NARUTO NÂO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! X
Depois de hesitar por alguns momentos, Sasuke tirou o fone do gancho e discou o número de Kiba Inuzuka. Adiara o telefonema por vários dias; só o fazia naquele momento porque no dia seguinte, ao meio-dia, partiria para Yosemite. Suspeitava que o colega estava envolvido em algum tipo de fraude cujo resultado fora a explosão na refinaria, e era a contragosto que entrava em contato com ele. No entanto, como não havia nada de concreto ainda, continuaria a agir como se confiasse nele.
Sennin empreendera uma investigação rigorosa por conta própria, no decorrer daquela semana, e mantivera-o informado de todas as descobertas significativas. Para começar, apurara que Howard Caldwell, o carrancudo responsável pelo turno da noite da refinaria, supervisionara a instalação dos novos equipamentos durante suas férias.
Com base naquela informação, Sasuke voltara a interrogar Caldwell, mas não constatou nenhuma falha em seu relatório sobre os procedimentos adotados na época. Era óbvio que não poderia condenar o homem por ser agressivo.
Depois, Sennin telefonou-lhe para informar que o fornecedor de quem comprara as válvulas abandonara o negócio subitamente e desaparecera, sem deixar registros sobre as pessoas e outros detalhes referentes à transação. Corria o boato de que o tal fornecedor embolsara alguns subornos...
Podia ser coincidência o fato de o fornecedor ter fugido pouco antes de Sennin tentar encontrá-lo, mas, por via das dúvidas, Sasuke arranjou para que Ângela Hartwood, a repórter do jornal de Morgantown, testemunhasse todos os seus contatos com o administrador de Red Rock. Afinal, também não podia confiar cegamente nele.
A terceira chamada de Sennin, ocorrida havia cerca de uma hora, fora sem dúvida a mais alarmante. O trabalhador Bill Rayburn, internado no hospital de Morgantown devido a ferimentos sofridos na explosão, estava muito mal. Se ele morresse, qualquer pessoa responsável por irregularidades na instalação do equipamento da unidade de uréia seria acusada de homicídio culposo.
A partir das informações que obtivera até então, Sasuke elaborou uma hipótese do que poderia ter ocorrido: Caldwell vendera as válvulas novas e deixara as velhas funcionando; nesse caso, Kiba aprovara equipamento cuja segurança estava abaixo da exigida pelos regulamentos. Se isso fosse verdade, a questão seria: teria ele agido por ignorância ou má-fé?
De qualquer forma, a idéia de Kiba estar entre os suspeitos incomodava Sasuke. Afinal, já o considerara amigo, um dia. E seu caráter não lhe permitia comprazer-se com a desgraça do colega por causa do que acontecera entre ele e Hinata. Se era Kiba quem ela queria, que fizesse bom proveito!
Mas a possibilidade de Hinata estar se apaixonando por um indivíduo que poderia ser acusado de um crime atormentava-o sobremaneira. Por pior que fosse seu relacionamento com Hinata, no momento, sempre a protegeria.
— Kiba? É Sasuke. Precisamos trocar informações sobre o que descobrimos até agora a respeito do acidente. Que tal hoje à tarde?
Sem demonstrar surpresa por estar recebendo um telefonema de Sasuke, apesar de o último encontro entre eles ter sido desastroso, Kiba respondeu:
— Consegui descobrir algumas coisas também. — Sempre cortês, acrescentou: — Mas acho que hoje à tarde não vai ser possível. Que tal um almoço amanhã?
Então, foi a vez de Sasuke se opor:
— Não vai dar. Vou sair da cidade assim que resolver alguns assuntos mais urgentes pela manhã. Só vou voltar na terça-feira.
— Para onde vai neste fim de semana? — Kiba indagou sociável. — Não me contou uma vez que costumava ir acampar no fim da semana do Dia do Trabalho?
— Eu não. Hinata deve ter contado. — Esforçando-se para manter a calma, informou: — Sempre vamos para Yosemite.
Daquela vez foi Kiba quem hesitou antes de perguntar:
— Hinata também vai?
Sasuke sentiu uma breve sensação de triunfo. Parecia óbvio que Hinata não falara com Kiba durante aquela semana; do contrário, ele estaria sabendo do acampamento. Talvez ela não tivesse querido revê-lo; ou, talvez, ele nunca tivesse realmente se interessado por ela e não se dera ao trabalho de voltar a procurá-la.
Desconsolado, concluiu que, de qualquer forma, nada daquilo alterava o que Hinata sentia por ele. Com o tom mais descontraído que pôde forjar, confirmou:
— Sim. É um programa de família, que cumprimos já há treze anos.
— Embora a... família tenha se modificado um pouco, suponho.
— Certas coisas nunca mudam, Inuzuka.
Kiba levou alguns segundos para se recuperar da repreensão. Então, declarou:
— Peço desculpas pelo que aconteceu na sexta, à noite, Sasuke. Eu sabia que você estava interessado em Hinata, mas ela não comentou que teria de cancelar um compromisso com você. Pensei que estivesse com a noite livre. Antes de você aparecer na casa dela, eu já estava chateado, porque... as coisas não caminharam conforme eu tinha planejado. Depois que me acalmei um pouco, percebi que tinha tratado você mal, sem motivo.
Sabendo que devia estar sendo difícil para Kiba desculpar- se, Sasuke declarou:
— Vamos esquecer o que houve, está bem? Hinata é uma ótima pessoa e tem o direito de escolher seus amigos.
— Sem ressentimentos? — Kiba insistiu.
— Se eu dissesse "sim", estaria mentindo. Hinata é muito importante para mim e você sabia disso quando a convidou para sair. Mas ela não me pertence e... — Engolindo em seco, continuou: — ...se ela quiser se encontrar com você, é problema dela. — Adotando um tom grave, advertiu: — Mas se sair com ela, Inuzuka, trate-a com muito respeito! Hinata não é vulgar como muitas que andam por aí, entendeu?
— Reconheço uma mulher de classe quando a vejo, Uchiha — replicou Kiba.
— Ainda bem. Já que estamos entendidos, vou desligar. Só vou estar de volta na terça, lá pelas dez horas. Vou resolver alguns problemas pessoais de manhã, mas ligo para você assim que puder.
— Está bem. Boa viagem, Sasuke, e não se preocupe. Vou ficar de olho em Sennin enquanto você estiver fora.
Sasuke sorriu irônico. Sennin estava praticamente acusando Kiba de aceitar suborno e este ainda estava tentando convencê-lo de que Sennin era o principal suspeito! Nada fora provado, entretanto; aliás, não se sabia nem se houvera algum crime. De qualquer forma, não se sentia tranqüilo por deixar a investigação nas mãos de Kiba em sua ausência: era como deixar uma raposa tomando conta do galinheiro.
Como consolo, pensou que era preferível deixar Kiba sozinho com Sennin a deixá-lo com Hinata. Durante os poucos dias seguintes, ela estaria a salvo de Kiba e de qualquer perigo que a refinaria pudesse apresentar. Só aqueles dois motivos eram suficientes para alegrá-lo por ter concordado com a viagem.
Hinata estendeu a Sasuke outro saco de dormir e aguardou que ele o colocasse no porta-malas da perua. Ele mal lhe dirigira a palavra durante os trinta minutos em que estivera arrumando a bagagem no carro. Nervosa, ela conversava pelos dois:
— Será que vai caber todo mundo na perua, ou vamos precisar levar outro carro?
— Eu não comprei um carro japonês, Hinata — retrucou ele, sucintamente.
Era óbvio que Sasuke comprara a perua tendo em mente aquele tipo de passeio. Hinata cogitou com que freqüência ele pretendia acampar só com Sarada e Obito. Então, outra possibilidade lhe ocorreu: e se ele conhecesse uma mulher que já tivesse filhos e se casasse?
Sempre que pensava na hipótese de Sasuke voltar a se casar, ficava aborrecida, porém sem saber por quê. Talvez porque estivesse demonstrando interesse demasiado em Temari. Ele até telefonara para a imobiliária no dia anterior para falar com ela! De que assunto poderiam ter tratado durante a conversa que durou mais de quinze minutos? Não era possível que ele estivesse pensando em se casar com aquela moça fútil!
Aliás, não era só Sasuke quem estava gostando mais de conversar com Temari do que com ela. Ino Yamanaka também ligara no final da tarde para bater papo com a colega. Kiba Inuzuka também não voltara a procurá-la naquela semana. Mas, na verdade, o fato lhe dera certo alívio, pois não estava certa de querer revê-lo.
Sentindo-se pouco à vontade devido ao laconismo de Sasuke, pegou Capitão no colo e acariciou-lhe o pescoço. O gato ficaria sozinho durante os próximos dias e sua alimentação seria providenciada por Moegi, a babá das crianças.
Embora Sasuke tivesse repelido todas as ofertas de ajuda que lhe fizera, decidiu tentar mais uma vez:
— Só falta mais uma caixa de mantimentos. Quer que eu vá buscá-la?
— Está falando desta aqui? — Ele indicou uma caixa de papelão sobre o gramado. — Himawari a trouxe há quinze minutos. — Sasuke falara em tom de censura e parecia estar reservando todos os sorrisos só para as crianças.
— Vai ficar desse jeito durante todo o acampamento? — Hinata questionou, bruscamente, perdendo a paciência.
— De que jeito? — ele replicou, jogando um travesseiro dentro do carro.
— Mal-humorado. Não estou acostumada com isso e não estou achando graça nenhuma! Você me disse mais grosserias nos últimos sete dias do que em todos os treze anos que nos conhecemos!
Ele se voltou e a encarou. Ela mal reconheceu aquele rosto sério, em que a mágoa e a zanga pareciam travar uma batalha.
— Foi você quem insistiu nesta viagem! —Sasuke lembrou-a.
— Eu disse que não queria ir e ainda acho a idéia absurda! Portanto, se você...
— Tia Hinata! Telefone para você! — Sarada saíra correndo da casa dos Hyuuga e estacara sobre o gramado, a fim de transmitir a mensagem.
A menina mal cabia em si de expectativa pela viagem, assim como as outras quatro crianças, como revelava seu sorriso radiante.
— A Himawari disse que é o sr. Inuzuka! — completou ela. — Disse para ela perguntar se não era com o papai que ele queria falar, mas ela confirmou: é você que ele quer!
As palavras que Sarada usara inadvertidamente piorara a situação desagradável entre Hinata e Sasuke. Ele se irritou ainda mais e, voltando a mexer no porta-malas, declarou:
— Já está tudo pronto. Não demore. Quero pegar a estrada antes de todo mundo.
Hinata devia ter ido direto ao telefone, mas, em vez disso, aproximou-se de Sasuke, estendeu a mão e tocou-o no ombro. Não havia condições de iniciar a viagem daquele jeito. Já que estar perto dela abalava-o tanto, talvez fosse melhor que cancelassem tudo.
A princípio, Sasuke não reagiu ao contato, mas ela aguardou mesmo assim. Após alguns instantes, ele se voltou e encarou-a. Pousando a mão sobre a dela gentilmente, murmurou:
— Me desculpe, Hinata. Vai ser uma boa viagem; uma última lembrança para todos nós. — Sempre fitando-a nos olhos perolados, concluiu: — Prometo que não vou estragar tudo.
Hinata conteve o impulso de abraçá-lo, beijá-lo no rosto e exclamar: "Obrigada, Urso Sasuke!" Porém, sabia que ele não estava em condições de aceitar aquele gesto de afeição. Limitou-se a dar um sorriso de gratidão e correu para atender Kiba.
— Hinata? É Kiba Inuzuka. — Ele se expressava em tom cuidadoso, humilde até. — Sei que vai passar o fim de semana fora da cidade, mas é que... gostaria de me encontrar com você outra vez, quando voltar.
Ela refletiu por alguns momentos. Não podia se zangar por Kiba demorar a procurá-la. Afinal, não fazia tanto tempo assim que tinham se visto pela última vez. Mas algo lhe dizia que aquele telefonema, pouco antes da hora de partirem para Yosemite, era um lembrete para Sasuke, um aviso de que ele ainda estava interessado nela. Quanto mais pensava na desastrosa noite em que saíra com Kiba, mais se convencia de que ele estava interessado apenas em sexo, não em sentimentos.
— Desculpe, Kiba, a bagagem já está toda na perua e estamos prontos para sair. Sinto não poder conversar agora. Por que não me liga na semana que vem? Eu... vou consultar minha agenda, então.
Após uma pausa incômoda, ele respondeu:
— Está bem, Hinata. Eu vou ligar e... tenham uma boa viagem.
Ela já estava quase desligando quando ele voltou a chamar:
— Hinata?
— Sim?
— Eu... eu não liguei só para convidá-la para sair outra vez. Caso... caso não nos encontremos mais no futuro, gostaria de pedir desculpas.
Hinata ficou surpresa e confusa. Sem a petulância de antes, Kiba parecia estar realmente desapontado. Antes que pudesse se manifestar, ele voltou a falar:
— Eu... eu fui muito grosseiro com você naquela sexta-feira. Usei uma tática que costuma dar resultado com certo tipo de mulher. Você é tão superior a elas que... Bem, acho que fiquei com medo de ser espontâneo. Minha aparência costuma atrair as mulheres, mas nunca sei o que vão achar do resto... depois que me conhecem melhor.
Hinata estava pasma. Agora sabia por que Kiba a tratara daquele modo: ela agira como uma deslumbrada! Seu entusiasmo pelo Old Mansion e todas as outras futilidades caras e luxuosas fizeram-no acreditar que estava disposta a se vender por tudo aquilo. Lamentando o mal-entendido, declarou:
— Kiba, eu não o conheço muito bem, mas tenho a impressão de que a sua verdadeira personalidade me atrairia mais do que a que forjou naquela noite.
Depois de alguns segundos em que pareceu refletir, ele questionou:
— Isso é um elogio ou um insulto?
Ela riu e replicou:
— Não sei, Kiba. Como se trata de você, eu... realmente não sei.
— Bem, acho que está sendo honesta, ao menos — concluiu ele, soltando um suspiro.
— Meus relacionamentos são sempre baseados em honestidade. Se você... quiser que o nosso também seja, por que não me telefona para almoçarmos na semana que vem? Podemos tentar de novo.
— É justo, Hinata. Vou ligar na terça-feira.
— Ótimo, Kiba, mas ligue na quarta ou na quinta. Na terça não vai dar, porque vai ser o primeiro dia de aula das crianças. Depois que eu conseguir colocar os cinco nas novas classes, acho que só vou ter tempo para tomar um lanche rápido.
— Cinco?! — ele exclamou. — Pensei que você tivesse só três filhos.
Bem-humorada, Hinata explicou:
— Eu só tive três, Kiba, e só três vivem em minha casa. Mas criei Obito Uchiha desde que ele era bebê, e acho que o ortopedista de Sarada nem se lembra de que não sou a mãe dela. A escola até chama a mim, quando um dos filhos de Sasuke fica doente!
— Entendo... — ele murmurou. — E seus filhos também consideram Sasuke um... segundo pai?
— Sempre fomos como uma grande família — Hinata confirmou. — Você sabe como é...
Durante o silêncio que se seguiu, ela se arrependeu de ter dito aquela última frase. Kiba não devia saber como era uma grande família, pois tinha um relacionamento difícil com a filha. Então, jurou a si mesma que algum dia conversaria com ele sobre o assunto. Mas não naquela hora; não tinha tempo. Outro homem, muito mais importante, estava à sua espera.
— Até a semana que vem, então — despediu-se. — Sasuke está com tudo pronto e já esperou demais.
Ela só percebeu o sentido ambíguo das palavras que usara ao desligar o telefone. Ao olhar para Sasuke, tão forte e adorável rolando sobre a grama com Boruto e Obito, pensou na estranha e ilógica possibilidade de que talvez ele pudesse esperar por ela só mais um pouco. Uns poucos dias de isolamento nas montanhas deveriam ser suficientes.
O longo percurso até Yosemite foi bastante penoso para Sasuke. Ele se mostrara alegre e amigável durante toda a viagem, conforme prometera a Hinata, mas não conseguira evitar a tristeza ao ouvir os comentários e perguntas das pessoas, nos postos e restaurantes, que os tomavam por uma única família.
Quando finalmente chegaram à reserva, começou o dilema da escolha do local adequado para acampar.
— Aqui venta muito! — reclamou Hinata, ao estudar a primeira alternativa.
— Aqui é muito longe do rio! — foi a desculpa das meninas menores para recusarem a segunda possibilidade.
— Todas as árvores são grandes demais para a gente subir, ou então muito pequenas — alegaram os meninos ao chegarem ao terceiro possível local.
Sasuke sempre apreciara a democracia com que os locais de acampamento dos anos anteriores haviam sido escolhidos, mas o grupo estava se mostrando indeciso demais daquela vez. Isso o preocupava, pois já era quase noite, o que agravava o problema.
— Bem! — exclamou ao atingirem o "Possível Local de Acampamento" de número oito. — O que há de errado com este aqui? — indagou a Hinata.
Ela se mostrara bem-disposta durante todo o tempo, e naquela hora parecia estar no auge do bom humor.
— E eu reclamei de algum outro local, Sasuke? — questionou ela, rindo.
— Não, porque já havia outras pessoas fazendo isso em seu lugar. Você sempre quer árvores para pendurar redes, água e banheiros próximos o bastante para a hora da necessidade, mas bem distantes para serem esquecidos.
— Já entendi — ela declarou, sorrindo. — Faço questão de deixar a decisão em suas mãos, Sasuky.
Ele quase pediu a Hinata que parasse de chamá-lo de "Sasuky". Ela nunca mais o tratara por "Urso Sasuke", mas mesmo "Sasuky" lhe parecia uma alcunha íntima e ridícula demais para ser usada por uma mulher a quem só pretendia ver quando absolutamente necessário, depois daquele fim de semana horrível.
Refletindo, concluiu que Hinata se acostumara a vê-lo como um bobalhão tolerante por culpa dele mesmo. Embora exigisse dos filhos a mínima disciplina necessária e fosse eficiente no trabalho, sempre se esforçara para ser amável com Hinata, o que o tornara um galinha-morta a seus olhos. De repente, achou que estava na hora de ser firme.
— Eu gostei do terceiro local que vimos; aquele encravado no meio das árvores — declarou, em tom calmo e autoritário. — É lá que vamos armar as barracas.
— Mas, tio Sasuke, lá não...
— Chega! — ele exclamou, interrompendo o pequeno Boruto . — Esta caravana só pode ter um comandante e, já que sou eu quem vai fincar as estacas das barracas, serei eu a decidir.
Hinata nada dissera, mas ele vislumbrou um sorriso em seu rosto sob o luar.
A perua foi descarregada sob a iluminação de uma grande e potente lanterna. A noite já estava um pouco fria, embora tivesse feito muito calor durante a viagem. Então, Sasuke começou a fazer uma fogueira, enquanto Hinata arrumava os utensílios de cozinha e as meninas iam encher baldes com água. Os meninos receberam a ordem de recolher gravetos e madeira para a fogueira, onde cozinhariam salsichas.
Enquanto o jantar não ficava pronto, Sasuke e Himawari foram montar as barracas.
— Não sei por que montar duas barracas — comentou Himawari, logo que acabaram de ajeitar a dos Uchiha, velho exemplar do excedente do exército. — Se comprássemos uma bem grande, poderíamos dormir todos juntos da próxima vez! A gente sempre vinha em dois carros, mas desta vez só a perua serviu...
Sasuke abriu o zíper frontal da barraca e entrou para ver se não havia traças ou outros insetos. Como conhecia bem a menina, logo percebeu que havia segundas intenções naqueles comentários.
— Himawari, se está querendo chegar a algum lugar com essa conversa...
— Mas eu não tenho razão, tio Sasuke? — a garota insistiu, apressando-se em justificar: — Se você e mamãe se casassem, nós...
Sasuke se voltou tão abruptamente que bateu a cabeça na estaca da barraca. Por pouco não rogou uma praga.
— Himawari, eu só vou falar uma vez: esqueça essa idéia; não há nenhuma possibilidade. Fui claro?
A menina se encolheu junto à barraca, sentindo seu ego adolescente se desvanecer. Era raro Sasuke tratar qualquer das crianças com tanta severidade.
— Me desculpe, tio Sasuke. Eu só... pensei num jeito de ficarmos todos juntos. Senti tanto a falta de vocês neste verão...
Aquela confissão o emocionou. Se fosse feita pelos filhos menores de Hinata, ele não se surpreenderia, mas Himawari... A garota sempre fora a mais reservada, a que mais se abalara com o divórcio dos pais, e ele sempre fizera o máximo para confortá-la. Sabia que o rompimento entre ele e Hinata iria intensificar-lhe a dor.
Usando a lanterna, saiu lentamente da barraca escura. Com gentileza, colocou a mão sobre a cabeça de Himawari e depois puxou-a contra o peito.
— Me desculpe, querida. Eu não vou me casar com a sua mãe, mas isso não significa que eu não amo todos vocês como se fossem meus filhos.
A garota abraçou-o com força, num gesto espontâneo, o que o deixou profundamente emocionado. Enquanto as crianças estavam com Naruto, acreditara que Hinata era a única Hyuuga de quem se separaria com dificuldade. Mas, no momento em que entrara no Pizza Palace no domingo, percebera que amava aquelas crianças muito mais do que imaginara. Aquela última viagem iria tornar a separação ainda mais dura.
— Por que não pode se casar com a mamãe, tio Sasuke? — questionou a menina, com a voz abafada junto a seu peito. — Seria tão perfeito para todos nós!
Ele a estreitou mais uma vez e, soltando um suspiro, explicou:
— Seria perfeito para você, Himawari, e talvez para Sarada, Hanabi, os meninos e... Mas o que é bom para a sua mãe, querida, é algo que só ela sabe.
Antes que a menina pudesse responder, Boruto chamou de alguma parte da escuridão:
— Tio Sasuke! Um urso!
Himawari saiu da barraca primeiro, seguida de Sasuke.
As crianças estavam todas à vista, encolhidas junto à fogueira. Perto da mesa, em meio às vasilhas de plástico e talheres, estava um enorme animal peludo se deliciando com parte da comida do fim de semana.
Sasuke avaliou a situação. Sempre houvera ursos em Yosemite, e as pessoas nada tinham a temer, desde que se mantivessem fora do caminho deles e os deixassem comer sua porção dos mantimentos. No entanto, ouvira histórias apavorantes nos últimos anos sobre ursos agressivos no parque. Além disso, correr riscos com a própria segurança era uma coisa, mas quando cinco crianças estavam envolvidas...
Sem falar em Hinata. Ele não a vira ainda, mas sabia que devia estar por perto. Entretanto, só o fato de ela estar ausente quando um urso invadia o acampamento fez com que seu coração se sobressaltasse.
— Boruto ... — chamou, em tom baixo e calmo, esperando não assustar o animal. — Onde está sua mãe?
— Eu não sei! — gritou o menino, mais excitado que amedrontado. — Ela estava aqui até agora...
— Ela está na perua, tio Sasuke — sussurrou Hanabi. — Tinha ido buscar as salsichas, quando o urso apareceu. Ela...
A menina não concluiu a sentença. Como se tivesse entendido a informação, o urso se afastou da mesa e pousou as duas enormes patas da frente sobre o porta-malas da perua. E, então, para desespero de Sasuke, o animal foi para a porta e se arrastou para dentro do veículo.
