Disclaimer: Os personagens não me pertencem.
Alerta: Conteúdo para maiores de 18 anos no terceiro capítulo.
Capítulos: 2 de 4
Algo que me ocorreu enquanto eu estava lendo O Capital.
Considerando o aumento no número de capítulos, precisei fazer algumas correções na primeiro.
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- A Musa -
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- Obrigada - eu disse, obviamente aliviada. - Passo aí em, no máximo, uma semana para deixar o pacote.
Levou 5 tentativas até eu conseguir escrever uma nota para Edward. Eu tinha que expressar o meu constrangimento pela minha reação, absolvê-lo de qualquer responsabilidade e, graciosamente, devolver o presente. Não era exatamente algo fácil de colocar em palavras. Quando, finalmente, surgiu algo que não me deixou irritada (eu mencionei como sou ruim com palavras?) eu coloquei cuidadosamente em cima da caixa com a roupa.
O motivo de eu ter protelado a entrega é que as minhas férias começavam na semana seguinte. Originalmente, eu as havia pedido para pouco antes da prova do concurso (para pode estudar), mas a burocracia da empresa havia me jogada para algumas semanas depois, sem chance de discussão.
Isso me levou a uma semana de nervosismo - uma mistura entre esperar o resultado do concurso e ter que entregar a caixa.
Parte disso se resolveu quando as notas saíram. Terceiro lugar na classificação! Em perspectiva de ser chamada. Por isso, eu manteria a notícia comigo mesma por mais algum tempo. Haveria uma entrevista com os quatorze primeiros colocados para definir locais de trabalho.
Quando a derradeira quinta-feira (escolhida não por mim) para eu estrar de férias chegou, o dia estava nublado, com gotas eventuais de chuva que mais pareciam pairar no ar que cair.
Uma calça jeans qualquer, uma camiseta e a minha jaqueta de couro e eu estava pronta para enfrentar. Acho que, em algum momento, as pessoas começarão a perceber que eu uso a mesma jaqueta toda vez que preciso de apoio emocional.
Dane-se.
Cheguei em menos tempo que o esperado no prédio.
Me apresentei na recepção e recebi um cartão de visitante antes de pegar o elevador. A porta era de vidro, com uma jateado do logo da empresa. Não havia nenhuma campainha. Abri a porta e me esgueirei para dentro. A mesa da recepção deles estava vazia. Atrás da mesa, em uma área grande, um grupo de pessoas falava animadamente.
Ou estavam muito felizes com os próprios trabalhos ou algo bem específico havia dado certo.
- Não pode ser! - exclamou um cara novo de camisa amarela e uma gravata bronze já meio desfeita. Eu olhei na direção dele, com intenção de seguir os seus olhos e achar o que era tão chocante, quando percebi que o foco dele era em mim.
As outras cabeças viraram, buscando a mesma coisa que eu havia, e pararam em mim. Algumas sorriam outras entravam em choque.
O constrangimento deu lugar à irritação a medida em que todos me encaravam.
- Alice, isso é coisa tua? - o sorriso do cara aumentou enquanto ele gritava a pergunta.
Algumas pessoas se moveram na minha direção, eu dei um passo para trás. Eu estava sozinha, com muitas pessoas desconhecidas, segurando a caixa do presente com as duas mãos na altura do meu peito, como um escudo.
- O que é coisa minha...? - isso vinha de uma mulher pequena de cabelos castanhos e curtos que vinha de uma sala ao lado. Ela estava folheando uma resma de folhas com uma expressão preocupada.
- Contratou uma "Kristen" - o homem disse, apontando para mim. Alice parou e olhou para mim. Achei que, nesse ponto, era melhor em concluir a confusão.
- Oi, o meu nome é Isabella Swan - eu falei um pouco para dentro. - Eu estou tentando devolver um pacote para Edward Cullen. - Eu estiquei os braços, indicando a caixa. Alice olhou para os papéis na mão dela. A expressão de confusão progredindo para uma de preocupação.
- A garota do chocolate quente?
- Sim. Na verdade, foi minha culpa e eu queria me desculpar - respondi, buscando esclarecer as coisas. - Ele me mandou isso como algum tipo de compensação, mas isso é… demais. E eu realmente preciso devolver.
Consegui observar pelo canto dos olhos enquanto os sorrisos desapareciam.
- Céus, você não sabe quem é Kristen? - Alice perguntou, o tom progredindo para o pânico.
- Eu realmente não sei de quem você estão falando. Olha, Edward é meu vizinho - eu estava em modo de defesa, eu sabia. - Eu acho que eu passei dos limites no outro dia e gostaria de nos deixar quites.
Alice olhou mais uma vez para os papéis nas mãos dela.
- Jasper, você sabe onde está o Edward? - ela perguntou para o cara de amarelo.
- Em uma das casas. Ele nunca me diz onde exatamente - ele respondeu, parecendo sutilmente frustrado.
- Localize-o. Eu acabei de receber o novo capítulo e Edward Regis está a beira de um suicídio. Parece que Kristen traiu ele - Alice respondeu, abandonando o olhar confuso e me oferecendo um que parecia apenas ódio. Jasper parecia chocado e correu para o que eu imaginei ser a mesa dele. Todos os outros já estavam fazendo suas próprias tarefas.
- Olha, eu só vou deixar isso aqui - eu disse, colocando a caixa na mesa. - Tem uma nota dentro. Só… diga para ele que eu sinto muito. - Eu queria fugir. Não tinha ideia do que estava acontecendo e, realmente, não queria saber. Girei nos meus calcanhares e tentei escapar.
- Isabella, espera! - Alice chamou, para evitar que eu continuasse - Tem algo que você precisa saber. - Eu virei, mas continuei a minha lenta saída, agora de ré. Alice andava rapidamente na minha direção. Eu via nada além de um novo problema nos olhos dela.
- Eu realmente não sei o que está acontecendo e, na real, eu não quero saber - eu respondi, meio freneticamente. Ela parou quando percebeu o quão confusa eu estava.
- Você mudou o cabelo faz mais ou menos um ano, né? - Alice perguntou calmamente - E essa jaqueta é a tua favorita, né? - diversas cabeças apareceram, obviamente interessadas nas respostas. Eu parei.- Marrom é a sua cor favorita, você prefere carne mal passada e tem alergia a camarão.
Eu a encarei. Chocada pelas informações.
- O que está acontecendo?
Parece que Edward escreveu um pouco sobre você - Alice explicou com o princípio de um sorriso.
- E todos vocês leem as coisas que ele escreve? - perguntei, olhando para os diversos rosto que esperavam a minha reação. A minha raiva estava começando a subir. Eu me sentia como parte de uma grande piada.
- Metade do país lê os trabalhos dele - Jasper respondeu a sua mesa - Nós estávamos comemorando a marca dos 75 milhões.
Eu nunca havia ouvido falar de Edward Cullen fora do apartamento.
- Ele usa um pseudônimo - Alice respondeu a pergunta não feita. Eu estava tentando reprisar as conversas que tive com Edward na minha cabeça, tentando lembrar em quais momentos eu havia repassado essas informações. Alguns encontros de corredor. Uma vez em uma reunião do condomínio. Meus olhos se moveram para a caixa de presente sobre a mesa.
- Sob qual pseudônimo? - pegando a caixa e apoiando-a contra o quadril. Não havia como não entregá-la pessoalmente agora. E falar tudo o que eu pensava desse asno que havia colocado minhas informações pessoais em um livro sem nem ao menos me informar.
- Confidencialmente? - perguntou e eu acenei. - Robert Pattinson -, ela respondeu.
- O Robert Pattinson? Por que ele escreveria sobre mim? Melhor, o que ele escreve sobre mim?
- Sim, o Robert Pattinson. Talvez você gostaria de ler um pouco e nós podemos resolver isso - Alice sugeriu e acenou para o seu escritório. Eu a segui e sentei em uma das cadeiras de couro que circundavam a mesa.
- Isso chegou agorinha. Está meio tosco, precisa ser lapidado - explicou e, com a voz um pouquinho mais agressiva, continuou - É algo bem diferente dos trabalhos anteriores. Parece que a Rainha Branca é mais despótica do que se havia imaginado.
- Quem é a Rainha Branca? - perguntei folheando as mais de cento e cinquenta páginas impressas.
- Você, se as minhas suposições estão corretas - se sentou ao meu lado. - Edward Regis chamou Kirsten assim na primeira vez que a viu, em uma exposição sobre Elizabeth Woodville. Era a ideia inicial dos livros. Incorporar a história de Elizabeth a um contexto da Ditadura Civil-Militar brasileira, uma visão de Edward Regis se apaixonando por ela. Ou, ao menos, eu achei que fosse isso. Kirsten, a nossa Elizabeth, é um mistério. Até o último livro, ela tinha algum tipo de relacionamento e nós a víamos surgir esporadicamente. Como se a história girasse ao redor dela, mas sem tocá-la. Cada vez que ela surge, Edward Regis se desmonta, esquece da resistência, da militância e da revolução.
- Edward Regis?
- O herói das novelas de Pattinson, ou do nosso Edward. Você realmente nunca tinha ouvido sobre isso antes?
- Não. Isso tudo é… tão estranho. Edward tem dificuldade em me dizer um oi no corredor. Por que eu?
- Só… lê o texto. Os cinco últimos capítulos será o suficiente - disse e saiu do escritório.
Eu tinha lido cinco páginas e já tinha a sensação de estar olhando em um espelho. Eu corei nas melhores partes e me encolhi nos meus defeitos. Como ele descrevia, não eram tão ruins como eu havia pensando. O meu queixo, que eu sempre havia pensando que era quadrado demais, ele via como o sinal da mulher forte e independente que eu era. E não havia como pensar de outra forma. Em cada página que Kristen aparecia, ela fazia Edward se questionar em todos os pontos mais centrais da vida dele, como se ela o instigasse a ser alguém melhor, mais convicto, mais estudioso. Ela era uma das figuras femininas mais fortes que eu já havia visto em uma ficção.
Eu me senti elogiada e ao mesmo tempo incapaz de viver para atingir esse ideal que Edward havia estabelecido com base em mim. Talvez ele tivesse se baseado apenas na minha aparência física. Sim. Era o mais provável.
No capítulo penúltimo capítulo as coisas mudavam drasticamente. Em meio a aparição pública de um dos generais da ditadura, Edward está tentando não ser visto enquanto coleta informações. Na pressa de sair do campo de visão de um militar conhecido, ele esbarra na Kristen. Ele não tem tempo de entender o que está acontecendo antes de ela acenar, indicando para o militar que ele deve olhar naquela direção e então, desaparece, nunca sabendo o que acontece depois.
Há uma perseguição pelo militar que o vê, graças à Kristen, um acidente.
O último capítulo descreve apenas a desistência de Edward. Esmagado sob um carro, Edward não tem forças para mover-se. Por alguns instantes, penso que entraremos no clichê de ele ser resgatado por Kristen. Os minutos passam e espero que seus irmãos de militância apareçam. Mas nada acontece.
Eu não tinha muita certeza sobre como uma ofensa havia terminado em uma morte metafórica. Estava parcialmente preocupa com o estado mental de alguém assim.
Eu era um péssimo ser humano.
- Então, terminou? - era Alice, apenas com a cabeça para dentro da sala.
Acenei.
- O que achou?
- Que… eu o machuquei. - Eu tinha que aprender a não descontar as minhas frustrações nas outras pessoas. Não há como saber se alguém tem condições de lidar com as palavras que jogamos nelas.
- Olha… Eu sei que isso te pegou meio de surpresa - ela disse, no tom mais compreensivo até agora. - Edward sente as coisas um pouco mais intensamente que a maioria. Isso é ótimo para os livros, mas pode ser um pouco doloroso para ele. Talvez você devesse falar com ele. Explicar que você não está chateada.
Eu não conseguia ter certeza se ela estava preocupada ou se queria garantir a galinha dos ovos de ouro dela.
- Mas é isso o que eu tenho tentando fazer! - me defendi. - Foi um acidente ao qual eu reagi mal por estar muito nervosa.
- Se eu conseguisse colocar vocês na mesma sala, você se desculparia? - ela peguntou, sondando se eu não deixaria as coisas ainda piores conversando com ele.
- Claro. É o mínimo.
Eu não tinha certeza se eu confiava nela. Mas eu poderia pensar sobre isso depois e só se fosse necessário.
- Bom - ela sorriu, aliviada demais para o meu gosto. - Jasper descobriu que ele está ficando na casa de um amigo que está fora do país. Ele não está respondendo ao telefone, você teria até lá.
- Lá?
- São Paulo.
Urgh. Eu odeio essa cidade. Como uma garota vinda de cidade do interior, era particularmente difícil para mim lidar com todo aquele movimento.
Eu tinha a desculpa do trabalho. Eu podia dizer que não seria liberada.
Nop, eu não conseguiria mentir.
- Eu não tenho o dinheiro para pegar um avião para São Paulo.
Isso era verdade.
- Eu dou um jeito.
Sem desculpas. Nem para mim, nem para ela.
- Foi só um chocolate quente. Acho que podemos esperar até que ele volte.
- Isabella, o meu escritor mais produtivo acabou de matar o personagem principal da série. Eu tenho a impressão de que ele não vai voltar.
Eu olhei para os papéis na minha mão, então para os meus pés. Ainda sem encará-la, perguntei:
- Vocês vão se encarregar de todas as despesas?
- Todas. Você pode ficar com a consciência limpa e Edward volta a não ter matado o personagem principal. - Yup, eu tinha razão, a prioridade provavelmente era curar a galinha dos ovos de ouro dela. Eu precisava apenas aceitar que nós estávamos usando uma a outra.
- Certo… então. Acho que estou indo para São Paulo - declarei com pouca confiança.
Lisa levou uns trinta minutos para estabelecer o meu itinerário, conforme especificações da Alice. Eu apenas precisava levar o meu próprio corpo e a minha mala para o aeroporto na manhã seguinte. Alice sugeriu mandar um carro para me pegar, mas isso passava os limites da minha moralidade.
O voo não era muito longo, mas o tempo de espera no aeroporto é sempre um incômodo. Além disse, havia uma escala. Peguei os dois primeiros livros da trilogia, que Alice havia me cedido, e comecei a lê-los. Logo de cara percebi duas coisas, Kristen era mais adequada aos padrões de beleza que eu, porque apenas isso justificava a minha segunda observação, ela era muito confiante nela mesma. Aliás, eu gostava mais dela do que de mim, pela forma como Edward a descrevia.
Não porque ela fosse perfeita, mas porque ela lutava para ser aquilo que ela queria ser. Era como se alguém tivesse pegado o ponto mais marcante da minha história e transformado em uma poesia de superação, era uma homenagem.
Peguei um ônibus no aeroporto mesmo e, então, um táxi. Não gostar de me locomover em uma cidade grande não queria dizer não ter a capacidade para isso.
A casa ficava em um dos bairros de elite, claramente diferente do condomínio que Edward e eu dividíamos. Alice havia conseguido um hostel a três quadras a pé. A reserva era de um dia, com a intenção de eu resolver tudo isso o quanto antes, mas havíamos deixado a passagem de volta em aberto. Havia apenas eu no meu quarto, não parecia uma época de grande movimento. Eram quatro horas da tarde e eu tinha algum tempo para juntar meus pensamentos e decidir como fazer isso.
Depois de responder a mensagem de Alice avisando que havia chegado bem e que tentaria falar com Edward ainda aquela noite, eu me deitei na cama.
Eu não sabia como lidar com pessoas. Eu era grossa. Alice provavelmente conseguia cheirar isso de longe, não é à toa que ela estava tão ansiosa.
O meu celular apitou de novo, apenas ela dizendo que, desde que eu garantisse que Edward entendesse que eu não o odiava, tudo estaria bem.
Ok.
Certo.
Eu conseguiria deixar isso claro.
Tomei um banho e coloquei a segunda roupa mais confortável que eu tinha, porque obviamente a primeira tinha lembranças ruins associadas, e decidi ir bater à porta dele.
Daria tudo certo.
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Críticas construtivas são apreciadas.
Agradecimentos a Mandy, Samanta e A pelos comentários :D
Respondendo a Sam, sim, eu situei ela no Brasil. Por uma mistura de interesse no período de Ditadura Civil-Militar e de preguiça de estudar o suficiente outro país para não falar besteira (risos).
Até!
Tia Nozes.
