NARUTO NÂO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! V

Durante duas horas os cidadãos de Coltersville discutiram sobre o perigo potencial oferecido pela Refinaria de Red Rock à comunidade. A certa altura, Jiraya Sennin convidou todos os interessados para visitarem o estabelecimento na manhã do sábado seguinte, insistindo em que uma turnê informativa os tranqüilizaria. Nem Kiba nem Sasuke pareceram aprovar a iniciativa do administrador, sendo esse, aliás, o único ponto em que os dois pareciam estar de acordo.

Quando a reunião finalmente acabou, Hinata se levantou rapidamente, na esperança de conseguir trocar uma palavra com Kiba antes que ele fosse embora. Preparara uma questão interessante para fazer-lhe. Antes que desse o primeiro passo, entretanto, foi detida por Temari:

— Não vá embora ainda, minha cara. Você prometeu.

— O quê?

— Me apresentar! E com algum comentário lisonjeiro. Darei minha próxima comissão a você.

Hinata cogitou se a colega estaria apenas brincando. De qualquer forma, teria de atender-lhe o pedido: Sasuke já vinha na direção delas, abrindo caminho por entre a platéia ainda alvoroçada. Kiba vinha logo atrás.

Sorrindo nervosamente, tentou captar o olhar de Kiba. Mas ele foi detido quando estava a poucos passos dela por alguém que preparara uma lista de perguntas. Então, sentiu Temari dar-lhe um cutucão nas costelas. Sasuke se juntara a elas. Sem alternativa, apresentou-a:

— Sasuke, esta é Temari No Sabaku. Ela trabalha comigo.

Sasuke apertou a mão que a jovem loira acabava de lhe estender.

— Hinata já me falou muito de você, Temari — comentou, com cortesia.

Hinata teve a impressão de que Sasuke fitava Temari de forma interessada e receptiva, como se já estivesse ansioso por conhecê-la.

— Ela sempre fala da ajuda inestimável que você lhe prestou nos primeiros dias de trabalho na imobiliária — ele completou.

— Que gentileza sua dizer isso, Sasuke! — Temari comentou, sentindo-se lisonjeada. — Frank e eu também gostamos muito da sua vizinha.

Hinata notou, então, que Temari e Sasuke ainda estavam apertando as mãos e que ele não parecia estar com pressa de interromper o contato. Olhou ao redor à procura de Frank, pensando em apresentá-lo também, mas viu-o conversando com Jiraya Sennin perto do palco.

— Também gosto muito dela. — Sasuke falava como se Hinata nem estivesse ali. — Ela lhe contou que eu a ajudei a estudar para a prova de obtenção de licença de corretora?

Temari se aproximou ainda mais de Sasuke, cuja mão ainda segurava a sua. Com grande esforço, Hinata conteve o impulso inexplicável de separá-los à força.

— Não, ela não contou, mas não estou surpresa. Já percebi que é um bom professor. Adorei o jeito como explicou os problemas em Red Rock! Eu continuaria ouvindo por horas...

— Eu dispunha de muitas outras informações que podia ter passado aos ouvintes, mas normalmente as pessoas não querem ouvir detalhes sobre o que torna uma refinaria perigosa à comunidade que a rodeia.

A jovem deu a Sasuke um sorriso radiante, que ele retribuiu na mesma intensidade. O sorriso embaraçado que ele dedicou a Hinata em seguida foi quase um pedido de desculpas.

Aborrecida, Hinata interpretou a seu modo a expressão do amigo. Sempre acreditara, tolamente, que Sasuke estava acima das futilidades pelas quais tantos homens se perdiam. Embora soubesse que ele tinha todo o direito de se encontrar com quem quisesse, não conseguia acreditar que "seu" Sasuke estivesse realmente se deixando seduzir por uma mulher vulgar como Temari. Devia haver outro motivo para estar agindo daquela forma...

— Acho que podemos estar mesmo num lugar perigoso — comentou Kiba, que se aproximara do pequeno grupo sem que Hinata notasse.

Ela se voltou e sorriu. Kiba já não tinha a aparência calorosa e receptiva de antes, dando mostras de esgotamento físico e mental. Ele devia ter tido um dia muito cheio.

— Até hoje, só tinha ouvido falar uma ou duas vezes do desastre ocorrido em Coltersville em 1952 — prosseguiu ele, parecendo perturbado. — Mas nas últimas horas já ouvi várias versões do acidente. É realmente sinistro...

Sinistro! — ela exclamou, estranhando o termo.

— As semelhanças, quero dizer.

Era a primeira vez, naquele dia, que Hinata via Kiba se comportar de modo inseguro.

— Houve uma explosão, por excesso de pressão, no verão que antecedeu o grande desastre de 1952 — ele contou. — Dois trabalhadores se feriram, mas se recuperaram e todo mundo pensou que tudo estava bem. A refinaria voltou a funcionar plenamente e as crianças retornaram à escola. Até um jornalista insistente de um jornal de Morgantown parou de fazer acusações e questionar o ocorrido. Um grande projeto de construção foi iniciado ali perto.

— E então? — ela quis saber, vendo os olhos azuis do interlocutor quase aterrorizados.

— Quatro meses depois, a refinaria voou pelos ares. Cento e dezessete pessoas morreram.

Tomada pelo pânico, Hinata refletiu sobre o que acabara de ouvir. Instintivamente, voltou-se para Sasuke. Ele lhe garantia que as duas situações eram totalmente diferentes e que não havia com que se preocupar. Mas o amigo já estava longe e ela apenas pôde captar sua imagem rápida, com o braço às costas de Temari. Ambos saíam da sala. A gargalhada da colega, vibrante e descontraída, pareceu-lhe insólita depois da história macabra.

Voltou-se lentamente para Kiba, tentando se lembrar da questão interessante que elaborara para apresentar a ele. Mas tudo o que lhe veio à mente foi a sensação do contato do bigode de Sasuke em seu rosto, poucas horas atrás. Será que Temari iria sentir tanto prazer quanto ela?

Naquele momento, sentiu um grande mal-estar. Noutra situação, tudo o que teria de fazer para se recuperar era correr até a casa de Sasuke e ser recebida por ele de braços abertos. Mas a casa do amigo devia estar vazia àquela hora. E, como ele saíra acompanhado de Temari, era bem provável que ficaria fora até bem tarde da noite. Além disso, mesmo que voltasse cedo, poderia não estar desacompanhado, concluiu, depois de resistir à idéia por alguns segundos.

Hinata chegou ao trabalho um pouco atrasada na manhã seguinte, após uma noite maldormida. Não tivera tempo para a corrida matinal, muito menos para bater rapidamente à porta de Sasuke em busca de uma confirmação de que Red Rock estava em perfeita segurança. Precisava daquele conforto, pois a história contada por Kiba deixara-a assustada. Aliás, queria também pedir a Sasuke mais informações sobre Kiba Inuzuka que, por um capricho do destino, parecia estar realmente correspondendo ao interesse que manifestara por ele.

Ficara intrigada pelo fato de Sasuke nunca lhe ter falado do colega como um "namorado" em potencial, pois não tinha dúvidas de que conversara com Kiba a seu respeito. Mas não devia se esquecer de que ficara meses sem falar com o amigo, de quem sentia muita falta.

Até aquele verão, falar com Sasuke era como falar com um de seus filhos. Tudo o que tinha a fazer era atravessar o portão da cerca que separava as duas propriedades e bater à sua porta dos fundos, duas batidas leves e uma forte, e fazer-lhe uma pergunta ou pedir emprestada uma xícara de açúcar. Naquela manhã, entretanto, sentiu que uma visita ao vizinho exigia certo preparo.

Sem dúvida, estava se sentindo pouco à vontade com um amigo tão íntimo porque fazia meses que não conversavam. A possibilidade de Sasuke estar acompanhado naquela manhã, pela primeira vez em tantos anos, não podia ser a causa de sua hesitação!

Um súbito e inexplicável mal-estar, que nada tinha a ver com o odor de amoníaco ainda presente na atmosfera do bairro, atacou-a ao sair do carro e correr para a imobiliária. Então, descobriu que Temari também não havia chegado: estava ainda mais atrasada do que ela! Sentindo necessidade de conversar com alguém, foi direto para o escritório de Frank. Lá chegando, enfiou a cabeça pela porta entreaberta.

— Vejam só quem chegou! — exclamou o patrão, mal-humorado como sempre. Voltando-se sobre a cadeira giratória, reclamou: — Vai pegar o mesmo hábito de Temari. Já me basta uma corretora chegando atrasada todas as manhãs. Não preciso de mais uma!

— Bom dia, Frank! — ela cumprimentou, sorrindo exageradamente.

O patrão deu de ombros e mudou de assunto:

— Notou como está o tempo lá fora?

— O tempo?!

Estavam em pleno verão no norte da Califórnia, o que significava que já estava fazendo um calor terrível àquela hora da manhã e que a situação continuaria assim por pelo menos mais um mês.

— Estamos em agosto, Frank!

— Da última vez que Red Rock explodiu era agosto também. O cheiro era o mesmo. Outros homens vieram dar explicações, mas contaram o mesmo monte de mentiras.

Hinata puxou uma cadeira e se sentou diante da escrivaninha do patrão, com o intuito de prolongar a conversa. Estava arrependida de não ter prestado atenção a suas reclamações na noite anterior.

— É verdade que... umas cem pessoas morreram? — indagou.

Ele empalideceu ao confirmar:

— No mínimo. Incluindo o marido de minha irmã e um rapaz com quem eu ia para a escola.

Hinata ficou com pena do patrão, pela primeira vez, desde que o conhecia.

— Sinto muito, Frank. Deve ter sido horrível.

Ele recusou a condolência, como era de esperar.

— Você não sabe nem da metade, Hinata. A refinaria ficou fechada por cerca de um ano. Os trabalhadores que não morreram ficaram desempregados. Tivemos uma minidepressão aqui em Coltersville. Algumas pessoas nunca se recuperaram.

— Ouvi falar de alguns... problemas imobiliários que persistiram mesmo depois que a refinaria voltou a funcionar.

— Naquela época, era mais fácil tentar vender casas numa colônia de leprosos — ele exagerou, amargurado. — O pai de Temari ficou arruinado.

— O pai de Temari?! — Hinata exclamou. — Não sabia que ela tinha morado perto da refinaria.

— Nunca morou. Ela cresceu perto da alameda dos Morros Crescentes. Mas Jack No Sabaku, o pai dela, possuía cento e cinqüenta acres de terras perto de Red Rock. Estava com um fabuloso projeto de construção em andamento: licenças aprovadas, financiamentos arranjados, compradores assinando contratos! Quando a refinaria foi pelos ares, ele perdeu tudo.

Ao saber daquilo, Hinata se arrependeu dos seus pensamentos em relação a Temari. Apesar de a colega ter uma personalidade aparentemente fútil, sempre a tratara como amiga. Agora sabia por que ela se ressentia tanto de Red Rock.

— Que coisa horrível! E ele conseguiu vender as terras?

— Não, a não ser uma pequena parte, para um armazém, há alguns anos. Nos últimos tempos, começou a trabalhar em planos para outro empreendimento no mesmo local. Mas se Red Rock...

O telefone tocou, interrompendo-o. Ele o atendeu e depois apertou o botão que retinha a ligação.

— É para você, Hinata. Pode ir atender em seu escritório, se quiser. Continuaremos a conversa depois.

Ela correu até sua sala, que ficava no fim do corredor, e atendeu:

— Bom dia, Imobiliária Três Estrelas, Hinata Hyuuga falando, a suas ordens.

— Hinata, que bom que peguei você aí! — exclamou uma voz masculina e sedutora. — É Kiba Inuzuka.

Ele nem se preocupara em perguntar-lhe se ainda se lembrava dele, ou de que ele prometera telefonar. Seu tom de voz convencido indicava que estava certo de que ela estava esperando pelo telefonema.

— Olá, Kiba. Eu não pensei que fosse ligar tão cedo — declarou ela, dando a volta à escrivaninha para se sentar.

Estranhava o fato de não ter ficado ansiosa para que aquele homem a procurasse, embora ele fosse bastante atraente.

— Nunca deixo a grama crescer entre mim e uma mulher bonita — ele retrucou.

Tratava-se de uma frase feita, mas que não deixava de ser lisonjeira. Será que ele não podia ter sido mais original? Como se tivesse adivinhado seus pensamentos, ele retomou a palavra:

— Gostaria de me encontrar com você, Hinata.

A declaração fora tão simples, tão direta, que ela se sentiu na obrigação de ser sincera também.

— Também gostaria de me encontrar com você, Kiba.

— Hoje à noite, às sete?

— Sim — ela confirmou, sem refletir. Não seria louca a ponto de recusar um milagre. — Até... até mais tarde, então.

Kiba encerrou a conversa de modo tão rápido como a iniciara.

— Quem era? — indagou Temari, surgindo à porta. Estava excepcionalmente bonita naquela manhã, usando vestido e sandálias combinando entre si, em cores que anunciavam: "disponível". — Quem é o rapaz de sorte?

— Um ator de cinema — zombou Hinata, satisfeita por ter arranjado, finalmente, um encontro que a equiparava à loira exuberante. — E você? Onde estava até essa hora?

— Na biblioteca! Onde mais?

Hinata não sabia o que tinha feito para receber uma resposta tão ríspida da colega. Antes que pudesse refletir, entretanto, Frank surgiu trazendo um recado.

— Até que enfim, Temari! Aquele sujeito que deu explicações na reunião de ontem ligou.

— Não, aquela ligação era para mim, Frank — intrometeu-se Hinata.

O patrão pareceu ficar confuso. Relendo o recado que anotara no pedacinho de papel cor-de-rosa, confirmou:

— Não. Este recado é de Sasuke Uchiha para Temari.

— Para Temari?! — exclamou Hinata, mais magoada que surpresa. — Tem certeza?

Irritado, o patrão parecia a ponto de perguntar se ela o achava com cara de idiota. Temari sorriu de modo triunfante e zombou:

— Você mesma disse que não o queria, Hinata. Agora é tarde para se arrepender.

Sentindo o rubor subindo às faces, Hinata tentou se explicar:

— Não seja boba, Temari. Eu só... Bem, fiquei surpresa! Sasuke sempre liga para cá querendo falar comigo. — Então, lembrou-se de que fazia tempo que o amigo não lhe telefonava. — Eu só pensei que ele tivesse procurado por... mim.

A colega fitou-a no rosto, fazendo-a enrubescer ainda mais.

— Bem, pois você não teve sorte desta vez — concluiu. — Além disso, você não pode ficar com todos os bonitões. Já conseguiu o moreno charmoso!

Frank mal continha a irritação por estar presente àquela discussão tola. Em tom ríspido, questionou:

— Devo supor que essa... conversa feminina não tem nada a ver com corretagem de imóveis!

Temari riu antes de responder:

— Não exatamente, Frank!

— Eu sabia! — Ele olhou para Hinata, autoritário, e comentou: — Agora, sobre o que estávamos...

O telefone voltou a tocar. Hinata atendeu e disse que a ligação era para Frank.

Assim que ele saiu da sala para ir atender o chamado em seu escritório, uma moça entrou na imobiliária e indagou como poderia chegar à estrada principal.

— Por que não explica a ela, Hinata? — sugeriu Temari, antes de ir para o corredor. — Preciso ligar para o meu "Urso Sasuke" e confirmar nosso encontro para almoçar.

Enraivecida, Hinata se conteve para não gritar que o "Urso Sasuke" era só dela. Depois de refletir, concluiu que aquele sentimento de posse era ridículo. Mas, quando a moça que pedira instruções saiu, fechou a porta para não cair na tentação de ouvir, às escondidas, a conversa de Temari. Porém era quase impossível concentrar-se no trabalho, pois a voz rica e as risadas sonoras da colega varavam as paredes.

A fim de proteger o ego, afirmou para si mesma que o que quer que Temari tivesse para dizer a Sasuke não era de seu interesse. Entretanto, mais tarde, ao ver a colega sair alegremente para almoçar, teve que refazer todo o trabalho da parte da manhã, que saíra errado...