NARUTO NÂO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! VII

Às oito horas da noite, Sasuke desconfiou de que havia algo errado. Às dez horas, tinha certeza disso. Quando faltavam vinte minutos para a meia-noite, ele já estava morrendo de preocupação.

Hinata sempre fora pontual. Havia a possibilidade de ter-se esquecido do jantar que combinara com ele. Embora frustrante, aquela idéia era preferível à de que pudesse estar gravemente ferida. Mas onde estaria ela?

Não podia ter saído com os filhos, pois eles ainda estavam com Naruto. Hinata saía pouco e sempre lhe contava quando pretendia fazê-lo. Além do mais, não podia ter feito planos para sair com outra pessoa naquela noite porque já tinha marcado um encontro com ele! Contrariado, recordou que, no decorrer da semana, várias vezes ela demonstrara ter-se esquecido daquele compromisso.

Mas Hinata recebera a orquídea que ele mandara entregar, conforme fora informado pela eficiente sra. Griswald, que presenciara o fato no final da tarde. Portanto, não poderia ter-se esquecido do jantar.

Só havia outra hipótese: Hinata saíra para mostrar alguma casa naquela noite de sexta-feira. Mas o carro dela estava na garagem e, além disso, ela teria telefonado se houvesse surgido algum contratempo.

Então, ouviu uma porta de carro se fechando lá fora. Correu até a janela da frente e olhou para a rua. Não havia nada diante de sua casa, mas um brilho metálico denunciou a presença de um carro na entrada da garagem de Hinata. Alguém a estava trazendo de volta!

Deixando a ansiedade sobrepujar o orgulho, abriu a porta e saiu correndo pelo gramado, enquanto Hinata e seu acompanhante entravam na casa. As formas do carro estacionado foram vagamente registradas em sua memória. Assim que saltou os degraus e escancarou a porta da casa de Hinata, entretanto, lembrou-se de quem era o proprietário do luxuoso carro dourado. Mas, então, já era tarde demais...

Hinata e Kiba permaneciam de pé no saguão de entrada. Sasuke não saberia dizer se eles estavam apenas se despedindo, ou discutindo a possibilidade de passarem o resto da noite juntos. Tudo o que sabia era que Hinata estava nos braços de outro homem.

Kiba deu meia-volta para encarar o intruso. Havia choque e fúria em seu rosto. Hinata, por sua vez, olhou espantada para Sasuke, tentando adivinhar o que ele estaria fazendo em sua casa... e vestido com um ridículo summer!

Sasuke tentava, em vão, adivinhar o que desencadeara aquela cena irreal: Hinata saíra com Kiba, apesar de ter recebido a orquídea que lhe enviara. O belo conjunto negro de tricô realçava- lhe as formas do corpo perfeito; o cabelo preso, entretanto, deixara-a muito formal. Mas a conclusão mais clara a que conseguia chegar era que, pela primeira vez na vida, sentia-se indesejado na casa de Hinata, o lugar que sempre considerara um segundo lar.

Assim que voltou a pensar com clareza, chegou à conclusão correta: Hinata se esquecera completamente dele, na noite mais importante de sua vida. Ele a teria perdoado se tivesse declinado seu convite, talvez até mesmo se, com a recusa, viesse um risinho de desdém. Mas o fato de ter-se esquecido enquanto se abandonava nos braços de outro homem, usando a extravagante orquídea púrpura presa ao vestido, era inadmissível.

— Escute, Uchiha! — grunhiu Kiba. — Detesto ser rude, mas até você deve ter inteligência suficiente para perceber que em certas situações três são demais! — Ainda mais ríspido, concluiu: — E esta é uma delas!

Sasuke perdera a fala. De todas as coisas tolas que fizera na vida, a invasão da casa de Hinata naquela noite era indiscutivelmente a mais ridícula. Não; talvez o fato de ter pensado que ela o amava fosse ainda mais absurdo. A lembrança da "Operação Cinderela" tão meticulosamente planejada dava-lhe vontade de rir.

Com grande sacrifício, conteve o ímpeto de arrancar a orquídea da blusa de Hinata e quebrar o nariz de Kiba. Pretendia ainda salvar o que lhe restava de dignidade.

— Me desculpe, Hinata... — murmurou, ignorando o colega de trabalho —, você não disse que tinha... planos... para esta noite. Então, fiquei preocupado... quando vi que ainda estava fora, sendo quase meia-noite.

Humilhado, sentindo-se um palhaço naquele summer alugado, desviou o olhar do de Hinata e, com um pequeno gesto de cabeça, despediu-se:

— Boa noite.

Recuperando a fala pela primeira vez desde que o vizinho invadira a casa, Hinata gaguejou:

— Boa... boa noite, Sasuke.

Ele esboçou um sorriso, fez meia-volta e saiu.

Kiba devia estar ainda a meio quarteirão de distância da casa de Hinata quando ela atravessou o portão da cerca e entrou no quintal de Sasuke. Chegando à porta da cozinha, bateu: duas batidas leves, seguidas de uma forte. Enquanto aguardava que o amigo viesse atender, refletiu sobre os desagradáveis acontecimentos da noite.

Jamais se esqueceria do choque no rosto de Sasuke ao escancarar a porta e vê-la nos braços de Kiba. Só agora se lembrava de que ele devia estar usando o summer por causa do jantar que haviam combinado para aquela noite!

Apreensiva, não conseguia entender como pudera esquecer um compromisso assumido com Sasuke. Devia ser porque uma noite com o amigo se assemelhava, por exemplo, a uma noite com as crianças: um evento rotineiro e agradável, mas dificilmente comparável a um jantar no Old Mansion em companhia de um homem bonito como um ator de cinema.

Bateu outra vez na porta, imaginando por que Sasuke estaria demorando tanto para atender. Ele devia estar despindo o summer... O majestoso paletó branco deixara-o tão elegante e sofisticado... Era até difícil imaginá-lo voltando a usar a costumeira camiseta e o agasalho puído.

Bateu pela terceira vez e, concluindo que Sasuke não viria atender, abriu apenas uma fresta da porta de tela e introduziu a cabeça por ela. Em seguida, como já fizera milhares de vezes, chamou:

— Sasuke? Sasuke, você está aí?

Ela sempre provocara o amigo perguntando-lhe se não se perdia em sua casa bagunçada. Tentava elaborar uma versão atualizada da brincadeira quando percebeu que não estava olhando para a cozinha intransitável do vizinho. Aquela mais parecia ser a sua cozinha!

De olhos arregalados, percebeu que havia sido totalmente remodelada: o piso reluzente era novo; um forno de microondas e um fogão duplo haviam sido embutidos em novos e luxuosos armários de madeira; uma pia de azulejos espetacular substituía a antiga, que já estava toda rachada.

Como Sasuke não aparecia, decidiu entrar. Então, pôde constatar outros detalhes da reforma: a parede que dava para o quintal fora recoberta com uma estampa de pequenas rosas amarelas, idêntica à que havia em sua casa; na sala de estar, uma pintura cor de areia dera nova vida às paredes, bem como o sofá forrado de tapeçaria azul, cópia perfeita do seu. Pasma, concluiu que nem ela mesma teria conseguido reproduzir a decoração de sua casa com tanta perfeição.

— Já é tarde, Hinata — resmungou Sasuke, surgindo à entrada do corredor que levava aos quartos. — Seja o que for, pode esperar até amanhã.

Ele trajava apenas um calção de banho verde justo, que lhe delineava as nádegas. Já fazia tanto tempo que Hinata não via o amigo em trajes tão sumários que se esquecera de como suas pernas eram musculosas e como seu corpo era bronzeado. O peito másculo era recoberto de pêlos escuros. Mas os punhos de Sasuke estavam fortemente cerrados.

Não se deixando intimidar pelo cumprimento glacial do amigo, Hinata deu alguns passos em sua direção e declarou:

— Sasuke, eu vim lhe pedir desculpas. Jamais teria deixado você na mão, de propósito. Sei que tínhamos um encontro... — Como sempre havia sido sincera com o amigo, concluiu que seria melhor contar a verdade também naquele caso. — É que... quando Kiba me ligou esta manhã e me convidou, fiquei tão surpresa e entusiasmada que me esqueci completamente de nossos planos.,.

— Obrigado pela honestidade — ele replicou com rispidez. — Sua explicação me conforta muito.

— Sasuke! Estou me sentindo muito mal por tudo isso, de verdade! Não torne as coisas piores. Despachei Kiba assim que você saiu e vim até aqui para falar com você.

Hinata poderia ter acrescentado também que, para seu alívio, a intromissão de Sasuke lhe dera uma desculpa para encerrar a noite com Kiba. Embora houvesse conseguido convencê-lo a trazê-la do Old Mansion direto para casa, sem parar no apartamento dele, estava certa de que ele não se satisfaria com um simples beijo de boa-noite.

Sasuke permanecia impassível, limitando-se a fitar-lhe os cabelos em desalinho.

— Eu senti muito a sua falta nos últimos tempos — ela murmurou, determinada a amainar a fúria do amigo e sua própria sensação de mal-estar. — Estava ansiosa para que as férias terminassem logo e as crianças retornassem. Sabia que, então, tudo voltaria a ser como nos velhos tempos.

— Sim. Sei que estava morrendo de ansiedade... — ele retrucou, friamente.

Hinata se aproximou ainda mais, até ficar em posição quase suplicante diante de Sasuke. Tinha certeza de que o amigo logo cederia, por mais magoado e enraivecido que estivesse naquele momento.

— Sasuke, adoro ir ao Pizza Palace com você, mas faço isso sempre! Já um encontro com Kiba é como... um passeio à Disneylândia! Eu até fiz de conta que estava com algum ator de cinema famoso. Ele me levou ao Old Mansion, Sasuke, e até me enviou uma orquídea!

Hinata teve a nítida impressão de que suas últimas palavras perturbaram Sasuke profundamente. Em seu rosto, de repente, surgiu uma expressão de dor, ou seria raiva? Mas aquela reação foi momentânea. A fim de ocultá-la, ele passou a andar em direção à piscina, dando-lhe as costas de maneira descortês.

— Da última vez que liguei para o Pizza Palace, Hinata, eles não estavam aceitando fazer reservas com quatro dias de antecedência — retrucou, asperamente.

Espantada por se ver tão destratada, Hinata acompanhou-o com o olhar e gaguejou:

— Eu pensei... quando você falou que tinha feito reservas... pensei que estivesse brincando. Só hoje, quando o vi de summer é que...

— Bem, eu estava brincando, Hinata — ele interrompeu, e, detendo-se à porta, voltou-se fixando o olhar na flor púrpura. — Eu estava brincando comigo mesmo. Agora que ambos sabemos que a brincadeira era comigo, poderia, por favor, ir para casa para que eu possa dar um mergulho na piscina e depois descansar?

Sasuke tinha os olhos escuros e frios. Os músculos tensos de seus braços e peito denotavam pura ira. Em vão, Hinata tentou encontrar naquele homem sarcástico algum traço do Sasuke Uchiha que ela tanto amava. Então, uma profunda sensação de perda, inexplicável e indescritível, dominou-a. Mas durou apenas uns poucos segundos.

De repente, tudo ficou claro para Hinata. O comportamento de Sasuke era quase uma declaração, mas o brilho de Kiba cegara-a a ponto de impedi-la de entender a situação. Aquele homem diante dela não era mais o velho e bom Sasuke, seu amigo, seu irmão. Sem dar nenhuma explicação, nenhum aviso, ele violara as regras do relacionamento especial que os unia. Sasuke Uchiha se apaixonara.

A princípio, Hinata se sentiu lisonjeada e orgulhosa. Depois, ficou temerosa e confusa. Sasuke era a pessoa que ela mais amava sobre a face da Terra... mas como amigo.

Queria poder amá-lo tal como ele a amava, mas não podia. O amor fraternal que sentia por Sasuke nada tinha a ver com o amor arrebatador e sensual que, mais cedo ou mais tarde, aconteceria em sua vida. Talvez não por Kiba, que a decepcionava a cada minuto, mas por um outro homem.

Hinata lamentava o fato de ter magoado Sasuke, saindo com um homem que nem estava certa de querer rever. Se Kiba houvesse se revelado o homem de seus sonhos, talvez não estivesse se sentindo tão mal.

Num gesto instintivo, ergueu os braços em direção a Sasuke, ansiando pelo abraço fraternal que sempre curara as feridas entre eles no passado. Mas ele se enrijeceu assim que ela o tocou no rosto.

— Sinto muito, "Urso Sasuke"... — ela sussurrou junto ao pescoço dele. — Gostaria...

— Por favor, Hinata! Eu não sou seu "Urso Sasuke"! — gritou ele, afastando-se abruptamente.

Para Hinata, a atitude de Sasuke teve o mesmo efeito de um tapa.

— Eu... sou... um... homem! — ele continuou, enfatizando a declaração com gestos nervosos. — E mereço ser tratado como tal!

Hinata apenas engoliu em seco, pasma demais para dizer alguma palavra.

— Acha que as coisas poderiam continuar assim por muito tempo? — ele perguntou. — Durante quanto tempo acha que conseguiria se manter nessa situação cômoda?

— Sasuke... — ela conseguiu gaguejar. — Você está agindo como... se eu o tivesse enganado, como se eu fosse uma esposa infiel! Mas nós não somos casados! Nós nem estamos apaixonados. Nós só...

— Não somos casados? Não somos casados sob todos os aspectos que lhe convêm... sob todos os aspectos que realmente importam? — Já sem intenção de poupá-la, e sem intenção de deixá-la retrucar, ele passou a enumerar: — Quem você chama quando seu carro está na oficina e você precisa ir a algum lugar? Quem você chama quando sua pia entope? E quando o regador do jardim quebra, ou quando um dos galhos da árvore cai por causa do vento?

Boquiaberta, Hinata mal acreditava no que ouvia.

— Para quem você se volta quando as crianças ficam doentes? Quando você precisa de um ombro para chorar? Quando tem alguma boa notícia que não pode guardar só para si? Para quem, Hinata Hyuuga?

Subjugada e quase intimidada, ela sussurrou:

— Para você, Sasuke. É para você que sempre me volto.

— Sim, para mim! Você sempre espera que eu esteja lá. E eu estou. Do mesmo modo como estava para Sakura. Já parou para perguntar "por quê"? Acha que é só porque sou um bom sujeito... um galinha-morta... ou simplesmente porque se tornou um hábito? Acha que não tenho nada melhor para fazer, ou ninguém mais com quem poderia estar?

Hinata fez um gesto indeciso de cabeça. Estava prestes a chorar.

— Eu me dedico a você porque te amo, droga! — ele explodiu, no auge do nervosismo. — Eu te amo do mesmo jeito que amava Sakura, e esperei até a hora certa para pedi-la em casamento!

Hinata jamais imaginara que uma declaração de amor pudesse ser feita com tanta raiva, nem que Sasuke algum dia fosse gritar com ela daquele jeito, por qualquer motivo. Pasma, não sabia qual das duas descobertas a surpreendia mais.

— Mas você nunca pensou em mim como amante, Hinata, e eu me cansei de esperar que isso acontecesse algum dia! — ele confessou, desconsolado. — Você sempre esperou que eu estivesse à sua disposição para quando precisasse de mim, mas nunca imaginou que eu pudesse estar precisando de alguma coisa! — Após uma pausa em que recuperou o fôlego, perguntou:

— Alguma vez imaginou, Hinata? Ou acha que não vale a pena se preocupar com as minhas necessidades?

Hinata começou a tremer e sentiu as primeiras lágrimas começarem a brotar. Estava com medo. Não de Sasuke, apesar de nunca tê-lo visto tão enraivecido, mas de que a amizade entre eles estivesse abalada de forma irremediável por sua culpa; aliás, por seu egoísmo. Mas tinha de haver uma maneira de reparar o erro.

— Sasuke... — começou ela a suplicar, piscando os cílios umedecidos. — ...diga o que quer de mim. Quero dizer... — Embaraçada, percebeu que estava escolhendo as palavras muito mal.

— Diga o que posso fazer para fazermos as pazes...

— Eu quero tudo de você, Hinata! — Ele a agarrou pelos ombros ao mesmo tempo que declarava sua paixão com palavras objetivas: — Quero que você me ame de todas as formas que uma mulher pode amar um homem!

E, então, Sasuke a beijou. Não foi um beijo gentil, assim como não houve gentileza no modo como ele a agarrou pelos ombros. Hinata sentia, nos lábios e nas mãos fortes que a tocavam, a fúria, a frustração e o desejo ardente de um homem apaixonado.

A impressão era totalmente diferente do beijo de conquistador profissional que Kiba lhe dera ao saírem do Old Mansion. Não havia nada de planejado nas atitudes de Sasuke. Ele simplesmente cedera ao impulso de beijá-la, de aquecê-la com seu amor indisfarçável e pressioná-la contra seu peito e coxas nus.

Hinata continuou a tremer, desnorteada e perplexa demais para corresponder. Nem seu corpo nem seu coração sabiam como reagir ao comportamento daquele estranho que desabafava meses de frustração reprimida e que não se parecia nem um pouco com o "Urso Sasuke" que ela conhecia.

Quando ele finalmente a libertou, foi com o mesmo espírito com que a tomara. Seus olhos continuavam a dardejar faíscas de fúria, mas passaram a transmitir também outro sentimento: dor.

— Agora, pelo amor de Deus, dê o fora daqui, Hinata! — ele implorou. — Antes que eu faça mais alguma coisa que irá lamentar!

Hinata não conseguia se mover nem responder. Estava pasma demais até mesmo para chorar.

— Você ouviu, Hinata?! — ele gritou, com o tórax brilhando de suor. — Dê o fora de minha casa neste instante, se pretende dormir sozinha esta noite!