Saint Seiya pertence ao Masami Kurumada.

Baseado em um sonho que tive em 2008

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Theory of Nothing

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VIII

Novos Amigos, Velhos Inimigos

"Mantenha seus amigos perto, e seus inimigos mais perto ainda." - O Poderoso Chefão

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22 de janeiro de 2012, 14h28min

Algum lugar

Os cavaleiros se viraram para a voz às suas costas e deram de cara com um jovem de cabelos azuis, e ao seu lado, uma jovem loira.

- Poseidon? Está vivo?! - Aioria apontou em sua direção, enquanto que os outros rapidamente rodearam a deusa.

- Isso é impossível! Atena te derrotou e te prendeu! - Aldebaran se adiantou e ergueu os braços, fazendo uma muralha entre eles. - Quem foi que te libertou?!

- Estou vendo que não se esqueceram da última vez que apareci. - Poseidon sorriu. - Me parecem ótimos, mesmo depois da Guerra Santa. (1)

- Não mude de assunto! - Milo apontou seu dedo indicador, onde um ferrão de escorpião emanava veneno. - Por quê está atrás de Atena?!

Saga, Máscara da Morte, Aioros, Shura, Camus e Afrodite ficaram em volta da garota, embora não tivessem participado da Guerra entre o deus dos Mares, ouviram as histórias das batalhas, e pela descrição podiam julgar que aquele parado era Julian Solo. Mas, embora seu Cosmo fosse grandioso, podiam sentir que não era o de uma pessoa com más intenções. Mu, Shaka, Dohko e o mestre ficaram parados, observando. Poseidon não parecia que seria um problema.

- Oh, realmente, posso até ter perdido para aqueles Cavaleiros de Bronze, mas nada se compara aos Cavaleiros de Ouro. - Poseidon abriu seus olhos que tinham um certo brilho estranho. - Gostaria de saber se são mais poderosos que meus Generais.

- Seu maldito, ser vencido uma vez não basta?! - A unha do escorpiano estava rubra.

- Vou te fazer pagar por ter sequestrado Atena! - Aioria concentrou seu poder em seu punho, pronto para disparar um de seus golpes. - Pode vir, se tiver coragem! - e iria atacar, se não fosse pela mão de Saori, que o impediu,

- Aioria, já chega. O restante de vocês também. - E direcionou seu olhar ao jovem. - Julian, que bom que está a salvo.

- Como é que é?! - Milo ficou boquiaberto, assim como outros.

- Fico feliz em vê-la novamente Saori, espero que nosso último encontro esteja perdoado. - começou a andar em direção da garota, pegando em sua mão e dando um pequeno beijo nesta.

- Mas é claro. Afinal, não teria vencido Hades sem sua ajuda, muito obrigada. - sorriu.

- Ok, agora ficou esquisito. - Shura ergueu as sobrancelhas. - Vocês não disseram que Poseidon queria inundar a Terra?

- Ele quis isso no passado, mas agora... - começou Mu, também confuso com o que estava acontecendo.

- Agora, nós somos aliados. - a deusa respondeu. - Foi Julian que enviou suas armaduras para Seiya e os outros aos Elísios. Certo?

- Correto.

- Não precisam se preocupar. - sorriu.

Shion, a muito contra gosto, concordou com a jovem.

- Rapazes. - disse com voz grave.

- Mas, Mestre...

- Milo. - e com isso, todos desfizeram a postura de ataque.

O Imperador dos Mares deu um pequeno sorriso de canto com toda aquela agressividade enrustida nos cavaleiros.

- Senhor Poseidon, posso avisar aos outros que estamos aqui? - a loira perguntou.

- Ah sim Thétis, faça isso.

- Que "outros"? - Atena olhou desconfiada, enquanto que a sereia afastava-se do campo aberto e dirigia-se para o meio das árvores.

- Você não é a única a ter seus preciosos cavaleiros de volta. - Julian fixou seu olhar em um cavaleiro em específico. - Isso vai ser interessante. - murmurou.

Mas é claro que Atena sabia do que o grego estava falando. É claro que todos ali sabiam a quem ele se referia. E é claro que a pessoa que Poseidon encarou, entendia o olhar. Mas ninguém imaginava o que poderia acontecer.

Minutos depois a comandante retornou, vestindo sua armadura vermelha, e logo depois alguns vultos surgiram. Acompanhando a guerreira, um jovem de belos olhos rosados e cabelos lilás apareceu, carregando uma linda flauta transversal dourada e vestindo sua Escama, seguido de dois rapazes. Ambos seus olhos eram verdes marcantes, entretanto, o primeiro tinha um comprido cabelo castanho leitoso e seu capacete representava um cavalo marinho, enquanto que o segundo tinha um cabelo curto e verde, além de que seu olhos esquerdo era totalmente nublado devido a cegueira, e em sua face havia uma profundo cicatriz.

- Isaak?! - Camus ficou boquiaberto, aquele era seu pupilo a anos atrás. Que deveria estar morto depois de ter salvo Hyoga.

- Mestre Camus. - O garoto fez uma breve reverencia em respeito. - Fico aliviado em saber que o senhor está salvo.

- Depois nós explicamos, Camus. - Milo apertou o ombro do colega, e este acenou com a cabeça.

- Explicar o que? Que o Isaak é um General Marina, ou que ele tá vivo? Hehehehe. - um homem de corpo pequeno e pele cinzenta surgiu, uma voz estridente e dentes afiados. O capacete dourado ocultava parciamente seu rosto pontudo, mas seus olhos escuros e maliciosos eram visíveis. - Ou que ele traiu seu Mestre?

- Não se intrometa Kasa. - A voz grossa do homem de longos cabelos brancos e pele escura fez o general de Lymnades calar-se. Krishna se posicionou ao lado de Sorento, com sua lança em punhos, uma lança tão afiada que dava a sensação de ter a retina cortada apenas ao olhá-la. Ao lado deste estava um rapaz mais jovem e de longos cabelos rosados. - Não é da nossa conta,

- Chegamos finalmente? - e o moço cuja armadura lembrava várias bestas, levou um pisada dura em seu pé. - Bian! - E o rapaz dos cabelos castanhos permaneceu em silêncio, apenas indicando com a cabeça o último General que ficou do outro lado do Imperador dos Mares.

A a rmadura de Oricalco brilhava e ocultava seu corpo, exceto sua face, já que a máscara protetora estavam em suas mãos. Os cabelos longos e azuis balançavam com a brisa fria que passava. Embora as sobrancelhas estivessem franzidas, os olhos azuis escuros mostravam gentileza e compaixão e mais um outro sentimento enquanto olhava com firmeza o homem a sua frente.

Saga sustentava o olhar forte de seu irmão. Esta sempre fora a qualidade e também o defeito de Kanon, seus olhares podiam passar tudo o que este quisesse à quem quisesse. Podia sentir os outros olhares curiosos e cuidadosos dos demais, mas nenhum deles importava, não agora. Não podia evitar de sentir certa ponta de orgulho do mais novo, ao lado do deus dos mares e a frente dos demais. Ele realmente mudara. Ele era outro. E o remorso caiu novamente sobre o coração do guardião da terceira casa.

Kanon por sua vez sentia vergonha de te-lo feito mudar de personalidade no passado, por ter plantado em seu coração a ideia maligna de matar Atena. Mas também sentia saudades e preocupação sobre o irmão mais velho que teve que enfrentar. Ele realmente mudara. Ele era outro. E o orgulho tingiu o coração do Dragão Marinho.

O sentimento bom e o sentimento ruim inundava a mente dos dois. Sentiam vontade de se aproximarem e abraçarem-se, e ao mesmo tempo sentiam vontade de erguem suas mãos e matarem a si mesmos para apagar o mau que cada um infringiu ao outro. Queriam ficar mas também queriam fugir.

O pensamentos contraditórios colidiam entre si. E naquele momento ninguém teve dúvidas que eles foram os gêmeos que um dia disputaram a armadura da bipolaridade. Eles sentiam tudo e ao mesmo tempo nada. E depois de tantos anos separados finalmente sentiam tudo aquilo de novo. Pois quando estão juntos não poderiam evitar. Um era o oposto do outro. O outro sempre embalharia sua mente com seus pensamentos opostos. E sempre seria assim. Eles eram irmãos gêmeos, e nada mudaria.

Gêmeos...

- Saga.

- Kanon.

O restante, inclusive os deuses, permaneceram em silencio. Aqueles que os conheciam bem sabiam a confusão que passava na mente dos dois. Os que não conheciam, podiam sentir a atmosfera tensa. Tão tensa...

- Seu idiota, eu te vejo por cinco minutos e já está me dando enxaqueca. - Kanon segurou a cabeça, como se esta fosse cair.

- Eu que digo, já está me dando problemas. - Saga apertou as têmpuras fazendo uma careta.

O grande problema destes dois não é a dupla personalidade ou as distintas opiniões sobre todos os assuntos, mas sim a Mente. Muito antes de terem nascido, a mente dos dois já era interligada, e com o passar dos anos esta ligação se aprofundou, com tamanha força que não só sabiam o que o outro pensava, mas o que eles sentiam. O que, é claro, gerava muita dor de cabeça.

Enquanto se encaravam, os dois chegaram a uma conclusão em silêncio. Um não podia culpar o outro. Ambos tinham culpa. E ao mesmo tempo ninguém era culpado. Esqueceriam o que aconteceu, tal como quando eram crianças e brigavam, se perdoavam e depois esqueciam. Não seria diferente desta vez. Pelo bem dos amigos, pelo bem daqueles que juraram proteger. E pelo bem deles mesmo, que mais do que nunca desejavam ser uma família novamente.

- Todo mundo ficou louco hoje. - Milo sussurrou para Camus, e este sorria.

O escorpião estranhou aquele gesto e teria feito uma piada para Aioria, isto é, se este também não sorrisse feito idiota! Olhando bem... Estavam todos sorrindo! Até mesmo Shaka, Mestre Shion, os generais estranhos e esquisitos, e por Zeus! Máscara estava sorrindo! Sorrindo de verdade!

- O fim do mundo veio mais cedo...

Saori e Julian trocaram um olhar divertido, como se fossem velhos amigos, para logo depois o Imperador perguntar:

- Onde está Seiya? Creio que seria tolice deixá-lo de fora dessa competição de poderes.

- Seiya... ele ainda não despertou, depois que Hades cravou sua espada no peito dele. - respondeu Atena, mas completou com doçura. - Mas sei que quando menos esperarmos, ele estará de volta.

- Sim, mas é claro. - o jovem deus voltou a observar a clareira que se encontravam. - Aquele garoto é especial.

Atena concordou com um breve aceno. O sofrimento que Pegasus estaria passando... aquilo a fazia sofrer também.

- Mas retornando ao assunto principal, sabe onde é a entrada daquele lugar desgraçado?

- Estamos há horas e ainda não encontramos. - completou Thétis.

- Também não sabemos. - Saori respondeu. - Shaka sentiu um Cosmo vindo daqui, mas parece que era o seu próprio.

- Eu quero ir para casa... - Aldebaran se lamentou em silêncio.

- Eu também, esse lugar está me cansando. - Afrodite sussurrou.

- Estamos andando feito baratas tontas a mais de quatro horas e não chegamos no lugar certo?! Agora é que não confio naquela menina mesmo!

- Concordo com o Máscara, não há mais lugar para irmos. A não ser que queiram ir para a boca do vulcão. - Aioria parou sua reclamação assim que sentiu um forte cheiro de enxofre. - Eu retiro o que disse, vamos ficar aqui.

- De qualquer forma, este é o único local que possui algum Cosmo. - disse Mu.

- Todo o resto deste lugar está morto. - sentenciou o virginiano.

- Está mesmo. - Bian comentou. - Estamos andando por aqui a horas. Praticamente mato e pedras.

- E gente chata. - completou Kasa.

- E gente chat... Hei!

- Você é o primeiro da lista, Kasa. - Kanon falou.

- Hã? Eu?

Poseidon sorriu, mas logo se voltou para Atena.

- Então, o portal está aqui em algum lugar, só não sabemos onde ele está. - prosseguiu. - Alguma ideia?

- Acho que temos de olhar onde mais ninguém olharia.

O Sol da tarde iluminava todo aquele clareira, refletindo seus raios luxuosos nas simples pedras de basalto lisas. Simples até demais comparado ao magnífico jardim de frutas e flores que ali havia. Eram cinco pedras de tamanho médio, estavam dispostas longes uma das outras, formando algo que lembrava um semi-círculo, cuja face era voltada para o Sol que agora descia pelo oeste, ofuscando a visão daqueles que olhassem para elas.

Saori aproximou-se de perto, arrastando seu longo sobretudo pela grama fresca enquanto que os demais ainda discutiam.

- E se subíssemos um pouco mais? Quem sabe a energia do Cosmo não aumenta? - O general das Bestas sugeriu.

- Estamos andando a horas para achar esse resquício de poder, se sairmos daqui a única coisa que vai acontecer será o Cosmo sumir. - retrucou Téthis.

- Ainda acho que caímos em uma armadilha.

- Quer parar com isso caranguejo? Ainda nem olhou esse lugar direito, talvez se vasculhássemos a área...

- Mas Aldebarean, não tem o que vasculhar, estamos numa clareira com grama e coelhinhos.

- Agora eu senti sua masculinidade Aioria. - Shura riu. - Milo, passe algo pra comer, isso vai demorar pelo visto.

- Eu não sou a sua lancheira. Peça ao Camus pra fazer sorvete para nós!

Camus, que conversava com Isaak, lançou um olhar mortífero ao melhor amigo.

- Perdeu o pouco juízo que tinha?

- E como prato principal, teremos escorpião na moranga!

- Boa ideia Aioria, estou com tanta fome que até comeria isso. - Aldebaran riu. - Mesmo o Milo aqui ser pele e osso.

- Eu vou te mostrar quem é de pele e osso!

- Cavaleiros reduzidos à pessoas com fome. - falou Krishna. - Ridículo.

- Vai falar que não está com fome? - Máscara ergueu uma sobrancelha.

- Não deviam estar ajudando a procurar a entrada? - Sorento perguntou cético.

- Os únicos que têm percepção de Cosmo forte o suficiente são o Shaka, o Mu, o Saga e o Mestre. - Milo respondeu simplista. - Deixe esse trabalho com eles.

- Milo, não é assim que as coisas funcionam. - o ariano mais novo bronqueou. - Ajude.

- Vem cá. - começou Kanon. - Se nós voltamos, e vocês também. - apontou para o irmão. - Quem mais aquela garotinha trouxe de volta a vida?

- Garotinha? - Máscara fechou a cara. - Está falando daquela garota esquisita que se diz deusa? Não faço a menor ideia quem mais ela trouxe a vida, mas pode ter certeza que não estou gostando nada do rumo que as coisas estão tomando

- Julian, venha cá, por favor.

Os rostos masculinos e da sereia se voltaram para deusa que estava ajoelhada em frente a uma pedra. Atendendo o pedido, o deus dos mares - que estava apenas ouvindo as várias reclamações - andou até ela, mas foi forçado a apertar seus olhos, pois a luz que batia nas pedras o ofuscava.

- Se lembra que Hefesto gravava em ouro as Profecias dos oráculos e dava como presente aos deuses?

- Sim, eu mesmo tinha algumas. O que tem isso?

- Olhe. - Saori apontou para a terceira rocha, era uma das menores que havia ali, poderia passar despercebida, mas assim que o Imperados se aproximou teve que arregalar seus olhos.

O lado da pedra que estava voltada para a Luz era totalmente dourada, como o ouro. E entalhado em latim, com letras delicadas, dizia:

"O pereat non potest inveniri locis. Alioquin ubi quisque cognosceret."

(Deve-se estar perdido para achar locais que não se pode achar. Caso contrário, todos saberiam onde fica.)

- Que brincadeira de mau gosto... - Julian suspirou, para logo em seguida levantou o corpo. - Acho que já temos nossa direção. - e erguendo a mão direita, o Tridente dos Mares se materializou. Enquanto que seu terno cinza deu lugar para uma longa túnica branca, caprichosamente decorada com um manto e um cinturão de ouro.

Saori fez o mesmo que o amigo, e erguendo suas mãos tomou posse de seu báculo e sua roupa humana tornou-se um belo vestido alvo.

Atena e Poseidon ergueram seus Cetros em sincronia e no segundo seguinte, todas as pedras começaram a reluzir como joias ao fogo.

Os demais sentiram o ar ficar denso e rarefeito, e um zumbido soou por toda a extensão em que estavam. Segundos depois, as coisas se normalizaram. Ou quase isso.

Pareciam que estavam na mesma clareira que antes, mas haviam diferenças que denunciavam que já não estavam tão perdidos assim. As cinco rochas revelaram-se esculturas enormes. As quatro rochas transformaram-se em quatro lindas mulheres que, aparentemente, dançavam e a outra que chamara a atenção de Atena tomara a forma de um bloco maciço onde se podia ler os dizeres mal encarnados e fantasmagóricos a ouro e prata: (2)

Finis inter coelum et terram, inter Deum et homines.

(O limite entre o céu e a Terra, entre deuses e humanos.)

Qui ausus per terram meam, admonendi. Qua Terra patet lex cultus.

(Aqueles que se aventurarem por minhas terras, estejam avisados. A lei que se faz nesta Terra de adoração é clara.)

Fugite desperati et ignaviam urripuit.

(Fujam os desesperados e covardes.)

Et ceteri celebranturque.

(E glorificados sejam os que permanecerem.)

Pro eis, dare corde bono modo lotus lux

(Pois a eles, entrego o bom coração banhado de Luz)

Aliquam erat, quia non revertetur,

(Prossigam, pois não hão de retornar)

Fulgentem gladium ardentem flammam custodiendam viam ligni vitae

(A chama da espada fulgurante a cintilar guardará o caminho para a árvore da vida.)

Et te perdere noluit.

(E te destruirá.)

- Acho que chegamos. - murmurou Milo, enquanto lia as escrituras.

- Você tinha razão aranha, vamos mesmo morrer. - Aioria estava boquiaberto com o aviso.

- Eu falei que isso era uma armadilha. - exclamou Máscara.

- Agora não temos mais como voltar. - disse Poseidon, enquanto dava as costas para o pedregulho. - Está na hora do show.

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22 de janeiro de 2012, 14h53min

Algum lugar

Era uma sala cheia de instrumentos musicais e sofás, poltronas, pufes e tapetes.

Ao piano, um homem de cabelos louros e cacheados tocava Nocturne de Chopin, ignorando todo o seu redor. A sala tinha uma coloração amarelada devido aos raios de Sol que entravam pela janela. (3)

- Há coisas se aproximando. - Havia um outro homem na sala, deitado preguiçosamente em um dos sofás, olhando para o teto todo pintado de ninfas.

O pianista não respondeu, continuando a tocar a música.

O rapaz deitado não se intimidou com o silêncio, e continuou seu monólogo.

- Quais são seus pressentimentos para tudo isso?

Novamente, obteve como resposta apenas o som das teclas do piano.

- Se quer a minha opinião, não estou com sensações agradáveis sobre o que está acontecendo. - Passou as mãos por seus cabelos, bagunçando-os mais ainda. Seus cabelos tinham uma incrível coloração cinza, quase prateados.

Bufou enquanto esperava o outro terminar seu solo, encarando sem parar as várias ninfas que pareciam brincar no teto.

A música foi tornando-se mais aguda e calma, por alguns minutos, até finalmente parar. O pianista permaneceu com as mãos ao piano sem mudar de postura, até que abriu os olhos, revelando íris alaranjadas.

- Eles chegaram.

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22 de janeiro de 2012, 14h58min

Algum lugar

O lugar que estavam era semelhante ao campo que deixaram minutos atrás. Exceto pela grande rocha talhada a ouro e quatro esculturas de mulheres, que outrora eram apenas pedras no chão. Mas todo o resto era igual. Estavam cercado por árvores, grama, sons de animais se locomovendo e o Sol da tarde.

- Estamos tão perdidos quanto antes. – o estômago de Milo roncou. – E eu continuo tão faminto quanto antes.

- Grande novidade, tem um buraco negro na sua barriga, não é possível. – Aioria sentiu seu estômago roncar também.

- Como dizia?

- Estamos mergulhados em uma floresta. De novo. Ouvindo reclamações. De novo. - Máscara apertou as têmporas. - Só eu estou com vontade de matar alguém?

- Eles só sabem reclamar? – Sorento apontou Máscara, Milo e Aioria.

- Costuma ser pior, agradeça que o Mestre Shion está aqui. – Mu suspirou.

- Vocês estão atrasados.

Então, uma voz feminina soou na clareia, fazendo com que os olhos se voltassem à dona daquelas palavras. Escondida por um tronco, surgia o rosto de uma jovem, de pele morena, olhos azuis e longos cabelos castanhos, com uma expressão acusadora no rosto delicado.

- Deviam ter chegado à hora do almoço! Ficamos esperando!

- Hãn... desculpe? – Shura ergueu uma sobrancelha.

- Bom, isso não tem importância. - saiu detrás da arvore, revelando seu corpo. - Pelo menos estão aqui. - falava consigo mesma.

- Acho que não estamos mais perdidos. - comentou Poseidon.

- Senhora Atena? Senhor Poseidon? – a moça voltou sua atenção para os dois deuses. – Sou Tália, musa de Apolo e, em nome dos outros deuses, dou as boas vindas aos senhores.

- Obrigada, Tália. - Saori sorriu gentilmente. - Onde estão os outros? - estranhou que ela estava sozinha.

- Cansaram-se se esperar por vocês e se retiraram. - fez outra reverência. - Peço desculpas.

- Não se desculpe pelas más maneiras desses folgados. - falou Poseidon. - Creio que seja nossa guia.

- Sim, senhor. - ergueu o corpo. - Me sigam, por favor. - deu as costas e se voltou para as árvores, caminhando em sua direção.

- Isso só pode ser uma brincadeira... - disse Afrodite. - Se embrenhar na mata?

- Não me importo de brincar com ela. - Máscara sorriu com malícia.

Os dois deuses não recearam o caminho e seguiram a moça, mas os cavaleiros trocaram olhares antes de irem ao seu encalço e embrenhar-se na mata. Ao contrário do que pensavam, a floresta não era fechada, e era perfeitamente visíveis os vários feixes de luz iluminando o caminho.

- Meu senhor Apolo ficará contente em ver sua irmã mais nova. - A musa se referiu a Atena.

- Mesmo? - a jovem ficou receosa. Deuses se dando bem?

- Qual Musa você é? - perguntou Julian.

- Musa da comédia. - a menina voltou o corpo esguio a eles, andando de costas, como se tivesse decorado o caminho de grama. Ela vestia um vestido simples e azul, até os joelhos. - Calíope deveria ser sua anfitriã, mas como demoraram, ela achou que não viriam hoje.

- Oh, demoramos tanto assim? - Atena ficou surpresa. Que horas seriam?

- Não foi fácil encontrar esse lugar. - o estômago de Aioria voltou a roncar. - Não é como se estivéssemos fazendo hora.

- Oh. - riu. - Estão com fome! Não se preocupe, comida é o que não falta, e além disso, as ninfas adoram cozinhar. Serão bem servidos.

- Somos os últimos a chegar?

- Imagino que sim, senhora Atena. A menina Apola apenas pediu para que esperássemos a chegada de vocês dois.

- Meu irmão está aqui. - os lábios de Julian se curvaram num sorriso de canto. - posso sentir

Os cavaleiros também sentiam. Podiam até jamais terem visto Zeus frente a frente, mas era impossível não reconhecer o grandioso Cosmo que claramente subjugava os outros. O cosmo tempestuoso de Zeus, o deus dos deuses.

Mas haviam outros cosmos naquele lugar, alguns sinistros, outros calmos, mas todos fortes.

Os olhos azuis de Tália se curvaram em outro sorriso.

- Há outros deuses e deusas aqui com seus servos, ninfas e guerreiros. - olhou diretamente para Saga, que franziu o rosto. - A maioria está aqui a bastante tempo.

- E o que faziam nesse lugar esquecido por deus? - perguntou Julian.

- Ah. - riu novamente. - Acho que a senhorita Apola responderá suas perguntas, meu senhor.

Ela continuava a andar de costas, avaliando atentamente as pessoas novas.

- A propósito, vou explicar algumas regras desse lugar, antes que zanguem algum dos outros senhores. É proibido sair da montanha, a menos que algum dos deuses ou Calíope autorize e nenhum humano comum pode entrar, a menos que seja uma ordem. Temos ninfas a seu dispôr, para qualquer necessidade mais... íntima. - Milo quase pulou de alegria ao ouvir isso, enquanto que Shaka sentiu repulsa - As outras estão encarregadas de seus afazeres, cozinharão, limparão e cuidarão de vocês a qualquer momento.

- Prostitutas em um lugar sagrado? - Camus sussurrou com asco.

- Não reclame Camus, quero ver como vai ficar daqui algumas semanas sem sexo.

- Milo, cale essa maldita boca antes que te expulsem daqui.

- Ué... Eles que oferecem carne fresca e eu que sou expulso? - levantou uma sobrancelha. - Cavalo dado, não se olha os dentes.

- Não são prostitutas, são hetairas (4). Mas não se preocupem, nenhuma delas mordem... com força. - e dizendo isso, ergueu-se na ponta dos pés e pegou um pêssego maduro, jogando a Aioria. - Apenas não irritem os outros deuses, embora o currículo de vocês te digam para fazer o contrário.

- Então já ouviu falar de nós? - Milo sorriu exibido.

Tália sorriu ao escorpião, ela adorava seres humanos, eles eram tão imprevisivelmente previsíveis.

- Cavaleiros de Ouro e Generais Marinas. Quem nunca ouviu falar de vocês? - voltou a andar para frente. - Mas vão descobrir que é melhor não criarem confusões por aqui.

- Se não o que? - indagou Shion.

- Vão descobrir isso também. - riu, como se soubesse de uma piada interna.

- Agradecemos a hospitalidade, Tália. - começou Atena. - Mas não temos a intensão de ficar aqui por um tempo prolongado.

- Ah, é mesmo? - a musa pareceu se entristecer, mas logo sorriu. - Bom, mas serão bem servidos enquanto ficarem!

Continuaram a subir e a vegetação ficara mais esparsa com apenas grama e arbustos. Mais a frente, avistaram uma enorme construção de mármore branco. Esplendoroso era pouco, magnífico. O alto do gigantesco prédio haviam treze esculturas de anjos, cada qual com sua face voltada para um lado, como protetores. À frente do palacete, tinha uma bela fonte de água, três jatos erguiam as águas cristalinas ao céu, e ricocheteavam entre humanos com armaduras que lutavam com demônios. O campo de batalha molhado era cercado por um belíssimo jardim, coberto por flores brancas, dando a impressão de o chão estar coberto por neve.

- Bem vindos a sua nova casa, meus senhores. - disse Tália, mas todos estavam ocupados demais admirando, encantados pelo lugar para dar ouvidos a musa. - Pelo menos por enquanto.

A fachada do palácio consistia por doze colunas alvíssimas coríntias enormes, bem espaçadas entre si e detalhadas com arabescos e cercadas de roseiras trepadeiras, todas brancas. Ao passarem por entre as colunas deram de cara com portões de madeira, imponente e imutável, e ao se aproximarem esta abriu-se, permitindo a passagem dos novos intrusos.

O interior era tão fascinante quanto o exterior. O pé direito era maior que um prédio de cinco andares e tudo era rigorosamente decorado. Ao que parecia, estavam em uma espécie de Hall circular, a única iluminação provinha de velas dispostas em todos os cantos. A porta fechara-se com estrondo, escurecendo o local. Haviam dois homens naquele local, vestidos casualmente de togas vermelhas e espadas na cintura.

- Pietro, Sandro. - cumprimentou a musa, recebendo uma pequena reverencia.

- Só eu estou com calafrios aqui? - Afrodite sussurrou.

- Olha, se eu nunca tivesse morrido, eu juro pensaria que estou em uma das prisões do inferno. - disse Kanon.

- E os palhaços ai? Estão vestidos pra alguma peça de teatro? - Milo soltou uma risada escandalosa se referindo aos soldados, fazendo com que Camus desse um tapa em sua nuca e os dois jovens voltassem seus olhos para o escorpião.

- Chi sono questi? (Quem são eles?) - voltaram-se para Tália que simplesmente deu de ombros. (5)

- Convidados de sua senhora.

- Perché sono armati? Sono abiti per qualche pezzo di teatro? (Por quê estão armados? Estão vestidos pra alguma peça de teatro?) - o maior deles apontou para a armadura, espalhafatosa, de escorpião.

Nisso, Máscara e Tália deram risadas, o primeiro batia no ombro de Milo.

- Qual é a graça, seu retardado?

- Sou um retardado que fala italiano e entende o que eles dizem. - voltou a rir. - Você é muito idiota.

- O que disse, seu maldito?!

- Milo, pare com isso, antes que eu te congele.

- Realmente, eles só sabem brigar. - repetiu Sorento. - Por que eles não compreendem nosso grego, mas te compreendem, senhorita?

- Cada coisa a sua hora, senhor. - Tália voltou seu olhar para o general e sorriu. - Não precisa ser formal conosco General, somos iguais.

- Há mais soldados aqui?

- Sim Atena, mas são apenas a Força Tribal (6) deste lugar, não se preocupem.

- Tália, podemos ver Apola agora? - perguntou Poseidon.

- Hã? Ah, claro, senhor. - se voltou para o maior soldado. - Pietro, chame Gaia, por favor.

- Ella ha detto che sarebbe occupato (ela disse que estaria ocupada).

- Chame-a mesmo assim. - andou até uma outra porta, menor que a primeira que passaram. - Diga que Atena e Poseidon estão aguardando no salão do trono.

- Si (sim).

- Os senhores podem me seguir por aqui. - Abriu, dando a visão de um longo corredor.

Saori e Julian se encararam antes de seguir a Musa. Shion e Thétis nem pensaram antes de segui-los, assim como Shaka. Mas os outros ainda ficaram naquele hall por alguns segundos, encarando os soldados e sentindo a energia completamente diferente da que estavam acostumados.

- Che cosa aspetti? (O que estão esperando?) - perguntou o soldado menor, Sandro provavelmente. - Andare (vão).

- Non on ricevere ordini di zanzare (não recebo ordens de mosquitos). - Disse Máscara da Morte, já erguendo seus punhos, mas impedido por Afrodite que o segurou pelo braço, arrastando-o para junto de Saori, que já seguia a musa.

- Não arrume problemas para a gente, pelo amor de todos os deuses.

O grupo andou por um longo corredor até chegarem a uma escada de mármore negro forrado por tapetes vermelhos, indo para o primeiro andar daquela construção , que tornava-se mais e mais luxuosa. Ao invés das velas do Hall, a iluminação de agora consistia em belos lustres de cristal e amplas janelas encobertas por grossas cortinas azuis marinha. As paredes eram forradas por carpetes destalhados cada qual com a cena de uma batalha, uma dança, um lugar; os móveis enormes de madeira nobre recheados de pequenos objetos de cristal e todos os detalhes em ouro e prata coroavam o lugar.

Passaram por mais um amplo e longo corredor, forrado de um tapete vermelho. De seu lado direito, a parede tal como o teto eram pintados com a imagem de uma guerra. As pessoas armadas pintadas lutavam contra demônios sem face, usando armaduras negras, chifres e caveiras em suas mãos e no teto haviam anjos que também lutavam com demônios. O lado esquerdo do corredor consistia em uma unica janela comprida, dando a vista de um longo campo que se arrastava para além do topo do Vesúvio.

Os vidros, sem estarem cobertos por cortinas, mostravam um ambiente completamente verde, sem qualquer construção ou pessoas aos arredores.

- Espera ai! Não era para ter uma cidade ali em baixo? Acabamos de passar por ela! - exclamou Aioria, fazendo com que os outros também notassem a visão da janela. De fato, não havia cidade, nem uma casa ou pessoa. Apenas um campo com algumas árvores.

- Esse lugar não está exatamente em Pompéia. - disse Tália. - Estamos em um lugar um pouco... como posso dizer... diferente.

- Quão diferente? - indagou Saga, desconfiado.

- Puxa vida. - Tália voltou a andar de costas, sorrindo docemente. - Vocês são muito curiosos.

- Creio que Apola vai nos dizer, certo? - Saori mais afirmou do que perguntou.

- Claro que vai, ela é sua anfitriã, afinal. - Voltou a andar para frente, fazendo com que os outros olhassem para o fim do corredor.

Chegaram enfim ao final daquele corredor, caminhando ao encontro de duas portas de madeira escuras, tão altas quando a de entrada, mas guardadas por quatro soldados, vestidos iguais aos que viram na entrada do palácio, mas todos tinham duas espadas cada e uma lança prata.

- In attesa (estavam esperando). - falou o de longos cabelos negros.

- Culpem o senhor Hefesto por ter escondido esse lugar tão bem. - disse a menina de olhos azuis, continuando a andar, ignorando as armas.

- La mia signora già defunti (a minha senhora já se retirou).

- Ela voltará. Agora, abram, por favor.

Os outros três soldados olharam para o que falava. O rapaz simplesmente fechou seus olhos e abriu passagem, fazendo com que os outros três abrissem as pesadas portas, sem ruido algum.

- Bem vindos, meus senhores. - O jovem curvou-se para Atena e Poseidon, dizendo em um grego formal.

- Muito obrigada. - Saori sorriu, enquanto Julian simplesmente continuou a andar.

- Qual a dificuldade de falar com a gente normalmente?! - sussurrou Aioria.

- Não estamos na Grécia Oria, as pessoas falam italiano aqui.

- Mas Aioros, ele acabou de falar grego!

- Para de reclamar Aioria, e preste atenção no lugar que você tá! - Aldebaran apontou para a sala que entraram.

E a visão que estavam tendo chocou a todos. Inclusive Julian teria de admitir que estava surpreso.

Rico.

Não havia outra palavra para descrever a sala em que estavam. Rico.

Densamente rico.

Se tratava de um salão circular enorme, fazendo jus ao tamanho do palácio. Todo o lado esquerdo, do teto ao chão, continuava a ser apenas vidro, mas estas eram ocultas por cortinas de um azul muito profundo. A única iluminação provinha de inúmeros candelabros dourados e luminárias que ficavam presas nas paredes pintadas com cenários de anjos. O chão parecia ser de madeira, encoberto por um tapete vermelho de estilo árabe, sem qualquer tipo de móvel ou cômodo.

Os recém chegados ficaram paralisados próximos as portas por onde entraram, apreciando a visão. Do lado oposto em que estavam, havia uma pequena escadaria que levavam a um altar relativamente grande, com apenas um único trono recostado na parede. O trono era de ouro e haviam escritas que, devido a má iluminação, não conseguiam ler. Haviam mais cortinas, de veludo vermelho, que desciam do teto até os degraus do altar.

O teto, ao contrario das outras salas que eram pintadas, era uma cúpula negra, forrada de cristais, rubis, safiras e diamantes, que brilhavam com as luzes das velas, dando a impressão de que estavam vendo o céu estrelado em uma noite límpida.

- Acho que vou gostar de morar aqui... - Dohko estava boquiaberto, e nem mesmo Shion o censurou, estava abismado com a riqueza do lugar.

Cada detalhe da sala era feito de pedras raras ou ouro. Os cordões das cortinas, os candelabros, o próprio cheiro de incenso. Tudo esbanjava riqueza.

- Daria para sustentar a Europa inteira por três gerações só com esta sala. - disse Saga.

- Não me lembro dessa sala em tempos passados. - Poseidon olhou para o teto cravejado de preciosidades. - Não sabia que Gaia adquiriu o gosto de Afrodite por jóias.

- É um hobbie. - Tália deu de ombros. - O brilho certamente chama a atenção, suponho que o escorpião aqui irá gostar, fazendo juízo ao signo. - sorriu.

Milo ficou vermelho com a insinuação causando riso nos outros

- Que imagem eu passo pra vocês, seus ingratos?

- De alguém que gosta de Glitter. - Máscara riu.

A maioria deu risada, mas logo foram interrompidos por um eco.

- Silêncio, seus inúteis! - uma voz tomou conta do local.

Instintivamente Mu, Shaka e Saga rodearam Atena assim como Sorento e Issak fizeram com Poseidon, o restante procurou pela voz que soara.

- Quem está ai? Saia! - ordenou Kanon.

- Ora, ora. - a voz caçoou. - Um humano, um relez mortal querendo mandar em mim?

As velas apagaram-se, restando apenas o candelabro como fonte de luz, criando uma série de sombras.

- Poseidon, Atena, não ensinaram a seus capatazes onde é seu lugar? - a voz ficou furiosa. - No lixo, é o lugar de vocês, ratos!

- Não viemos para lutar, mas se é o que deseja... - Aioria ergueu os braços. - Lightning Bol...- Shura segurou o braço do amigo.

- Não nos meta em confusão!

- Aioria, não! - Atena correu para perto do Leão.

- Seu verme, como ousa erguer seu punho contra um deus? Vou colocá-lo em seu lugar! - A voz praticamente urrou - MORRA!

Um denso cosmo tomou conta da sala, antes que qualquer um pudesse se mover, Atena e Poseidon elevaram seus cosmos também, pressionando os cavaleiros entre uma guerra de poder silenciosa. A energia do inimigo explodiu minimamente, mas...

- ARES, PARE!.

As cortinas se abriram, iluminando o salão com a luz da tarde.

No oposto onde estavam, o altar permanecia intocável. Doze degraus levavam a um trono, gigantesco, de ouro e cravejado por jóias preciosas. Ao seu lado estava a figura de um homem mais alto que Julian, vestido por uma longa toga branca até seus pés, em seus ombros, presa por botões de ouro, caia uma longa capa vermelha, que se arrastava ao chão, assim como o pano amarrado na cintura. O homem tinha um rosto jovem, queixo proeminente e olhos vermelhos, que queimavam olhando para Aioria, o cabelo rebelde era negro. Os braços erguidos revelavam anéis em todos os dedos e um largo bracelete com as inscrições Ἄρης.

- Ares. - Shion disse. - Deus da guerra selvagem e da sede de sangue.

- Olha só, alguém sabe quem sou. Agora, como vamos punir esse petulante cavaleiro de ouro? - apontou para o cavaleiro de leão. - Ser jogado ao leões seria uma excelente ideia.

Atena entrou na frente de Aioria, segurando seu báculo a frente do corpo. Ares ergueu os olhos.

- Ares, eu mandei parar. - uma voz irada soou, afastada. - Pare de agir como se fosse o gostosão número um desse lugar!

- Apola, não corte o meu clima! - Ares gritou de volta à garota que acabara de entrar.

A menina entrava como um furacão raivoso por uma porta oposta a que estavam, com um vestido de mangas compridas. Um pouco mais atrás, vinham mais duas mulheres mais velhas. À direita, uma bela moça loiríssima, de longos cabelos lisos, olhos azuis. À esquerda, uma mulher de cabelos negros presos e olhos verdes.

- Clima? Chama essa atuação constrangedora de clima? Por favor, Ares, você precisa de aulas de interpretação com as musas. O que acha, Tália? - a loira disse.

A garota que até então estava silenciosa, e aparentemente, com medo, virou-se para a jovem, sorrindo.

- Que bela ideia senhora Ártemis! O que acha senhor Ares? Podemos...

- Não me confunda com o tolo do meu irmão Apolo, Artemis! - ignorou-a rudemente. - E parem com essa bobagem, apenas estava entretendo... nossos convidados. - voltou seus olhos vermelhos para Atena e Poseidon.

- Da próxima vez que tiver a ideia de entreter alguém, lembre-se que temos as musas para fazer isso. - Apola andou solenemente da porta onde estava até o altar, subindo seus degraus, ficando lado a lado de Ares. - Calíope? - e finalmente sentou-se no trono de ouro.

A outra mulher que entrara no aposento era alta e curvilínea, fez um aceno com a cabeça.

- Irmã! - Tália sorriu, e andou esvoaçando seu vestido até a outra.

- Dou as boas vindas em nome de todos.. - a voz era clara e melodiosa, e ao compará-la com Tália, era visível que era mais velha, sábia e majestosa. - Senhora Atena. Senhor Poseidon. Senhores cavaleiros de ouro e Marinas. - dizendo isso, fez uma mesura com o corpo. - Sou Calíope, musa da ciência, e estou a seu dispor.

- Chame meu irmão. - a voz da loira, Artemis, soou autoritária e Tália rapidamente se retirou do salão.

- Ótimo, agora, que as apresentações já foram feitas. - Apola voltou-se para Ares. - Pode me dizer o que faz aqui?

- Dar as boas vindas a minha irmãzinha que não vejo a tantos séculos. Certo Atena? - o deus sorriu falsamente.

- Ares... - o deus da guerra olhou para Aioria que continuava segurado por Shura e atrás da deusa.

- Aparentemente, a reencarnação do espírito de leão continua a me detestar pelos eventos de nosso último encontro... - olhou para Saga, que enrijeceu. (7)

Prevendo os pensamentos de Ares, Apola segurou-o pelo pulso, ainda sentada.

- E esses eventos não se repetirão, estou sendo clara? - disse a menina, olhando-o furiosamente.

- Clara como água. - zombou, mas soltou-se do aperto da jovem. - Está diferente, cavaleiro de Gêmeos. - olhou então para Kanon. - Qual de vocês é a sombra desta vez?

Saga e Kanon por um breve momento se encararam. Saga pode ver seu reflexo nos olhos do irmão menor, e sabia que Kanon pensava o mesmo que ele.

- Não há sombra, nem cópia. Somos irmãos.

- Oh Saga... - o deus desceu os degraus do altar. - E qual é o lado que está te dominando atualmente?

- O verdadeiro. - sentenciou, fazendo que o deus erguesse as sobrancelhas.

- Verdadeiro hein... - olhou Atena, que colocava uma de suas mãos no ombro do cavaleiro, acalentando-o. - Vamos ver quanto tempo dura dessa vez.

- Ares...

- Isso não é da sua conta, Gaia. - continuou a encarar os geminianos.

- Ares, não se aproxime dos meus cavaleiros, nem de Kanon, por favor. - apertou seu báculo.

- Olha só... A última guerra te despertou, minha irmã? - materializou uma lança dourada, comprida e tão afiada que dava a sensação de cortar a um simples olhar. - Parecia uma criança assustada da primeira vez que te vi. Mas acho que está apta para guerrear contra mim, que tal?

Atena não se moveu, nem ao menos um passo, fazendo com que o deus da guerra sorrisse.

- Está com medo de ver mais mortes?

- Não há motivos para lutarmos, estamos em tempos de paz.

Com esta declaração, o moreno riu. Na verdade, Ares gargalhou profundamente, fechando seus olhos vermelhos com o sorriso em seu rosto. Era uma risada pesada que fazia o ar tremer, uma risada sarcástica e cruel.

- Paz? Ainda acredita nessas bobagens?

Atena não o respondeu, mas o encarou firmemente. Poseidon sorriu com a atitude da moça, mas Artemis estreitou seus olhos. Apola, ou Gaia, estava com os olhos semicerrados.

- Muito bem então. Não faz bem à saúde contrariar a... Deusa da Sabedoria. - Ares olhou Saga novamente. - Ninguém vai perder a consciência. Por hora.

- O que está acontecendo? - sussurrou.

- Depois te explicamos. - Shaka respondeu Aioros.

Ares deu as costas e voltou para o alto do altar, ficando ao lado de Artemis.

- Vocês demoraram. - Apola mudou o assunto, ainda no trono visivelmente mais alto que ela, já que seus pés balançavam no ar.

- Tivemos dificuldade de achar o portal. - Atena sorriu.

- Não teria graça se todos soubessem onde ele fica, não é mesmo? - riu.

- Você possui um senso de humor bem distorcido, hein. - Poseidon ergueu as sobrancelhas. - Me fazer andar em círculos por horas não é nada engraçado.

- Não seja chato. - a menina sorriu.

- Não há outra alternativa, sabe disso. - Artemis falou, e todos puderam sentir que era uma mulher séria e austera.

- Pedimos desculpas pelas dificuldades. - disse Caliope enquanto fechava as cortinas e em um estalo de dedos, ascendeu as velas.

- Vejo que chamou a todos nós. - Poseidon olhou para Ares, que estreitou os olhos.

- Só falta um. - Apola fechou seus olhos violetas. - Logo vai chegar.

Ares desviou seus olhos vermelhos do deus dos mares, para os cavaleiros que até então permaneceram calados.

- Humanos... Atena, você não mudou sua adoração doentia por esta raça, hum.

- Foram humanos que a salvaram, Ares, inclusive de você. - Artemis olhou para a jovem de cabelos liláses. - Embora eu não concorde com sua afeição por mortais, Atena.

- Agradeço, mas não compartilho de suas opiniões sobre os humanos. - Saori relaxou o corpo ao sentir Shion se aproximar de si.

- É claro que não... Apolo ficará feliz em lhe ver. - disse Artemis.

- Falando na peste - começou Ares. - Onde ele está?

- Descansando.

- Hum... reencontro de família hein. Espero que não fique chateada Atena, já que metade daqui já tentou te matar, e a outra metade só está esperando a oportunidade.

Shion quase rosnou com aquele comentário, e não foi o único. Aioria quase o atacou novamente, e Shura não pareia muito tentado a impedi-lo dessa vez. Atena se limitou a sorrir.

- Me acostumei.

- Se me chamarem de titio, eu os mato. - falou Poseidon, sorrindo. - Parece que meu irmão chegou.

- Do que está falando? Não sinto o cosmo de...

Mas o deus da guerra não foi capaz de terminar, pois as portas por onde entraram foram abertas novamente, dando passagem primeiramente a uma jovem morena, vestida de cinza. Embora fosse bonita, a jovem não transmitia alegria ou magnificência como Tália ou Caliope, mas sim tédio.

- Perdoem-me a intromissão. - tinha uma voz arrastada. - Melpômene, musa da Tragédia, meus senhores e minhas senhoras.

- Entre, Mel. - disse Caliope. - Estávamos a sua espera.

A jovem olhou para algo atrás da porta, algo que os que estavam no interior da sala não podiam ver, mas que fez Saga, Kamus, Shura, Afrodite, MdM e Shion arrepiarem.

Apola abriu seus olhos, revelando uma coloração escura de violeta, e disse calmamente:

- Bem vindo...

A musa morena, com o rosto sem qualquer emoção, permitiu a passagem de sete corpos, entre eles, apenas uma moça. Estavam todos vestidos de negro, e três usavam armaduras, igualmente negras. Elegantemente e silenciosamente. Nenhum deles emitia cosmo ou energia, pareciam que estavam mortos.

- ... Hades.

Em um ímpeto os cavaleiros de ouro cercaram novamente Atena, só que desta vez era Mu quem tomava a dianteira.

As musas não se moveram.

Artemis franziu o cenho.

Ares e Poseidon sorriram de lado.

Apola suspirou.

Atena não se moveu.

Hades não se moveu.

Por um momento, ficaram todos imóveis. O Imperador do mundo dos morto era escoltado por dois jovens idênticos, exceto pela coloração de seus cabelos e olhos. Dourado e Prateado. Hypnos, deus do sono e Thanatos, deus da morte. Ambos não expressavam nada, embora encarassem os deuses ali presentes. Um pouco atrás estava uma jovem de longos cabelos negros, pele alva e um semblante enigmático, entre frio e assustado, Pandora. Atrás desta, estavam três figuras, que quase rosnaram ao ver os dourados parados a poucos metros. Aiacos de Garuda, Radamanthys de Wyvern e Minos de Grifon.

- Bela recepção. - A voz tempestuosa de Hades rompeu o silêncio.

Apola olhou de Atena para Ares, Poseidon e Hades, voltando seus olhos para Artemis, que estava estática. Os quatro deuses eram responsáveis pela maior parte das guerras que aconteciam entre o Olimpo, e agora estavam na mesma sala. Que ironia, ela pensou.

- Não é hora para brincar de guerra. - Gaia soou, mas nem ao menos levantou-se do trono.

- Não... - falou Julian.

- Hei Hades. - provocou Ares, embora Hades não tivesse tirado seu olhar de Atena. - Está faltando 105 espectros, onde eles estão?

- Aprendeu a contar, seu moleque?

- E você não sabe ler o relógio. - falou Apola - Está atrasado.

Hades olhou para a menina, que balançava os pés no ar, como uma criança. Na verdade, todos ali eram como crianças, e bem mimadas, em sua opinião.

- Disse para eu chegar hoje, não me disse a hora. - o Imperador voltou seus olhos a Atena e sorriu. - onde está aquele moleque amaldiçoado?

Saori sentiu uma pontada no coração ao pensar na situação atual de Seiya, mas não demonstrou fraqueza.

- Vivo. - disse, retirando o sorriso do rosto do outro.

- Petulante que não sabe seu lugar. - crispou os lábios, Aioria apertou seu punho com força.

- Basta. - Artemis sentenciou. - Isto não é uma guerra.

Apola olhava atentamente entre cavaleiros e juízes. Todos pareciam tensos olhando um para o outro. A última guerra santa tinha deixado marcas bem profundas.

- Apolo está vindo. - continuou.

- E meu irmãozinho, junto com ele. - falou Hades. - Poseidon, sentiu saudades de seu irmão mais velho?

- Nem por um segundo. - Julian já não estava mais sorrindo.

- Que malcriado. Mas veja só... trouxe os odiosos humanos a vida também Apola? Não se cansa de fazer caridades?

- É obvio. Onde estão os seus?

- Do lado de fora, é claro. Não seria de bom tom trazer meu exército para dentro. - reforçou sua fala olhando o salão. - Diamantes?

- Afrodite. Escorpianos...

Milo semi-serrou os olhos ao ouvir isso.

- De fato... deve estar desesperada se os trouxe de volta. - olhou aos cavaleiros, mais diretamente a Shion. - Radamanthys?

- Meu senhor? - disse o espectro.

- Qual deles te tirou a vida?

Radamanthys crispou os lábios, fervendo por dentro ao encarar Kanon que devolvia o mesmo sentimento. Poseidon, assim como Hades, encararam o Dragão Marinho.

- Não estou gostando do rumo que essa conversa está levando. - Kasa comentou.

- Fique quieto para não sobrar para você. - Krishna sussurrou.

- Um marina entrou em meus domínios? - Hades deu um passo para Poseidon, fazendo com que os outros marinas circundassem seu deus.

- Kanon na época era meu cavaleiro. - disse Atena, desvencilhando-se de Shion. - Não envolva Poseidon nisto.

- Mas lembro-me perfeitamente quem enviou as armaduras de ouro ao meu reino... Poseidon, vai tomar partido nesta guerra santa?

- Eu, definitivamente, não estou gostando desse papo. - Kasa voltou a repetir.

- É, nem eu... - Falou um assustado Io.

- A guerra já acabou Hades. - Julian sorriu. - E você perdeu.

- Maldito, se esqueceu com quem está falando? - Materializou sua espada prateada.

- Eu acho que foi você que esqueceu com quem está falando. - apontou seu tridente de oricalco.

- E eu acho que vocês dois se esqueceram quem está ouvindo tudo. - retumbou uma voz grave, do lado oposto a sala.

Os rostos se voltaram para aquela voz e aquele cosmo que emanava e cobria a sala. Poseidon e Hades nem se deram o trabalho de olhar, assim como Apola, que apertou as têmporas.

- Zeus...

.

.

.

~O~o~O~

Observações:

1 - Lembrando que a Guerra contra Poseidon foi em 2009, quase 2 anos antes da Guerra Santa. (O calendário vocês encontram no Capítulo II - O Início).

2 - Os escritos estão em Latim com a tradução para português.

3 - A música tocada no piano é Nocturne op.9 No.2 de Chopin. (Aconselho a ouvirem enquanto leem, são apenas 4 minutos e meio de música - coloquem no youtube: "Chopin - Nocturne op.9 No.2", é o primeiro vídeo)

4 - Hetairas são o mais alto nível das prostitutas na Grécia Antiga, não se limitando a serviços sexuais.

5 - A língua oficial do lugar que estão é o italiano, e isso vai ser explicado detalhadamente daqui alguns capítulos.

6 - Força Tribal é o primeiro exército romano mencionado nos escritos, será a guarda pessoal deste lugar.

7 - O conflito entre Ares de Saga será explicado, embora a maioria já deve ter entendido a referência.

~O~o~O~

01/29/2016