Felicity corre.

Ela nem consegue parar para pensar. Ela não pode. Deixando o Oliver para trás para enfrentar o Slade é incompreensível para ela, mas ela agora tem a Ellie. Sua filha. A filha deles.

Não há dúvida em sua mente sobre o que aconteceria com a menina, que agora choraminga em seu ombro, se Slade colocasse as mãos sobre ela. Ela iria ajudar qualquer criança nessa posição. Mas essa criança, essa garota... A necessidade de mantê-la segura é quase primitiva, de uma intensidade esmagadora.

Então, Felicity corre. Ela corre numa velocidade que seu professor de ginástica do colégio nunca teria pensado que ela seria capaz, sem contar que ela está com um salto de 8cm e carrega uma criança de mais ou menos 14kg, que está choramingando, agarrada a seu pescoço.

Todos os seus sentidos estão em alerta, acentuado pela adrenalina e medo, mas ainda assim os únicos sons que ela registra em são gritos abafados da Ellie, as batidas de seu próprio coração e as batidas de seus sapatos contra o pavimento irregular à medida que chega ao carro e abre com força a porta do lado do motorista.

Ela empurra a Ellie, em primeiro lugar, colocando a menina na parte de trás do carro - porque as crianças devem se sentar atrás, certo? Isso é o mais seguro? - E por um segundo ela pausa ao se deparar com o olhar lagrimejante da menina, antes de virar a chave na ignição.

"Coloque os cintos, ok?" Felicity diz ela.

"Esse carro não tem cadeirinha," Ellie diz, lábio inferior tremendo enquanto ela olha para trás. "E eu não sei como colocar o cinto."

Felicity sente seu coração apertar. Cinco minutos como uma mãe e ela já está falhando. Maravilha.

"Ok, isso é... Nós precisamos que você esteja fora da vista de qualquer maneira. Você pode se sentar no chão e ficar ai embaixo?" ela pergunta, com urgência em sua voz.

"Como quando brincamos de esconder do homem mau?" Ellie pergunta com um olhar inocente.

Felicity engasga um pouco com as implicações disso. Que tipo de vida que ela tem dado a essa garota? Que tipo de infância inclui jogos para o que fazer em um ataque que são disfarçados de brincadeiras?

"Sim, meu amor, como essa brincadeira," Felicity responde.

A menina balança a cabeça com firmeza, mas não diz nada, curvando-se para tornar-se o menor possível no chão do banco de trás. Algo dentro da Felicity morre um pouco com a visão, mas ela não tem tempo para pensar sobre isso. Agora não.

Apesar do fato de que o Slade está atrás delas, Felicity dirige dentro do limite de velocidade, sem desobedecer nenhuma lei de trânsito, mesmo que sua vida dependa disso. E depende. A da Ellie certamente depende.

Ela não consegue deixar de olhar para trás em direção à menina, cada vez que para o carro. Cada vez que ela o faz, ela meio que espera ver um nada lá. Porque isso é loucura. É loucura. E, considerando o tipo de coisas que eles passam rotineiramente, ela sente que isso é realmente impressionante.

"Quantos anos você tem?" Felicity pergunta em voz alta depois de alguns minutos, enquanto elas desaparecem num mar de carros que inunda a área mais comercial da cidade diariamente.

Ellie não responde e Felicity olha mais algumas vezes para garantir que a menina ainda está lá. O que aconteceria com ela se Oliver perdesse? Se Slade o matou? Será que ela desapareceria como se nunca tivesse existido em primeiro lugar? Só de pensar nisso, a Felicity passa mal.

"Ellie?" ela pergunta novamente, a menina olha para ela com hesitação visível em seu rostinho bonito.

"Eu não posso falar durante este jogo, mamãe", ela sussurra com grande seriedade.

"Oh..." Felicity responde pensando que isso faz muito sentido. "Está tudo bem agora. Nós não estamos realmente jogando mais. Só... Fique aí embaixo, pois posso ter problemas se alguém vê-la em um carro sem a cadeirinha, ok?"

"Tá bom", Ellie concorda. "O papai está bem?"

O medo em sua voz é angustiante e Felicity respira fundo, tentando achar a melhor maneira de responder.

"Tenho certeza que ele está bem", ela responde, finalmente, o que é a verdade, porque Ellie ainda está aqui. "Seu pai é muito forte, ok? E eu sei que ele vai fazer tudo que puder para voltar para nós."

"Eu sei", Ellie responde com um pequeno suspiro. "Isso é o que você sempre diz."

"É mesmo?" Felicity pergunta, rabo de cavalo balançado para o lado quando ela olha surpresa para a menina.

"Sim", Ellie diz, sem ter ideia de quanto peso esta afirmação realmente tem. "Você

me diz o tempo todo que o papai nos ama e ele sempre vai fazer tudo o que puder para nos manter seguras e voltar para casa."

"Eu falo?" Felicity pergunta distraída, sem saber como ela ainda está conseguindo conversar, quando no momento ela nem mesmo consegue respirar sobre o peso da declaração da Ellie. "Eu lhe digo que ele nos ama?"

"É claro", Ellie diz, olhando para ela com uma cara confusa. Provavelmente porque ela está. "Ele me diz, também. Famílias fazem isso, mamãe."

A família dela não fazia isso. Não quando ela tinha a idade da Ellie. Ela apostaria um bom dinheiro que a família do Oliver também não. Mas a família da Ellie... A família deles... Eles deram isso a ela, pelo menos. Pode haver incerteza e perigo em sua jovem vida, mas há uma sensação de estabilidade, também. Há uma certeza que seus pais a amam, que eles se amam. E isso já é algo. Talvez seja tudo.

"É... Tá certo," administra Felicity.

"Onde estamos indo?" Ellie pergunta e logo depois pede "Eu tenho que fazer xixi".

"Você não usa uma fralda?" Felicity pergunta.

É um pouco absurdo o quanto ela está aliviada. Ela realmente não estava ansiosa para trocar fraldas.

"Eu tenho três anos e meio," Ellie diz a ela com os olhos intensamente graves, que a faz lembrar o Oliver de maneira surpreendente. "Eu não sou um bebê."

"Certo. É claro. Eu sei disso," Felicity diz, como se ela tivesse alguma ideia qual a idade média para as crianças deixarem de usar fraldas.

Olhando em volta, ela percebe que ela indo em direção a Queen Consolidated, sem realmente nem pensar sobre isso. Uma olhada rápida no celular, e a tela não mostra nenhuma chamada perdida - algo que ela tenta não pensar, porque Oliver teria ligado se ele já tivesse acabo com o Slade. Considerando tudo, QC não é um lugar terrível para elas no momento. O prédio tem muito mais segurança do que seu apartamento. É um terreno familiar e tem a sensação de segurança que vem de estar cercada por pessoas que ela meio que conhece.

Desde que essas pessoas que ela 'meio que conhece' não inclua a Isabel.

Ela tem quase certeza que a Isabel assumiu o cargo que Robert Queen costumava ter quando ele ainda era o CEO, o que significava diferentes andares – significa diferentes cantos do edifício.

"Nós vamos para a Queen Consolidated", ela decide em voz alta. "Vai ser apenas alguns minutos. Você pode segurar até chegarmos lá?"

"Sim", confirma Ellie. "Queen Consoli... Conso... O que é essa palavra?"

"Consolidated", Felicity diz a ela, e segue em direção ao prédio de escritórios. "É difícil."

"É um nome engraçado", diz Ellie, falando com grande seriedade. "Isso tem alguma relação com a Queen Inc?"

"Como o quê?" Felicity pergunta.

"Como sua empresa, mamãe", esclarece Ellie.

"Minha... Minha empresa?" Felicity pergunta, as sobrancelhas elevando para níveis anteriormente desconhecidos.

"Sim", Ellie diz distraidamente, sem saber a notícia bombástica que deu. "Papai diz que você é melhor no comando do que ele. Tia Thea diz que não é muito difícil. Você tem Trakinas, mãe? Eu estou com fome."

"Eu... Não, eu não tenho Trakinas," Felicity diz, tentando processar tudo Ellie está dizendo a ela.

Ela não consegue se lembrar da última vez que comprou Trakinas. MIT? Talvez? Ela é, na verdade, do tipo que só toma café pela manhã.

"Vamos encontrar alguma coisa para comer em breve, ok? As máquinas de lanche na sala de descanso têm que ter alguma coisa", Felicity diz, murmurando a última parte para si mesma.

Ela irá assaltar a geladeira da sala de descanso, se necessário. Edith, da contabilidade, sempre deixa rosquinhas lá e ela não é orgulhosa demais para roubá-las para alimentar sua filha. Ou ela mesma, sendo bem honesta.

"Ok", Ellie diz facilmente.

Felicity vai para a garagem no subsolo. Uma das poucas fantásticas vantagens que tinha em ser assistente executiva do CEO era ter a sua própria vaga no estacionamento... Mesmo que sua posição tecnicamente já não exista mais – pelo menos não para ela - provavelmente ela existe para alguém, alguém desesperado o suficiente por um emprego para aceitar trabalhar para Isabel, presumindo que essa pessoa não seja muito supersticiosa. Será que ainda é dela? O local está vazio, então a Felicity espera que a vaga não tenha sido repassada para outra pessoa, porque ser rebocada seria um saco. Mas elas estão com poucas opções, ela estaciona e desliga o veículo.

"Posso levantar agora?"

"Sim, querida", diz Felicity, os olhos correndo ao redor do estacionamento enquanto ela fala. "Nós iremos sair daqui rapidamente, não quero você andando por ai, ok?"

Ellie balança a cabeça como se ela estivesse tomando as palavras ao coração, seu pequeno rosto mostrando determinação de uma forma que mais uma vez, notavelmente, a faz lembrar o Oliver.

"Nós não vamos ficar aqui?" Ellie pergunta para a Felicity enquanto ela pula para o banco da frente e coloca seus pequenos dedos na mão da Felicity.

Felicity faz uma pausa com a visão desses pequenos dedos colocados com tanta confiança em suas mãos. O aperto da Ellie é suave e sem esforço, enrolando em sua mão com facilidade, pratica criada a partir da familiaridade. Em algum ponto no seu futuro, isso é normal, segurando a mão dela. É uma coisa tão pequena, em comparação com tudo que estava acontecendo hoje, mas isso lança Felicity para em um loop e ressurge a necessidade de proteger esta criança. É estranho, se sentir instantaneamente conectada a alguém de forma tão intensa. E ainda... E ainda assim, é inegável.

"Não, nós não ficaremos aqui," Felicity diz ao sair do carro e ela pega a menina no colo, não só porque ela quer, como também porque precisa, a fim de mover-se rapidamente.

"Por que o homem mau pode nos procurar aqui?" Ellie questiona, com os olhos arregalados com profunda preocupação, enquanto elas entram no elevador.

"Talvez," Felicity admite, sem vontade de mentir sobre isso. "Mas não imediatamente, ele não tem super-velocidade como Barry, não é? E o seu pai está na foundry... Na caverna, eu quis dizer na caverna - e ele está lutando contra ele, de modo que estamos seguras, ok?"

A menção do Oliver acalma Ellie quase que instantaneamente.

Se ela parar para pensar sobre isso, irá se assustar com a facilidade que se refere ao Oliver como o pai da menina, mas ela não faz. Em vez disso, ela olha para seu telefone para ver se ainda não tem nenhuma chamada perdida ou sms e ela tenta não deixar que isso a preocupe ainda mais.

Dane-se, ela decide. Ela vai mandar uma sms. Ela deve ser muito cuidadosa sobre o que ela vai escrever, para o caso do Slade de alguma forma ter acesso ao telefone.

"Eu vou colocar você para baixo por um minuto, Ellie", ela diz para a menina, antes de colocar a menina para baixo.

Os dedos da Ellie emaranhado novamente com os dela e Felicity descobre rapidamente que sms com uma mão é uma forma de arte que ela ainda não domina.

"Nós estamos seguras. Em movimento. Ligue quando estiver disponível."

Ela relê duas vezes antes de enviar e respira lentamente olhando para os números do elevador indicando que elas se aproximam do destino esperado.

"Eu queria que o papai estivesse aqui," Ellie diz em voz baixa, ao mesmo tempo em

que o elevador apita.

"Ei, nós vamos ficar bem", Felicity diz a ela, ajoelhando-se para ficar no nível da Ellie e a fala com um tom de confiança. "Eu vou mantê-la segura. Eu prometo."

"Eu sei", Ellie diz, parecendo mais triste do que a Felicity acha que ela pode suportar. "Eu só quero papai".

"Eu também", murmura Felicity sob sua respiração ao sair do elevador e em direção ao escritório com paredes de vidro. Do lado de fora, a cidade é iluminada pela lua e é um pouco desconcertante observar seu reflexo ao entrar no escritório de mãos dadas com sua filha.

"Há um banheiro ali", Felicity diz, apontando para a pequena sala fora do escritório do Oliver – ou o que costumava ser seu escritório, pelo menos. A sala está sendo esvaziada, deixando para trás somente a mesa e computador. Isabel não quer perder tempo mesmo. "Você... Hum, você precisa de ajuda?"

Ellie balança a cabeça negativamente e segue para o banheiro, fechando a porta silenciosamente. Somente após Felicity ter certeza que não pode mais ver a menina, ela se joga na cadeira, respirando fundo. Ela se permite por trinta segundos parar para sentir como tudo isso é assustador, antes de voltar ao controle de suas emoções.

Ela liga o computador, mordendo a ponta da língua, resultado de um tique nervoso.

Ela disse a Ellie a coisa certa - elas não podem ficar aqui. Mas elas não podem voltar para a sua casa também. A foundry está comprometida. Ela precisa esconder uma criança de três anos do mundo e ela não tem a menor ideia de como fazer isso. Usar nomes falsos em um hotel, talvez? Uma ligação de telefone muito estranha para Lyla? Ela rapidamente descarta a segunda opção. Ela não quer a Ellie no radar de Waller, assim como ela não quer a Ellie no radar do Slade.

Vai ter que ser um hotel. Ela não consegue pensar em outra opção.

Enquanto o site do Starling City Plaza está abrindo, Felicity pensa se talvez um hotel menos conhecido não seria uma ideia melhor. Nesse momento ela ouve o barulho do elevador anunciando a chegada de alguém.

Merda.

Rapidamente ela olha para o lobby, o pânico ao poucos vai tomando conta dela, da cabeça aos pés. Sem pensar, ela corre e se posiciona na frente da porta do banheiro, antes mesmo das portas do elevador se abrirem.

Será que para o Oliver é sempre assim? Será que ele sente o tempo toda essa necessidade instintiva de proteger as pessoas ao seu redor? E se for, como é que ele

consegue? Ela tem sentido isso por menos de uma hora e ela já está exausta.

Seu primeiro pensamento é Isabel – talvez alguém que a viu nas câmeras de segurança? - E, em seguida, seu pensamento é Jimmy, o guarda da segurança para quem ela sempre comprava um bolinho toda vez que saia para comprar café, já que por ordens da Isabel, ele agora teria que escoltá-la para fora do prédio, como se ela fosse uma criminosa.

Se a pessoa no elevador for o Slade, a Felicity não pode dizer que ela está preparada - não há preparação para o Slade - mas ela está esperando por ele.

Mas não é ele.

Não, é a segunda pior opção, que ela poderia pensar.

Ok, talvez terceira. Ou quarta. Waller e Isabel, provavelmente, seriam piores opções do que Moira Queen. Talvez. Possivelmente.

O barulho dos passos dela precede a sua chegada.

"Senhora Queen," Felicity grita mais do que outra coisa.

Tranquila e serena, ela não está.

"Senhorita Smoak", Moira responde com um sublime ar de confiança que faz Felicity titubear. "Eu estava esperando encontrar meu filho no escritório dele. Ele não está retornando minhas ligações..." Olhos penetrantes da Moira correm pelo escritório vazio. "Mas eu posso ver que ele não está aqui."

"Não", Felicity diz, visivelmente inquieta. "Não, ele não... Está aqui. Obviamente. Ele está em uma reunião fora do escritório. Não tem relação com a Queen Consolidated porque Srta. Rochev tipo, você sabe..." Ela faz um movimento de corte e Moira apenas olha para ela. "Mas você provavelmente já sabe, porque todo mundo sabe, porque só se falava disso no noticiário. E porque este é, ou era... Sua empresa. Uh... Então, Oliver está por aí, mas ele não está aqui. Eu posso... uh... Eu posso avisá-lo que você passou por aqui?"

Meu Deus, ela precisa ser mais sutil. Ela realmente, realmente precisa ser mais sutil. Ela é a pior mãe secreta de todas.

A Felicity olha para a porta do banheiro, secretamente desejando que a Ellie demore mais um pouco, enquanto ela tenta pensar em algo para dizer. Qualquer coisa.

Palavras. Falar palavras.

Moira Queen é um monte de coisas, mas estúpida não é uma.

O olhar da mulher mais velha se intensifica e Felicity engole seco, alto o suficiente que ela consegue ouvir.

Ela precisa aprender a trabalhar em missões secretas. Ou treinar. Ou ambos.

"Onde, exatamente, você disse que o Oliver foi?" Moira questiona com foco nela, que

faz o estômago da Felicity revirar.

"Eu... ah..." Felicity começa, mas ela é interrompida pela abertura da porta do banheiro e Ellie saindo.

Dizer que o seu coração saltou direto para fora do seu peito é um eufemismo.

"Mamãe, eu não consigo fechar o botão", Ellie diz, soando um pouco frustrada, puxando a calça jeans.

Em outras circunstâncias, Felicity poderia ter saboreado o olhar de choque no rosto da Moira. Mesmo agora, ela sente algum triunfo, o que é ótimo, mesmo sem saber se é algo positivo ou não. A mulher está sempre num pedestal, acima de todos e agora ela parece... Normal. Mas ela não pode se habituar a essa abertura da Moira Queen, não agora. Ela não tem a oportunidade de saborear essa sensação de vitória sobre a futura sogra do inferno.

Oh Deus, ela realmente pensou isso?

Isso está, literalmente, além da sua capacidade de processar nesse momento, então ela corre até Ellie, se ajoelhando na frente da menina, ajudando com botão da calça antes de pegá-la e abraçando-a enquanto ela limpa uma sujeira em seu rosto dela.

"Eu não sabia que você tinha uma filha, senhorita Smoak", Moira diz lentamente, com os olhos fixos na Ellie, com uma expressão ilegível.

"Eu também não sabia", passa rapidamente por sua mente, mas Felicity tem o bom senso de não dizer.

Milagrosamente.

Ao contrário, ela permanece estranhamente silenciosa e segura Ellie um pouco mais de força.

"Oi," Ellie diz timidamente para a Moira, inclinando seu pequeno rosto contra o ombro da Felicity. "Quem é você?"

A pergunta intriga a Felicity. A Ellie não sabe quem a Moira é. Ela não conheceu sua avó. Como assim?

"Olá", Moira diz, com uma suavidade em sua voz, que Felicity não acredita que a Moira fosse capaz, e não acreditaria se não tivesse ouvido pessoalmente. Um olhar peculiar transforma seu rosto, e ela parece tão diferente que é dissonante. "Meu nome é Moira Queen. Qual é o seu nome?"

"Sério?" Ellie pergunta, parecendo totalmente encantada. "Meu nome é Elizabeth...".

"Oh!" a mão da Felicity cobre a boca da menina com um riso estranho que soa mais como um gato moribundo, o som se mistura com susto da Ellie.

A mistura de surpresa e desconfiança no rosto da Moira é cem por cento

compreensível, dado que, na verdade, ela está agindo como uma louca total.

Os olhos da Moira permanecem na Ellie, antes de voltar para Felicity, franzindo as sobrancelhas, analisando-a de maneira minuciosa e a Felicity tem vontade de gritar, a pressão começa a tomar conta do seu peito.

As perguntas nos olhos da matriarca Queen são mais terríveis do que qualquer coisa que o Slade poderia incitar, e não pela primeira vez – parece mais que é a milionésima vez desde que ela deixou a foundry - Felicity gostaria que o Oliver estivesse lá com ela.

"Sinto muito," Felicity estremece, recuando de volta para sua mesa, para pegar sua bolsa e correr. "Nós só... Sinto muito, nós temos que ir."

"Será que o homem mau ta vindo?" Ellie pergunta, com um tom de preocupação na voz, e Felicity sente como se estivesse desmoronando sob o peso do olhar demasiadamente perspicaz de Moira Queen.

"Senhorita Smoak", Moira diz, com uma voz que faz a Felicity lembrar-se da sua mãe quando ela explodiu acidentalmente o microondas aos 13 anos. "Eu acho que é melhor você me dizer exatamente o que está acontecendo aqui."

"Eu..." Felicity começa, os olhos pulando da Moira para o elevador e volta para Ellie. "É..."

Ela não sabe o que dizer. Qualquer explicação que ela pode pensar diria muito para a Moira Queen. E isso é uma péssima ideia. A ideia é horrível. Algo que é melhor deixar para Oliver lidar, não ela.

"Eu sei o que o medo de uma mãe por seu filho parece, Felicity," Moira continua, com uma voz mais doce e isso surpreende a Felicity, tanto quanto som de seu nome nos lábios da outra mulher e a compreensão que ela encontra e isso faz com que ela queira dizer a ela tudo o que está acontecendo, e realmente é muita coisa.

Ela não pode, porque é uma ideia terrível, horrível.

"Eu já estive onde você está agora." Moira dá um passo em direção a ela. "Eu não gosto desse olhar no rosto de qualquer mãe. Por favor."

"Há..." Felicity vacila antes de se ver admitindo, "Há alguém atrás de nós".

"O pai dela?" Moira pergunta gentilmente.

"Não", Felicity ri nervosamente. "Não, não é isso... Não. Há... O pai dela fez algo, anos atrás. Na verdade, ele não fez algo, mas há alguém que pensa que ele fez e ele o odeia por isso. E esse homem, ele faria..." Felicity ergue Ellie mais para perto, seus olhos se fechando rapidamente, pensando nas possibilidades... Ela perde o olhar que passa pelo rosto da Moira. "Ele faria qualquer coisa para fazê-lo sofrer. Então, eu estou... Eu só... Eu preciso

manter Ellie segura."

Há um longo momento de silêncio. Um olhar de grave seriedade no rosto da Moira mostra que ela entende exatamente o quanto elas estão em perigo.

"Eu tenho certeza que você vai entender que isso soa intensamente familiar para mim, num nível muito pessoal," Moira finalmente diz.

Felicity pisca.

O Empreendimento.

Foi realmente assim como Moira sentiu? A razão pela qual ela ajudou a destruir o Glades? Felicity não pode tolerar as escolhas dessa mulher - ela nunca irá - mas ela entende, à luz dos acontecimentos de hoje, ela entende um pouco mais a posição impossível em que a outra mulher se encontrou.

Não havia uma boa escolha.

"Eu sempre me perguntei... Se eu tivesse alguém para quem eu pudesse ter me virado e pedido ajuda, será que as coisas teriam ocorrido de maneira diferente?" Moira meio que sugere, erguendo as sobrancelhas.

Felicity pisca. "O que?"

"Correr e... O que, se esconder em um hotel?" Moira pergunta, apontando para a tela do computador. Felicity se encolhe – percebendo que ela não encobriu seus passos. "Isso não é a resposta. Você e sua filha vão para a Mansão Queen, onde nossa equipe de seguranças irá garantir que vocês duas estejam seguras."

"Oh, não... Senhora Queen, isso é..." Felicity começa.

"Moira", a outra mulher interrompe. Ela sorri e é genuíno, fazendo a Felicity vacilar. "Por favor, Felicity, eu acho que passamos do ponto das formalidades, não é?"

"Mas... Você não me suporta!" Felicity deixa escapar antes que ela possa pensar duas vezes sobre o que ela está dizendo. "Eu disse ao Oliver sobre a Thea. Você me ameaçou. Você disse que se eu contasse ao Oliver, ele nunca iria confiar em mim de novo, basicamente, insinuando que você iria ajudá-lo a chegar a esse ponto, e...".

"Vamos apenas dizer que pode ter havido algumas coisas que eu julguei errado sobre você", diz Moira. Ela sorri novamente. "Bem como algumas coisas sobre o seu relacionamento com o meu filho."

O sangue da Felicity congela ao ouvir isso, o olhar nos olhos da Moira prendendo-a no lugar.

Ela sabe, Felicity percebe.

Ela sabe.

Ela não tem ideia de como, mas não há dúvida, não na maneira com que Moira está olhando para ela, o modo que ela olhou discretamente para Ellie.

Felicity não consegue sequer imaginar como ela deve lidar com isso.

A Mansão, Moira quer que elas a acompanhem para a Mansão... Não é inteligente, nem um pouco, mas Felicity percebe que ela quer ir. Há algo estranhamente seguro nos olhos da Moira que ela sabe que não pode fornecer para Ellie, pelo menos não nesse momento - ela tem guarda-costas, e talvez até mesmo o elemento de 'Será que elas realmente iriam para onde o Slade provavelmente poderia encontrá-las?' Deve ser melhor do que ficar se escondendo na QC, e um bom lugar para se encontrar com o Oliver e para daí então se esconder...

"Ok," Felicity concorda em voz baixa, deslocando Ellie um pouco em seus braços.

"OK?" Moira repete, esperando.

"Nós vamos com você", confirma Felicity. "Por enquanto. Pela Ellie."

Moira sorri, estende os braços como gesto de boas-vindas.

"Isso é tudo que eu peço", diz ela. Ela acena para um guarda-costas, Felicity não tinha visto que ele estava à espreita nas sombras. "Sam, peça ao Phil para trazer o carro."

"Sim, senhora."

"Oh... Não," Felicity diz, já balançando a cabeça. "Eu... Eu quero dizer, podemos dirigir até lá, você não tem que ..."

"Eu insisto", responde Moira. Ela observa, olhando ao redor. "As coisas dela estão no seu carro?"

"As coisas...?"

Felicity olha para a Ellie. Ela não tem nada - nem roupas, nem brinquedos... Ou o que quer que crianças pequenas levam numa viagem. Ela só tem as roupas sujas que está usando, e por uma alguma razão, Felicity não sabe por que isso é profundamente triste - ela nem sequer pensou nisso. Ela olha para Moira, com vergonha em seu rosto. Ela está falhando no papel de mãe. Não importa que, na verdade, neste tempo, Ellie não teria como ter nada, ela ainda se sente triste.

"Nós... Tivemos que sair às pressas...".

Moira franze os lábios em simpatia - se esse dia já não tivesse subindo rapidamente na escala de dia mais esquisito de todos, ele subiria agora - antes de sorrir novamente.

"Tudo bem, então", ela responde com um sorriso amável. "Vamos?"

"Certo." Felicity se move para pegar sua bolsa. "OK."

"Nós estamos indo para casa, mamãe?" Ellie pergunta enquanto Felicity desliga seu

computador.

"Não, querida, vamos para outro lugar", Felicity diz, seguindo Moira em direção ao elevador. "Para um lugar seguro."

"Mas a senhora disse Mansão Queen," Ellie responde, a palavra 'mansão' saindo tão adoravelmente que causa um aperto no coração da Felicity. A menina inclina-se para sussurrar mais perto do seu ouvido. "Essa é a nossa casa, não é, mamãe?"

A Felicity arregala os olhos, olhando instantaneamente para ver se Moira ouviu, mas ela não reage.

"Vamos ver, ok?" Felicity sussurra de volta.

"Ok", Ellie sussurra, acenando com a cabeça.

Apesar de tudo, Felicity sorri enquanto olha para ela. "Você é uma menina corajosa, você sabia disso?"

O sorriso da Ellie é uma réplica perfeita do dela, assim como o pequeno aceno de cabeça que ela dá quando ela diz, "Sim", como se fosse o fato mais conhecido no mundo.

Aquela sensação no peito acontece de novo, seguido rapidamente por um anseio estranho.

O elevador apita, as portas se abrem.

Moira gesticula para Felicity entrar primeiro.

"Ligaremos para o Oliver no caminho", diz ela e Felicity mal disfarça o susto no momento em que as portas se fecham.