Shades of fire and hope

Capítulo 1

Hastings, 21 de setembro de 1843.

Querida Victoire,

Como você deve saber, amanhã completo oficialmente duas décadas de vida. Vinte anos é uma boa idade pra frequentar os grandes bailes de Londres? Preciso de aulas avançadas de etiqueta, dança e tudo o mais que você puder me ensinar, por favor!

Papai ainda acha que não seja uma boa ideia passar uma temporada inteira fora de casa, ainda mais pra uma pessoa acostumada com a vida no interior, como eu. Mas no fundo ele sabe que as minhas únicas chances de deixar essa cidade onde ninguém me vê com bons olhos e recomeçar num lugar onde ninguém saiba quem sou e nem minha condição é agora, caso eu perca mais cinco anos da minha vida, talvez tenha que me declarar oficialmente uma feiticeira solteirona nesse fim de mundo. Antes disso, espero ao menos poder causar ao menos uma boa impressão na corte de Londres, apesar de não esperar muito mais que isso, com meus modos provincianos.

Por falar em boa impressão, quase fui proibida de viajar. Alguns dias atrás eu estava lendo um dos periódicos franceses que você me enviou e decidi começar uma nova dieta, na tentativa de afinar esse meu rosto arredondado. Tudo estava indo bem, até eu decidir nadar no riacho na tarde da última quarta-feira. Eu desci a colina montada em Hares, com o sol batendo nas minhas costas. Meu estômago estava pedindo comida, mas eu decidi não me preocupar com aquilo. Assim que cheguei, deixei Hares embaixo de uma árvore, despi-me em minhas roupas debaixo e entrei na água.

Não me lembro ao certo se foram dez minutos, meia hora ou uma hora que fiquei submersa. As últimas coisas que me vêm à memória são apenas a imagem da pelagem escura de Hares brilhando no sol e logo depois eu estava encharcada no colo do meu pai, na outra beira do riacho, tossindo meus pulmões pra fora em busca de ar. E o pior, o médico que me visitou naquela noite deu o diagnóstico em frente ao velho Ronald Weasley: eu estava anêmica e havia desmaiado, devido ao sol e ao esforço.

O resto da história você pode imaginar, já que conhece meu pai. Acho que essa foi uma das únicas vezes que não desejei que Hugo estivesse de volta da França, pois ele se comportaria como uma reprodução do papai.

Querida prima, você não sabe o quanto sinto a sua falta aqui. Desde que Hugo partiu para estudar, suas cartas, livros e Bichento têm sido minha única distração. E graças a isso, se você conseguir uma pomada mais potente em Londres para arranhões... compre imediatamente! Ontem tentei dar um banho na nossa bola alaranjada de pêlos e quase fui fatiada viva. Estou em desespero. E se as marcas não saírem até que eu chegue em Londres? Terei que usar mangas longas o tempo todo?

Espero que essa carta chegue até você antes do dia da minha partida.

De sua mais fiel escudeira,

Rose Weasley

Scorpius Malfoy deixou a mão que segurava a carta tombar preguiçosamente sobre o banco da carruagem, ao mesmo tempo em que afrouxava o nó da gravata com a mão livre. Não podia deixar de sentir um pouco de tensão enquanto os cocheiros avançavam em direção à floresta.

A umidade excessiva tornava o ar asfixiante. Qualquer posição nos bancos estofados ainda sim fazia suas costas doerem com o sacolejar do veículo passando por cima do cascalho e eventuais raízes que serpenteavam no meio da estrada.

Um uivo conhecido cortou a noite. Eles já estavam próximos e nada poderia falhar. Scorpius não podia se dar o benefício da dúvida. Tudo fora planejado minuciosamente, descartando todas as hipóteses de algo que tivesse chance de dar errado. Mas a importância de tudo aquilo era tamanha que ainda sim ele não conseguia deixar de sentir o sangue correndo de uma forma especialmente mais dolorosa em suas veias juntamente com a tensão que crescia dentro de si à medida que adentravam cada vez mais no coração da morada das árvores.

Os cocheiros pararam. Através da janelinha sobre as portas ele pôde visualizar um ponto luminoso cerca de dez metros de sua própria carruagem. Num salto mais rápido, ele deixou os assentos estofados e no segundo seguinte já estava ao lado de uma pequena e rústica carruagem, de apenas um cavalo, cuja porta jazia aberta enquanto um segundo cocheiro desconhecido descansava ao seu lado.

- Espero que ela não tenha fugido. – Scorpius proferiu, num tom de frieza não condizente com os golpes que seu coração dava em seu peito enquanto ele encarava a porta escancarada.

- Dentro da carruagem, milorde. – o homem indicou, respondendo à expressão de ansiedade que Scorpius demonstrava em seus olhos claros.

Ele apanhou a tocha presa perto da árvore, único ponto de luz que iluminava o local em meio à copa fechada das árvores naquela noite na qual a lua também havia resolvido se esconder. Um cheiro forte conhecido chegou às suas narinas à medida que ele ia chegando mais perto do interior da carruagem. Aproximou a tocha, e seus batimentos pareceram parar por completo naquele momento. A luz iluminou o interior do veículo e um brilho vermelho intenso respondeu à claridade alaranjada e ele teve a certeza de que tudo aquilo havia dado certo.

Uma jovem jazia desacordada nos assentos. Parte de seu penteado havia se desfeito, e mechas de seus cabelos refletiam o brilho da tocha nos tons de vermelho que havia chegado aos olhos dele. O cheiro de éter no interior da carruagem estava insuportável e ele notou que ainda havia um lenço empapado pelo líquido sobre os lábios dela, o qual ele arremessou para longe num único movimento, sentindo uma mistura de raiva e temor crescendo dento de si.

- VOCÊ ESTÁ TENTANDO MATÁ-LA? – Scorpius vociferou, colocando o polegar rapidamente sobre a artéria no pescoço da garota e suspirando de alívio ao ver que o sangue ainda pulsava, mesmo que de forma bem mais fraca que o normal.

- O que houve, senhor? – o cocheiro apareceu imediatamente ao seu lado.

- Esse cheiro, esse lenço, você estava tentando dar uma dose letal pra mata-la de uma vez? – Scorpius indagou furioso, surpreendendo-se com seu próprio estado de nervos.

- N-não, milorde, eu apenas pretendia ter certeza de que ela iria permanecer inconsciente até a sua chegada. – o homem apressou-se em dizer, enquanto Scorpius tomou a garota em seus braços para retirá-la de dentro da carruagem. – Você não sabe o quanto ela lutou pra escapar de mim.

- Basta. – Scorpius retorquiu, retirando um saquinho de couro que trazia pendurado ao lado da espada em sua cintura e estendeu ao homem. – Creio que isso deva bastar, não? – indagou, observando o homem sorrir com o tilintar metálico do saquinho ao balançar.

- Com certeza, milorde. – ele disse, agarrando o objeto com um brilho faminto nos olhos.

- Antes de sair, cuide de sumir com a carruagem e os cavalos. – Scorpius proferiu, retirando o próprio casaco e cobrindo o corpo da jovem, antes de se virar em direção à sua própria carruagem. – Teddy, eu sei que você está aí. – ele disse, assim que o homem se distanciou na outra carruagem. – Podemos voltar para Hampshire agora.

Um enorme lobo de pelagem cinzenta emergiu lentamente da escuridão, com seus olhos amarelos brilhando sob a luz bruxuleante da tocha. À medida que avançava, seu corpo foi modificando sua forma, até transformar-se na silhueta nua de um homem alto e forte, aparentando pouco mais de vinte e cinco anos, de cabelos escuros e olhos castanho-claros.

- Suas roupas estão dentro da carruagem. – Scorpius proferiu, dando as costas ao homem e voltando para o assento estofado em couro branco com a garota em seus braços.

Assim que se sentou a um canto, tratou de acomodá-la em seus braços. O rosto dela estava sem cor e sua respiração estava fraca. Ele teria de tomar bastante cuidado durante o trajeto sacolejante até sua propriedade em Hampshire, caso contrário ela poderia desfalecer ali mesmo.

- Maldito seja! – ele praguejou o homem, ainda conseguindo sentir o cheiro de éter que emanava dela.

Ele retirou um lenço do bolso do casaco e rapidamente limpou todo o rosto dela, até o cheiro se extinguir, em seguida atirando o lenço para fora da carruagem. A jovem suspirou e ele sentiu enfim que seus próprios batimentos cardíacos estavam começando a diminuir a intensidade.

Teddy entrou na carruagem e fechou a porta atrás de si, dizendo algo para os cocheiros e em seguida a carruagem entrou em movimento outra vez. Scorpius apenas manteve seu olhar fixo no rosto sereno da jovem em seu colo. Ele estava segurando sua última esperança, no caminho de volta para Hampshire.

- Minha druidisa. – murmurou, acariciando os cabelos vermelho-escuros, enquanto a carruagem começava a sumir novamente em meio à floresta escura.