Capítulo vinte e dois: Tudo errado

Por Kami-chan

Em Konoha Sakura ainda evitava ao máximo dirigir seu olhar à Shikamaru. Podia sentir à distância toda a melancolia que o amado sentia e atribuía à sua pessoa. Ainda assim Sakura caminhou cada passo até a sala do Hokage com a cabeça erguida, tudo o que havia feito foi pensando no melhor para todos.

Não se surpreendeu ao ver Tsunade vindo ao seu encontro antes que pudessem alcançar a grande porta da sala principal daquele prédio. Shikamaru se adiantou na direção da loira, quase desesperado por informações. Mas ele foi ignorado pela Godaime como se fosse um fantasma.

Os olhos de Tsunade seguiram diretamente até Sakura em busca de respostas. A face cansada e os olhos tristes da Haruno a fizeram ser demoradamente analisada pela loira das lesmas, levou pelo menos dez segundos até que Tsunade-hime dissesse ou perguntasse alguma coisa.

– Sakura. – Ela disse o nome da ex-aluna, a pergunta foi omitida pelo silêncio e compreendida apenas pelas duas mulheres no local por uma troca de olhares.

Apenas por mirar seus olhos dentro dos olhos da Godaime, Sakura sabia exatamente o que ela queria saber. Ela queria saber o que tinha feito quando sumiu, quando levou Deidara consigo para algum outro lugar. Sua resposta poderia mudar o curso de toda a história de Shikamaru. A pequena lesma informante não havia mesmo deixar passar nenhum detalhe da rápida estadia do pequeno grupo em Suna.

Sua resposta poderia conduzir um dos melhores shinobis de Konoha até a ruína da traição. Ou poderia conduzir um dos melhores shinobis de Konoha até uma pequena e ínfima punição apenas por fazer o que qualquer pessoa com decência moral teria desejo de fazer. Sua resposta foi dada sem que ela nem mesmo desviasse o olhar de seu curso ou parasse seus passos.

Pouco antes de o grupo ultrapassar a mestre no corredor, todos viram a Haruno apenas jogar o pequeno e característico anel da organização criminosa para Tsunade. Pelo menos todas as pessoas que estavam ali naquele momento sabiam que aquele ornamento não podia simplesmente ser tirado de um membro da Akatsuki. Constava nas informações sigilosas que aquilo só deixava o corpo do shinobi quando o mesmo deixasse desta vida; apenas a morte tornava possível a remoção daquele objeto.

Nada precisava ser dito. Com Yamato e Sai ali nada mais poderia ser dito.

Sakura sentiu apenas os olhos ainda mais pesados de Shikamaru sobre si. A intensidade da energia que ele emanava a fez ter vontade de chorar novamente, mas manteve-se firme. E sem olhar nem mesmo para o namorado a rosada apenas seguiu em frente.

Não queria admitir para si mesmo que aquela era uma prova de era capaz de ser um maldito shinobi amaldiçoado. Não queria expor em seus olhos cristalinos que a imagem daquele homem rastejando e lutando arduamente para sobreviver demoraria para sair de sua cabeça. Tinha vergonha de dizer que queria na verdade salvá-lo ao mesmo tempo em que tinha nojo de por suas mãos e seu chakra naquele ser impuro.

Estava prestes a tocar a maçaneta para abrir a porta da sala de Naruto, mas sentiu seu punho ser interrompido pela mão de Tsunade. Antes de abrir a porta para o pequeno grupo a loira buscou os olhos verdes mais uma vez.

– Não se arrependa das escolhas que fez, Sakura. Você sabe que fez a escolha certa. – Ela disse e então abriu a porta, acompanhando o grupo até o lado de dentro onde eram esperados.

Ela não iria. Não precisava responder aquilo em voz alta, era racional o bastante para não lamentar o que não podia ser desfeito. Mesmo que fosse o seu lado emocional sendo bravamente contido que a fazia apenas seguir em frente em silêncio.

– Naruto, eles chegaram. – Anunciou a loira chamando a atenção do Hokage.

– Ah que bom! É um alívio revê-los. Sakura, você saiu da vila em uma missão sem a minha aprovação.

– Gomene. Não havia tempo, Tsunade ordenou esta missão ao descobrir a ausência de Shikamaru e o motivo da mesma. Temi pelas consequências destes atos segui para Suna o quanto antes.

– Temeu? – Naruto questionou em estranheza.

Nara e Haruno eram próximos, mas provavelmente não a ponto de fazê-la temer. Já tinha visto Sakura temer por si poucas vezes, e apenas porque a situação era de risco extremamente grande até mesmo para a enorme boa vontade e benevolência do loiro teimoso. Fora isso, se lembrava de Sakura apenas temendo por Sasuke. Por um motivo muito mais intenso e inexplicável.

– A aproximação com Ino acabou unindo a Shikamaru e a mim de uma forma que, apensar de me fazer muito feliz, não é relevante neste momento.

– Mas Shikamaru é o pai do bebê de Ino! – Disse o loiro sem ser capaz de reprimir o pensamento em voz alta.

– Por mais que sejamos amigos e que te respeite, Naruto, este é um ponto desta história cuja resolução cabe somente à Shikamaru e a mim. As questões conturbadas desta história foi o que nos fez optar por um relacionamento discreto. – Sakura respondeu de forma que não contradissesse a história que já havia sido contada até ali.

A parte em que preferiam um namoro discreto na verdade nunca havia sido discutida. As circunstâncias os levaram a apenas não revelar, mesmo que não estivessem tentando omitir.

Entretanto Sakura sabia que se fosse verdade, se o filho de Ino realmente do fosse de Shikamaru como o moreno havia assumido para todos, admitir e aceitar um relacionamento com o Nara seria algo constrangedor para que ela admitisse. E sabia que por sua resposta bem pensada, Naruto apenas se calaria como o fez. Tentando omitir o constrangimento por querer saber de coisas da vida pessoal de Sakura em um momento em que elas não importavam de fato.

– Tá. Bom estão todos aqui bem de alguma forma. – Disse olhando mais demoradamente para o corpo com escoriações do amigo Shikamaru. – A missão ordenada por Tsunade foi concluída sem problemas, claro. – Admitiu parecendo pensar em algo.

– Na verdade não tão bem, houve um ponto. Quando chegamos lá encontramos Temari, a irmã de Gaara morta. A lesma que levei comigo deve ter passado este detalhe para Tsunade.

– Ela já estava morta quando chegaram lá, além do mais, Temari foi morta pela areia do irmão. Não é problema nosso. – Completou Tsunade.

– Temari se colocou entre mim e Gaara, logo é problema nosso. – A voz de Shikamaru se fez ouvir, baixa e pesarosa demais entre os colegas.

– Outra ex-namorada? – Mais uma vez Naruto pareceu não conseguir manter o pensamento silencioso em sua cabeça.

– Não vem ao caso os motivos que fizeram Temari se colocar à frente do jutsu do irmão. – Interferiu Sakura.

– Espera Sakura, nós não sabíamos que ela havia morrido por se colocar entre Shikamaru e Gaara. Nós conseguimos sair de Suna devido ao luto do Kazekage, mas pelo o que ouvimos agora é possível que Gaara reverta esta história e assuma a ideia de que a irmão morreu por culpa de Shikamaru. – Tsunade a interrompeu.

– Shikamaru não tinha que estar lá. – Choramingou Naruto.

– Temari era a Kunoichi general de Suna, um shinobi forte. Se Shikamaru deveria ou não estar lá, foi escolha dela intervir. – Disse Sakura.

– Não acho que Gaara irá interpretar assim. – Concluiu Shikamaru.

O moreno quis completar dizendo que tinha visto com seus próprios olhos a extensão da loucura de Gaara, mas não conseguiu. Sem estranhar nada o moreno apenas calou, crendo que uma parte grande de seu inconsciente não queria falar sobre as coisas que descobriu naquele lugar. Estranhamente, a distância do deserto começava pouco a pouco a fazer com que sua adrenalina abaixasse e suas emoções fossem voltando ao normal.

A proporção de peso de suas memórias voltaram a colocar de lado a lembrança do general forte e a kunoichi que se colocou de frente com a morte em seu lugar com a da mulher que acreditava estar falando com Ino enquanto ditava de forma maldosamente altiva os passos da pena perpétua que Gaara havia reservado para a loira. A maldade expressa nos olhos claros quando se dirigiam à Yamanaka, voltando a ser mais forte do que a nostalgia e o amor expressos em seus últimos momentos antes do derradeiro adeus.

– Depois de ouvir o que Sakura me contou sobre Gaara, concordo com Shikamaru. – Disse Tsunade.

– Deixamos claro que Konoha não aprovou a ida de Shikamaru até Suna em busca de "justiça com as próprias mãos". – Finalizou Sakura fazendo Shikamaru olhar para si com olhos surpresos.

Aquilo nada tinha haver com justiça, ele tinha ido até Suna para resgatar um Akatsuki. Shikamaru sabia que a rosada sabia daquilo, aliás, aquilo lhe lembrava que Sakura havia literalmente sumido com Deidara. Queria perguntar-lhe coisas, mas novamente era como se as palavras para isto não conseguissem se formar em sua boca, ainda assim não estranhou, pois sabia que ainda não era a hora e nem o lugar adequado para isto.

– Quanto à morte de Temari, eu irei até Suna prestar meus pêsames pela morte da irmã de meu velho amigo. Tenho certeza que apesar da dor, posso trazer alguma lucidez para Gaara.

– Não resta nenhuma sanidade naquele ser. – Crispou Shikamaru.

– Não perca a fé em nos nossos amigos, Shikamaru, por mais distantes que ele possam parecer estar. Temari, por exemplo, foi protagonista de um atentado à Ino dentro de nosso hospital. Ainda assim, por suas palavras, foi Temari em se colocou entre Gaara e você em um momento decisivo. Eu sei lidar com Gaara e não vou desistir dele assim tão fácil.

– Quero ir com você no funeral de Temari. – Disse Shikamaru.

– Você enlouqueceu por acaso? – Sakura disse rapidamente, indignada com a forma como a lucidez e inteligência de Shikamaru pareciam ter lhe abandonado por completo.

– Sakura está certa. Você acabou de ser trazido de Suna algemado, não será de bom tom você aparecer em Suna, devidamente livre depois de estar diretamente envolvido com a morte de Temari. – Disse Sai se pronunciando pela primeira vez naquela sala.

– Sai tem razão. Você é um dos meus conselheiros, Shikamaru, escolhi você por nossa amizade e sua inteligência única. De todas as pessoas, você era a única que eu não imaginava correndo para fazer justiça com as próprias mãos com um dos nossos aliados mais delicados e fortes. – A voz de Naruto se fez ouvir. – Como punição por esta atitude ficará exilado em Konoha, está liberado apenas para suas atividades de conselheiro. O tempo disto será determinado depois que eu voltar de Suna, dependendo de como for a conversa com Gaara.

– Eu não fui atrás de ving..grr.. – O moreno sentiu sua língua se recusar a formar a frase completa.

Diria que não tinha ido até lá por vingança, que não tinha ido fazer nenhuma justiça com as próprias mãos. Mas as palavras simplesmente não saíram, como se fossem absolutamente proibidas.

Shikamaru tentou novamente proferir as mesmas palavras, e mais uma vez sua língua se recusou a se curvar para formar cada sílaba. Não estava louco, não tinha desaprendido a falar, ainda assim não conseguia dizer aquilo.

– Naruto está certo, Shikamaru. – Sakura disse olhando profundamente par si.

E o Nara viu nas íris manchadas pela vergonha da culpa, um possível motivo para não conseguir falar. Conhecia o selamento, mas nunca tinha experimentado a sensação. Lembrou-se de um beijo nas alturas que ela trocou por respostas com a desculpa que Sai poderia os ouvir.

Sakura não estava agindo normalmente desde que apareceu em Suna, fez coisas estranhas e disse palavras sem sentido. Mentiras descaradas que apenas ele poderia desmentir, então o calou forçadamente para que sua palavra não pudesse ir contra a dela.

Uma grande ira se apossou do moreno. Não entendia o que Sakura estava planejando, mas não via naquele plano a solução que tinha se arriscado e ido até Suna para conseguir pela felicidade de Ino. Queria contestá-la, mas nem mesmo para isto as palavras surgiam em sua boca; era óbvio o que ela tinha feito.

– Você, Yamato e Sai irão comigo. Não apenas como minha guarda, mas porque estiveram lá e viram o cenário fatídico. – Disse Naruto à Sakura. – Partiremos amanhã pela manhã, baa-chan terá que cuidar de nossa casa em minha ausência.

– Hai. – Responderam todos os citados ao mesmo tempo.

– Acho que é só isto, certo? – O Hokage se pronunciou uma última vez a fim de dar aquela reunião por encerrada.

– E sobre o Akatsuki? – Yamato se pronunciou de forma eficiente, seu esquadrão era encarregado daquele assunto diretamente relacionado à proteção da vila e do Hokage.

– Que Akatsuki? – Perguntou Naruto.

Shikamaru sentiu a aura em torno de Sakura mudar. Pareceu-lhe óbvio que a rosada não queria falar sobre Deidara e era mais óbvio para si que não conseguiria falar por si só. Apensar da raiva pelo selo que lhe impedia, recuou tentando se manter calmo.

Afinal o que diria? Que Ino sabia que aquele Akatsuki estava lá devido à dons especiais de seu filho, que na verdade era também de Deidara? Que tinha sido esta informação que tinha o movido a sair em uma missão suicida até Suna?

– Nós viemos conversar com você sobre um evento fatídico que ocorreu entre Ino de Gaara, inclusive na presença do Kazekage. Suspeitávamos que Gaara tivesse matado o Akatsuki da pedra na luta que tiveram, mas na verdade ele estava sendo mantido como prisioneiro de Gaara em Suna, na verdade me pareceu como algo parecido com um brinquedo de Gaara. – Disse Sakura.

– Eu me lembro deste evento. Achei que estivessem exagerando para aumentar o mártir de Ino, me desculpem. Shikamaru devia ter sido mais claro, eu mandei Ino naquela missão com Gaara crente que passar um tempo juntos seria bom para eles. – Respondeu Naruto.

– De qualquer forma o Akatsuki já estava debilitado demais devido ao tratamento oferecido por Gaara. Entreguei seu anel para Tsunade, é um artefato a mais para estudarmos e entendermos sobre esta organização maldita. – Prosseguiu.

– Você trouxe seu corpo para estudarmos? – Perguntou Tsunade tentando não mostrar um interesse maior do que o devido àquela pergunta.

Para Sakura ficou claro seu sumiço momentâneo com certeza não tinha sido passado despercebido. Também ficou claro que não seria injustificável.

A rosada engoliu em seco e sorriu levemente para amestre antes de prosseguir.

– Os últimos relatórios da nossa polícia segura continha citações de avistamento deste Akatsuki nos arredores da vila. Ele foi capturado por Gaara durante este período, temi que sua morte pudesse ser relacionada à nós se ele estivesse em alguma missão de investigação aqui. Trazer seu corpo para cá seria o mesmo que assumir sua morte. E não queremos a Akatsuki dentro dos limites da vila, principalmente por uma morte que não causamos.

– Para onde você o levou Sakura? – Perguntou Yamato.

– É mais seguro que ninguém saiba. Aquele Iwa não possuía nada de especial além do chakra de linhagem estranha para pesquisarmos. O que ele tinha de melhor para contribuir já está com Tsunade, todos eles usam um desses anéis e agora temos um também para descobrir qual o poder e o valor disto para a organização.

– Você não jogou o corpo dele em uma vila qualquer que irá levar a culpa por isto sem nem saber, não é? – Perguntou Naruto.

– Dou-lhe minha palavra de que pensei em todos os detalhes, Naruto. Ninguém verá ou ouvirá falar novamente no Akatsuki de Iwa. – Explicou.

– Então eu creio que por hora isto basta. – Concluiu Naruto. – Sai e Yamato estão liberados. Muito obrigado pela colaboração de vocês. Nós sairemos amanha cedo.

Sakura e Shikamaru se entreolharam por extinto ao ouvirem os outros dois serem liberados. Sakura pressentindo no rosto de expressão fechada do namorado a ira contida à força pelo selo que lhe travava a língua. Podia ouvir com clareza todas as perguntas e acusações que ele lhe gritaria assim que pudesse falar, apegada somente ao fato que tudo aquilo havia terminado apenas com um exílio breve ao amado ao invés de um título de traição para os três, eles e Ino.

Shikamaru por outro lado, via nos olhos que Sakura tentava bravamente manter secos e fortes, o medo e a culpa. Estava se esforçando ao máximo para não julgar as atitudes da namorada sem ouvi-la de verdade, mas estava realmente difícil de ligar o que tinha visto com o que gostaria de ouvir.

– Ano... o que temos para falar em particular com vocês dois é um pouco mais complicado. Vocês terão que ser fortes. Tsunade... – Concluiu fazendo um gesto com a mão para que a loira assumisse a palavra.

– Não há meios fáceis de falar isto, mas Ino não resistiu à hemorragia interna causada pela queda.

– O que? Shishou era apenas uma hemorragia simples, lidamos com isto todos os dias. – Sakura disse em tom alto, acusativo e quase desrespeitoso se não fosse um momento de dor.

– Que queda? – Shikamaru gritou ao mesmo tempo em que Sakura, puxando o braço da rosada com violência em sua direção.

– Ino caiu da escada depois que você partiu e tivemos que fazer um parto de emergência. Quando saí daqui o bebê estava bem e você estava cuidando de Ino. – Concluiu ainda exasperada olhando para Tsunade.

– Demos prioridade ao bebê, Sakura. Fizemos as coisas na ordem em que manda o bom senso, porém a hemorragia de Ino era muito intensa. O tempo que levei cuidando do bebê tornou a perda de sangue em Ino irreversível.

– Mas era apenas uma porcaria de hemorragia. Hemorragias são cauterizadas com chakra, não há necessidade nem de cortar a pele. – A rosada continuou em tom desesperado.

As lágrimas que tinha segurado bravamente até o momento, enfim conseguiram uma brecha para tocaram a pele clara. Era simplesmente inaceitável o que Tsunade estava lhe dizendo, com Ino morta todo o seu sacrifício havia sido em vão. Aquilo só podia ser um castigo para si e suas escolhas egoístas.

– A forma como a gestação espreme os órgãos internos da mulher também contou contra nós, Sakura. Não vou aceitar que você coloque a prova a minha habilidade médica e muito menos o meu desejo de dar à Ino o meu melhor. – Tsunade respondeu de forma firme.

– Onde está o bebê? – A voz de Shikamaru interrompeu que aquilo se tornasse uma discussão.

– Esta é a pior parte. O recém-nascido parecia saudável apenas de pequeno demais, mas começou a ter convulsões logo após o óbito de Ino. O clã Yamanaka costumava manter as peculiaridades mais extremas do seu núcleo apenas para si, não se sabe ao certo até onde vai a conexão da mãe com o bebê.

– Isto não responde onde está o bebê. – Shikamaru disse de forma que soou ser congelada.

– Isto é ridículo! – Sakura gritou, virando-se para deixar a sala antes de ouvir a resposta que já previa de Tsunade.

Ouviu seu nome ser chamado, mas não deu importância. Tinha feito planos em vão, escolhas sem sentido e mentido descaradamente para conseguir livrar os três do pior. Tinha visto o bebê sobre as mãos de Tsunade, tinha visto a mestre começando a cuidar de Ino.

– Eu cuido dela. – Ainda foi capaz de ouvir a voz da mestre, e isto a fez andar mais rápido. – Sakura! – Chamou com sua voz ecoando alto logo após o som da porta sendo fechada.

– Não vai me convencer até que eu veja seus corpos no necrotério. – Respondeu a rosada sem parar de andar.

– Eu sei, por isto te trouxe isto. – Disse a seguindo com o braço esticado.

A frase fez Sakura parar e olhar para trás. Na mão da mestre havia duas pastas e uma chave. As pastas eram padronizadas do hospital e deveriam conter todos os procedimentos que cada um deles havia passado. A chave tinha o chaveiro da sala pessoal de Tsunade.

– Por que fez isto? Você sabia que eu estava indo até Suna para resolver tudo, você só tinha que seguir o plano. Quando eu saí da sala você já tinha começado a cuidar de Ino. Você me pediu para não colocar à prova suas ações, mas isto só me faz pensar que você colocou à prova as minhas. – Acusou e Tsunade sorriu.

– Você foi a aluna que eu escolhi para mim, Sakura, eu tenho confiança em cada um dos seus passos. E repito, não se arrependa das suas escolhas. Fez a escolha certa. – Concluiu encarando sua roupa sua de sangue ao se aproximar para que Sakura pegasse as pastas e a chave.

– Baa-chan... – A face de Naruto apareceu assustada pela porta entreaberta. – Shikamaru. – Foi tudo o que disse antes de voltar, e tudo o que precisava para fazer Sakura recuar junto com sua mestra para dentro da sala.

Seu peito doeu ao ver o choro continuo do moreno. Shikamaru estava com as duas espalmadas sobre o tampo da mesa do Hokage e seus soluços eram tão profundos que seus ombros sacolejavam. O ritmo dos mesmos deixava clara a dificuldade que o moreno estava tendo para respirar enquanto os soluços deixavam seus lábios.

Nada foi dito e nenhuma das ações de Sakura foi impedida. A relação que havia entre os dois havia sido assumida dentro daquela sala pouco tempo atrás. Sem saber como ajudar, Naruto apenas se colocou ao lado de Tsunade próximo á porta. Afastados o suficiente para dar-lhes privacidade, próximos o bastante para ajudar caso fosse necessário.

Ao longe os loiros os assistiram. Sakura havia encontrado uma calma súbita ao colocar os olhos em Shikamaru, o estado dele estava ruim o bastante para pensar na forma como descreditava nas palavras de Tsunade.

Sem pensar muito, sua primeira reação foi de abraça-lo. De inicio ele não quis saber de aceitar o conforto oferecido, as mentiras de Sakura e a morte Ino eram demais para serem colocadas no mesmo caminhão emocional. Na noite em que Temari havia morrido em seu lugar depois do dia pesado passado sob a loucura obsessiva de Gaara.

Pela primeira vez desejou não ter ido; não ter cedido ao pranto de Ino. A pessoa que tinha ido resgatar estava morta de qualquer forma, e em sua ausência havia perdido ainda mais.

Mas isto lhe trazia a consciência de Sakura ainda era a única coisa que tinha, e ao aceitar o carinho vindo dela pode compreender que talvez ela tenha sido a única pessoa que tinha feito as escolhas certas naquela noite.

– Eu não devia ter ido. – Sussurrou com dificuldade no ouvido da rosada.

– Você fez o que ela queria Shika. Certas coisas do destino simplesmente não estão em nossas mãos, ir ou ficar não mudaria isto. Se tivesse se negado ela entraria em crise por desespero e teria o bebê de emergência também, não se culpe. – Disse ainda mais baixo para ter certeza de que apenas ele ouviria.

– Se tivesse ficado eu estaria ao lado dela. – Respondeu.

– E se culparia pelo por não ter ido atrás do que ela queria. – Concluiu ainda tentando fazer com que ele se acalmasse.

E ele se acalmou por um ou dois minutos, então seu pranto retornou. Era simplesmente inacreditável; inaceitável.

– Está difícil respirar, me sinto tonto.

– Eu vou deitar você. – Avisou já manipulando o corpo com destreza na posição em que queria.

– Eu não quero que me faça dormir. – Pediu, uma vez que o jutsu dela tinha se tornado comumente evitado por Ino.

– Tudo bem.

Sakura se colocou ao lado do corpo do namorado de joelhos, parecia desconfortável ao longe, mas ela achava muito melhor trabalhar no chão ou em macas baixas do que em algumas camas do hospital. Como era de praxe posicionou suas mãos centralizadas sobre o peito do corpo diante de si e respirou fundo para conduzir bem seu chakra pela palma das mãos.

Olhou para a luz verde emitida por si mesma por um breve espaço de tempo e então se pegou prestando atenção em si mesma. Tão contraditoriamente, acalmar exigia a mesma postura corporal sua que usaria para mata-lo se quisesse. A diferença era apenas quantidade de energia que seu corpo emitia contra o outro.

Era estranho como aprender a manter a vida exigia aprender como ceifá-la. Espremeu os lábios ao pensar que aprendiam aquilo para não fazer por engano e seus olhos novamente ameaçaram permitir uma fina camada de lágrimas. Aquela tinha sido uma noite em que havia resolvido que seu lugar era mesmo dentro do hospital e nenhum outro lugar, não queria mais receber aquele tipo de missão homicida.

Seu corpo estava sujo com o sangue seco de Deidara. Mesmo que não quisesse seus olhos sempre eram atraídos para aquelas manchas escurecidas por efeito da luz brilhante que emitia por suas mãos e na forma como Tsunade ficou olhando fixamente para as mesmas minutos atrás enquanto conversavam.

Escolha certa, ela disse. Como saber?

Como Tsunade saberia com tanta certeza?

Um bebê que passou tão vivo por seus olhos, uma amiga que já estava em tratamento e um homem desesperado por sobrevivência. Fechou os olhos com força quando mais uma vez a imagem do loiro agonizante tentando se arrastar pelo chão enquanto não tinha forças nem mesmo para chamar o nome da pessoa por quem buscava desesperadamente. Seus lábios abrindo e fechando com urgência, como se estivesse na verdade gritando pelo nome de Ino em seu último suspiro.

Como? Como ela poderia saber? Perguntou-se olhando para as manchas de sangue em sua roupa até que as mesmas sumissem, encobertas por seus próprios braços quando desceu suas mãos carinhosamente pelos braços de Shikamaru. Um gesto simples sem nenhum fim medicinal naquele momento além do desejo de demonstrar para o corpo que já respirava com tranquilidade, que estava ali com ele.

Havia tantas coisas misturadas em sua cabeça naquele momento. Tantas coisas confusas que nem lhe pareceu estranho um ato sem nexo como aquele fazer algumas peças se encaixarem em sua cabeça. Mesmo que não fizesse sentido algum.

Respirou fundo tentando criar uma ordem de atos em sua mente. Ino não devia estar morta, muito menos o bebê; simplesmente não fazia sentido. Sua difícil missão já garantiria a tranquilidade do futuro deles três, teria que conviver com a fama de amante passiva que aceitou o filho de seu homem com outra mulher, mas ela sabia da verdade e isto lhe bastava com a mais pura sinceridade.

Entendia a ligação fraterna que havia entre Shikamaru e Ino e para si, se tivesse Shikamaru ao seu lado tudo estaria bem. Egoistamente bem, mas bem. Em sua mente o melhor final que poderiam dar para aquela trama estranha que envolvia Ino se apaixonando por um criminoso desconhecido.

Mas todo plano carrega consigo uma predisposição para o fracasso. Variáveis, imprevistos, ações impensadas que mudariam todo o curso. Uma simples mudança de ideia, que seja.

O plano de Ino de ir até Suna em um dia comum colocou em seu caminho uma variável catastrófica de destino. A escolha de aceita-lo assinou o que formaria o cenário de todo o drama que acabaram vivendo.

A escolha de Shikamaru de aceitar Deidara com o Ino tinha o aceitado o levou a um novo e fracassado plano. Um que teve como consequência a morte de Temari.

E a sua escolha de proteger Shikamaru do que viria além da salvação que ele poderia dar ao Iwa, teve como consequência a perda de Ino. E tudo o que tinham feito até ali havia sido por causa de Ino, então não fazia o menor sentido que ela morresse depois de ter construído toda aquela história ao lado quem havia se arriscado para cuidar de si.

Havia apenas uma variável em que Sakura conseguia pensar que tornaria a morte de Ino aceitável. Mas era impossível sem alguma combinação insana friamente premeditada.

Parecia tão simples no começo, afinal... ela tinha um plano.

Um plano que fracassou.

Não gostava de fracassos, se sentia como a menina da professora que estava com sua primeira nota abaixo de dez na mão. Olhando para o número desagradável como se ele mesmo pudesse lhe dizer o motivo de algo ter dado errado para o teste que tinha se preparado tão bem. Sem entender, sem aceitar.

Soltou as mãos de Shikamaru, vendo novamente as manchas em suas roupas. Se nada fazia sentido. Se todo plano era imperfeito e falho. Se toda escolha representava imediatamente uma renúncia. Se cada ação gerava uma reação. E ainda assim havia uma linha de raciocínio se formando em sua cabeça, não havia motivo algum para não segui-la só porque era claramente absurda e pudesse se mostrar arriscadamente dolorosa.

– Você se lembra quando disse que eu podia ficar brava por você ter uma ex maluca e que eu podia ser egoísta e não querer que você se doasse tanto para Ino? – Perguntou de forma calma, baixo o bastante para que não fossem escutados.

Shikamaru, calmo por indução de Sakura, apenas balançou a cabeça para cima e para baixo de forma positiva. Sentindo um aperto estranho ao se lembrar da vida e da morte das duas loiras.

– Você me faz sempre querer dar o melhor de mim. Me faz querer encontrar a última variável além do limite do inalcançável e fazer com que dê certo tudo aquilo que parece impossível. Perdoe-me pelas palavras omitidas e pelo selamento em sua língua, mas eu comecei algo que preciso terminar. Eu realmente amo você.

E antes que pudesse prever o que viria, Shikamaru apenas sentiu o corpo quente e pesado como se um sono intenso lhe e inevitável lhe tomasse por completo. Fechou os olhos e dormiu sem ser capaz de ir contra ou dizer qualquer coisa.

– Eu vou levar ele para casa. – Disse em voz clara e alta, em meio a um fungado que engoliu todo e qualquer vestígio de um choro que não venceu sua força.

A rosada não se fez de discreta ao colocar a chave de Tsunade em um dos bolsos. Colocou também as duas pranchetas que tinham lhe sido entregues em cima da barriga do corpo descordado de Shikamaru antes de usar sua força especial para carregar seu corpo.

Ela iria com certeza, descobrir passo a passo o que tinha dado de errado nesta história.

Notas: Eu não estou gostando deles em Konoha dnvo, percebi que não fechei bem certos pontos, mas enfim...

Confuso... eu achei, mas eu juro que explico tudo no próximo.