A vinha e o girassol

Capítulo2

A ascensão!

- As regras da casa são bem simples: sujou, limpe... bagunçou, arrume! Não quero saber da casa zoneada, viu?! E o mais importante, quando o "paizinho" chegar aqui, desapareça! Não quero nem saber pra onde vai, se vire! Vai pro cinema, vai estudar na biblioteca, vai namorar, sei lá, mas não pode ficar aqui... ele morreria de vergonha!
- Ai Bi, tá bom... já entendi! Nossa, nunca tive mãe, mas será que elas são chatas assim que nem tu?!
- Vê se te enxerga, moleque! Já disse que não tenho filho crioulo e feio que nem tu! Além disso, eu sou só dois anos mais velha que você! Agora vem cá ver seu quarto...

E pegou Kurt pela mão pra levá-lo até seu novo quarto. Era a primeira vez que ele teria um lugar pra chamar de seu, o seu refúgio, o seu quarto, a sua casa! Quando entrou no cômodo, não conseguiu conter as lágrimas que caíram livres pelo rosto magro. O quarto estava muito mais bonito que ele sonhava! Havia uma cama de solteiro, um armário embutido que tomava toda uma parede, uma escrivaninha com um computador, uma estante do lado oposto à cama com TV, DVD, som e vários livros arrumados de maneira harmoniosa, e um enorme pôster de sua banda de rock favorita ornamentava a parede acima da cama! Olhou pra Rachel e não se conteve mais, abraçou-a forte e falou entre soluços...

- Obrigado, minha amiga! Acho que nunca vou ser capaz de agradecer isso tudo que você tá me dando! Eu te amo, sua bruxa!

Rachel não era de chorar, mas os olhos ficaram levemente umedecidos, retribuiu o abraço e falou dando um tapinha na bunda do rapaz...

- Deixa de ser manteiga derretida, Biba! Você sabe que desde que saí daquele orfanato eu disse que te traria pra morar comigo quando você saísse também. Tô só cumprindo com minha palavra, afinal eu também adoro ter você perto de mim! Eu não tenho outros ouvidos pra encher que não os seus! Ah, mais uma coisa, nada de amiguinhos dormindo aqui, ouviu bem? Não quero que minha casa vire um bordel!

E secando as lágrimas, Kurt falou num gesto afetado...

- Ah, eu sabia! Tava bom demais pra ser verdade!
- Bicha safada! Olha só, vamos começar a meter a cara nos livros! Vamos terminar esse supletivo e estudar muito pro vestibular! Você sabe o quanto eu levo a sério esse sonho de ir pra faculdade e quero você lá comigo!
- Vamos sim! Sabe que é meu sonho também!

Quando saiu do orfanato há dois anos, Rachel já tinha para onde ir! O Senhor Will Carlos primeiro alugou um pequeno apartamento, na Zona Sul do Rio (bem distante do Abrigo), onde a visitava duas vezes por semana. Pagava todas as despesas dela, comprou móveis novos, ao gosto de sua jovem amante, pagava o supletivo e o curso de inglês, a fez tirar carteira de motorista e deu-lhe um carro. E para arrematar, ainda dava a ela uma generosa mesada para os seus pequenos luxos! Mas Rachel não ficou na incerteza do aluguel por muito tempo. Um ano depois, conseguiu persuadir o "paizinho", com seu jeito todo especial, que ela precisava ter uma segurança maior naquele relacionamento, que se algo acontecesse a ele, estaria novamente desamparada. Então ele achou melhor comprar um apartamento para sua linda órfã, afinal havia sido o primeiro homem da vida dela e tinha obrigações por conta disso. Era um homem íntegro e tinha muito dinheiro, não faria diferença no seu patrimônio.

Rachel escolheu um apartamento de dois quartos, no mesmo bairro que já morava, e preparou sua vida e o local pra receber Kurt assim que ele saísse do orfanato. Toda semana ia visitá-lo e sentia muita falta de conversar com o amigo todos os dias como faziam antes. Preparou o quarto dele aos poucos, de acordo com o jeito que sabia que o agradaria e esperou ansiosa o dia em que finalmente poderia trazê-lo para casa. Levou algumas semanas convencendo o Sr. Will Carlos que Kurt fazia parte de sua vida e queria abrigá-lo quando ele saísse da instituição. Eram como irmãos e não poderia deixá-lo sozinho sem amparo. Ele aceitou, contanto que não encontrasse com Kurt nas vezes em que fosse visitar Rachel. Não se sentia à vontade na presença do jovem!

E assim foi feito! Após terminarem o supletivo, Rachel e Kurt entraram para um cursinho pré-vestibular e estudaram juntos até que conseguiram passar para uma Universidade pública, o que levou dois anos. Kurt escolheu o curso com o qual sempre sonhara, Publicidade e Marketing. Rachel escolheu algo que lhe desse base pra realizar suas ambições, Turismo e hotelaria! Com esse curso, certamente aprenderia como se comportar no mundo que imaginava conquistar, o mundo dos ricos! Estudaria mais línguas estrangeiras, aprenderia as regras da etiqueta e do comportamento social, estaria preparada para conhecer o mundo e lidar muito melhor com as pessoas. Seu objetivo não era aprender como trabalhar em um hotel ou com turismo diretamente, aliás, seu objetivo não era aprender a trabalhar, mas sim a saber como se portar e como seria tratada quando sua hora de frequentar tais lugares chegasse!

Às vezes coincidia de irem juntos para faculdade, outras, os horários não encaixavam. Ambos eram extremamente sociáveis na faculdade e tinham vários amigos em comum, apesar dos cursos diferentes que faziam. Saíam juntos pras baladas e flertavam sempre, muito! Kurt não era exatamente bonito: magro, franzino, tinha 1,70 cm, um pouco mais baixo que Rachel, usava o cabelo quase raspado, mas tinha uma alegria de viver e um sorriso tão contagiante que acabava sempre tendo algum belo carinha na sua cama. A diferença é que Kurt concluía suas conquistas e muitas vezes investia em namoros. Rachel preferia ficar só no flerte, até levava uma menina ou outra pra cama de vez em quando, mas nunca passava de uma noite. Não queria complicações pra sua vida, principalmente por causa do "paizinho"!

- Poxa Rachel, a Julia é tão gente boa, porque não dá uma chance pra ela outra vez? Você me disse que ela é ótima na cama, além disso, é linda e tá apaixonada por você!
- Bibaaa, realiza comigo uma coisinha... imagina uma namorada na minha vida... eu faço o que com ela quando o "paizinho" chegar aqui? Além do mais, não quero ninguém no meu pé! Esqueceu dos meus planos? Eu quero me dar bem com um cara montado na grana! E qual a mulher que vai aceitar que sua namorada tenha um "Patrocinador" que banque ela? Acorda!
- Isso é verdade! Ai, mas ela é tão legal e eu queria tanto que você um dia se apaixonasse por alguém!
- Ei, não me roga praga não tá bom! Não vou me apaixonar e muito menos por essas loucas que já se acham donas da gente só porque demos uma trepadinha! Tô fora, Nêgo! Eu quero é me dar bem! Aí vou poder ter a mulher que eu quiser e também dispensá-las quando me cansar! Como diz aquela musiquinha... "não sou de ninguém!"
- Ah, Rachel, mas se apaixonar é tão bom! Mesmo que não dê certo depois, só o sentimento já faz a gente se sentir tão vivo... tão mais feliz! Parece que o mundo ganha cores mais vibrantes quando estamos amando!

Olhando pro amigo com cara de ironia e descrença, disse...

- Sei... depois sou eu que fico ouvindo suas lamúrias quando eles te dão um pé no traseiro! Muito romântico isso, mas nem um pouco prático! Não quero saber de me amarrar em ninguém que não seja meu "Patrocinador", mulher então, nem pensar! Por isso nada de segundos encontros, nada de repetir dose, uma noite tá bom e como dizem em inglês... NEXT!
- Então só tenho a lamentar, mas se não quer se envolver, o melhor é não passar do segundo encontro mesmo. Tem até aquela piadinha sobre o que uma lésbica leva no segundo encontro, conhece?

Rachel pensou um pouco e falou...

- Não sei, o que é?
- As malas!

Ambos riram e ela então decidiu completar a piada...

- Pior que é verdade, mas e os gays? O que levam no segundo encontro?

Kurt, com conhecimento de causa, falou prontamente...

- Nada! Eles não aparecem no segundo encontro!

E saíram de mãos dadas gargalhando.

Cinco anos já haviam passado desde que Rachel saíra do orfanato. Sua vida estava transcorrendo como planejava. Tinha dinheiro mais que suficiente pras suas despesas, fazia faculdade como sempre sonhou, curso de Inglês e agora também um de Espanhol. Enfim, estava adquirindo todo o conhecimento que podia, para mais tarde quando decidisse partir e encontrar alguém que fosse fazer a grande diferença na sua vida.

Era um fim de tarde de um dia de semana qualquer, ela e o Sr. Will Carlos tinham acabado de ter um encontro sexual um pouco mais selvagem que o normal. Ele estava deitado por cima dela e de repente Rachel percebeu que a respiração dele não estava muito normal. Tentou erguê-lo e olhar pro rosto dele, mas ele enterrou o nariz em seu pescoço, só conseguiu ver que estava vermelho demais! Foi então que sentiu todo o peso daquele corpanzil de quase 90 quilos relaxar totalmente sobre o seu! Algo errado estava acontecendo e começou a chamar por ele...

- Paizinho... tá sentindo mal? O que aconteceu? Fala comigo!

O pânico se instalou quando Rachel notou que ele não atendia o seu chamado e muito menos se movia! A respiração, antes acelerada e irregular, agora parecida ter parado de vez e ele não fazia mais som algum! Conseguiu movê-lo para o lado e sair de baixo dele! Tentou de todas as maneiras reanimá-lo, fez respiração boca a boca, bombeou o peito e nada! Não sabia mais o que fazer! Ligou para a emergência e pediu uma ambulância. Em seguida ligou para Kurt.

- Ainda bem que você tá com esse celular ligado! Aconteceu uma tragédia! Vem pra casa agora por favor, Kurt... correndo!
- Nossa Rachel, o que houve? Parece que morreu alguém!
- Acho que é isso mesmo! O "paizinho" tá aqui na cama e acho que ele morreu! Já chamei a ambulância... vem pra cá, rápido!
- Meu Deus! Chego em cinco minutos!

Quando o socorro chegou, não havia mais o que fazer, fora um infarto fulminante! Eles não queriam nem remover o corpo para o hospital, mas com seu jeito de persuadir e alguns trocados para reforçar, Rachel conseguiu que eles levassem o Sr. Will Carlos, explicando os motivos verdadeiros. Ele era casado, ela era a amante e sua família não podia saber as condições em que ele havia morrido. Era melhor dizer que tinha passado mal na rua e morrido a caminho do hospital. Ele fora alguém fundamental na vida dela e não queria prejudicar a imagem dele diante da família agora que estava morto.

E desse jeito foi!

Saía do hospital com Kurt ao seu lado quando deixou uma lágrima rolar, apertou a mão do amigo e disse...

- Vou sentir falta dele! Eu tinha certo carinho por ele sabia? E não só porque ele bancava a gente, mas porque já tinha me habituado a ele. Era todo metódico, chato muitas vezes, mas era sempre gentil, educado, um cavalheiro!
- Eu sei amiga! E agora, o que vai ser da gente?! Eu vou começar o estágio daqui a alguns meses, mas você sabe que ganha pouco né?! De qualquer jeito, posso tentar arrumar um emprego ao invés do estágio, faço qualquer coisa pra...

Rachel o interrompeu...

- Não se preocupe com isso agora, eu tenho uma grana guardada, dá pra gente se manter pelo menos por uns seis meses! Até lá eu penso em algo e você já vai tá ganhando a merreca no seu estágio... fica frio!

Entraram no carro e começaram a voltar pra casa, depois de alguns minutos, Kurt falou...

- Nossa Rachel, não queria pensar nisso, mas acho que você matou o velho de tanto transar com ele!

Rachel olhou pra Kurt e balançou a cabeça sem acreditar no que ouvia...

- Eu não matei ninguém, seu paspalhão! E ele não era tão velho assim, tinha acabado de fazer 60 anos! Como eu ia adivinhar que ia ter um piripaque depois de uma trepada?! Ele parecia tão saudável!

Kurt deu um sorrisinho de lado e falou...

- Isso é que eu chamo de mulher fatal! A trepada da morte! Mas ele tinha um leve sorriso nos lábios, aposto como morreu depois de gozar! Quer coisa melhor que isso?!

Rachel deu uma risadinha sem querer...

- Perde a amiga, mas não perde a piada, né seu palhaço?!

Três meses depois, Rachel já tinha dois novos "paizinhos"! Frequentando o bar de um cinco estrelas da Praia de Ipanema, conheceu um empresário paulista, de 47 anos, que a fazia voar um final de semana a cada 15 dias para estar com ele e fazê-lo esquecer do estresse da sua vida profissional e descansar da esposa eternamente insatisfeita. O segundo encontrou através de um site na Internet, especializado em encontros extraconjugais. Era um diplomata espanhol que cobria sua bela morena de todos os mimos que ela desejava. De ambos ganhava presentes, joias e uma boa soma em dinheiro pra continuar a seguir com seu objetivo de vida.

Kurt já fazia seu estágio, ganhava bem pouco, mas já conseguia comprar suas próprias roupas e pagar as despesas com seu celular, gasolina pra sua scooter e uma baladinha de vez em quando. O resto ainda era bancado por Rachel, ou melhor, pelos "paizinhos".

Mais dois anos se passam e Rachel finalmente se gradua na faculdade em Turismo e Hotelaria. Kurt só colaria grau um ano depois. Na festa de formatura, foi ele o seu par e provavelmente no dele, seria ela. Conheciam muita gente, eram bem populares entre os colegas de faculdade e do estágio, mas amizade mesmo, só um pelo outro. Eram bem reservados com relação à vida que tinham em casa, justamente pra esconder das pessoas o modo como Rachel conseguia mantê-los no padrão de vida que possuíam. Diziam pras pessoas que Rachel era secretária executiva numa multinacional americana e, assim, camuflavam sua verdadeira profissão... "Miché de luxo"!

Os "paizinhos" passaram a se suceder mais rápido que Rachel gostaria. A média de duração passou a ser de 6 meses, alguns mais, outros menos, preferia quando eles eram mais estáveis. Não gostava de passar de um pra outro com tanta frequência, gostava da estabilidade e da confiança que só o tempo construía, mas desde que o Sr. Will Carlos havia morrido, não tinha mais conseguido outro "Patrocinador" tão estável. Mantinha no máximo dois "paizinhos" ao mesmo tempo, não gostava de ter que administrar mentiras ou confusões de horários, nem desagradá-los faltando a algum encontro.

Mais alguns anos se passaram, Rachel tinha agora 28 anos. Nesse período, conhecera toda sorte de homens: jovens, coroas, meio-termo, altos, baixos, magros, gordinhos, carecas, cabeludos, gentis, arrogantes, bons, ruins, pervertidos, parvos, legais, babacas, grandes, médios, pequenos. O que tinham em comum era a capacidade de atenderem sempre às necessidades financeiras de Rachel! Quando percebia que o "paizinho" estava sendo mesquinho de alguma maneira, ela simplesmente tratava de arrumar um substituto bem melhor que o anterior, e assim ia construindo seu patrimônio e sua escada para o topo.

O contato com tantos homens de negócios deu a Rachel a oportunidade de viajar e começar a realizar um de seus desejos, conhecer o mundo! Já havia ido aos EUA, conhecia 8 países diferentes da Europa, mais 6 na América do Sul, o Japão e boa parte do Brasil! Falava fluente inglês, espanhol e italiano, este último, resolvera aprender por ser fã da cultura, arte e música italianas.

Kurt já estava formado e trabalhava numa pequena agência de publicidade e propaganda, a mesma que lhe dera estágio. O salário ainda não era grande coisa, mas já podia andar de carro ao invés de scooter, usar perfume francês pra impressionar e ajudar Rachel nas despesas do apartamento, mesmo sabendo que ela não precisava e nem queria, mas era uma questão de honra pra ele! Ela tinha dado a ele a oportunidade de ter uma vida digna, de se formar, ter um bom trabalho, ser gente de verdade e isso não tinha preço! Se pudesse daria a vida pra proteger a amiga, tinha certeza disso!

Uma madrugada, se encontraram na garagem do prédio, cada um vindo de uma noitada diferente. Kurt ainda sentia no corpo o embate sexual com um belo moreno que havia conhecido na praia. Rachel trazia no rosto um sorriso triunfante e um brilho diferente no olhar! Olhou para Kurt dentro do elevador e ele, sem resistir mais à curiosidade, pergunta...

- Fala logo vai... que cara é essa de gato que acabou de engolir um suculento ratinho?

Rachel ri enigmática e responde...

- Hoje eu encontrei o meu pote de ouro no final do arco íris, meu querido! Meu futuro marido!
- O que?! Futuro marido?! Mas eu pensei que você fosse ficar com seus "paizinhos" até uns 35 anos! Ah, não me diga que se apaixonou?! Isso seria maravilhoso, Rachel!

Rachel revira os olhos num gesto de impaciência e abre a porta de casa, dizendo...

- Não viaja, seu sequelado! Quem falou aqui em paixão?! Eu falei que hoje encontrei aquele com quem vou me casar e finalmente ter tudo aquilo que sempre busquei: dinheiro sem limites pra poder ter tudo o que sonhar, tudo o que as "verdinhas" puderem me trazer, entendeu?!
- Conheceu como? Quem é esse cara?
- Um milionário italiano que conheci na festa do morro da Urca esta noite!
- Ué, mas você não foi com um dos "paizinhos" nessa tal festa hoje?
- Fui, mas o idiota tinha que ficar resolvendo negócios com um bando de nerds?! Já tava de saco cheio de ficar sozinha só olhando pra paisagem lá de cima, quando surge na minha frente um charmoso coroa com duas taças de champanhe nas mãos...
- E...
- E aí ele se apresentou... Russel Fabray... melhor, Don Russel Fabray! Conversamos o suficiente para que me resumisse metade de sua vida em pouco mais de duas horas. Disse que havia se divorciado de sua quinta esposa há um ano e que esperava encontrar uma nova mulher em breve, pois não suportava ficar sozinho muito tempo! Que achava as brasileiras maravilhosas e que seu sonho era casar-se com uma!

Deu uma risada que Kurt já conhecia muito bem como de pura ironia e continuou...

- Eu já tava pensando nele pra ser meu próximo "paizinho", quando o idiota do Luiz surgiu do meio dos Nerds e foi interromper nossa conversa! Cumprimentou todo entusiasmado o Russel e me perguntou se eu sabia quem ele era. Sem esperar resposta, começou a me falar do patrimônio que o homem tinha espalhado por vários pontos do globo: hotéis, um castelo-hotel no vale do Loire na França, um casino-hotel em Las Vegas, uma vinícola da família na região da Toscana, uma empresa de design de produtos com sede em Roma e filiais na França, nos EUA e agora no Brasil também! Enfim, um "miliardário" playboy cinquentão, que bota todo mundo pra trabalhar pra ele e fica correndo o mundo atrás de mulheres e diversão!
- Minha nossa! E o que faz a Senhorita Pretensão achar que pode ser a próxima mulher dele? Eu sei que você é bonita, Rachel, mas se o coroa é tão rico, bonitão e um tremendo bon vivant, mulher linda é o que não deve faltar em volta dele! O que vai te tornar especial no meio delas todas?

Com a certeza que só seu instinto e confiança lhe davam, ela respondeu:

- Alguns sinais... primeiro o interesse dele foi inegável! Me achou além de bonita, inteligente, bem formada, principalmente quando comecei a conversar com ele em italiano. Depois, não se importou nem mesmo com o fato de eu estar com o Luiz, demonstrando claramente seu interesse e me dando esse cartão aqui ó...

E balançou o cartão diante dos olhos de Kurt, continuou...

- E por fim, algo que vocês homens não estão muito familiarizados, minha intuição me diz que é ele! Bastaram duas horas de conversa pra eu saber que ele seria alguém importante nessa minha trajetória, e isso eu não sei explicar, simplesmente senti que será assim!
- Essa é boa, não sabia que era chegada a essas coisas de sobrenatural!
- Seu pateta! Não sou mesmo! Só que tive uma sensação estranha quando me aproximei dele e algo martelava na minha cabeça... é esse o homem! É ele com quem irá se casar e que mudará sua vida! Não acredito em bobagens, mas ouvia isso claramente dentro da minha cabeça! Isso se chama intuição, apenas isso, in-tu-i-ção!
- Bem, então me convide pro casório tá bom? Mas veja se convida algum italiano bonitão gay... quero casar também... na Espanha já tá podendo!

E ambos ficaram até de manhã conversando sobre o tal milionário italiano e rindo das bobagens que entremeavam a conversa.

Quatro meses depois, Russel Fabray e Rachel berrys, trocavam alianças numa Capela de Las Vegas. A cerimônia foi assistida por Kurt e meia dúzia de amigos de pôquer de Russel. A lua-de-mel seria no Hotel-cassino do noivo e depois iriam curtir o sol do Caribe nas Bahamas.

Rachel finalmente havia realizado parte do seu desejo, mas minutos antes da cerimônia, um detalhe tirou o brilho do seu sorriso... um contrato pré-nupcial!

Russel já havia passado por vários casamentos e seus advogados já sabiam como agir cada vez que seu cliente mais ilustre resolvia casar com alguma bela modelete de qualquer ponto do mundo. No contrato dizia que, em caso de divórcio, Rachel não teria direito a nada da fortuna do marido. Só seria dela aquilo que ele resolvesse dar a ela no seu nome. Se decidisse se separar dele em menos de um ano, só teria direito a uma pensão de 5.000 dólares pelo período de um ano e nada mais! Caso ficasse mais que um ano casada, teria direito a 200.000 dólares por cada ano de casamento e uma pensão de 20.000 dólares mensais pelo número de anos de duração do enlace.

Claro que pra qualquer mulher comum, que levava para o casamento somente seus dotes físicos, aquele contrato pré-nupcial era bastante vantajoso também! Mas para a ambiciosa Rachel era um insulto!

Assinou o tal contrato, não tinha saída! Ou assinava ou não haveria casamento, e apesar de contrariada, Rachel sabia que poderia ainda assim conseguir muita coisa daquela união!

Após a cerimônia foram todos para a cobertura do Hotel-cassino de Russel, onde uma comemoração os aguardava, com poucos convidados, mas muito champanhe francês e caviar iraniano.

Rachel disfarçava bem seu descontentamento diante dos convidados e de seu marido, mas de Kurt, que a conhecia como a própria mão, não tinha como fugir. Ele se aproximou e perguntou baixinho...

- Essa ruguinha aí entre os olhos é por conta de que hein?

Rachel olhou para ele com cara de indignada e falou entredentes...

- Meu maridinho querido que me pregou uma peça momentos antes do casamento! Fui obrigada a assinar uma droga de contrato pré-nupcial que me deixa sem direito a nada em caso de separação, ou então, me dá um "cala boca" se eu conseguir aturá-lo por mais de um ano! Um bom filho da p...!
- Nossa, Bi! E você achando que ia dar o golpe do baú, hein?! Que zica!

Kurt achava graça da irritação de Rachel porque no fundo sabia que ela encontraria um jeito de se dar bem com aquele casamento de algum modo! Ela falou mais irritada ainda com a cara de riso dele...

- Maior traíra você! Ao invés de me dar força, fica aí com essa cara de riso, se divertindo à custa da minha desgraça! Tudo bem, mas fique sabendo que essa foi a primeira e última viagem "boca livre" que você faz às minhas custas, sua bicha feia! Arrume um macho que te banque também e tomara que ele seja muito ruim de cama e tenha o pau pequeno!
- E quem tá rindo de você aqui, hein sua mal humorada?! Sorria, boba... é seu casamento hoje! Ele pode não ser o Príncipe Encantado, mas é um charme de coroa e miliardário, como você mesma diz! Então, use desse seu charme e aproveite! Sei que vai dar um jeito e esse contrato vai ser apenas um detalhe sem importância!
- Não sei por que eu ainda perco tempo com um ser feio e abestalhado como você! Ah, e pode ir ficando naquela merdinha de apartamento, porque da próxima vez que for ao Brasil, vou fazer esse filho de uma vaca comprar um tremendo apê de frente pro mar no meu nome! Você vai ver, ou não me chamo Rachel berry... ops, esqueci... Rachel Fabray!
- Bruxa!

E depois de alguns minutos de diálogos recheados de insultos e farpas, Rachel já estava mais descontraída e ria a valer dos comentários jocosos de Kurt. Num determinado momento ele perguntou:

- Ele não tem uma filha?
- Quem?
- Seu marido, oras! Deixa de ser tonta, mulher! Foi você mesma que me contou que ele tem uma filha que vive meio reclusa na Vinícola deles lá na Toscana, não foi?
- Afe... é mesmo! Tinha até esquecido dessa aí! Ah, sei lá... acho que ele nem convidou... sabe que ela não viria mesmo!
- E porque não viria?
- Porque ela deve conhecer muito bem o pai que tem. Sabe que eu sou sua sexta ou sétima mulher em menos de dez anos. Deve tá é cansada de assistir aos casamentos dele, cada vez com uma mulher mais jovem e num ponto diferente do globo! Se fosse eu, também não me daria ao trabalho depois do segundo. Casar mais de duas vezes não é nem burrice, é palhaçada mesmo!
- Ai, mona... como você é amarga! Cruzes, puro fel! Pois eu acredito no amor e caso mil vezes se assim for preciso pra encontrar meu grande amor! Pena que as leis não me deixem casar nem uma vez sequer!
- Era só o que faltava mesmo! Se pudesse, você já teria casado umas 15 vezes, cada vez que se apaixona por um desses derrotados que encontra pelo caminho! Acha que vai ser pra sempre e que vão se casar logo que aprovarem a lei! Tome vergonha nessa sua cara desconjuntada!
- Tá bom... eu também te amo! Mas voltando lá pra sua "filha postiça", porque ela vive reclusa?
- Filha?! A mulher tem quase 40 anos, é bem mais velha que eu! Não sei o motivo, ele não entrou muito em detalhes, parece que morreu o cara que ela amava num acidente, sei lá! O que sei é que ela não sai da Vinícola há mais de 2 anos, o máximo que faz é ir de vez em quando na Vila mais próxima.
- Coitada! Ela devia ser muito apaixonada pelo cara que morreu!
- Viu só como paixão só traz prejuízo pra gente?! Inclusive mental! O que ouvi um amigo dele comentar uma vez, é que ela não bate muito bem das ideias, ficou meio doida, sabe?! Fala sozinha, às vezes fica dias sem tomar banho, trocar de roupa ou pentear os cabelos. Que uma hora é um doce de pessoa, gentil, simpática, meiga, mas pode ficar dias sem falar com ninguém, nem mesmo com os funcionários. E dizem que nesses dias, não há alma que consiga arrancar uma palavra dela! O Russel acha que foi excesso de remédios que ajudou ela a ficar assim. Era remédio pra depressão, remédio pra dormir, remédio pra acordar, remédio pra sorrir...
- Nossa, então a coisa é séria mesmo! Tenho uma pena de gente doida, sabia?!
- Mesmo?! Então é por isso que tem tanta autopiedade, né?!
- Engraçadinha! E você não tem curiosidade em conhecer sua enteada?
- Pra ser sincera, de doido eu quero distância! Se ele que é pai fica longe dela, imagina se eu vou me preocupar em arrumar sarna pra me coçar! Deixa ela pra lá, um dia se acontecer, tudo bem, vou tentar ser gentil, mas se não encontrar com ela nunca, que diferença vai fazer?!
- É mesmo... melhor não se envolver! Mas ele não visita a filha?
- Ele fala com ela ao telefone uma vez por semana, quando ela não tá atacada da mudez! Mas parece que faz quase um ano que não vai até lá e, pelos planos dele de viajar comigo, acho que vai ficar outro tanto sem ir. Pra mim melhor ainda!
- Mas eu acho isso descaso da parte dele! Se eu tivesse uma filha nessas condições, não ficaria tanto tempo longe dela, afinal ele é o pai né?! Pô, tinha que apoiar e ajudar a filha a sair dessa!
- Mas eu acho que ele foge porque não sabe como lidar com isso. Loucura tem cura?
- Sei lá se tem cura, mas vai ver ela não é completamente louca, só tá assim por causa da depressão! Deve ser muito doloroso perder quem se ama de verdade!
- Lá vem o romantiquinho outra vez! Me poupe dos seus devaneios, Kurt! A mulher é doida sim e acho que não tem cura pra isso não, portanto, melhor não ficar muito perto também!
- E a mãe dela?
- Morreu de câncer quando ela tinha 6 anos de idade. Foi criada pela avó, mãe do Russel, que também já faleceu.
- E ela não tem mais ninguém? Irmãos, primos, tios?
- Que eu saiba, de família só o pai mesmo! A mãe era francesa e mudou pra Itália quando casou com Russel. Não sei se deixou familiares na França. Da parte do Russel, ele não tem irmãos também, logo...
- Tadinha, sozinha mesmo... que nem a gente!
- Como que nem a gente?! Não tem nem comparação né?! Ela conheceu a mãe, foi criada pela avó, sabia quem era o pai, sempre foi milionária, nunca precisou se preocupar com dinheiro... a gente não! Maior perrengue pra ter uma muda de roupas! Só não passamos fome por conta da caridade alheia! Você nunca conheceu seus pais nem família nenhuma, eu lembro pouco da minha mãe hippie, sempre doidona, minha avó me rejeitava... vai comparar a situação dela com a nossa?!
- Ora Rachel, não tô falando de grana, tô falando de solidão! Vai ver ela ficou assim por se sentir sozinha, sem o amparo de alguém! Você sabe o quanto isso é ruim, eu também sei muito bem! Se não fosse você, não sei o que teria sido de mim!
- Garanto que teria sobrevivido do mesmo jeito, talvez não tivesse se formado ou dirigido um carro zero, mas com certeza teria sobrevivido, fazendo alguém rir por aí! Agora eu garanto que se tivesse a sorte que ela teve de nascer milionária, não ia ficar perdendo meu tempo nem o resto da minha preciosa vida, enfurnada dentro de uma vinícola, me intoxicando de remédios e vendo o tempo passar por mim! Ela ficou louca porque foi burra e não soube reconhecer a vida boa que tinha... aliás, que tem! Autopiedade é sintoma claro de burrice!
- Falou a voz da sapiência e da frieza glacial!
- Vai catar seu próximo "amor pra vida toda" vai... chega de entupir meus ouvidos de besteira!
- Porque eu gosto de você... me explica vai... por quê? É a coisa mais sem sentido desse mundo! - suspirou o pobre rapaz afetadamente, indo fazer o que ela sugeriu.