NARUTO NÂO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! II

Vista de longe, a Refinaria de Red Rock era um labirinto interminável de torres, reservatórios, cercas, escadas, canos e válvulas. Cinzas, verdes e brancos enferrujados misturavam-se numa paisagem sinistra, semelhante à lunar, a qual nunca parecera tão ameaçadora a Sasuke Uchiha.

Ele sempre se preocupara muito com os problemas do meio ambiente do mundo inteiro, mas aquele caso era diferente. Daquela vez, sua família estava em perigo... seus filhos e, para todos os efeitos, sua mulher.

Não havia por que continuar mentindo para si mesmo ou fingindo diante de Hinata. Estava apaixonado por ela!

Hinata Hyuuga. No início, ela era apenas uma boa vizinha; depois, a amiga de todas as horas; então, se tornou a mãe substituta de seus filhos. Fazia doze meses que Naruto a abandonara por uma mulher mais jovem e ele a ajudara a superar o trauma do divórcio. E fora nesse tempo, pouco a pouco, que ela se tornara a razão de ser de sua existência.

Nos últimos meses, vinha fazendo sutis esforços no sentido de despertar em Hinata um novo sentimento por ele, sem sucesso. Aos olhos dela, continuava a ser o velho e bom Sasuke, o melhor amigo do mundo. Resolvera, então, tomar providências drásticas.

Com grande sacrifício, mantivera-se afastado de Hinata durante todo o verão. Sabia que, antes de pedi-la em casamento, precisava acabar com os velhos hábitos de seu relacionamento para que ela o visse sob nova luz... e também sentisse a sua falta. De qualquer forma, era-lhe impossível continuar a fingir que estava satisfeito com aquele "quase-casamento".

— Você nunca disse que Hinata era assim! — ralhou Kiba, dirigindo o carro luxuoso pela ladeira de cascalho que levava à entrada da refinaria. — Quando você disse que estava tentando arranjar um encontro para sua vizinha, achei que ela devia estar tendo dificuldades para atrair homens por si só.

— Hinata nunca tem dificuldades para fazer nada — replicou Sasuke. — Ela é a mulher mais capaz que conheço.

"E seu coração é tão belo quanto seu rosto", quase acrescentou. Mas não havia por que fazer confidências a Kiba Inuzuka. Conhecia as táticas que o colega utilizava para conquistar mulheres, e essa era uma das razões pelas quais a amizade entre ambos esfriara nos últimos meses. Eles haviam se tornado amigos em fevereiro daquele mesmo ano, época em que Kiba assumira o cargo de inspetor de Prevenção contra Incêndio do município. Sua função era fiscalizar todas as substâncias e equipamentos inflamáveis localizados sobre a superfície da terra. Sasuke, por sua vez, atuava na área de Segurança do Meio Ambiente, fiscalizando todos os procedimentos de remoção de resíduos perigosos. Os dois juntos, após realizarem rigorosas inspeções periódicas, emitiam autorizações para Red Rock continuar a funcionar.

A fim de mudar de assunto, Sasuke falou:

— Pelo que ouvi dizer, este pode ser o pior acidente ocorrido em Coltersville nos últimos trinta anos.

— Duvido... — discordou o colega, em tom de desdém. — Os primeiros relatórios sempre são alarmantes.

Sasuke preferiu abster-se de comentários. A explosão podia ter ferido ou matado pessoas, e Kiba achava que ele estava se deixando levar pelas emoções! Era difícil lembrar o que o levara a pensar, alguma vez, que o colega era totalmente confiável.

O fato de Hinata ter dado tanta atenção àquele sujeito também o surpreendera. O episódio só reforçava sua tese de que ela estava pronta para um novo relacionamento... e de que ele estava perdendo tempo!

— Você inspecionou tudo em julho, não? — inquiriu irritado. — Não viu nenhuma irregularidade?

— Fiz tudo de acordo com o regulamento — declarou Kiba, despreocupado. — Solicitei a execução de alguns reparos, que logo foram feitos. Você não leu o relatório?

— Sim, eu li — Sasuke concordou. "Mas talvez devesse ter sido mais rigoroso na leitura", pensava.

Ele sempre fora rigoroso com Red Rock. Porém, no íntimo, achava que não dera o máximo de si ao trabalho, nos últimos tempos. A reforma da casa e a "reforma" dele mesmo tomaram-lhe todo o tempo livre, para não falar da sua concentração. Cada etapa cuidadosamente executada fazia parte de uma exaustiva campanha chamada "Operação Cinderela", cujo desfecho ocorreria na noite seguinte.

— Que bom que puderam vir logo! — exclamou Jiraya Sennin, o administrador de Red Rock, ao se aproximar do portão principal para recepcionar os recém-chegados.

Sasuke estranhou o cumprimento caloroso de Sennin, homem obeso cuja careca brilhava com a transpiração. Afinal, como responsáveis pela proteção do meio ambiente da comunidade, ele e Kiba nunca eram muito bem-vindos a Red Rock.

O administrador da refinaria apertou a mão de Kiba e depois se voltou para Sasuke, declarando:

— Não acredito que vá encontrar qualquer causa de preocupação aqui, Sasuke... Mas se achar algo perigoso é só falar!

Antes que Sasuke pudesse responder, Kiba tomou a palavra:

— Oh, tenho certeza de que está tudo em ordem! Você estava trabalhando na hora da explosão?

— Não — respondeu o administrador, passando a andar em direção aos reservatórios, seguido pelos dois inspetores. — Normalmente, chego às sete da manhã. Howard Caldwell é o responsável pelo turno da noite e pode fornecer todos os detalhes do ocorrido. — Lançando um sorriso apaziguador a Sasuke, concluiu: — Tudo o que posso dizer é que uma das válvulas de amônia se rompeu e...

— Disso eu já sei! — Sasuke o interrompeu. — O cheiro está de dar náuseas!

— Esse cheiro pode salvar sua vida! — lembrou o administrador, dando um sorriso forçado que revelou uma brecha entre os dentes incisivos. — Temos de pôr odores nos gases naturais para que as pessoas saibam de imediato quando estão em perigo. O amoníaco, por exemplo, tem um cheiro tão horrível que ninguém precisa avisar aos outros para saírem da área perigosa.

— Às vezes, as pessoas não têm tempo para sair da área, Sennin! — Sasuke replicou, irritado pela indiferença de Kiba e pela simpatia forçada do administrador da refinaria. — Sei que não liga a mínima para a população, mas ouvi dizer que alguns de seus homens estão muito mal!

Para surpresa de Sasuke, Sennin parou de sorrir falsamente e adotou uma expressão sincera de preocupação.

— Eu... não posso imaginar o que provocou essa explosão — lamentou em tom pesaroso. — Você e eu brigamos muito, Uchiha, mas... pode ter certeza de que procuro seguir os regulamentos à risca. Sei que você não hesitaria em denunciar a mínima irregularidade que conseguisse apurar. — Depois de fitar Sasuke por um instante, voltou-se para Kiba. — Você inspecionou tudo no mês passado, Inuzuka! Não consigo entender o que aconteceu aqui!

Sasuke também não conseguia entender. Teria de analisar todos os detalhes da explosão... tanto no que se referia a suas responsabilidades como também no que dizia respeito às de Kiba.

— Também não consigo entender, Jiraya — declarou Kiba, indiferente à aflição do administrador. — Por que não conta o que aconteceu, enquanto examinamos a unidade de amônia? — Começou a andar em direção aos fundos da refinaria sem esperar pelos acompanhantes. — Até agora, tudo o que sabemos é que houve uma explosão.

— Por enquanto nós também não sabemos muito mais que isso — Sennin replicou, enxugando a cabeça úmida com um lenço e apressando-se para alcançar Kiba.

Sasuke, por sua vez, jamais correria atrás de Kiba e, graças às pernas longas, acabou chegando ao local na frente dos outros dois. Assim que avistou o cilindro destroçado, ouviu o administrador informar:

— Por volta das cinco horas, um dos tanques de produção de amoníaco explodiu.

Sasuke se lembrou de que aquele tanque tinha quase dois metros e meio de altura e mais de seis de comprimento antes da explosão. Agora, partido em três pedaços, estava no chão. Torres e cercas próximas estavam banhadas por um líquido oleoso.

— Não havia nada de errado com esse tanque — prosseguiu o administrador. — Ele já estava na fase de resfriamento. Uma das juntas de ligação pode ter cedido; ou uma das válvulas de liberação de pressão não foi apertada adequadamente na instalação, ou ficou emperrada com sujeira.

Kiba estudava os destroços que tinha à frente. Assim que ouviu Sennin terminar de enumerar as hipóteses, acrescentou:

— Ou, então, uma das válvulas estava com defeito.

Ao fitar Kiba nos olhos, Sasuke soube que ambos estavam pensando na mesma coisa, como nos velhos tempos. O mau funcionamento de uma válvula podia ter várias causas: emperramento, ou defeito de fábrica... Ou, então, fora reformada quando devia ter sido substituída por uma nova.

— De jeito nenhum! — discordou o administrador, antes que Sasuke pudesse opinar. — Substituímos todas as válvulas nesse verão, de acordo com as exigências. Está lembrado, Kiba? Até discutimos sobre os riscos de se tentar fazer economia; foi quando você me disse para gastar o que fosse necessário e colocar tudo em ordem. — Piscando nervosamente, passou a fitar Kiba e Sasuke de forma alternada. — Vocês vivem me dizendo que não basta cumprir as regras mínimas de segurança. Pois bem, eu fiz tudo certo e não adiantou nada! — Com voz trêmula, completou: — Os três rapazes na Unidade de Terapia Intensiva que o digam...

Num gesto instintivo de solidariedade, Sasuke colocou a mão sobre o ombro de Sennin, que se mostrou surpreso. Embora nunca houvesse simpatizado com o administrador de Red Rock, não era de seu feitio desdenhar de alguém que estivesse abalado emocionalmente.

— Podia haver uma válvula com defeito naquela remessa nova — reconheceu, retirando a mão. — Vamos testar todas as outras para ver se estão funcionando bem.

— E de que adiantaria isso? — retrucou Kiba, recebendo um olhar desaprovador de Sasuke.

— Ficaremos sabendo se ainda há perigo!

Sasuke imaginou, então, como um inspetor de prevenção contra incêndio podia ser tão estúpido.

— Isso não vai resolver o problema dos homens que tomaram um banho de amoníaco puro! — exclamou o colega, em tom amargo e, visivelmente nervoso, passou a fitar o reservatório avariado.

Perplexo, Sasuke analisou a reação de Kiba. Aprendera ao longo daqueles meses que o companheiro de trabalho costumava esconder as emoções, fingindo estar sempre descontraído. Mas aquele acidente parecia tê-lo abalado seriamente. Não era de estranhar. Afinal, ele próprio se sentia um pouco responsável pelo ocorrido. Além disso, o tanque em questão não fazia parte do sistema de remoção de resíduos perigosos, o que significava que era tarefa de Kiba aprovar o equipamento, não sua.

— Não devemos tirar conclusões precipitadas — lembrou Kiba, parecendo ter recuperado a calma. — Acho que devemos conversar com os homens que estavam trabalhando na hora e examinar o equipamento. O responsável pelo turno da noite ainda está na refinaria?

— Caldwell? Sim, deve estar na sala de controles.

— Ótimo. Vou falar com ele. — Kiba olhou para Sasuke, mas não pediu sua opinião. — Trocaremos idéias mais tarde — limitou-se a dizer. — Pode me levar até lá, Jiraya?

— Claro, Inuzuka! — o administrador concordou e correu atrás de Kiba.

Sasuke também pretendia falar com o responsável pelo turno da noite, mas, naquele momento, estava mais interessado no tanque despedaçado. Ajoelhou-se e examinou todos os destroços metálicos. Em especial, a válvula nova. Em seguida, passou a esquadrinhar toda a refinaria na esperança de encontrar algo que explicasse a explosão e ajudasse a evitar outra. Depois de passar uma hora examinando equipamentos e trocando idéias com trabalhadores, decidiu ir ao escritório principal. Lá, deu de cara com Howard Caldwell, que parecia estar de saída.

O corpulento responsável pelo turno da noite tinha maxilares salientes e braços cobertos por pêlos grossos e escuros, que lhe davam um aspecto simiesco. Grande consumidor de café preto e cigarros malcheirosos, Caldwell era tão retraído quanto Sennin era falador.

— Já contei tudo a Inuzuka! — adiantou-se o homenzarrão, assim que viu Sasuke. — Meu turno já acabou e eu estou indo para casa!

Mas Sasuke não estava disposto a ser condescendente. Sem evasivas, declarou:

— Houve uma explosão em Red Rock durante seu turno e eu posso indiciá-lo como pessoalmente responsável, no meu relatório!

Caldwell lançou-lhe um olhar hostil. Mas, assim que viu Kiba e Sennin surgirem a suas costas, esboçou um sorriso irônico e levemente triunfante.

— Bem, acho que chega por hoje! — exclamou Sennin, ultrapassando Sasuke para se sentar à escrivaninha.

— Tem razão — concordou Kiba. — Sasuke, estou com fome. Não tive tempo de tomar o café da manhã. Vamos sair e tomar um lanche; depois, podemos examinar seu carro.

Surpreso, Sasuke notou que o colega já não apresentava nenhum sinal do nervosismo de uma hora atrás.

— Preciso falar com Caldwell, primeiro — anunciou, sentindo-se pouco à vontade na companhia dos outros três homens. — Só vou levar alguns minutos.

— Eu já falei com ele — Kiba declarou, fazendo um gesto impaciente. — Ele viu menos que alguns dos outros rapazes. Vamos embora.

Tendo já interrogado os trabalhadores que estavam de serviço na hora da explosão e que ainda se encontravam na refinaria, Sasuke achou que não devia deixar escapar justamente o responsável pelo turno durante o qual a explosão ocorrera.

— Pode me esperar no carro — disse, tentando conter a irritação. — Estarei lá em dez minutos.

— Vamos, Sasuke! — Kiba insistiu. Parecia disposto a provar que era o mais teimoso dos dois. — Sou perfeitamente capaz de fazer uma entrevista! Acha que vai descobrir alguma coisa que deixei escapar?

Nesse momento, Sennin resolveu interferir. Lançando a Sasuke um de seus sorrisos forçados, declarou:

— Podem perguntar o que quiserem, rapazes. Howard, diga apenas o que você viu, está bem?

Caldwell fez uma careta, demonstrando mau humor. A contragosto, obedeceu ao superior:

— Era uma noite como as outras — o homem contou, encostando-se contra a parede, com os braços peludos cruzados sobre o peito. — Não havia nada de anormal. O tanque simplesmente explodiu. Corri para a sala de controles e desliguei a válvula automática. Ben Jackson viu os três homens feridos e ligou para o hospital de Morgantown para pedir ambulâncias.

— Foi você que mandou Ben ligar para o hospital? — indagou Sasuke.

— Não. Todos temos tarefas predeterminadas em caso de emergência. A minha é paralisar o sistema avariado antes que alguém se machuque.

— Engraçado... — Sasuke replicou. — Meu serviço também pode ser descrito mais ou menos dessa forma.

Hinata tivera uma manhã cheia. Já fazia dois meses que era corretora de imóveis, mas ainda atendia cada telefonema como se fosse uma venda certa e lia cada contrato como se estivesse escrito em algum código secreto. Sendo a mais nova integrante de uma firma pequena, às vezes se cansava da intimidade forçada do ambiente e foi com alívio que saiu pouco antes do almoço para mostrar sua casa favorita, a do alto da alameda dos Morros Crescentes.

Fizera questão de chegar ao local antes do horário combinado com os Hawley, casal jovem e dinâmico interessado no imóvel.

Enquanto os aguardava, admirou a casa que, em sua opinião, era maravilhosa! Antiga sem parecer velha, imponente e elegante... a residência sempre lhe trazia à mente as sequóias seculares que abundavam na Califórnia. Daria tudo para poder se mudar para aquele casarão no dia seguinte!

— Sonhando acordada outra vez, Hinata? — zombou uma voz feminina que lhe era familiar.

Voltando-se, Hinata sorriu para Ino Yamanaka, experiente corretora da imobiliária que catalogara o imóvel para venda. As duas haviam combinado encontrar-se ali, junto com os Hawley, ao meio-dia.

— Você está aqui para mostrar a casa, não para comprá-la!

Ino fez questão de lembrar.

Hinata recordou, então, como fora importante o incentivo de Ino, bem como o de Sasuke, em sua decisão de se tornar corretora de imóveis. Os dois sabiam o quanto ela era caseira e como, após o divórcio, lhe fora penoso começar a trabalhar fora, tendo filhos ainda em idade escolar. Sem dúvida, as comissões generosas e os horários flexíveis, característicos daquele ramo de trabalho, haviam sido um incentivo a mais. O único inconveniente era a obrigação de atender alguns clientes à noite, ocasiões em que Himawari, sua filha mais velha, tomava conta dos irmãos. Entretanto, como Sasuke morava ao lado, não havia com que se preocupar.

— Não tenho culpa, Ino... — replicou. — Há anos que adoro esta casa! Mesmo quando ainda estava casada com Naruto costumava vir aqui às vezes e pensar: "Talvez algum dia..."

A amiga deu um sorriso compreensivo e retrucou:

— Que seria da gente sem os sonhos, Hinata? Talvez um dia você tenha uma casa como esta.

— Impossível... mas foi muita gentileza sua dizer isso!

Nesse momento, o casal Hawley chegou. Enquanto fazia as apresentações, Hinata estudou o semblante de Sandra Hawley, tentando adivinhar se ela estava mesmo disposta a comprar a sua casa.

— A casa é bastante antiga, mas está muito bem conservada — Ino explicou aos Hawley, enquanto todos percorriam o caminho de pedras. — A proprietária, uma senhora viúva, morou aqui durante quase cinqüenta anos! Ela detesta a idéia de abrir mão da casa; por isso, quer vendê-la apenas para pessoas que realmente se apaixonem pelo imóvel.

Sabendo que ninguém poderia amar a casa mais do que Hinata, Ino olhou para a amiga e lançou-lhe um sorriso cúmplice.

— Aquele é um carvalho — prosseguiu Ino, apontando para uma árvore. — E os azulejos deste corredor são originais. Depois de abrir a porta da frente, ela chamou a atenção para outras peculiaridades da casa, até que os Hawley decidiram continuar o exame sozinhos.

— O que é que esse casal pretende? — indagou Ino assim que os recém-casados se afastaram. — Eles não parecem ter dinheiro para comprar uma casa como esta.

— E não devem ter mesmo — admitiu Hinata, dando de ombros. — Mas são tão sonhadores que não resisti à idéia de mostrar a casa a eles.

— Hinata, você não pode resistir à idéia de mostrar esta casa a ninguém! — repreendeu a amiga, em tom gentil. — Você vive arranjando pretextos para vir até aqui. Tem certeza de que não pode arranjar um jeito de comprar este casarão? Sabe que vai ficar com o coração partido se outra pessoa o fizer...

— Eu sei — concordou Hinata. — Mas, mesmo que pudesse comprar, acho que não gostaria de viver aqui sozinha.

Ino quase disse que morar com três crianças não significava exatamente "viver só", mas conteve-se. Ela mesma permanecera viúva por doze anos e sabia o que Hinata queria dizer.

— Já faz um ano que Naruto foi embora, Hinata — lembrou. — Talvez já esteja na hora de aceitar a corte de algum cavalheiro!

— Que coincidência você dizer isso! — Hinata retrucou, recuperando o entusiasmo. — Conheci um homem hoje de manhã, lá na frente de casa.

— E...

— Oh, não aconteceu nada. Não sei nada sobre ele, a não ser que é incrivelmente bonito!

— Não se deixe levar pelas aparências, Hinata — advertiu a amiga, preocupada. — Já faz tempo que está sozinha. Nessa situação, qualquer mulher se sentiria atraída pelo primeiro bonitão que aparecesse. Mas o que você precisa é de um homem de caráter.

— Mas ele tem caráter, Ino! É amigo de Sasuke. No que me diz respeito, essa referência basta.

— Sasuke? Aquele seu vizinho?

— Sim. Ele tentou fazer esse amigo, Kiba, se aproximar de mim. Jamais faria isso se não pensasse que o homem era de confiança! E ninguém mais no mundo me conhece tão bem quanto Sasuke.

Ino fez uma careta e declarou:

— Francamente, não sei por que você não se casa logo com Sasuke e acaba com isso!

Hinata achou a idéia engraçada.

— Oh, Ino — disse rindo. — Sei que agimos como se fôssemos casados às vezes, mas na verdade somos... bem... diferentes demais para vivermos juntos. Sou superorganizada e ele é desleixado demais! Além disso, já falamos sobre casamento uma vez e Sasuke achou a idéia péssima!

— É mesmo?

— Bem, Sasuke vive brincando. Na verdade, nunca sei quando está falando sério — Hinata continuou. — Logo que Naruto foi embora, fiquei tão deprimida que não suportava a idéia de ficar sozinha. Sasuke trazia hambúrgueres e tacos toda noite. Aí, eu disse que seria mais fácil se ele se mudasse de vez para a minha casa. Então, ele me contou que, certa vez, se envolveu com uma garota abalada emocionalmente e foi abandonado assim que ela se recuperou. Por isso, não estava disposto a correr o risco outra vez.

— Acha que ele inventou essa história?

— Não — Hinata negou com um gesto de cabeça. — Sakura me falou dela uma vez. Sasuke se apaixonou quando estava no último ano do colégio e ficou muito abalado com o rompimento. Depois disso, passou anos sem levar ninguém a sério, até Sakura aparecer e, mesmo assim, demorou tanto para pedi-la em casamento que ela quase desistiu. — Depois de um segundo de reflexão, Hinata comentou: — É uma pena que eles não tenham passado mais tempo juntos. Antes de Sakura morrer, Sasuke parecia o homem mais feliz sobre a face da Terra. Acho que é por isso que ele não se casou outra vez: ninguém estaria à altura da memória de Sakura; ela era perfeita.

Ino, que também sabia o que era perder um ser amado, declarou, emocionada:

— Nunca se esquece alguém... a quem se amou de verdade. Mas, quando a lembrança é saudável, sempre chega a hora de partilhar a vida com alguém outra vez. Aconteceu comigo e acho que ainda pode acontecer com Sasuke.

Ao sentir os olhos se umedecerem, Hinata fez um esforço para reprimir o súbito sentimento de mágoa. Por que a idéia de ver Sasuke casado com outra mulher a abalava tanto? Evitando pensar numa resposta, comentou:

— Sabe, fiquei tão entusiasmada quando mostrei esta casa a um cliente pela primeira vez! A primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi procurar Sasuke. — Riu com as recordações. — Falei tantas bobagens naquele dia! Tinha passado a tarde toda fantasiando sobre um homem irresistível, de bigode, vestindo um elegante summer. Ele apareceria à minha porta e me levaria para jantar no Old Mansion em Morgantown Depois, para encerrar a noite, esse príncipe encantado me traria até aqui para apreciarmos o vale, lá embaixo. Então, diria que estava disposto a vender tudo o que tinha para comprar esta casa maravilhosa para mim... — Interrompeu-se, embaraçada, e olhou para a amiga. — Me desculpe, Ino... É que fico empolgada, às vezes...

— Percebi! — retrucou a corretora, divertida. — E qual foi o comentário do "velho e bom" Sasuke quanto a sua fantasia?

— Disse que esperava que tudo aquilo me acontecesse algum dia! — Hinata contou, sorrindo. — Naruto teria rido de mim, mas Sasuke, jamais.

Naquele momento, Hinata e a amiga perceberam que o casal Hawley se aproximava.

— Sasuke é tão bom para mim, Ino... — Hinata comentou. A certeza de que a amizade entre eles jamais se acabaria aquecia seu coração. — Não sei o que faria sem ele.

A amiga encarou-a pensativa por um instante antes de retrucar:

— Espero que nunca tenha que descobrir...