NARUTO NÂO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! VIII
O dia seguinte amanheceu nublado. Devido ao calor e à umidade, a atmosfera estava sufocante, o que contribuiu para aumentar a sensação de mal-estar de Hinata. As poucas horas de sono agitado pouco haviam feito para atenuar-lhe a dor e a perplexidade pelo que ocorrera entre ela e Sasuke na noite anterior.
Não poderia permitir, de forma alguma, que a amizade pura que havia entre eles fosse abalada por causa de um beijo que Sasuke lhe roubara, no auge do desespero. Agora que aquela barreira física fora eliminada, entretanto, ficava imaginando como teria reagido ao contato em situação mais romântica.
Sentia-se ludibriada, de qualquer forma. Não era justo Sasuke acusá-la de nunca haver pensado nele como um amante, quando ele próprio nunca lhe dera nenhuma indicação de que a natureza de seu amor havia mudado.
Infelizmente, a constatação daquela injustiça não alterava o fato de que seus sentimentos por Sasuke, embora muito fortes, não eram sensuais nem românticos. Mas ele parecia estar realmente apaixonado, e isso a deixava apreensiva.
Começou a pensar num meio de fazer as pazes com o amigo o mais rápido possível. Era importante que tudo voltasse ao normal entre eles, antes que as crianças chegassem de volta das férias com Naruto, sem falar no outro final de semana, quando os sete iriam acampar em Yosemite.
Confiante, Hinata se recusava a considerar a possibilidade de que o desentendimento houvesse sido grave demais para ser remediado. O amor fraternal que havia entre ela e Sasuke sobreviveria a tudo; disso estava certa.
De repente, lembrou-se de que era sábado. Combinara encontrar-se com Temari e Frank em Red Rock, quando juntos participariam da turnê informativa organizada por iniciativa de Jiraya Sennin, o administrador. Já era tarde, e precisaria correr para chegar lá na hora.
Assim que se aproximou do portão principal da refinaria, avistou Temari, que naquela manhã estava mais vistosa que nunca em seu conjunto de minissaia cáqui e blusa preta.
— Este lugar dá arrepios, não? — comentou a loira, à guisa de cumprimento, assim que Hinata se pôs a seu lado. Chamando a atenção para um cartaz afixado na cerca, leu-o em voz alta: — "Esta refinaria está há 74 dias sem acidentes de trabalho". Não é uma grande mentira?
Hinata não sabia como responder. A julgar pelo barulho que vinha de além da cerca, a refinaria, ou parte dela ao menos, estava em plena atividade, apesar da explosão recente.
Como se não estivesse esperando mesmo por um comentário, Temari prosseguiu em tom fúnebre:
— Uma explosão como essa, quase no quintal de casa, é o mesmo que encontrar um esqueleto no porão...
Mal-humorada, Hinata replicou com ironia:
— Gostei de ouvir isso logo cedo, Temari.
A jovem corretora arregalou os olhos, surpresa com a reprimenda. Sorrindo, comentou:
— Parece que você acordou do lado errado da cama esta manhã. Ou talvez tenha dormido na cama errada... — Indiscreta, ousou perguntar: — Como foram as coisas com o "ator de cinema", ontem?
— O nome dele é Kiba Inuzuka, e ele é um ser humano como qualquer outro.
— Hum... ficou decepcionada?
— Eu não disse isso... — Hinata murmurou, percebendo de repente que estava insegura quanto ao que sentia por Kiba.
Em certos momentos, ele lhe parecia até bastante sedutor; embora um pouco apressado demais, e muito seguro de si.
— Só acho que está na hora de separar a realidade da fantasia — explicou. — Kiba não é nenhuma celebridade; é apenas um homem comum que, por acaso, tem o charme e a aparência de um astro de cinema.
— Assim como aquele moreno da guarita — retrucou Temari, indicando o guarda de segurança com um gesto de cabeça.
O homem era alto e devia ter uns vinte e poucos anos de idade. Em seu belo rosto havia um sorriso radiante, claramente dedicado a Temari.
— Ele é maravilhoso, não acha? — a jovem comentou, sem esconder o entusiasmo.
— Acho que ele também gostou de você — retrucou Hinata, irônica. — Mas é novo demais para qualquer uma de nós.
Na verdade, o rapaz e Temari deviam ter quase a mesma idade, mas, na opinião de Hinata, ele não parecia ter experiência suficiente para se relacionar com sua colega, conquistadora nata.
— Nenhum homem é jovem demais para mim, Hinata! — Temari afirmou, rindo. — Nem velho demais... — Subitamente séria, declarou: — Acho que até seria capaz de arranjar um caso com aquele administrador careca, se tivesse certeza de que iria ajudar.
— Ajudar no quê? — quis saber Hinata.
Jiraya Sennin não era nem um pouco atraente; portanto, o interesse de Temari por ele só podia ser profissional.
— Quero saber o que aconteceu aqui, Hinata. Quero saber o que é necessário para que não volte a acontecer. Preciso me aproximar de alguma pessoa que possa me dar essas informações.
Chocada com a franqueza da colega, Hinata declarou:
— Também estou curiosa, Temari. Mas a última coisa que faria seria dormir com alguém só para... — Interrompeu-se ao se lembrar de algo repentinamente, indagando em seguida: — Era por isso que queria ser apresentada a Sasuke naquela noite? Só porque ele tem poder para fechar esta refinaria?
Temari sorriu de modo provocador e admitiu:
— Bem, não nego que esse poder me atrai... Mas é apenas uma das qualidades dele.
Hinata queria dar uma boa resposta, mas não pôde pensar em nenhuma. Sua costumeira argúcia fora neutralizada por uma súbita onda de ciúme. Antes que conseguisse se recuperar, Temari retomou a palavra:
— Viu Sasuke por aí? Quando ele me ligou hoje cedo, disse que estaria aqui às dez horas, mais ou menos.
— Hoje cedo?! — Hinata exclamou, empalidecendo. Sasuke não perdia tempo mesmo!
— Sim. Ele me ligou às sete horas. Parecia ansioso para me ver outra vez...
Hinata baixou a cabeça, desolada demais para suportar a disposição nauseante da colega. Sasuke era livre para se encontrar com quem quisesse, mas... por que Temari? Ele jamais seria tão baixo a ponto de puni-la usando uma de suas amigas. Além disso, não apreciava o tipo de relacionamento em que Temari era mestra. Devia haver outra razão para querer se aproximar da corretora; algo que tivesse relação com a refinaria talvez...
— Hinata? — Temari chamou, em tom gentil.
A contragosto, Hinata voltou a encarar a colega e se surpreendeu ao ver-lhe a nova expressão. Estava séria agora, quase arrependida.
— Você sabe que pesquiso calamidades em refinarias há algum tempo — a jovem lembrou. — Sasuke e eu só temos trocado idéias. — Embaraçada, passou a enrolar um cacho do cabelo sedoso no dedo. — Sei que ele é especial para você, Hinata, e eu jamais a provocaria de propósito. É que gosto de brincar... Você sabe como eu sou!
Hinata percebeu que a colega fizera a declaração sem fitá-la nos olhos. Temari devia estar tentando evitar que ela tirasse conclusões errôneas a partir dos comentários insinuantes que fizera. Entretanto, teve a leve impressão de que não estava contando toda a verdade. Antes que pudesse assegurar-lhe que não tinha nenhum interesse amoroso por Sasuke, Frank chegou, ainda mais rabugento que o normal.
Enquanto o patrão e a colega conversavam, Hinata reconheceu um homenzarrão antipático, semelhante a um gorila, que permanecia de braços cruzados do lado de dentro do portão. Vira-o naquela reunião de emergência ocorrida na escola. Ele não lhe pareceu mais simpático, e ela desejou que outra pessoa fosse conduzir a turnê informativa.
Para seu alívio, quem veio recepcionar os visitantes foi o administrador da refinaria, Jiraya Sennin. Ele tinha o mesmo sorriso desconcertado no rosto, enquanto sua careca brilhava ao sol. Embora tentasse a todo custo transmitir a impressão de que estava calmo e era inocente, sua expressão preocupada o traía.
— Bom dia a todos! — ele cumprimentou. — É um prazer tê-los aqui conosco. Eis o plano: vou guiá-los numa breve turnê pela refinaria e, então, vocês poderão percorrê-la à vontade. Meus funcionários receberam instruções para responder a todas as perguntas.
Hinata notou como o homem suava devido ao calor sufocante, apesar de ainda não ser nem meio-dia. Ele tinha olheiras grandes e escuras sob os olhos, o que a fez sentir pena dele. Frank via-o como inimigo, mas Hinata concluiu que Sennin parecia um general sitiado, tentando manter sua fortaleza e proteger seus homens.
A turnê de dez minutos que se seguiu não foi particularmente informativa. Com falso entusiasmo, Sennin guiou o grupo por entre um verdadeiro labirinto de reservatórios e escadas, explicando a função de um ou outro tanque, quase como Sasuke e Kiba haviam feito na reunião. Ao chegar ao centro da refinaria, ele explicou:
— Esta é a unidade de processamento de amoníaco, onde a massa de uréia é feita. A explosão de quinta-feira ocorreu nesta seção.
— E onde ocorreu a outra explosão? — indagou Frank, em tom bem alto. — Aquela de 1952?
Intimidado, o administrador gaguejou:
— Eu... não estava aqui naquela época, senhor. Eu teria de pesquisar.
— Suponho que teria de pesquisar também para saber quantas pessoas morreram — prosseguiu Frank, nervoso. — E quantas ficaram desempregadas? E quantos negócios fracassaram, e quantas pessoas se arruinaram?
— Frank, por favor! — sussurrou Hinata, desconcertada pela agressividade do patrão. — Sennin não pode fazer nada com relação a isso. É coisa do passado, de qualquer forma.
— É coisa do presente também, Hinata, se você mora em Coltersville ou possui propriedade próxima a esta refinaria — insistiu Frank. Ainda mais impetuoso, prosseguiu: — O que devemos dizer às pessoas que se recusam a comprar casas nesta parte da cidade? "Não se preocupem com a Refinaria de Red Rock porque, depois que vocês morrerem, ninguém vai se lembrar do que aconteceu"?
O administrador obeso tirou um lenço do bolso e enxugou a testa banhada de suor. Enquanto pensava em alguma resposta para dar, mordiscava os lábios nervosamente.
— Acho que posso responder a esse cavalheiro — manifestou-se alguém por trás dos visitantes.
Hinata se voltou para ver Sasuke se juntar a eles. Apenas ouvir a voz do amigo querido já a fazia sentir-se melhor.
— Tenho pesquisado sobre esse assunto, sr. Swanson — informou Sasuke, tentando aplacar a ira do convidado com um sorriso gentil, mas autoritário. — Se fizer a gentileza de me acompanhar até o escritório da refinaria, talvez eu possa tranqüilizá-lo.
Sennin lançou a Sasuke um olhar surpreso e agradecido. Frank também ficou admirado, mas seguiu Sasuke sem causar maiores problemas.
Hinata analisara o rosto de Sasuke rapidamente, antes que ele lhe desse as costas, e não viu nenhum sinal da ira que o caracterizara na noite anterior. Ele parecia entristecido e exausto... quase derrotado. Nem mesmo o belo terno azul-escuro, também novo por sinal, conseguira melhorar-lhe o espírito.
Resolveu ir junto com o patrão, pois, além de estar interessada em ouvir sobre a explosão de 1952, queria conversar com Sasuke, nem que fosse por poucos minutos. A presença de Frank seria útil naquele primeiro contato após o desentendimento, pois Sasuke seria obrigado a tratá-la com cortesia. Pensou em avisar Temari, mas a colega desaparecera de vista.
O escritório carecia de conforto e beleza, e o cumprimento que Sasuke lhe dirigiu também não foi caloroso, como esperava.
— Bom dia, Hinata — ele se limitou a dizer.
Ignorando-lhe a frieza, ela exclamou:
— Olá, Sasuke! Fiquei surpresa quando vi você aqui, em pleno sábado.
Ele deu de ombros e, nervoso, passou a bater na coxa com um bloco de anotações amarelo.
— Refinarias funcionam vinte e quatro horas por dia — respondeu com impaciência. — Podem surgir problemas a qualquer hora. Preciso de respostas que não podem esperar até segunda-feira.
Hinata não se deixou abater por aquela resposta seca. Continuava a acreditar que uma amizade de tantos anos não seria destruída por um breve estremecimento.
Passando a ignorar Hinata, Sasuke ofereceu uma cadeira a Frank e, com rapidez e clareza, expôs seu ponto de vista:
— Sr. Swanson, sei que tem bons motivos para se preocupar com o acidente que ocorreu aqui. Eu também. Mas, acredite-me, não há nada que qualquer de nós possa ganhar promovendo uma... bem, uma vingança pessoal.
Frank enrijeceu a mandíbula, num protesto silencioso, mas não fez nenhum comentário.
— Esta refinaria já mudou de dono três vezes desde 1952 — prosseguiu Sasuke. — Nenhum deles trabalha aqui ou recebe rendimentos referentes à produção da refinaria. A causa do acidente de 1952 foi a mistura indevida de duas substâncias químicas, num processo de refinação que não é mais usado neste Estado, precisamente por causa do acidente de Coltersville e outros semelhantes.
Frank e Hinata ouviam com toda a atenção, impressionados pela facilidade de expressão de Sasuke e também pela sua determinação.
— Vou descobrir o que aconteceu aqui, senhor. Também vou tomar providências para que o acidente não volte a acontecer. Não se esqueça de que meu interesse na segurança de Red Rock vai além de minha obrigação profissional. Além disso, sou treinado, e estou autorizado a prosseguir com esta investigação usando meios científicos e legais. Quanto mais cooperação eu conseguir de Jiraya Sennin, mais chances terei de chegar ao fundo disso tudo. No momento, ele está se mostrando prestativo. Se mudar de atitude, meu trabalho se tornará mais difícil. Está me entendendo?
Para surpresa de Hinata, Frank aquiesceu sem fazer comentários nem reclamações.
— Temari disse que podemos contar com você, Uchiha — admitiu, por fim. — Isso me basta.
Hinata reprimiu um grito. Sasuke era seu amigo, não de Temari! Fora ela quem dissera a todos, no dia da reunião, que podiam confiar em Sasuke. Quando foi que Temari...
— Agradeço sua confiança, senhor, e a de Temari — declarou Sasuke. — Prometo que farei o melhor que puder.
Os dois homens se levantaram e apertaram as mãos. Em seguida, Sasuke saiu do escritório. Frank seguiu-o por alguns passos e depois foi em direção à unidade de processamento de amoníaco. Hinata, ignorada por ambos, correu para alcançar o amigo.
— Sasuke... Sasuke — chamou, embaraçada. — Você tem um minuto?
Ela sabia que aquela não era a melhor hora para tentar resolver problemas pessoais, mas tinha certeza de que não suportaria que Sasuke a tratasse com tanta frieza e distância nem por mais um minuto.
Ele estacou e olhou para ela. Seus olhos estavam insondáveis.
— Estou aqui a serviço, Hinata — lembrou, sem qualquer emoção na voz. — É difícil trabalhar com um bando de corretores pegando no pé da gente.
Ela suportou a reprimenda em silêncio e depois justificou, meigamente:
— Eu só queria pedir desculpas.
— Você já pediu ontem à noite — ele replicou, parecendo entediar-se. — Imagino que queira ouvir um pedido de desculpas de mim também; portanto, estamos quites.
Ele fez menção de retomar seu caminho.
— Sasuke... — ela tornou a detê-lo. Tensa, esperou que ele voltasse a olhá-la. — Não está mais zangado comigo, está? Quero dizer, está tudo bem agora, que está mais calmo?
— Isso importa, Hinata? Garanto que não voltarei a incomodá-la.
— Me incomodar? — ela soluçou, dando alguns passos em direção ao amigo. — Sasuke, você nunca me incomodou. Eu disse ontem à noite que senti muito a sua falta nos últimos tempos. — Tendo uma idéia, sugeriu: — As crianças vão voltar amanhã. Pensei em fazer um churrasco no quintal para comemorar. Faz quase dois meses que eles não vêem Sarada e Obito.
Impassível, Sasuke declarou:
— É muita gentileza sua, Hinata, mas já temos planos para amanhã. Mas tenho certeza de que a primeira coisa que Sarada e Obito farão na segunda-feira cedo será procurar seus filhos para brincar.
Ele fitou uma torre que estava a cerca de dez metros de distância e rabiscou algumas anotações no bloco amarelo. Sua atitude indicava que a conversa fora encerrada, mas Hinata não se deu por vencida.
— O churrasco pode ficar para outro dia, então, Sasuke — insistiu. — Para a segunda-feira à noite, ou mesmo para a terça. Precisamos nos reunir para fazer a lista do que levaremos para Yosemite. — Como o amigo continuasse a ignorá-la, declarou:
— Não será um verdadeiro churrasco de boas-vindas, Sasuke, se metade da família não estiver lá.
Nesse momento, ele parou de fingir que estava concentrado no trabalho. Fitando-a nos olhos pela primeira vez naquele dia, declarou:
— Hinata, eu não queria ter de falar de modo tão direto, mas você me obriga a fazê-lo: eu não irei participar do churrasco com você e seus filhos neste fim de semana; eu não irei mais comer pizzas com vocês nas noites de sexta-feira nem assistir à televisão até tarde em sua companhia. E, com certeza, não irei passar o fim da semana em Yosemite com vocês.
Hinata recebeu cada uma daquelas palavras como uma punhalada. O tom sereno com que Sasuke falara em nada contribuíra para aplacar-lhe a dor. Antes que conseguisse esboçar qualquer resposta, ele justificou:
— Já que não somos casados, não temos uma família grande e feliz. — Sem gentileza nem crueldade, concluiu: — Hinata, você não vai mais ser o centro da minha vida.
Finalmente, caindo em si, Hinata constatou que estava prestes a perder seu amigo mais querido, se é que já não o perdera.
— Sasuke... — murmurou, suplicante. — Eu não estou pedindo para ser o centro de sua vida. Só quero me assegurar de que ainda somos amigos.
Ele a fitou no rosto atormentado, nos olhos umedecidos e nos cabelos esvoaçantes. Por um instante ela teve a esperança de que ele ergueria a mão e a tocaria, pondo fim àquela loucura. Ele a arrancaria daquele pesadelo...
Em vez disso, ele enfiou a mão no bolso e, com aparente indiferença, declarou:
— Pensei que tivesse sido claro ontem à noite, Hinata, mas vou repetir tudo só mais uma vez para ter certeza de que não resta nenhum mal-entendido entre nós. — Adotando um tom mais seco, principiou: — Chegamos ao máximo de intimidade a que um homem e uma mulher podem chegar sem se tornarem amantes. Só faltava um passo para que o nosso amor se completasse; eu quis dar esse passo com você, mas você não quis. Você teve o privilégio da escolha.
Sasuke se mostrava tão resignado que Hinata desejou poder dar o amor que ele tanto queria.
— Mas eu não posso fazer de conta que a noite de ontem nunca aconteceu — ele prosseguiu. — Não posso mudar o que sinto. Não posso voltar àquela alegria platônica que costumávamos partilhar, e não posso ignorar as necessidades fortíssimas que me devastam. — Em sua voz não havia pudor pela confissão do desejo viril que sentia. — Sou um sobrevivente, não um masoquista. Voltar a passar a maior parte de meu tempo com você agora seria um retrocesso... — Deixando transparecer a emoção pela primeira vez, completou: — ...muito duro.
Hinata perdera a fala. Sentiu-se subitamente nauseada e enfraquecida. Talvez tivesse partido o coração de Sasuke, mas não o fizera de propósito. Contudo, ele parecia disposto a eliminá-la mesmo de sua vida. Era como se uma parte dela estivesse morrendo.
— Eu a quero bem, Hinata, e tenho certeza de que você quer que eu seja feliz também. Por isso, não pense que estou zangado; não pense que estamos nos separando com mágoa. Você foi muito especial em minha vida e uma dádiva para meus filhos. Mas está na hora de dizermos adeus.
Hinata pensou que ele tivesse concluído a declaração, mas, em tom mais gentil, ele ainda acrescentou:
— Você tem outra solução em suas mãos. Só que não há nada mais que eu possa fazer.
As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Hinata. Com a voz entrecortada, ela indagou:
— Você... quer que eu minta para você, Sasuke? Quer... fazer de conta que eu sinto por você algo que não sinto?
— Claro que não! Quero que nos separemos enquanto ainda mereço um pouco do seu respeito!
— Mas você tem, Sasuke! Você tem muito mais do que o meu respeito! Você é a pessoa que eu mais amo no mundo depois de meus filhos! E que importância tem o fato de esse não ser o amor romântico? Era esse amor que eu tinha por Naruto e veja onde ele me levou! Você é o meu melhor amigo. Como pode jogar isso fora?
— Eu não quero jogar isso fora, Hinata, mas não tenho outra escolha! — ele gritou, amargurado. — Não posso continuar praticamente vivendo com você sem poder tocá-la! Vai chegar uma hora que não vou conseguir me controlar, entendeu?
A angústia de Sasuke enterneceu-a. Como pudera magoá-lo tanto? Como ele pudera desejá-la tanto sem que ela sequer percebesse?
— Hinata, eu quase enlouqueci nos últimos meses tentando protegê-la dos meus impulsos. Só que não agüento mais, consegue entender isso? Não é justo para com você e... — soltando um suspiro de frustração, completou: — ...muito menos para comigo.
Em silêncio, Hinata deixou que as lágrimas lhe banhassem o rosto. Sentia vontade de abraçar Sasuke, mas não se atrevia. Não porque estavam em público, mas porque ele criara uma barreira intransponível.
— Somos apenas vizinhos agora, Hinata, e há uma razão para a existência daquela cerca que separa nossas propriedades — ele ressaltou. Seu tom continuava amistoso, profissional, em combinação perfeita com o terno que ele costumava usar para se dirigir a estranhos numa reunião. — Ela garante a sua privacidade e a minha. Enquanto respeitarmos aquele limite, não teremos problemas.
Hinata ficou arrasada. Teve vontade de agarrar Sasuke pelo colarinho branco engomado e sacudi-lo, e gritar bem alto: "Eu sou Hinata, Urso Sasuke, sua melhor amiga! A mulher que criou sua filha e seu filho bebê, quando Sakura morreu! A mãe das três crianças que o amam como a um segundo pai! Você não pode simplesmente jogar fora treze anos preciosos!"
Mas Sasuke já estava lhe dando as costas, com o olhar voltado para o outro lado da refinaria, onde Temari flertava com o guarda de segurança moreno. Apesar de ele já ter-se afastado vários passos, ela não se deu por vencida e questionou:
— E quanto ao portão que você instalou para unir nossas duas famílias? Vai trancá-lo?
Ele se deteve uma última vez para fitá-la nos olhos lacrimejantes, mas só por um instante. Em tom gentil, mas conclusivo, confirmou:
— Ele já está trancado.
