NARUTO NÂO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! XIX
Assim que viu a porta se abrir, Kiba cumprimentou:
— Olá, Hinata. Será que pode me deixar entrar?
Ele passou os dedos nervosamente pelos cabelos despenteados, cerrou os punhos e enfiou-os nos bolsos.
Passado o primeiro momento de surpresa, Hinata observou-o melhor: ele estava horrível! Notou que não trocara de roupa desde que o vira pela última vez e se espantou ao ver-lhe a camisa rasgada perto do colarinho, suja numa das mangas, e as belas feições transtornadas de puro medo.
— O que houve? — indagou, tentando ganhar tempo, enquanto decidia se devia deixá-lo entrar.
— Por favor, Hinata, eu realmente estou precisando da sua ajuda — ele implorou. — Sei que lhe devo uma explicação por meu comportamento. Sei que fui longe demais esta noite, mas eu gosto mesmo de você e... estou apavorado! Estou numa encrenca terrível! Para falar a verdade, o mínimo que pode acontecer é minha carreira ir por água abaixo. Posso até ir para a cadeia! Mas, se eu deixar aquele patife fazer chantagem comigo, nunca vou conseguir sair disto com alguma dignidade. E se alguma coisa acontecer com mais alguém nesta cidade por causa da minha covardia, acho que vou morrer de remorso!
Vendo Kiba tão desesperado, quase histérico, Hinata ficou penalizada. Aquele homem arrasado em sua varanda não tinha nada a ver com o galã de cinema que ela conhecera.
— Não sei o que fazer, Hinata. Não sei aonde devo ir com a verdade... mesmo que crie coragem bastante para contá-la. Até um mês atrás eu procuraria Sasuke, mas, depois do que houve, acho que ele me mataria se soubesse o que fiz. — Nervoso demais para notar os trajes sedutores de Hinata, ou o estado da sala, Kiba suplicou: — Pode me ajudar? Pode me ajudar a conseguir o perdão de Sasuke?
Ele parecia tão sincero, tão patético, que Hinata não conseguiu dizer "não".
— Entre e me conte o que aconteceu — convidou, gentilmente, já sem nenhum temor.
Ao ser informado por Temari de que Joe Chacón fora embora, Sasuke exclamou:
— O quê?! Como pôde deixar isso acontecer, Temari?
Depois de ter deixado Hinata só para falar com o guarda de segurança, a última coisa que ele queria ouvir era que voltara à casa de Temari à toa.
— Quanto mais o tempo passava, mais nervoso Joe ficava com a idéia de contar a você tudo o que sabia — ela explicou. — Fiz tudo o que pude para segurá-lo, mas ele começou a dizer que devia ser leal para com Red Rock em primeiro lugar, e não sei o que mais. De repente foi embora.
— Acha que ele foi alertar Caldwell? — Sasuke indagou.
— Talvez. Mas, se conheço bem Joe, acho mais provável que tenha ido procurar Sennin. Afinal, ele é o mandachuva de lá e Joe gosta dele.
Sasuke soltou um suspiro de alívio e comentou:
— Essa seria uma decisão segura. Caldwell foi ao apartamento de Kiba, hoje à noite, e tenho o pressentimento de que qualquer um que cruzar o caminho dele agora vai se dar mal. Aquele gorila precisa ser trancafiado, e não posso fazer nada com relação a isso sem encostar Joe ou Kiba na parede.
— Bem, não posso fazer nada a respeito de Joe, no momento — Temari lamentou. — Mas Kiba Inuzuka nunca me pareceu muito firme. E depois de tanta pressão de Caldwell...
Franzindo o cenho, Sasuke se lembrou de Kiba fingindo ser o responsável pela orquídea que ele enviara a Hinata e também de Kiba tratando Hinata como se ela lhe pertencesse.
— Caldwell não é o único que sabe como atrair um peixe — comentou, com severidade. — Falo com você mais tarde, Temari. Preciso ir pescar em Morgantown.
Kiba entrou na sala com passos arrastados e deixou-se cair sobre uma poltrona, em total desalento.
Hinata pediu a ele que a aguardasse só por uns minutos. Então, recolheu as roupas espalhadas pela sala e foi ao quarto vestir uma camisa e uma calça jeans. Já vestida, voltou à sala e se sentou no sofá, para ouvir o relato do visitante.
— Tudo começou logo depois que Tenten foi embora — ele contou. — Fiquei meio louco durante algum tempo. Era como se nada tivesse importância, muito menos coisas como "certo" e "errado". "Certo" era eu viver com a minha filha; "errado" era eu ser um pai tão desprezível que ela não queria passar nem algumas semanas comigo. Já que eu não podia ter Tenten, podia ao menos me divertir sendo rico, concluí. De certa forma, pensei que, se tivesse mais dinheiro, poderia ir vê-la ou fazer com que ela viesse me ver com mais freqüência. Mas, já nessa época, acho que estava mentindo para mim mesmo. Tenten nem se importa com o fato de voltar a me ver ou não.
Hinata sabia o bastante sobre o relacionamento de Kiba com a filha para ter certeza de que ele nunca teria feito algo que pudesse afastá-la; a garota devia estar apenas atendendo seus interesses adolescentes, a fim de superar as tensões do divórcio entre os pais.
— Kiba, tenho certeza de que Tenten ama você. É que ela está numa idade difícil. Com o tempo...
— Tempo? — ele gritou. — Quero saber quanto tempo vou passar na prisão, depois que Sasuke Uchiha me pegar.
Com delicadeza, Hinata tocou-o na mão e pediu:
— Me conte o que foi que você fez, exatamente.
Kiba baixou a cabeça, visivelmente envergonhado da situação em que se encontrava. Contudo, estava ansioso para desabafar. Sendo assim, prosseguiu:
— No dia em que fui vistoriar o novo equipamento em Red Rock, em julho, Sennin estava de férias. Caldwell apareceu por lá e eu comentei que os canos e válvulas novos pareciam já ter quinze anos de uso. Ele ficou nervoso na hora e começou a se defender. Embora todas as partes que eu havia examinado estivessem em bom estado, tive a estranha sensação de que Caldwell escondia alguma coisa.
Hinata ouvia sem fazer comentários, memorizando o máximo de detalhes possível para contar depois a Sasuke.
— Bem, eu disse a Caldwell que não acreditava que os canos e válvulas tivessem sido substituídos, e que iria entrar em contato com o vendedor do material para confirmar a instalação. A princípio, ele riu, achando que eu estava brincando, mas depois viu que eu estava falando sério e comentou que já trabalhara num outro lugar, onde um inspetor havia ganhado cinco mil dólares para ver a coisa de outro modo.
Kiba cobriu o rosto com as duas mãos e gemeu.
— Eu respondi que qualquer um que se envolvesse com suborno estava se metendo em encrencas. Caldwell tornou a rir e disse que podia entender o tal inspetor: afinal, quem não arranjaria serventia para cinco mil dólares?
Hinata continuava a ouvir em silêncio. Kiba prosseguiu:
— Antes que eu respondesse, alguém nos interrompeu e ele se afastou. Eu não sabia o que fazer, quero dizer, ele não tinha realmente tentado me subornar. Fiquei confuso e decidi falar com Sasuke sobre o assunto. Mas eu havia sido rude com ele da última vez em que tínhamos jogado tênis e levei dois dias para criar coragem. Quando consegui, já era tarde demais.
Hinata se ajeitou no sofá e fitou-o nos olhos atormentados.
— Por que já era tarde demais?
— Porque na manhã do dia em que resolvi falar com Sasuke, um envelope contendo cinco mil dólares apareceu na mesa da minha cozinha. Hinata, eu tinha dormido em casa naquela noite. Sozinho! Alguém entrou no meu apartamento enquanto eu estava lá. Não acha isso... de arrepiar?
— Deve ter sido assustador — ela admitiu, tentando acalmá-lo.
Respirando fundo, procurou não pensar em como sua própria casa estava vulnerável naquele momento. Por que Sasuke estaria demorando tanto?
— E o que aconteceu depois, Kiba? — perguntou.
— Fui até Red Rock para dizer a Caldwell que não iria aceitar suborno e que, se ele não pegasse o dinheiro de volta, chamaria a polícia.
— E?
— Mas Caldwell não estava lá. Ele é que estava de férias, então, e Sennin tinha voltado. Eu devia ter contado a ele, mas sempre o odiei e, além disso, não sabia se estava ou não envolvido com a fraude.
Hinata aguardou, sem dizer palavra, consultando o relógio de pulso a todo instante. Tinha de fazer com que Kiba continuasse falando e conhecer logo o fim da história. Só não sabia a quem deveria procurar: se Sennin, a polícia, ou os superiores de Kiba.
— E, então, o que você fez?
— Nada. Esperei Caldwell voltar das férias. Quando finalmente consegui ficar frente a frente com ele, ele riu.
— Riu?!
— Disse que, em primeiro lugar, eu não tinha provas de que o dinheiro viera das mãos dele. Afirmou que nunca tentara me subornar, que jamais colocara um centavo sequer na minha mão. — Kiba socou um punho contra a coxa e reconheceu: — E era verdade!
— Mas você tinha o dinheiro. E enquanto o tivesse...
— Eu sei. Eu continuaria sendo culpado se ficasse com ele e não comunicasse as suspeitas que tinha com relação ao equipamento. — Voltando o olhar suplicante para Hinata, completou: — E eu só desconfiava de que havia algum problema, Hinata. Não tinha provas. Realizei os testes apropriados em todas as válvulas e constatei que estavam em perfeito estado. É claro que elas podiam ter sido reformadas. Isso teria causado atividade suficiente no local para disfarçar a fraude. Mas, quando eu ameacei contar tudo o que sabia, Caldwell lembrou que eu tinha ficado duas semanas com o dinheiro, portanto ninguém acreditaria que eu não aceitara o suborno. Se ele fosse pego, eu também seria.
— Oh, Kiba — Hinata lamentou, solidária.
Ela sabia que ele agira de forma errada, mas agora sabia também como tudo acontecera. Kiba fora surpreendido numa época em que estava particularmente confuso e vulnerável.
— Eu fiquei sem saber o que fazer — ele continuou. — Não tinha gasto o dinheiro, mas também não conseguira me livrar dele. Caldwell não o queria de volta! Aí, quando aquele tanque explodiu, quase enlouqueci. Consegui falar com Caldwell sem atrair a atenção de Sasuke e disse a ele que nós dois tínhamos de descobrir a verdade. Então, ele... — Kiba fechou os olhos.
— ...ele me contou que tinha vasculhado minha casa na noite em que deixou o dinheiro sobre a mesa. E descobriu... aquilo que eu tinha de mais precioso... e como encontrá-la.
— Kiba...
— Eu fiquei sem saber exatamente o que Caldwell estava querendo dizer, até ele recitar, de memória, o endereço de Tenten, no Colorado. Hinata, o que é que eu podia fazer? Já não era só o meu pescoço que eu estava arriscando. Minha filha estava sendo ameaçada por aquele patife! Fiquei aterrorizado!
Hinata não sabia o que dizer. A vida daquele pobre homem tinha sido um verdadeiro inferno nas duas últimas semanas!
— Rezei para que Sasuke imaginasse que havia algo de errado com as válvulas, sem implicar Caldwell ou a mim. Ele é tão bom naquele trabalho que mal posso acreditar que esteja demorando tanto para descobrir tudo. Sei que ele desconfia de mim, mas ainda deve estar tentando arranjar outra explicação para aquelas válvulas velhas. Ele não quer me acusar enquanto houver alguma possibilidade de que eu não esteja envolvido, embora deva estar aborrecido comigo por causa do modo como tentei roubar você dele.
Fitando-a ternamente, declarou:
— Eu realmente gostei de você, Hinata, desde o começo. Mas eu também sabia que você era a pessoa em quem Sasuke mais confia e pensei em descobrir o que se passava na cabeça dele por seu intermédio. Mas, depois de algum tempo, fiquei tão apavorado que só queria uma amiga. — Cada vez mais embaraçado, prosseguiu: — Agora há pouco, quando vi o modo como Caldwell olhou para você, percebi que poderia ameaçá-la se percebesse como você era especial para mim.
Fazendo uma pausa, Kiba se levantou e, impaciente, começou a andar em círculos pela sala.
— Mas eu não estou agüentando mais; o homem é mais perigoso que a refinaria! Hoje, foi me procurar para dizer que eu precisava tirar Sasuke do caminho. Uma outra pessoa estava fazendo perguntas em Red Rock, alguém que não deveria nem estar se importando com o assunto, e ele achava que Sasuke estava por trás disso. — Enfiando as mãos nos bolsos, começou a transpirar. — Disse que, se Sasuke acusá-lo de alguma coisa, vai machucar a minha filha!
"E Sasuke está prestes a pegar Caldwell", lembrou Hinata, sem nada comentar, entretanto. Se Kiba soubesse daquilo, ficaria ainda mais desesperado.
— Ele não vai poder machucar sua filha, se estiver na prisão, Kiba. E é para lá que ele vai.
— Eu sei! Droga, eu sei! — Ele soltou um suspiro e parou de andar em círculos. — Onde está Sasuke? Ele pode me dizer o que fazer.
— Ele deve chegar a qualquer momento, Kiba. Ele me prometeu que voltaria logo.
— Você está dizendo isso há uma hora, Hinata. Não pode tentar falar com ele?
Hinata refletiu por um momento e concluiu que, dadas as circunstâncias, Sasuke provavelmente a perdoaria por interrompê-lo na casa de Temari outra vez.
Temari, porém, informou que Sasuke fora embora logo depois de chegar, e sugeriu que o procurasse no apartamento de Kiba ou em Red Rock.
Rezando por um golpe de sorte, Hinata ligou primeiro para a refinaria. Se ele já houvesse ido para Morgantown, só estaria de volta dali a uma hora, e o pobre Kiba com certeza teria um ataque de nervos se tivesse de esperar tanto tempo para confessar sua participação na fraude.
Sasuke também não estava lá, mas o homem do outro lado da linha disse que daria o recado, se ele aparecesse por lá, o que era muito pouco provável numa noite de sexta-feira. Antes que Hinata lhe fornecesse seu número de telefone, entretanto, alguém que aparentemente ouvira a conversa interrompeu-o.
— Alô? Aqui é Jiraya Sennin, o administrador da refinaria — apresentou-se a nova voz. — Nós raramente vemos o sr. Uchiha aqui à noite, a não ser quando ele está supervisionando o local, mas, se for caso de emergência, posso consultar os guardas para confirmar se ele está na refinaria, ou sendo aguardado.
— Sr. Sennin? — exclamou Hinata, mal contendo a reação de alívio por ter conseguido seu golpe de sorte. — Aqui é Hinata Hyuuga; eu sou... noiva do Sasuke. Estou tentando...
— Sennin está lá? — interrompeu Kiba, arregalando os olhos. — Sennin está na refinaria?
Hinata assentiu e, ao telefone, pediu:
— Aguarde só um minuto, sr. Sennin.
Esperando Kiba tomar uma decisão, ela comentou:
— Sasuke disse que confia nele, Kiba. Não gosta muito dele, mas acha que está sendo sincero quando diz que quer ir até o fundo dessa história.
Kiba assentiu fracamente. Àquela altura dos acontecimentos, confiar em qualquer pessoa era arriscado.
— Pergunte o que está fazendo lá — solicitou.
— Kiba, sei que isso não é da minha conta, mas...
— Ele nunca está lá à noite.
Hinata soltou um suspiro e voltou a falar ao telefone:
— Sr. Sennin, estou contente por conseguir falar com o senhor. Não esperava encontrar... o administrador trabalhando até tão tarde da noite.
— Nem eu... — respondeu ele, sério. — Já fazia horas que eu estava em casa. Mas é que recebi um telefonema muito estranho que pode ter algo a ver com Uchiha. Ele disse a você que viria aqui hoje à noite?
— Bem... indiretamente. É uma longa história.
— Pois eu gostaria de ouvi-la. Tudo o que sei é que um dos nossos guardas de segurança me telefonou e pediu que eu me encontrasse com ele na refinaria. Eu estou aqui, mas Joe Chacón, não. E não vi nem sombra do Sasuke.
Hinata estava certa de que Joe não teria chamado Sennin se não tivesse certeza de que ele era inocente. Também estava certa de que, se Joe não chegara, era porque Caldwell encontrara um meio de detê-lo. E isso significava que Caldwell encontraria um meio de deter Kiba também... ou Sasuke!
— Sr. Sennin, há uma outra pessoa que gostaria de falar com o senhor — declarou, corajosamente.
Kiba negou com gestos veementes, em pânico.
— Não vou poder encará-lo sozinho! Ele vai acabar comigo, Hinata! Eu só concordei em contar para o Sasuke!
Mas Hinata só imaginava onde Sasuke poderia estar e no que ainda poderia acontecer a ele, até que Caldwell estivesse na prisão. Não tinha tempo para se preocupar com o orgulho ou a sensibilidade de Kiba. A segurança de Sasuke estava em jogo.
— Se puder nos aguardar aí na refinaria por alguns minutos, sr. Sennin, acredito que conseguiremos esclarecer todo esse problema.
— Se o caso é esse, minha jovem, posso esperar até a noite toda — Sennin assegurou.
Depois de pegar um suéter e a bolsa, Hinata praticamente arrastou Kiba para fora da casa. Levou só um minuto para deixar um recado para Sasuke com Moegi, certa de que ele se orgulharia de sua iniciativa.
Só quando o carro de luxo de Kiba já estava do lado de dentro dos portões da refinaria foi que lhe ocorreu outra idéia: Joe Chacón poderia não ser o que parecia. Talvez fosse ganancioso o bastante para usar o que sabia a fim de conseguir sua própria fatia do bolo. E se Sennin estivesse envolvido com ele seria o último homem sobre a face da Terra a quem Kiba deveria revelar sua história.
