NARUTO NÂO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! IV
Assim que Kiba se sentou à mesa colocada no palco, Sasuke indagou:
— Está pronto para a apresentação? — E, em tom irônico, completou: — Já cuidou de todas as... amabilidades sociais?
Kiba deu de ombros, aparentemente imune à provocação de Sasuke.
— Sei que lida com esse tipo de coisa há mais tempo do que eu, Sasuke, mas não preciso de apoio para enfrentar esta reunião. Sei o que vou dizer. A explosão foi uma ocorrência acidental, com poucas chances de se repetir.
— Certo. — Sasuke quase cuspira a palavra.
Ele sentira uma onda de ciúme dominá-lo repentinamente. Tratava-se de uma sensação nova e difícil de controlar. Já vira Kiba tentar conquistar uma mulher antes e não era difícil reconhecer os sinais da investida. Era óbvio que ele estava tentando conquistar Hinata e que ela o estava encorajando!
Mas, quando Kiba convidasse Hinata para saírem juntos, ela já seria sua. Faltavam vinte e quatro horas para o início da "Operação Cinderela". Logo ele a pediria em casamento.
— Percebeu como Sennin estava ansioso para colaborar, Uchiha? — indagou Kiba.
Surpreso por aquela manifestação de camaradagem profissional, rara entre eles nos últimos meses, Sasuke pôs de lado os ressentimentos pessoais e confessou:
— Sim. E isso me deixou preocupado.
— Ele deve estar arrependido por nos ter dado tantos problemas no passado. Podemos fechar a refinaria num piscar de olhos e ele sabe disso.
Perplexo e também encorajado por Kiba ter abordado aquela possibilidade, Sasuke indagou:
— Acha que devemos discutir sobre isso?
Kiba pareceu refletir, respondendo em seguida:
— Acho que não. Levaria anos até outra válvula ceder. Foi um acidente raro. Não há por que assustar todo mundo contando as outras irregularidades que encontramos lá. Eram todas mínimas e fáceis de reparar.
— E estavam todas em áreas sob sua jurisdição, Inuzuka — lembrou Sasuke, tentando não soar acusador.
Mas o colega captou a mensagem claramente. Convicto, declarou:
— Conheço meu trabalho.
— Fico contente em ouvir isso...
— Do jeito que você me contestou hoje, estava começando a duvidar — Kiba retrucou.
— Do jeito que eu contestei você?! — Sasuke exclamou. — Se não me engano, era você quem estava se pondo no meu caminho!
O colega se recostou contra o espaldar da cadeira, sentindo-se senhor da situação.
— Ainda está falando sobre o que ocorreu esta manhã na refinaria, Sasuke? — questionou, irônico. — Ou será que estou na sua frente em alguma competição?
Para completar a insinuação, ele olhou para o fundo da sala.
Então, Sasuke viu Hinata dedicar a Kiba um sorriso radiante e um olhar convidativo pelo qual teria vendido a alma. Engolindo em seco, concluiu que talvez estivesse se arriscando demais ao seguir os passos da "Operação Cinderela" em todos os detalhes. Quando seu desfecho finalmente ocorresse, dali a vinte e quatro horas, poderia já ser tarde demais.
Foi quando viu ao lado de Hinata uma jovem loira e extravagante. Concluiu que devia ser Temari, também corretora de imóveis, de quem já ouvira falarem muito. Talvez Temari pudesse ajudá-lo. Era óbvio que não conseguiria a escritura de compra do casarão da alameda dos Morros Crescentes até a noite seguinte, mas poderia ter o processo em andamento ao menos. Valendo-se daquele trunfo, faria a Hinata uma declaração dramática de amor. Nada seria demais para sobrepujar Kiba Inuzuka.
Nesse momento, o diretor da escola deu início à reunião e Kiba parou de observar Hinata, que tinha as faces coradas. Sempre irônico, murmurou:
— Acho que é justo adverti-lo, Uchiha, que nunca entro numa disputa a menos que pretenda vencer.
Temari No Sabaku indicou o palco com o olhar e perguntou:
— Hinata, conhece aquele bonitão? Pode me apresentar a ele?
Trajando uma blusa enorme, calça justa e um cinto largo que lhe apertava os quadris roliços, ela mais parecia uma adolescente do que uma mulher experiente de vinte e cinco anos. Seu entusiasmo sem limites, pela vida em geral e pelos homens em particular, era sempre motivo de admiração para Hinata. Temari era famosa pela quantidade de namorados que tinha e também pelo critério com que os selecionava: bonitos e másculos.
Hinata sentiu uma pontada de orgulho ao ver uma mulher tão popular cobiçar um homem que estava interessado nela.
— Bem... não vejo por que não — respondeu. — Ele parece um ator de cinema, mas sabe conversar...
— Não estou falando daquele de cabelos castanhos! — observou a corretora e, para espanto de Hinata, apontou para Sasuke. — Estou falando do homem de verdade... Daquele que não precisa fazer pose para provar como é quente... — Soltou um suspiro profundo e colocou a mão sobre o coração. — Não estou vendo nenhuma aliança na mão dele, mas não posso acreditar que um homem desses ainda esteja solteiro. Boa aparência, carisma, integridade em cada gesto! Se ele fosse livre, você já o teria agarrado, não?
Com expressão fascinada Temari encarou Hinata e aguardou uma resposta.
Mas ela ainda não pensara em nenhuma. Será que estavam falando do mesmo homem? Sasuke era apresentável, sem dúvida, mas... bonito? Ele trajava o terno bege novo, e o bigode, de fato, adicionara seriedade a sua aparência antes marota. Em última análise, Sasuke se tornara realmente mais atraente.
— Bem, na verdade ele é viúvo e tem duas crianças maravilhosas — contou, finalmente. — Mora na casa ao lado da minh melhor sujeito do mundo!
Temari ficou radiante.
— Mas eu não acalentaria muitas esperanças — advertiu Hinata, logo em seguida. — Sasuke não costuma arranjar muitos encontros. Não sei se... — Interrompeu-se e refletiu rapidamente, concluindo que não devia desencorajar o interesse de uma mulher tão bonita por Sasuke. Seria tão bom para ele arranjar uma amiga! — Temari, eu a apresentarei logo depois da reunião, se quiser. Só quero que saiba que Sasuke é... bem, é bastante descontraído. Está vestido formalmente por causa da reunião, mas vai tirar a gravata assim que sair por aquela porta.
"Se não sujá-la com catchup antes", quase acrescentou. Em vez disso, voltou a olhar para o estrado.
Além de Sasuke, Kiba e o diretor da escola, havia uma dúzia de homens sentados à mesa, os quais ela nunca vira antes. Eram todos grandalhões e fortes, quase intimidadores, o que a levou a concluir que deviam ser administradores e técnicos da refinaria.
— Eles vão dizer que não há com que nos preocuparmos — resmungou Frank Swanson, patrão de Hinata, olhando para os homens que conduziriam a reunião. — Já passamos por isso antes.
— Como? — indagou Hinata, confusa, observando o patrão, que acabava de chegar. — Não entendi.
Frank bufou, mal-humorado. Ele fazia tudo de mau humor, exceto fechar um contrato de venda.
— Quando aconteceu aquele desastre nos anos cinqüenta, um bando deles também veio até aqui, sentou-se àquela mesa, naquele mesmo palco e fez um monte de promessas, exatamente como farão agora.
— Tais como? — ela quis saber.
— Como: "Não há nada com que se preocupar, não há perigo para as crianças, para os vizinhos, para..."
— ...as pessoas que possuem terras nas redondezas" — completou Temari, que substituíra o olhar sonhador por uma expressão severa. — Eles vão dizer que as propriedades não serão afetadas e que o que quer que tenha acontecido não se repetirá.
Hinata ficou surpresa com o tom amargurado com que a colega falara, mas Frank, não, como se os dois já tivessem discutido o assunto muitas vezes antes.
— Não podemos deixar que nos embrulhem desta vez — ele declarou. — Há muita coisa em jogo.
— Muita coisa mesmo — concordou Temari.
Hinata simplesmente encarou a colega, perplexa e perturbada pelo rigor com que ela passara a se expressar. Frank sempre fora rabugento, mas era sua natureza. Temari, no entanto, era sempre tão doce que chegava a causar enjôo, às vezes. Sua súbita reação de raiva era tão inesperada quanto desconcertante.
Mas, assim que viu a expressão confusa de Hinata, a loira retirou o estojo de maquilagem da bolsa e retocou o batom. Depois de admirar a própria imagem no espelho, por alguns instantes, piscou um olho, com o bom humor recuperado.
— Está na hora do show — anunciou brincalhona, voltando a admirar Sasuke.
Ninguém estava prestando atenção ao diretor da escola, que tentava pôr ordem na sala. Então, Sasuke se levantou e, com expressão séria, pediu a todos que se sentassem para que a reunião tivesse início. O diretor lançou-lhe um olhar de gratidão antes de expor brevemente um roteiro dos assuntos que seriam discutidos, passando a palavra ao administrador da refinaria em seguida.
— Boa noite a todos. Meu nome é Jiraya Sennin. Sou o administrador da Refinaria de Red Rock, que fica logo aqui, atrás da escola. — Ao sorrir, revelou a todos a brecha que tinha entre os dentes da frente. — Sei que todos estão preocupados com o que aconteceu hoje de manhã. Acreditem, nós também estamos. O último boletim médico anunciou que os rapazes que se feriram irão se recuperar, graças a Deus.
— Já sei por que o escolheram para o cargo — murmurou Frank. — Aposto como trabalha para os políticos beijando criancinhas nos fins de semana.
Hinata preferiu não responder. Em sua opinião, a preocupação do administrador com relação à sorte de seus trabalhadores era genuína. Sua tendência natural era ver sempre o lado bom das coisas.
— Nosso próprio pessoal investigou as causas do acidente durante todo o dia, habilmente assistidos por Sasuke Uchiha, do Departamento de Proteção do Meio Ambiente... — Sennin fez um gesto em direção a Sasuke. —...e seu colega do Departamento de Prevenção contra Incêndio.
Para surpresa de Hinata, o sorriso que Kiba dirigiu à platéia era idêntico àquele que ele lhe dedicara pouco antes. Deixara-se seduzir por aqueles dentes brancos mais de uma vez naquele dia, mas pensara que Kiba lhe sorrira de forma espontânea, íntima... especialmente para ela.
— Chegamos à conclusão de que a explosão foi resultado da ruptura de um dos tanques de processamento de amoníaco, na parte norte da refinaria.
Sennin apontou para o mapa estendido sobre a lousa. O desenho mais parecia um labirinto de círculos, quadrados e retângulos de cantos arredondados, semelhantes a balas de revólver, que nada significavam para Hinata.
— O que não sabemos ainda é o que causou isso. Há várias explicações possíveis. O sr. Inuzuka irá expô-las aos senhores — o administrador completou.
Kiba se levantou e sorriu. Era a imagem acabada de um homem de confiança. Hinata o achou incrivelmente atraente. Ainda não conseguia acreditar que estava interessado nela. O olhar que haviam trocado enquanto aguardavam o início da reunião fora tão íntimo que se sentira embaraçada por ter Sasuke na mesma sala! Sabia que Sasuke a atormentaria com suas brincadeiras se descobrisse que estava se enamorando do amigo dele. Era óbvio que ele arranjara uma maneira de os dois se conhecerem; por isso, talvez ele fosse gentil o bastante para poupá-la da gozação daquela vez. Sasuke podia ser um homem sensível quando queria.
— O que será que esse cara faz nas horas vagas além de posar para anúncios de ternos? — resmungou Frank, referindo- se a Kiba.
— Você não gosta de ninguém, Frank? — desabafou Hinata, irritada pelos ataques incessantes que o patrão dirigia aos que conduziam a reunião. — Por que não deixa o homem falar antes de criticá-lo?
Frank olhou para ela, mas não replicou.
— Acidentes desse tipo em refinarias de petróleo caem em três categorias básicas — principiou Kiba, como um palestrista entediado. — Incêndio, explosão e outros perigos ao ambiente. Meu departamento trata da prevenção dos dois primeiros, que obviamente podem estar relacionados entre si.
— Ele fala como se o trabalho de seu vizinho fosse insignificante — reclamou Temari, sem parar de olhar para Sasuke. — No entanto, é a ele que cabe a decisão de fechar ou não a refinaria. Todos aqueles tanques com fendas e vazamentos é que são perigosos.
Hinata não deu ouvidos aos comentários da colega. Queria ouvir Kiba.
— Há três explicações prováveis para o que aconteceu em Red Rock hoje, sendo que nenhuma delas apresenta nenhum perigo para a saúde da população que vive na área — prosseguiu Kiba, que mais parecia um autômato.
Não passou despercebida a Hinata a aparente falta de entusiasmo com que ele se expressava. Será que achava tudo aquilo sem importância? Ou já teria falado do assunto tantas vezes que estava enjoado dele? Ou estaria aborrecido por ter de explicar fatos complexos em termos compreensíveis por pobres mortais?
— Antes de mais nada, vocês precisam entender o que ocorre durante a fabricação da massa de adubo de uréia — informou Kiba. — Durante o processo de produção, várias substâncias químicas são misturadas num tanque, sob enorme pressão. Existem válvulas de segurança que aliviam essa pressão antes que ela chegue a um ponto perigoso. A certa altura do processo, a mistura de amoníaco deve ser resfriada rapidamente e, nessa hora, forma-se um material semi-sólido, que pode se infiltrar numa válvula e bloqueá-la temporariamente.
Hinata não estava certa de ter compreendido o que Kiba acabara de expor. Parecia simples, mas química nunca fora sua matéria favorita na escola. Resolveu, então, que pediria a Sasuke para explicar-lhe novamente depois. Ele tornava tudo muito simples.
— Pode haver problemas com os próprios tanques também — lembrou Kiba. — O metal pode se desgastar devido ao tempo, à corrosão, ou uma solda malfeita pode enfraquecer uma parte do tanque a ponto de fazê-lo ceder sob pressão. Finalmente, um erro humano pode ser o fator responsável. Se uma válvula de segurança for instalada muito alta, ela não se abrirá a tempo de aliviar a pressão. Repetindo, o excesso de pressão é que provoca a explosão.
A platéia emudecera. Hinata ficou imaginando se todos estariam tão confusos quanto ela. Mas não devia se esquecer de que os outros não tinham estado fascinados pelo homem. Deviam ter prestado atenção ao que o profissional expusera.
Quando um homem do fundo da sala pediu a Kiba para explicar o processo de produção da massa de adubo outra vez, Sasuke se levantou e foi até a frente do palco.
— Se... me permite, sr. Inuzuka — adiantou-se, em tom cortês. — Acho que, neste caso, podemos nos utilizar de uma simples comparação com tarefas de cozinha. Há alguns anos, quando tentei cozinhar batatas numa panela de pressão, esqueci de deixar a válvula de segurança aberta, embora a senhora gentil que me ensinou a cozinhar houvesse explicado claramente o que aconteceria se o vapor não conseguisse sair. — Fazendo uma pausa, ele fitou Hinata, comovido pela lembrança daqueles dias.
Hinata também se comoveu. Então, viu Sasuke olhar para Temari. A colega já manifestara desejo de conhecê-lo. Será que o interesse era mútuo? Ambos tinham o direito, sem dúvida. Por que a idéia a incomodava tanto?
— Bem, um tanque de processamento de amoníaco é muito parecido com uma panela de pressão... com uma pressão cem vezes maior. Se o vapor não sai, alguma coisa cede.
— Obrigado! — exclamou o homem que pedira a explicação. — Agora ficou claro.
Sasuke fez um gesto de cabeça, mais para Kiba do que para o espectador, e retornou a seu lugar.
Hinata notou que Sasuke, apesar de ter dedicado um sorriso à platéia, fitara Kiba de modo frio e enraivecido. Que contraste com o olhar terno que ele lhe dedicara pouco antes!
Kiba enrijeceu o queixo ao ver Sasuke se sentar, mas, ao encarar os espectadores, já tinha o sorriso cativante no rosto outra vez.
Uma mulher vestida sobriamente, de conjunto de saia e blazer pretos e sapatos de salto alto, ergueu a mão, pedindo a palavra. Mantinha o lápis sobre o bloco de anotações como se fosse uma arma, e Hinata concluiu que a desconhecida devia ser repórter de algum jornal de Morgantown.
— Sr. Inuzuka, em sua opinião, qual dessas razões que mencionou é a mais provável causa do acidente, e como pode estar certo de que isso não acontecerá outra vez? — ela questionou.
Kiba respirou fundo antes de responder:
— Ainda estamos no meio das investigações, mas, independente da causa do acidente, não há motivos para a população se alarmar. A probabilidade de que qualquer dos três problemas volte a ocorrer é muito pequena.
— Aposto como seu vizinho não está de acordo — murmurou Temari, cada vez mais fascinada por Sasuke. — Ele parece uma cascavel pronta para dar o bote.
Hinata seguiu o olhar da colega. Sasuke parecia estar tenso, mas compará-lo a uma cascavel era exagero. Por isso, concluiu que Temari estava fantasiando em relação a Sasuke, assim como ela própria devia estar fantasiando em relação a Kiba.
— Temari, acho que está criando uma imagem errada de Sasuke — advertiu. — Ele até perde a paciência de vez em quando, mas, na maioria das vezes, é um "Urso Sasuke". Aliás, esse é o apelido dele.
— Apelido?! — a loira ficou boquiaberta. — Jura que as pessoas o chamam de Urso Sasuke Uchiha?
Embaraçada, Hinata explicou:
— Não todo mundo... Quero dizer, só eu! — Dando de ombros, justificou: — Sempre achei que ele se parecia com um urso.
Foi só ao ouvir Frank se manifestar que Hinata percebeu que mais alguém estivera ouvindo a conversa.
— Se minha mulher me chamasse de "Urso Sasuke" em público, eu a atiraria aos tubarões — declarou. — Estou admirado que o seu vizinho agüente uma coisa dessas! Ele não parece um galinha-morta...
Hinata não sabia o que dizer. Não se lembrava de ter ridicularizado Sasuke na frente de outras pessoas nem de nenhuma queixa dele com relação ao apelido carinhoso que lhe arranjara. Ela jamais ofenderia o amigo de propósito! Além disso, a opinião de Frank não tinha a mínima importância: ele era um rabugento! Mas se Temari, que conhecia tantos homens e considerava Sasuke atraente, achava o apelido impróprio...
Nesse momento, Sasuke se levantou e, em tom cortês, mas firme, corrigiu Kiba:
— Perdão, sr. Inuzuka, mas discutimos outra possibilidade da qual parece que se esqueceu. — Encarando a platéia, expôs: — O inspetor de Prevenção contra Incêndio falou corretamente sobre o perigo de o sedimento obstruir a válvula quando a uréia está se resfriando. Mas uma válvula defeituosa pode emperrar sozinha e, nesse caso, o sistema de liberação automática se torna inútil. Só trabalhadores preparados para tais emergências podem sobreviver na atmosfera saturada de gás pelo tempo necessário para operar a válvula manualmente.
Uma mulher da última fileira indagou:
— E os trabalhadores de Red Rock estão preparados para tais emergências?
— Gostaria de responder a essa pergunta, sr. Uchiha. — Jiraya Sennin, o administrador da refinaria, interveio. E encheu-se de orgulho ao declarar: — Os regulamentos de segurança estaduais e federais são rigorosamente observados em nosso estabelecimento. Uma das normas diz que equipamentos de proteção, como trajes impermeáveis, máscaras contra gases e de oxigênio, devem permanecer estrategicamente guardados, de modo que o pessoal treinado tenha fácil acesso a ele em caso de emergência. Munido desse equipamento, o chefe do pessoal pode chegar rapidamente à válvula manual.
— Máscaras contra gases?! — a mesma mulher exclamou, voltando o olhar para Sasuke. — Se os trabalhadores da refinaria precisam de máscaras contra gases, que tipo de ar estamos respirando a poucos quarteirões dali? Meus filhos freqüentam esta escola e...
— Os meus também — informou Sasuke, em tom grave. — E eu lhe asseguro que, se tivesse a menor prova de que essa refinaria oferece perigo a eles, moveria céus e terras para fechá-la.
A platéia voltou a emudecer. Todos os presentes sabiam que o fechamento da refinaria deixaria metade dos homens de Coltersville desempregados. A segurança não era o único fator comunitário envolvido no problema.
Então, Sasuke concluiu:
— Mas, se a explosão foi causada por qualquer uma das hipóteses mencionadas pelo sr. Inuzuka, é pouco provável que o ocorrido se repita.
— E se tiver sido causada por uma válvula defeituosa? — questionou um homem. — O senhor não disse que há essa possibilidade?
Sasuke assentiu e respondeu:
— Mesmo assim, terá sido uma ocorrência singular. De acordo com as estatísticas, um homem tem mais chances de se ferir enquanto dirige o carro para ir ao trabalho do que trabalhando em Red Rock ou qualquer outra refinaria do Estado.
Então, chegou a vez do rabugento Frank se levantar e questionar:
— Mas, se uma válvula podia estar com defeito, não pode haver outras nas mesmas condições? Quero dizer, essa refinaria já funciona há trinta anos, no mínimo. Será que os canos e válvulas não estão começando a se desgastar?!
— Sua pergunta é bastante pertinente, senhor — admitiu Sasuke. — Mas os especialistas exigem que as válvulas sejam trocadas a cada quinze anos. O sr. Sennin me garantiu que todas as válvulas do sistema de processamento de amoníaco da Refinaria de Red Rock foram substituídas recentemente por material da mais alta qualidade, o que representou grande despesa para a companhia, devo dizer.
— Então, por que uma delas falhou? — alguém insistiu.
Nesse momento Kiba voltou a tomar a palavra. Hinata teve a impressão de que ele estava ansioso para acalmar os ânimos que Sasuke acirrara. Parecia considerar desnecessária toda aquela agitação.
— Não temos motivos para acreditar que qualquer das válvulas tenha falhado — lembrou. — O sr. Uchiha simplesmente apresentou uma outra alternativa, muito pouco provável, para garantir que consideramos todas. — Fitando Sasuke, indagou:
— Não foi isso, sr. Uchiha?
A hostilidade manifesta no olhar trocado por Sasuke e o colega não passou despercebida a Hinata. Mas seu amigo, sempre gentil, voltou-se para a platéia e concordou, gentilmente:
— É claro. Apenas fizemos questão de informar a todos sobre tudo. Se aquelas válvulas dos tanques de Red Rock não tivessem sido substituídas no mês passado, teríamos muito com que nos preocupar. Para falar a verdade, se eu achasse que ainda há válvulas de quinze ou trinta anos lá... — O tom severo que adotou a essa altura do discurso fez Hinata sentir um sobressalto. — ...estaria fora da cidade antes que o relógio batesse meia-noite.
