O amor é um estouro dezoito: O começo do fim
Por Kami-chan
A estação chuvosa havia chegado à Konoha. Os dias quentes trouxeram o marasmo para os aldeões, enquanto as tardes e noites molhadas banhavam os telhados e calçadas na melodia que embalava a preguiça tantos dos homens quanto dos animais. Nas ruas apenas o tráfego de quem não tinha outra opção a seguir.
No interior da residência que vem sendo passada de geração a geração na família Yamanaka, Sakura ria gostosamente do suor que escorrida pela tez úmida de Shikamaru e Chouji enquanto os amigos sofriam para decifrar o manual de montagem de um simples berço de bebê. Ino estava no canto do quarto mais próximo à janela, mostrando mais uma vez para o amigo de Q.I avançado que aquilo que ele e Chouji estavam montando não se parecia com nada com a fotografia do produto na capa do manual.
O humor da loira não estava nada bom. O tempo ruim afetava seu corpo, seus pés estavam tão inchados que o simples fato de se manter em pé era um grande sacrifício. Além do mais, amava cada ato de amor vindo de seus amigos, mas devia ser o pai de seu bebê que deveria estar ali dividindo aquele tipo de memória consigo.
Ino sabia que Sakura e Shikamaru tinham dado Deidara como morte certa. Segundo ambos quando um Akatsuki entra em uma luta é para matar o adversário, e se o adversário de Deidara estava a salvo em sua casa, o pensamento linear a seguir era óbvio.
Não para ela.
A loira compreendia que os amigos não conheciam nem Gaara e nem Deidara da forma como ela conheceu. O Iwa não deveria ter perdido a luta para o Suna, mas de alguma forma perdeu. Entretanto, Gaara estava quieto demais.
O ruivo vinha de uma série de insistências dissimuladas contra Ino, mas após votar da luta o ruivo simplesmente havia sumido. Deixando para trás como suas últimas palavras uma série de blasfêmias que ainda ecoavam nos ouvidos de Ino, provocando dor.
Ele disse que o loiro havia fugido como um covarde qualquer. O nível dos adjetivos que Gaara usou para ofender Deidara era o principal indicativo de que algo não fora como o ruivo disse. O Kazekage estava omitindo algo e Shikamaru logo completou esta laguna com uma troca de informações.
Segundo ele o líder de Suna estava omitindo a morte do seu oponente. Sem envolver Ino, ele comentou que por excesso de ódio a morte poderia ter sido mais desumana do que o esperado do líder de uma vila que vem usando a fama heroica do Sabaku para expandir seus limites comerciais. Tsunade lhe passou que na reunião a portas fechadas entre Suna, Konoha e o Senhor Feudal, o tópico mais enfatizado pelo líder da areia havia sido propostas de avanço de comarca para Suna. Entre outras coisas menores que também envolvem a boa reputação do líder Gaara.
Sem saber de tantos detalhes administrativos como o Nara, Ino pensava diferente. Ino sabia que a vingança era o ponto fraco de Gaara. O ruivo não abriria mão de encher a boca de orgulho par dizer que havia posto fim à vida do odioso criminoso que quase destruíra a vila para levá-lo. Mas não conseguia encontrar explicação para o sumiço de Deidara.
Poderiam ser tantos os motivos. Mas pensar neles servia apenas para deixá-la ainda mais nervosa, pois com a gestação avançada nada poderia fazer além de se preocupar. E para isto já bastavam os seus sonhos.
Sempre o mesmo sonho, igual ao da noite em que tivera até mesmo uma convulsão dormindo. Não tinha mais passado mal daquela forma, mas suas noites nunca mais foram de sono tranquilo.
Bastava pregar os olhos para Ino se ver caindo em um mundo de imagens borradas, em que até mesmo o som lhe chegava distorcido aos ouvidos, por um chiado de notas em escala alta. Fragmentos de imagens de que lhe davam a certeza apenas de um sentimento ruim, até mesmo dentro do sonho a angustia apertava seu coração por tentar tanto e não conseguir entender nada daquilo tudo.
Apenas medo, dor, angústia e a sensação de um quase sufocamento. Quando acordava com os lençóis soados de suor no meio da madrugada sentia as batidas pesadas e rápidas de mais do coração contra a caixa torácica e a agitação do pequeno ser que se mostrava inquieto dentro de seu útero.
Para não ser obrigada a chamar por Sakura, Ino aprendeu a recuperar a calma sozinha. Naquele momento em especial sempre levava as duas mãos ao ventre, acalmava seu coração com respirações profundas e ao bebê com uma conversa mansa; algumas noites até se arriscava a cantar baixinho.
Sakura acreditava que os sonhos ruins eram fruto do excesso de preocupação, Ino até concordava com ela. Mas não conseguia se desapegar de todas as imagens desfocadas, e muito menos no vitral vermelho vivo que sempre estava presente, e era a única imagem clara que podia ver.
Todas estas coisas lhe pareciam tão mais importantes do que dois shinobis de respeito tendo problemas graves para montar um simples berço de bebê. Apenas era educada o bastante para entender que todos eles estavam ali, pois se preocupavam com ela. Deidara não significava nada para eles.
Sakura e Shikamaru não iriam se arriscar a este ponto. Estava de mãos atadas e isto a agoniava.
– Ino, a minha mãe ainda tem o meu berço lá – começou Chouji – pelo menos já está montado. – Terminou passando os dedos roliços pela tez soada de sua testa.
A loira apenas sorriu, dobrando o papel fino com letras miúdas e passos numéricos. Tinham começado aquilo logo depois do almoço e o relógio já estava quase marcando às dezessete horas daquele dia de chuva. Não estavam muito mais perto de terminar aquilo do que em três horas atrás.
– Hey – Sakura chamou a atenção. – O que é aquilo ali? – Perguntou passando pelos três amigos e se abaixando em frente à cômoda, trazendo algo nas mãos quando se ergueu novamente.
– Ah é esta peça que encaixa aqui! – Shikamaru deu um grito dentro do quarto, tomando a peça da mão da namorada.
– Aleluia! – A rosada disse em tom humorado ao ver o moreno encaixar a peça no lugar certo rapidamente e prosseguir o trabalho com uma facilidade até então não vista ali.
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Naquela noite Ino foi para a cama mais cedo, seus amigos recém tinham saído de sua casa e ela se adiantou para tomar um banho e ir para cama. Estava cansada, a barriga era pesada e passara o dia todo de pé. Ainda assim não tinha sono, apenas escolheu deitar para aliviar o peso e o inchaço de suas pernas e pés.
Com a cabeça confortavelmente acomodada no travesseiro, Ino pensou em várias coisas triviais e sem sentido. Apenas por hábito, tocou a barriga e contou ao filho como o quarto em que ele dormiria estava ficando pronto.
Quando deu por si já estava com a cabeça leve e os pensamentos soltos, desenrolando um monólogo animado com o não nascido como se o mesmo fosse uma companhia de conversa envolvente. Bocejou sem nem perceber como seu corpo buscava por uma posição ainda mais confortável, concentrada na imagem de uma pequena criança de cabelos e olhos claros que em sua mente tinha o sorriso de Deidara.
- E se ele nunca mais voltar? - Pensou enquanto via duas grandes mãos erguer o menino sorridente no ar, na medida em que a criança subia o rosto do pai lhe foi mostrado em imaginação com um amplo sorriso.
Sorriu. Pediu para Sakura não lhe contar sobre o sexo de seu bebê, mas sempre usou pronomes masculinos para falar dele.
E sentindo uma felicidade sem sentido suspirou, concentrando-se mais na imagem de Deidara. Montando o rosto de seu filho ao tentar se decidir por quais traços seus carregaria, quais traços dele.
- Seu pai tem um chakra incrível! - Disse baixo. - Poderoso e explosivo. - Completou. – Mas você também pertence ao clã milenar da mamãe, você será um Yamanaka. – Disse feliz, imaginando a si mesma ensinando jutsus secretos do clã ao mesmo menino sorridente que Deidara ergueu na imagem anterior em seus braços.
Logo fechou bem os olhos e montou em sua mente um belo quadro onde o trio estava unido e feliz. Deidara ao seu lado e o menino de sorriso fácil e olhos espertos a frente dos dois, uma família linda, feliz e completa. Sem que Ino tivesse controle, as três pessoas interagiam em sua imagem mental como um filme nunca antes assistido.
Ino sorria fora do alcance do filho, tentando conter o riso alto enquanto Deidara tentava explicar para o filho que ele não podia comer a massinha de modelar que o papai estava dando para ele brincar. Em contrapartida o menino com bico por ser contrariado reclamava em suas palavras infantis que queria ser igual ao papai e iria o fazer entender isto, armando seus dedos no formato de um quadrado com as duas mãos como a mamãe.
A personalidade teimosa do menino cheio de energia conseguindo contagiar o homem mais velho, que mesmo sabendo que o filho não seria capaz de executar nenhum jutsu, permitiu-se fingir capturado pelo "grande dominador de mentes". Afinal aquilo ainda era apenas um momento de diversão com o menino e nada mais.
Com poucas palavras e muitas risadas, o loiro pegou o menino nos braços e o colocou em sua garupa. A dupla saiu em passos ligeiros, pois o menino estava, em sua imaginação fértil, voando em um grande pássaro de argila. Ino permitiu-se sorrir mais ao ver a sombra dos dois passar pela porta em direção da rua, estava feliz. Tinha a vida dos sonhos.
Foi quando teve este pensamento que as coisas mudaram. Seu coração apertou e ela sentiu medo, sensações fortes e incontroláveis que fizeram Ino perceber que em algum momento de sua meditação havia caído no sono, pois conhecia bem aquele sentimento. Ele lhe acometia quase todas as noites quando aquele sonho estranho e ruim lhe pegava.
Mas pela primeira vez ela se sentia consciente. Não podia controlar o sentimento das coisas ruins que aconteciam em seus sonhos, mas era dona de seus atos. E com isto em mente se virou na direção da porta da casa, tinha que encontrar Deidara.
Ao pensar no amado sentiu frio, o sentimento de dor apenas se intensificou. O sol não mais existia, a luz que entrava pelas janelas e portas abertas era cinza escuro.
Ino correu até a porta com velocidade, mas não encontrou Deidara e nem seu filho. Era difícil ver, como sempre em seus sonhos as imagens eram borradas e completamente sem foco, bem como sempre afia um chiado baixo e agudo que distorcia o som. A loira chamou alto pelo nome daquele que amava, repetiu seu nome incontáveis vezes até se convencer que ele realmente não estava mais ali.
Nada via além da confusão de borrões disfórmicos, mas isto não impediu de sair do abrigo da casa em passos rápidos em busca das duas pessoas mais importantes para si. Não teve medo de seguir em passos incertos por um caminho em que nada via, o medo de perdê-los era muito maior do que enfrentar o desconhecido.
Chamou por Deidara por mais inúmeras vezes forçado os olhos entre a paisagem confusa. Sem sucesso em suas tentativas, tanto de chamar pelo loiro quanto em conseguir enxergar melhor, Ino tentou iniciar um trote suave de corrida pensando que isto a ajudaria, mas a tentativa apenas lhe revelou outra coisa.
O peso intenso nas coxas e nas articulações das pernas a fez olhar para baixo imediatamente e o que encontrou foi a ampla barriga de gestante em estágio final de gravidez. Parou em assalto.
Se seu filho ainda esta em seu útero, onde estava?
Logo todas as sensações comuns naqueles sonhos estranhos lhe retornaram em peso. Medo, angústia, dor, frio, solidão. Apenas sentimentos ruins que estranhamente não eram seus, mas podia sentir com clareza. Confusão.
Se virou novamente para voltar para casa, mas não a encontrou. Ignorando as dores nas articulações e o peso de suas pernas, ela seguiu às cegas para o caminho de volta para onde acreditava ser a casa da qual tinha saído. Um ponto de conforto e segurança. Mas antes de poder contar uma sequência de passos a loira sentiu seu ombro ser fortemente puxado.
Mesmo ainda sem vê-lo ou poder distinguir formas entre os borrões e sons limpos e sem chiados, Ino sentiu o sentimento de dor e medo aumentar exponencialmente apenas com o toque da pele dos dedos daquela mão na pele exposta de seu ombro. Aquele toque possuía uma má energia que ela identificou como a fonte de todos os sentimentos que podia sentir.
"Onde você pensa que vai? Por que não cansa de tentar fugir?"
A energia elétrica da onda sonora se chocou contra o pavilhão auditivo de Ino, fazendo a voz congelada se chocar em cheio com sua consciência. Mesmo com o chiado insistente entupindo seus ouvidos a ponto de fazer o som soar baixo como se Ino usasse tampões, a loira pode reconhecer a voz da pessoa que falava consigo.
"Gaara!"
Sussurrou em um timbre de reconhecimento apenas. E bastou que a parte consciente do seu sonho dissesse aquele nome em voz alta para as feições de memória que tinha do Kage de Suna virem à sua mente e, consequentemente, fazer do ruivo de pele alva e olhos claros uma imagem sem borrões no sonho sem formas.
Não. Aquele era um sonho feliz com Deidara e seu filho. Um sonho bonito em que podia ver sua família inteira e feliz, uma ideia utópica que ela desejava com cada fibra de seu coração que pudesse se tronar realidade. Não queria Gaara em seu sonho, não queria Gaara perto de si e muito menos perto de seu filho.
Tentou se virar mais uma vez para sair daquela presença, mas a voz assustadoramente altiva de Gaara tombou em seus ouvidos ainda quase mudos:
"Sua criatura imunda!" A voz gritou carregada de ira.
Ino sentiu seu corpo fraco sendo puxando à vontade de Gaara, e de frente para ele, sentiu o peso e a força de sua mão no toque quente e dolorido contra o seu rosto. Como lembrança do ato de raiva Ino guardou a expressão dos dentes crispados e dos lábios que se repuxaram quando o ruivo ergueu o braço para cima a fim de conseguir o máximo de sua força para aplicar no golpe.
Depois disso apenas o seu corpo caído no chão, quase sem ligar para a dor em sua face que era consumida pelo ódio sem controle que crescia dentro de si. Não iria mais suportar nenhum tipo de abuso ou agressão daquele covarde despudorado.
Seus olhos se mantiveram fechados com força, a parte que era consciente da loira pedia para ela se conter. Neste momento ainda sentia o filho se mexendo de forma agitada em seu útero, aquele sentimento de medo que sentia sem ser seu aumentou de forma tão intensa que teve náuseas.
Mas sem controle dos demais atos, pode sentir sua boca se mover sem o seu controle e a voz sair altiva por trás de um cansaço dolorido:
– A sujeira da minha existência é assumida, Sabaku. A verdadeira imundice deste mundo está escondida debaixo das bandanas de metal limpo e suor podre de shinobis como você, que tem menos honra do que um renegado miserável.
Os olhos de Ino se abriram tão rapidamente que ela quase perdeu o ponto de equilíbrio naquele cenário manchado, aquela não era a sua voz. Grave, baixa com um timbre de raiva que mesmo cansada e ferida, deixava claro o seu recado oculto de alguém que não tem dificuldade em conquistar o respeito medroso de seus adversários. Uma voz masculina que aos seus ouvidos nunca havia chegado com aquele timbre tenebroso.
A mesma voz que lhe chamava com carinho, sussurrando elogios faceiros sempre que se encontravam. A voz do homem que amava e que procurava com tanto desespero. Aquela era a voz de Deidara.
Tentou se erguer do chão, mas não conseguiu mover os seus braços. Com dificuldade se viu de joelhos, a barriga de gestante não estava ali. Viu seus pés no movimento, eles estavam maiores, quadrados e masculinos com as unhas todas pintadas de preto. Havia areia sob as unhas e a tinta do esmalte estava descascada em vários pontos de todas as unhas, principalmente nas extremidades.
Seus braços estavam pesados e não se moviam, seu corpo doía por completo. Cada músculo, cada célula. Ainda assim o orgulho não permitia que seu corpo se mantivesse em pé.
No cenário difuso a imagem clara de Gaara sorria. Em seu rosto havia um brilho calmo de pura felicidade.
– Você teve a ousadia de me levar para a morte Akatsuki. Você teve a ousadia de encostar os seus dedos sujos em uma mulher de linhagem shinobi pura.
– Eu salvei uma mulher que seria vítima de estupro de um homem que deveria ser o exemplo de uma nação. – Respondeu sem se rebaixar pelo insano.
– A minha mulher, minha. O que você pensa que viu, imaginou por ser uma prática comum de gente da sua laia. – Disse o ruivo espremendo suas palavras com uma dose grande superioridade.
Deidara riu de raiva. Aquele cara era impossível. Queria matá-lo. Queria matá-lo. Queria demais matá-lo.
– Não foi isso que ela me disse ao agradecer pelo salvamento. Não foi isso que ela disse ao se sentir mais confortável em confiar em um assassino declarado do que em seu próprio "namorado". Porque você não admite de uma vez que eu só estou aqui pelo seu sentimento perdedor. Você perdeu a vida para mim Sabaku, você perdeu aquela bela mulher para mim.
– O que você fez com Ino naquela cabana? – Gritou com ódio.
– Salvei ela de uma criatura desumana e prestei os cuidados que ela estava precisando após ser agredida por você! Em outras palavras, dei uma amostra de como um homem se porta para ela. – Terminou forçando a garganta e repuxando sua saliva para em seguida cuspir em Gaara.
– Calado! – Gaara gritou sem paciência.
Na sequência, um grande chicote de areia surgiu na mão do ruivo e ao seu comando, se chocou com a lateral do corpo de Deidara. A força do chicote fez a pele de Deidara se rasgar facilmente pelos grãos de areia, deixando consigo a ardência dolorosa no local.
– Você é meu prisioneiro e isto basta. Como está sendo sem um verme sem braços? Logo será também um verme sem pernas. Eu vou matar você parte por parte criatura nojenta, vou me certificar para que doa, e doa mais a cada dia em que você ousar amanhecer vivo. – Disse erguendo o braço uma nova vez para desferir outra chicotada no corpo já debilitado, desta vez atingindo as costelas de Deidara.
O loiro sentiu até mesmo seus pulmões sendo flagelados pelo toque fervente dos grãos de areia que apreciam conter toda a ira de seu agressor. Não conseguiu se erguer da forma como queria, não conseguia mover os braços, tudo o que pode fazer foi mentalizar a imagem de Ino como um ponto de apoio para aguentar toda a dor.
Havia a deixado ir com uma dúvida importante, e mais uma promessa de não se render àquele homem até conseguir matá-lo. Desta vez em definitivo. Chicoteada após chicoteada ele aguentou com todo orgulho que possuía, tinha que encontrar um meio de se ver livre de toda aquela areia defeituosa que agia como a extensão do ar respirado pelo senhor de Suna.
Tão distante, o corpo físico de Ino tentava ser acordado por Sakura com insistência. A rosada estava assustada, Ino sempre deu sinais de uma gravidez difícil, mas daquela vez havia sangue nos lençóis da loira e a Yamanaka relutava em acordar. Apenas altos gemidos de dor deixavam o corpo se sofria espasmos em um tempo quase cronometrado.
Sem outra opção, Sakura acumulou chakra nas palmas das mãos e bateu nos ombros de Ino com força, fazendo uma descarga elétrica que poderia ser perigosa demais passar pelo corpo da loira. Ino gritou com a dor, mas acordou com ela também.
Após o ato de desespero Sakura voltou a examinar o bebê, que tinha sido a primeira coisa a ser feita quando ela chegou no local. Bara ainda era a ANBU que ficava de olho na gestante mais complicada que Sakura já teve em suas mãos e rosada realmente ficou assustada quando a menina reportou que Ino estava novamente tendo uma reação a um pesadelo, e desta vez não era uma convulsão e sim sangramento.
Ino acordou aos prantos sem saber exatamente quem era e onde estava. As cenas da tortura sofrida no sonho apenas ficavam mais elaboradas e tornava a dor mais intensa de difícil de sustentar. Com a respiração pesada a loira tentou reacostumar os olhos acostumados ao cenário desfocado do sonho, ao cenário em que estava.
A primeira reação ao sentir mãos em seu corpo foi a tentativa de se afastar, se proteger. Até que a imagem preocupada e dolorida de Sakura entrou em campo de visão.
Estava sem seu quarto, a amiga estava sentada em sua cama com ambas as mãos em seu rosto em uma tentativa suave de fazê-la focar em si para se acalmar. Sakura repetiu incontáveis vezes um pedido dito em voz baixa e calma, para Ino acalmar-se. E pouco a pouco todas as coisas se encaixaram e ela pode se situar.
A mão correu ligeira para o ventre com uma necessidade urgente de sentir os movimentos do filho. Em uma compreensão automática, a médica continuou pedindo para que ela se acalmasse.
– Não sinto meu filho. – Disse rapidamente para que Sakura lhe desse alguma resposta.
– Shh só se acalme, você teve um sangramento importante Ino. Precisa ficar calma.
– Eu não sinto o bebê, Sakura. – Disse com mais desespero, a amiga estava pedindo para ficar calma, mas suas palavras estavam lhe deixando apenas mais nervosa ainda.
– Ele está lá, Ino. Apenas se acalme, confie em mim, se você se acalmar vai senti-lo. Mas se você não se acalmar vai ficar perigoso.
Ino fechou os olhos e respirou fundo repetidas vezes, era difícil se acalmar naquela situação. Com certeza só se acalmaria de verdade assim que pudesse sentir os movimentos do bebê contra o seu corpo.
– Você teve um sangramento muito forte, Ino. Se isto se repetir o seu filho vai nascer antes da hora e pode ser muito perigoso para vocês dois. – Ouviu enquanto ainda estava de olhos fechados. – Não posso mais aderir às suas manhas, tenho que fazer o certo que o melhor para a sua saúde e do bebê. Vou induzir você com os jutsus de relaxamento, você vai ficar no hospital bem relaxada até a hora certa. – A rosada decretou.
– Não. – Ino disse de forma rápida, abrindo os olhos e encarando a amiga de forma rígida.
– Você não tem mais escolha! – A rosada perdeu um pouco da paciência. – Você quer perder este bebê? Ou quer perder a vida? – Questionou com a voz irritada, Ino não era qualquer paciente, podia falar com ela daquele jeito.
A loira nada respondeu, apenas tirou as mãos da Haruno de sua face e recolheu as pernas para que elas saíssem da cama e tocasse o chão, em uma clara menção de se levantar. Não ia permitir que Sakura a deixasse de molho. Se pudesse, iria pedir para Sakura fazer o procedimento de cesariana neste estágio mesmo, seu filho teria chances altas de se sair bem.
O problema era que ela passasse por uma cirurgia neste momento, Deidara poderia não estar mais vivo quando ela pudesse ir atrás dele. Havia apenas uma chance para aquele sonho de uma família feliz e ele estava tão distante que Ino quase nem conseguia os ver mais.
– Onde você pensa que vai deste jeito? – Sakura se levantou junto com ela.
– Suna. – Disse por dizer.
Sakura tinha se tornado sua amiga, era a mulher que faria Shikamaru feliz pelo resto da vida dele. Mas era em momentos como este que Ino se lembrava bem dos pontos divergentes entre as suas personalidades, que muito mais do que por um amor platônico em comum, havia as feito rivais por muito tempo.
Sakura riu com a resposta. Ino só podia estar de brincadeira, ela se quer cogitava crer que a loira estivesse falando sério. O único lugar para o qual Ino iria era para o hospital.
– Bara, ampare Ino, por favor. – Disse movimentando as mãos em selos. – Ninpou...
Começou o jutsu de indução de sono e relaxamento, mas foi impedida de súbito quando a loira virou em sua direção mais rapidamente do que ela julgaria possível na situação em que estava. Com os dedos também formando um selo comum e olhos perigosos de alguém que não estava para brincadeiras.
– KAI! – Gritou para quebrar o jutsu que seria lançado contra si.
Sakura gritou com a ponta de dor que sentiu, efeito gerado pelo jutsu da loira e que servia apenas para gerar uma instabilidade temporária na corrente de chakra. Um jutsu útil para defesa quando bem executado, principalmente pelo dominadores de mente.
Ino saiu rapidamente do quarto, com real intuito de sair de casa. Em uma caminhada intercalada com no máximo dois ou três passos de trote antes de ter que voltar a caminhar. Já podia sentir seu filho perfeitamente, agora precisava ir atrás do pai.
Sem nenhuma certeza ou ideia clara a não ser a última imagem do doloroso sonho: atrás de Gaara, toda vez que a mão do ruivo subia para tomar força e descia para desferir o golpe, a única imagem clara no cenário desfocado eram amplas janelas de vitral em um vermelho vivo. Janelas compatíveis ao palácio do Kazekage.
– Eu vou alertar o Hokage! – Disse Bara.
– Não. Shikamaru, me traga Shikamaru. Eu vou trazer ela de volta, Ino não irá nem ao fim da quadra do jeito em que está.
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Ino sentiu-se despertar. Não se lembrava de ter dormido, mas sentia-se bem e revigorada como há muito não se sentia. Antes de abrir os olhos suas mãos foram até o útero, sentia o bebê perfeitamente e ele estava tão calmo quanto ela mesma.
– Bom dia minha adolescente rebelde. – Ouviu a voz carinhosa ao seu lado e abriu os olhos sorrindo para Shikamaru.
– Bom dia Shika. – Disse com ar triste ao reconhecer seu quarto, lembrando-se de como Sakura tinha a alcançado com facilidade e feito dormir profundamente com um jutsu. – Quantos dias eu... – Começou assustada, algumas pessoas podia ficar apagadas por semanas com aquele jutsu.
– Um dia. Relaxa. Ela pegou leve, porque sabia que você não queria ficar desacordada, mas ela também deixou bem claro que se você não relaxar não haverá escolha.
– Eu não posso ficar aqui sem fazer nada, Shika. – Disse de forma chorosa.
– E o que iria fazer em Suna no estado em que está?
– Salvar Deidara. – Ao falar aquilo, as imagens vividas voltaram com força em sua memória.
– O que te leva a crer que ele está em Suna, Ino? Isto não faz sentido. – Ele disse se aproximando da loira que chorava baixinho ainda sem forças para se sentar na cama.
– Nada faz sentido. Eu apenas sei, na verdade, não acho que seja eu quem saiba. – Disse abraçando a barriga. – O clã Yamanaka tem muitos dons ocultos Shika, dons que eu até desconheço. Mas de alguma forma, ele sabe onde Deidara está.
– Me conte mais sobre isto. – Pediu o moreno.
– Tenho estes sonhos estranhos todas as noites. Não sabemos qual é exatamente o nível de consciência de um bebê no útero, mas eu e ele somos de um clã de domínio mental e eu creio que por estar aqui dentro, por haver uma conexão entre o meu corpo e o dele, quando eu durmo e caio no sono profundo nossas consciências se fundem e eu vejo na minha cabeça as coisas que ele está sonhando.
– Ino isto não... – Shikamaru começou, mas Ino pediu com um movimento da mão, que ele parasse.
– Eu sei tudo o que você vai dizer, mas é o que eu sinto. Na noite passada a nossa conexão ocorreu logo no estágio inicial sono e quando caí no estágio de sono profundo pude completar lacunas do que ele vê. E eu vi e senti... – Permitiu que sua fala morresse, preenchendo o silêncio repentino com o som de seus soluços.
– Você o viu vivo? – Quis saber.
– Ainda sim. Mas Gaara não vai conter sua ansiedade para dar fim no homem que o humilhou tanto. Eu preciso ir Shika...
– Impossível Ino, você não vai sair daqui neste estado. Você quase perdeu o seu filho na noite passada.
– Não há tempo. Deidara vai ser morto Shikamaru, e o meu filho vai ver e sentir isto até o fim. Acho que as nossas chances neste caso são as mesmas aqui ou lá. Existe uma chance muito pequena de Gaara me ouvir, dele se satisfazer com a minha presença rendida lá.
– Só vai colocar você nas mãos das pessoas que já tentaram fazer mal à você e ao bebê. O que você acha que o Gaara vai ordenar quando seu filho nascer lá dentro da casa dele com bocas nas mãos?
– Eu vou dar um jeito. Uma coisa de cada vez. Se conseguir salvar Deidara pelo menos meu filho vai parar de sofrer e eu vou ter alguma chance de fugir antes dele nascer.
– Não seja ingênua Ino.
– Não me subestime. Sou Yamanaka Ino e em momentos de dificuldade eu posso mostrar como é dar a volta por cima contra aqueles que me julgam como um ser frágil, Shikamaru.
– Sakura mandou te dar este chá quando você acordasse.
– Não vou tomar.
– Ela só quer o teu bem, Ino.
– Não vou dormir de novo.
– Você teve um forte sangramento ontem, se dormir e passar mal novamente não vai ter a mesma sorte de ontem. Ela só quer garantir que vocês dois fiquem bem.
– Assim eu não vou ver como ele está. Se ele está vivo ainda.
– Lembre-se de que não é você quem está vendo. Não é só o teu corpo que sente dor. – O moreno respondeu estendendo a xícara para a loira.
Diante àquele argumento, Ino pegou a louça da mão do amigo e sorveu de todo o seu conteúdo. Shikamaru tinha razão, não podia permitir tal egoísmo com seu filho. Também não podia se arriscar a ter mais um sangramento em dois dias consecutivos.
Se conseguisse se focar naquela família feliz em uma cabana qualquer. Só os três, felizes e seguros...
Ou se pudesse burlar o sono que passou a sentir, abriu os olhos azuis ao imaginar com seria poder transpassar isto para o moreno em sua frente. Shikamaru era quem devia dormir, sem culpa por deixá-la partir. Não devia caminhar até Suna, suspirou, precisava pensar em um jeito se conseguir um cavalo com charrete.
NOTA Bah agora que eu lembrei, quando esta fic foi postada na primeira vez eu dei a oportunidade dos leitores opinarem se gostariam de ver um final todo perfeitinho ou um final "não tradicional" por assim dizer. Também tinha dito que o futuro de Ino e Deidara estava parecido demais com o futuro dado a eles na fanfic "O lugar certo para nós" (que eu ainda não repostei depois que foi excluída pela moderação, por motivo de..cara aquela fic é gigante para eu buscar as coisas que estavam fora das normas atuais de postagem u.u) então que era para os leitores se basearem na outra que terminou primeiro, pois eu não repetiria o mesmo final.
E lá eles tiveram o final mais feliz que poderiam... então o final desta fic vai ser de alguma forma mais próximo do "jeito Kami de ver as coisas" do que "o jeito felicidade com direito à arco-íris e borboletas com asas de gliter". Mas claro que eu vou levar tudo em consideração e fazer o melhor que puder dentro dos dois mundos
