Disclaimer: Os personagens não me pertencem.
Alerta: Conteúdo para maiores de 18 anos no último capítulo.
Capítulos: 3 de 4
Algo que me ocorreu enquanto eu estava lendo O Capital.
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- A Musa -
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Eu esperava que a caminhada ajudasse a me acalmar, mas uma expectativa que se mostrou muito mais otimista que a realidade. Quando cheguei à porta da casa, apesar de saber que eu não estava pronta para o que precisava ser feito, eu só queria que aquilo acabasse.
Toquei a campainha. Queria fixar os meus olhos na porta do outro lado da grade, mas não conseguia. Acobertei minha fraqueza olhando para as plantas com a expressão mais blasè que eu conseguia, algo me dizia que ele podia abrir ou não abrir a porta, eu não me importava.
Eu realmente era péssima pedindo desculpas.
Os barulhos do lado de dentro me indicaram que ele se aproximava e eu fixei a vista em uma folha específica, tão interessante que me mantinha absorvida demais nela mesma para eu reparar a perspectiva de abertura da porta.
Apenas quando pude ver os seus pés é que eu ergui os olhos. Ele estava de chinelos e havia dado um passo hesitante na minha direção.
Eu deveria falar, certo? Fui eu que apertei a campainha.
- Ah… oi, Edward. - o sentimento de estar sendo idiota estava aumentando ridiculamente. Esta não foi a melhor decisão da minha vida. - Isso por de parecer meio estranho… E é estranho… - eu sou a pior pessoa do mundo com palavras.
- Jantar? - ele perguntou. Meio que de lugar nenhum.
Era a minha chance de fugir do pedido de desculpas. E eu a agarrei instintivamente.
- Sim - e me arrependi. Ela significava passar mais tempo com ele. Céus, o que eu estava pensando?
Ele acenou e eu me forcei a olhar nos seus olhos. Só agora eu havia percebido que nunca nos havíamos olhado diretamente por mais que alguns segundos consecutivos, todas as nossas conversas haviam acontecido com o rosto dele virado para o chão e o meu fazendo viagens entre todas as coisas no ambiente, incluindo, eventualmente, ele. Pessoas antissociais tem este tipo de problemas.
Edward abriu a grade. Acho que nós dois estávamos tão chocados que perdemos um minuto inteiro parados um em frente ao outro. Eu percebi que os olhos dele sorriam sozinhos no mesmo momento em que me toquei que eu precisava me mover para que ele pudesse passar.
- Na real - o parei segurando-o pelo braço antes de perceber o que estava fazendo e largá-lo. - Eu só vim me desculpar.
- Podes fazer isso enquanto comemos. Essa é a minha segunda refeição do dia e eu acredito que as coisas não são tão simples a ponto de isso demorar poucos minutos.
Eu dei passos na direção que ele seguira, mais por instinto que por qualquer coisa. Ele falava. E falava frases longas e bem elaboradas.
- Você vem? - Só aí eu percebi que havia parado no meio do caminho. - Podemos fazer um jogo, se isso te deixar mais à vontade para conversarmos… O que você acha, Kristen?
O olhei, atônita. Ele estava me dando a chance de fazer algum tipo de encenação? De incorporar aquela mulher sobre a qual eu havia lido nos livros? Forte e confiante. Independente. Que jamais deixaria uma situação pegá-la desprevenida. A mulher que eu almejava ser.
- Sim, Edward. - Essa seria a noite mais estranha da minha vida.
A caminhada foi feita em silêncio. Eu o seguia, aproveitando os minutos para me recompor e pensar como agiria. Ou melhor, como Kristen agiria. Edward não demonstrava nada, nem o nervosismo de sempre. Parecia quase como eu não estivesse ao seu lado.
Eu não tenho muita certeza de por quanto tempo caminhamos. Só depois pensei que deveria ter prestado atenção no caminho caso fosse preciso eu voltar sozinha para o hostel. Teria que me conformar chamando um táxi caso fosse necessário. As matizes do bairro haviam mudado. Estávamos em frente a um boteco. Limpo, mas um boteco.
Edward pegou uma mesa na rua e logo um garçom veio com os cardápios.
- E aí, parceiro? - o meu colega de lanche apenas sorriu. Era aparente que eles se conheciam de antes. - Vou deixar cês escolherem com calma. Quando estiverem prontos me chamem.
Eu estava olhando, pensando o quanto eu queria comer o bacon, quando reparei que ele me olhava.
- Que que foi? - Eu precisava aprender a ser menos grossa. Kristen não teria usado esse meio de defesa infantil para lidar com isso.
Ele pareceu menos surpreso com a minha grosseria que eu.
- Eu estou feliz que você tenha vindo. - os olhos dele se suavizaram como se fossem um sorriso.
- Eu vim pedir desculpas… Eu estava nervosa e costumo ser excessivamente agressiva em momentos de inseguran- eu tentei terminar, mas ele deu dois tapinhas no topo da minha mão que se encontrava sobre a mesa.
- Você foi ótima. Eu não poderia ter escrito uma melhor reação. Você realmente é a Rainha Branca perfeita.
- Tá, podemos explicar isso antes de continuar com a metáfora? - até quando eu não estava sendo grossa eu era mais grossa que a maioria das pessoas.
- Há quase cinco anos eu te vi em uma exposição de Elizabeth Woodville. Era um momento da minha vida em que eu passava a maior parte do tempo no museu, eu não conseguia escrever. Vocês tinham o mesmo olhar. O de uma mulher com uma força subestimada pelos homens ao seu redor.
Eu o observei, tentando vasculhar na memória o último momento em que eu havia visitado um museu. Sem sucesso, desviei o assunto.
- Mas você se mudou para o meu prédio.
- Sim, uma coincidência que, nem se eu transformasse em livro, poderia ser justificada. Com os livros eu tive dinheiro suficiente para comprar um apartamento. Achei poético que ele fosse perto da onde eu te vi na exposição.
Ele sorriu de lado, como se estivesse se lembrando de alguma memória.
- Não é à toa que a Kristen tem algumas tendências de direita às vezes. Eu as imaginei em ti e, como eu estava trabalhando só com uma foto da tua vida, a Kristen é meio uma ilusão no começo da série. Foi levar algum tempo até eu entender quem tu eras. A essa altura, só havia base na história para eu adicionar um ou outro hábito que eu percebia em ti. Eu achava divertido.
Ele deu de ombros. De certa forma, o jeito dele com a situação me deixava mais calma. Estava considerando a possibilidade de ele ser algum tipo de stalker. Tinha até deixado um bilhete no meu quarto explicando a situação caso eu fosse encontrada morta.
Talvez eu tenha sido um pouco dramática.
- Já deu para perceber que eu não sou muito de direita?
Ele riu, acenando. Ao menos eu não fui tão grossa. Ou ele estava começando a entender o meu senso de humor.
- E você nunca foi muito sociável no prédio. Quando li os livros, não fazia ideia de onde você conseguiu aquelas informações.
- Você é uma pessoa excepcionalmente distraída enquanto anda e os meus anos de antissociabilidade mais extremos me fizeram um bom observador. Mas você tem razão. Eu intencionalmente evitava interações com você.
O choque dessa resposta direta deve ter aparecido no meu rosto, porque ele se arrumou na cadeira, inclinando-se mais para a frente e continuou:
- Acho que eu estava constrangido por estar escrevendo sobre você sem que você soubesse. Eu não queria ter que lidar com a conversa que estamos tendo agora.
Nenhum de nós queria, aparentemente. Talvez fosse melhor deixar as coisas às claras o quanto antes para eu poder voltar para casa.
- Alice parecia particularmente preocupada e insistente em que eu deixasse claro que não te odeio.
- Pelos livros?
- Pelo chocolate.
- Mas você me odeia pelos livros?
- Não… sei.
Eu odiava? Parecia tanto esforço para odiar alguém que havia escrito uma personagem que nem se parecia tanto assim comigo.
- Não. Acho que não. Mas ela foi tão insistente que achei que te encontraria enclausurado.
- Quando Alice me conheceu, eu estava no início do meu tratamento para Estresse Pós-Traumático. Acho que ela ainda não se adaptou aos resultados da terapia.
Eu acenei, sem querer perguntar muito mais. Apenas ligando alguns pontos.
- Essa viagem não foi uma crise então?
- Foi. Eu matei o meu personagem principal. Acho que eu tenho direito a uma crise.
- Alice tinha a esperança de que, com a nossa conversa, esse não fosse o fim da história.
- Alice tem um bom instinto.
- Você vai mudar a história?
- Não bem isso. Eu queria fazer a Kristen a personagem principal, mas não sei como você se sentiria sobre isso.
- Eu não estou considerando que somos a mesma pessoal, então, não vejo como isso me afetaria.
Ele acenou.
- Isso significa que você não se incomodou com o fato de eu ter colocado cenas de sexo explícito com alguém que tem a sua aparência em um livro?
Direto ao ponto. Muito direto ao ponto.
Eu corei.
Eu tinha corado nas cenas, mas não por pudor. Elas eram extremamente descritivas e, curiosamente, Kristen se parecia muito a mim no papel que ela desempenhava no sexo. Possivelmente, essa havia sido a única parte com a qual eu havia me identificado do livro.
- As cenas são muito bem… detalhadas. E criativas.
Ok. Eu enfiei a cara no cardápio. Nós não havíamos pedido ainda e isso, repentinamente, pareceu muito importante para mim.
- Essas costumam ser cenas que eu deixo se escreverem sozinhas. Talvez por isso pareçam mais criativas que o resto do livro.
Eu não tinha querido dizer isso. Mas o fato de eu não precisar mais conversar sobre isso me fez ficar calada.
- Eu acho que vou pedir um xis - eu balbuciei, os joelhos colados um no outro enquanto eu tentava achar uma posição confortável. Era uma sensação que sempre acontecia durante o meu período fértil, mas era incomum fora dele. Eu tinha considerado por um breve momento que isso poderia ser tema da conversa, mas achei que seria tão constrangedor que ele jamais traria o assunto a tona. Muito menos eu.
Ele acenou e passou os olhos pelo boteco, atrás do nosso garçom. Fizemos o pedido e ficamos em silêncio.
Ao mesmo tempo em que essa conversa toda estava sendo constrangedora, eu não queria exatamente que ela acabasse nesse instante. Eu estava falando com o cara de esquerda que, por enquanto e pelos seus livros, não era um esquerdomacho. Ele havia arrumado uma forma interessante de militância, escrevendo sobre a possibilidade de um mundo diferente do capitalismo. Ele tinha uma história de vida de resistência, havia muita coisa a ser descoberta e, no mínimo, isso me mantinha intrigada.
Eu precisava arrumar um assunto.
- Acho que a mudança de um personagem principal para outro não implica, necessariamente, na morte do primeiro.
Os olhos dele, antes da rua, se voltaram para mim.
- Não, não necessariamente.
- Eles poderiam até dividir o papel principal. Alternar entre eles. Algo assim… Desculpa, eu não sou muito boa de crítica literária.
Ele sorriu com os olhos antes de acenar a cabeça, mas não falou nada. Ao invés disso, ele ficou me observando. Eu tentei manter meus olhos nos dele, mas a minha timidez não tinha superado isso ainda. E o fato de que eu estava lembrando de uma cena de sexo específica do livro dele não estava ajudando.
- Nós vamos pegar algo para beber?
- Eu aceito o que você sugerir.
O meu lado tímido queria um destilado. O meu lado nacionalista queria cachaça.
- Cachaça?
Ele sorriu com os olhos de novo. Eu tive que forçar a memória para lembrar se o havia visto sorrir com os lábios. Nada me vinha à mente, possivelmente porque eu não estava prestando atenção antes.
Fiz sinal para o garçom. Pedi uma garrafa da cachaça da casa.
- Talvez eu precise da sua ajuda.
Eu o olhei de forma interrogativa para me poupar de ter que responder.
- Eu realmente gostaria que a Kristen se parecesse mais a você. Não sei se deixei claro antes, mas admiro muito a mulher que você é e basear a história na realidade é o mínimo que posso fazer como um homem tentando descrever uma mulher. E acho que isso pode acontecer com o amadurecimento natural da personagem ao longo da história, mas eu me sentiria mais à vontade, como pró-feminista, se uma mulher pudesse me guiar nesse caminho.
Céus, ele havia se chamado de "pró-feminista". Acho que era a primeira vez que eu via um homem dizer isso na minha frente. Deixando claro que ele não estava na posição de se julgar feminista e me dando a autorização para questionar isso.
- Alice não poderia fazer esse papel?
- Poderia. Mas eu gostaria que a personagem se parecesse a ti e a forma mais honesta de fazer isso seria conversando contigo. Te conhecendo.
Ele tinha razão. E, ao mesmo tempo, eu sentia que essa era uma forma concreta de pedir perdão por ter usado da minha imagem, mesmo que vagamente.
Movi os pés, tentei afastar o tronco da mesa. Eu me sentia fisicamente atraída por ele. Isso tinha ficado bem claro quando li as cenas com o rosto dele em mente. Estar atraída fisicamente não me assustava. Considerar que ele seria uma pessoa da qual eu me aproximaria para, ao menos, uma amizade, sim.
- Mas é possível? Mudar a personagem, eu digo.
- Acho que sim, acho importante que sim. Reforçar a ideia de que nós podemos nos desconstruir e nos reconstruir como pessoas diferentes é importante. E que o primeiro passo é reconhecer as nossas limitações. Mais que isso, buscá-las.
Nossos lanches chegaram no meio da fala dele.
Fazia tanto tempo que eu não comia um xis-bacon que me distraí por alguns minutos.
- Não quero dar a ideia de que é possível amar uma pessoa à distância, ou de que uma atração inicial sozinha possa levar a um relacionamento duradouro. Por isso, eles não podem ficar juntos no livro, não por enquanto.
- Precisas construir uma relação real para os dois?
- Sim. Por isso que acho que há espaço para ela mudar. O que ele via dela não era suficiente para constitui-la como uma pessoa, complexa na existência dela.
Eu tinha quase certeza de que essa era uma indireta. Quase.
A pergunta verdadeira era se eu queria me comprometer a passar algum tempo com ele. Para ajudar a "construir a personagem".
- Eu gosto da mulher que eu sou, mas jamais teria imaginado ela como um tipo de exemplo.
Ele sorriu com os olhos e eu ri por dentro.
- Tu és de alguma linha do feminismo?
A pergunta me surpreendeu. Primeiro, porque as pessoas aglutinavam as feministas todas em um único espaço, segundo porque eu não esperava que alguém gostaria de conversar sobre isso.
- Classista - respondi. Admito que foi teste. Queria ver se ele sabia do que se tratava.
- Marxista?
Na mosca.
Acenei para não parecer excessivamente empolgada.
O problema é que eu estava. Encontrar pessoas que entendessem o suficiente sobre os temas para conseguirem chegar às conclusões sozinhas era raro. E abria portas para interação com ele. Eu só precisava ter certeza de uma coisa.
- Também?
Eu tive quase certeza de que ele dobrou os lábios, o corpo inteiro dele pareceu se mexer, como se mais leve.
- Achei que fosse óbvia a linha meio comunista do livro.
- Um pouco.
O meu sanduíche já estava quase no fim. O meu copinho de cachaça estava na metade. A sensação súbita de que eu estava gostando mais dessa conversa do que eu deveria me fez virá-lo de uma única vez.
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Eu não tenho como me desculpar pela demora além de dizer que minha vida anda caótica em nível profissional e pessoal. Sinto muito :T
Admito que me achei essa cena particularmente difícil de escrever. Tanto que não achei que havia clima para o conteúdo para maiores de 18 anos no momento. Ele ficará para o último capítulo :D
Em virtude de ter demorado muito a postar, estou postando agora, sem nenhuma revisão. Se alguma de você encontrar algum erro, por favor indiquem para que eu possa consertá-lo :D
Abraços,
Tia Nozes.
