NARUTO NÂO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! XV
No meio da tarde do dia seguinte, Sasuke chegou ao hospital trazendo um Urso de pelúcia, enorme e, sem dúvida, caríssimo, mas adorável em seu pequeno smoking preto. Pretendia com aquilo distrair Himawari, que sentira muitas dores durante a noite. Naquele momento, porém, ela já estava melhor.
— Olá, tio Sasuke! — a menina exclamou, bem-disposta.
Sasuke, Naruto e Hinata haviam se revezado para fazer companhia a Himawari, desde o acidente na tarde anterior.
O fato de a menina tratar Sasuke da mesma forma que aos pais fizera-o reavaliar sua posição em relação aos filhos de Hinata e chegar a uma decisão final quanto à atitude que deveria tomar: destrancaria o portão, conforme prometera a Himawari, depois reuniria os três filhos e lhes contaria a verdade, isto é, que os amava e que pediria à mãe deles que os deixassem visitá-lo quando se mudasse. Diria também que não suportava mais morar ao lado de Hinata, mas que os três o veriam com tanta freqüência quanto viam Naruto.
Não era a solução perfeita, mas fora a melhor que pudera encontrar. Parecia-lhe preferível isso a perdê-los por completo, e estava certo de que Hinata concordaria.
— Olá, Himawari — cumprimentou, com ternura. — Eu trouxe uma coisa para garantir que você não vai se esquecer de mim!
Rindo de prazer, a menina estendeu o braço para pegar o brinquedo. Depois de apreciá-lo, exclamou:
— Ele é lindo!
— É mesmo — concordou outra voz, do fundo do quarto. — E se parece muito com você, Sasuke.
Ele se voltou e olhou para Hinata, surpreso por descobrir que ela ainda estava no hospital. Pelo que os três haviam combinado, ela deveria ter ido embora às duas e meia da tarde. Já eram quase três.
— Olá, Hinata — murmurou, fazendo um esforço para sorrir.
Até então, nenhum dos dois fizera qualquer comentário sobre as carícias que haviam trocado na tarde anterior. Em sua ilusão, chegara a acreditar que Hinata finalmente se apaixonara por ele, mas agora sabia que ela apenas procurara alívio para a tensão do momento e para a sensualidade reprimida por tanto tempo.
— O que ainda está fazendo aqui? — indagou, um pouco irritado. — Pensei que o meu turno fosse agora, no fim da tarde.
— Himawari estava se sentindo um pouco só — ela justificou, dando um sorriso. — Então, resolvi ficar até você chegar.
— Bem, pois já estou aqui. Você precisa descansar um pouco antes de voltar, à noite.
Ela pousou a mão sobre o braço dele e reconheceu:
— Você é tão bom para nós, Sasuke. Não sei o que faria sem você.
Sentindo o toque de Hinata excitá-lo com uma rapidez constrangedora, ele desviou o olhar.
— Amigos são para essas coisas — retrucou. Em seguida, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado de Himawari, à beira da cama. — Amanhã, irei ao escritório na parte da manhã, e lá pelas duas ou três horas virei para cá. Como Naruto é quem irá jantar com Himawari, acho que você vai poder descansar um pouco amanhã à tarde, depois do seu turno.
Hinata se inclinou para dar um beijo de despedida na filha, espalhando pelo ar o frescor e o perfume de seus fartos cabelos escuros.
— Até hoje à noite, querida — sussurrou para a menina.
— Tchau, mamãe. Não precisa se preocupar comigo, porque o tio Sasuke está aqui.
— Eu sei — Hinata declarou, beijando-o no rosto como prova de confiança. — Bem que eu queria ter um Urso Sasuke como esse...
Hinata podia ter-se referido ao urso de pelúcia que alegrava a cama, mas Sasuke teve a incômoda impressão de que se referira a ele. Depois de refletir, encontrou uma resposta amável, mas segura, para dar:
— Talvez Himawari deixe você brincar com ele.
Fitando-a no rosto, tentou adivinhar no que estaria pensando. Ela tinha o semblante confuso, quase atormentado. Estaria ainda em dúvida? Nesse caso, será que ele ainda tinha alguma chance? Sem dizer nada, ela se levantou e colocou a alça da bolsa sobre o ombro.
— Algum recado para Moegi? — perguntou.
Desapontado, ele negou com um gesto de cabeça e respondeu:
— Ela sabe o que fazer.
Assim que viu a porta se fechar atrás de Hinata, Sasuke lembrou que precisava contar-lhe que ia se mudar. Queria fazer isso antes que Temari lhe revelasse que ele pusera a casa à venda. Fazia questão de dar-lhe a notícia pessoalmente. Mas sabia que, por mais tato que ele tivesse, ela ficaria de coração partido ao saber que ele e os filhos iriam embora da alameda das Amoreiras.
Hinata passou pela imobiliária às quatro horas da tarde da sexta-feira só para ver se havia algum assunto urgente à sua espera. Era a primeira vez que se permitia pensar no trabalho em mais de quarenta e oito horas e, mesmo assim, com dificuldade para se concentrar.
O principal motivo de sua preocupação ainda era a filha, naturalmente, embora a menina já estivesse se sentindo bem e prestes a voltar para casa. Isso ocorreria na manhã do dia seguinte. Mas Sasuke também não saía de seus pensamentos.
Tinha quase certeza de que queria se casar com ele, mas uma irritante hesitação impedia-a de tomar uma decisão definitiva. Talvez, no íntimo, soubesse que não devia resolver algo tão importante sob o impacto dos acontecimentos das duas últimas semanas. Além disso, fazia tão poucos meses que aprendera o que era ser uma mulher livre e gostara de sentir a sensação de ser admirada por um homem como Kiba Inuzuka.
Mas será que apreciava Kiba Inuzuka? Só então lhe ocorreu que, ao saber do acidente com Himawari, nem cogitara de avisá-lo, embora tivesse acabado de almoçar com ele. Era Sasuke quem ela queria a seu lado naquela hora. Foi no ombro dele que chorou e os lábios dele que beijou até...
O telefone começou a tocar, lembrando-a de que estava sozinha no escritório. Podia ser algum cliente querendo informações, ou alguém do hospital tentando encontrá-la. Sem alternativa, atendeu.
— Hinata? É Kiba. Estou tentando falar com você há dois dias! Fiquei sabendo que sua filha sofreu um acidente.
Enternecida, Hinata percebeu que a preocupação de Kiba era sincera. Respondeu:
— Não foi grave. Na hora pareceu ser o fim do mundo, mas ela só quebrou um braço. Houve muitas dores no começo, mas Himawari já está melhor.
— Que alívio! Deixei um monte de recados aí na imobiliária, e aquele seu patrão carrancudo não foi capaz de me dar nenhuma informação.
Hinata riu e revelou:
— Sempre imagino como Frank consegue ser bem-sucedido num negócio em que é preciso lidar com o público! Se bem que ele tem estado muito nervoso com aquele problema de Red Rock — lembrou. Sem esperar pela reação do interlocutor ao comentário, prosseguiu: — Você devia ter ligado para o Sasuke, Kiba. Ele sempre sabe onde me encontrar.
Após um instante de hesitação, ele replicou:
— Eu fiz isso, Hinata, mas não consegui falar com ele também. Fui informado de que tinha ido atender a uma emergência de família. Imaginei que devia estar com você então...
"É lógico que ele estava comigo", pensou Hinata. "Onde mais ele poderia estar durante uma crise de família?"
Antes que pudesse fazer qualquer comentário, Kiba retomou a palavra:
— Quando é que Himawari vai sair do hospital?
— Amanhã de manhã.
— Que ótimo! Será que você está com a noite de hoje livre?
Hinata tinha aquela noite livre, mas não sabia se devia aceitar o convite de Kiba. Ao refletir mais um pouco, entretanto, concluiu que estava mesmo se sentindo só. Almoçara sozinha no Pizza Palace, naquele dia, e achara o lugar terrivelmente solitário sem Sasuke e as crianças. À noite, Naruto iria jantar com Himawari e depois levaria Hanabi e Boruto para passar o fim de semana na casa dele. Até que não era má idéia passar algumas horas com um amigo.
— Hinata? E então?
Após mais um momento de hesitação, ela resolveu:
— Podemos jantar juntos, Kiba.
— Ótimo! Que tal se eu cozinhar para você? Imagino que esteja cansada e sem vontade de ir a um restaurante.
Depois de dar instruções rápidas de como chegar a seu apartamento, Kiba se despediu.
Hinata mal colocara o fone no gancho quando o aparelho voltou a tocar.
— Hinata, é Ino Yamanaka. Fiquei sabendo que sua filha sofreu um acidente. Como é que ela está?
Depois de contar toda a história à amiga, Hinata indagou:
— Mas foi só por isso que ligou?
— Não. Também tenho alguns negócios para discutir com Temari.
— Mas ela não está. Posso ajudar?
Ino ficou hesitante e, em seguida, resolveu deixar um recado um tanto vago:
— Diga a ela que encontrei outro comprador para a casa da alameda dos Morros Crescentes, mas... antes de resolver qualquer coisa, gostaria de confirmar se... se aquele comprador sobre o qual falamos antes não está mais interessado mesmo.
— Que comprador? — exclamou Hinata, intrigada. — O último cliente encaminhado por esta imobiliária foi Paul Hawley, e ele nem chegou a fazer uma proposta.
Ino fez uma pausa e depois, embaraçada, declarou:
— Hinata, nós já somos amigas há muito tempo, e eu detesto o fato de ter de manter isso em segredo, embora por motivos nobres. É que o assunto foi tratado em termos confidenciais, entende?
— Do que está falando? — inquiriu Hinata, zangada. — Quem é esse cliente? Por que está me contando essas coisas se não quer que eu saiba?
— Oh, Hinata! — exclamou Ino, frustrada. — Eu quero que você saiba, só que não posso contar! Se bem que alguém vai ter de fazer isso qualquer hora. Não posso acreditar...
— Ino, do que é que você está falando? Se é alguma coisa que eu deva saber, conte!
— Então me deixe fazer uma pergunta. Como estão as coisas entre você e Sasuke?
— Sasuke?! O que Sasuke tem a ver com a casa da alameda dos Morros Crescentes?
Quando acabou de fazer a pergunta, Hinata já sabia a resposta. Os segredinhos entre Sasuke e Temari, a reforma que ele fizera... Ele sabia o quanto ela ansiava pela casa da alameda dos Morros Crescentes. Será que cogitara de comprá-la? Ele não suportava nem olhar para a mansão! Será que a amava tanto assim?
— Ino, você está tentando não me contar que Sasuke está tentando comprar aquela casa para mim?
O silêncio de Ino serviu como resposta afirmativa.
— Oh, Ino! — exclamou Hinata, profundamente comovida. — Nunca imaginei que ele faria isso por mim! Ele nunca comentou... Nunca disse uma palavra...
— Ele não queria que você soubesse. Ele não queria que fosse um presente com segundas intenções, ou seja, um suborno. Quando você negou o pedido de casamento, ele pediu a Temari que retirasse a proposta que havia feito. Mas a sra. Senju achou tudo tão romântico que se recusou a vender a casa para outra pessoa, enquanto ainda houvesse uma chance para você e Sasuke. Ela ficou emocionada ao saber como você adora a casa e como Sasuke ama você. E tanto eu como Temari achamos que você está louca! — Ino acrescentou, aliviada por ter contado tudo.
Hinata quase se sentiu mal. Concluiu que devia estar mesmo louca. Nenhum homem jamais a amaria tanto como Sasuke Uchiha. E ela jamais amaria ninguém como amava Sasuke.
— Eu adoro Sasuke, Ino, mas nunca senti entusiasmo por ele — lamentou ela, insegura, numa tentativa de justificar seu comportamento. — Eu não devia sentir uma paixão arrasadora pelo homem com quem fosse me casar?
— Para quê? — questionou a amiga. — Por que teria que ser uma paixão arrasadora? Seu amor por Sasuke Uchiha é como uma fogueira de combustão lenta: nunca irá queimar você, mas sempre a manterá quente. Você não está atrás de um par para um baile de formatura, Hinata! Você precisa de um amigo que lhe segure a mão, que caminhe a seu lado pelo resto da vida! — Soltando um suspiro de frustração, exclamou: — O que é que há com você?
— Nada, Ino — garantiu Hinata, convicta. — Acabo de me curar da loucura temporária. Aquele casarão vai voltar a ser habitado por uma família grande e feliz outra vez.
Ino deu um grito de alegria e indagou:
— Tem certeza, Hinata? Está pronta para dizer isso à sra. Senju?
— Você é quem vai contar à sra. Senju. Eu preciso falar com Sasuke. — Embora considerasse cada minuto de atraso uma verdadeira tortura, quis desabafar: — Eu transformei a vida dele num inferno, Ino...
— Pois, então, vá livrar o homem do tormento, Hinata! A gente pode conversar depois!
Assim que acabou de falar com Ino, Hinata começou a procurar por Sasuke. Mas ele não estava nem no local de trabalho nem em casa. Como ninguém sabia onde ele estava, nem quando voltaria, teve que se contentar em deixar recados para que ele a procurasse em casa.
De certa forma, aliviara-se por não ter conseguido falar com Sasuke, pois não tivera tempo de pensar no que dizer. Além disso, a idéia de fazer uma declaração de amor por telefone era um tanto ridícula. Como o relacionamento entre ambos já estava abalado, era bem possível que tivesse de usar métodos mais eficientes para convencê-lo do seu amor.
De repente, a porta da imobiliária se abriu. Hinata se alegrou, pensando que Temari havia chegado. Estava ansiosa para conversar com a amiga. Mas quem entrou foi Frank.
— Ora, vejam só quem está aqui! — saudou ele, jovial. — Resolveu vir trabalhar já que não tinha nada para fazer?
Hinata sabia que o patrão era normalmente rude, mas naquele dia não estava disposta a aturá-lo. Queria ir para casa e esperar pelo telefonema de Sasuke. Aborrecida, retrucou:
— Minha filha já está melhor. Obrigada por perguntar.
Frank fitou-a e depois, gentilmente, declarou:
— Sim... eu sei. Eu telefonei para o hospital na quarta à noite, e desde então tenho me informado por Temari.
Hinata mal conteve a reação de espanto ao saber que o patrão se importava tanto com ela e com sua filha a ponto de telefonar para o hospital pessoalmente. A fim de não deixá-lo embaraçado, nada respondeu.
— Hospitais me deixam nervoso — ele confessou, em tom lúgubre. — Acho que fiquei abalado quando meu cunhado morreu em Red Rock. Passei cinco dias lá, vendo meus amigos morrerem um após outro...
Desconcertada, Hinata continuou calada. Então, viu o patrão se reanimar e comentar:
— Temari me contou que descobriu uma coisa que pode adiantar muito a investigação que Uchiha está fazendo em Red Rock. Ele ligou agora há pouco...
— Ele ligou?! — Hinata já não estava pensando na refinaria nem no fato de Sasuke ter mais uma vez honrado Temari com sua confiança, e não a ela. Tudo o que ela queria era falar com ele.
— E para onde Temari deve telefonar para falar com ele?
— Eu não me lembro — respondeu Frank, dando de ombros. — Mas o recado está em cima da mesa dela. Eu vou ver.
Frank foi ao escritório de Temari e voltou com um pedaço de papel cor-de-rosa na mão.
— O recado é este — confirmou ele, lendo-o. — Mas ele não falou nada sobre Red Rock. Pediu para avisá-la que irá telefonar à noite para a casa dela, quando marcarão um horário para a visita à casa.
— À casa? — repetiu Hinata, intrigada. — Está falando da casa da alameda dos Morros Crescentes?
— Uchiha tem casa lá também? — indagou Frank, surpreso. — Pensei que ele fosse seu vizinho.
— Sim, ele é meu vizinho. Mas pensei que ele tivesse feito uma proposta pela propriedade da sra. Senju.
— Se ele fez, não fiquei sabendo — declarou o patrão. — Mas acho que ele colocou a casa da alameda das Amoreiras à venda no começo desta semana. Temari até já encontrou uma pessoa interessada.
Confusa e apreensiva, Hinata indagou:
— Ele quer vender mesmo a casa? Mesmo tendo pedido a Temari para retirar a proposta pela mansão? — "E sem que sequer tivéssemos discutido sobre a conveniência de vender a minha casa junto com a dele?", acrescentou, em pensamento.
— Acho que ele não teve tempo de fazer nenhuma proposta por qualquer casa de Morgantown — comentou Frank, por sua vez. — Aliás, acho que ele nem encontrou uma casa adequada ainda.
Hinata mal conteve as lágrimas ao descobrir toda a verdade. Se Sasuke estava procurando uma casa em Morgantown, ele não pretendia mais comprar a casa da alameda dos Morros Crescentes. Ele ia se mudar! Ia abandoná-la! Nem em seus mais negros pesadelos ela cogitara de tal possibilidade. E nunca imaginara que o abandono de Sasuke pudesse magoá-la tanto.
— Não sei por que ele não pediu para você vender a casa, Hinata — retrucou Frank, insensível ao choque que a abatera. — Você não está indo tão mal assim neste negócio, você sabe...
Sob outras circunstâncias, Hinata teria concordado com o patrão; teria até se divertido com a zombaria. Mas o pânico deixara-a muda. Seu coração se transformara num deserto gelado de aflição. Era como se uma parte dela houvesse morrido.
