Capítulo dezenove: A kunoichi que se perdeu

Por Kami-chan

A postura rígida do homem na sala em nada revelava a perversidade dos seus atos. O corpo ereto, as mãos unidas atrás do corpo esguio, bem acomodadas contra sua lombar e as pernas afastadas na medida certa o mantinham atento a cada detalhe da cena que ele mesmo montava. Os seus ombros estavam para trás e o peito inflado, orgulhoso de seus resultados.

A pele lisa em sua testa e os olhos atentos não denunciavam a cena bizarra que as grandes íris verdes vislumbravam. Nem mesmo sua frequência se alterava enquanto assistia o homem ajoelhado no chão, sentado sobre as próprias pernas enquanto o som de sua respiração ofegante preenchia todo o local.

O suor se misturava ao sangue seco na tez suja. Havia areia em seus olhos já nublados pela dor desfragmentadora espalhada por todo o seu corpo. Não tinha os braços para ajudá-lo a se defender e nem sequer se apoiar, não havia nada além do orgulho impregnado em seu ser para lhe manter lúcido ante toda a dor e humilhação.

Mas Deidara não se entregaria. Não seria subjugado pelo ruivo de Suna.

Se pelo menos pudesse sentir e usar os seus braços.

O loiro sentiu a respiração ser presa pela atmosfera pesada que o ar assumiu, era sempre assim que começava. A densidade do ar sempre ficava pesada demais quando a areia se elevava do solo para ser guiada a mando do ruivo.

No segundo seguinte sentiu um colar fino e quente de areia em torno de seu pescoço, rodando com a velocidade de um tornado contra sua pele. Ferindo, raspando, esfolando e finalmente, cortando enquanto tentava sufocar. Erguendo o corpo incapaz de relutar do loiro de Iwa pelo aperto firme.

Não demorou até o ar começar a faltar de verdade para Deidara, por outro motivo. A elevação de seu corpo por aquela fina faixa de areia em seu pescoço foi além do limite em que seus pés podiam tocar no chão. O peso de seu corpo suspenso puxou até a base de sua coluna cervical, causando estresse contra as vertebras mais altas de sua nuca. A distensão das artérias protegidas pelas mesmas levando o oxigênio e a consciência do Akatsuki embora.

Queria tanto poder levar as mãos ao local, romper o ciclo da areia nem que fosse com força bruta. Queria poder fazer selos ou cuspir argila.

Quebrar seus braços daquela forma antes de qualquer outra tortura tinha sido o maior ato de covardia de Gaara. Ele não podia dizer que o tinha derrotado, jamais poderia dizer. Não havia sido uma luta justa, ele eliminou sua capacidade de fazer jutsus para poder captura-lo e tortura-lo para seu bel prazer.

Nem mesmo os rank-s faziam este tipo de coisas. Existe uma regra de honra no mundo shinobi que nem mesmo os desertores quebram. Gaara do deserto, ex-reservatório do demônio de Shukaku, um líder sem honra. Um homem sem moral.

Toda a dor e a falta de oxigênio se pronunciaram pelos lábios do Akatsuki em um silvo de ar cuspido para fora de seu corpo, uma pequena parte do prisioneiro desejava –inconscientemente- que aquele pudesse ser o seu último suspiro. Qualquer um depois deste poderia ser seu desejo de adeus; o desejo de não sentir mais dor.

Mas então tudo parou. O aperto em seu pescoço foi findado e o corpo caiu em um baque alto contra o chão. Um gesto rápido com as mãos fez a areia espalhada no chão da sala ser varrida novamente para dentro da grande urna aberta, levando seu corpo de volta para aquele sarcófago como se fosse uma frágil molécula de pó entre os grãos de areia.

Os olhos e a boca fechados como única defesa contra a invasão dos grãos antes do jarro ser novamente lacrado como de costume. Como sempre era feito depois que o ruivo estava satisfeito com sua sessão diária de tortura, Deidara ficaria ali dentro até que o ruivo resolvesse brincar com seu corpo novamente.

Passos rápidos ecoaram pelo corredor além da porta fechada atrás do ruivo, e tomaram a atenção do Kazekage. Gaara guardou o seu brinquedo secreto deixando o local com a aparência de que não fora usado como sua caixa de areia.

O senhor de Suna abriu a porta da saleta privada no mesmo instante em que um dos seus guardas iria bater na mesma. Ele parecia nervoso e respirava de forma tão rápida que quase atrapalhou suas palavras.

– Kazekage-sama, preciso que venha comigo imediatamente. – Ele disse alto e correu pelo corredor fazendo o caminho de volta para o lob do palácio.

Gaara seguiu os passos apressados de seu subordinado com uma paciência que parecia não haver no ninja. Perguntou-se que tipo de situação poderia gerar aquela reação. Não gostava daquele tipo de atitude, parecia algo como desespero e guardas de Suna não se desesperavam. Além do mais, ele havia corrido sem lhe falar nada, estava indo de encontro ao desconhecido quando deveria na verdade ser preparado para contornar qualquer situação.

Os olhos calmos viram Temari olhar rapidamente para trás quando ouviu os passos do mensageiro voltando e quando seus olhos passaram além deste, lhe alcançando, Gaara soube que havia sido ela quem tinha o mandado até onde estava. Era curioso. Temari tinha um olhar de puro desgosto. Algo tão profundo que fez nascer a curiosidade no âmago do irmão que o chamava para que andasse mais depressa.

A curiosidade tornou seus passos mais ligeiros, fazendo o tecido da manta cor de carne soar alto contra o movimento e o vento. Esvoaçando contra as pernas que se moviam uma doravante à outra.

– De um jeito nisso! – A loira crispou em um tom baixo quando o irmão chegou ao seu lado.

E à frente de Temari, parcialmente escondida por outros guardas de Suna estava a fonte de todo o alvoroço. Com uma túnica crepe que lhe cobria até os tornozelos, sem mangas e com alças largas que permitiam a visibilidade do top roxo que firmavam os seios fartos. A falta de costuras e cortes permitia que a vestimenta caísse e cobrisse a grande barriga da gestante sem apertá-la.

As maças do rosto coradas em um tom róseo natural, sua bochechas um pouco mais arredondadas do que guardava na memória. Os longos fios de cabelo loiros bem amarrados em um alto rabo de cavalo. Sem adornos, sem maquiagem, apenas o brilho do azul intenso e quente de seus olhos.

Ainda assim, bela. A gravidez caiu muito bem em Ino.

O queixo do Kazekage apontou para frente quando ele tentou inclinar sua cabeça para cima antes de mirá-la, em um simbolismo de superioridade. Gaara puxou o ar com força antes de se pronunciar, uniu as mãos e massageou os dedos de uma na palma da outra enquanto organizava as palavras certas em sua cabeça.

Muda e imóvel, cerca de dois metros de distância a loira de Konoha sabia que nada planejado por aquela mente seria bom. O teatro teria que ser convincente em dobro, o ar em volta de Temari deixava claro que a loira de Suna aguardava apenas uma indicação positiva para literalmente arrastá-la dali até a fronteira. Ou coisa pior.

– O que faz aqui, Ino? – A voz grave ecoou pelo lob amplo.

As ondas de som batendo em cheio contras as altas paredes de granito, sem que mais ninguém ousasse dizer alguma coisa. Nem mesmo o som de suas respirações podia ser ouvido pela loira em seu estado de nervosismo. Ino apertou os lábios um contra o outro entre a pressão de seus dentes enquanto engolia alguma saliva. Aquele tanto de gente lhe olhando de forma curiosa não a ajudava em nada.

– Poderíamos conversar a sós, por favor. – Pediu em tom questionador.

Como resposta a risada esnobe de Temari sobre seu pedido fez a ironia percorrer e preencher todo o ambiente. Era fato que a loira não a deixaria livre tão facilmente.

Ainda assim Ino preferiu olhar diretamente para a loira, a memória do atentando da Sabaku contra a sua vida e vida de seus filho ainda correndo como uma forte vertente de água escaldante em seu sangue. O que tinha ido fazer ali já não seria fácil, não iria permitir que Temari fosse mais um contratempo.

– Temari, Ino deve estar cansada da viajem. Por favor, avise aos serviçais para que preparem algo para ela enquanto nós dois conversamos em meu escritório. – Disse o ruivo dando as costas para todos no local, esperando ser seguido pela Yamanaka.

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–Nina, eu estou levando alguns materiais para os cuidados a domicilio da paciente Yamanaka Ino. – Disse Sakura assinando uma prancheta assumindo a retirada de materiais, e a largando no balcão onde a menina com quem conversava estava.

– Ino ainda está em tratamento? – A voz familiar de Tsunade chegou aos ouvidos de Sakura com um pesado tom de questionamento.

– Shishou – Cumprimentou com uma breve reverência enquanto segurava a bolsa com utensílios médicos conta o corpo. – Ino está apresentando um quadro de gestação de risco.

– Então ela deveria estar aqui. – Retrucou a mais velha.

– Ino se recusa a sair de casa.

– Um terço dos nossos pacientes se recusam a vir ou a ficar no hospital. Se tiver que encaminhar um médico para cada um que se recusa, vai faltar gente aqui. – Seu tom soou como uma leve represaria.

– Tenho certeza que a maioria dos nossos pacientes vem aqui para se curar e não para ser alvo de atentado contra sua vida.

– Esta questão já foi resolvida Sakura.

– Eu sinto muito senhora, mas não.

– Isto nada tem haver com a identidade do pai do bebê de Ino, não é mesmo? Ela já disse quem é o pai?

– Ah claro! Pensei que todos já soubessem, a família Nara está muito feliz com a união dos dois clãs.

– Se o bebê é de Shikamaru, por que tanto drama no início? – Ducicou.

– Ano... Ino e Shikamaru eram ambos comprometidos e a data da fecundação é... Suspeita por assim dizer. Ino engravidou quando já tinha decido terminar o namoro com o Kazekage, mas o mesmo não soube disto em tempo. E você não está totalmente a par das agressões que ela suportou durante cada dia depois de ter pedido o fim do namoro com ele.

– Pior do que o atentado de Temari? – Perguntou a mestre, Sakura apenas assentiu com a cabeça sem querer dar mais detalhes. – Naruto deve saber disto, Sakura.

– Se Ino tivesse se relacionado com qualquer aldeão de Suna, nada seria feito. O foco é maior porque ele é o líder. É grotesco falar assim, mas levar isto ao Naruto seria elevar uma relação conjugal com problemas ao nível de afronte político.

– Se fosse um aldeão qualquer de Suna, Ino deveria pedir proteção ao Kazekage, como se trata do próprio a proteção deve ser exigida do nosso líder. Se fosse um aldeão qualquer e Gaara não dessa a ela a proteção devida, isto seria sim elevado a uma questão política. Sendo ele próprio o agressor, é mais importante ainda Naruto saber qual o nível de educação e relevância os Konohas tem em Suna. – Contra argumentou a Godaime.

– De qualquer forma, Ino não quer.

– Faz parte do seu trabalho como oficial de Konoha encorajar ela a tomar esta atitude.

– Ela está grávida Tsunade, com uma gestação de risco. Nada é tão simples.

– Ok. Eu mesma quero examinar Ino.

– O que? Não... Não confia na minha avaliação? – Assustou-se.

– Você é a única pessoa além de Shizune em quem eu confio. É minha pupila. Mas esta história com Ino está estranha demais.

– Ano...

– Você pode ir à frente, eu preciso liberar alguns pacientes. Estarei lá em vinte ou trinta minutos.

– Hai – Concordou, resignada, com uma reverência.

A rosada saiu apresada do local, se sentia nervosa. Não era comum Tsunade desconfiar de sua palavra e isso a deixou temerosa sobre o que exatamente a mestre estava desconfiada. Precisava conversar com Shikamaru, a senhora das lesmas não poderia descobrir sobre a verdadeira identidade do pai do bebê e com isto, todas as demais informações que colocavam ela e o Nara como cúmplices de Ino.

Caminhou apressadamente pelas ruas que a levariam do amplo prédio do hospital até a casa de Ino. A simples ideia de que a Godaime desconfiava de algo a fazendo tremer, sentia-se uma traidora. O medo de algo que nem mesmo ela sabia descrever direito, fazendo a adrenalina correr ligeira por suas veias.

Não hesitou ao abrir a porta de entrada da residência Yamanaka, sem bater e nem se anunciar. Sentia-se apenas necessitada do abrigo de paredes solidas que pudessem a esconder. O coração batendo rápido, queria prevenir Ino sobre a visita inesperada da Godaime.

Precisava combinar com a loira as respostas que ela deveria dar para perguntas já respondidas previamente por si ou Shikamaru. Mas nada poderia preparar a rosada para o que encontraria ao adentrar mais a residência e tentar localizar Ino e Shikamaru pela casa.

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O silêncio daquela cena só não estava sendo aterrador para Ino, pois a loira sabia o quão desafiador seria dar continuidade ao plano. O ambiente gélido, tomado pelo frio noturno do deserto, ouriçou os pelos de seus membros e a obrigou a abraçar-se e friccionar as palmas das mãos contra os braços em uma medida rápida e simples para tentar conter o frio.

O peso do olhar de Gaara em si foi algo que ela teve que suportar sem se abalar ao passar pelo mesmo que segurou a porta de sua sala para que Ino pudesse entrar no local. Os olhos analíticos desceram por seu corpo quando se aproximou do portal e Ino teve certeza que subiram com a mesma intensidade inquisitiva por suas costas assim que ela passou.

Ainda sem palavras trocadas, o líder de Suna caminhou até a grande cadeira atrás de sua mesa, indicando uma das cadeiras à frente para sua inesperada visitante. Convidando-a de forma muda a quebrar aquele silêncio cheio de expectativas e ambos os lados.

– O que faz aqui? – Perguntou o ruivo assim que percebeu que teria que incentivar Ino a falar, de outra forma.

– É complicado. – A loira disse em um murmúrio, agora que estava ali cara a cara com o ruivo odioso seu plano parecia muito mais difícil de seguir.

– Explique então! – Disse o ruivo com um leve timbre de impaciência, jogando as costas contra o encosto grande da cadeira.

– Eu menti para você. – Ela disse baixo, procurando entre os ladrilhos impecáveis de madeira uma imperfeição no desenho curvilíneo trabalhado no chão de parquet. – Shikamaru e eu nunca tivemos nenhum caso.

– O que quer dizer com isto? – Prosseguiu, se ajeitando melhor contra a cadeira enquanto tentava dar às palavras escassas dela, significado próprio.

– Eu tinha recém terminado o relacionamento com você, e houve um orgulho bobo e irracional que não me permitiu voltar atrás. Mas com a aproximação do nascimento do bebê eu percebi o quanto era injusto privar meu filho de conhecer o pai, e o pai de conhecer seu filho.

A kunoichi calou após a frase mentirosa, esperando a voz de Gaara quebrar o silêncio deixado para trás por si. Ansiosa pela resposta do ruivo, sem saber se o primeiro passo para ter acesso pelo palácio novamente seria dado. Temerosa, se o Kazekage iria acreditar em si ou não. Se a reciproca fosse negativa, Gaara poderia tomar atitudes inimagináveis contra si.

– Orgulho bobo... – Foi o que ele se restringiu a dizer quando sua voz cortou o silêncio, fazendo Ino erguer finalmente seus olhos do chão ornado para procurar o verde de águas claras.

– Gaara, eu recém tinha dito todas aquelas coisas para você.

– Eu procurei você tantas vezes depois daquele dia. – Respondeu, e mesmo que não fosse uma pergunta, sua voz soou de forma a exigir uma resposta dela.

– Eu tive medo de como você reagiu. A forma como você me abordou apenas fortaleceu o orgulho, mas quando você se afastou eu percebi o quanto eu verdadeiramente sinto a sua falta. O meu lugar é aqui com você, e o nosso filho. – A loira tentou sorrir ao terminar seu breve discurso.

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As luzes estavam todas acesas, mas a casa estava completamente silenciosa. E foi nas ausências que Sakura começou a duvidar da energia emanada pela casa. Deveria sentir o chakra de Shikamaru, mas era como se o namorado não estivesse ali, e Sakura sabia que ele não deixaria sua amiga e protegida em um momento como o que estavam enfrentando.

Uma olhada rápida na cozinha, outra olhada por cima na sala e então a rosada achou mais prudente subir logo para o quarto de Ino. Pelo caminho, o corpo da ANBU que havia deixado para cuidar da Yamanaka jazia desmaiado. Com vida e sem sinais de violência, apenas desmaiado, como se estivesse em um sono profundo.

A bolça com utensílios médicos ficou pelo chão ao lado do corpo, a descoberta deixou a rosada ainda mais receosa sobre o que tinha acontecido naquele lugar, temendo não conseguir sentir o chakra de Shikamaru por ele estar na mesma situação que a ninja de proteção. Os degraus foram alcançados e vencidos com velocidade e cuidado, antes de saber o que exatamente o que tinha acontecido ali dentro, cada passo deveria ser dado com cautela.

O corredor estava quieto e vazio, todas as portas do andar superior estavam igualmente fechadas. Silencioso e calmo. Sakura se decidiu por ir logo para o quarto principal, onde Ino e Shikamaru deveriam estar.

A mão tocou com calma a delicada porta de correr e seus olhos adentraram e correram por todo o aposento antes de entrar. Ao contrário de todo o resto da casa, a luz ali estava apagada.

A cama onde tinha deixado Ino desacordada antes de sair estava vazia e revirada. A cadeira em que Shikamaru havia se sentado para ficar a observando ainda estava no mesmo lugar ao lado da cama, mas o moreno não estava lá. O único toque de vida do aposento estava em pé em frente á janela, tão fundida à lateral da mesma que quase poderia passar despercebida se o olho se Sakura fosse mais rápido do que habilidoso.

Em pé, de frente para o vidro fechado da janela aberta, olhando tão concentradamente para a rua que se quer parecia dar atenção à sua presença ali. Toda a parte superior de seu corpo desde a cabeça até uma linha diagonal até uma de seus ombros, onde a sombra se difundia levemente com a luz que vinha da rua através da janela.

Deixando em evidência pela luz o tecido leve em tom azul celeste da roupa larga. A mão esquerda com dedos finos e delicados, um deles adornado por um delicado anel ornado com pedrarias, alisavam o ventre avantajado de forma carinha e lenta.

A respiração se Sakura se normalizou e seu estado de alerta máximo foi abandonado. Ino estava ali e estava bem. Ainda não tinha visto Shikamaru e tinha que entender o que tinha acontecido com a ANBU, mas Ino estava calma. E isto já era mais de meio caminho andado.

Era o que ela pensava.

– Ino. – Disse o nome da amiga demonstrando no timbre seu alívio por encontrar ela bem, e principalmente calma.

Teve trabalho para fazer Ino voltar para dentro de casa e coloca-la na cama. Sabia que a amiga não queria receber aqueles jutsus de sedação, mas não teve escolha. Ainda assim, a loira demonstrava uma calma profunda demais, quase como se nem estivesse presente naquele local. Sakura teve que chama-la cerca de quatro ou cinco vezes até ter alguma resposta.

– Ino, o que houve aqui? Onde está Shikamaru?

Foi apenas ao citar o nome do moreno que Ino pareceu ter alguma reação. Sua mão parando o carinho que executava contra sua barriga, ainda em silêncio. Os olhos azuis se ergueram, deixando de observar algo na rua para procurar Sakura pelo reflexo do vidro em sua frente.

Na ausência de palavras, Sakura caminhou com passos ligeiros até onde a amiga estava. O vidro não lhe permitia ver om clareza a expressão de Ino, talvez seu silêncio indicasse que ela poderia não estar tão bem como pressupunha.

– Ino? – Chamou ao tocar o ombro da amiga de infância, logo se surpreendendo mais do que se acalmando. – Ino o que... Onde está Shikamaru? – Repetiu a pergunta, mas como todas as outras a loira não a respondeu.

Com calma, Ino apenas olhou nos olhos de Sakura, se virando e usando a própria mão para tirar a mão da cerejeira de seu corpo. Livre, apenas caminhou lentamente pelo quarto até encontrar apoltrona vazia, em que se sentou. O movimento deixando claro o que a rosada tinha visto descrente ao se aproximar dela.

– O que houve com seus cabelos? – Sakura trocou a pergunta.

Sem saber de onde vinha a vontade de chorar, tão forte que fazia seu corpo tremer. As ações de Ino deixando toda a adrenalina jogada em seu corpo pelas palavras de Tsunade e por ter encontrado a casa de Ino naquele estado, de lado. Nada daquele dia tinha conseguido a deixar tão nervosa quanto a cena em sua frente naquele quarto.

– Cortei. – Ino respondeu com a voz baixa, engolindo uma boa quantidade de saliva antes disto.

A Haruno voltou seus passos para que pudesse ficar novamente de frente para a loira. Os fios longos e sedosos dos quais Ino tanto se orgulhava haviam se resumido a fios curtos e mal cortados, desparelhos como se tivessem tido cortados à pressa. O cabelo é algo de suma importância para uma mulher, o corte não definia apenas uma questão de vaidade e personalidade, mas também de saúde psicológica.

Não para Ino. Sakura sabia por experiência própria que os longos e loiros fios de cabelo de um Yamanaka era muito mais do que pareciam ser e Ino não os cortaria sem algum propósito.

– Onde estão seus cabelos, Ino? – Sakura tentou novamente uma pergunta diferente.

– Shikamaru os levou. – Respondeu, desta vez não conseguindo conter uma linha úmida e quente que desceu pela lateral de seu rosto, brilhando no quarto escuro como um cristal que atraiu toda a atenção de Sakura.

– O que você fez? – A rosada perguntou puxando a loira por ambos os ombros para que ela lhe encarasse.

– O que precisava ser feito. – Foi a resposta que obteve quando as íris úmidas pelo choro encontraram as olivas raivosas de Haruno Sakura.

– Você o mandou para a morte... – A voz da pupila de Tsunade soou baixo, com a mesma fraqueza que apossou de seu ser. – O maluco por que você se apaixonou está morto e agora você enviou Shikamaru para a mesma morte! – Sakura gritou repentinamente, colocando na força com que apertava os ombros de Ino, toda a vontade que tinha de ferir o rosto da gestante em sua frente com algum soco que fosse forte o bastante para levar de si tudo de ruim que estava sentindo.

– Deidara não está morto! – Ino gritou se levantando da cadeira para ficar na mesma altura que a mulher em sua frente.

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– Não vou dormir de novo.

– Você teve um forte sangramento ontem, se dormir e passar mal novamente não vai ter a mesma sorte de ontem. Ela só quer garantir que vocês dois fiquem bem.

– Assim eu não vou ver como ele está. Se ele está vivo ainda.

– Lembre-se de que não é você quem está vendo. Não é só o teu corpo que sente dor. – O moreno respondeu estendendo a xícara para a loira.

Diante àquele argumento, Ino pegou a louça da mão do amigo e sorveu de todo o seu conteúdo. Shikamaru tinha razão, não podia permitir tal egoísmo com seu filho. Também não podia se arriscar a ter mais um sangramento em dois dias consecutivos.

Se conseguisse se focar naquela família feliz em uma cabana qualquer. Só os três, felizes e seguros...

Ou se pudesse burlar o sono que passou a sentir. Abriu os olhos azuis ao imaginar com seria poder transpassar isto para o moreno em sua frente. Shikamaru era quem devia dormir, sem culpa por deixá-la partir. Não devia caminhar até Suna, suspirou, precisava pensar em um jeito se conseguir um cavalo com charrete.

– Eu posso trazê-lo de volta. – Disse tentando usar palavras que fizessem sentido em meio ao sono. – A sala dos vitrais, só é preciso entrar nas salas dos vitrais.

– Ino, tente limpar sua cabeça por um minuto. Ou não vai conseguir descansar.

– Eu não vou descansar enquanto não tiver ele aqui comigo.

– É um renegado Ino, já pensou que pode estar supervalorizando ele. É o tipo de homem que pode aplicar o mesmo golpe de cavalheirismo com todas as mulheres por quem sente vontade de...

– Não ouse! – Ela o cortou. – Você não o conhece. – Defendeu.

– Eu te conheço. – Disse saindo da cadeira em que estava sentado, para se ajoelhar no chão de frente para ela. – Nunca te vi assim.

– Eu o amo. Ele é o pai do meu filho, a peça que falta na minha família. Eu posso trazer ele de volta.

– À custa da sua própria vida. Eu não vou permitir que você saia daqui.

– Mas só eu posso. Gaara irá me aceitar em sua casa se eu mentir que o filho é dele, que me arrependi e quero uma família unida com ele ao meu lado.

– E Temari irá matar o seu bebê logo após os primeiro sopro de vida dele. Além do mais, você precisa ser racional, seu corpo físico não está forte o bastante para nada. O que vai fazer depois de encontrar o Iwa dentro do palácio?

– Morrer com ele. – Disse sem pensar, virando-se de lado na cama de forma a ficar totalmente de frente para Shikamaru.

Realmente não havia pensado nestas questões levantadas por Shikamaru, o que faria ao encontrar Deidara; não havia outra resposta a não ser a dada. Mas o que lhe doía mais era o fato de que mesmo sabendo que ir até Suna seria uma sentença de morte certa, esta era o pensamento que mais lhe trazia paz.

Seria o fim de algo que nunca deveria ter começado. Se ficasse aqui para esperar seu filho nascer, Deidara morreria muito antes. O pensamento trazendo grossas lágrimas aos olhos que logo não puderam ver absolutamente mais nada.

– Ele merece tanta valorização assim, Ino? – O Nara lhe perguntou resignado, tendo como resposta a aceno positivo da cabeça que balançou para cima e para baixo enquanto o corpo sacolejava entre os soluços fortes.

Shikamaru suspirou em um pequeno gesto de discordância, nada que Ino dissesse o faria crer que o Iwa traidor merecesse as dolorosas lágrimas que ela derramava. Achava muito mais fácil acreditar na teoria de que uma transa por aventura do ninja da pedra tinha terminado de um jeito diferente do planejado. Falar ou pensar em um Akatsuki apaixonado era algo no mínimo cômico de mau gosto.

Mas Ino não era boba. Era sim uma mulher confiante e livre em seus relacionamentos, não tinha vergonha em admitir sua facilidade em criar romances em sua cabeça e nem tentava escondê-los quando a vida real tomava o mesmo rumo de seus anseios. Aquele tipo de reação não era normal dela. Ino não estava no seu normal, e ele também não.

A razão o fazia ver o quão prejudicial era incentivar a aproximação de Ino com este tal de Deidara. Aquela relação só apresentava pontos negativos para a vida de ambos. Deidara morrer seria o ideal, esperado e o primeiro passo da solução daquele problema. O segundo passo era findar toda e qualquer semelhança que o recém-nascido de Ino pudesse ter com o verdadeiro pai e a terceira era convencer Ino de que a dor que estava sentindo naquele momento minguaria dia após dia com a presença de uma criança em casa.

Mas não era tão fácil. Vê-la chorar, chamar por seu nome. Vê-la sofrer noite após noite. Shikamaru sabia que mais cedo ou mais tarde Ino iria sucumbir ao desejo de saber se o seu Deidara estava ainda vivo e usaria a conexão do bebê com o genitor para isto.

Mesmo que soubesse a dor que causaria na criança ainda não nascida, Ino ouvia facilmente a voz da emoção. E se lhe era doloroso ver Ino chorar agora, o Nara sabia que seria muito pior se em um dia de recaída ela visse o Iwa morto de verdade.

O fim com um adeus não dito, deixando muitas histórias para trás. A melancolia da certeza de que naquele momento nada mais poderia ser feito, não haveria mais vida para salvar. O tempo para decidir entre a razão e a emoção tinha acabado, deixando para trás apenas a culpa.

O Iwa era uma Akatsuki, mas era também um ser humano. Pensar nisto talvez fosse o primeiro sinal de que o Nara cogitasse mergulhar na emoção.

Ino fez escolhas erradas e pelo visto estava disposta a arcar com as consequências, desde que aquele ser chamado de terrorista, estivesse ao seu lado. Ino era uma boa pessoa, não merecia ter se apaixonado por Deidara.

Ou não?

– Eu jurei ao seu pai que sempre protegeria você. Temari não vai deixar que você tenha este bebê.

– Sakura e você estão planejando uma coisa tão ruim quanto. – Respondeu segura, fazendo o moreno ao seu lado sentir-se levemente envergonhado por ter o seu plano para anular a identidade do bebê invisível.

– Eu só quero o seu bem, Ino. Eu jurei ao seu pai que sempre cuidaria de você e é isso que vou fazer até o último dia da minha vida.

– Então traga ele para mim, Shika. Se ele morrer... Só não pode ser daquela maneira. Tire ele das mãos de Gaara.

– Só você poderia entrar lá sem suspeitas agora. – Shikamaru disse de forma evasiva. – Você sabe o que fazer – Tentou usar o seu tom mais ameno, deslizando seus dedos pelos longos fios de cabelo. –Vai dar tudo certo! – Concluiu empurrando e abandonando uma kunai afiada entre os dedos dela.

A compreensão súbita foi tão abrupta que fez o sono pesado de Ino ceder um pouco. Era loucura, queria dizer não, mas suas mãos agiram por conta própria assim que o peso das mãos grandes de Shikamaru deixaram as suas. A ansiedade por ver uma luz de esperança em seu futuro fez sua respiração desregular brevemente antes de levar uma mão aos cabelos até juntá-los em um grosso chumaço, e a outra o cortou com a kunai.

Shikamaru era capaz. Shikamaru tinha um forte motivo para ir até lá e voltar com vida; Sakura. E a história que o futuro ainda reservaria para ambos.

A esperança servindo como um catalizador fazendo sua energia queimar e emergir, trazendo um novo brilho aos olhos azuis. Sentou-se rapidamente na cama puxando o elástico que prendia o cabelo comprido de Shikamaru. O chumaço de mechas loiras foram unidas ao cabelo natural do Nara e amarrado, misturando ambos.

Os fios especiais da Yamanaka brilharam com a energia azulada de seu chakra e quando a luz evanesceu, não havia mais fios negros no grosso rabo de cavalo pendurado no alto da cabeça de Shikamaru. Seu chakra estava diferente, sentia ele de forma diferente em si. Era o chakra dela misturado ao seu, a assinatura dela escondendo a sua.

Foi fácil deixar Ino para trás com um acordo mudo de confidencialidade. Encontrou a ANBU que Sakura havia deixado ali para segurança, achou que seria mais difícil a surpreender e coloca-la no estado de sono profundo.

Andou pela sombra até a fronteira e andou ligeiro. Faria o henge de Ino apenas quando chegasse perto o bastante de Suna. Sorriu ao pensar na ironia que era saber exatamente onde a investigação dos visitantes começava, justamente por ter namorado a líder dos soldados.

Aquilo tinha que dar certo. Simplesmente tinha.

Estaria tão ferrado quanto Ino no final, mas tinha que fazer aquilo. Tinha que pelo menos ter a certeza de que tentou, e de que não julgou um ser humano pela roupa que ele usa.

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– Quando o bebê irá nascer? – Perguntou o ruivo para a loira em sua frente.

– Há qualquer momento. – Respondeu dando de ombros.

– Você não trouxe bagagem para ficar. – Apontou.

– Trouxe o limite de peso que poderia suportar para esta distância. – Ela respondeu segurando a avantajada barriga em forma simbólica.

– Vamos! – Ordenou se levantando da cadeira em que estava sentado. – Vou acompanha-la até o nosso quarto, você deve estar cansada.

O ruivo se adiantou, passando por ela para abrir a porta do escritório para que passasse. A loira o imitou, levantando e o seguindo. Por hoje realmente queria descansar e dormir, o hange estava lhe consumindo chakra demais. Precisaria estar descansado para encontrar o Iwa por quem Ino havia se apaixonado.

Isso se conseguisse encontrar a tal da sala dos vitrais.

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– Deidara está morto, Ino. Eu não acredito no que você fez.

– Ele vai conseguir. Tudo vai dar certo! – A Yamanaka repetiu como um mantra.

– Chega! Você vai ser tratada como uma paciente normal daqui para frente. E vai ficar no sono induzido enquanto eu resolvo a bagunça que você causou. – A rosada declarou assumindo a postura para um jutsu. – Nimpou...

– KAI – A loira das mentes o bloqueou com facilidade. – O sol virará gelo antes de você conseguir entrar na minha mente Haruno Sakura!

– Ino não me obrigue... – Alertou.

– Ele vai conseguir Sakura. Shikamaru tem um motivo para voltar, e ele vai voltar! – Disse com segurança, vendo a amiga parar para avaliar suas palavras. – Você. Shikamaru não abrirá mão de voltar para você. – Disse de forma carinhosa.

– É. Porque eu não vou deixar morrer por sua imprudência. – Respondeu dando as costas para a dona da casa.

– Não. Espera. Aonde você vai? – Ino gritou caminhando de forma apressada atrás de Sakura.

– Alertar as autoridades de Konoha sobre o risco eminente de morte de um de seus mais habilidosos shinobis de elite. – Crispou sem parar de caminhar, nem olhar para trás, descendo a escada com um jutsu básico que a fez sumir no topo e reaparecer no primeiro nível no segundo seguinte.

– Não Sakura, a traição! Se Konoha interferir Deidara jamais será um homem livre. – Ela tentou argumentar enquanto corria os degraus escada abaixo.

– E Shikamaru será um homem morto! – Sakura gritou finalmente parando e olhando para trás. – Cumplice da sua traição é menos ruim do que morto. Você sabia com quem estava se metendo quando aceitou se envolver por um Akatsuki.

– Por favor, Sakura, eu... Ah!

A frase de Ino foi cortada pelo som contínuo de seu tombo. Na pressa, seus pés correram mais do que poderiam e se enroscaram entre a altura de um degrau e outro, e a barra da longa túnica que vestia. O corpo da kunoichi rolou sem resistência até a base da escada, o som genuíno de dor liberado por seus lábios quando a mão tocou a barriga fez a discussão entre as duas finalmente terminar.

– Mas o que é que está acontecendo aqui? – A voz altiva e dominante de Tsunade invadiu a sala.

– Shishou, ajude! – Falou a rosada com pressa, correndo para o corpo que não conseguiu se erguer mais do chão, incerta sobre acudir primeiro Ino ou checar o estado do bebê.

– A bolsa rompeu. – Disse a medica mais velha apenas uma olhada na situação. – Precisamos ir pro hospital, Sakura.

– Não! O parto do bebê, eu tenho que o fazer sozinha! E eu tenho que...Suna. – A rosada misturou as palavras, parecendo completamente perdida sobre o que fazer.

– Sakura! – Chamou a mestre em repreensão, Ino estava precisando de cuidados e sua pupila estava com as mãos livres, remoendo palavras sem sentido. – Anuncie a nossa chegada e garanta que tudo esteja pronto para ajudar Ino. – A mais velha disse a uma pequena lesma que libertou após a ordem.

– Não! – Sakura gritou colocando-se de pé rápido o bastante para capturar o pequeno inseto. – Ninguém pode ver o bebê de Ino, ninguém.

– Sakura... – O nome da aluna saiu transbordando ira dos lábios da mestra, cada sílaba dramaticamente separada enquanto a loira se segurava para não punir a atitude da menina.

– Shishou, precisa confiar em mim. Teremos que fazer tudo aqui. E nós temos que conversar alguns pontos... Omitidos desta história. – A rosada disse estendendo a mão com a pequena lesma nela, em um gesto mudo de intenção de devolvê-la sem machucar.

NOTA: Espero que não tenha ficado confuso demais... Mas enfim, caso alguém não tenha entendido a Ino que está em Suna é o Shikamaru em um hange.

Eu acho que já comentei sobre a outra fic que é da mesma época desta, o nome é "O lugar certo para nós" que também foi deletada pelo site. Estou editando ela e alguns capítulos já estão programados na postagem automática do Nyah, o primeiro capítulo está agendado para o dia 06/03. E sim, esta data foi friamente calculada. Motivo: vocês irão descobrir quando chegarem no capítulo final dela que é o 50. Muahahaha

Mentira, quem já leu ela sabe que eu to devendo um extra. Ahaaa Será que a data prevista para a postagem do extra coincide com a data em que ele tem que estar pronto de acordo com a minha agenda? Mas é claro. /corre

Como assim agenda, Kami? Por gentileza: .br/u/12868/

Amo vocês