Capítulo vinte e quatro: Vida após a morte

Por Kami-chan

O sol alaranjado se despedia com melancolia, era como se a natureza soubesse que um pedaço daquele sol que se deitava no horizonte deixaria de brilhar para sempre. E ia embora com lentidão para fazer aquele calor alegre durar um pouco mais.

Não se devia chorar a morte de um shinobi, mas as lágrimas não foram contidas naquele momento de derradeira despedida. Quem partia não era apenas uma kunoichi brilhante de um clã extraordinário, o corpo que estava sendo cremado naquele momento era de uma jovem mãe aninhada ao corpo de um ser inocente que não chegou a conhecer o mundo.

O sentimento de comoção era superior naquele momento. Mais tarde contos sobre suas nobres ações em vida e missões completadas seriam acrescentadas às histórias daquela kunoichi. Mas hoje não, hoje todos choravam o luto pela jovem e desafortunada mamãe.

E à frente de todos, o moreno que a os trejeitos de sua face compenetrada no tecido aveludado e cor negra que omitia o processo de cremação. E a energia das centenas de olhares que lhe observavam pelas costas quase como se fossem o penetrar.

Aquele que era o alvo do maior motivo de pena entre a comunidade naquele dia parecia ser a única pessoa que parecia não ter mais lágrimas para embalar aquela tragédia. Para si o tempo de espera até que o processo de cremação terminasse estava lhe parecendo eterno.

As cinzas de Ino seriam dadas à Shikamaru e caberia ao mesmo encontrar o devido lugar para que Ino fosse sempre lembrada pela pessoa que foi em vida; uma kunoichi de integridade sem falhas. Tudo o que queria era pegar estas cinzas de uma vez por todas e se esconder em sua casa.

Queria tanto que Sakura estivesse ali. E ao mesmo tempo queria tanto não ver a rosada por um longo período de tempo.

A mágoa que lhe corrompia os sentidos ainda era forte e gritava palavras altas em seus ouvidos. A lógica em sua cabeça queria encontrar caminho entre o orgulho ferido e lhe convencer que no fundo Sakura estava certa. Contudo, ainda ouvia mais a voz burra que apenas se viu enganado pela menina que amava, não importava o significado de suas atitudes nem que o dito egoísmo de Sakura tivesse como fim apenas o melhor para o seu próprio futuro.

Fechou os olhos, Ino estava longe agora. Longe demais para ser alcançada, abraçada e servir de conforto. Por mais que fosse triste, aquele adeus não lhe doía. Com um suspiro pensou que aquele não era a única perda daquele evento fatídico.

As coisas aconteceram todas em uma velocidade tão grande que ele se quer tinha conseguido organizar os fatos em sua cabeça. Foi impossível não sentir a morte de Temari, mas agora já era possível ao menos recobrar a consciência sobre o que aquela menina estava fazendo de verdade com Ino.

Ela e seu odioso irmão. Gaara havia passado de todos os limites de humanidade, todos os limites de um ex-namorado incapaz de aceitar o final do relacionamento.

Sádico e desumano. Pensar em Ino no seu lugar nas mãos de Gaara doía mais do que dizer adeus. Ver o que ele era capaz de fazer com outro ser humano apenas por seu inimigo também doía mais.

Olhando o sol alaranjado que parecia saber que em Konoha havia se perdido uma fração de seu brilho mais primaveril, Shikamaru percebeu que o adeus era inevitável. A forma como ele seria dito não mudar o foto de que era inevitável; daquele jeito doía menos.

Daquele jeito, se permitiu sentir o calor oferecido pelos últimos raios de sol. Nunca mais a veria, e de onde estava apenas se concentrou na imagem de sua protegida sorrindo, dirigindo a ela em seus pensamentos algo bom que pudesse lhe acompanhar aonde quer que fosse. Que estivesse bem e sorrindo para sempre.

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As horas passaram sem serem sentidas, o sol cor de laranja se foi e as pessoas que acompanhavam a última despedida de Yamanaka Ino também voltaram para suas casas. Uma a uma foi deixando o grupo para trás entre intervalos sem padrão de tempo, até restassem ali apenas Shikamaru e seus pais.

Cansado Shikaku passou um de seus braços sobre o ombro de sua esposa e a conduziu para longe do pilar estreito e alto de mármore. As cinzas de Ino ainda estavam entre os braços de seu filho em uma urna branca de porcelana.

Entre outros membros já falecidos do clã Yamanaka, o nome de Ino era o último de uma longa linhagem. O último nome que seria escrito naquele memorial do clã, bem abaixo quase no fim da pedra como a pedra fosse algum tipo de planta e seu nome representasse a raiz daquela pedra imponente. Talvez devesse plantar alguns girassóis ali.

Sorriu amarelo ao sentir a mão do pai em seu ombro, apenas uma forma de garantir que ele estava bem e que o casal mais velho poderia ir para casa com tranquilidade. Sozinho ele viu as estrelas enfeitarem o céu e permitiu que seus pensamentos fossem embalados pelo canto dos grilos e demais animais noturnos.

Não tinha vontade de ir para casa ao mesmo tempo em que sabia que não poderia ficar ali no silêncio aconchegante do campo de memoriais para sempre. Simplesmente não conseguia pensar em onde poderia ir sem ser incomodado. Não queria a presença, nem a voz e nem os olhos de ninguém.

Somente das estrelas. Talvez até imaginasse através delas Ino sobre um grande pássaro branco, voando ao lado daquele homem por quem estranhamente tinha se apaixonado. Voando alto e para longe, sorrindo enquanto apontavam para coisas aleatórias.

Poderia haver alguma coisa que diferenciasse os Yamanaka no pós-morte? Riu de seu próprio pensamento enquanto dava as costas para a pedra que homenageava os membros daquela família que era tão amiga da sua há gerações. Vida é vida, morte é morte.

Por instinto acabou na floresta mais ao norte da vila, aquela área era guardada pelos membros do clã do veado. Era como estar em casa e ao mesmo tempo em lugar nenhum.

Caminhou sem escolher as trilhas, mudando seu curso toda vez que conseguia encontrar o término de um trecho. Queria correr, na verdade. Suar e levar seu corpo ao limite da exaustão; usufruir das boas sensações da liberação de dopamina que a atividade liberaria em seu corpo. Mas com a urna em mãos só conseguia caminhar e se permitir pelo menos esvaziar a mente, finalmente colocar todas as coisas no lugar.

A noite alta dominou o céu, a lua estava grande e as estralas se mostravam sem receio na noite escura. Os troncos que tornavam a floresta grande na vertical pareciam ter sido calculadamente plantados em corredores que lhe levaram até o rio, as copas altas das araucárias pouco lhe permitia ver o céu dali; na encosta era melhor.

E somente ao chegar na encosta do rio ele parou de caminhar. Não olhou para nenhum dos lados ao se sentar na beirada do caminho de águas rápidas, o lugar certo era onde estava e nenhum outro.

Era um lugar bonito; toda aquela floresta era. Mas era acima de tudo, o lugar adequado para se guardar segredos. E Ino havia se tornado o seu maior segredo, dona de uma mentira que ele sustentaria como verdade até o fim de sua vida.

Sem muita emoção rompeu o lacre da urna e removeu sua tampa, aquele era o lugar certo para aquelas cinzas fossem guardadas. Salvas pelo segredo da liberdade; aquela era a floresta uma floresta cheia de segredos, achou isto apropriado enquanto virava todo o conteúdo da urna na água feroz.

– A água significa vida. De certa forma, isto poderia ter um significado bonito sobre vida eterna. – A voz suave anunciou a presença de Sakura atrás de si.

Viu a garota se sentar ao seu lado por sua visão periférica, mas não desviou sua atenção do que fazia tampouco lhe respondeu ao comentário. Sinceramente, não estava com vontade de ver Sakura. Não ainda.

– Parece ser o lugar mais adequado para cinzas. – Prosseguiu a kunoichi girando seu corpo no chão de como que ficasse de costas para o rio, e então se deitou de barriga para cima de frente para Shikamaru, mas prestando mais atenção nas estrelas brilhantes do que no moreno.

Havia um clima estranho entre os dois e sabia muito bem o motivo, temia também não ser capaz de consertar tudo. Shikamaru parecia tão aborrecido que conseguia fazer até mesmo a rosada duvidar da ordem e significado de todos os fatos, questionando-se sobre a eficiência de suas projeções visualizadas às pressas em um momento emergente.

Fazer escolhas difíceis rapidamente fazia parte da rotina de um medi-nin, mas não aquele tipo de escolha. Aquilo era basicamente insanidade. Não havia escolha certa a fazer, apenas a menos ruim.

– De quem era aquele corpo? – Tentou mais uma vez algum tipo de contato com o Nara, tentando não permitir que sua confiança fosse abalada pela situação.

– De um indigente. – Respondeu-lhe apenas a título de informação.

– Há indigentes em Konoha? – Perguntou como uma forma de não deixar o assunto morrer, já que ele tinha lhe respondido.

– Foi a informação de Tsunade. Quantas mentiras uma medi-nin pode inventar por dia? – Foi a resposta sem emoção que recebeu.

E mais uma vez o silêncio distante além das estrelas brilhantes no céu lhe pareceu muito mais confortável do que o rosto de Shikamaru. Já previa aquele tipo de reação do moreno quando optou por agir por conta própria, mas acreditou que os resultados surpreendentemente positivos que nem mesmo ela imaginou ser capaz, tivessem amenizado a ira do Nara.

– Olha... – Começou a fim de se explicou, mas foi interrompida pelo outro.

– Eu não quero falar sobre isto agora. – Disse.

– Eu apenas estava apavorada com a ideia de não saber o que você ia encontrar em Suna, além da loucura de Gaara. – Insistiu.

– Eu realmente não quero falar sobre isto agora. – Repetiu-se.

– Mas deveríamos. Há uma agonia aqui – uniu as mãos sobre seu pescoço rapidamente para demonstrar-lhe o que dizia – é somente um com o outro que poderemos usar todas as palavras. – Concluiu.

– Então me conte exatamente o que você foi fazer em Suna? Qual era o seu real objetivo? – Shikamaru disse, e nem mesmo o timbre baixo omitia o desapego de suas emoções nas palavras.

– Ter certeza de que você estaria vivo, e que nada desta bagunça nos atingisse quando voltássemos.

– Isto claramente incluía matar a pessoa pela qual eu me arrisquei para salvar. – Completou.

– Incluía. – Afirmou perdendo um pouco do volume em sua voz, mas não a determinação do que acreditava ser o certo.

– E agora? – Perguntou Shikamaru.

Sakura deu de ombros antes de responder:

– Agora seria bom se parássemos de tentar controlar o incontrolável. No fim o mérito por alguma coisa ter saído certo foi de Tsunade.

– Não fazia parte do seu plano? – Desdenhou dizendo a última palavra em um tom maldosamente mais agudo.

– Meu plano apenas incluía a morte de Deidara. De verdade. – Acrescentou.

– E como foi que acabou assim então? – Quis saber, desta vez olhando diretamente para a garota ao seu lado, vendo-a sacudir seus ombros contra a grama alta mais uma vez.

– Quando eu voltei, com medo por causa das minhas escolhas, Tsunade-sama disse que confiava na minha capacidade de executar com êxito a missão que me havia sido dada. Ela disse que se não tivesse plena confiança sobre quem eu sou não teria me enviado até Suna. Compreendi que o que ela quis dizer ali foi simplesmente que confiava na minha capacidade para que pudesse fazer o que fez.

– Eu não queria que tivesse sido assim.

– Você não entende mesmo que aquela criança seria, de todas as formas, nossa ruina? De Ino, você, eu e ele próprio. Não tínhamos tempo, Tsunade entendeu isto e me permitiu criar uma mentira que funcionaria se fosse a verdade absoluta, eu tinha que ter certeza de que você não falaria nada que fosse contra ou que incluísse mais pessoas nisto.

A rosada suspirou, estava cansada, desde que Ino caiu na escada em sua frente, os minutos de maior tempo de descanso que teve até deitar na grama alta no leito do rio tinha sido os tensos minutos de mentira na sala de Naruto. Inclinou mais sua cabeça para trás para que o céu estrelado preenchesse cem por cento do seu campo de visão, deixando as águas rápidas do rio como seu horizonte.

– Você é o mais inteligente de todos nós Shika, eu sei que quando a ferida fechar você irá concordar comigo de que era a única alternativa. Se você encontrar outra eu vou adorar ouvir e discutir ela com você. A única coisa que eu não entendo é que graças à Tsunade, Ino está bem e você está reagindo como se isso fosse tão ruim quanto a opção de sua morte.

– Não. Eu vi o diagrama do chakra do bebê.

– Então você entende que foi ingenuidade minha acreditar que apenas costurar as bocas prematuras iria salvar a identidade do verdadeiro pai, não entende? – Interrompeu fazendo um esforço físico para olhar rapidamente para Shikamaru, que preferiu movimentar a cabeça em um sinal afirmativo à responder verbalmente.

– Mas eu não sei onde ela está, não sei como ela está. Não sei nem se ela vai conseguir chegar aonde deveria chegar. Nem nunca saberei, não é?

– Não. Você nunca saberá. Depois que Tsunade resolveu se envolver nesta história e se tornar tão cúmplice quanto nós, a minha responsabilidade de manter esta mentira como a verdade absoluta apenas aumenta. Eu vou saber quando ela chegar no lugar certo e depois que tudo estiver bem vou saber que ela partiu verdadeiramente e também não saberei mais do paradeiro de Ino.

– Você precisa pelo menos me dizer onde ela está.

– A melhor forma de se manter uma mentira é não saber a verdade. Você quer protege-la, então não me pergunte. Eu quero proteger você, não irei te contar.

– Você não confia em mim. – Afirmou o moreno mais interessado em contar quantos reflexos de estrelas havia sobre a superfície do lago do que olhar para ela.

– Se eu não confiasse em você não teria feito as coisas desta forma. – Justificou-se.

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Memórias de Shikamaru

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Impaciente e desacreditado, sua única vontade no momento era usar sua sombra para arremessar a mesa contra as grades de proteção da janela da sala para sair dali. Mas isto voltaria a atenção de todos para si mais ainda.

Tsunade tinha saído dali aparentando pressa e uma luz surgiu em sua mente, havia a possibilidade de que ela queria que ele a esperasse ali para seguirem juntos até o local em que o corpo estava. Talvez depois ela lhe explicaria sobre aquelas duas pranchetas que sozinhas em suas mãos pareciam nada além de um equívoco.

Sem outra opção no momento, Shikamaru apenas puxou as duas pastas estranhas e se sentou para lê-las novamente para tentar encontrar alguma ligação entre aquelas palavras e a história que conhecia, demorando-se mais ao imaginar a partir das informações com a letra de Tsunade como era o pequeno menino.

Lembrou-se de Ino lhe contando que em seus sonhos o menino tinha olhos grandes e curiosos iguais aos do pai, inclusive com o mesmo desenho perfeccionista de sobrancelhas fartas e claras. A única diferença estava no tom do azul, mais claro e evidente com pupilas muito menores, quase no mesmo tom da íris aumentada.

A loira tinha tanta convicção na imagem de uma criança que vivia em um futuro tão distante que afirmava que o menino teria o mesmo nariz e boca de Deidara, mas com o mesmo formato arredondado de seu rosto. Sorria toda vez que afirmava que era uma fusão perfeita deles dois.

Olhando para o gráfico dos pontos fortes e fracos da assinatura de chakra do recém-nascido rabiscado por Tsunade na prancheta, ele acreditava que Ino estivesse certa. Ou pelo menos aquele bebê era uma fusão perfeita do chakra de seus pais; uma assinatura realmente única.

Riu ao constatar que aquela criança decididamente não seria fácil de cuidar. Não conhecia Deidara, mas se lembrava perfeitamente da pequena menina do clã Yamanaka e todas as encrencas em que ela os metia durante o período de sua infância. Achou que Deidara não teria sido tão diferente quando pensou na tal fusão para montar uma personalidade para o menino dos dois.

Recostou-se contra o encosto da cadeira para tentar se lembrar de qualquer outra coisa que Ino tivesse lhe dito, mas além daquilo tinha apenas as lembranças das crises de convulsão que ela tinha ao dormir e sonhar com Deidara. E suspirou pensando que jamais poderia responder à ela que o Iwa estava mesmo vivo, indeciso sobre se pudesse falar com Ino novamente algum dia, realmente contaria a ela o quanto seus sonhos eram verídicos.

Não conhecia Deidara e nem nunca iria conhecer. Tudo o que sabia sobre ele era que era um odioso Akatsuki, o repudiava por isto. Tudo o que sabia era que verdadeiramente amava Ino e fazia bem à ela, o respeitava por isto. Jamais descobriria se o que seria mais forte, sua repulsa ou sua admiração.

A única coisa que poderia dizer com certeza era que a "fusão perfeita" havia gerado um ser de grande potencial. Queria tanto vê-lo crescer, ensinar-lhe as coisas e ver através de todo o poder se ele seria misterioso como o pai ou admirável como a mãe. Chamá-lo de seu pelo menos até ele ser capaz de entender que não tinha em si as sombras da floresta e do veado.

Totalmente abduzido por seus pensamentos não percebeu que seus dedos cediam até ouvir o barulho alto das pranchetas caindo no chão e espalhando todas as folhas. Não o suficiente para misturar o conteúdo das duas, mas o bastante para ter que fazer Shikamaru se abaixar e coletar todo o conteúdo do chão.

Organizou cuidadosamente a pasta com as informações do bebê colocando todas as folhas na ordem correta, uma seguida da outra, unidas em um monte que ele bateu cuidadosamente sobre o tampo da mesa para alinhar corretamente antes de apertar o mecanismo do clipe da prancheta para que tudo ficasse preso ali novamente. Em seguida foi a vez de fazer a mesma coisa com as folhas que continham a caligrafia de Sakura.

Depois de unir tudo em ordem, sobrou apenas o estranho pedaço de pergaminho. Sakura usava muito selamentos, mas nunca tinha lido nada em lugar algum sobre um selo de invocação que precisasse ser costurado. Era trabalhoso demais.

Curioso, colocou o pacote sobre o tampo da mesa e trouxe à mão a kunai pequena que, por hábito, sempre tinha sob o tecido da calça na altura próxima a metade de sua perna. Cuidadosamente abriu dois dos pontos e aproximou o objeto de um dos olhos enquanto apertava o pergaminho macio para aumentar a circunferência do buraco aberto e espiar para dentro.

Acolhido no escuro do envelope improvisado havia fios de cabelo. Estranhando aquilo o moreno não resistiu a virar o pacote a fim de ver melhor o conteúdo que escorregou pelo buraco aberto. Uma pequena e fina mecha de cabelos loiros, duros de sujeira e unidos por marcas de sangue; apenas uma mecha fina de todo o cabelo de Ino que havia levado para Suna para mascarar seu chakra.

Mais uma vez olhou para o símbolo desenhado sobre o pergaminho, admirando o selo elaborado. Não o conhecia, viu Sakura estudando aquelas coisas em alguma das vezes em que fingiu um motivo para ir até aquela biblioteca particular da torre da Hokage apenas com o desejo de assisti-la enquanto estava concentrada em seus estudos. Mas não era algo com o qual estava familiarizado, o selo que havia feito na vila da areia para manter o jutsu que o deixava com a aparência de Ino já tinha sido de grande dificuldade para si.

A possibilidade de aquilo não ter algum significado importante para aquela história estava longe de passar despercebido pelo raciocínio do Nara. Havia um selo feito por Sakura envolvendo cabelos de Ino sujos com seu sangue, a rosada não uniria elementos que envolviam eles três sem um motivo.

Mas não conhecia o selamento, não sabia a sequência correta para poder dar sentido àquilo tudo. Não havia nada escrito nas folhas deixadas por ela para si. Sem uma pista ou uma orientação mais precisa não conseguiria ir além.

Cuidadosamente repetiu o processo de aproximar as extremidades da abertura que havia feito no envelope para empurrar a mecha de Ino novamente para dentro do mesmo. Mas livre da ansiedade em descobrir o que aquele envelope improvisado guardava, Shikamaru percebeu um detalhe a mais ali dentro.

Era outro desenho, mas não queria desfazer todos os pontos para vê-lo. Estava no pergaminho de baixo formando outro selo complementar, mantendo os fios entre ambos. Na tentativa de não rasgar o trabalho, o moreno mirou o embrulho contra o foco principal de luz artificial dentro da sala, fechando um dos olhos enquanto o outro espiava além da abertura.

Não dava para ver o desenho, mas era óbvio que se tratava de outro selamento no mesmo nível do outro. Não serviria de nada se não fosse um pequeno kanji à frente da identificação; era um contrasselo. Não era algo recomentado a se fazer, deixar o selo junto com seu contrasselo era quase um trabalho em vão.

Parte da eficiência daquelas coisas estava na complexidade da sequência de fuuins, manter o contrasselo junto tornava a sequência inútil. Tornava algo complexo em algo que poderia ser libertado por qualquer um, mesmo alguém com pouco ou nenhum conhecimento sobre aquela técnica.

Shikamaru olhou mais uma vez para o desenho complicado o abandonando sobre a mesa. Sakura ou confiava demais em sua forma de raciocínio, ou o subestimava demais. Apenas um idiota tentaria liberar aquele selamento com um jutsu básico sem encontrar o contrasselo que estava escondido pela costura que unia os dois pedaços de pergaminho.

Naquele momento não quis pensar que ela provavelmente sabia que sua curiosidade falaria mais alto com relação ao fato do selo estar em um envelope improvisado. Preferiu concentrar-se na sequencia breve de selos que provavelmente liberaria o selamento.

A mesma luz azul que deixou suas mãos, ascendeu o pergaminho e através do mesmo e apagando-se logo em seguida. Nada demais aconteceu, pelo menos não com o pergaminho, como esperava. Mas no outro lado da sala, em um contorno de luz azulada uma versão aerógrafa de Sakura estava estática no centro da sala.

O kanji que determinava a segunda personalidade de Sakura estava claramente desenhado no centro de sua testa. Tanto Ino quanto Sakura já tinham falado sobre aquela entidade que suprimia toda uma personalidade da Haruno, mas não sabia que ela podia se materializar ou simplesmente ser visível.

Ficou onde estava admirando os contornos vazios que marcavam o espaço dela no ambiente, não falava, não piscava e nem se movia. De fato a criatura sequer dava a entender que lhe percebia ali, ou simples e parcamente se percebia ali.

Ainda sem se mexer, ela passou a movimentar sua cabeça para o lado, claramente como se estivesse seguindo algo. Shikamaru parou de prestar atenção na boneca fantasma para seguir o que os seus olhos claramente seguiam, mas não havia nada.

Ainda em busca de entendimento sobre o que tinha em sua frente, ele se levantou para se aproximar da imagem. E foi ao ser totalmente ignorado por ela que ele circulou seu corpo em outra forma de examinar o que tinha ali que ele viu.

Através do holograma havia a imagem de Sakura, que era o que claramente o inner seguia. A imagem rapidamente lhe assustou, fazendo o movimento de tentar encontrar Sakura dentro do cômodo sem os traços da inner à sua frente, mas ela não estava ali. Era claro que nada daquilo passava de um registro entre as duas.

Shikamaru logo voltou para atrás da imagem em holograma, encontrando novamente uma imagem que lhe fazia ter ímpetos de atravessar a inner e poder ajudar a rosada. O cansaço de Sakura não era evidente apenas nas olheiras profundas, olhos e ombros caídos. A medi-nin claramente não tinha quase forças para andar sem se apoiar em cada um dos móveis que via pelo caminho até se jogar na cadeira à frente da mesa de Tsunade.

Apenas um suspiro e um aperto demorado nos olhos acompanhou o movimento cego da mão até uma das gavetas da mesa, trazendo consigo uma prancheta vazia e algumas folhas em branco. E incapaz de ler os pensamentos da rosada naquele momento, Shikamaru assistiu Sakura começar a escrever as palavras estranhas que tinha lido da prancheta entregue pelas mãos de Tsunade.

Os olhos caídos lhe davam a impressão de que até mesmo a caneta era pesada demais para ser movimentada, ainda assim ela desenhou kanji após kanji em sua caligrafia caprichada. Com seus pensamentos claramente divididos entre o que escrevia e a concentração para não ceder ao cansaço, os papeis iam sendo preenchidos.

No fim, Sakura pareceu procurar algo em um de seus bolsos, tirando primeiro um par de luvas de látex que ela descartou para o lixo ao lado da escrivaninha; eram luvas de procedimento. E elas aliadas ao cansaço da rosada lhe fizeram se perguntar se ela havia passado a noite trabalhando.

Em seguida um plástico com parte dos cabelos de Ino que ele havia usado para se camuflar em Suna saiu do mesmo bolso e foi largado sobre a mesa ao lado da prancheta e uma das gavetas de Tsunade os dois pedaços de pergaminho. Com atenção digna de sua fama, Shikamaru cuidou a forma como Sakura havia feito aquele jutsu de selamento, decorando a sequência perfeccionista que ela tinha utilizado após costurar o envelope abrigando os cabelos loiros.

Por fim a luz azulada que contornava os limites da inner brilham de forma um pouco mais intensas na mesma medida em que a imagem da Haruno na sala ia se apagando gradativamente. Aos olhos castanhos ainda foi visível o ato da rosada fechar a pasta e suspirar profundamente com ambas as mãos sobre a madeira fina com seus olhos fechados. Os olhos verdes tornaram-se mais claros os se deparar com a luz solar vista apenas por seus olhos além da janela da sala, já era manhã e antes de sair ele a viu rasgar um sache de suplemento rápido de energia; uma daquelas coisas de gosto horrível que recebiam nos treinamentos de situação de emergência para fazer o shinobi tirar energias de onde não tem para prosseguir em missão. Antes de ela conseguir se levantar e sair a visão já não era mais visível do uma névoa fina.

Com a ausência de Sakura a inner pareceu receber autonomia sobre atos totalmente dedicados a si. Acompanhou com seus olhos cegos algo que pareceu ir até a porta e então se virou a começou a andar lentamente na direção do tal escaninho, parecendo ver ali um corredor invisível e sumindo antes de chegar no mesmo.

E sem nenhuma hesitação a única intuição do Nara foi segui-la, nem que para isto tivesse que encarnar a personalidade da namorada e quebrar aquela parede aos socos. De forma automática ele se viu com pressa de tirar tudo de sua frente, sem se preocupar com a desordem que faria naquela sala ao arrastar o nicho que servia de suporte para o escaninho para o lado e para atrás de si como se o mesmo escondesse de uma passagem secreta.

Não havia nada ali, apenas a parede branca formando um ângulo reto perfeito com o assoalho de madeira. Mas seu cérebro já estava em outra frequência naquele momento, já estava claro o bastante que nada seria evidente; havia muito segredo para ser escondido.

Sem mais ira, sua cabeça maquinava apenas com dúvidas referentes a formas de como seguir em frente. Com as duas mãos espalmadas na parede ele liberou um pouco de seu chakra contra a mesma, a luz azul brilhou fraca ali se logo se apagou sem revelar nada.

Sem se alarmar, naquele momento ele preferiu sorrir. Uma parte de seu cérebro lhe dizia que tinha tentado primeiro a parede apenas para fins de eliminação. Tsunade havia dito que a chave para sair estava na terceira gaveta de um escaninho que tinha apenas duas repartições, não três. Parecia-lhe gritante agora que a terceira gaveta era obviamente o chão.

Rapidamente uma memória dela usando esta mesma referência para Sakura na sala de Naruto na noite anterior, mas não se apegou muito a isto. Sua situação na noite anterior não tornava suas lembranças confiáveis. O excesso de mentiras misturadas com meias verdades também´ [em.

Fechou seus olhos para repetir o ato de concentrar seu chakra em uma parte especifica do corpo, mas desta vez em seus pés. Ao reabrir os olhos viu no chão o mesmo desenho de selamento do pergaminho deixado na prancheta por Sakura, sorriu ao perceber que alguma coisa concreta se formava em sua cabeça; a primeira delas aliás.

O contrasselo deixado para trás lhe permitiu que Sakura mesma lhe mostrasse a sequência de selos que deveria usar ali. E executá-los pareceu apenas ser o próximo passo simples que revelou no final da sequência longa e perfeccionista que o móvel que servia de suporte para o organizador de documentos de Tsunade escondia a entrada de um alçapão.

E junto com ele o sentimento de esperança. Não sabia mais pelo o que, mas o bastante para deixa-lo animado o bastante para prosseguir.

Afinal aquilo parecia uma sala para lá de secreta. O local ideal para se esconder um grande segredo. Em seus desejos mais otimistas, foi incapaz de afastar as palavras de negação de Sakura sobre a morte de Ino. Ela parecia tão convictas e se ela não acreditava, ele também não iria se render a este futuro tão facilmente, ou pelo menos até chegar ao fim daquilo tudo.

E mais uma vez o que foi revelado aos seus olhos apresentava um cenário que poderia fazer com que toda a esperança que lhe tomou o peito se esvaísse no momento seguinte. Aquele buraco escuro não passava de um depósito quase com ar de abandono. Tão sujo e empoeirado quanto um armário de vassouras. Com máquinas caça-níqueis e roletas viciadas jogadas por toda a parte que a claridade da sala acima conseguia penetrar.

Havia mesas velhas com caixas empoeiradas de baralhos em cima, junto com marcações sobre como cada um deveria ser usado. Fichas de casas de jogos também disputavam espaço ali, e mais para o canto havia sacos que Shikamaru não duvidou estarem cheios de dinheiro.

Era o bastante para fazer qualquer um entender o motivo por aquela sala ser protegida de maneira tão séria, tudo ali era ilegal. E aquela era a sala da mulher que até pouco tempo era a líder da aldeia. Por puro instinto shinobi uniu as mãos em selos conhecidos e misturou a sombra daquele buraco com a sua. Assim descobriu que aquela sala era na verdade muito maior do que aparentava. Mais do que isto, a forma como o avanço de sua sombra ficou lenta em determinado ponto sugeriria que havia luz lá dentro também.

Curioso por perceber que aquele lugar definitivamente não era apenas o que seus olhos enxergavam ele estava ansioso para se jogar além da abertura profunda. Mas antes voltou até a mesa e pegou as duas pranchetas, pois sabia que ou sua cabeça estava perturbada demais a ponto de criar pistas para teorias de conspiração, ou realmente iria precisar das duas no andar abaixo da sala.

Logo de cara ele entendeu o truque simples daquele lugar escuro e empoeirado o suficiente para fazer com que funcionasse. Havia uma espelho servindo de biombo, duplicando a bagunça, o escuro e a sujeira, mas diminuindo o tamanho do local na medida certa.

Era difícil até mesmo de ver o seu reflexo pelo mesmo ou determinar onde estava o ponto em que ele terminava e dava acesso para o restante da sala. Mas não para si, sombras e escuridão estavam muito longe de ser um problema para si, não precisava nem usar os olhos, apenas deixou que seus pés seguissem para o refúgio de luz que sabia que havia ali e encontrou sem dificuldades o caminho.

E não precisaria nem disto para andar rápida e ansiosamente até o ponto mais distante e mais claro da sala, bastava apenas a visão clara da mulher sentada com as pernas flexionadas "como índio" sobre a cama leito e lençóis amassados que era observada de forma atenta pelo holograma da inner de Sakura que tinha desaparecido de sua visão até então. Com um braço estendido sobre a coxa para que o ponto com o acesso da agulha no mesmo não ficasse sendo apertado.

O embrulho pequeno sobre suas coxas era apoiado e protegido pelo outro braço, à distância parecia nem se mexer. Tão calmo que permitia à ela ficar com olhos fechados em um limite cauteloso entre calma e cansaço, os cabelos úmidos e curtos auxiliavam para demonstrar o nível de abatimento sobre as pálpebras caídas.

Os passos apressados do trote que ele não se privou de dar até o local fez a loira reabrir seus olhos. O sorriso amplo de felicidade de Shikamaru se chocou com o cansado, mas satisfeito dela.

– Ino... – Disse quase sem voz alguma, o fôlego que tinha havia sido tomado pela emoção.

Não era um chamado, ela não precisava ouvi-lo. Era apenas um exercício para ajudá-lo a colocar aquela imagem em um local seguro de sua cabeça, um que tornasse real o fato de que não havia mais segredo naquilo.

Contraditoriamente, ele não soube o que falar quando finalmente ficou frente a frente com sua amada amiga de uma vida. O alivio e felicidade levaram consigo todas as palavras ao mesmo tempo em que o sorriso congelou todos os movimentos do seu rosto.

– Você quer pegá-lo? – Perguntou a voz cansada assistindo ao amigo indeciso em concentrar sua visão em si ou no pequeno embrulho em seu colo.

A verdade era que Ino não parecesse tão frágil naquele momento, já teria envolvido a amiga entre seus braços e a apertado com mais força do que seria agradável sentir. Ao mesmo tempo, era simplesmente impossível ignorar o pequeno ser que ela segurava.

Ino tinha alguns pontos muito fortes em sua personalidade, pontos que tronavam aquela cena calma uma imagem rara e ao mesmo tempo emocionante. Se tivesse saído em missão e quando voltasse ouvisse Ino dizer que estava desejando ficar grávida, iria rir gostosamente da brincadeira humorada. Mas ao realmente vê-la com o próprio filho nos braços era uma visão que misturava tantos sentimentos ao mesmo tempo que Shikamaru só podia definir como algo emocionante.

– Eu posso? – Respondeu-lhe com outra pergunta.

– Ele é seu filho também. – Ino respondeu com um pouco mais de energia na voz, afinal, não era porque aquela criança era sua e de Deidara que não era também de Shikamaru.

E de Sakura.

E até mesmo de Tsunade.

Shikamaru se adiantou para pegar o pequeno menino, atento ao movimento engraçado de suas sobrancelhas que pareciam ser uma sinal de que a criança estava protestando silenciosamente por ter sido tirada dos braços de sua mãe. Os olhos bem fechados pareciam ser apenas mais dois risquinhos delicados no rostinho cheio de dobras, ainda inchado do recém-nascido.

Não o era possível definir naquele ser tão pequeno quais de suas características eram de Ino. Com certeza a delicadeza e a harmonia na disposição de sobrancelhas, olhos, nariz e boca. Ino era quase simetricamente perfeita e o menino aparentemente também seria, mesmo que o formato de cada um destes itens tendessem mais para a fisionomia de Deidara.

– Como você está o chamando? – Perguntou o Nara sem se incomoda com as lágrimas silenciosas que escorreram pelas laterais de seu rosto.

Eram tantas as coisas que queria lhe falar e perguntar, mas coisas simples como aquela frase boba conseguiram sair primeiro por seus lábios.

– Eu estava esperando que você me dissesse. – A loira respondeu com um sorriso genuíno enquanto memorizava as expressões de felicidade de Shikamaru ao conhecer seu bebê.

– Eu? Nem pensei em coisas como esta. – Começou feliz com a ideia de apadrinhar aquele menino, mas logo mudou sua expressão. – Quando eu voltei de Suna, Tsunade disse que vocês, vocês dois tinham... – Cortou a frase por ali para não usar aquela palavra.

– Eu sei. Foi necessário Shika. Não há mais lugar para mim aqui. – Respondeu com certo pesar. – Minha vida agora é ele, e ele não pode ficar aqui. Bem no fundo eu já sabia disso desde o começo.

– Mas... – Shikamaru tentou recomeçar, mas seus olhos finalmente encontraram o reservatório de vidro pendurado no alto do leito que conduzia sangue até o braço fino de Ino.

Ali ele entendeu que nem tudo se resumia à mentiras.

– O que houve com vocês?

– Eu caí. – limitou-se a responder. – Tsunade conduziu um parto de emergência, mas além do rompimento da bolsa houve também uma perfuração que resultou em uma hemorragia grave.

– Foi o que Tsunade disse. – Afirmou.

– O bebê está bem, ele é forte. O meu caso que foi um pouco pior, mas estamos aqui. – Suspirou.

– Ela disse que você não havia resistido à hemorragia e que o bebê teve crises ao perder a conexão com você.

– Tsunade é esperta e experiente. Eu teria morrido mesmo se dependesse de procedimentos médicos normais, sem o uso da manipulação de chakra. E até onde se sabe, pode levar uns seis meses para que a conexão entre mim e o bebê seja naturalmente separada. Não que haja alguma coisa neste mundo que possa a romper completamente. – Sorriu com a última frase.

– O seu clã tem umas doideiras, Ino.

– Uma destas doideiras nos mostrou onde Deidara estava. – Disse, mas logo preferiu mudar o assunto. – Ah acho que isto está finalmente terminando – comentou olhando para o cilindro de vidro que pingava o fluido expresso para a cânula que o ligava à agulha em seu braço. – Sakura disse que eu só precisava de mais esta, eu realmente me sinto melhor.

– Quantas dessas você precisou?

– Duas. Ainda bem, pois como Tsunade aproveitou a situação para declarar a minha morte, nada do estoque do hospital pôde ser usado. A primeira foi de Tsunade e segunda de Sakura. Aliás, como está Sakura? Ela saiu daqui realmente exausta, eu acho que ela não deve ter descansado ainda desde o momento em que eu caí da escada.

– Ainda não a vi. – Respondeu-lhe de forma evasiva. – Houve realmente uma confusão muito grande.

– Ah então quer mesmo dizer que ela não parou para descansar um pouco. – Ino disse parecendo preocupada. – Ela me contou tudo sobre Suna, você devia se sentir orgulhoso por ter uma namorada que se sente grata por sua ex ter morrido por você, até eu sentiria ciúme no lugar dela. – Tentou emendar o comentário com humor, mas seu sorriso não conseguiu deixar de ser amarelo.

– Não estou com vontade de falar sobre Sakura agora. – Admitiu.

– Eu sei, mas eu conheço você melhor do que ninguém e preciso sim fazer você ouvir sobre Sakura agora. Ela está com medo que você não entenda as atitudes e escolhas dela, mas eu sei que você sabe que esta irritação que está sentindo vai passar. Não duvide do amor dela por você. Me desculpe por ter envolvido vocês dois nisto tudo.

– Não se desculpe. Mesmo que eu soubesse de quem você estava grávida, teria feito tudo exatamente igual...

– Só mudaria o final. – Ino concluiu em coro com o amigo. – Não vou mentir, fiquei satisfeita ao saber da morte de Temari.

– Eu vivi tudo o que ela fazia com você. Como me deixou amar uma pessoa assim?

– Eu sempre acreditei que não havia lógica nas escolhas feitas pelo coração. Era fato de que ela agia daquela forma comigo porque tinha ciúme de você.

– Você é minha irmã. Não se joga irmão contra irmã com acusações assim. Nunca houve nada diferente deste amor fraternal entre nós dois, Ino. Nada.

– Como eu já disse antes, até eu sentiria ciúme de nós dois. Não somos irmãos de sangue Shikamaru, não é tão fácil assim entender nossa relação. Mas isto não vem ao caso. Temari está morta, não significa muita coisa para mim, mas eu te conheço bem o bastante para saber que foi duro para você.

– Ela não tirou seus olhos de mim até que a vida se esvaísse totalmente de seu corpo. Não consegui pensar nas coisas ruins de Temari naquele momento.

– Ela sempre vai ser a ninja que deu a vida por você. E sempre vai ser a sua primeira garota. – Brincou por fim, conseguindo arrancar algumas risadas do moreno também. – Vou sentir falta de momentos assim.

– Você tem que mesmo que ir? – Tentou.

– Não posso viver escondida aqui para sempre, Shika. Aliás, Sakura disse que eu preciso estar em um determinado local ao pôr do sol. Será o horário da minha cerimônia, então será mais fácil sair sem ser vista por conhecidos. Você vai ter que fazer isto para mim.

– Como assim? Você vai embora hoje?

– A minha vida precisa seguir e a de vocês também. Eu apenas não poderia partir sem em despedir de você. E sem saber o nome do meu filho, é claro. – Brincou.

– Mas você não me parece bem para partir, ainda está recebendo sangue Ino.

– Sakura já cuidou de quase tudo. Só me falta chakra, mas não podia pedir isto a ela. Ela realmente saiu muito exausta daqui.

– Ino não é o momento adequado...

– O momento é este Shika – cortou – Isto é um adeus, meu irmão. Preciso aproveitar que todos que me conhecem estarão na cerimônia e que Sakura está frente a frente com Gaara para ir em segurança.

– E para onde você vai? Como espera andar por aí deste jeito e com um recém-nascido? – Perguntou com palavras afobadas.

A verdade era que simplesmente não queria um desfecho em que Ino não fizesse mais parte do seu panorama. Simplesmente não queria.

– É por isto que ela está aqui. – Apontou com a cabeça para a Inner quieta e quase esquecida no canto da sala. – Ela trouxe você até aqui e ela irá me conduzir até onde eu devo ir; eu conheço a inner de Sakura muito bem. A Haruno deixou uma charrete pronta com tudo o que eu preciso, você apenas precisa me ajudar a chegar até ela.

– Claro. Armações e armações. – Desdenhou.

– Não se irrite. Quando conseguir pensar como Nara Shikamaru irá perceber que é assim que deve ser. Que mesmo longe de você eu vou estar bem e feliz.

– Eu vou levar você até onde quer que Sakura ache que você deve ir. Não vou deixar você sozinha em uma charrete na situação em que está.

– Vai sim. Nós unimos a família Yamanaka e a família Nara com uma gravidez. Tsunade não irá se envolver mais com isto, se algo der errado ela irá assumir a postura de uma anciã de Konoha. Um corpo será cremado como se fosse meu, você precisa garantir que não sou eu lá. Preciso que você esteja à frente de tudo isto e que leve a mentira da sua paternidade até o fim. E sua mãe também precisa, ela acabou de perder o primeiro neto.

– Isto é loucura!

– Não me subestime e nem subestime estes selinhos complicados que a Sakura faz.

– Você a defende tanto. Ela pelo menos te contou o que fez com o Iwa?

– Sim. Ela contou sobre o que Tsunade mandou ela fazer com Deidara, e como ela verdadeiramente desejou a morte dele. A propósito, não esqueça de me entregar o prontuário de Deidara, eu vou precisar muito dele.

Sem entender Shikamaru ficou olhando para Ino ao mesmo tempo em que pensava, obviamente, na pasta estranha que tinha de alguma forma o ajudado a chegar até. Sakura tinha claramente entregado o anel com o Kanji "Aoi" para Tsunade e Naruto, todos sabiam que ele não poderia tirar aquele negócio com vida. Aquela foi a prova de que Sakura tinha matado o Iwa como tinha sido o desejo de Tsunade, mas Ino estava feliz e nada ainda fazia sentido em sua cabeça.

Se possível, Shikamaru se sentiu ainda mais irado por se sentir rebaixado de ninja mais inteligente à mais burro de Konoha. O que tinha acontecido de verdade ali, que todos pareciam saber menos ele. Ino parecia feliz, agradecida de satisfeita. Mas tudo o que ele via era uma dezena de pontas soltas sem uma base sólida a que se fixar para começar a amarrar cada uma delas.

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Fim das memórias de Shikamaru

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Início das memórias de Sakura

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Após os minutos gastos em lágrimas, a mente de Sakura finalmente conseguiu ficar calma o suficiente para colocar-se em branco. Por mais difícil que pudesse ser, teria que colocar toda a parte sentimental daquela história de lado.

Tinha que admitir que isto não era uma tarefa fácil para si. Orgulhava-se muito por ter sua inteligência reconhecida como um de seus pontos fortes, mas ao mesmo tempo sabia que a razão dificilmente conseguia manter-se clara nos momentos em que seu lado emocional era atiçado. Era uma kunoichi emotiva quase ao extremo na verdade, mas teria que dar o seu melhor para lutar contra isto naquele momento.

Shikamaru tinha introduzido, contraditoriamente, mais controle e descontrole à sua vida. O Nara tinha a ensinado que ideias racionais surgiam quando a pessoa conseguia controlar seus impulsos, e controlar impulsos exigia apenas exercícios constantes que seu próprio oficio no hospital oferecia diariamente. O que era contraditório, era que o sentimento que havia descoberto pelo moreno ainda era o sentimento que podia fazer com que todo o esforço e trabalho mental fosse em vão.

Era também ingenuidade acreditar que um sentimento totalmente inexplicável e intenso pudesse ser controlado. Amor não era um sentimento racional, era instintivo e insensato. Tão sem sentido que podia contradizer a si mesmo, este sentimento se fazia quase impossível de o descrever; de criar uma fórmula para o amor.

A fórmula para o amor perfeito existir. Amor perfeito simplesmente não existe. O mais humano de todos os sentimentos será, como tal, sempre passível de defeitos.

Fraco e forte como seu elo mais frágil. Volátil sem perder a intensidade. Breve ou duradouro, mas eterno enquanto existisse. Tão profundamente humano que tornava mais forte o melhor e o pior de cada um.

Foi para proteger alguém que amava tão irracionalmente que se arriscou pelas trilhas sinuosas e de engenharia frágil de um caminho que exigiria todo seu potencial para racionalidade. Não era boa em planejar estratégias, mas teve o melhor de sua vila como foco de seu objetivo passo após passo apressado de sua ida até Suna.

Fez o que tinha que fazer, estava orgulhosa de sua capacidade de equilíbrio entre esses dois polos distantes que habitavam o cérebro de todos os seres humanos. Foi racional e irracional, mesclando as duas vias como se fosse apenas pular da trilha da direita para a da esquerda para desviar de um obstáculo e depois voltar para a esquerda para prosseguir.

Certo ou errado não importavam mais. Só tinha que funcionar.

E funcionou. Estavam todos ali à salvo em Konoha.

Mas sua maestria para conduzir aquela história de mentiras ardilosas não parou para pensar nos imprevistos. Ah e como houveram imprevistos.

Isto a deixava possessa. Ela tinha prometido algo para Tsunade, e tinha falhado; e mentido sobre sua falha. Tsunade havia ficado com uma tarefa aparentemente simples, que tinha se mostrado complicada demais. Complexamente cheirando a mentiras que apenas um mentiroso reconheceria.

Sua mestra não perderia uma vida em procedimento de extravasamento de sangue, ponto. Não importava a situação de Ino e nem o tempo que levou para operar e remover o pequeno bebê prematuro. Lembrava-se perfeitamente que os sinais de Ino estavam dentro do tolerável quando deixou a mestra sozinha, sob os cuidados de Tsunade, não havia hemorragia que poderia levar Yamanaka Ino à morte na situação em que estava.

Ainda assim, a ideia de morte da amiga tornava sua falha um delito grave. Mais grave do que já tinha sido apenas pelas mentiras. Precisava das verdades, não aceitaria a morte de Ino a menos que visse seu corpo pálido e sem calor. Principalmente porque Tsunade havia conseguido deixar claro que as manchas de sangue em sua roupa não condiziam com o procedimento que tinha afirmado realizar.

Leu os documentos que relatavam os procedimentos, de Ino e do bebê. A sequência de atos neles era condizente com a história de Tsunade. Nascimento; óbito da mãe; recaída na saúde do bebê; óbito no bebê.

Respirou fundo e pensou, a única coisa que tinha para seguir em frente era a sua inteligência. Ficou claro que Tsunade não se envolveria mais nesta história desde o momento em que deu apenas coordenadas de onde estaria tudo o que iria precisar para estudar.

Entendeu exatamente o que isto significava desde a primeira das insistentemente repetidas vezes em que Tsunade disse que tudo o que precisava havia sido deixado na terceira gaveta de seu escaninho. Era um dos segredos da loira das lesmas, seus vícios e hábitos ilegais.

Havia três esconderijos na sala que omitiam coisas que deveriam ser omitidas. Claro que Tsunade vinha se livrando do vício em jogos com o passar do tempo, mas aquelas coisas ainda eram guardadas ali, era apenas um dos muitos segredos que dividiam, e um dos esconderijos ficava selado embaixo do móvel que servia de suporte para o tal escaninho. O dito cujo tinha apenas duas repartições, e quando a mestra citou a terceira repartição a resposta para si foi imediatamente óbvia.

Esperava apenas encontrar respostas boas para mentiras ainda melhores. Queria ver Ino livre de todo o estresse que percorria o terreno ali em cima, ou pelo menos, se estivesse errada, a pequena criança a esperando para que fosse liberta de um futuro ruim em uma vila que não a aceitaria.

Sakura arredou o móvel sem nenhuma dificuldade e sem nenhuma novidade ajoelhou-se um pouco à frente do selamento escondido no ali no chão, não precisava vê-lo para prosseguir. No final da sequência extensa de selos a porta aberta revelou a sala empoeirada de sempre, diferente do de costume, as tranqueiras de Tsunade estavam amontoadas logo na entrada.

O biombo velho e sujo de espelho havia siado posicionado como uma repartição. Parecia até conter a intenção de omitir o tamanho real daquele local, mas isto podia apenas ser uma feliz coincidência.

E lá no fundo daquela sala estava a prova de uma mentira necessária. Recostada em vários travesseiros que a deixavam nem deitada e nem sentada Ino tinha os olhos fechados e o braço fino esticado. Ligado a ele havia a agulha de calibre grosso que lhe oferecia uma reposição necessária de sangue.

Pálida demais. Cansada demais e ao mesmo tempo aparentava estar em alerta máximo. Era como se seus olhos fechados não desejassem o descanso claramente necessário. As pernas inchadas estavam jogadas de qualquer forma entre os lençóis brancos que lhe cobriam o corpo ainda fragilizado.

Ao lado dela havia um leito móvel de recém-nascidos e através do acrílico transparente a criatura extremamente pequena se quer se mexia. O envelope de edredons feito cuidadosamente em torno do pequeno corpo o mantinha quente e calmo, dava a impressão que do jeito que havia sido colocado ali, ele ficou.

– Ino... – Chamou tocando de leve a perna da amiga.

A loira acordou de pronto, claramente assustada. Como se tivesse dormido por exaustão e ainda estivesse em alerta mesmo em seu sono. O rosto pálido e evidentemente cansado pareceu suavizar ao ver Sakura ali, permitindo-se cair novamente com o rosto no travesseiro.

– Não consigo pegar meu filho. – Foi a primeira coisa que saiu em voz baixa de seus lábios cansados.

– Nós vamos cuidar disto.

– Tsunade declarou meu óbito logo após o parto, por isso não temos acesso a nada do hospital. Ela parou a hemorragia e me doou seu próprio sangue, disse que eu teria que esperar você voltar para demais tratamentos. – Tratou de ir logo explicando, quanto o antes o fizesse, antes melhoraria.

– Ok. Poupe-se, eu vou cuidar de você. Apenas me responda, o sangue veio mesmo de Tsunade?

– Aham.

– Uma bolsa apenas será pouco, Tsunade e eu temos o mesmo tipo sanguíneo. – Disse começando a colocar sua cabeça para realmente funcionar da forma como melhor funcionava.

Sakura olhou ao redor, tudo o que conseguiria ter acesso era o que tinha ali; coisas deixadas em desuso pela evolução do tempo. Pelo menos tinha uma pia. Já tinha ficado claro que a participação de Tsunade nesta mentira havia chegado ao fim, não teria nenhuma ajuda da mestra para os cuidados dela e nem para ações futuras.

Antes de qualquer ação a rosada puxou do bolso um sache com líquido normalmente usado para revigorar as forças dos shinobis em batalha. Já estava cansada e teria que cuidar de Ino, por fim também teria que lhe doar alguma quantidade de sangue no final de tudo. A união de todas estas coisas deixavam claro para a medinin que cada molécula de energia sua seria necessária, não iria falhar naquele ponto.

– Sente dores? – Perguntou e sua resposta foi ver a amiga levar as duas mãos ao ponto do corte da cesariana de emergência.

– E Deidara? – Perguntou no exato momento em que Sakura colocou suas mãos sobre o local da cirurgia.

– Primeiro vamos cuidar de você, depois...

– Tsunade me deu uma chance de escolher meu futuro, Sakura. A minha morte apagou a traição, ela disse que você tinha ido até Suna e iria fazer isto dar certo.

– Eu preciso me concentrar. Primeiro você, depois as histórias.

Ao fim da fala da rosada Ino apenas calou, sem um motivo claramente defino sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Mas não chorou, não importava se eram lágrimas de dor ou de felicidade, apenas se sentiu indigna de derramá-las, no lugar disto apenas focou seu olhar no embrulho que dormia tranquilamente, alheio a tudo o que acontecia ao seu redor.

E foi neste silêncio que Sakura cuidou de todas as dores físicas de Ino, limpou seu corpo e trocou suas roupas. Um último check-up foi feito em Ino e no bebê antes que Sakura usasse o resto de suas forças para encher um recipiente de vidro com seu sangue e o trocar pelo vazio no alto do leito de Ino.

– Você já o segurou? – Perguntou ao perceber os olhos claros focados no bebê que agora parecia desnecessariamente longe.

– Não. Tsunade apenas... – Começou, mas parou ao ver Sakura se aproximar do bebê, uma euforia grande demais para continuar falando a atingiu com a ideia de poder finalmente pegar seu filho no colo.

– Você não pode amamenta-lo por causa das transfusões de sangue. – Sakura advertiu ao voltar e arrumar um travesseiro sobre as pernas flexionadas e o braço sem agulha de Ino.

– Não é como se eu tivesse leite para amamentá-lo também. – Respondeu um pouco sem energia, fato que o estresse e o parto prematuro acabaram por prejudicar aquele processo natural.

– Isto não vai prejudicá-lo. Aqui. – Concluiu colocando o menino pequeno e frágil demais no aconchego dos braços da mãe.

E foi impossível conter algumas lágrimas de emoção ao ver a expressão de Ino ao pegar seu filho pela primeira vez no colo. Uma apresentação ansiada e completamente emocionante, embalada por um sorriso molhado que congelou no rosto de Ino por longos minutos.

Nunca havia a visto sorrir daquela forma. Conhecia Ino desde a infância e nos olhos quentes nunca viu tamanha admiração; tanta devoção. Entre um fungado do choro feliz e outro, seus olhos percorreram por todo o rostinho delicadamente desenhado do recém-nascido. Admirando cada detalhe único, deixando seus dedos percorrer pelos bracinhos mínimos de mãos pequenas e dedos longos.

– Ele é a cara do Deidara. – Disse rindo-se entre o choro feliz.

– Eu achei ele parecido com você aqui. – Acrescentou tocando a curva do rosto formada pela mandíbula. – E na fisionomia.

– O desenho das unhas é do meu pai. – Completou ainda encantada com cada pequeno detalhe do bebê.

– Ora se você diz... – Sakura concluiu com humor, fazendo a loira rir.

– É. Meu pai e meu filho, eu que sei. – Disse forçando um bico falso de birra, ainda sorrindo com a amiga.

– Eu não vou discordar de você. – Ela ergueu as duas mãos para cima em sinal de rendição. – É uma criança linda, Ino. Eu desejo que te traga muita felicidade.

– Então... podemos falar de Suna agora? – Perguntou Ino finalmente desviando os olhos do filho para a amiga.

– Ino Suna foi uma bagunça. Nada lá tinha como dar certo. – Começou.

– Mas Tsunade disse que você tinha ido lá para resolver. Ela disse que você faria dar certo.

– Tsunade me mandou ir até Suna, trazer Shikamaru para casa e se encontrasse Deidara com vida, era minha missão matá-lo. Ela nunca me disse que simularia a sua morte.

– Mas você não o matou, não é? – Ino quase pulou sobre a rosada, como se a resposta obtida desta forma fosse mais sincera.

– Hei cuidado com o seu braço. Ino nada deu certo em Suna, Shikamaru ter ido até como você trouxe outras coisas à história. Gaara queria te fazer prisioneira em Suna, as coisas que ele fez com Shikamaru pensando ser você lá, grávida, são tão horríveis que nem dá pra discutir aqui. Deidara estava praticamente morto, Gaara não permitiria que ele passasse daquela noite assim como não permitiria que você e seu filho passassem. Shikamaru estaria morto se Temari não tivesse se sacrificado em seu lugar.

– O que houve com Deidara? – Gritou a loira.

– Era a minha missão matá-lo, do jeito em que as coisas estavam eu não podia falhar na minha missão. Acreditava que sem ele no jogo a traição poderia ser contornada, Shikamaru seria o pai do seu filho e tudo ficaria bem.

– Eu morri para anular a traição Sakura, eu e o bebê morremos. Sem nós dois não há traição e nem nada que afete você e Shikamaru.

– Mas ninguém me disse isso! Quando eu saí daqui seu bebê estava bem e você também. eu tinha uma ordem a seguir.

– Por que Tsunade fez isto, então? Por que ela me deu esta chance e disse que você tinha ido até Suna resolver tudo?

– Tsunade sabia que esta história não podia deixar rastros. Deidara, assim como você, tinha que morrer.

– Se eu estou morta qual a diferença Deidara estar vivo ou não? Para onde eu vou, Sakura?

– Para onde você iria com ele vivo, Akatsuki? – Rebateu. – Existe uma pessoa que me devia um favor. Eu não consegui fazer o que tinha que fazer na frente de Shikamaru, então o levei para esta pessoa. Não vou mentir para você, levei Deidara para lá para ser morto. – Sakura parou por um momento, seus olhos desviaram para algum ponto em que pudessem se apegar no fato passado.

–Sakura... – Ino a encorajou a prosseguir com a verdade.

– Eu estava concentrando o meu chakra nas mãos, a carga necessária leva alguns minutos e ele achou que eu estava me preparando para ajudá-lo e ficou brabo, naquele momento Shikamaru ainda se parecia fisicamente com você e ele ficou gemendo o seu nome como se fosse um ultraje eu estar ali com ele e não com você. Eu disse a ele que você estava à salvo em Konoha e que eu não estava ali para salvá-lo, mas para salvar você e Shikamaru. Gaara usou o caixão do deserto nos dois braços de Deidara, ele não estava em posição de se defender, mas ele deixou claro que não iria. A única coisa que ele fez foi usar o resto de fôlego que tinha para me fazer entender que eu devia tirar o anel de seu dedo e a expressão no rosto dele ficou tão mais tranquila quando o anel realmente saiu.

– Foi o caixão do deserto, certo. É como se os braços dele tivessem sido mortos.

– É. Foi o que eu presumi.

– E você não pôde matá-lo depois disso não é.

– Deidara foi o único naquela noite que não pensou um minuto sequer em si mesmo. Sabe, ele tinha você como auge do seu desejo de bem estar até mesmo quando eu disse que ele estava lá para morrer.

– Ah sua porca desgraçada. – Ino disse descarregando sua energia em um tapa bem executado no rosto da amiga.

Parecia um excesso de fúria, mas na verdade era um grito de alívio. Um grito que Sakura entendeu e não retrucou, apenas se encolheu entre palavras quase sem voz sobre os movimentos do braço com o acesso.

Já havia acontecido um excesso muito grandes de mentiras. Dizer em voz alta para Ino o que realmente tinha em mente, e que o desejo de matar Deidara não era um blefe lhe pareceu tão reconfortante quanto o grito da loira ao descobrir que na verdade Deidara não havia sido morto.

Assumir em voz alta que realmente só desistiu no último instante daquele destino diminuía o seu sentimento de vergonha por todo o egoísmo que tinha dificuldade em deixar de sentir.

– Tsunade não me contou de seus planos, isto podia mesmo ter acabo muito errado.

– Mas deu. É o que importa neste momento. Tsunade disse que você é a única pessoa em quem ela confia cegamente, tenho certeza que ela já previa seus atos.

– Bem na verdade, ainda não tem como garantir que vai terminar bem. Nem mesmo Tsunade domina a técnica para reverter os efeitos do caixão de areia, eu só tive chakra para uma sessão. No estado em que ele estava com certeza também não aguentaria mais do que uma. A pessoa com quem eu o deixei não tem as habilidades médicas mais brilhantes.

– Eu tenho certeza que você o deixou fora de risco. Quando você encontrar ele novamente...

– Ino. – cortou – Deidara está morto, assim como você e esta criança estão. Tsunade por algum motivo escolheu se envolver, mas a forma como as coisas foram conduzidas até aqui mostram que ela não vai mais nos ajudar.

– Ela disse que como alguém que já amou e perdeu a pessoa amada, compreendia minha situação. Mas que como shinobi de Konoha não iria se contradizer e nem permitir que regras fossem quebradas.

– Exatamente. Isto quer dizer também que eu não tenho razões legais para sair da vila para tão longe e por tanto tempo.

– Então me ensine. Eu sei que não me foquei nesta arte como você, mas eu tenho as técnicas básicas Sakura. Se for para ajuda-lo eu sei que posso aprender.

– Não é tão simples, não querendo ofender ou subestimar você, mas esta técnica é muito complicada. E Deidara é a segunda pessoa na história que recebeu o tratamento.

– Isso quer dizer que ele vai ficar sem mover os braços para sempre? – Questionou.

– Não vamos desistir sem tentar, eu só preciso que você entenda que no final pode não dar tão certo quanto você gostaria.

– Me ensine! – Disse Ino em timbre forte.

– Não será possível, você está fraca e no meio de uma transfusão. Você vai estar boa em dois ou três dias, a viajem irá durar mais do que isto. Agora eu preciso ir, vou voltar para Suna com Naruto assim que amanhecer.

– Mas se você vai para Suna... Tsunade disse que eu devo ir embora ao entardecer quando todos na vila estarão na cerimônia de cremação.

– Hn. Eu vou deixar uma charrete preparada no local certo fora da vila com todo o suprimento que irá precisar para a viajem. Você ainda se lembra da minha inner, certo?

– Como se esquecer daquela gritona. – Ironizou.

– Então não se preocupe com nada além de estar bem para a viajem e chegar no local certo sem ser vista. Peça ajuda à Shikamaru. Confie em mim para o resto. Só tem mais uma coisa – disse pegando o bebê dos braços dela e recolocando no berço – Você morreu e irá levar este segredo com você para onde quer que vá, mas eu não posso revelar este segredo nem que ele cause a minha morte. Eu sei que seu clã tem um jutsu de segredo muito mais forte do que um selamento.

– Não vai me dizer para onde devo ir?

– Não. Você irá contar para Shikamaru e ele, inevitavelmente, irá atrás de você.

– Você tem certeza disto? – Questionou, o jutsu em questão era, além de elaborado, doloroso para quem o recebia.

– É. Depois de acreditar que bastava costurar as bocas do seu bebê para tudo ficar bem e de ter verdadeiramente desejado matar o pai do seu filho. Depois de ver Shikamaru maltratado se passando por você e desejar por muitas vezes não ter me envolvido nesta história fadada ao fracasso desde o início. Depois de matar Deidara sem o matar de verdade e de ouvir que você estava morta sem que você estivesse morta de verdade... eu acho que eu desejo muito nunca mais precisar falar nisto. – Disse com franqueza.

– Não sei se tenho chakra o suficiente para isto, mas vamos tentar.

– Eu cuido de você depois disto, não se preocupe.

– Você vai estar mais fraca do que eu depois disto, se der certo. – Concluiu unindo suas mãos em posicionamento para a execução de selos, tentando ignorar o desconforto em seu braço ao acionar sua rede de chakra.

– Vai dar tudo certo. – Foi a última coisa que disse antes de Ino começar.

– Por favor, eu sei que você e Tsunade querem o mínimo de exposição, mas me permita despedir de Shikamaru devidamente antes de partir. – Disse em meio ao jutsu.

– Hn. – Foi a última de suas promessas.

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Fim das memórias de Sakura

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– Você simplesmente me anulou, Sakura. Incluiu-se nos planos e assumiu as suas vontades como a única verdade em questão. Juntos poderíamos ter encontrado outra forma. – Disse Shikamaru voltando a se concentrar na menina à sua frente na margem do rio.

– Não poderíamos não. Não sem que alguém fosse prejudicado.

– Você ultrapassou qualquer limite tolerável de egoísmo.

– Desde que comecei a notar você, tudo o que eu mais quis foi conseguir estar um dia à altura de sua inteligência. Eu sou boa em seguir planos, não sou boa em improvisar planos, mas em todo instante em que eu me perguntava se estava mesmo fazendo a coisa certa, me lembrava de você na casa de Ino me colocando entre os seus braços e me dizendo que eu podia ser egoísta. Eu fui egoísta te excluindo dos meus planos, mas fiz isto unicamente pensando em você. Esta parte não foi egoísta.

– As coisas poderiam ter dado muito errado.

– Eu sei.

– Mas Tsunade me disse que apenas deram certo por sua causa. Porque você não a decepcionou. E Ino também disse isto.

– Isto é o que mais me assusta. Você entende por que só poderia haver uma versão da história? Entende que apenas uma pessoa poderia contar o que houve? Qualquer informação que fizesse Naruto nos fazer as perguntas erradas colocaria todo o esforço em te anular da história, em vão.

– Eu não me importaria de sofrer as consequências.

– Não? Então eu me enganei, o egoísta aqui é exatamente você. Aquele Iwa seria interrogado e levado à morte aqui, Ino seria presa e perderia a infância do filho que teria que largar assim que o período de amamentação terminasse. Gaara continuaria tendo motivos para acusar Konoha por coisas pessoais que aconteceram entre ele e Ino e ela provavelmente continuaria sendo perseguida por ele. E eu e você não ficaríamos presos por tanto tempo, mas com certeza perderíamos os nossos cargos.

– Não distorça a situação. Não tivemos a oportunidade de pensar em um meio melhor.

– Você é o gênio que consegue enxergar todas as possibilidades e diretrizes, não eu. Sinto muito. E pare para pensar, por favor, que mesmo você sendo a mente capaz de pensar entre nós dois, você não encontrou uma solução melhor do que se infiltrar no palacete de Gaara como se fosse Ino.

– Ele só abriria as portas para ela, se soubesse que era eu teria me matado muito antes de eu conseguir passar pelo átrio central. Precisava de tempo para encontrar o Iwa.

– E indo como Ino você abriu mão de usar seus jutsus, pois eles o denunciariam. A única que eu tinha quando saí de Konoha era a certeza de que iria perder você.

– E mesmo assim você foi. – Disse com um sopro a mais na respiração, revelando para a rosada o duplo sentido de sua frase.

Sakura sorriu para as estrelas ao ouvir aquilo. Espera aquela reação de Deidara realmente tivesse sido morto e as coisas não tivessem terminado tão bem como terminaram. Claro que não queria perde-lo, gritou em tom claro que estava pronta para assumir as consequências, mas na verdade não estava assim tão disposta a abrir mão de Shikamaru.

– Naquele momento era mais importa não perder sua vida. – Respondeu. – Mas confesso que depois que tudo terminou tão inesperadamente bem, desejei que não precisasse perder você de nenhuma forma.

– Eu sei que em alguma parte da minha cabeça existe uma conexão que sabe que você está certa, mas eu ainda não estou conseguindo fazer esta conexão. As coisas terem dado certo no final não muda a forma como você agiu. Eu acho que o melhor para nós dois neste momento é dar um tempo, Sakura.

– Você está aqui e não misturado à areia daquele cara e eu vou estar aqui quando você conseguir pensar melhor. – Respondeu sem outra opção.

– Você não vai mesmo me contar para onde os levou? – Perguntou como uma última tentativa chantagista por seu timbre implorativo.

Sem palavras para responder, ainda mais concentrada em dissolver a ideia de que o namoro dos dois não existia mais naquele momento, ela apenas fez que não com a cabeça. Sabia que ele acima de qualquer outro lhe perguntaria e por sua piedade, ela seria tentada a contar para Shikamaru tudo o que ele desejasse saber. De forma a dar um fim absoluto àquela discussão Sakura apenas abriu a boca e deixou sua língua se pronunciar para fora, revelando ao Nara o voto de silêncio perpétuo selado em sua língua.

Aquele tinha sido feito por alguém que nunca mais voltaria para Konoha para o desfazer. Aquela informação não poderia ser revelada nem mesmo sob tortura. E jamais seria.

– Eu não acho que Gaara vá desistir. – Shikamaru foi quem quebrou o silêncio.

– Ele com certeza vai aparecer para conferir a veracidade dos fatos. Gaara será apenas responsabilidade de Naruto daqui para frente.

– Seria menos complicado se nós dois não fossemos os conselheiros de Naruto.

– Então seria prudente, dependendo da importância do que Ino lhe contou naquela sala, que você me deixasse selar suas palavras sobre este fato.

– Eu tenho meus próprios meios de proteger minhas informações. Também eu apenas sei que ela vive, que nomeei seu filho de Himitsu e que ela foi embora deixando o corpo de um indigente queimar no seu lugar. Eu ficaria feliz em saber o que você fez com o Akatsuki.

– Fazia parte da minha missão mata-lo e eu saí do palacete porque não conseguiria mata-lo em sua frente. O anel que tirei da mão dele pode ser removido apenas com a morte.

– Isto quer dizer que esta é outra coisa que você simplesmente não irá me contar. – Afirmou.

– É meu fardo, foi minha escolha. Já estou pagando o preço destas escolhas – disse olhando diretamente nos olhos castanhos, claramente querendo se referir ao "tempo" que Shikamaru pediu no relacionamento deles –, não faz sentido estragar o que mantém o segredo seguro. – Tudo o que tinha que ser feito, foi feito. A nossa vida também tem que seguir agora.

Fim

Ah não me matem ainda

Uma vez eu perguntei se os leitores desta fanfic queriam um final feliz ou não. A maioria esmagadora pediu um final feliz, mas... não há finais totalmente ou eternamente felizes.

Havia uma versão em que o Deidara reaparecia no meio da noite na casa da Ino e ela caía da escada por susto em vê-lo. E aí ele iria junto para o hospital já assumindo o filho. A Sakura iria realmente armar uma morte de mentira para Ino, haveria velório com caixão aberto e tudo e depois o Deidara ia lá desenterrar ela. O filho já nasceria como um renegado apenas por ser dele. Mas eu achei mto meh, sem falar que com tudo o que o Gaara fez com o Deidara, ele levaria uma vida para se curar sozinho ou procurando a Akatsuki. A Ino já teria tido o filho e só ia dar pro Deidara conhecer ele no exame chunin hahahahhaha /corre sem falar que ele não sairia da Akatsuki e consequentemente a Ino teria que seguir ele. Eu gostei mais dele desejando morrer sem ser da ordem. (E se dependesse de mim Kami, ele teria feito aquilo como última ferramenta para convencer Sakura a não mata-lo como um bom Akatsuki manipulador, mas deixa ele ser lindo, vá)

E havia a versão sem final feliz, que era a versão em que a Ino verdadeira iria para Suna atrás do Deidara e sofreria todas aquelas coisas que o Shika passou no lugar dela e veria Deidara ser morto, veria o bebê ser morto e viveria presa naquela sala com os corpos dos dois do jeitinho que o Gaara queria. Como eu gosto de finais fora do padrão, teria gostado de terminar assim tb. To admitindo.

Eu escrevendo sobre as memórias do Shika não conseguia parar de pensar que ele parecia estar procurando pelos rastros da magia para localizar uma horcrux /corre.

Himitsu = 秘密 (sim, isto é segundo o google) Eu confesso que coloquei "Segredo" no tradutor do Google, apareceu Himitsu, eu achei sonoramente bonito e ficou.

Shika e Sakura terminaram e sim ficou em aberto se a Ino vai chegar onde ela tem que chegar e se ela conseguiu fazer o Deidara ficar cem por cento. A parte do Gaara também ficou em aberto. Isso quer dizer que ainda tem coisas para serem contadas no epílogo.

Eu agradeceria mto se vocês lessem até o epílogo (por favor gente, só falta mais um) porque eu confesso que no começo eu tinha uma ideia muito clara do que eu queria desta fanfic, mas eu sinto que na execução a pintura saiu meio diferente do rascunho. Eu tenho um defeito que é o fato de que eu preciso me convencer para conseguir convencer vocês do que eu estou contando, e inúmeras vezes nos capítulos finais eu fiquei meio "não faz sentido" "preciso achar uma forma de fazer sentido" "não, não faz sentido", mas as coisas principais que eu tinha como tópicos estão aí.

Eu não consegui executar essa parte do morreu x não morreu e porque não morreu tão bem quanto eu queria, mas eu garanto que queimei todos os meus neurônios. Mto obrigado quem chegou até aqui, por favor leiam o epílogo. É só mais um.