Tema 10 - Ilusão

"The world is just illusion, trying to change you."

Ela se perdia na sensação do toque. Nas mãos dele vagando pelo seu corpo. Era suplantada pelo peso do prazer. Geme, grita e arranha suas costas, arqueando o tronco, encostando-se mais contra ele.

Ela conseguia sentir em todos os poros de seu corpo a aproximação, o hálito dele contra sua boca, o suave roçar de seus lábios contra os dela, geme baixo.

Ele segurava seus cabelos com tanta força, que não conseguia mexer o rosto, só encara-lo, entregue ao momento, perdição.

Era verdade. Era real.


A porta do café se abre com um sininho e a moça levanta os olhos de seu café e laptop, apenas por um instante, por instinto perante o som desconhecido, mas o choque é tão grande, que a congela no lugar.

Certamente cairia, não estivesse devidamente ancorada.

Ele tinha o rosto corado pelo frio, o cabelo desalinhado e soprava as mãos, para se aquecer. Jamais esperara encontra-lo ali, em um ponto tão distante. Como o mundo podia ser um lugar tão irônico?

Por sorte, ele não parecia tê-la visto e se encaminha para o balcão, provavelmente a procura de uma bebida quente e algo para comer. Sem açúcar, se ela bem lembrava. Detestava se lembrar. Encara o teclado com força sobre humana, se recusando a levantar o rosto, sentindo-se estremecer. Morde o lábio.

Faziam apenas alguns meses, não estava pronta para encara-lo.


Relena casara-se moça, mas sinceramente crera ama-lo. Pareciam sinceramente tão certos um para o outro. Ele era o amargo e ela o doce, Heero o café, ela a baunilha e chantilly. Era tolinho de sua parte, mas era verdade.

Todos os seus amigos diziam e jogavam arroz no relacionamento dos dois. Convencida, entre a certeza imposta e a que cria pertencer a si, acabara se casando.

Mesmo que no dia a dia, perante outros, ele a tratasse com distante gentileza, com toques velados e certo zelo, ela o achara controlado. Não duvidava de seu afeto, muito menos considerara duvidar de sua honestidade.

Ele a tratava bem e ela se sentia bem em sua companhia.

E assim as coisas seguiram por um, dois, três, vários meses.

Ele iria chegar em casa, os dois se sentariam para jantar na longa mesa de jantar de sua refinada casa e trocariam relatos de seu dia. Ele contribuiria com a pauta aqui e ali, educadamente e ela faria o mesmo, sorrindo amavelmente.

Depois iriam se deitar.

"É maravilhoso. Eu o amo, é incrível!" - Talvez se repetirmos a mesma coisa apenas o número suficiente de vezes, como um mantra, elas realmente se tornam verdade, como um código genético de seu corpo, incorporado no cotidiano, parte da vida.

Não sabe dizer o quando aquelas palavras se tornaram pesadas em sua língua, de textura pastosa e estranha. Foi justamente quando as pessoas pararam de perguntar o que estava errado.

-Algo errado? - Ele nunca parara. Heero a olhava com seus olhos vítreos e sua displicência recomposta, quase irritante. Ela lhe sorriria de maneira amável e negaceava com a cabeça. Ele concordaria e colocava a mão na parte baixa de suas costas, como que para reassegura-la, tudo ficaria bem.

Não ficara...


O desgaste emocional que ele lhe causara ainda não havia ido embora, e com isso, não se via minimamente disposta a encara-lo. Respirando fundo, pondera guardar suas coisas rapidamente e, com covardia, dar o fora dali.

Suspira.

Olha através do vidro da loja, não enxergando muito além da neve, embaçado do calor. Se força a desistir da ideia. Não era mais criança e precisava a encarar seus medos de frente. Não fora esse, em primeiro lugar, o problema de seu casamento? O fato de que não podia mais fugir e precisava aprender a encarar consequências, não importando quais essas fossem, ou o quanto machucassem?

Se sentia tão diferente, tão mudada. E ainda assim, tão a mesma.


-Qual o seu maior medo? - E ela acariciava seu rosto, contornando sua mandíbula com suavidade amante, deixando os dedos escorrerem por toda a extensão, vagarosos. Os olhos dele sempre haviam brilhado no escuro e isso nunca deixara de assusta-la.

Ele a olhava fixamente, as orbes incidentes. Os dois estavam nus, deitados na cama, apenas um lençol fino e liso a cobri-los. Por algum motivo, aprendera a não esperar respostas, o que, por si só, já deveria ser um erro. Heero nunca se comunicara por palavras.

Suspira fundo, desviando os olhos por um instante. Começava a se cansar de estar sempre na ponta da espera.

-Tenho medo de estar sozinha - Murmura baixinho, respondo a própria pergunta. A solidão a assustava e naquele instante, sentia tamanha escuridão a banha-la, que apesar das carícias ainda agora findadas, nunca antes sentira-se tão imersa em sua própria companhia.

Havia uma parede. Estava frio e estava sozinha.

Através do vidro, os olhos dele ainda a encaravam, brilhantes, predatórios, como uma cascavel, desenhando as linhas de seu rosto, estudiosos, presentes.

A presença na ausência, causando abstração, distanciamento.


Mesmo antes de ele entrar, sua cabeça repousava em sua figura esfumaçada. Por que pensava nele? Tentara compreender, mas falhava. Por que ele ainda insistir em estar na sua mente?

Por vezes, a encara-lo bem fundo nos olhos tão azuis, se perguntava se não contraíra matrimônio com um desconhecido. Quem era afinal, aquele rapaz tão perfeitamente bonito com quem sem casara? Quem se escondia atrás daquela máscara de frieza? Por que ele não permitia que ela o alcançasse?

Com o passar dos anos, Relena tornara-se especialista em ler as expressões do marido, cada pequeno sinal, cada contorção de desgosto. Era seu maior orgulho e também, seu maior remorso. Por que precisava fazer aquilo? O que havia de errado com a palavra dita? Com a expressão?

Por vezes, sentia falta da carícia de uma pequena palavra, um pequeno conforto, a romper o ar, vindo acariciar sua pele, agraciar seus ouvidos. A casa era fria, silenciosa.

Não há conversa na morte.

Estivera enganada? Ele nunca a teria amado? Como poderia perguntar tal coisa? Como poderia descobrir? Como chegara a esse ponto? Conseguiria retornar?

As dúvidas geravam em sua cabeça, atormentando-a, enlouquecendo-as devagar. O zumbi pelo qual se apaixonara era gelado.

Começara a sentir as mãos frias o tempo todo, todo o tempo, um nervosismo no corpo, um nervosismo na alma.

Alguma vez, alguma coisa havia sido real? Teria ela a capacidade de imaginar tudo? De criar um universo para si? Cada toque, cada palavra trocada, cada carinho contido, uma dúvida acrescida. Quanto mais tentava cala-las, mais as vozes gritavam, tomando-a, jogando-a contra a parede, tomando-a com violência.

Olha-lo passara a doer, estar em sua presença, dor insuportável.

Como conseguir olha-lo nos olhos?

Desconhecido, desconhecido, desconhecido!

Como dizer que o amava?

Iludida, iludida, iludida…

Algum dia a amara? E ela? O amava? O amara? Tudo estava tão confuso, tão estreitamente delirante.

Amor, amor, amor… O que exatamente era isso chamado amor?

Ainda se lembrara quando ele fora viajar. Todos os pensamentos confusos que vagaram por sua mente. Vivia com um desconhecido e o insustentável peso começara a soterra-la. Não conseguiria aguentar, iria quebrar.

Ar faltava a seus pulmões e por mais que saísse para tentar respirar, algo a pressionava contra o chão, uma mão invisível, uma jaula, uma redoma de vidro.

A falta dele na casa era palpável, sólida. O ouvia respirar e se virar na cama a seu lado, o tilintar de sua louça durante o café da manhã. Presença na ausência...

Não aguentaria aquela dor por muito mais tempo. Precisava de respostas, ou sem elas, definharia, sentia-se sumir a cada dia mais.

Nada mais parecia real.

Sentia-se distante, etérea.

E então, chegou o dia do retorno. Sentia-se tão sozinha, abandonada consigo mesmo, vagando pela casa enorme, tantos cômodos para sua solidão abrigar-se, cada vez mais fundo, como um fantasma que perdera total objetivo.

Ainda assim, por um momento, ficou animada, pois agora ele voltaria e estaria a salvo de sua solidão, da pressão em seu peito. Na sua presença, tudo voltaria a estar bem, tudo estaria seguro novamente. Não é verdade?

E, surpresa, ao visualizar seu rosto, o coração deu um pulo, feliz, alegre. Não fora tudo uma mentira? A recente descoberta a regozijara. O amava, o amava, o amava. Sorri para si mesma, boba e tenta controlar-se.

Se o amava, certamente era recíproco. Não estaria enganada. Havia visualizado as coisas de maneira errada, como podia?

A pequena esperança crescia no coração pequenino, sentia que dessa vez as coisas seriam diferentes... Melhores, podia até sentir o gosto da felicidade no fundo da garganta.

Dessa vez ele voltaria, e dessa vez, diferente das outras, ele ficaria ali com ela, sorriria abraçando-a e dizendo que estava tudo bem.

Era um sentimento reconfortante esse que ela sentia, como se tudo agora pudesse mudar, se transformar, a ideia que nunca mais precisaria dizer adeus, a ideia de que estivera enganada e poderia se apoiar nele, contar com sua presença, apoio.

Chame de costume ou comodismo, não se importava. Ele estaria ali e poderia ficar a seu lado, em sua companhia.

Ilusão.

O pior gosto é o gosto da decepção. É amargo, dolorido e desejou nunca tê-lo sentido. Ao chegar, ele a olhara e o coração dela, pulando a mil de saudade e expectativa, parada junto a porta, esperando-o, dissera que tudo ficaria bem. Ela tinha o direito de enganar-se.

-Esteve bem? - E ele segura sua mão de leve e beija sua bochecha, entrando em seguida. Confusa, o segue, com algo entalado em sua garganta.

-Sim - Responde, débil. - Estava… - Com saudades? Era isso que estivera prestes a dizer? De alguma forma, as palavras haviam se tornado areia e ela se cala, sentindo a textura errada da palavra, seu gosto ruim. Subitamente aquilo lhe parecera uma fraqueza que não deveria expor. Não a ele, um alien, desconhecido. Sente os olhos lacrimejarem, mas segura as lágrimas, mordendo o lábio inferior. Ele se vira e a encara, atenciosamente, minucioso.

-Você parece cansada. - Comenta, cuidadoso. As palavras eram ditas vagarosamente, com uma cautela estudada. O que ele queria dizer com isso? - Talvez devesse descansar…

-E você? - A voz dela não passava de um fiozinho, escorrendo devagar de sua boca, não alcançando o chão, sumindo antes de que as ondas pudessem alcança-lo, uma onda que não chegara a praia.

-Ainda tenho muito trabalho a fazer, vou sair novamente. - Ele diz como que para desafia-la, petulante. Ela o encara, magoada, mas apenas acena. Ele abaixa um pouco o rosto, escondendo-o por detrás da franja, mas volta a encara-la, com sua frígida ferocidade felina.

Tudo dentro dela doía.

Estilhaçava-se.

E aquela última vez que o viu se afastar, a roupa preta combinando com o rosto abatido, balançando com a ventania. Cobriu a boca com a mão, não se permitindo expressar nada mais. Todas as palavras haviam se esgotado, rolado pelo ralo, como lágrimas desperdiçadas, uma inútil chuva de verão, em um deserto de anos e anos sem fim.

Ela levanta a mão para encosta-lo, mas a deixa cair, vencida pelo devastador peso da sórdida realidade. Ele não se vira.

Estivera certa o tempo todo, todo o tempo.

A verdade, a verdade da qual tanto tentara se esconder, da qual tanto tentara fugir, a pessoa pela qual se apaixonara não existia, não passava de uma quimera, uma mentira bonita, um tolo conto de fadas.

Heero era apenas uma ilusão. Havia tido uma overdose.

O bipe da máquina de hospital. O observara afastar-se.

Tudo girava.

A máquina apita.


Estranhamente, aquela noite, ele a segurara com firmeza e a tomara devagar, com cuidado amante, incandescente paixão, enlouquecendo-a até seus dedos curvarem e gritar seu nome.

Aquele momento fora genuíno. Ali, estiveram juntos, ali, não houvera espaço para mentiras.

E então, apenas alguns minutos depois, se distanciaram, virando-se cada um para um lado, encarando a parede, uma quebra. A sinfonia do silêncio sempre a terceira companheira, observadora fiel.

O resto se evaporava, como líquido em um dia quente, ficando para trás apenas o sal. Tudo se tornava ilusão, nada havia sido real. Apenas quando a tomava aquilo parecia estranhamente verdadeiro.

Passageiro, passageiro, passageiro.

Tudo parecia fora de lugar, como se pintado por um pintor surrealista. Os relógios ticando, derretidos em meio ao deserto de desilusão.

De seu lado, com um suspiro amargo, Heero a via definhar dia após dia, debatendo-se como uma presa em uma teia de aranha, cada vez mais presa em sua gaiola. A observava sem saber como ajudar, como toca-la, alcança-la através da parede que havia se formado.

Desde quando estivera ali? Seria o culpado por ela?

Relena estava tão distante, tão estranha. Sabia que algo estava errado, que a estava perdendo.

Não sabia o que fazer.

Havia uma falha na troca de informações? Um desentendimento perpétuo?

Seriam as pessoas erradas uma para a outra, como suspeitara desde que tudo aquilo começara? Sempre soubera que a destruiria, embora tentasse negar, se iludir. Não podia ama-la como ela precisava e agora, mesmo depois de tudo, não podia negar-lhe alforria.

De se importar, viera a ama-la e a precisar dela, de sua companhia, sua voz, seu sorriso, ternura, atenção.

A amava demais para lhe negar algo tão essencial como liberdade. Como poderia ficar parado, vendo a decisão que se formava atrás de seus olhos claros, de sua postura rígida? A rotina a matava, sufocando-a aos poucos e devagar. Ele a deixaria ir, pois sabia, no fundo tudo sempre esteve errado, sempre haviam sido a pior fórmula.

Naquela altura loucura seria negar a realidade, enganar a si mesmo.

Trêmulo, inseguro, revira-se na cama, puxando a franja para trás devagar, ouvindo-a fazer o mesmo.

Algum dia teriam tido uma chance? Ou tudo fora um truque pregado por sua mente? Agarrara-se a suas próprias conclusões como ferro, queimando-se, expurgando sua culpa. Ela nunca iria ama-lo como ele conseguiria corresponder. Ele nunca conseguiria demonstrar a ela sua importância.

Algum dia o teria amado? Se importado de verdade?

Fecha as portas de dúvidas, o dilúvio antecedente da salvação, renovação completa. Estar vivo era uma ilusão. Era passageiro. Ela estava partindo.


Relena solta o ar que não percebera ter travado novamente e assopra a franja no processo, arriscando olha-lo de esguelha. Ele terminava seu pedido, um café, nada mais. Volta-se para seu livro, sentindo o pescoço doer pela força de sua tensão.

Sua força esvanecia, todo o seu esforço. Ainda precisava de tempo.

Era estranho, mas sabia haver algo errado. Sempre houvera, não sabia o quê.

Seu coração falha um compasso inteiro ao notar que ele estava na porta. Sem se conter, os olhos amendoados alcançaram os dele através da multidão. Por um instante, os dois seguraram o olhar, suspenso, forte, intenso.

Ele não parecia surpreso. Muito menos abalado e ela volta a culpar sua fraca humanidade.

Ela sentiu a garganta fechar e as orbes doerem. Era como se fumaça estivesse entrando em seu organismo, devassa e sórdida. Ela queria chorar e desmanchar-se, degringolar.

E depois, apenas com isso, ele havia partido. Saído pela porta e nunca mais o vira.

Do lado de fora, ele puxava o ar em grandes tragadas engasgadas, correndo pela rua, fugindo, querendo o máximo possível de distância de seu coração disparado.

É raro momento em que a realidade é mais fácil do que a fábula, embora, muitas vezes não estejamos prontos para encara-la.

Fora real.

Haviam perdido.

Toda a cor fora lavada, sobrando apenas a tela em branco, desbotada, pronta para ser pintada, preenchida novamente.


Olá! :D
O tema da vez era 'Ilusões' povo bonito e cheiroso!

Acreditam que voltamos, depois de todo esse tempo? Ou estão tão passados quanto a gente? hahahaha

Essa história, para quem interessar, é continuação direta do primeiro tema 'Gelo'. Ela explora e brinca mais com aquela história, mas são exatamente a mesma, apenas vistas de um novo ângulo. Sim, estou reciclando textos e ideias :)

Adoro fazer intertexto com meus próprios textos.

Espero que curtam e espero que, em breve, estejamos de volta aqui, com a próxima resposta ^^

Desculpe qualquer coisa. Para dizer a verdade demorei demais com o texto, pois apesar de gostar dele e seu desenvolvimento, havia algo claramente errado com o ritmo da narrativa e fiquei tentando consertar :( Acabei desistindo, deixando como estava...

PS - Desculpe Nicks, esqueci de postar a resposta no dia certo ^^'. Ela ficou aqui no meu pc, descansando, esperando minha boa vontade e revisão ^^'.

02.10.2015

Suss