Capítulo vinte e três: Preparando-se para assumir as consequências

Por Kami-chan

Os aldeões na rua olhavam sem conseguir esconder a curiosidade. Afinal aquela era Haruno Sakura, a pupila de Tsunade que tinha atuação e voz tão ativa no hospital de Konoha quanto sua mestra. Qualquer um que tenha precisado de cuidados, fossem eles simples ou mais dedicados, já tinha passado pelas mãos habilidosas da kunoichi ou pelo menos já tinham a visto em ação, para lá e para cá dentro do hospital.

Por isto os olhos curiosos a seguiam com cuidado, afinal, parecia ser um dos conselheiros do Hokage que ela carregava desacordado em seus braços. Todos queriam, secretamente, saber o que tinha acontecido. Perguntando para si mesmos se o bravo shinobi havia sofrido um golpe forte demais em alguma missão ou se o mesmo havia se ferido protegendo o amado líder de sua aldeia, guardando suas dúvidas com o silêncio da descrição e matando suas curiosidades ao se focar novamente em suas próprias vidas e problemas.

E assim Sakura seguiu, ignorando olhar por olhar até vencer todo o percurso até a residência do quase extinto clã Yamanaka. Não sabia quantas pessoas sabiam sobre Ino, ou sobre a relação entre Shikamaru e Ino. Tudo que queria evitar naquele momento era a explicação que não tinha para os pais de Shikamaru caso o deixasse em sua própria residência. Uma parte de si apenas queria ter certeza de que a casa de Ino estava mesmo vazia.

Uma dor aguda lhe atingiu ao perceber que tudo estava exatamente da forma que deixaram quando Ino caiu da escada. Levou rapidamente Shikamaru para o quarto principal da residência e de forma irônica refez o caminho recolhendo coisas caídas no chão para que aquele senário não remetesse as coisas que haviam se passado ali quando ele acordasse.

Levou consigo apenas as pranchetas. Shikamaru teria que ficar bem sozinho, tinha que entender como as coisas tinham mudado daquela forma de uma hora para outra, sem avisos, sem suspeitas. E tinha apenas até a manhã seguinte para isto, o que significava que passaria sua noite em claro no hospital.

Quando voltasse teria todas as respostas. Somente quando voltasse poderia encarar Shikamaru nos olhos e lhe dizer o que é que tinha dado certo e errado naquilo tudo.

A Haruno foi o centro de todas as atenções quando entrou no hospital, o principal motivo disto com certeza eram suas roupas sujas de sangue. Sentiu-se boba por não ter passado em sua casa antes ou simplesmente ter pegado alguma peça na casa de Ino.

Sua curiosidade e os pensamentos gritantes em sua cabeça falavam mais alto. Talvez devesse ter escolhido a entrada de funcionários pelo menos, assim encontraria menos pessoas por seu caminho.

– Sakura-san está tudo bem? – Uma das auxiliares veio em sua direção, prestativa.

– Está tudo bem. Apenas ignore ter me visto aqui, tenho algumas pendências importantes e não posso ser interrompida. – Disse sem nem mesmo parar para conversar com a garota.

– Você tem muito sangue nas mãos. – Disse a garota, e de alguma forma aquilo lhe soou de forma sombria.

– O que disse? – Perguntou, finalmente parando de andar por um segundo.

– Está suja de sangue. – Ela disse gesticulando para se referir às suas roupas.

– Eu sei. Está tudo sobre controle. Apenas lembre-se de que não quero ser interrompida, nem por motivo de pacientes e nem por Tsunade ou Shizune. – Repetiu o aviso voltando a andar e ignorar a garota. Devia estar mesmo confusa e cansada demais para estar ouvindo aquelas indiretas de quem certamente não deveria nem saber de nada.

Enquanto andava se pegou pensando em todas as coisas que havia acontecido até ali. Tentou encontrar em seu caminho de forma retrospectiva o momento em que tudo deu saiu dos planos. Mais profundamente e anterior a tudo isto, se pegou tentando colocar aquela história toda em uma ordem cronológica para identificar o momento exato em que seus destinos foram marcados daquela forma.

Tinha voltado a se aproximar da amiga por intermédio de Shikamaru e ampliado sua já existente amizade com Ino por causa do moreno e a relação dividida pelos dois. Por aquela amizade enfrentou quem um dia já chamou de amigo, aceitou quem deveria ser um inimigo e mentiu para aquele que seria eternamente seu companheiro de equipe.

Tudo isso em menos de um ano. Ainda assim parecia-lhe ser o tempo de uma vida.

Não se lembrava mais como era a sua vida apenas com as preocupações e correrias emergentes do hospital. Aquele cansaço diário dos plantões extensos lhe parecia tão distantes e nostálgicos agora.

Quase nove meses. Ino havia lhe contado toda a história sobre como encontrou Deidara por acaso e o quão mágico e especial foi o seu encontro; um encontro de almas segundo a loira. Foi ali que o primeiro passo foi dado.

Exatamente ali. Como uma shinobi com orgulho igual ou maior do que a influência de seu importante clã, Ino não se esqueceu de ressaltar que assim que percebeu que havia se encantado pela pessoa errada, recusou sua aproximação. Mas o destino era uma entidade esperta demais, já era tarde, o primeiro e derradeiro passo já havia sido dado; Ino estava grávida.

Mesmo sem nem desconfiar. Mesmo que ela usasse como argumento o fato de que tentou renegar aquele amor proibido, a prova dele era o fruto que ela já carregava em seu ventre. E todas as consequências de sua traição teria peso sobre ele.

Ainda assim, não tinha sido ali que ela, Haruno Sakura, tinha se envolvido até o pescoço com aquela história. Precisou mais. Precisou saber dos abusos que a amiga passou a sofrer nas mãos do ex-namorado traído, precisou que uma shinobi de respeito invadisse o hospital e agredisse sua paciente, precisou que seu namorado impensadamente assumisse aquela criança cuja identidade verdadeira do pai ele nem adivinhasse e precisou, por fim, que a verdade viesse à tona.

E mesmo que por tabela, ela se viu apoiando o relacionamento proibido e sendo cúmplice da traição de Ino. Uma história que nem tentando rever o passo a passo tinha chances de um final feliz.

Mas como já tinha se flagrado, o destino era uma entidade muito esperta. Ele sabia o que era certo e o que era errado e montava a estrada de cada um sempre de maneira correta. Era quando alguém tentava influenciar nesta estrada que as coisas saiam errado.

Interferir fazia o destino sair do controle. E ela havia, de forma arrogante, interferido no destino de seis pessoas, incluindo ela mesma; ela e Tsunade.

Temari, Shikamaru, Ino, Deidara e seu bebê tiveram seu futuro definido a partir do momento em que convenceu Shikamaru que não importava o paradeiro do loiro da Akatsuki, pois a identidade dele era facilmente omitida no bebê. Melhor seria se o Iwa estivesse mesmo morto da forma como suspeitavam.

Oh é verdade, neste ponto não foi apenas ela quem quis brincar com o destino. Ino se recusou a aceitar a ausência e morte do loiro e influenciou Shikamaru a seguir uma resposta incerta que poderia existir apenas em seus sonhos. Ali sim havia começado sua parcela de responsabilidade pelo quadro que tinha desenhado ali.

Sakura não acreditou em nenhum segundo sequer que aqueles sonhos fossem verídicos. Não que a loira não os tivesse verdadeiramente, mas não acreditava que aquilo era uma visão ou algo do tipo. Realmente sabia-se muito pouco sobre os dons mais secretos daquele clã, mas sua mente racional achava muito mais provável acreditar que Ino estivesse sendo influenciada por seu emocional e sonhando com uma versão menos dolorosa do que a morte; uma versão em que ainda havia esperança.

Teve isto em mente quando discutiu com a mulher e também enquanto usava os argumentos que tinha para convencer Tsunade a lhe mandar até Suna em uma missão oficial. Não tinha nenhuma crença na vida de Deidara quando disse que se fosse verdade que o Iwa estivesse sendo feito de refém por Gaara e ainda estivesse vivo, ela mesma daria um fim no loiro em pró do futuro de Shikamaru, Ino o bebê e, claro, ela mesma.

E se surpreendeu verdadeiramente com o que encontrou naquele cenário de batalha perdida. Contra tudo o que acreditava Deidara ainda estava vivo e isto tornava real sua missão de ter que mata-lo. E não iria falhar.

Aquele ponto era um detalhe importante das ordens de sua mestra ao lhe enviar para Suna. Se Deidara ficasse vivo e algum dia se recuperasse o suficiente para ir atrás de Ino, todo aquele esforço e mentiras seriam em vão.

O excesso de informações em sua cabeça, indo todas umas contra as outras em um ritmo rápido de desaceleração catastrófica a impedia de organizar os fatos de forma coerente. Queria encontra de que forma aquilo faria sentido, mas era em vão; eram coisas demais.

Sakura bateu a porta da sala de Tsunade e encostou sua testa na madeira ao mesmo tempo em que passava a chave para trancar a mesma de olhos fechados. O caminho até ali havia sido feito completamente no modo automático. Não viu ninguém em seu caminho e nem mesmo prestou atenção em seus passos, não saberia dizer nem mesmo se esbarrou em alguém ou em alguma coisa no meio do caminho.

Sua mente estava tão cheia de coisas que parecia até aderir ao branco total para tentar encontrar algum alívio. Até mesmo a respiração ela pareceu ter reencontrado apenas depois de se ver trancada e isolada naquela sala com as luzes apagadas e sua testa encostada na porta.

E ali escondida de todos, logo após o segundo suspiro da respiração reencontrada, Sakura se permitiu chorar. Era raiva misturada com dor. Não entendia e muito menos aceitava aquele fim. Usou de toda a sua esperteza e no final se sentiu apenas tola e burra.

Não se bagunça os planos do destino. A lógica dele nem sempre faz sentido para as mentes limitadas dos seres humanos.

Chorou sem se preocupar se tinha ou não tempo para isto. Sabia que não conseguiria dar o seu melhor para estudar aquelas pastas em suas mãos se não descarregasse tudo o que havia em sua cabeça primeiro. Uma parte do seu cérebro compreendeu as palavras estranhas de Tsunade, mas a outra ainda precisava ser convencida.

E a única fonte de onde poderia tirar respostas concretas e definitivas eram aquelas duas pastas em suas mãos. Gastaria, com certeza, toda a sua noite naquele local e dependendo do que descobrisse não conseguiria nem conversar com Shikamaru antes de partir com Naruto de volta para Suna

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Shikamaru sentia como se seu corpo estivesse quebrado em vários pontos. Todos os seus músculos doíam nas proximidades das articulações, suas costas estavam moídas e sua cabeça parecia que ia explodir a qualquer momento. Seus olhos estavam inchados de uma forma como só havia sentido em sua vida em momentos raros e quase únicos.

Parecia ter dormido tempo demais. Era difícil conseguir encontrar uma ponta de memória e raciocínio para se agarrar e conseguir estabelecer uma conexão segura entre o presente e sua memória.

Tentou abrir os olhos para que a visão a ajudasse a se situar, mas a luz que atingiu seus olhos era forte demais para que ele fosse bem sucedido em sua tentativa. Não foi capaz de dizer se o que lhe impedia era uma janela aberta permitindo a luz solar, ou apenas uma luz acesa no cômodo. O incomodo apenas o fez gemer de dor e fechar os olhos fortemente antes mesmo de ter conseguido os abrir por completo.

Persistente, o moreno continuou o exercício de abrir e fechar suas pálpebras repetidas vezes até que sua visão se acostumasse. Conhecia as cores daquele quarto e a energia dentro dele, viu em uma de suas piscadas a loira de costas para si. Tinha os cabelos soltos e vestia uma túnica negra.

Não gostava de ver Ino em cores assim, não combinava em nada com seu alto nível de energia e felicidade. Ino combinava com cores claras e alegres de primavera.

– Ino... – Chamou reunindo força para se sentar na cama e massagear os olhos doloridos, apertando a ponta dos dedos firmemente sobre as pálpebras.

– Eu sinto muito. – A voz ecoou junto com o som brando de passos, aquela não era a voz de Ino.

– Tsu..Tsunade? O que... Eu me sinto confuso. – Se queixou o moreno, fazendo uma careta ao finalmente forçar seus olhos a ficarem abertos de qualquer jeito.

– É uma reação normal ao jutsu que lhe foi aplicado. Beba isto. – Concluiu lhe oferendo um copo pequeno com um líquido estranhamente azul dentro.

– O que é isto? – Shikamaru perguntou confuso, aceitando o recipiente de vidro.

– Um tônico. Você dormiu muito mais do que o esperado, já amanheceu faz tempo, Sakura já saiu para Suna com Naruto.

– Para Suna? – Questionou, de repente seus olhos se arregalaram com a perspectiva de ter as lembranças do dia anterior novamente frescas em sua mente. – Temari... – Disse em voz alta como se estivesse revivendo novamente aquela dor, e se possível arregalando ainda mais seus olhos cheios de novas lágrimas ao se lembrar de algo a mais. – Ino!

Era evidente no rosto já inchado que um novo choro se iniciaria. Mas antes que a primeira lágrima caísse as mãos firmes de Tsunade se agarram aos seus ombros e forçaram o mais novo a forcar o olhar no seu.

– Você vai ser forte Shikamaru. Beba este tônico, tome um banho e vamos fazer o que deve ser feito. A cerimônia de despedida de Ino só não foi feita ainda, porque você não estava aqui.

– Ela era como uma irmã para... – Começou, mas foi imediatamente cortado pela mais velha.

– Ino partiu como a mãe de um filho assumido por você. É isto que o clã Nara está sentindo e todas as demais pessoas que eram emocionalmente envolvidas com Ino.

– Da forma como você falou, soou como se você não acreditasse que o bebê era meu.

– Nem tente Shikamaru. Foi de mim que Sakura conseguiu autorização para ir atrás de você em Suna. Sakura é a única pessoa viva pela qual eu sou capaz de colocar minha mão no fogo.

– Você mandou que ela matasse o Iwa. – Afirmou, já com todas as lembranças claras em sua cabeça, liberando as palavras que o selo de Sakura o impediram de falar na noite anterior. – Vocês duas concordavam, Sakura já planejava omitir a identidade dele na criança. Ele não era uma má pessoa.

– Eu sinto em discordar. Deidara como Akatsuki e antes da organização, era um shinobi de atitudes terroristas. Ele estava longe de ser uma boa pessoa.

– Era uma boa pessoa para Ino. Ele a amava verdadeiramente, não por palavras contadas por Ino, eu mesmo vi nos olhos daquele homem moribundo que lutava para sobreviver por algo maior do que a própria vida.

– Sakura apenas fez o que precisava ser feito para livrar você de uma punição por traição. Se não fosse pelas escolhas difíceis que ela fez, nem mesmo o fato de você ser um dos melhores amigos de Naruto o livraria da prisão, pois isto é algo que está acima do Hokage. Eu assumi o lugar de Danzou no comitê de aldeões, mas seria um voto quase nulo antes aos demais. Você é o nosso shinobi mais inteligente Shikamaru, pense e vai entender o que ela fez por você.

– Seja como for, ele protegeu Ino quando foi preciso e a amou como ela merecia. Somente pela ligação que o bebê tinha com ele, eu posso afirmar que seria um pai presente. Eu posso ignorar quem ele foi antes de conhecê-la e dar-lhe o meu reconhecimento pela forma como ele a amou.

– Um pai presente? Para ser um pai presente ele teria que levar sua Ino para sabe-se lá onde fica o covil que esses caras se escondem, Shikamaru. Um Akatsuki não deixa de ser um Akatsuki. – Lembrou-lhe.

– Agora não saberemos se haveria um jeito ou não, não é. – Acusou.

– Não faça com que todo o esforço para omitir a verdade tenha sido em vão. – Pediu a mais velha.

– Que diferença isso fará agora? Não tem Ino, nem Iwa e nem bebê que sirva de prova para alguma traição.

– Exato. – Ela lhe respondeu de forma extremamente calma. – Não há traição. Aprese-se, a cerimônia de Ino está marcada às dezoito horas e eu preciso que você assine a liberação do corpo do menor lá no hospital antes disto.

– Você não matou o bebê, não é? – Perguntou sem se importar em ser rude.

– Vou considerar a dor de seu luto nesta ofensa, Shikamaru. Mas se repetir algo deste nível contra minha pessoa, irá se arrepender amargamente por cada sílaba contida na frase de sua pergunta.

– Depois que Ino morreu. Você deve ter concordado com o que era vontade de Sakura e ter feito algo para omitir a origem do pai no bebê. Não quis sugerir que você o assassinou, mas que ele tenha falecido neste procedimento. – Justificou-se ao ver a dor nos olhos castanhos ao ter a ideia de uma família destruída prematuramente.

Estava tão entorpecido com o transcorrer dos fatos que se esqueceu que Tsunade carregava consigo a sua parcela de uma dar semelhante. Ah como ela deveria desejar ter um herdeiro de Dan para aplacar a ausência do amado, amenizar sua ausência.

– A ideia de Sakura em omitir as características físicas que identificassem o pai do bebê, as bocas, era inútil. O bebê ainda teria a assinatura explosiva de Deidara em seu chakra e mais cedo ou mais tarde isto denunciaria não apenas a traição como também nossas mentiras mais recentes.

– Por que às vezes parece que você nos ajudou, e no momento seguinte parece apenas que você minimizou o efeito politico que isto teria sobre a aliança entre Suna e nós?

– Porque minimizar os efeitos maléficos que isto pode ter entre a aliança entre Suna e Konoha é o meu dever como Hokage anterior e atual anciã da aldeia. Ao mesmo tempo você e Sakura são duas importantes engrenagens que compõe a atual mesa de liderança da vila. E a situação como um todo é delicada demais, como pessoa eu mesma gostaria de ouvir o som dos ossos de Gaara se quebrando sob o aperto do meu punho; como a representante do cargo que tenho, não quero desavenças com Suna.

– Tsunade, me conte exatamente porque eles morreram. Eu não entendi quando você e Sakura conversaram, ela pareceu achar as mortes mal explicadas.

– Nunca é fácil aceitar a morte, ainda mais a morte de alguém por quem se sacrificou. Ino caiu da escada em casa e como consequência disto rompeu a bolsa, o que tornou necessário o parto prematuro de emergência. Ela teve fratura em alguma costela. Os órgãos internos de uma gestante ficam todos exprimidos devido ao aumento exagerado do útero com o bebê já totalmente formado e grande, deixa tudo realmente muito próximo e de alguma forma a fratura atingiu um importante vaso sanguíneo e causou uma hemorragia interna. Eu tinha dois procedimentos de emergência para executar, o tempo usado para resolver um tornou o outro impossível de resolver.

– Por que não fez o contrario? Por que não salvou Ino primeiro?

– Isto provavelmente teria ocasionado a morte do bebê. O clã Yamanaka bate todos os recordes de mistérios. É fato que existe uma conexão entre mãe e bebê, mas jamais pensaria que ele teria convulsões e reações tão severas à ausência desta conexão.

– Ele tinha convulsões dentro útero toda vez que via Deidara ser torturado por Gaara. Esta criança tinha uma conexeção especial com seus genitores.

– Hn. – Ela apenas concordou.

– Eu queria que você tivesse salvado ela. – Disse com franqueza, sem refletir verdadeiramente sobre suas palavras.

– Não queria não. – A loira afirmou com simplicidade.

– Você disse que eu tenho que ir ao hospital assinar a liberação do corpo do bebê, pois para todos os efeitos sou o pai. Eu posso vê-lo antes?

– Sim, você pode. – A loira respondeu e lhe ofereceu um sorriso enquanto a mão em seu ombro lhe dava apoio.

Shikamaru tentou ignorar ao máximo o olhar de pena sobre si durante todo o percurso da casa de Ino até sua própria casa. Na residência, o choro da mãe prevaleceu para embalar o seu próprio choro novamente enquanto o pai tentou de todas as formas lhe dar apoio.

Um banho revigorante serviu para aliviar seus músculos, mas ainda foi insuficiente para apagar o excesso de coisas pelo qual havia passado nos últimos dias. Gastou algumas horas no refugio silencioso de luto de sua casa antes de vestir uma muda de roupas civis em cor preta e ganhar a rua e os olhares piedosos novamente.

Quase morreu nas mãos de um maluco sádico para salvar um homem que se quer conhecia e fracassou miseravelmente. Viu seu primeiro amor se deixar morrer por si. Tudo em vão, Ino também estava morta e junto com ela o pequeno fruto que era a fonte de toda a confusão instaurada.

Eram coisas demais para pensar. E todas elas ainda terminavam com o acréscimo de uma traição de sua amada namorada; a mulher com quem já tinha decidido que passaria o resto de sua vida. Não podia evitar sentir a confiança que tinha em Sakura se quebrar com as atitudes da rosada.

As juras de amor e a declaração vaga de que tinha feito o que era preciso para que seu futuro não fosse prejudicado não anulavam as palavras distorcidas e nem as atitudes egoístas e mesquinhas. Se o futuro era seu, não deveria ser ela a decidir qual o melhor caminho.

Era tudo o que conseguia pensar naquele momento. Escolhendo omitir de si mesmo o fato de que eram as suas atitudes no momento que estavam sendo mais egoístas e mesquinhas. Pior do que isto, sem propósito algum que não achar alguém para culpar por sua dor.

Ao chegar no hospital mais pena. Não foi nenhuma surpresa, a maior parte da cidade estava de luto. Fosse por amar Ino, fosse pela comoção da tragédia que acometeu a jovem mãe e seu bebê.

Sentiu todos os olhos lhe acompanhando pelos corredores. As pessoas tentaram omitir de forma falha sua curiosidade sobre como estava a parte que havia sobrado daquela triste história. Apenas caminhou em seu ritmo normal até a sala que sabia ser de Tsunade, era lá que a anciã iria lhe esperar para conhecer e se despedir de quem seria seu filho.

O fruto do amor proibido entre Deidara e Ino. Em sua cabeça parecia contraditório demais dizer que aquele era o motivo principal por toda esta bagunça. Mesmo que tivesse sido de forma desajeitada, inesperada, impensada e evidentemente fadada ao fracasso, aquela ainda era uma história de amor.

E em sua cabeça toda história de amor deveria terminar com um final feliz. Tsc. Talvez houvesse mesmo uma pontada de contaminação de romantismo em si por consequência da convivência próxima demais de Ino.

Bateu à porta da sala de Tsunade para anunciar-se. Estava com a mão na maçaneta para adentrar o local quando a porta foi aberta para si e a loira mais velha apareceu através da fresta aberta. A sennin parecia aflita, talvez com pressa e trazia duas pranchetas em suas mãos.

– Sakura deixou isto como suas conclusões sobre o que aconteceu, talvez as palavras dela sejam mais fáceis de compreender do que as minhas. – Disse Tsunade lhe estendendo duas pastas duras.

Shikamaru não entendeu muita coisa. Apenas queria conhecer o menino que poderia ter visto crescer correndo ao seu redor, brincando e sorrindo com uma aura leve igual a da mãe. Mas da forma como fora recebido parecia apenas que estava sendo enxotado ou coisa do tipo.

Não estava muito interessado em relatórios. Na verdade estava um pouco decepcionado demais com Sakura para ter em mãos as considerações dela sobre algo como aquilo. Só queria olhar no rosto pequeno e delicado e encontrar nele traços de sua bela mãe, apenas desejava ter em seus braços apenas uma vez o pequeno fruto por quem se apaixonou desde o momento e que descobriu Ino grávida.

O ser que havia feito sua emoção se sobrepor à sua razão. Por mais inteligente e racional que fosse.

– Eu preciso correr, Rock Lee acabou de voltar de uma missão em situação que requer os meus cuidados pessoais. Você deveria ler isto com calma e atenção. Vou trancar a porta para que você tenha mais privacidade, há uma chave reserva na terceira gaveta do meu escaninho. – Concluiu se retirando.

Aquilo foi estranho, mas Shikamaru não teve tempo suficiente para questionar mais nada, seu corpo foi empurrado para dentro da sala ao mesmo tempo em que a a mulher loira saiu da mesma. A porta da sala foi fechada no momento imediatamente seguinte, sem outra escolha ele se virou para observar à sala a procura do corpo que viera conhecer.

Mas aparentemente não havia nada ali, pelo menos nada do que estava procurando. Havia a mesa grande da médica e mais ao fundo um móvel de rodinhas com um escaninho em cima. Havia plantas estranhas distribuídas em vasos pelo chão, algumas bem próximas da janela ampla e outras, exatamente ao contrario, pareciam ter sido colocadas de propósito nos pontos mais escuros da sala.

Mas nenhum corpo ou local que se parecesse com aquelas geladeiras de necrotério. Nenhuma incubadora que fosse, com o pequeno bebê. Claro que achou estranha demais a ideia de um corpo sem vida na sala de Tsunade, mas...

Não tinha sido para aquilo que tinha sido chamado ali?

Aquilo era estranho demais. Tsunade havia lhe chamado até ali para ver o bebê, mas evidentemente não havia bebê algum ali. Perguntou-se se aquilo era uma confusão, se Sakura por algum motivo tinha levado o corpo da criança para outro local ou coisa assim.

Mas Tsunade estava dentro da sala, com certeza sabia que não tinha nada do que tinha ido ver ali. Olhou para as pastas em sua mão e pensou que havia sido trancado para ler aquelas coisas em privacidade enquanto esperava pelo retorno da Mestra das lesmas.

Caminhou ligeiro até a porta e forçou a maçaneta para ir atrás de Tsunade, mas então se lembrou de que a mais velha havia trancado a porta. Irritado, voltou-se para dentro da sala passando a prancheta de uma mão para a outra antes de chegar no escaninho no canto da sala.

Talvez devesse ler. Sakura pareceu tão indignada quanto a si próprio com a notícia revelada por Tsunade sobre Ino e o bebê estarem mortos. E quase sem pensar abriu a prancheta, erguendo sua capa dura.

A letra caprichada era com certeza da rosada, mas o conteúdo não parecia ser o certo. Continha informações sem sentido. Tsunade devia ter lhe dado a pasta errada, aquilo mais parecia com uma lista de suprimentos ou materiais necessários para algum procedimento que Sakura gostaria de ter certeza de lembrar cem por cento.

Detalhista e metódica de uma forma que sabia pela convivência que era uma característica forte da rosada, não apenas em seu trabalho. No fim havia um pedaço pequeno de pergaminho grosso com algumas costuras e um selamento de alto nível de elaboração desenhado, também era algo que Sakura usava muito.

Bufou jogando a prancheta em cima da mesa da Tsunade e pegando a outra para analisar também. Esta parecia mais exata, continha todos os dados do nascimento do bebê. Peso, comprimento, procedimentos padrões que eram feitos em todo recém-nascido para garantir que eram saudáveis.

A letra ali não era de Sakura, mas parecia conter os mesmos traços de personalidade. Deveria ser de Tsunade, não conhecia outra pessoa além de Sakura que apertasse tanto a ponta da caneta contra a folha enquanto escrevia. Mas isto não era o mais importante ali.

Aquela prancheta claramente também havia sido lhe dada de forma errada. A única menção sobre a morte da criança era no final como última nota, a hora do óbito. Mais nada. Nem sobre o bebê e nem sobre Ino, muito menos sobre o que exatamente tinha acontecido ali.

Tudo bem que as coisas estavam estranhas demais e o desfecho daquela história tinha deixado todo mundo confuso de alguma forma, nem mesmo ele sabia ao certo, entre as informações que tinha em sua cabeça, quais eram verdadeiras e quais eram mentiras. Mas não era para tanto a ponto de aceitar que Tsunade o mandaria vir até ali especificamente para conhecer e liberar o corpo de um bebê e o deixar trancado na sala errada.

Isto ia além de um descuido por um excesso de acontecimentos fora da ordem. Era muita sacanagem.

Uma chave reserva na terceira gaveta do escaninho. Pelo menos esta informação tinha que estar certa para que pudesse sair daquele lugar e procurar por Tsunade livremente.

E mais uma vez a desilusão: o tido escaninho se quer tinha três gavetas.

Eram apenas duas. Como uma escolha óbvia de eliminação, Shikamaru abriu a gaveta de baixo na qual não havia nada além de papeis que falavam sobre alguns equipamentos. Rapidamente abriu a primeira esperando encontrar a chave ali, mas nesta também não havia nada além de papéis sobre a compra de algumas substâncias minerais que não eram extraídas de Konoha.

Furioso vasculhou a toda a sala de Tsunade mais uma vez. Talvez estivesse procurando no escaninho errado, talvez houvesse outro daqueles em outro canto da sala que não tinha visto. Mas não.

Claramente era aquilo mesmo: Havia sido preso por Tsunade em sua sala sem justificativa alguma.

Sem saber o que mais fazer abriu todas as gavetas da mesa e até mesmo dos arquivos da sala. Nada. Suspirou lembrando que às vezes Sakura usava a folga entre as chapas de madeira barata daquelas pranchetas para guardar algumas coisas que os pacientes não precisavam ver, mas nenhuma das duas pastas possuía folga ou algo do tipo.

Impaciente e desacreditado, sua única vontade no momento era usar sua sombra para arremessar a mesa contra as grades de proteção da janela da sala para sair dali. Mas isto voltaria a atenção de todos para si mais ainda.

Tsunade tinha saído dali aparentando pressa e uma luz surgiu em sua mente, havia a possibilidade de que ela queria que ele a esperasse ali para seguirem juntos até o local em que o corpo estava. Talvez depois ela lhe explicaria sobre aquelas duas pranchetas que sozinhas em suas mãos pareciam nada além de um equivoco.

Sem outra opção no momento, Shikamaru apenas puxou as duas pastas estranhas e se sentou para lê-las novamente para tentar encontrar alguma ligação entre aquelas palavras e a história que conhecia, demorando-se mais ao imaginar a partir das informações com a letra de Tsunade como era o pequeno menino.

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Não havia pessoas pelas ruas de areia clara, nem aldeões, nem soldados e nem os comerciantes do deserto eram vistos em lugar nenhum. As residências estavam silenciosas e o comércio estava completamente fechado.

A vila da Areia estava completamente de luto. A shinobi de quem se despediam naquele dia era amada e admirada por todos, não por seu posto hierárquico, mas por sua bravura.

Sakura entendia e respeitava o sentimento daqueles aldeões pela irmã de seu líder, mas não conseguia concordar com eles. Tentava, em vão, se lembrar de uma Temari que um dia já admirou, mas para si era difícil apagar a imagem da loira enraivecida que invadiu o leito de uma gestante no hospital com intuito de matar o ser em seu útero apenas por crer que aquela criança era filho de Shikamaru.

Não conseguia respeitar aquela Temari de suas lembranças. Não era ciúme por ela ter sido tão transparente com relação aos seus sentimentos por Shikamaru enquanto era viva, nem por ter sido ela a literalmente salvar a vida de seu namorado. Na verdade, a última ação de Temari era o que consiga fazer com que ela suportasse estar ali.

Em silêncio não por um luto verdadeiro, mas por uma falta de vontade de estar naquele lugar que ela chegava a se envergonhar por sentir. Queria estar ao lado de Shikamaru quando o mesmo acordasse, se manter a relação cordial com Suna naquele momento delicado não fosse tão importante e crucial para os seus futuros ela com certeza não estaria ali.

Caminhando como se suas pernas pesassem demais e respirando um ar pesado e rarefeito. Era estranho demais olhar para o Kazekage sentado sobre as pernas ao lado e à frente da urna branca ornamentada com vários leques e luas roxas de pedras que se destacavam entre desenhos feitos à mão em um traço caprichado de linhas curvas e finas. Kankurou estava ao seu lado, os irmãos pareciam dividir uma oração silenciosa.

A cerimônia de despedida já havia sido encerrada, os aldeões já não estavam mais ali. Suas próprias presenças apenas não tinham sido revogadas, provavelmente, porque aquele era o Hokage de Konoha. Aquele era um momento individual.

Sakura olhou imediatamente para fora em busca do belo e grande sol alaranjado do crepúsculo no deserto. A cerimônia de Ino havia sido marcada para às seis horas da tarde.

Não era ali, no átrio da residência principal de Suna, que queria estar. Aquele sol alaranjado lá fora lhe deixava nervosa.

Em silêncio Gaara abriu seus olhos, ainda sem deixar como foco da sua visão a urna com as cinzas da irmã. De tempos em tempos olhava de soslaio para o irmão mais novo a fim de determinar se Kankurou já tinha terminado suas orações e reaberto seus olhos.

Após o longo período de silencio completo, os irmãos se levantaram e se abraçaram. Suna tinha hábitos diferentes de Konoha para situações como aquela. O toque de conforto foi rápido e pareceu quase ensaiado. O moreno e ruivo tinham jeitos diferentes de expressar sua dor.

O Kazekage foi o primeiro a dar as costas ao ambiente como um todo. Além dos olhos perdidos e da expressão passiva, nem mesmo a surpresa por ver Konohas ali modificou os desenhos de seus traços.

Imitando o ato entre irmãos, Naruto se adiantou para abraçar Gaara e cantar em seus ouvidos palavras decoradas sobre luto, que nos lábios do loiro eram sinceras. Sakura por sua vez se adiantou até o moreno mais novo, deixando com o mesmo um abraço sincero e silencioso. E no momento seguinte desejou seus pêsames ao Kazekage em uma reverencia completa enquanto ouvia Naruto repetir o mesmo discurso enquanto abraçava Kankurou com força.

Não havia representantes de outras vilas ali, o que fez a rosada crer que aquela notícia ainda não havia sido compartilhada com o mundo a fora. Eles mesmos não saberiam se não fosse a situação fatídica.

Parecia-lhe estranha a constatação de que Naruto ainda amava o amigo da Areia. Ao mesmo tempo sentia-se uma farsante ao estar ali naquele momento, era óbvio para si que aquilo era apenas por um negócio.

Um negócio tão falso quanto um diamante de vidro. Parecia-lhe impossível querer estar ao lado daquele homem como um aliado querido. Ao olhar para a o rosto sem expressões do Kazekage, tudo o que via era um homem sádico que não hesitou em tentar ferir Ino nem mesmo após a descoberta da gestação da loira, um homem que não hesitou em sequestrar e torturar um semelhante apenas por prazer.

Afinal não importava quem Deidara era. Era um ser humano. Um inimigo, sim e concordava que se estivesse na posição do líder de Suna iria o capturar do mesmo jeito, mas não com tanta injustiça. Não para sentir prazer em tortura-lo. Não para descontar suas próprias frustrações.

Para a justiça não importava quem o inimigo era. Seus direitos ainda lhe garantiriam o mínimo de humanidade. Nada daquela cena descabida de um homem em meia vida, lutando para não sucumbir aos malfeitos de suas feridas abertas e dividindo seu último sopro de vida com o desejo de ver Ino bem.

Sem voz, sem ar e sem forças. Sem a arrogância da Akatsuki em seu entorno, sem o orgulho da dignidade shinobi. Apenas um homem desesperado com o bem estar da pessoa a quem ama.

A imagem de Deidara tentando se arrastar pelo chão sujo de areia quando na verdade não possuía nem mesmo forças para escolher falar ou respirar, provavelmente se juntaria à coleção de imagens que seu cérebro jamais conseguiria deletar. Foi a amostra mais rígida de solidariedade com o próximo diante um cenário que cada um, além do loiro ferido, montava com as próprias mentiras egoístas. Inclusive e principalmente ela mesma.

Mas foi apenas quando o olhar de Gaara se chocou contra o seu que ela se lembrou, mesmo que ele não soubesse disto para lhe cobrar alguma coisa. Aquele homem judiado e humilhado pelo ruivo era o mesmo homem a quem lhe foi incumbida a missão de matar.

Em silêncio no átrio daquele grande salão, cara a cara com o Kazekage de Suna, o reflexo dos dois pares de olhos verdes se encarando fez com que Sakura se visse sob o manto do sádico da Areia. O egoísmo que partilhavam era exatamente igual. E se eram iguais, o dela não teria mais dignidade do que o dele.

E sem romper com o silêncio foi ela quem quebrou a conexão entre as águas calmas dos olhos dele e o verde selvagem de seus próprios olhos. Sentia-se envergonhada.

A energia daquele homem era corrosiva e não havia prevenção ou antídoto para o seu veneno, sua loucura dissimulada disfarçada sob a imagem de homem íntegro. Desviou seus olhos para outra direção qualquer com medo até mesmo que revelar seus segredos mais egoístas àquele torturador habilidoso.

Ignorando a presença desagradável daquela que ainda se assumia namorada de Shikamaru, Gaara fez um sinal com a cabeça para que Naruto o seguisse. Sakura os seguiu sem nenhum questionamento, mas Kankurou ficou onde estava assim que recebeu um olhar torto do irmão.

O ar questionador do mestre das marionetes se calou ao compreender que Naruto e Gaara iriam apenas conversar como bons amigos, mas mudou de ideia ao ver os líderes serem seguidos pela Haruno. Com ar de misericórdia, pediu para que deixassem assuntos sobre vilas para outro momento, pois a família Sabaku estava em luto.

E foi surpreendido pelo próprio irmão que anunciou que o homem estava em luto, o líder jamais sairia de seu posto ou abdicaria suas funções. Parecendo ofendido, o mais novo pediu licença e se retirou alegando querer um tempo sozinho.

O trio assistiu Kankurou caminhas de forma calam até sua sombra desaparecer de suas vistas. E sem mais o que dizer Gaara voltou a caminhar com o intuito de ser seguido. Ficou óbvio que o ruivo também não queria a presença da rosada, mas tanto Naruto quanto Sakura ignoraram o fato.

– Você pode esperar aqui fora, medi-nin. – Foram as primeiras palavras de Gaara, ditas assim que o trio chegou à frente da porta da sala do líder da aldeia.

– Por favor Gaara, não vamos fingir que esta situação não é delicada. Sakura é minha conselheira e a responsável pela missão que visava buscar Shikamaru. – Disse Naruto de forma clara.

– Quando olho para esta garota vejo apenas uma cúmplice daquele homem. – Respondeu o ruivo.

– Então este é mais um motivo para você não criar caso com a minha presença aqui.

– Eu sei que não é o melhor momento para isto, meu amigo. Mas nós temos muitas coisas para conversar, Sakura ao nosso lado para responder às minhas e as suas dúvidas é a melhor opção. – Naruto disse de forma amena.

Sakura assistiu ao olhar apertado do ruivo lhe penetrando o ser. Não era bem-vinda. Não tinha a menor ideia de o que Gaara poderia, ou não, estar ligando à sua pessoa sobre os últimos acontecimentos. Para si era claro que a morte de Temari seria distorcida a um nível que permitisse ao Kazekage se vingar como se tivesse sido uma vítima.

Os olhos que continham um tom de verde mais claro se fecharam, dando aos Konohas a impressão de que o Kazekage estava demasiadamente cansado. Tão cansado que nem mesmo argumentar contra aquilo ele quis, caminhando com seus olhos fechados para além do portal. Feria-lhe de forma angustiante ver como o ruivo conseguia manter sua pose de integridade em frente à Naruto; era nojento saber que aquela pose não era sua verdadeira face.

A sala requintada não era mais confortável do que os minutos passados no grande salão assistindo aos irmãos de Suna concluírem suas orações pela irmã morta. Os grandes jarros que decoravam os dois lados da porta pelo lado de dentro da sala nunca mais passariam como um mero objeto de decoração para Sakura. Agora ela sabia que aquele suporte para as habilidades já temidas de Gaara poderiam ser uma bomba relógio para o último pesadelo de alguém que Gaara resolvesse atacar rápida e silenciosamente dentro de sua própria sala.

Eles eram iguais ao que viu na sala em que os encontrou quando veio buscar Shikamaru na noite anterior. Por sua cabeça se passavam perguntas sobre quantos daqueles jarros grandes de areia ele teria espalhados por dentro do palacete, e até mesmo se era mesmo apenas areia que aqueles recipientes guardavam. Deidara estava preso dentro de um daqueles, e ao se imaginar dentro de um daqueles negócios, mesmo ela com seu corpo diminuto parecia ser grande demais para caber de alguma forma ali dentro.

– O que exatamente você quer aqui, Naruto? – Gaara perguntou fazendo-a voltar imediatamente sua atenção àquela conversa.

– Em primeiro lugar, prestar meus sentimentos pela perda da família Sabaku. Temari já foi voz de comando em muitas missões conjuntas que nossas vilas tiveram e você sabe que para mim vocês três são especiais não apenas como shinobis, mas como amigos. Segundo, quero me desculpar pela atitude impensada de Shikamaru em vir aqui confrontar você. Ele agiu sem autorização e seguiu seus próprios passos até aqui com intuito de fazer justiça com as próprias mãos.

– Justiça com as próprias mãos. – Repetiu o ruivo, Sakura achou que se a ocasião fosse outra que não o luto, ouviria o eco alto e macabro da risada de Gaara naquele momento.

– Nós já nos reunimos em minha sala em uma ocasião delicada em que Ino relatou algumas coisas preocupantes sobre o relacionamento de vocês. Eu confesso que achei que fosse exagero de palavras para ênfase alguma situação desagradável, mas... – Naruto pareceu travar para buscar as palavras certas. – Bom... este é um momento de luto e não iremos nos ater a certas coisas neste momento. Viemos aqui para deixar claro que Shikamaru já está lidando com as consequências por ter vindo aqui lidar com esta situação do jeito errado. A culpa foi toda minha, torci tanto para que Ino e você voltassem que me abstive ao fato de que o relacionamento de vocês realmente já havia encontrado o seu fim.

– Ver seus ANBUS invadindo minha casa, liderados por sua conselheira me faz ter dificuldade em ver em que ponto Shikamaru não teve apoio.

– Sakura delatou a atitude de Shikamaru e foi enviada para levar Shikamaru de volta para Konoha. – Explicou Naruto.

– Shikamaru já saiu daqui como um prisioneiro. Nenhum shinobi de Suna foi atacado por mim, ou por algum dos ninjas que trouxe comigo. – Acrescentou a rosada.

– Shikamaru irá ficar preso à Konoha por algum tempo Gaara e isto me leva ao terceiro motivo para estar aqui. Não vá até nossa vila sem se adiantar com algum tipo de aviso prévio.

– Você não quer mais que eu me aproxime dela. – Desdenhou a afirmativa. – Shikamaru sofreu represarias e você também quer que eu sofra alguma coisa. Tem dedo seu nisto, não tem Haruno?

– Na verdade Gaara, Ino estará ao seu alcance toda vez que você for a Konoha e desejar vê-la. – Anunciou a rosada.

– Com toda esta história de Shikamaru ter vindo aqui Ino sofreu uma queda que agravou o quadro já delicado de sua gestação. Não é apenas Suna que está se despedindo de uma grande shinobi hoje, Ino também está morta. – Naruto contou com pesar. – E sim Gaara, independente do nível de desrespeito que Ino teve de você, eu quero deixar firmado aqui que nenhum aldeão de Konoha irá sofrer qualquer tipo de situação parecida com esta, seja por alguém de Suna ou qualquer outra vila. Se anunciar quando for a minha vila sequer chega a ser algum tipo de represaria.

– Eu não acredito no que é dito por vocês.

– A cerimonia de cremação deve estar na metade agora. O memorial estará sempre lá, ao alcance de todos que queiram se lembrar dela com carinho. – Concluiu Sakura.

– Foi difícil para mim também ouvir este anúncio de Tsunade, assim como está sendo para todas as pessoas que amavam Ino e esperavam ansiosamente pela felicidade de vê-la bem e com seu filho nos braços. – Completou Naruto.

– Você vai ser a mãe estepe do daquela crianças bastarda, Haruno? – O ruivo perguntou com maldade.

– Eu teria aceito o filho de Shikamaru como meu com muito amor. – Respondeu se limitando a dar informações sobre aquele bebê. – Desdenhou, lutando para conter sua vontade de despejar algumas verdades sobre os ouvidos do Kazekage.

– O prematuro também não foi capaz de resistir. Será cremado junto com Ino, como uma parte dela.

O silêncio prevaleceu dentro da sala após a explicação breve de Naruto. Sakura percebeu que o ar ali dentro estava muito mais pesado com na medida em que a conversa avançava, mas achou que fosse apenas a sua falta de vontade em parecer gentil ou diplomática com aquele homem.

Gaara respirou de um jeito que pareceu ser claramente difícil de conseguir a quantidade de ar que desejava. Parecia pensar em diversas coisa são mesmo tempo enquanto se ajeitava de formas anormais em sua cadeira. Naruto olhou preocupado para Sakura, a pele pálida demais do Kazekage estava começando a brilhar por conta de um suor excessivo. Estava claro até mesmo para Naruto que o ruivo não passava bem, mas isto não fez com que Sakura se movesse de onde estava ou alterasse sua expressão.

Nada fez além de monitorar Gaara à distância, vendo-o apertar seus dedos contra diferentes músculos de seu corpo até que a mão fina voltasse a repousar sobre a mesa e sua respiração parecesse encontrar um ritmo aceitável e contínuo. A pele de suas bochechas próximas as curvas de suas narinas se repuxaram em uma careta estranha antes de os lábios finos se unirem em um bico que logo desapareceu e se converteu para uma mordida em seus próprios lábios enquanto Gaara fazia sinais afirmativos curtos com a cabeça, parecendo se convencer de algo que apenas imaginava.

– Bem feito. – Disse por fim.

Foi em tom baixo, quase inaudível mesmo com os dois espectadores atentos a si. Mas ele respirou fundo mais uma vez, parecendo realmente mais calmo ao balançar a cabeça mais uma vez de forma afirmativa e repetir sua fala absurda.

– O que você disse? – Perguntou Sakura perplexa.

Naruto ainda estava em choque apenas por achar que tivesse ouvido o que de fato seus ouvidos ouviram de Gaara. Incrédulo, só podia ser coisa da sua cabeça ouvir um "bem feito" após contar para ele sobre Ino.

– Por causa dele eu perdi Temari. Esta é uma forma dele pagar um preço à altura pela minha dor. – Respondeu erguendo a ponta de seu queixo de forma arrogante.

– Shikamaru estava ao seu lado enquanto ambos sofriam a dor de sua morte. Não foi Shikamaru quem matou Temari e sim voc..

– Sakura! – Naruto cortou seu discurso de palavras ferinas e voz agressiva. – Gaara está passando por uma dor muito grande pela perda de um ente querido, não é momento para nenhum tipo de acusação. Eu tenho certeza que ele não quis dizer o que disse.

No momento seguinte o loiro se levantou e colocou ambas as mãos sobre os ombros da amiga com intuito de acalmá-la. Percebeu que havia ali muito mais coisas para serem desvendadas ali do que podia imaginar, não era a hora e nem o local adequado para tudo.

– Creio que nosso objetivo aqui já tenha sido concluído, vamos voltar para nossa vila. Gaara e eu conversaremos mais sobre estas coisas em outro momento, depois que o período de luto passar. – Concluiu puxando a rosada para lhe acompanhar até a porta.

Gaara os deixou sair sem nenhuma palavra a mais. Ainda não estava preparado para se levantar de onde estava.

Não queria admitir para se mesmo que alguma coisa dentro de si havia se quebrado ao ouvir que Ino estava morta. Não era a mesma coisa que sentiu ao agredir Shikamaru quando acreditava que a pessoa que estava em sua frente fosse mesmo a loira. Percebeu que desejava causar na loira a mesma dor que ela havia causado em si.

Odiava aquele bebê. Não sentia nada em relação à sua morte prematura. Iria mata-lo de qualquer forma, não era um blefe.

Mas Ino. Ah não Ino. Ino só precisava pagar por toda dor que havia lhe causado e continuar sendo sua para sempre. Era terrível não conseguir evitar admitir para si mesmo que saber que a sua bela Yamanaka estava morta.

Era mesmo bem feito para Shikamaru, se ela não poderia ser sua pelo menos não seria de mais ninguém. Mas também era ao mesmo tempo um castigo para si, havia perdido as duas únicas pessoas que quem verdadeiramente amava. Separadas pela distância, mas na mesma data.

– Você não disse a ele tudo o que viemos dizer. – Ela avisou assim que estavam no corredor do palácio, e caminhavam na direção da porta principal. – Precisava ter dito que Konoha e Suna serão apenas aliadas em caso de guerra ou invasão. Deve saber que a aliança de amizade não existe mais.

– Não era a hora certa, Sakura.

– Você acha que conseguimos evitar um ataque de vingança? – Perguntou mantendo seu foco no que realmente lhe interessava.

– Por hora pelo menos. Ele não vai admitir, mas está sofrendo pela morte de Ino também. – Concluiu o loiro.

Sakura discordou do da segunda frase do loiro, mas se manteve em silêncio. Para si parecia impossível que Gaara ainda fosse capaz de compreender sentimentos humanos, principalmente com relação à Ino, mas se aquilo iria manter o ruivo de Suna longe de Shikamaru e de Konoha por algum tempo, a visita tinha sido válida.

Notas: Bom gente, quem acompanha a fic deve ter percebido que eu estou com dificuldades para manter os prazos dela. Eu meio que expliquei isto no SS. No Nyah fica um pouco mais difícil, porque o contato com o leitor é menor e no ff mais difícil ainda, pois quem comenta está fazendo isto no modo anônimo ou deslogado (não que eu esteja reclamando, mas é que assim eu não consigo responder o review). Então acabou ficando difícil deixar os leitores desta fanfiction informados sobre o que acontece no momento.

Foi isto que me fez vir postar uma att, mesmo que o capítulo final não esteja pronto. Aqui onde eu quebrei ele é décima sexta página word do texto que na verdade já está com vinte e seis páginas escritas.

Então o principal motivo para eu estar aqui é deixar claro que eu não sumi e nem morri, vou deixar link do tumblr que eu uso só para postar coisas referentes às fics (às vezes rola uns spoiler) e.. como eu to sem tempo, o texto já está enorme mesmo sem estar completo, não achei que prejudicaria muito adiantar a primeira parte do capítulo.

Eu juro que tudo vai ficar explicado quando postar o resto!

Espero que estejam curtindo.

Link do tumblr:

Não doi seguir, é lá que eu deixo tudo em pratos limpos. E claro tb tem o tt que é Kami_ que obviamente é onde eu falo mais.