Disclaimer: Os personagens da fanfic pertencem a Masashi Kishimoto, a trama, no entanto, me pertence.

Warnings: linguagem chula, violência, mortes, tortura, cenas explícitas de sexo homossexual e relações incestuosas.


N/A: Yo mina o/

Só quero deixar claro: textos em itálico de uma cena inteira significam flashbacks ou sonhos, mas textos em itálico no meio de cenas no presente, com ares de "diálogo" ou "monólogo", são pensamentos. Sei que isso já deve ter ficado óbvio e que quem me conhece de outras fanfics já percebeu isso, mas como nesse capítulo tem bastante coisa em itálico, achei melhor deixar claro.

Em contrapartida, textos em negrito são coisas escritas ou conversas telefônicas.

Espero que gostem do capítulo! ;D


HAUNTED

Capítulo VI

Naruto realmente apareceu sóbrio para a primeira sessão, mas isso não significa que as coisas foram fáceis. Permaneceu calado durante muito tempo, e Kakashi chegou a pestanejar durante alguns minutos. O loiro não estava facilitando em nada o trabalho do mais velho e ainda parecia extremamente irritado por ser submetido a esse tipo de tratamento.

No entanto, lá pela quinta sessão ele começou a falar, e Kakashi quase foi pego de surpresa, anotando tudo com veemência e fazendo os comentários pertinentes para que chegassem até algum lugar. Ainda sim, o avanço era pequeno, menor do que o grisalho inicialmente achava que aconteceria.

Tinha a completa certeza de que o mais novo estava ocultando varias informações e conflitos internos. Não apenas o seu treinamento na faculdade e na especialização, mas também a sua atuação como policial o fazia ter uma espécie de sensibilidade em situações de mentiras, e ele observava vários detalhes mentirosos na fala de Naruto, assim como em suas expressões faciais.

Em suma, Kakashi se sentia andando em círculos.

Era o que constatava ao ler e reler as anotações feitas durante as sessões, enquanto ajeitava-as em uma ficha. Suspirava cansado, passando os dedos na testa e tentando ligar os pontos do problema de Naruto, compreendendo qual seria a falha de sua pisque naquela altura da vida. Foi retirando de seus pensamentos quando ouviu o passos pesados que indicavam a aproximação do Uzumaki, e levantou seu olhar do caderno para fitar o mais novo.

_ Vou sair. – Naruto anunciou, ajeitando o casaco enquanto andava em direção à porta, observando o caderno por ele conhecido com repugnância.

_ Sasuke vai com você? – o grisalho questionou, verdadeiramente preocupado. Sasuke e Naruto haviam brigado já fazia quase duas semanas, e nada dos dois reatarem a amizade. Nunca ficavam naquela situação por muito tempo, e ele não sabia dizer quem era o mais orgulhoso da história. Tentou uma abordagem com o moreno, telefonando-o e conversando sobre a situação de Naruto, mas Sasuke parecia ofendido e birrento, e não lhe deu muita bola.

Como era difícil conviver com crianças.

_ Não. Vou sozinho.

_ Não quer que eu vá com você?

_ Isso seria uma espécie de pesquisa de campo Kakashi? – Naruto questionou, levemente nervoso, cruzando os braços e esperando o fim do discurso para que pudesse se retirar. O grisalho suspirou, levantando-se do sofá e colocando seu caderno acima da mesa, assim como os óculos de leitura. Ergueu as mãos em um sinal de rendição, e o mais novo podia jurar que ele sorria por detrás da gola alta que era sua marca registrada.

_ Vou de cara limpa, como seu amigo, sem psiquiatria. – o loiro não respondeu, ainda relutante, e Kakashi decidiu tentar uma nova abordagem – Eu sinto falta da sua companhia Naruto.

Funcionou, pois o loiro sorriu em retorno, aparentemente feliz com a proposta. Kakashi fez um pedido silencioso com as mãos para que aguardasse um instante, e correu para seu quarto, pretendendo colocar uma roupa adequada.

O loiro ficou alguns minutos andando em círculos, sentindo-se contente por sair com Kakashi como nos velhos tempos. Costumavam fazer isso as vezes, pois nem sempre conseguiam arrancar Sasuke de casa, e então os dois eram obrigados a sair em dupla. Não que achasse ruim, pelo contrário, era extremamente divertido. Infelizmente param de sair juntos quando Kakashi começou a namorar com sua ex-namorada (a qual foi sua companheira durante dois anos) e Naruto também passou a namorar diversas vezes e...

Ok, isso não era algo bom para se pensar naquele momento. Procurando uma distração, deixou seus olhos azuis rondarem o local, ate pousarem novamente sobre o caderno de anotações do mais velho. Sabia que não deveria lê-lo, no entanto estava curioso, e Kakashi parecia demorar a voltar...

Pegou-o em mãos, abrindo a primeira página e deparando-se com seu nome escrito no topo.

Naruto Uzumaki

Idade: vinte e um anos.

Considerações Iniciais: Infância consideravelmente estável, figura materna e paterna presente, levemente distorcida. Maior autoridade materna. Início de instabilidade no desenvolvimento da fase de latência, aos 10 anos. Clara existência de mecanismos de defesa, como a sublimação exacerbada, formação reativa, negação, resistência...

_ Naruto?

Ok, o cenário não era nada bom. O loiro estava com seu caderno de anotações em mãos, e assim que ouvira a voz de Kakashi levantou os olhos de tais anotações, fitando o grisalho com extrema raiva.

_ O que isso significa?

_ Naruto, nós só fizemos sete sessões, isso são as anotações iniciais. Não é nada... – calou-se ao ouvir o caderno ser jogado de encontro ao chão com força, não havia mais dúvidas de que o Uzumaki estava lívido.

_ Eu não sou louco!

_ Claro que não, não é isso que está escrito ai! – o grisalho começava a perder o pouco da calma que ainda lhe restava. Mas que diabos? Por que Naruto estava bisbilhotando essas coisas? Ele sabia que não iria ajudar em nada! – Naruto escute, nada disso é uma analise concreta, e mesmo se for, nós ainda não iniciamos o tratamento em si, estamos na fase de adquirir um diagnostico e...

_ VOCÊ NÃO SABE DE NADA KAKASHI! – o mais novo gritou, avançando para cima de seu ex-tutor, pela primeira vez em todos os anos de relação com o mais velho.

Naruto costumava entrar em brigas corporais com Sasuke, mas nunca havia feito isso com Kakashi. Não apenas pela diferença de idade, mas pelo respeito que possuía com o mais velho, e tal reação desmensurada pegou o grisalho de surpresa. Esquivou-se do primeiro soco, ainda sentado, e conseguiu contornar o corpo de Naruto, imobilizando-o com eficiência. O loiro às vezes parecia esquecer que por mais que transparecesse calma e passividade, ele era um policial, com treinamento apropriado para reagir neste tipo de situação.

_ Eu sei que não sei Naruto, e isso torna as coisas mais difíceis. O que acha? Que eu não percebi que você esta me escondendo coisas nas sessões? – perguntou irritado, ao pé do ouvido do mais novo. Naruto se debatia, tentando soltar-se da imobilização – Você não consegue disfarçar quando esta mentindo, por isso coloquei nas anotações seu inicio de conturbação na fase de latência, pois é ai que as coisas começam a ficar mais turvas nas suas narrações.

_ Me solte.

_ Pra que? Pra você tentar me bater de novo?

_ ME SOLTE! – Naruto conseguiu puxar o braço com um pouco de força, fazendo sua roupa escapulir entre os dedos de Kakashi. Andou com velocidade e pisando forte para fora do apartamento e saiu batendo a porta com força. Kakashi estava lívido àquela altura do campeonato, mas ainda sim parou duas vezes para pensar no que fazer.

Decidido, agarrou as chaves do carro. Pois dessa vez as coisas não iam ficar mal resolvidas daquela forma. Ele iria confrontar o loiro, custe o que custar, independente de onde ele estivesse indo.

(***)

Os primeiros dias de convivência foram os mais difíceis. Itachi possuía uma rebeldia inata com os assuntos de casa, não respeitando as regras anti-fumo ou qualquer pedido de colaboração com a limpeza. Depois de três dias de monólogo (pois o mais velho nunca alterava sua calma e sequer parecia ouvir o que Sasuke falava) o dono da casa resolveu ceder e apareceu porta à dentro com um cinzeiro em mãos.

Itachi sorriu mais prepotente do que de costume naquela ocasião.

Em suma, era assim que as coisas passaram a funcionar entre os dois: Sasuke reclamava, Itachi ignorava e, ao fim, Sasuke cedia. Isso aconteceu com praticamente toda sua rotina caseira: enquanto Sasuke gostava de assistir televisão, Itachi detestava o som do aparelho e se levantava diversas vezes para desligá-lo; Sasuke cedeu em sete dias, passando não mais a assistir tv.

Mas Itachi não era alguém completamente intragável como é de se imaginar à primeira vista. Ele gostava de jogos, adorava as músicas de Sasuke e era extremamente curioso. Assim sendo, Sasuke o ensinou a jogar baralho e xadrez enquanto ouviam música. Naturalmente, Itachi dominou completamente tais jogos com completa maestria dentro de algumas horas, e Sasuke teve a completa certeza de que Itachi não era um espécime normal de ser humano quando foi derrotado no xadrez relâmpago com meros 20 movimentos... e na primeira tentativa.

No oitavo dia, Sasuke trouxe os primeiros livros para distração do mais velho, alguns empoeirados que havia esquecido na lan house; no nono dia Itachi passou a buscar mais livros por toda sua casa, afirmando, para o completo assombro do Uchiha, que havia lido todos àqueles durante a madrugada.

_ Você quer que eu compre algum em específico? – Sasuke questionou, ainda estupefato pela velocidade de leitura do mais velho, segurando a nota de cem reais que este colocara na palma de sua mão.

_ Sim, quero livros de terror, culinária e de movimentos de xadrez. – Itachi pediu, fitando uma prateleira alta acima e uma cômoda e olhando com curiosidade para alguns livros de aparência mais antiga. Sasuke riu baixinho com a escolha nada correlata entre os gêneros de leitura de Itachi.

_ Pode pegá-los... São da minha mãe, ela ficaria feliz em torná-los úteis.

O mais novo nunca teve muitos livros em casa, apesar de ler ao menos uns cinco por ano, não costumava guardá-los, sempre repassava para outra pessoa ler e não tinha tamanho apego a livros já lidos, salvo aqueles que acabava esquecendo na lan house. No entanto, alguns dos livros de sua mãe foram guardados, talvez por recordação, e Itachi passou a devorá-los sem dó, ávido por conhecimento e envolto da sua constante curiosidade.

Sasuke achava tudo isso fascinante e bonitinho.

NÃO SASUKE! Pare de ser gay! Isso não é bonitinho!

Por mais que seu Sasuke interior discordasse e achasse algo extremamente homossexual, o Uchiha admitia que preferia dividir o apartamento com Itachi do que ficar sozinho, mesmo com todos os inconvenientes que decorriam desse simples gesto. Almejava voltar para casa todos os dias, e adorava gastar seu tempo com diálogos curtos ou jogos madrugada à dentro. Itachi sempre dormia no sofá, e Sasuke se viu tentado, algumas vezes, a chamá-lo para dividir a cama.

Logicamente sua consciência o condenou por pensar tamanha "boiolice" e ele limitava-se apenas a corar, não vocalizando seu desejo. Por sinal, corar era algo que fazia constantemente desde que começara aquela estranha convivência...

A rotina fora de casa era a mesma: Sasuke acordava cedo e Itachi já não estava mais na quitinete; tomava seu café e realizava suas necessidades básicas de higiene, saindo para o primeiro emprego. Ao final do expediente, almoçava sozinho (pois Naruto ainda estava de birra consigo), seguia para o segundo emprego e, ao fim, para sua faculdade de Administração. Quando chegava em casa, Itachi o esperava com o jantar pronto.

Comprar livros de culinária para o mais velho certamente foi a coisa mais sábia que fizera na vida.

_ Você não deveria comer tão mal no almoço, um pedaço de pizza não alimenta ninguém. – Itachi comentou certo dia, censurando a velocidade em que Sasuke degustava seu jantar devido o tamanho de sua fome. O mais novo engoliu ruidosamente, suspirando e girando os olhos antes de perguntar, pela quadragésima vez, aquilo que sabia que continuaria sendo sua dúvida.

_ Como você me segue o dia todo se eu não te vejo?

Itachi apenas sorria de canto de boca, continuando a comer e, convenientemente, ignorando a pergunta do garoto sempre que lhe convinha. Isso deixava Sasuke furioso (e envergonhado), mas ele aprendeu a conviver com tal angústia.

Ao fim da segunda semana de convivência, Karin o ligou durante o expediente. Falou que ainda estava de férias, mas que desejava o pagamento de sua promessa naquela noite. Sasuke engoliu em seco e fitou Naruto com um olhar irritado, e o loiro limitou-se a mostrar-lhe a língua. Mesmo diante de tanta rebeldia sem motivos, Sasuke concordou com a ruiva, e marcou seu encontro para aquela noite, após as aulas.

Ao chegar em casa, exausto, Itachi sequer o cumprimentou, não desgrudando os olhos da leitura que tinha em mãos. Sasuke comeu seu jantar rapidamente, tomou seu banho e vestiu a maioria das roupas no banheiro, para evitar maiores constrangimentos. Quando saiu do pequeno cômodo, Itachi lançou as primeiras palavras.

_ Este é muito bom, você leu? – o mais velho questionou, levemente empolgado, segurando uma copia surrada de "Admirável Mundo Novo" de Adous Huxley em mãos. Era engraçado como diante de leituras o comportamento de Itachi se tornava suave, Sasuke conseguia até adivinhar se este gostava da leitura ou não. Em geral, as conversas mais longas que tinham eram a respeito de livros.

_ Não. – o mais novo respondeu, abaixando-se para amarrar seus sapatos.

_ Pois deveria. Os personagens são estereótipos verdadeiramente intrigantes.

_ Agora lembrei desse livro, já li sim. John parece você Itachi – Sasuke comentou, erguendo-se e fitando os olhos confusos do mais velho. Sorriu, explicando-se – Sem conhecimento de nada do mundo, ou ao menos aparente confusão, até mesmo inocente às vezes. Selvagem e não lapidado, não corrompido.

Sasuke, neste momento, tentava dar o nó em sua gravata, sentindo dificuldade pela ausência do espelho, mas mesmo assim recusava-se a comprar um para observar seu reflexo. Itachi suspirou sorriu de canto de boca, levantando-se da cama e caminhando ate o local onde a batalha com a gravata era travada. Parou as ações de Sasuke com um toque suave em suas mãos, e passou ele mesmo a realizar o nó.

_ Se eu pareço com John, você se parece com Bernard Marx: revoltado com a sociedade, com sua condição de vida, mas igualmente passivo e sem voz de revolução, submetendo-se ao sistema quando lhe convém. – Itachi desafiou, mas Sasuke não parecia prestar atenção em suas palavras, corando instantaneamente com a aproximação repentina. Itachi gostava muito da coloração rosada que as maçãs do rosto do Uchiha adquiriam de vez em quando, apesar de não entender por que isso acontecia – Está indo encontrar sua Lenina?

O mais novo absorveu aquela nova informação, não parecendo ofendido com a comparação de Marx, mas reagindo intensamente ao soltar uma gargalhada com a comparação de Lenina.

_ Karin seria Lenina nessa história? Oras, eu não encontraria comparação melhor! – Sasuke respondeu entre o riso, fazendo Itachi sorrir, sem entender o que havia dito de tão engraçado, mas sentindo-se feliz por ouvir a risada do mais novo. Terminou o nó e se afastou minimamente, admirando as roupas de Sasuke.

Ele estava vestido extremamente formal, com terno completo e uma bela gravata azul de cetim. Tal vestimenta o fazia parecer mais velho do que realmente era, e Itachi não gosto muito dessa constatação.

_ Você está indo para algum lugar importante? Quem solicitou a reunião? Pode ser perigoso é melhor que...

_ Shii, relaxe, só vou pra um encontro com a minha chefe.

_ Sua chefe? – Itachi questionou, achando estranho o comportamento. Não sabia muito como funcionava essas relações de trabalho, mas já havia escutado conversas a esse respeito, e a relação entre funcionários e chefes fora de expediente, geralmente, não eram bem vistas pela sociedade.

_ É uma longa história, não me olhe assim. – o celular tocou, e Sasuke leu a mensagem recebida, voltando a fitar Itachi em seguida – Ela está lá embaixo me esperando... Por favor, não me siga essa noite.

_ Por quê? E se acontecer alguma coisa?

_ Você tá parecendo minha mãe... – Sasuke arrependeu-se instantaneamente do que falou, engolindo as últimas palavras. Itachi percebeu o desconforto do mais novo, aguardando para que ele continuasse a falar. Suspirou pesadamente, pegando as chaves de casa e dando as costas ao mais velho – Não me siga Itachi, você não vai querer ver o que vai acontecer. Garanto que voltarei são e salvo, como sempre voltei antes de você aparecer.

Assim que terminara de falar, saiu, fechando sutilmente a porta. Itachi ainda ficou parado por alguns minutos, mas por fim decidiu acatar o pedido do mais novo, afinal, ele estaria acompanhado e a chance de algo grave acontecer era mínima. Sentindo-se novamente frio e mecanizado (a ausência de Sasuke fazia-o sentir-se desta maneira) pegou o livro em suas mãos, analisando a capa com certo cuidado.

_ John... – falou ao para ninguém em particular, colocando o livro em sua prateleira de origem - ... antes fosse Sasuke, antes fosse.

(***)

Sasuke nunca havia se rendido aos encantos de Karin por dois motivos: Sua ligação profissional, o que poderia tornar-se um problema num futuro não tão distante, e a doentia paixão que a ruiva parecia nutrir por si. Considerava que ignorar a paixão de Sakura e toma-la como parceira havia trazido muita dor para a rosada, então não gostaria de realizar o mesmo erro com a ruiva.

Mas não tinha como negar que ela era, sem sombra de dúvidas, uma tentação.

Karin vestia um longo vestido negro, com aberturas laterais e um decote vantajoso. Seus cabelos ruivos – costumeiramente bagunçados nos dias de trabalho – estavam presos em um coque elegante, com alguns fios soltos. Os óculos apenas aumentavam a graciosidade da vestimenta, dando-lhe um ar inteligente e intrigante. Sasuke não desgrudou os olhos dela desde que a vira aguardando-o em seu carro.

Odiava aceitar carona de mulher, mas se Karin estava utilizando-o como pagamento, esse era o mínimo que ela podia fazer.

Quando ela requisitou que ele vestisse terno, Sasuke achou que se tratava de alguma espécie de fetiche da garota. Jamais passou por sua cabeça que ela não pretendesse leva-lo para um motel, tamanho era o desespero que a ruiva parecia sentir por sua paixão. No entanto, os dois agora estavam sentados em um restaurante extremamente refinado dentro do hotel cinco estrelas mais elegante da cidade (algo que Sasuke tinha certeza que não podia ser pago com salário de gerente de supermercado), envoltos por uma cabine particular e bebericavam um vinho caro e desconhecido pelo moreno. Karin requisitava pratos em francês para o garçom, que memorizava tudo com eficiência.

_ Karin, o que você pretende com tudo isso? – questionou assim que o garçom desapareceu pela cortina, deixando os dois a sós. Não que ele não estivesse gostando do tratamento, mas isso vindo da ruiva à sua frente não era algo que ele imaginava acontecer, nem em um milhão de anos.

_ Ora Sasuke, relaxe e aproveite a noite. – ela respondeu, sorrindo docemente e retirando um dos pés de seu salto alto, levando-o de encontro a perna do moreno e acariciando-a por debaixo da mesa. Sasuke ergueu uma sobrancelha de maneira questionadora, mas não impediu o gesto – Minha família é dona desta rede de hotéis internacional, não se sinta apreensivo por causa do preço.

A informação pegou o moreno completamente de surpresa. Ele largou seu copo na mesa e provavelmente mantinha um olhar arregalado, pois a ruiva riu minimamente de sua expressão e em seguida voltou a acariciá-lo com o pé, respirando fundo para se explicar.

_ Como uma herdeira deste império trabalha como gerente, você deve estar se perguntando, não é?

_ Confesso que realmente os fatos não batem. – Sasuke respondeu com a voz rouca, sentindo-se um pouco desconfortável com a carícia da morena. Ela agora subia o pé, à altura de sua coxa...

Sasuke, pelo amor de Deus, tome jeito! Desconfortável? Desconfortável!? Sabe quantos homens dariam um rim para estar no seu lugar? – sua consciência gritava incessantemente em sua mente, e apenas por isso ainda não havia reclamado para Karin.

_ Bom, o fato é que sempre gostei de você, desde que passamos a estudar juntos na oitava série, mas você nunca prestou atenção em mim.

_ ... Nós estudamos juntos?

_ Vê o que eu digo? – ela sorriu tristemente, abaixando a perna e tomando um gole de seu vinho. Pigarreou, encarando o liquido carmesim por alguns instantes, antes de recomeçar a falar com um tom levemente melancólico – Eu estudei durante anos com você, mas não se sinta mal, eu já sabia que você nem sequer percebeu isso. Lembro-me bem que você possuía bolsa de estudo na escola por causa de sua condição de órfão e extrema aptidão aos esportes, e não era apenas a minha pessoa quem o admirava a distância. Mas você causava problemas, brigas com vários estudantes, e tinha o Uzumaki sempre na sua cola, domando sua fera. Era difícil se aproximar.

_ Por favor, não repita momentos de minha vida que eu gostaria de esquecer. – respondeu secamente, também bebendo mais um generoso gole de sua taça. Karin sorriu novamente, aparentemente mais feliz, e colocou a taça de volta à mesa, ajeitou os óculos e continuou a falar.

_ Fico feliz que essa fase tenha passado, mas voltando ao assunto: Quando nos formamos e você saiu do orfanato, sabia que iria trabalhar para pagar suas dívidas e se sustentar. Descobri que adquiria o emprego no supermercado duas semanas após a assinatura da sua carteira de trabalho, e usei minha influência para conseguir o cargo de gerente e tentar me aproximar de você. – o belo sorriso da ruiva se desfez, e ela suspirou penosamente antes de continuar a falar – Todavia, não fui bem sucedida... Por isso, a oportunidade com o Uzumaki se mostrou a única chance, mas não se preocupe, agora que tenho você aqui, interessando em minha história, não vou demitir o seu amigo, mesmo que minha proposta adquira uma resposta negativa. Na verdade, sequer pretendo voltar para a gerência daquele supermercado...

Levantou-se com graciosidade de sua cadeira, calçada nos dois pés, e deu a volta na mesa redonda e puxando um pouco a cadeira de Sasuke para trás. O moreno observou tudo extremamente curioso e apreensivo, solvendo até a última gota de sua taça, e surpreendeu-se quando percebeu que tudo que ela desejava era espaço, pois em seguida passou uma das pernas por cima do corpo do moreno, sentando-se em seu colo.

Sasuke não conseguiu reagir, estava abobalhado diante de tanto gesto de confiança, e, convenhamos, não estava acostumado com mulheres assim. Karin tomou suas duas mãos e colocou-as sobre sua cintura, em seguida inclinou-se para frente, entrelaçando seus braços ao redor do pescoço do Uchiha, olhando em seus olhos enquanto continuava a falar.

_ Eu não estou aqui apenas para uma noite de sexo, estou aqui para te propor um trato.

_ ... Trato?

_ Sim. – ela se moveu minimamente sobre seu colo, fazendo Sasuke perceber com a fricção que estava excitado. Não era para menos, já que desde que Itachi passara a dividir apartamento consigo ele e não tinha...

Oh. Itachi.

Recordar a existência do moreno mais velho que o aguardava em casa fez o Uchiha ficar levemente tenso e suar frio. Ao mesmo tempo em que não desejava retirar Karin de seu colo, sentia-se mal por permitir tal contato físico, mesmo sem entender o porquê desse sentimento. Estremecendo, agarrou a garrafa de vinho que descansava no balde de gelo ao seu lado, enchendo a taça mais uma vez e levando-a aos lábios em seguida.

_ Sim, trato. Eu sei muito bem que você não é um homem destinado a criar laços, eu nunca o vi com uma namorada. Por isso, quero propor um trato que beneficiará nos dois. – a ruiva inclinou-se minimamente, levando sua boca à altura da orelha de Sasuke e mordendo-a minimamente antes de falar. Ele já estava ofegante e levemente tremulo, lutando contra uma quantidade grande e oposta de sentimentos – Eu já possuo vinte e cinco anos, meus pais estão me pressionando a casar. Mas eu nunca vou amar outra pessoa, pois o meu coração é seu. Por isso peço-lhe Sasuke, case-se comigo.

_ O QUÊ? – Sasuke a empurrou minimamente, segurando com força os seus ombros, liberando espaço o suficiente entre os dois para que pudesse encara-la nos olhos – Que espécie de trato é esse? Está doida?

_ Não é o que está pensando Sasuke. Nós nos casamos, mas você terá a completa liberdade para ter quem desejar fora do casamento, será apenas uma fachada para alegrar meus pais. Você, como meu esposo, terá acesso ao nosso capital, e com isso poderá tentar reerguer a empresa de seus pais, pois eu sei que possui esse sonho. Em troca, nós brincaremos de casinha diante dos meus pais e os deixaremos felizes, enquanto eu poderei ter, mesmo que minimamente, você para mim.

_ Karin isso é absurdo! Eu... – Sasuke tentou responder, mas a ruiva desprendeu-se de sua pegada, voltando a entrelaçar os braços ao redor do pescoço do moreno, puxando-o para um beijo lascivo e intenso. Pela primeira vez na vida, o moreno gostou um pouquinho do beijo, mas não o suficiente para perder a coerência, voltando a empurra-la para trás – Karin!

_ Sasuke é uma oferta irrecusável! Você terá tudo que deseja, da maneira que deseja, e eu também não acho que sou tão feia ao ponto de ser jogada fora dessa forma... – ela se mexeu novamente no colo do homem abaixo de si, mas percebeu, para sua surpresa, que ele não estava mais excitado. Inicialmente sentiu-se mal, mas logo esse sentimento foi substituído por um insight esclarecedor – Nenhum homem recusaria uma oferta dessa.

_ Pois eu recuso, eu...

_ Sasuke, você é gay?

O QUÊ?

O Uchiha passou a encará-la com um olhar descrente, não acreditando que acabara de ouvir tal pergunta. Essa garota possuía algum tipo de problema? De onde tirou esse tipo de idiotice?

Bom, mas você sabe que até que tem pertinência se questionar se...

Cale a boca, parcela mental traidora!

_ Quero dizer, você aparentemente não ama nenhuma mulher, nunca o vi com alguma garota, mas ainda sim recusa a minha oferta onde terá tudo que você aparentemente deseja... É inevitável pensar que você seja gay.

_ Só porque eu não quero me vender desse jeito significa que sou gay? – questionou, descrente. A garota saiu de cima de seu colo, voltando para seu lugar no outro lado da mesa e voltando a beber sua taça de vinho.

_ Não é só por isso, é uma constatação de varias coisas... E nenhum homem broxou comigo dessa maneira.

_ Será que a culpa é realmente minha?

_ Ora, por favor Sasuke, não sou aquele tipo de menina que considero que se o homem broxa é porque eu não sou interessante o suficiente. Tenho espelho em casa, sabe? – a ruiva respondeu, sorrindo de canto de boca – Me diga então, quem detém suas fantasias? Por acaso é o Uzumaki?

_ Karin, eu estou avisando... – o Uchiha alertou, sentindo-se cada vez mais e mais acuado. Qual é o problema dessa garota a final de contas?

_ Sabe Sasuke antes eu me sentia horrenda por não adquirir sua atenção, mas agora eu fico imensamente feliz por saber que a culpa não é minha e sim por causa de sua orientação sexual. Claro que dói da mesma forma não ter a pessoa que eu amo, mas confesso que acho até bonitinho dois homens jun...

Ele não ouvia, não conseguia prestar atenção, estava ocupado demais tendo uma briga interna consigo mesmo.

Isso explicaria muita coisa, sabe.

Cale a boca.

Mas faz sentido! Isso explica sua vontade de ficar sempre ao lado de Itachi, a sua ausência de anseios carnais com mulheres desde que ele se mudou pra sua casa, quando foi a ultima vez que você tocou em uma daquelas revistas do criado mudo?

Cale a boca! – ele ate conseguia ver seu eu interior sorrir em provocação.

Ok então, dificulte mais as coisas pra você, mas sabe que inevitavelmente um dia terá que admitir que...

CALE A BOCA!

Sasuke interrompeu o discurso absurdo levantando-se com brutalidade, derrubando a cadeira no chão e socando com força a mesa a sua frente, observando os olhos assustados da ruiva com uma determinação e violência palpável.

_ Eu não sou gay.

_ Ok. – ela respondeu sem folego, percebendo que havia passado além da conta – Sente-se Sasuke, está me assustando.

_ Eu não sou gay!

_ Sim você não é, por favor, sente-se.

_ E eu vou provar isso!

Assim que falou essas palavras, deu-lhe as costas, marchando com brutalidade para fora daquele restaurante sem se importar com sua companhia, decidido a provar a todos (principalmente a si mesmo) que não era homossexual.

É mesmo Sasuke? Então porque é apenas a figura de um único homem que lhe vem à mente, o de cabelos cumpridos, convenientemente o aguardando em sua casa, e se der sorte: em sua cama.

CALE A BOCA, EU JÁ DISSE!

(***)

Fazia algo que há alguns dias havia se tornado parte de sua rotina: folheava novamente o álbum de fotografia de Sasuke. A cada foto percebia novos detalhes, capturando essências antes despercebidas: como os olhos da mulher de longos cabelos escuros exalava tristeza, como os olhos de Sasuke pequenino ignoravam esse fato, brincando e fazendo caretas para a foto. A cada momento que passava analisando tais fotografias percebia o quanto Sasuke parecia-se com sua mãe, e o quanto se tornava cada vez mais e mais semelhante com a dor interna que cultivava, exibindo o mesmo olhar peculiar.

Um barulho interrompeu sua análise crítica, e Itachi sorriu minimamente, suspirando de forma suave.

_ Você veio pra me matar? – questionou sem fazer um único movimento brusco, limitando-se apenas a virar a página uma única vez.

_ E se fosse Itachi, por que não reage? – ele questionou, andando dois passos à frente e aproximando-se das costas do mais novo. Itachi fechou os olhos, aparentemente tranquilo – Por quê? – o estranho questionou novamente, colocando sua espada larga no ombro do moreno, apontando a lâmina afiada para seu pescoço, milimetricamente direcionada para sua jugular.

_ Porque você sabe que não pode me matar, Kisame. – respondeu simplesmente, virando mais uma página. Kisame manteve a pegada firme na arma branca por mais alguns instantes, até render-se às palavras de Itachi e guardá-la na bainha escondida em sua roupa e oculta pelo seu longo sobretudo de couro.

Caminhou dois passos, fingindo ignorar as palavras de Itachi e passou a analisar melhor a casa daquele que abrigava seu companheiro. Havia alguns poucos porta-retratos, mas foi o suficiente para entender porque Itachi estava naquele local.

_ Esta tendo algum tipo de delírio? – questionou, com a voz rouca e extremamente sentida – Não se lembra da verdade Itachi? Prefere esquecer esse singelo detalhe e viver uma mentira? Esse garoto não é sua família, sua família não existe.

_ Eu sei. – Itachi respondeu, finalmente levantando o rosto a fim de encarar o antigo companheiro. Kisame era alguns anos mais velho e experiente, mas ainda sim possuía o ar chocante e pouco convencional. Pele acinzentada, levemente azulada devido a falta de sol, cabelos azuis em um grito de rebeldia, roupas largas, longas e negras, com o proposito de escolher as armas nada discretas que costumava usar.

Itachi achou, erroneamente, que jamais fosse tornar a ver essa figura novamente.

_ Se sabe, explique-se.

_ A ignorância muitas vezes é uma dádiva... – o moreno respondeu, e Kisame perdeu a paciência, socando a parede com força e fazendo o calendário de Sasuke desprender-se do prego e cair ao chão. Itachi o fitava com raiva àquela altura do campeonato, mas mesmo assim falou o que deveria ser dito naquela ocasião – Estou pagando uma divida de honra, o garoto salvou minha vida.

_ Você realmente acha que eu cairia numa babaquice dessa? O pirralho pode até ter acreditado, mas não pra cima de mim! – caminhou um passo ate Itachi, entregando-lhe um papel. O moreno fitou seu conteúdo por alguns segundos, e no fim passou a picotá-lo despreocupadamente – Não acredito nisso Itachi, não da pra acreditar! Você viu o preço com seus próprios olhos! Você sabe que é o que todos nos desejamos! Ninguém vai hesitar em...

_ Estou aqui, à sua frete, desarmado e vestido como um civil... – Itachi falou simplesmente, depositando o álbum de fotografias na gaveta, fechando-a e abrindo os braços em seguida, fitando Kisame com um olhar desafiador – Vamos, o que está esperando? O preço é muito bom e a situação conspira a seu favor, eu não pensaria duas vezes.

O mais velho o fitou por longos minutos, sem saber exatamente o que falar, abrindo e fechando a boca como um completo tolo. Ao final de tanto momento de reflexão, perdeu a compostura, deixando-se padecer ao lado de Itachi, sentando-se na cama de casal e segurando a cabeça com as mãos.

_ Eu sei. Mas eu não consigo, você sabe disso...

_ E você sabe que são essas pequenas coisas que ainda o torna humano. – falou o mais novo, abaixando os braços e fitando a parede atentamente.

_ Você é humano Itachi.

_ Eu não hesitaria em te matar.

_ Mas você não mataria o garoto, e aí está sua humanidade. – Kisame respondeu, sem parecer ofendido com as palavras de Itachi. O moreno sorriu, pois sabia que seu companheiro conseguia interpretá-lo corretamente. Uma vida inteira de parceria não era jogada fora sem ensinamentos, afinal – Você é meu único amigo Itachi...

_ Sasuke está chegando, consigo ouvir os passos no corredor. – o moreno o interrompeu, desconfortável com o discurso sentimental de Kisame. Geralmente ele não agia assim, tanto a parceria quanto a amizade que possuíam costumavam ser um tabu, até mesmo entre os dois.

_ Esse é o nome dele então. – O moreno não respondeu, não havia o que responder. Não precisava apressar Kisame, ele sabia que no momento em que Sasuke adentrasse em seu apartamento, a presença do mais velho não seria mais perceptível – Olha Itachi... Espero que entenda o perigo que recai sobre as suas costas. Em você, e no moleque. Isso não aconteceria se você não fosse um desertor.

_ Isso iria acontecer de qualquer jeito Kisame... Só lamento ter colocado Sasuke nessa confusão. Mas não tive escolha.

_ O que quer dizer?

Mas Itachi não precisou responder essa pergunta, ambos ouviram o barulho de chave girando. Piscou pausadamente e, como previsto, Kisame desapareceu de sua vista ao reabrir os olhos.

_ Okaeri. – Itachi falou mecanicamente, ainda na mesma posição, sabendo que Sasuke já estava dentro da quitinete.

O Uchiha não respondeu, estava aparentemente furioso. Jogou as chaves de qualquer jeito em cima da mesinha e foi ate onde Itachi estava sentado. Abaixou-se para ficar à altura do mais velho, e colocou as duas mãos em seu rosto, obrigando a fitá-lo em seus olhos. Itachi esqueceu-se completamente de não permitir que ele o tocasse, ou ao menos pareceu não ligar.

Como havia previsto, Sasuke estava com um olhar mortífero, completamente fora de si: os orbes negros praticamente faiscavam com uma mistura de sentimentos que Itachi não conseguia compreender, e o som gutural que saiu de sua boca mal parecia sua voz.

_ Nós somos parentes? – apesar de soar como uma pergunta, Itachi tinha certeza que se tratava de uma ordem. Não estava intimidado pela áurea do mais novo, mas ainda sim respondeu com toda sinceridade que lhe cabia, pois loucuras de sua mente não tornam as coisas mais ou menos reais.

_ Não. – ergueu uma das sobrancelhas, desafiando-o em sua próxima ação, curioso com o comportamento nada comum.

_ Ótimo. – O mais novo respondeu, e Itachi achou que ele teria a audácia de tentar socá-lo mais uma vez, ou, no mínimo, expulsá-lo daquela casa, seja lá por qual motivo havia enfurecido o dono do apartamento. Mas pela primeira vez a atitude do Uchiha o deixou completamente sem reação, pegando-o de surpresa como nunca algo na vida havia sido pego.

Sasuke o beijou.

... Continua...