NARUTO NÂO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! IX

Sasuke sentiu as costas queimarem sob o olhar desesperado de Hinata, mas não se voltou. Se olhasse para ela naquele momento, enfraqueceria. Desejou estar furioso como na noite anterior; desse modo, seria fácil ignorar-lhe as lágrimas. Mas naquela manhã não tinha a ira como proteção.

Sua determinação de romper o relacionamento com Hinata não diminuíra com a luz do dia... tampouco seu amor por ela. Era agonizante vê-la sofrer, quanto mais saber que era ele a causa de sua dor. Mas a situação tornara-se insustentável; ele agüentara até mais tempo do que imaginara possível.

Com passos resolutos, cruzou toda a área da refinaria sem olhar para trás. Em sua direção vinha Temari, que finalmente se separara do guarda de segurança moreno.

— Oi, Temari — cumprimentou, assim que a viu próxima. — Já descobriu alguma coisa nova?

— Descobri que Joe gosta de comida chinesa... e que está livre esta noite.

— Quem?!

A jovem indicou o portão principal com um gesto de cabeça e esclareceu:

— O guarda de segurança de cabelos negros e belos bíceps.

Sasuke soltou um suspiro de incredulidade.

— Sinceramente, Temari, sei que considera "colecionar homens" um passatempo honesto, mas temos coisas mais importantes para descobrir aqui do que...

— Confie em mim, Sasuke — ela pediu, sorridente. — Você investiga o acidente a seu modo, e eu, ao meu.

Depois de dar a Sasuke uma piscadela marota, a jovem ficou séria e olhou ao longe, na direção de onde ele viera.

— Hinata não sorriu nem uma vez hoje. Estou com tanta pena dela — comentou. "E também de você", quase acrescentou.

— Hinata não vai estar bem por alguns dias — ele informou. Sem dar maiores detalhes, pediu: — Por favor, seja ainda mais gentil com ela e... não deixe que Frank a aborreça.

— Farei o que puder, Sasuke.

Lembrando-se do pedido que fizera a Temari por telefone naquela manhã, ele indagou:

— Conseguiu falar com a sra. Senju?

— Ainda não. Parece que ela viajou e vai passar o fim de semana fora da cidade. Mas falei com Ino e... Bem, nós duas achamos que você deveria esperar a poeira assentar antes de retirar a oferta de vez.

— De jeito nenhum! — ele negou, enfatizando com um gesto de cabeça. — Só faltava Hinata ficar sabendo que eu tentei comprar aquela estúpida casa para ela. Já levei ovos demais na cara. Prometa que nunca irá contar a ela.

— Sasuke! — A corretora se mostrou ofendida. — Eu dei minha palavra!

Ele deu um sorriso tímido e concordou:

— Sei disso. Mas agora que vi o tato com que Frank costuma agir, duvido que ele mantenha a boca fechada se descobrir que fiz uma oferta por aquela propriedade.

— Ele nem desconfia disso, Sasuke. A casa nem foi catalogada por nossa imobiliária. A única maneira de ele saber é eu contar. E eu expliquei o seu caso a Ino. Se bem que ela é amiga de Hinata...

— Ah, é? — Só então Sasuke se lembrou de ter ouvido Hinata falar uma ou duas vezes da corretora Ino Yamanaka. — Era só o que me faltava!

— Ino tem princípios, Sasuke — Temari garantiu. — Ela sabe o quanto Hinata gosta daquela casa e de você. Na verdade, ela adorou me ajudar a bancar o cupido! Ino está torcendo por você, pode acreditar!

Desconsolado, ele balançou a cabeça e comentou:

— Mas eu nem conheço essa mulher. Além do mais, eu deveria ser capaz de conquistar sozinho a mulher com quem quero me casar, não acha?

— Acho que depende de quem é a mulher... — replicou Temari. Vendo Sasuke se entristecer, ela indagou, com simpatia: — Há alguma coisa que eu possa fazer para você se sentir melhor? Posso cancelar meu encontro desta noite se você...

— Não, não estou precisando de um ombro para chorar — ele declarou desanimado. — Estou bem.

Então, avistou uma mulher andando rápido em sua direção. Reconheceu-a da reunião de quinta-feira à noite: era a repórter do jornal de Morgantown. Recebera instruções para não divulgar informações prematuramente, e só teria fatos conclusivos dali a uma semana. O melhor seria não dar à repórter chance de se manifestar.

— Será que pode me fazer mais um favor, Temari? — pediu.

— Até dois!

— Mantenha essa mulher fora do meu caminho por enquanto. Eu não tenho nada para dizer a ela ainda.

— Seria bem mais fácil se ela fosse do outro sexo, mas vou fazer o possível.

Sasuke lançou à jovem um olhar lastimoso. Temari era mesmo atraente. Apesar do comportamento autodefensivo, ela parecia ter uma boa alma. Mas não era bem seu tipo de mulher. Qual era seu tipo de mulher, afinal? O tipo de Hinata Hyuuga...

— Obrigado, Temari. — Ele fez um esforço para arrancar Hinata do pensamento. — Ah, será que poderia passar lá em casa na semana que vem? Gostaria que fizesse uma estimativa do valor da propriedade. Estou pensando seriamente em... vendê-la.

Temari arregalou os olhos e logo tentou fazê-lo mudar de idéia:

— Oh, Sasuke, acho que isso não será necessário. Por que não espera algumas semanas? Hinata gosta de você... só que ela não sabe disso ainda. Mais cedo ou mais tarde ela cairá em si, tenho certeza. Deixe que ela se acostume com a idéia.

Ele negou com um gesto de cabeça e concluiu:

— Prefiro cair fora enquanto é tempo, obrigado.

— Você disse a Hinata que está pensando em vender a casa?

— Não exatamente. Mas deixei claro que devemos tomar rumos diferentes.

— Vocês mais parecem um casal se separando, e não duas pessoas tentando se unir — retrucou a jovem.

Vendo a repórter a menos de dez metros de distância, Sasuke começou a ficar aflito e respondeu:

— Só um de nós está tentando se unir, Temari. Não se esqueça de que fui casado e feliz durante cinco anos e meio. Sei o que a gente sente quando é retribuído no amor e, acredite, não é como me sinto agora.

Dizendo isso, ele se apressou para alcançar Jiraya Sennin do outro lado da refinaria, esperando não ver mais Hinata pelo resto da manhã. Era difícil concentrar-se no trabalho com ela por perto.

— Ei, Uchiha... — cumprimentou o administrador, assim que o viu se aproximar. — Obrigado por... me ajudar naquela hora. Devo admitir que estava encurralado e que não esperei que você fosse me socorrer.

— O homem estava alarmando os outros — justificou Sasuke. — Já é perigoso ter civis passeando pela refinaria quando ainda não sabemos o que há de errado. Já imaginou toda essa gente entrando em pânico? — Estreitando o olhar, ele inquiriu: — Por que arranjou esta situação, afinal de contas?

Sennin enrijeceu o queixo em desafio e respondeu:

— Porque estou cansado de receber acusações de todo lado! Não tenho nada a esconder.

Surpreso com a súbita ira do administrador, Sasuke indagou:

— Alguém o acusou de... esconder alguma coisa?

— Não sou nenhum idiota, Uchiha! Quer me convencer de que você e Inuzuka não pensaram na possibilidade de que tenha havido algo irregular na instalação daquelas válvulas novas?

Sasuke não esperava que o administrador fosse falar com tanta franqueza. Curioso, perguntou:

— É da mesma opinião de Inuzuka, Sennin, de que uma das válvulas estava com defeito? Nesse caso, seria pouco provável que nova explosão voltasse a ocorrer...

Ele esperava que o administrador desse resposta afirmativa. Aquela seria a melhor conclusão a que poderia chegar ao final da investigação, pois Red Rock estaria salva e o assunto seria encerrado. Mas, para sua surpresa, Sennin confessou:

— Para ser sincero, Sasuke, não sei o que pensar. Ainda não tive tempo para fazer minha própria pesquisa aqui. Passei todo o dia de ontem no hospital, acompanhando a recuperação dos rapazes. — Desolado, contou: — Bill Rayburn está no balão de oxigênio lutando por cada centímetro de ar. Ele é como um filho para mim, Uchiha; trabalhou aqui durante dezessete anos.

Sasuke nada retrucou. Sennin bem poderia estar fingindo preocupação por um dos homens a fim de ganhar-lhe a simpatia; mas como saber a verdade? Ele mesmo estava ferido demais para se arriscar a maltratar alguém que poderia estar sofrendo tanto quanto ele.

— Mas ele vai se recuperar, não, Jiraya? — disse solidário.

Erguendo as mãos num gesto indefeso, o administrador declarou:

— No começo, eles disseram que sim. Mas parece que o dano nos pulmões foi maior do que imaginaram. Agora estão dizendo que... não têm tanta certeza.

Antes que Sasuke pudesse pensar em algo para dizer, Sennin retomou a palavra, com súbita determinação:

— Olhe, Sasuke, sei que não confia muito em mim, mas vou pedir a você que deixe a suspeita de lado por um minuto e analise os fatos: esse acidente pode ter acontecido por pura falta de sorte, mas se a causa foi outra... Se o equipamento que adquirimos em junho era de má qualidade ou se a instalação foi malfeita, alguém adulterou meus registros, alguém pôs a minha refinaria em perigo de propósito! Quero pegar o responsável por isso, tanto quanto você... Talvez até mais.

Diante da ênfase com que o administrador falara, Sasuke concluiu que o infrator passaria por maus bocados se caísse nas mãos dele e novamente perdeu a vez de falar, pois, logo em seguida, Sennin pediu:

— Será que pode me dar um voto de confiança até que tudo isto esteja esclarecido? Ou, pelo menos, me conceder o benefício da dúvida? Estou investigando aqui dentro enquanto você investiga oficialmente. Se trocássemos informações, acho que o progresso seria mais rápido.

Sasuke olhou para o sorriso com fenda entre os dentes do administrador e recordou todas as provocações sutis e a hostilidade que suportara dele ao longo dos anos. Jamais gostara de Jiraya Sennin e nunca pensou que ele fosse digno de sua confiança. Mas daquela vez queria acreditar que o homem estava realmente do seu lado.

— Está bem — cedeu, sem muita convicção. — Vamos trocar informações. Mas tudo o que você me disser será colocado no papel e pregado pelo meu escritório, para que não surja nenhuma suspeita de fraude no fim de tudo. E, se por algum motivo eu desconfiar que você está tentando me enganar, eu o amarrarei numa válvula de processamento de amoníaco e abrirei os controles!

O administrador riu, bem-humorado.

— Obrigado pelo voto de confiança, Uchiha!

— Sinto muito, mas é o máximo que posso fazer.

Sennin enfiou as mãos rechonchudas nos bolsos e comentou:

— Bem, é mais do que consegui do seu colega...

— O que quer dizer? — Sasuke indagou, intrigado.

— Pedi a mesma coisa a Kiba Inuzuka ontem, mas ele ficou nervoso e, antes de recusar, me acusou de estar tentando suborná-lo.

Ocorreu a Sasuke, tardiamente, que talvez devesse ter feito o mesmo que Kiba.

No domingo à noite, Hinata estacionou diante da nova casa de Naruto, na cidade vizinha de Grass Vally, e tocou a buzina. Enquanto as crianças corriam para o carro, ele lhe acenou através da janela da frente. Até um ano atrás, qualquer gesto simples como aquele por parte do ex-marido costumava levá-la às lágrimas. Agora, nada sentia quando olhava para o homem que um dia amara: seu coração estava cheio de alegria pelo reencontro com os filhos preciosos... e cheio de dor pelo desentendimento com Sasuke.

— Oi, mãe! — cumprimentou Himawari alegremente, exibindo o cabelo num novo estilo, mais curto. — Vamos comer pizza?

— Sarada vai estar lá? — indagou Hanabi.

— Quero brincar com Obito! — manifestou-se Boruto .

— Ninguém vai a parte alguma enquanto eu não ganhar os meus abraços! — informou Hinata, ouvindo um coro de lamentações em seguida.

Mas cada uma das crianças lhe deu um abraço apertado, com a alegria pelo reencontro transparecendo nos sorrisos radiantes.

O trajeto de uma hora e meia até Coltersville foi percorrido com muita animação, pois os três queriam contar à mãe, ao mesmo tempo, como tinham sido as férias de verão.

— Vamos jantar no Pizza Palace com os Uchiha, mãe? — indagou Hanabi, assim que entraram na cidade. — Papai me deu esta boneca e eu quero...

— Pode mostrá-la a Sarada outro dia — interrompeu Hinata. — Os Uchiha fizeram outros planos para hoje.

— Outros planos?! — exclamou Himawari, percebendo a leve hesitação na voz da mãe. — O que pode ser mais importante do que a reunião de toda a família em nossa primeira noite em casa?

Hinata não encontrou nenhuma resposta para dar. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria de contar às crianças ou, pelo menos, a Himawari o que acontecera. Mas aquela realidade era cruel demais para ser apresentada a eles, logo em sua primeira noite de volta ao lar.

O Pizza Palace estava barulhento como sempre. Uma bola saiu voando da sala de esportes, enquanto a sala de vídeo estremecia com o som das armas laser de guerreiros espaciais de mentira, que deviam estar causando enormes prejuízos à frota alienígena. Duas criaturas peludas, do tamanho de seres humanos, mas de origem indefinível, caminhavam por entre a massa de crianças, apertando-lhes as bochechas e dando-lhes tapinhas nas cabeças. Contudo, apesar da animação do lugar e da companhia dos três filhos, Hinata sentia-se só.

Assim que terminou de fazer o pedido, teve de retificá-lo, pois se esquecera de que Sarada e Obito não estavam lá para devorar sua porção de pizza de calabresa e de que Sasuke não iria ajudá-la a liquidar a de presunto. Em seguida, Hanabi e Boruto foram se divertir com os brinquedos que o restaurante oferecia. Hinata e Himawari ficaram aguardando as pizzas.

— E, então, como foi a temporada com papai, Himawari?

— Boa — respondeu a menina, dando de ombros. — Gostei de ficar com papai, mas não de ficar tanto tempo longe de casa. — Embaraçada, revelou: — Senti muito a sua falta e do tio Sasuke.

A menina falava da mãe e de Sasuke como se eles fossem casados.

Desolada, Hinata concluiu que aquela não era a hora certa de contar que ela e Sasuke tinham acabado de se "divorciar". A fim de disfarçar a apreensão, envolveu os ombros da filha com um braço e puxou-a para mais perto.

— E vocês já acabaram de planejar o acampamento? Parece incrível que falte só uma semana para o Dia do Trabalho e que, depois, vamos voltar para a escola! — A menina apreciara o gesto da mãe, mas sentia embaraço pela necessidade que tinha de afeto e disfarçava-o mudando de assunto a todo instante. — Um amigo do papai foi acampar em julho e um urso roubou toda a comida deles! Lembra aquela vez em que vimos um urso em Yosemite?

Hinata se lembrava vagamente. Havia ursos em Yosemite mas, normalmente, eles se mantinham a distância dos campistas. Naquele momento, entretanto, ela tinha outra grande preocupação relativa à viagem: se Sasuke não mudasse de idéia até a sexta-feira, Himawari só iria a Yomesite naquele ano se os Hyuuga decidissem enfrentar os ursos sozinhos.

Aproveitando o fato de estar a sós com a filha mais velha, decidiu prepará-la para receber a notícia de que a convivência com os Uchiha talvez fosse sofrer drástica alteração a partir daquele dia.

— Himawari, Sasuke tem estado... bem, muito ocupado ultimamente. Houve um pequeno problema na refinaria, enquanto vocês estavam de férias, e é ele quem está investigando a causa.

— Ah, é? Mas hoje é domingo! Ele foi trabalhar mesmo assim? — questionou a menina esperta.

— Não, mas...

— Himawariieee! — Uma voz infantil ecoou pelo salão do estabelecimento.

Hinata seguiu o olhar da filha em direção à entrada, onde Sarada Uchiha pulava sem parar e puxava a mão hesitante do pai. O pequeno Obito, que não se incomodara em esperar por ninguém, já se aproximava das duas.

— Oi, Himawari! Boruto veio? — ele indagou, enquanto abraçava Hinata.

Sem esperar pela resposta, o menino correu para a sala de vídeo. Sarada, tão feliz quanto o irmão, correu para a mesa e abraçou Hinata e Himawari.

— Até que enfim que vocês voltaram! — exclamou puxando a amiguinha pela mão. — Vamos procurar Hanabi?

— Vou dar um abraço no seu pai antes — declarou Himawari.

Então, com a espontaneidade infantil mesclada à reserva adolescente, Himawari foi até Sasuke, que permanecia à porta com o olhar fixo na alegre cena familiar. Apesar dos esforços para se manter fria, a jovenzinha de treze anos abriu mão da maturidade artificial a poucos metros do "tio" e se atirou em seus braços. Ele também cedeu à emoção e apertou a menina contra o peito, beijando-a na cabeça em seguida.

Hinata não podia ouvir o que Sasuke e Himawari diziam um ao outro, mas a emoção do reencontro era facilmente perceptível. Engolindo em seco, imaginou como contaria às crianças que Sasuke trancara o portão entre as duas casas. Seria a notícia mais dura que jamais tivera de dar a elas. Felizmente fora Naruto quem as informara do divórcio.

Quando a recepção emocionada à entrada do restaurante finalmente terminou, Himawari desapareceu com Sarada na multidão, deixando Sasuke, que parecia zangado e derrotado, sozinho. Com forte relutância, ele olhou para Hinata. Depois de contemplá-la por alguns momentos, venceu lentamente a distância que o separava da mesa.

Surpresa, Hinata constatou que Sasuke estava bastante atraente naquela noite. Apesar da gravata afrouxada e das mangas arregaçadas, ele tinha um andar sexy que lhe enfatizava as pernas longas e que ela nunca notara antes. Talvez ele estivesse certo... talvez ela nunca o houvesse notado; pelo menos, não como um homem disponível.

Ocorreu-lhe, então, que se estivesse vendo aquele homem de bigode pela primeira vez, desejaria que ele a convidasse para sair. Seria possível que, se fizesse um esforço, conseguiria algum dia pensar em Sasuke como algo mais que apenas um amigo? Tratava-se de uma possibilidade assustadora, sem dúvida, que a enchia de esperanças... e também de medo.

— Suponho que não contou a eles ainda — ele comentou a título de cumprimento. Sua voz estava tensa e fria.

— Só faz duas horas que fui buscá-los, Sasuke. Eles já estavam chateados porque vocês não participariam da comemoração de boas-vindas.

Ele soltou um suspiro e lembrou:

— Você me disse que ia fazer um churrasco no quintal. — Sentando-se no banco defronte ao dela, concluiu: — Foi por isso que me arrisquei a vir até aqui.

A verdade deixou Hinata arrasada. Sasuke não alterara seu ponto de vista nos últimos dois dias. De fato, nada mudara para ela também, aliás, seu sofrimento aumentara de intensidade, enquanto suas esperanças se esvaíam.

— Bem, já que está aqui... quer fazer o pedido? — indagou. — Como eu não sabia que viriam, pedi só...

— Hinata, não comece a agir como se tudo continuasse igual! — ele repreendeu. — Porque não é verdade. Temos de contar às crianças, e logo.

— Está bem, Sasuke! Mas tem de ser agora, depois de terem passado o verão todo longe de casa? Eles sentiram falta de você... de todos vocês! Não pode poupá-los nesta noite de comemoração, para depois puxar o tapete de baixo dos pés deles?

Sasuke refletiu por um momento e depois respondeu:

— Olhe, Hinata, acho melhor contar logo a eles. Já perdemos o hábito de passar a maior parte do tempo todos juntos.

Ele falara com tanta insensibilidade que Hinata replicou:

— E quem é o culpado disso, Sasuke? Você começou a me evitar muito tempo antes de as crianças irem passar as férias com o pai! Já estava zangado comigo em março ou abril? Já faz meses que...

— Eu não estava zangado com você.

— Então, por que estava me evitando? E você estava me evitando, não negue. Até a semana passada, achei que era porque estava ocupado, mas agora, pensando bem...

— Ah, essa é boa! — ele zombou. — Você mal me viu nos últimos seis meses e, agora que percebe isso, meio ano depois, se sente magoada e indignada! Acha que eu deveria me sentir culpado, agora que finalmente trocamos de posição?

Hinata sentiu as lágrimas brotando em seus olhos, enquanto ouvia as palavras irônicas de Sasuke. Antes da noite de sexta- feira, ele nunca lhe falara daquele modo! Sabia que estava magoado e amargurado, mas não podia acreditar que estivesse indiferente ao fato de ela estar sofrendo também.

— Eu não levei seis meses para notar, Sasuke! — exclamou, em autodefesa. — Mas eu tinha tanta fé em nossa amizade que estava certa de que, se houvesse algo errado, você me procuraria e me diria... E, o que quer que fosse, seria resolvido.

— Mas não conseguimos resolver, Hinata; então, chega de discussão, está bem?

Hinata se resignou. Se Sasuke não queria fazer as pazes não havia nada que ela pudesse fazer. Mas ainda não conseguira acreditar que ele estivesse abrindo mão daquela amizade tão facilmente.

— Me desculpe, Hinata — disse ele, de repente.

Então, ela sentiu as esperanças se renovarem pela primeira vez em dois longos dias. Reunindo forças, fitou-o nos olhos e neles viu angústia e amor.

— Você sabe que não quero magoá-la — ele declarou. — É que não suporto mais falar sobre esse assunto. Vamos ficar em trégua por enquanto.

Hinata não teve chance de responder, pois as crianças voltaram à mesa. Depois de novas trocas de abraços de reencontro entre Sasuke e os outros dois filhos de Hinata, Himawari e Hanabi foram buscar as pizzas que deviam estar prontas e encomendar outras para os recém-chegados.

Durante a refeição, as cinco crianças falaram sem parar, ansiosas para colocarem as novidades em dia e indiferentes ao desânimo e falta de apetite dos adultos.

— Você e mamãe já fizeram a lista do que vamos precisar levar para o acampamento? — indagou Himawari a Sasuke, enquanto comia sua última fatia de pizza. As crianças menores já tinham ido brincar outra vez. — O papai levou bastante coisa quando se mudou mas, se a gente pedir, ele empresta, tenho certeza. A gente pode comprar tudo novo, também; porque vamos acampar sempre! O que acha, tio Sasuke? — Ela se dirigira a Sasuke como se ele fosse o chefe de sua família, e não Hinata.

Sasuke mal sustentou o olhar da menina ao responder:

— Eu acho... acho que esse é um assunto que precisa ser discutido por sua mãe e eu, Himawari.

— Ah, papo de gente grande, já sei! — ela comentou. — E querem que eu suma daqui, não é?

Um ano antes, Himawari não teria entendido a insinuação sutil de Sasuke, mas ela se tornara bastante sensível às tensões entre os adultos, desde que os pais se divorciaram. Pareceu a Hinata que sua primogênita amadurecera ainda mais durante o último verão.

— Gostaríamos que fosse tomar conta das crianças, querida, se não se incomoda — Sasuke retificou.

Himawari se foi em seguida, atendendo o pedido. Durante um minuto Sasuke permaneceu calado, relutando em dar continuidade à conversa interrompida. Foi Hinata quem quebrou o silêncio.

— Naruto e eu já sabíamos que nosso casamento estava acabado antes do último Dia do Trabalho, Sasuke, mas mesmo assim fomos a Yosemite porque você e as crianças estavam contando com o passeio. O que você está querendo fazer é separá-las à força, e sabe disso. Será que não pode me agüentar por três ou quatro dias?

Hinata aguardou em silêncio enquanto ele refletia, recusando-se a encará-la.

— Eu não vou acampar com vocês — Sasuke respondeu, finalmente. Seu tom era entristecido, e não cruel. Fitando-a por um breve instante, concluiu: — É impossível ser mais claro.

Hinata se esforçou ao máximo para não deixar as lágrimas escaparem, mas uma delas começou a escorrer por seu rosto enrubescido.

— Oh, Sasuke, será que não entende? — choramingou — Não é só você que está envolvido nisso. E não são só as crianças. Desde sexta-feira à noite eu...

— Não posso ficar pensando só nos seus problemas, Hinata! — ele desabafou, irritado. — Há uma refinaria que pode estar ainda em perigo, um homem suspeito em quem sou obrigado a confiar, e outro, que você considera um herói, mas pode se transformar num vilão. E você ainda vem me pedir para ir acampar no fim de semana só para lhe proporcionar a falsa ilusão de felicidade!

Ao ouvir aquilo, Hinata desistiu de lutar para manter a compostura. Em pleno Pizza Palace, com seus salões lotados de crianças brincando e famílias se divertindo, ela cobriu o rosto com as duas mãos e chorou.

— Droga, Hinata! — Sasuke repreendeu, em tom baixo. — Não faça isso... — implorou. — Por favor, não chore na minha frente... Eu não agüento isso.

— Me desculpe, Sasuke! Mas já chorei em toda parte nesses dois dias... — Ela o fitou nos olhos e, soluçando, declarou:

— Oh, Sasuke, eu te amo tanto! Não entende isso? Isso que temos é precioso demais para ser jogado fora por causa de... sexo!

Frustrado, ele bateu na mesa com o punho cerrado.

— Hinata, é mais que sexo! É a diferença entre o jeito com que você olha para mim e com que olha para Kiba! Você o olha como se ele fosse um deus, e me olha como se eu não fosse nem um homem! Quero ser a pessoa mais importante da sua vida, não o quebra-galho que você pode chamar sempre que estiver sozinha! Estou cansado disso! Será que é tão difícil assim de entender?

— Não, não é! — ela gritou, deixando as lágrimas quentes rolarem livremente. — Mas acho que é você que não está entendendo. Se tivesse mesmo tão pouca importância em minha vida, como seu... abandono poderia me magoar tanto? Talvez eu nunca tenha pensado em você como um amante, Sasuke, mas isso não quer dizer que você não tenha sido a pessoa mais importante em minha vida! Nada me abalou tanto assim desde o divórcio; eu mal comi nos últimos dois dias! Isso não significa nada?

Sasuke sustentou o olhar dela, mas não respondeu. Hinata tentou pegar-lhe a mão, mas ele a retirou como se tivesse sido queimado.

— Pare com isso! — ordenou. — Não finja que...

— Não estou fingindo! Eu... não tenho mais certeza de que nunca vou sentir o que você quer que eu sinta! Tudo o que sei é que, se já te amo tanto... Se quero unir minha vida à sua tão desesperadamente... deve haver algo especial!

Hinata fora sincera. O que sentia por Sasuke jamais poderia ser chamado de paixão adolescente, mas era algo tão forte e profundo que bem poderia se tratar da semente do verdadeiro amor. Se ele ao menos lhe desse tempo para pôr as idéias em ordem...

— O que está querendo dizer, Hinata? — ele inquiriu, severo.

Animada por aquela breve demonstração de tolerância, ela tentou explicar:

— Quero dizer que talvez, com um pouco de tempo, se eu me acostumar a pensar em você de outra forma...

— Não sou nenhuma criança, Hinata; não vou deixar que brinque comigo. Nós já nos conhecemos há treze anos; a última coisa que precisamos é de mais tempo! — Não dando a ela chance de retrucar, prosseguiu: — Posso considerar a possibilidade de ir a esse acampamento, pelas crianças, se você prometer que não vai me dar falsas esperanças de coisas que nunca irão acontecer.

Hinata mal coube em si de alegria. Naquele momento concordaria com qualquer coisa para continuar a ter Sasuke como amigo, nem que fosse só por mais uma semana.

— Diga o que devo fazer, Sasuke — soluçou. — Sinto tanto a sua falta... Não suportaria perder você.

Sasuke fitou-a no rosto por vários momentos, sem tentar ocultar o amor que sentia.

— Está sendo muito duro para mim também, Hinata — confessou, com um suspiro. — Achei que seria impossível continuar próximo de você sob essas circunstâncias, mas... parece que a separação está machucando mais ainda.

Hinata pousou a mão sobre a de Sasuke e, dessa vez, ele não se esquivou ao contato. Apertou-lhe os dedos, fechou os olhos e levou a palma da mão pequena e macia de encontro ao rosto. Ela o acariciou e ousou contornar-lhe o bigode com a ponta dos dedos. Com a intenção óbvia de acalmá-la, ele pressionou os lábios contra seu pulso latejante.

Ao sentir o roçar do bigode e o calor dos lábios junto à pele, Hinata sentiu uma fagulha se acender em seu corpo, um desejo de... de quê?

Mas ela não teve tempo de pensar numa resposta, pois Boruto e Obito retornaram à mesa, falantes como nunca.

— Quando é que nós vamos para Yosemite, tio Sasuke? — indagou o filho caçula de Hinata. — Já que o meu pai não vai, eu vou poder dormir na sua barraca? Senão, eu vou ter que ficar com minha mãe e minhas irmãs...

— E se Sarada dormir com Hanabi, em nossa barraca só vão ficar os "homens"! — completou o filho caçula de Sasuke.

Era óbvio que os dois garotos já haviam pensado em todos os arranjos. Lentamente, Sasuke soltou a mão de Hinata. Estudou o rosto excitado de um dos meninos, depois o do outro, e só então voltou a olhar para ela. Viu em seu belo rosto, agora marcado pelas lágrimas, uma expressão mista de tristeza e frágil esperança. Nesse momento, sentiu seu amor arder como nunca. Então, mais resignado que alegre, voltou-se para os meninos e declarou:

— Acho que nós, homens, devemos ficar juntos. Vamos para casa arrumar as mochilas.