E vira-se, já correndo para pega-lo. Entra, indo direto para o banheiro, onde sabia que o deixara, sentindo o alívio grande ao tê-lo de volta em suas mãos. Volta, caminhando devagar.

A realidade lhe caía, com cuidado, como um manto de seda, delicado, suave, agradável a pele. Voltava a ver o brilho da janela, voltava a sentir-se como ela mesma. Sorri com isso, sentindo-se fortificada, quem diria. Se pudesse se ver naquela época, o que teria para dizer do que virara e de para onde sua vida havia ido?

A memória que faltava, a memória que suprimira. Tudo tinha acabado no dia que decidira que seria forte. Tudo estava acabado no dia que disse que seria forte e não precisaria de mais ninguém. Aquele dia os condenara ao fracasso. Ela mesma. Era estanho reconhecer e pergunta-se o por quê de esquecer-se. Por que o cérebro sempre escolhia as lembranças agradáveis, descartando as outras em prol dessas?

Surpreende-se ao chegar a porta de vidro e vê-lo parado, esperando por ela, olhando para o chão, batendo o sapato de leve no tapete de entrada. Ela sai, sentindo-se mais leve, mais forte, sorrindo. A decisão que tomara há tanto tempo a fortalecia a cada segundo.

-O que foi? - Pergunta, sincera. Ele a encara.

-Estava com medo que estivesse chorando - Ele é totalmente sincero, como era de seu caráter.

-Eu não sou mais aquela garota - Ela responde em um tom neutro, satisfeito. Ele a analisa, e ela o faz de volta. Ele parece olhar bem dentro de seus olhos e sorri de leve, aquele sorriso zombeteiro de costume, vendo algo que ela não sabia o que era.

Eram desconhecidos agora, mais do que nunca, estavam perdidos e inalcançáveis um para o outro e por mais que parecesse que nada havia mudado entre eles, tudo estava diferente.

A roda gigante continuava a girar. O tempo da ampola virara.

Quem sabe um outro dia, um outro alguém, uma outra vida. Ela tem de rir com a ideia do pensamento. Era um novo sorriso, um novo vazio, uma nova superação.

E então, surpreendendo até a si mesma, dá um passo em frente e o abraça, sentindo-o enrijecer-se contra si.

-Eu sempre quis que você fosse feliz. - Ela cochicha, segredando baixinho. Ele relaxa e os dois se separam. Ele sorri para ela, genuinamente pela primeira vez desde que conseguia se lembrar.

-Eu ainda desejo que você seja - Ele responde. Os dois trocam um último olhar cúmplice, antes de ele voltar-se para o carro, atrás de Sylvia, que o esperava ainda encostada na porta do veículo. Ela não consegue evitar notar o olhar que ele lançava a esposa, um olhar de carinho, de completude, um olhar perdido.

Ele nunca a olhara assim.

Estava grata. Grata porque haviam se encontrado, grata por um dia, nesse mar de possibilidades que é o mundo, terem tido a oportunidade de se conhecerem. Agora era a vez de Heero e Sylvia, uma nova história, um novo futuro, com um novo fim...

Ela abaixa o rosto, escondendo-o com a franja. Algo lhe ocorre, o que sentira afinal não passara de uma veleidade que saíra de controle, um anseio reprimido, uma saudade de alguma coisa, de uma circunstância que já passara, uma condição que não mais era a sua. Era uma condição melancólica causada pela ânsia de um sonho que nunca realizaria, era isso que fizera seu coração acelerar ao vê-lo.

E ela ri, achando-se boba por ter se deixado levar por algo tão insustentavelmente leve, uma saudade do que tivera com ele e do que tinham sido, de uma época boa, onde as coisas iam bem. Saudade de um tempo remoto, como se tem da infância.

Sim, repete pela última vez. Tudo parecia ter passado tão rápido, como um piscar de olhos. Enganada por memórias, que vinham devagar sem fazer barulho, por uma troca de olhares sutil, demorada, expançosa o sentimento parecera renascer como uma fênix, apenas por um momento, forte no ar. Era uma mentira, uma quimera, uma nostalgia.

Revê rapidamente tudo o que acontecera naquela época, arquivado tão junto na memória, na biblioteca perdida do tempo.

Sente a garganta fechar e engole o choro. Sorri e acena enquanto Sylvia acenava de volta. Apenas um novo adeus, uma nova etapa, um reavivamento da memória, um fechamento, uma conclusão.

Ele encontrara sua felicidade. Já estava na hora de ela começar a procurar pela própria. Suspira, em um som estranho e trêmulo, mesclando-se ao seu sorriso. Seria esse o motivo de tê-lo encontrado? Pois estava muito acomodada onde estava?

Sorri, a memória já bem distante, como um carro que virava a curva na neblina. Por muito tempo, Heero havia sido sua força, mas não era mais. E ela decidira assim. Decidira que teria forças para agir por si própria e precisava conseguir realizar seus próprios feitos. Só assim honraria a promessa que há tanto, fizera para si mesma.

Aquele que um dia amara agora partia, levando consigo a última parte da pessoa que um dia havia sido, para sempre, pela última vez. E ela era nova novamente, se sentia nova e se assegurava nova... Piscara seus olhos e ele se fora.

Por fim, uma lágrima escapa de seus olhos, fugitiva. Era a representação da tristeza sem motivo. Mas estaria bem, ela estaria bem...

Ela sorri, limpando o rosto. Ela piscara os olhos e tudo já havia passado.


Oláááá!
O está muito estranho comigo e acho que ele anda me trollando, os meus espaçamentos e tudo mais o_Ô
Bem, de qualquer forma, espero que gostem do texto, pois ele foi um dos textos mais alterados de toda a história, isso eu posso garantir hahahahaha
Aqui temos Nostalgia, o próximo tema é Dúvida.
Aguardem ^^~
15.05.2013