Capítulo dezessete: Parece uma peça pregada pela insensatez
Por Kami-chan
As mãos delicadas selecionavam com precisão apenas as flores mais belas, e as unia no fino e delicado arranjo. Mentalmente a florista pensava em quanto aquilo ficaria bonito no fim, e por quanto Yenes venderia o belo arranjo. Pensava se o deixaria como objeto central em sua vitrine ou se o deixaria sobre seu balcão para alegrar o interior da loja quando ouviu seu nome ser chamado com felicidade, fazendo-a parar com o que fazia para admirar sua visitante sem largar o arranjo de flores.
– Ino-chan – Seu nome soava com tom de pura felicidade nos lábios de Tentem que invadia sua loja com uma grande sacola nas mãos que fez a loira imitar o sorriso de sua inesperada visita.
Alguns meses já haviam se passado desde que encenaram um drama na sala do Hokage, que contribuiu por fim para a quebra da aliança entre as vilas de Konoha e Suna. Com uma habilidade ímpar, Naruto conseguiu com que as duas vilas não entrassem em guerra, mas a aliança de amizade e confiança entre os líderes estava rompida. Sunas que buscassem abrigo em Konoha seriam tratados como estrangeiros somente, e o líder da areia e sua irmão tinham perdido o direito de andar livremente pelas terras da folha.
Por isso hoje Ino podia andar pelas ruas sem medo de ser abordada pelo ruivo que havia acabado com suas esperanças de uma vida plena e feliz. A loira não gozava mais da hospitalidade parasitária na casa de Sakura, permitindo que a amiga tivesse sua vida e privacidades recuperadas. Principalmente porque, depois que Gaara não representava mais um estresse nos ombros da Yamanaka, sua gestação deixou de ser considerada de risco, e tanto o bebê quanto Ino não sofriam mais nenhum risco.
Desde que não sofressem mais nenhum tipo de estresse novamente, é claro. E isso secretamente preocupava a amiga rosada, pois mesmo que muito bem disfarçada, Ino levava nos olhos as marcas de uma profunda tristeza que nunca mais deixou de acompanhá-la. Tristeza esta que apenas Sakura e Shikamaru sabiam o motivo: o loiro de Iwa nunca mais tinha aparecido na aldeia em busca de Ino.
Em uma tentativa desesperada de consolar a loira, Sakura disse que a guarda em Konoha estava forte demais. A ANBU ainda tinha a missão fixa de vigiar, sem risco de piscadas, todas as formas de entrar na vila, se Suna mudasse de ideia e quisesse atacá-los, jamais seriam pegos de surpresa. Seria praticamente impossível para um Akatsuki passar por esta malha fina.
Ino agarrou-se a esta ideia e se manteve forte. Sentia falta de Deidara, queria que o loiro participasse daquele momento especial de sua vida, mas sentia também a necessidade de fazer somente o melhor para a criança que sentia crescer em seu ventre. E eram, principalmente, as pequenas coisas como aquele sorriso arteiro e feliz no rosto de Tentem que a ajudava a ter forças neste momento.
Não era a primeira vez que a morena aparecia com uma sacola parda em mãos e aquele sorriso lindo. De dentro destas sacolas sempre saiam ursinhos, roupinhas e acessórios lindos e fofos de bebê. Tentem não era a única, após assumirem abertamente que aquele era o filho de Ino e Shikamaru, presentes e pequenas demonstrações de carinho vinham diariamente de todos os amigos.
As meninas compunham as visitas mais recentes, mas até Kiba e Akamaru vieram lhe felicitar pela novidade. E trouxeram com eles uma linda toquinha com orelhinhas de cachorro, que Hinata viu e achou o máximo, logo trazendo um macacão de tecido fofo para combinar com a toca; também pudera, o tema da peça era de um cão da raça boxer, caramelo com branco e até rabinho tinha.
– Olha isso! – disse a morena tão empolgada que nem entregou a sacola para Ino, e abriu ela mesma o presente que tinha trazido. – Não é uma gracinha? – perguntou de forma retórica desdobrando a roupinha verde claro com o símbolo da folha no peito.
Não tinha como não sorrir, como não aproveitar aquele momento. E a loira sorriu, suas amigas lhe traziam tantos mimos que logo não teria mais espaço no pequeno guarda-roupas infantil que ela, Sakura e Shikamaru tinham escolhido. Naquele momento o bebê resolveu se manifestar mesmo de dentro do ventre de sua mãe, e começou a chutar insistentemente.
Ino sorriu mais largo, passando a mão para tirar o longo avental que usava para trabalhar na floricultura e expor a barriga, já quase avantajada demais, para que a amiga visse e tocasse. De avental Ino nem parecia grávida, pois seu corpo não tinha alargado, mas ao expor a pele esticada, não havia dúvida de que havia um lindo bebe ali. E Tentem aproveitava para "conversar e brincar" com ele, enquanto o mesmo dava sinais de sua existência.
– Você tem certeza de que ainda faltam quatro meses Ino? Eu acho que ele está chutando pra tentar sair pela pele. – A morena gracejou, fazendo a amiga rir alto, de fato os chutes do filho chegavam a movimentar visivelmente sua pele, deixando a barriga redonda, bicuda com os chutes.
Seus dias eram sempre assim, todo dia pelo menos uma das meninas aparecia na loja para mimá-la. De vez em quando alguns dos meninos apareciam também. A parte mais difícil foi conversar com a família de Shikamaru, a mãe dele ficou feliz pela união das famílias e extremamente furiosa ao saber que Ino tinha sido engravidado antes do casal assumir um compromisso, mais furiosa ainda ela ficou quando Shikamaru e Ino afirmaram que a única relação entre eles seria o bebê, e não iriam "assumir nenhum compromisso" como a mão do moreno queria.
Foi difícil fazê-la entender que não haveria casamento, e que eles não viveriam ou seria um casal. O pai de Shikamaru assistiu a tudo muito quieto e sério, ele não se pronunciou nenhuma vez enquanto os jovens falavam, mas pediu para que a mulher se acalmasse e fizesse um chá para eles. Quando a matriarca da família saiu da sala, ele apenas disse que mentiras tinham fim precoce e que Shikamaru gozava de sua eterna confiança. De uma forma estranha disse que sabia que o filho não era de Shikamaru, deixando o casal jovem alarmado demais.
Ainda antes do retorno da esposa, ele disse saber que apenas um motivo muito forte faria Shikamaru assumir uma mentira, mas que ele teria que assumir com as consequências de suas escolhas sozinho. Ele não queria que a esposa sofresse quando a criança, que ele classificou como filho somente de Ino nascesse. Sem concordar ou discordar do velho sábio Nara. Shikamaru optou por apenas levar Ino de volta para casa, sem que a loira tivesse tempo de se despedir da mãe de Shikamaru.
Ambos se mantiveram em silêncio, sabiam que era preciso muito mais do que um teatro para enganar seu inteligente pai. Por fim o moreno resolveu que iria apenas sondar se o pai havia apenas descoberto que ele estava assumindo um filho que não é seu, ou se sabia de algo a mais.
Por isso os "avós" pouco participavam daquela gestação. Embora o pai de Shikamaru viesse secretamente lhe trazer doces, vez ou outra, e nestas ocasiões perguntava muito sobre como Ino estava se sentindo, ou se ela estava precisando de algo.
Assim como ela, Shikamaru e Sakura haviam voltado para sua rotina diária. As coisas estavam correndo extremamente bem. Ino ainda tinha um sorriso nos lábios quando se despediu de Tentem e julgou ser uma boa hora para fechar a floricultura, pois suas pernas já estavam suficientemente cansadas.
Ela puxava a cordinha que fechava a cortina da vitrine enquanto sentia uma brisa suave invadir o local pela porta aberta, fazendo as penas de um filtro dos sonhos balançar suavemente. Ino olhou atentamente o horizonte, como fazia todos os dias em busca de alguma evidência de uma cabeleira loira por entre o verde das copas das árvores, ou um pássaro de argila tentando se camuflar entre os outros. Nada.
Como todos os dias, ela apenas suspirou e terminou de fechar de vez a floricultura. Quanto tempo mais ele pretendia lhe fazer esperar? Todo dia ela fingia que tinha o esquecido, todo dia esperar por ele era a tarefa proibida que ela escondia de todos.
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O vento que rangia a madeira das janelas e levava as folhas verdes das árvores a uma dança selvagem não parecia dar trégua. A noite estava fria, porém limpa e bem estrelada, e lutando contra o vento forte na rua estavam apenas as corujas e demais animais noturnos.
Do lado de dentro do quarto, os únicos vestígios do vento era seu alto canto e o barulho de sua força contra as janelas. E sobre a cama grande de casal, Ino dormia alheia a tudo que a cercava, o peito descia e subia em uma respiração profunda que evidenciava o nível de seu sono pesado. A cabeleira loira cobria displicente boa parte da fronha floral do travesseiro que acomodava sua cabeça, o edredom que cobria seu corpo já não estava mais impecavelmente esticado sobre o leito, repuxado e abraçado pela loira, acompanhando os vários movimentos que o corpo fazia inconscientemente enquanto ela dormia. De um lado, para outro lado, e agora finalmente de barriga para cima.
Uma mão displicente sobre a barriga e outra apertando o edredom macio contra seu peito. Sem acordar, um gemido dolorido saiu de seus lábios e suas pálpebras se contraíram, fazendo sua testa franzir. Dentro do sono profundo, um filme estranho se passava por sua cabeça deixando o corpo físico mais agitado.
Imagens em flashes faziam a kunoichi tontear, era como seu habitasse um corpo que não era o seu. Como a terceira e diminua peça de uma Matrioshka, era como se seu olhos tentassem ver algo além da lente desfocada da boneca do meio, que ainda via as coisas através dos olhos da boneca principal.
O corpo sem consciência sobre a cama forçou os olhos com brusquidão, uma fisgada atravessou sua cabeça. Mas não era capaz de sentir, apenas sabia que a dor existia, como se fosse expectadora de si mesma. Agonia, as imagens rápidas demais deixavam para trás apenas um traço de agonia.
Imagens sem sentido em preto e branco. Mãos apressadas tentando buscar de volta o tempo, do seu ponto de visão aquelas mãos eram suas, mas sabia de alguma forma que não. Não era seu corpo que habitava, era o corpo de alguém que se movia em agonia. E de repente, as mãos pararam, pesadas demais, e havia apenas a sensação do sacolejo se seu corpo em desespero.
Falta de ar, um gosto salgado e crepitado parecido com areia invadiu sua boca, fazendo-a tossir e cuspir dentro daquela ilusão tão real. Como se estivesse assistindo ao sonho de outra pessoa. A sensação de sacolejo intenso não passava, seu corpo doía, e desta vez podia ter consciência disto agora.
As imagens piscavam mesclando entre o filme sem cores e a absoluta escuridão. Era demais para seu corpo, algo estava errado, aquele sonho estranho estava a ferindo severamente. Preto. Dor. Branco. Agonia. Cinza. Confusão. E no meio de toda a morbidez um vibrante e cristalino vitral vermelho sangue, e dois vultos refletidos nele, e mais nada.
Apenas a pressão mediana de algo mantendo sua cabeça para o lado, vultos ao seu redor e um gosto repentino de vômito em sua boca. Fez força para ver quem era aquelas pessoas que a cercavam, de repente não se lembrava de mais nada. Onde estava, que dia era, que horas eram, por que haviam tantas pessoas ao seu redor.
Mas para sua surpresa, as mãos geladas que mantinham sua cabeça para o lado permitiram o movimento controlado. As grandes esmeraldas de Sakura entraram em seu campo de visão, e havia medo neles. Mesmo com as mãos ainda ao lado de sua cabeça, a rosada nãoolhava diretamente para si, como se estivesse checando outras coisas.
A boca seca e o gosto de vômito incomodava, mas a loira fez uma força para chamar atenção da amiga. Sem perder a concentração expressa no enorme sulco cravado em sua testa, nem olhar para si Sakura apenas pediu calma para a loira.
– Sede... – Ino murmurou, sem nem mesmo entender porque estava murmurando.
– Eu sei. – Disse a rosada. – Não posso te dar água ainda Ino. Você teve uma convulsão, estou examinando o bebê. – ela completou deixando Ino apavorada.
Convulsão? Como? Por que? Estava seguindo exatamente tudo o que Sakura havia a recomendado, sua gravidez não estava mais em risco. Tentou buscar respostas para o inexplicável quando uma remota lembrança do sonho estranho que teve retornou em sua memória com força.
– Sakura-san. – a voz aguda e abafada pela máscara ANBU chamou a rosada com respeito e calma, com o canto dos olhos Ino viu a figura de corpo pequeno com algodão e gaze nas mãos.
– Muito bom Bara, por favor molhe algum algodão e use-o para umedecer a boca de Ino. Apenas umedecer, muita água poderá fazer Ino vomitar novamente, ou engasgar-se. – pediu, logo sendo obedecida.
Ino estava se sentindo tão bem nos últimos tempos que até tinha se esquecido da condição que Sakura tinha lhe dado para liberá-la para morar sozinha; ANBU vinte e quatro horas.
Sabia que teria que permitir que Sakura terminasse o exame quieta, a amiga era perfeccionista e não deixaria de conferir e certificar-se de que exatamente tudo estava bem. Sonolenta, Ino permitiu-se fechar os olhos e pensar sobre o sonho estranho.
Do que daquela confusão podia se lembrar?
As sensações ruins, a agonia. E acima de tudo, um vitral vermelho vivo no meio do filme em preto e branco, com o vulto de duas pessoas em seu reflexo. Tento buscar então em sua memória quem poderiam ser aquelas pessoas, pensou com força e concentração, mas não buscava a resposta. Todavia seus pensamentos foram bruscamente interrompidos por um chute forte do bebê que carregava em seu ventre.
Sorriu e levou a mão a local por instinto. E ao abrir os olhos encontrou Sakura sorrindo com uma feição aliviada, que durou menos de um minuto antes da rosada começar um interminável questionário sobre tudo o que tinha feito, comido, encontrado e tal e coisa e coisa tal. Toda a chatice preocupada da Haruno para tentar descobrir o motivo da dita convulsão.
Se diria que fora por causa de um sonho? Não. Não queria que ela usasse jutsus de sono em si novamente. E não conseguia tirar aquele vitral da cabeça, sabia que aquilo não lhe era incomum, mas não conseguia encaixar aquele sonho em sua cabeça.
