Disclaimer: Os personagens da fanfic pertencem a Masashi Kishimoto, a trama, no entanto, me pertence.

Warnings: linguagem chula, violência, mortes, tortura, cenas explícitas de sexo homossexual e relações incestuosas.


N/A: Hello mina-san!

Pra quem chegou a ler o aviso que coloquei no perfil: vocês não esperavam por esse capítulo não é? ^^ Consegui escrever, yay! Mas continuo não mantendo promessas até 22/10 ok? (pra quem não sabe do que estou falando: leia o aviso no meu perfil).

Muitos e muitos beijos!


HAUNTED

Capítulo XV

Sasuke esperava com certa impaciência que Itachi finalmente colocasse as ideias no lugar para que começasse a falar. Depois de um minuto observando o mais velho olhar reiteradamente para a porta e para a janela, como se desejasse escapar dali, ele perdeu o restante de paciência que ainda possuía, colocando-se de pé em um pulo, pronto para ir até a casa de Kakashi e Naruto e ver se os dois estavam bem. E que se dane Itachi!

Mas, como esperado, ele o puxou mais uma vez e o jogou na cama, deixando o mais novo ainda mais furioso.

_ Me solta, cansei de esperar! – gritou, tentando se libertar e sair o quanto antes dali, mas Itachi estava segurando-o com força. O fitou com extrema irritação, rosnando da maneira mais feroz que conseguiu para tentar deixar claro o seu ponto. – Me solte agora!

O rosto do mais novo estava furioso, rosado de irritação. Seus cabelos bagunçados por ter sido jogado na cama e seu corpo se debatia, aumentando a fricção da pele dos dois. Tais fatores somados nada contribuíam para a racionalidade de Itachi, que perdia de lavada contra seus próprios anseios libidinosos.

_ Sasuke, pare de agir assim que você me deixa excitado e aí é que eu não vou conseguir falar mesmo! – Itachi sussurrou como se tentasse acalmar os ânimos, interrompendo o olhar e concentrando sua atenção para a parede oposta.

De tudo que Sasuke esperava ouvir, ele jamais imaginaria que Itachi fosse pronunciar aquelas palavras. Sua irritação se transformou instantaneamente em vergonha e ele também desviou o olhar, tentando se acalmar e não corar, falhando completamente.

_ E você teve a ousadia de me chamar de "adolescente hormonal", você é quem parece um adolescente hormonal! – Sasuke murmurou, tentando se soltar com menos violência, envergonhado demais para manter a pose de antes. – Pode me soltar, não vou fugir.

Mais do que instantaneamente, Itachi o soltou e se afastou o quanto pôde, sentando no sofá onde costumava dormir até um dia atrás, assegurando que estava a uma distância segura de Sasuke.

Pelo jeito, Itachi tinha alguma dificuldade em manter seu autocontrole...

Antes que Sasuke pudesse processar as novas informações, Itachi recobrou sua compostura, rindo baixo e de maneira prepotente antes de falar com convicção.

_ Você não faz nem ideia de como eu era quando era adolescente. E eu acho que você não aguentaria o tranco.

Sasuke arregalou o olhar, corando ainda mais e sentando com certa dignidade na cama e se utilizando de todo seu orgulho para ainda ter forças para continuar a encarar Itachi nos olhos.

_ Olha aqui pervertido, nem tente desviar o assunto! Quero saber a verdade já!

É isso aí Sasuke, mostre que você tem autocontrole! Depois domine o Itachi!

Isso foi um desafio Sasuke, não me desaponte quando chegar a hora de provar pro Itachi o que você é capaz de fazer. Ser passivo não significa submisso!

Eu não vou mais transar com o Itachi, querem parar de idiotice?

Aham, tá bom...

E eu nunca mais quero saber de vocês pensarem na palavra "passivo".

Eu também não! Seja ativo Sasuke! Mostre quem manda!

Prefiro não me pronunciar a respeito.

_ Em primeiro lugar, quero deixar claro que não estou revelando essas coisas pra você por temer que, de alguma maneira, você consiga "fugir". – Itachi falava calmamente; cruzou seus braços e passou a encarar Sasuke com um olhar desafiador e autoritário. – Você não conseguiria fugir de mim.

_ Quem disse que...

_ Eu disse. Você não conseguiria, porque eu não vou permitir que meu erro passado se repita. – aumentou consideravelmente o tom de voz, calando Sasuke no mesmo instante. – Todavia, não quero que você fique se expondo ao perigo por meio de tentativas inúteis de fuga, pois mesmo que eu tenha condições de encontrá-lo dentro de alguns minutos, talvez o pior aconteça nesse meio tempo. Não vamos brincar com a sorte.

Sasuke não respondeu, sentindo como se recebesse uma bronca do desgraçado do Fugaku naquele instante. Até o tom de voz do Itachi assemelhava-se ao de seu pai e, talvez por isso, resolveu ficar quieto. Não costumava receber broncas do pai quando este ainda era vivo, mas as poucas que recebera (quando este não o ignorava por completo) não foram boas experiências, acabando geralmente em um castigo inesquecível, caso Sasuke retrucasse as palavras do progenitor. Itachi não era seu pai, sem sombra de dúvidas, mas a simples menção daquele fantasma em sua mente o fizera associar, inconscientemente, as duas pessoas.

O que era o mesmo que dizer que Sasuke não reagia muito bem às broncas, sentindo-se extremamente frágil em situações como estas. Toda sua revolta inicial se dissipou e Itachi pareceu aprovar a nova demonstração de emoções no seu olhar, pois também relaxou visivelmente.

_ Não me atrapalhe até eu terminar de falar, ok?

_ Ok... – Sasuke respondeu com a voz fraca, fazendo Itachi sorrir de canto de boca, orgulhoso de si mesmo por constatar que ainda tinha o controle naquela relação. Isso quase, veja bem, quase fez Sasuke voltar ao seu 'modo revolta', mas o trauma das broncas passadas ainda era extremamente forte.

*.*.*

"Figura-te agora o estado da natureza humana, em relação à ciência e à ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer. Imagina os homens encerrados em morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda extensão. Aí, desde a infância, têm os homens o pescoço e as pernas presos de modo que permanecem imóveis e só veem os objetos que lhes estão diante. Presos pelas cadeias, não podem voltar o rosto. Atrás deles, a certa distância e altura, um fogo cuja luz os alumia; entre o fogo e os cativos imagina um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para ocultar-lhes as molas dos bonecos maravilhosos que lhes exibem.

Supõe ainda homens que passam ao longo deste muro, com figuras e objetos que se elevam acima dele, figuras de homens e animais de toda a espécie, talhados em pedra ou madeira. Entre os que carregam tais objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam em silêncio."

*.*.*

_ Eu não sei muito a respeito do meu nascimento e primeiros anos de vida, minha primeira memória na infância é o local onde fui criado e vivi até então. Nós o chamávamos de QG.

_ QG? De quartel general?

_ Qual a parte do "não me atrapalhe até terminar" você não entendeu?

Sasuke ficou emburrado e cruzou os braços, ato este que fez os olhos de Itachi brilharem escarlate mais uma vez. Sinceramente, algo de muito errado parecia estar acontecendo com ele, qualquer pequena movimentação feita pelo garoto era capaz de mexer intensamente com os seus pensamentos mais primitivos; mas ele tinha uma reputação a manter.

_ Não sei se era abreviação de "quartel general", mas pensando bem até que faz sentido. No QG nós éramos treinados para combate terreno, de corpo a corpo até a utilização de diversos armamentos diferentes. Ao mesmo tempo em que tínhamos o combate físico, tínhamos também aulas com professores específicos a respeito de comportamento humano e o básico de uma vida em sociedade. Todos nós seguíamos um calendário extremamente rigoroso: amanhecíamos, geralmente, as quatro da madrugada; tínhamos os primeiros treinamentos físicos que duravam até o topo do sol, era como chamávamos o meio dia; e durante a tarde vinham os experimentos.

_ Experimentos? – Sasuke não se controlou, interrompendo sua explicação e se arrependendo logo em seguida. Todavia, Itachi não pareceu se importar com a interrupção.

_ Sim. Também não me recordo quando começaram, minha primeira memória envolve um deles, então acredito que tenha sido antes...

_ Que tipo de experimentos?

_ Não consegue adivinhar?

Sasuke piscou algumas vezes, observando os olhos carmesim com um ar de contemplação; Itachi compreendeu a resposta implícita do mais novo.

_ Os olhos não fazem nada em específico, são meramente um efeito colateral que não prejudica nossa saúde. Os experimentos envolvem aumento considerável dos cinco sentidos básicos de um ser humano, nós somos trinta e sete vezes melhores do que um ser humano normal.

_ Trinta e sete?!

_ Sim. Meu tato, olfato, audição, visão e paladar são trinta e sete vezes superiores ao seu; isso, obviamente quando estamos com o máximo de proteína no organismo. Conforme a proteína vai diminuindo, eles vão se tornando cada vez mais ineficientes. A ausência da proteína não nos mata, mas nos tira os cinco sentidos básicos; sem nossos meios para perceber o mundo externo, nos tornamos inúteis e passamos a vegetar.

_ Isso já aconteceu?

_ Já. Eu fui castigado assim algumas vezes... Quando agíamos contra o ordenado, éramos castigados e esse era o pior castigo que podíamos receber. Eu passei três anos em estado vegetativo.

_ Três anos?!

_ Sasuke, pare de me interromper!

_ Mas três anos é muito tempo! – o Uchiha se aproximou de Itachi, com um olhar misericordioso que nada condizia com sua atitude birrenta de minutos atrás. Sentou-se ao seu lado no sofá, parecendo não se dar conta da grande proximidade entre os dois. – Por que isso aconteceu?

_ Você está surdo? Porque eu não fiz o ordenado oras, foi um castigo.

_ Mas isso é desumano!

_ Para eles nós não somos humanos... Eu não acho que realmente sejamos humanos. Nós somos experiências, cobaias, armas... Chame como preferir, mas certamente não somos humanos.

Itachi exibia frieza no olhar, mas ao proferir as últimas palavras alguns vestígios de tristeza passaram por suas íris. Quando Sasuke abriu a boca retrucar tais constatações absurdas, Itachi recomeçou seu discurso.

_ Depois de uma quantidade considerável de baixas, desaparecimentos e mortes, nós nos tornamos apenas dez. Somos chamados de "os dez da Akatsuki", cada qual com sua especialidade. Não sabemos muito a respeito uns dos outros, o que acredito ser uma espécie de manutenção do poder: quanto mais alheios às questões pessoais de nossos companheiros, será mais fácil de sermos dominados. Não há a possibilidade de organizar uma revolução, se não nos conhecemos de verdade.

_ Existem dez pessoas como você?

_ Os dez da Akatsuki são a elite, há outros que possuem a mesma capacidade de poder, mas não o mesmo talento e por isso são considerados inferiores. – Sasuke o olhava com um ar de confusão extremamente palpável e Itachi suspirou cansado antes de tentar tornar a abordagem um pouco mais didática. – Os Akatsuki foram os experimentos bem sucedidos, enquanto os demais são meros peões.

_ Mas não entendo, se há vários homens como você, porque vocês se deixam dominar por alguém, moram em um quartel e sofrem castigos desumanos como uma espécie de coma induzido?

_ Porque se nós não fizemos tudo isso, não receberemos a proteína e vamos inevitavelmente morrer. É uma situação de vida ou morte Sasuke, apesar de que muitos de nós realmente gostarem de viver da maneira como vivemos. Entenda, nós nunca tivemos o mesmo privilégio de conhecer o mundo como você conhece, nosso mundo foi o QG até sairmos para as primeiras missões, que não consistiam em grandes interações com a vida externa. De certa forma, quando nada se conhece, nada se teme perder, ou possuir, ou ansiar. A maioria dos Akatsukis é feliz com a vida que tem, pelo simples fato de não conhecer outra possibilidade de vida.

*.*.*

"Assim colocados, poderão ver de si mesmos e de seus companheiros algo mais que as sombras projetadas, à claridade do fogo, na parede que lhes fica fronteira?

E dos objetos que lhes ficam por detrás, poderão ver outra coisa que não as sombras?

Ora, supondo-se que pudessem conversar, não te parece que, ao falar das sombras que veem, lhes dariam os nomes que elas representam?

E, se, no fundo da caverna, um eco lhes repetisse as palavras dos que passam, não julgariam certo que os sons fossem articulados pelas sombras dos objetos?

Em suma, não creriam que houvesse nada de real e verdadeiro fora das figuras que desfilaram."

*.*.*

_ Eu confesso que por muito tempo, eu me considerei uma pessoa extremamente feliz. Não me importava em não conhecer o mundo externo, o que eu tinha na minha vida bastava. Entenda Sasuke, eu nem sabia o que existia do outro lado ou se havia outro lado! Eu era feliz em minha ignorância, porque a ignorância é a verdadeira dádiva que uma pessoa pode ter.

_ O que os olhos não veem, o coração não sente... – Sasuke murmurou, seu olhar perdido em pensamentos, assimilando as palavras de Itachi as poucos.

_ O que isso quer dizer?

_ Exatamente o que fazia você ser feliz nessa vida ridícula que era obrigado a viver. Você não tinha consciência da verdade, não observava o mundo real e por isso a angústia de ser um prisioneiro não o atingia.

Itachi sorriu, um sorriso realmente verdadeiro, fazendo os olhos de Sasuke brilharem em contentamento. Raramente via Itachi sorrir de alguma forma que não fosse revestida da habitual prepotência e este fato poderia ser considerado algo quase que inédito. Saber que fora ele quem causou essa reação tão peculiar e relevante em Itachi fizera seu coração aquecer de tal maneira que ele sentia-se extremamente realizado e reconfortado.

Você está apaixonado.

Você definitivamente está apaixonado.

E ele estava tão feliz, mas tão feliz, que não queria perder seu tempo discutindo tal absurdo com as mentes problemáticas.

_ Sasuke, não podia esperar menos de um Uchiha; você realmente está conseguindo seguir minha linha de raciocínio. – satisfeitíssimo com o elogio implícito, nem passou pela cabeça de Sasuke perguntar a Itachi o que o seu maldito sobrenome tinha correlacionado à história.

O mais velho, da mesma forma, não pareceu se importar em explicar a comparação, continuando o seu discurso.

*.*.*

"Vejamos agora o que aconteceria, se livrassem a um tempo das cadeias e do erro em que laboravam. Imaginemos um destes cativos desatado, obrigado a levantar-se de repente, a volver a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer tudo isso sem grande pena; a luz, sobre ser-lhe dolorosa, o deslumbraria, impedindo-lhe de discernir os objetos cuja sombra antes via.

Que te parece agora que ele responderia a quem lhe dissesse que até então só havia visto fantasmas, porém que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, via com mais perfeição? Supõe agora que, apontando-lhe alguém as figuras que lhe desfilavam ante os olhos o obrigasse a dizer o que eram. Não te parece que, na sua grande confusão, se persuadiria de que o que antes via era mais real e verdadeiro que os objetos ora contemplados?"

*.*.*

_ Algo perturbador aconteceu comigo quando eu estava na minha adolescência, em uma missão em particular. Ainda não é hora de falar sobre os acontecimentos daquele dia, mas basta você saber que foi a primeira vez em que eu realmente me questionei a respeito da minha vida, do mundo, dos meus desejos e das minhas obrigações.

Sasuke observava Itachi, permanecendo silencioso ao seu lado. O mais velho parecia sereno, embora uma leve sombra estivesse em seus olhos, como se recordasse algo importante.

_ Antes, tudo não passava de postulados, obrigações a serem cumpridas, que me resultariam em méritos perante aquele superior a mim. Honras e status, nada mais. Eu fiquei confuso, muito confuso; mas, por mais contraditório que isso possa parecer, eu fiquei muito feliz por estar confuso. Porque a partir das minhas dúvidas, eu sentia que poderia chegar à verdade de alguma forma.

*.*.*

"Obrigado a fitar o fogo, não desviaria os olhos doloridos para as sombras que poderia ver sem dor? Não as consideraria realmente mais visíveis que os objetos ora mostrados?

Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelo caminho áspero e escarpado, para só o liberar quando estivesse lá fora, à plena luz do sol, não é de crer que daria gritos lamentosos e brados de cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor ambiente, ser-lhe ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por serem reais?

Precisaria de algum tempo para se afazer à claridade da região superior. Primeiramente, só discerniria bem as sombras, depois, as imagens dos homens e outros seres refletidos nas águas; finalmente erguendo os olhos para a lua e as estrelas, contemplaria mais facilmente os astros da noite que o pleno resplendor do dia.

Mas, ao cabo de tudo, estaria, decerto, em estado de ver o próprio sol, primeiro refletido na água e nos outros objetos, depois visto em si mesmo e no seu próprio lugar, tal qual é.

Refletindo depois sobre a natureza deste astro, compreenderia que é o que produz as estações e o ano, o que tudo governa no mundo visível e, de certo modo, a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna."

*.*.*

Itachi passou a exibir um olhar distante, levemente entristecido, como se perdesse em fatos passados desconhecidos por Sasuke, mas aos quais ele não iria forçar sua revelação. O Uchiha, por sua vez, queria ter consciência e entender o que proporcionava dor ao seu companheiro; desejava desesperadamente, solucionar o seu problema.

Totalmente apaixonado...

Yep. Fodeu.

Girou os olhos para os pensamentos descabidos, mas Itachi não percebeu seu momento de conversação consigo mesmo, concentrado em seu próprio passado. Assim, ele se limitou a prosseguir sua explanação.

_ No QG, eu só podia me comunicar com os cientistas e com o meu superior, ninguém mais. Com relação às outras cobaias, apesar de serem companheiros de treinamento, não havia sequer a possibilidade de iniciar uma conversa. Por sermos instruídos a não conversarmos desde o início de nossas vidas, minha primeira tentativa de abordagem foi um completo desastre.

Itachi prosseguia sua explanação, mal se dando conta de que Sasuke envolvera os dedos contra os de sua própria mão, em um gesto carinhoso de apoio. O Uchiha sentiu os dedos do mais velho se entrelaçarem aos seus, logo após. Em nenhum momento Itachi o encarou, mas Sasuke sabia, de alguma forma, que aquilo ajudaria o outro e ele se sentia feliz por está-lo ajudando.

E depois reclama conosco porque dizemos a verdade.

Fato.

Foco, vocês!

_ Eles só se comunicavam entre os pares e todos possuíam pares, menos eu... Como eu poderia chegar e conversar sobre as minhas incertezas com relação a nossa utopia surreal daquele lugar?

Sasuke sentia as palavras de Itachi se impregnarem nele e, por um instante, pensou como é que seria estar na mesma situação; sem poder falar com ninguém, ser o único isolado. Ele fitou o chão enquanto pensava nisso, inconscientemente pressionando os dedos de Itachi.

_ Como eu poderia me abrir para alguém que certamente já estava corrompido pelo sistema, assim como eu estava há pouco tempo? Se alguém viesse com esse papo de louco pra cima de mim na época em que eu me considerava alguém feliz, certamente o delataria para Madara.

_ Madara?

_ Meu superior. – Itachi respondeu rápido demais.

Sasuke se afastou um pouco do outro e arqueou uma sobrancelha em dúvida, mas não questionou verbalmente, curioso pelo resto da explicação. Entretanto, ele percebeu que Itachi ficou um pouco mais sério e obtuso ao falar a respeito do tal Madara.

_ Mesmo eu não tendo intimidade com nenhum deles e todos eles me odiando profundamente por me considerarem o favorito do superior, algo que eu realmente era, eu queria dividir. Eu queria exteriorizar minhas dúvidas... Eu queria conversar com alguém! Desejava exercer minha humanidade e compartilhar teorias, conhecimentos, realidades.

_ Resumindo, você queria um amigo.

Itachi ficou quase um minuto em silêncio, assimilando as palavras de Sasuke. Ele virou-se para encarar o mais novo, percebendo o olhar do outro cintilar em sua direção. Aquelas palavras eram tão simples e infantis, mas ainda sim revestidas de uma sapiência que jamais vira na vida.

Sim... Um amigo... Por mais que eu repudie, acho que essa seria a palavra correta.

_ De qualquer forma, foi aí que conheci, de verdade, o Kisame.

*.*.*

"Recordando-se então de sua primeira morada, de seus companheiros de escravidão e da ideia que lá se tinha da sabedoria, não se daria os parabéns pela mudança sofrida, lamentando ao mesmo tempo a sorte dos que lá ficaram?

Se na caverna houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e mais prontamente distinguisse a sombra dos objetos, que se recordasse com mais precisão dos que precediam, seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em lhes predizer a aparição, cuidas que o homem de que falamos tivesse inveja dos que no cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não preferiria mil vezes, como o herói de Homero, levar a vida de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo a voltar às primeiras ilusões e viver a vida que antes vivia?"

*.*.*

_ Kisame, apesar de exibir um talento enorme para táticas de destruição em massa...

_ Porra... Que tipo de "missões" vocês faziam? – Sasuke o interrompeu, arrepiando-se com as últimas palavras de Itachi.

O moreno mais velho balançou a cabeça em negativa, indicando que não responderia essa pergunta. Sasuke lhe lançou um olhar irritado e bufou, mas continuou quieto, curioso para qualquer informação que Itachi pudesse lhe dar. Saber algo era melhor do que saber absolutamente nada, afinal de contas.

_ Como eu ia dizendo, Kisame tinha talento para o caos. Tenho certeza que se os pares já não estivessem feitos, ele teria como dupla alguém tão caótico quanto ele, mas em um ângulo mais artístico. Constatações e indagações à parte, ele, apesar de ser dotado de extrema força bruta, era um bom ouvinte e uma pessoa particularmente curiosa.

Sasuke ouvia cada palavra dita pelo outro, percebendo o semblante de Itachi se alterar minimamente; seus olhos já não estavam mais tão distantes. Indiferente a ele, o moreno mais velho prosseguiu com seu relato:

_ Por ser o único com essas características, Madara o colocou na equipe de apoio para 'acalmá-lo', já que estes trabalhavam mais, tendo menos tempo livre para pensar. Ele ficava muito tempo nos laboratórios, analisando provas de concretização das missões ou vestígios de comportamentos deixados pelos alvos. Também inspecionava as missões externas, apagando rastros para que não fossemos descobertos por entidades investigativas como a polícia, detetives ou, até mesmo, os parentes das vítimas.

_ Isso parece muito criminoso. – Itachi o olhou nos olhos, Sasuke sentiu borboletas no estômago, mas as ignorou, dando de ombros e se esforçando para manter a mesma expressão facial. – Eu não ligo, você está me mantendo vivo, seria um absurdo da minha parte te condenar por algo do passado.

_ Às vezes a vida pode de surpreender. Nunca diga nunca, falo por experiência própria. – ele sussurrou com uma voz ríspida.

Sasuke franziu a testa e esperou. Por alguma razão, ele não gostou daquele tom utilizado pelo mais velho. Itachi pigarreou e tentou retornar ao tom explanatório anteriormente empregado e continuar sua história.

_ De qualquer maneira, como Kisame ficava no laboratório e eu tinha acesso a ele por causa de umas sessões que apenas eu era submetido, nós passamos a conversar. Ele quem começou a falar e eu só ouvia, retirando uma grande quantidade de informações importantes de seus discursos. Kisame vivia muito do lado de fora, visto que acompanhava quase todas as missões que realizávamos.

Itachi parecia que ia se perder de novo em lembranças, seu olhar fixo em algum canto da parede estava desfocado. Sasuke se restringiu a prestar atenção em suas palavras, sentindo o calor dos dedos do outro nos seus, porém Itachi estava indiferente a isso.

_ Mas, ainda sim, não curioso o suficiente para ariscar sua integridade física, perder todos os seus sentidos básicos e se aventurar em um mundo sem o auxílio da proteína. Covarde! Todos os dez da Akatsuki, mesmo com todos os poderes que possuem, não passam de covardes! Se submetem a uma leva de cientistas muito mais fracos do que eles, mas que detinham completamente o poder, porque 'ninguém dá poder a alguém que não possa controlar'.

Sasuke subitamente percebeu que Itachi parecia amargurado ao dizer aquelas palavras. Seus olhos ficaram avermelhados por uns instantes, mas logo a coloração se dissipou, mas a expressão do outro ainda estava alterada, como se estivesse com raiva e dor ao mesmo tempo. O Uchiha não entendia aquelas reações, mas sentia seu peito apertar por ver Itachi daquele jeito.

_ Madara não confiava mais em mim, se é que um dia chegou a confiar. Os outros, percebendo a desconfiança que o superior tinha comigo, também me deram as costas. Para todos eles, pouco importava de seu vivesse ou não, o único que ainda me auxiliava de alguma maneira era Kisame... E então surgiu você Sasuke. A nossa salvação.

_ Ahm? Eu? Salvação? – Sasuke sentia como se houvesse perdido algum pedaço da explicação, como ele entrava nessa confusão toda absolutamente do nada?

_ Sim, porque de alguma forma Madara soube da sua existência, acho que talvez pelo seu histórico familiar, não tenho tanta certeza. Ele sabe que seu sangue possui a solução para a nossa degradação de proteína, resumindo: Se o QG tiver acesso a você, a cura para o único efeito colateral nocivo dessa "experiência do poder" estará feita. Nós não precisaríamos de injeções periódicas.

_ É por isso que eles me querem?

_ Não exatamente, Madara não tem a intenção de 'curar' as cobaias.

Itachi sentiu seus dedos serem soltos, percebendo que estes ficaram mais frios depois que Sasuke o largou. Ele se virou para encarar o outro, percebendo os olhos arregalados e a cara de espanto, como se não estivesse entendendo. Itachi suspirou e explicou:

_ Ele e mais alguns aliados querem sim o acesso ao seu organismo para experiências e solução do problema científico, mas curar os dez da Akatsuki e demais inferiores significaria em perder a única coisa que mantém todos eles ligados ao QG, que é o medo de perder a própria vida.

_ Como assim? – Mas que droga, cada vez fica mais confuso!

_ Sem a premissa de perder a capacidade total de seus sentidos, não haveria porque continuar ali. Alguns, os mais alienados, provavelmente continuariam, mas os mais curiosos certamente sairiam de lá para explorar o mundo. Ouso dizer que alguns até se revoltariam e tentariam tomar o poder a força. Madara jamais arriscaria sua soberania em nome de um projeto científico.

_ Então se ele não quer a solução do problema... Por que tem gente atrás de mim? – perguntou Sasuke.

Era extremamente surreal acreditar numa história como essa, mas era possível, tendo em vista os absurdos que presenciara ao lado de Itachi (quer seja pelos seus peculiares dons, quer seja pelo ataque da noite anterior), de alguma forma, ele engoliu aquela informação. Depois ele re-avaliaria tudo novamente, mas agora tudo que desejava era mais peças para aquele quebra-cabeça complicado que Itachi lhe dava de desafio.

_ É uma caça ao tesouro, na verdade. Madara lançou um desafio, quem tiver acesso a você primeiro, ganhará como recompensa a cura. Qualquer um pode conseguir, os dez da Akatsuki, inferiores, cientistas... Eu fui designado para ser o seu guardião e protegê-lo das tentativas deles.

Sasuke sentiu-se gelar diante dessas palavras, compreendendo que ele era o alvo. Acima de tudo, compreendendo que Itachi não estava com ele porque o considerava, mas porque lhe deram ordens. Seu coração se recusava a acreditar nisso, mas Itachi ainda continuava explicando.

_ Através dessa experiência, Madara teria conhecimento de quem deseja a liberdade, ou melhor, de quem não confia cegamente em si. Afinal de contas, para alguém totalmente maquiavélico como ele, aqueles que não são totalmente manipulados pelo seu poder não lhe tem mais a serventia.

_ Mas você usou o meu sangue!

O Uchiha se recusava a acreditar que estava sendo usado. Que Itachi poderia... Que poderia realmente não se importar nada com ele! Sasuke não conseguia acreditar naquelas palavras, não queria crer nisso. Mas ele sabia que Itachi não mentira sobre isso.

_ Usei, porque você também pode ser usado como hospedeiro, mas sem os estudos e experiências não se sabe ao certo como utilizá-lo da maneira correta para vetar completamente os efeitos colaterais. Dentro de alguns dias precisarei usar novamente, Madara não me deixaria tão perto de você se eu realmente soubesse como fazer a cura.

_ E por que você foi o instruído disso? – a explicação de Itachi, cada vez mais, lhe deixava apreensivo.

Ele sabia que, cedo ou tarde, ouviria algo que não desejava ouvir. Algo que o faria acreditar. Algo que o machucaria. Mas a curiosidade... ah... a curiosidade retira a tão pacifista ignorância da vida de todas as pessoas.

_ Porque por mais que Madara não tenha 100% de confiança em mim, ele ainda me deseja vivo. Todos foram colocados à prova, inclusive eu. Se eu não cumprir as minhas determinações, serei eliminado sumariamente por suas próprias mãos. Madara acha que eu tenho conserto e, como eu disse, eu sou o favorito. Ele não quer me perder, mas também não quer que haja dúvidas a respeito da minha lealdade. Ele quis me dar uma última chance.

_ Então... Você, no fim das contas só está aqui seguindo ordens!

Antes de aguardar uma resposta, Sasuke, abaixou o olhar e fitou as próprias palmas abertas em seu colo, sentindo uma dor descomunal em seu peito. Realmente, dizem que você só vê aquilo que quer ver. Era bem óbvio! Desde o começo...

'Dívida de honra' o caralho!

_ Inicialmente, sim, eu vim a mando de Madara.

Ouvir aquelas palavras doeu. Doeu muito mais do que ele poderia descrever. Era como se o outro desse um soco direto no seu coração, quebrando-o inteiro. Sasuke virou-se para encarar Itachi, que displicentemente o encarava de volta, quase inocentemente.

_Eu deveria realizar simular um encontro casual contigo e fui isso que fiz. Não foi por acaso que você me encontrou naquele banheiro em reforma e, apesar do ferimento não estar no plano inicial, acreditei que não traria grandes problemas. Lógico que foi um julgamento equivocado, eu realmente pensei que fosse morrer antes de você aparecer ali. Mas quando você veio, eu fiquei grato; pois se fosse para morrer preferiria morrer pelas suas mãos do que pelas mãos daquele que me feriu. Simplesmente porque acho mais digno morrer pelas mãos da própria vitima, do que pelas mãos daquela pessoa que me feriu.

O coração de Sasuke doía tanto que sua curiosidade era inexistente e ele sequer queria saber quem feriu Itachi. Tudo que queria era sumir dali, pois sentia extrema fraqueza emocional e vontade de chorar, não queria que aquele que o enganara presenciasse sucumbir daquela forma!

_ Mas depois eu percebi que se existia alguém que podia me mostrar o mundo e responder minhas perguntas, esse alguém era você. E eu aceitei seu convite de ficar aqui por causa disso. Eu podia muito bem protegê-lo dos 'traidores de Madara' à distância, mas eu quis ficar mais perto e aprender sobre culinária, jogos, literatura, a conversar...

Sasuke piscou, sentindo o peso em seu coração diminuir um pouco. Itachi estava lhe deixando confuso novamente e a vontade de chorar ainda estava ali. O mais velho o encarava com doçura, mas suas palavras o feriam. O que era aquilo afinal?

_Era algo bem egoísta no começo e eu não hesitaria em te descartar quando chegasse a hora. Afinal de contas, após testar todos e selecionar quem deveria manter ao seu lado e quem deveria ser descartado, Madara me ordenaria para eu levasse você até ele, assim ele coletaria tudo que fosse necessário para a experiência e lhe descartaria em seguida.

_ Me matar...?

_ Sim, e provavelmente sem deixar vestígios. Há um quarto com um grande tanque de ácido para essas ocasiões no QG.

Sentindo que não iria suportar mais e temendo pela própria vida, Sasuke levantou-se abruptamente. Itachi o agarrou e puxou para baixo, forçando-o a sentar sobre seu colo e segurando-o de modo a forçá-lo para que o encarasse.

O Uchiha se debatia, gritava, tentava se libertar o quanto antes, mas só parou de espernear quando piscou os olhos repletos de lágrimas, limpou sua visão e encontrou o olhar quente e penetrante de do outro.

O mais velho, percebendo a diminuição da movimentação, soltou Sasuke e este permaneceu sobre colo. Levou os polegares até o rosto molhado e cheio de expressões de dúvidas e confusão emocional, limpando as lágrimas espessas com carinho. Por fim, acariciou suas bochechas e mandíbula com ternura enquanto dizia suas palavras finais.

_ Mas depois as coisas mudaram. Eu percebi que não há só um egoísmo de aprendizado, eu realmente gosto da sua companhia. Não é só aquilo que você tem a me oferecer em caráter didático, porque, de alguma forma, eu passei a desejar te agradar e te ver sorrir. Eu não entendo exatamente como isso funciona, meu número limitadíssimo de relações interpessoais não me deram embasamento para comparações, mas...

O coração de Sasuke acelerou enquanto ele reunia suas esperanças de que algo tivesse mudado. Queria acreditar que Itachi não o usava e que realmente pudesse se importar com ele de alguma forma.

_ Mas...?

_ Mas eu não vou te entregar para Madara. Apesar de não saber o porquê, eu não quero. Você é meu! E é a minha salvação daquele lugar e ele não vai tirar isso de mim! Ele não vai te tirar de mim! Que venham os traidores primeiramente e que venham os leais ao QG logo após. Que venha o próprio Madara. Eu não me importo mais, porque agora eu tenho algo pra me fazer lutar, algo pra perder... Mas eu não vou perder!

Sasuke assimilou as palavras do hóspede mais rápido do que ele imaginara, sentindo todo o peso da incerteza se dissolver em uma sensação morna de alívio e segundos depois ele abraçou Itachi com força, não se importando com mais nada a não ser estar perto do outro. Surpreso com o gesto carinhoso, o mais velho ainda demorou um pouco para decidir como deveria agir, mas por fim deixou o instinto falar mais alto e o envolveu em seus braços de forma igualmente apertada.

_ Obrigado. – Sasuke sussurrou em seu ouvido, abraçando-o ainda mais forte – Vou te provar que você é humano e não um mero experimento! Eu vou mostrar o mundo pra você Itachi, eu juro!

_ Você já mostrou, Sasuke. – foi a resposta fraca e rouca de Itachi, não sabendo ao certo como lidar com todas as emoções contraditórias e fortes que recebia de uma única vez.

E Sasuke estava novamente tão feliz, mas tão feliz, que nem se incomodou com o murmúrio que se formava em seu cérebro repleto de novas informações.

Apaixonado. Certamente.

E Sasuke não parece ser o único... Se ambos continuarem assim, certamente serão eliminados pelos tais Akatsuki. A paixão não os permite que vejam o óbvio, tira a concentração e a racionalidade.

*.*.*

"Supõe que nosso homem volte ainda para a caverna e vá assentar-se em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz à obscuridade, não lhe ficariam os olhos como submersos em trevas?

Se, enquanto tivesse a vista confusa - porque bastante tempo se passaria antes que os olhos se afizessem de novo à obscuridade - tivesse ele de dar opinião sobre as sombras e a este respeito entrasse em discussão com os companheiros ainda presos em cadeias, não é certo que os faria rir? Não lhe diriam que, por ter subido à região superior, cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se alguém quisesse fazer com eles o mesmo e dar-lhes a liberdade, mereceria ser agarrado e morto?"

*.*.*

Mas a cegueira de paixão é a única forma de cegueira que vale a pena. E, talvez, sem ela de nada adiante a abertura total dos olhos, se não há a que buscar.

Talvez... Talvez... Ou talvez o Sasuke não seja o único apaixonado nessa mente, né?

Oh, cale a boca!

(***)

_ Você se sente melhor?

_ Eu me sinto como se tivesse caído um piano de armário em minha cabeça...

_ Isso, tecnicamente, é melhor. Duas horas atrás você estava dizendo que sentia como se um piano de cauda houvesse caído em sua cabeça.

_ Eu posso jogar os dois pianos na sua cabeça e você me diz qual dói mais, que tal?

Gaara riu, tentando entender como diabos haviam começado a discutir sobre tipos de piano. Naruto resmungou baixinho, tomando o último gole de sua long-neck enquanto entrava no apartamento do amigo, fechando a porta atrás de si.

Haviam descarregado o carro mais cedo, e Naruto agora estava parcialmente instalado no apartamento que Gaara dividia com um colega de faculdade há pouco mais de seis meses. Era uma moradia simples, mas aconchegante, com apenas dois quartos; o que implicava dizer que para Naruto havia sobrado a sala, apesar de o ruivo insistir em dividir cama.

O loiro sabia que agiu por impulso ao pedir auxílio para Gaara, pois tal ato daria esperanças de uma reconciliação. Não havia como negar que o primeiro na sua lista certamente era Sasuke, mas o Uchiha estava em um namoro agora e no início da relação. Sasuke morava em uma quitinete, dividir o único cômodo com Naruto seria um empecilho grande a um relacionamento inicial, mesmo se o ele eventualmente dormisse fora para deixar os pombinhos a sós. Não, nem pensar, Sasuke demorou uma eternidade para encontrar uma garota de quem gostasse, e ele não queria prejudicar uma potencial felicidade do amigo com os seus problemas particulares.

Gaara era a segunda opção, pelo quesito amizade; pois por mais que já houvessem adquirido uma espécie de relacionamento no passado, Gaara ocupava um patamar em sua vida quase tão importante quanto o de Sasuke. Naruto nem precisou explicar pelo telefone o que acontecera e o ruivo já estava com o carro estacionado em frente à sua casa... Quer dizer, à casa de Kakashi.

Que bosta de vida...

De qualquer forma, o companheiro de apartamento de Gaara ainda não chegara e, nas últimas duas horas, o ruivo o arrastara para todos os lugares abertos em um fim de tarde de domingo, permitindo até que ele bebesse álcool. Geralmente Gaara odiava quando ele bebia, então, por uma questão de respeito e gratidão, ele se controlou e tomou apenas singelas trezentas miligramas de cevada, controlando seu organismo que desejava beber um barril de chope para tentar se entorpecer ao ponto de esquecer seu estrago emocional.

Durante todo o passeio, Gaara não forçou a barra: não tentou se aproximar fisicamente, nem forçou Naruto a falar sobre o seu problema. Apenas o distraiu com histórias engraçadas e fofocas sem qualquer sentido e por isso o Uzumaki era extremamente grato.

Gaara era o tipo de pessoa que sabia muito bem como se portar em cada momento, algo que não foi sempre assim, mas que depois de aprendido se tornou um hábito. Certamente ele era a melhor pessoa para ter ao lado numa situação como aquela.

_ Nós temos que conversar. – Naruto falou, caminhando até o sofá e sentando despojadamente; já que aquele objeto seria sua cama nos próximos dias, não havia porque fazer cerimônia e atender as normas de etiqueta.

Gaara não se importou com o gesto e trancou a porta atrás de si. Sentou-se ao lado de Naruto, ainda mantendo um sorriso bobo nos lábios.

Ele estava verdadeiramente radiante por ter a amizade de Naruto novamente. Mesmo não tendo perdido o contato por completo, sabia que não era o acaso que fazia os dois não se encontrarem pessoalmente há um tempo. Gaara forçou a barra há um ano e Naruto certamente preferiu dar um tempo na relação dos dois, já que afirmar com todas as letras: "eu não retribuo esses sentimentos" não adiantou muito. O ruivo aprendeu sua lição, não iria errar de novo.

_ Não precisamos conversar. Você precisa falar, é diferente. – o ruivo constatou, tomando uma postura séria que lembrava Naruto dos velhos tempos, fazendo-o tremer inconscientemente. Céus, ainda bem que Gaara mudou. – Me diga, por que Kakashi te colocou pra fora?

_ Ahm...

Naruto realmente achou que Deus estava lhe dando uma folga naquele instante, pois antes que pudesse responder a pergunta embaraçosa, ouviu-se barulho de chaves no lado de fora da porta de entrada, indicando que o colega de Gaara estava prestes a entrar.

Dito e feito, segundos depois a porta se abria e Naruto olhou para Gaara, aguardando apresentações.

_ Naruto, este é o meu colega, o...

_ Você sentiu tanto minha falta que descobriu onde eu moro? – o loiro ouviu uma voz realmente conhecida advir do local onde o suposto colega de Gaara deveria estar.

Girou a cabeça rapidamente, confirmando que não estava ouvindo coisas: Sai estava ali, parado, com um sorriso amarelo nos lábios e os braços cruzados. Será que havia como essa situação se tornar mais embaraçosa?

_ Oh, Deus do céu, por que você me odeia tanto? – o loiro colocou os pés no sofá, abraçando as pernas e escondendo o rosto nos joelhos. Dizer que era apaixonado por Kakashi para Gaara era ruim, agora dizer que tinha uma relação de benefícios com Sai certamente não uma troca muito vantajosa.

_ Vocês se conhecem? – Gaara perguntou, olhando para ambos com uma expressão desconfiada. Naruto continuou na mesma posição miserável e Sai tratou de trancar a porta enquanto respondia.

_ Conheci Naruto no trabalho já faz alguns anos, ele é meu...

_ Amigo! – Naruto gritou desesperado, levantando a cabeça e encarando Sai com intensidade, implorando para que este não falasse mais nada. Mas, como sempre, Sai não conseguia compreender sentimento algum, complementando sua frase como se nada houvesse acontecido.

_ ... com benefícios.

_ Droga Sai, você realmente nunca sabe calar a boca, né?

_ Eu falei alguma mentira? – questionou, parecendo realmente confuso.

_ Argh, se me deem licença, vou me matar no banheiro... – Naruto tentou se levantar e correr daquele lugar, mas Gaara o puxou pela calça, fazendo-o cair novamente de encontro ao sofá, gemendo pelo impacto nada delicado.

_ Explique-se Sai. – o ruivo ordenou, mantendo o olhar autoritário em Naruto, indicando que ele não sairia dali tão cedo.

_ É isso oras, eu e Naruto nos conhecemos, viramos amigos e depois começamos a trocar favores.

_ Quanto tempo? – o ruivo perguntou; Naruto queria realmente evaporar dali...

_ Uns três anos eu acho, tire ou acrescente uns quatro meses. – Sai respondeu despreocupadamente, tirando o casaco e jogando-o em cima de uma poltrona, como se os três só estivessem conversando sobre amenidades a respeito do clima da cidade.

_ Enquanto a gente estava junto, é? – o ruivo questionou para Naruto e este instantaneamente juntou as mãos em um pedido de prece.

_ Gaara, eu juro que não é do jeito que você 'tá pensando! E era só quando a gente brigava e...!

_ Vocês brigavam toda semana?

_ PUTA QUE PARIU SAI!

_ Ah, para de hipocrisia os dois. Gaara, você não pode reclamar de nada, já que você e eu também temos nossos "benefícios" há... Hum... Uns dois anos.

_ Quê?! – foi a vez de Naruto se sentir ofendido, fitando Gaara com a mesma indignação no olhar. – Nós terminamos faz só um ano! Você disse que me amava!

_ E eu te amo! Mas você realmente achou que aquele 'relacionamento aberto' valia só pra você?

_ Shii! – animado, Sai se jogou entre os dois amigos no sofá, envolvendo um de seus braços no pescoço de cada um e puxando-os para próximo de si, evidentemente divertindo-se com aquela confusão. – Parem de complicar as coisas, isso é perfeito!

_ O que é perfeito? – Naruto questionou, parecendo tão inocente que Sai se perguntou mentalmente se o loiro que ele conhecia fora substituído por um clone... E um clone extremamente virgem.

_ Ué, Gaara e eu temos rolo, você e eu temos rolo, você e Gaara também, então...

_ Não fale o que está pensando em falar, Sai...! – o ruivo o alertou com a voz grave e autoritária; Sai, sendo o suicida que costumava ser, o ignorou por completo.

_ Que tal agirmos como bons amigos e brincarmos todos juntos?

O silêncio foi longo, Gaara ficou até surpreso com a ousadia e animação com que Sai falara, como se realmente não percebesse o absurdo que acabara de pronunciar. Quando abriu a boca para vocalizar sua sentença de morte ao moreno, Naruto começou a gargalhar, espantando os outros dois.

Sai soltou o amigo e ambos não sabiam exatamente o que fazer. Naruto ria descontroladamente ao ponto de se contorcer no sofá e segurar a barriga enquanto rolava de um lado para o outro, formando lágrimas nos olhos durante todo esse processo.

_ Hahaha, D-deus, haha, eu até imagin-nei! – ele falou entre o riso, deixando as lágrimas rolarem. – S-sério, eu imaginei, PUTA MERDA SAI!

_ Me sinto feliz, consegui fazer o Naruto rir. – Sai comentou inocentemente, olhando para Gaara e se arrependendo em seguida devido ao olhar gélido que recebera em retorno.

Os dois esperavam pacientemente que o Uzumaki conseguisse se controlar e parasse de rir, tão pacientemente que não se deram conta quando a risada frenética se tornou um choro de verdade. Gaara foi o primeiro a notar, dando a volta no sofá e sentando-se ao lado de Naruto, puxando-o para próximo de si e o abraçando.

_ O que foi? É por que eu fiquei bravo? Não se preocupe, eu sei que tínhamos relacionamento aberto, eu só fiquei com ciúmes irracional, você também ficou, faz parte...

_ Não é isso! – Naruto falou com a voz miserável, abraçando Gaara em retorno.

Quando conseguiu sem controlar, soltou Gaara e limpou as lágrimas.

_ Eu devo ser o cara mais imbecil da face da Terra.

_ Aham, concordo. Acho que ninguém no seu lugar iria chorar ao receber uma proposta de sexo a três. – Gaara o olhou com ainda mais ódio, fazendo Sai estremecer dos pés à cabeça. – O que foi?

_ Nada, só estou tentando chegar a um consenso de qual seria a maneira mais dolorosa de te castigar.

_ Hum... Isso soa pervertido e interessante.

Gaara ainda ficou mais alguns instantes encarando o moreno com um olhar digno de assassino em série, mas por fim decidiu ignorá-lo, voltando sua atenção para Naruto.

_ O que aconteceu Naruto? Isso pode até ser uma brincadeira do Sai, mas concordo que se bem te conheço você adoraria a ideia e não teria esse tipo de reação. Alguma coisa aconteceu.

O Uzumaki suspirou pesadamente, olhando para qualquer lugar na sala menos nos olhos de Gaara. Percebia por sua visão periférica que Sai também estava prestando atenção.

_ Eu... Eu recebi um fora da pessoa que eu gosto.

_ 'Pera, "aquela" pessoa?

_ É...

Gaara sempre soube que Naruto gostava de alguém, o loiro deixou bem claro antes de iniciarem toda aquela amizade colorida quando ainda eram adolescentes. O ruivo não viu grandes problemas com relação a isso, imaginando ser um simples amor de adolescente, que passaria com o tempo; além do mais, na época jamais imaginou que viria a se apaixonar por Naruto.

Infelizmente o coração não tem como controlar: Gaara se apaixonou por Naruto e este nunca deixou de amar seu "amor secreto". Intimamente Sabaku suspeitava que a tal paixão fosse Sasuke e a relação entre os dois certamente não era mais amigável; tanto pela rivalidade de ocupar a posição de melhor amigo na vida do loiro, quanto pelo ciúme que Gaara sentia por acreditar se tratar de Sasuke a pessoa especial de Naruto.

_ É por isso que você 'tá com esses cortes na pele e hematomas? – o ruivo questionou, passando os dedos sobre o roxo suave acima do olho direito de Naruto. – Sasuke realmente chegou a esse ponto para te rejeitar?

A expressão de Naruto passou de chorosa para raivosa em décimos de segundos.

_ Qual o problema do mundo? Por que todo mundo acha que eu gosto do bastardo?

Gaara foi pego de surpresa com aquela informação, parando com o toque no rosto de Naruto e olhando para Sai com indagação, mas o moreno mantinha um olhar sério sobre o Uzumaki.

_ Você finalmente contou pro Kakashi então...

_ O quê? Kakashi!? – Gaara exclamou, estupefato. – Como assim "Kakashi"?!

Naruto abaixou o olhar, murmurando um "pior que isso" em um tom de voz baixinho que nenhum dos dois chegou a ouvir.

Naruto não entendia como uma pessoa que simplesmente não conseguia decifrar uma única troca de olhar como Sai podia ter descoberto seu segredo tão facilmente. Com uns dois meses de amizade, Sai mencionara que leu em um livro de relacionamentos que as atitudes de Naruto demonstravam que ele sofria de um 'complexo de Electra'. Ele nunca se esqueceu daquele dia:

_ Complexo do quê? – questionou ao amigo, fitando o livrinho que este carregava de um lado para o outro, o qual só servia para deixá-lo irritado toda vez que Sai começava a lê-lo.

_ "O complexo de Electra define-se como sendo uma atitude emocional que, segundo algumas doutrinas psicanalíticas, todas as meninas têm para com a sua mãe; trata-se de uma atitude que implica uma identificação tão completa com a mãe que a filha deseja, inconscientemente, eliminá-la e possuir o pai."¹ - fechou o livro, olhando para ele. – Então significa que você deseja Kakashi-san.

Ele piscou algumas vezes, mantendo a boca aberta e não acreditando no que acabara de ouvir. Por fim, levou o indicador e polegar até a ponte do nariz, apertando-a antes de fechar o olho e começar a falar.

_ Ok, em primeiro lugar... Minha mãe já 'tá mortinha e enterrada, assim como o meu querido pai. Em segundo lugar: EU NÃO SOU UMA MENINA! – ele gritou furioso, tanto pela comparação absurda, quanto pelo fato de que Sai realmente havia acertado. E ele que achava que escondia bem!

_ 'Tá, mas você não está entendendo todo o contexto por detrás dessa definição, no caso o Kakashi-san faria o papel de...

_ Sai, caralho, cala a boca! – perdendo a paciência, ele se levantou da mesa do bar, deixando o moreno sozinho com o seu livro idiota.

_ É sério isso Naruto? Você realmente é apaixonado pelo Kakashi? – o ruivo questionou, trazendo-o de volta a realidade. Mas foi Sai quem o respondeu.

_ É sim, Naruto tem complexo de Electra.

_ Uhn?

_ Eu quero morrer...! – resmungou miseravelmente, fazendo ambos se calarem e voltarem à atenção para o garoto miserável que sofria de coração partido.

Gaara foi o primeiro a se pronunciar.

_ Você tem muito pra falar e certamente eu tenho muito pra ouvir, vou te fazer um chá.

_ Eu quero cerveja...

_ Chá! – tornou a repetir, inclinando-se para frente e beijando os cachos loiros antes de andar de maneira decidida para a cozinha, preocupado em realmente fazer o seu amigo se sentir melhor.

Mesmo finalmente tendo descoberto por quem o loiro era apaixonado, de alguma forma tal informação não causava dor em si como ele achava que isso causaria quando finalmente tivesse certeza que Naruto desejava Sasuke (ou, na realidade, Kakashi... Quem diria?). Agora tudo que queria era fazer a luz voltar aos olhos de seu amigo, pois realmente doía muito mais vê-lo triste daquela forma do que saber quem ocupava o cobiçado coração de Naruto.

Sai ficou sozinho com o Uzumaki e se aproximou deste, colocando a mão em seu ombro de maneira reconfortante.

_ Sabe, eu não acho que o Kakashi-san vai te rejeitar. Eu acho que ele só está surpreso.

_ Você nem o conhece! – suspirou enquanto falava, sentindo aquela dorzinha chata de rejeição voltar ao seu peito.

_ Mas eu não conheço uma pessoa que não te acharia interessante. Kakashi-san tem que ser muito cego pra não se dar conta da sorte grande que tirou. – Naruto levantou o olhar, observando um sorriso comedido e sincero nos lábios de Sai, seus olhos brilhando ainda mais de lágrimas.

_ Obrigado... – agradeceu com sinceridade, se odiando por estar tão frágil emocionalmente diante de seus amigos.

Sai, por sua vez, decidiu que não era certo ver uma pessoa tão radiante como Naruto chorar, formulou suas palavras seguintes, sorrindo de canto de boca antes de falar em voz alta.

_ Mas sabe, essa história de sexo a três não é uma má ideia. – Naruto novamente gargalhou, corando de leve e enterrando o rosto em uma das almofadas do sofá. – Eu falo sério!

_ Sai...! – falou entre o riso, não conseguindo finalizar sua frase.

_ Eu sei eu sei: "Cale a boca". – completou a frase, ainda com sorriso a postos, feliz por, mais uma vez, fazer o Uzumaki rir.

(***)

Kakashi olhava para o lado de fora da janela da sala como se estivesse realmente compenetrado com o que ocorria na rua agitada de sua vizinhança. Naruto foi embora e o grisalho o observou pela janela da sala quando ele entrou no carro de Gaara (Céus, ele achava que o ruivo se mudou, já que nunca mais teve qualquer notícia dele!) e saiu cidade a fora tão rapidamente quanto bagunçara toda sua vida em pouco mais de um minuto.

Passaram-se horas desde a saída do Uzumaki, mas Kakashi não movera sequer um dedo, imerso em seus próprios pensamentos, tentando compreender o que acontecera naquele dia. Não sabia exatamente como deveria agir depois dessa revelação bombástica.

Arrependia-se por não impedir a fuga do loiro, mas se tivesse o feito, o quê ele poderia fazer? Trancá-lo em seu quarto e mantê-lo ali até que ele conseguisse por suas ideias no lugar e, aí sim, o libertar para que pudessem ter uma conversa? Isso seria extremamente ridículo da sua parte; Naruto não era mais uma criança.

Não era mesmo uma criança.

Kakashi engoliu em seco, relembrando os acontecimentos daquela tarde ali mesmo, naquela sala de estar. Certamente não havia como dizer que já imaginara fazer esse tipo de coisa com Naruto, obviamente isso nunca passara pela sua cabeça; mas isso não implica em dizer que ele não tinha gostado do que fez. Ok, certo, ele gostou muito de estar com o mais novo daquela maneira tão intima.

E isso o assustava e o confundia.

_ Mas isso não interessa, porque ele não gosta de mim nesse aspecto... – Sussurrou para si mesmo, levantando-se e buscando o seu caderno de anotações no quarto, sentindo os músculos de seu corpo protestarem por ter ficado tanto tempo sem se mexer.

Voltou para a sala e folheou pacientemente cada anotação, prestando atenção nos pontos determinados como relevantes e no diagnóstico preciso que fizera. Céus, onde diabos estava o defeito de sua análise? Naruto gostava de Sasuke, não dele!

_ Será que é um caso de Substituição²? – folheou os papeis por mais alguns minutos. – Não... Não é...

Por fim, irritado mais do que o normal, Kakashi jogou o caderno longe, considerando-o um objeto completamente inútil.

_ Eu errei, em algum lugar eu errei! Eu só não sei onde...

Talvez fora condicionado de alguma maneira equivocada por já ter um contato diário com o paciente. Talvez aquilo que sempre dizem de 'não se envolva demais com os pacientes' seja uma proteção não apenas para não sofrer com os casos, mas também para interpretá-los sem um juízo de valor viciado. Decerto, estava arrependido de ter, ele próprio, feito a terapia de Naruto. Seria melhor se houvesse indicando-o a um colega, pois mesmo que o loiro não desejasse comparecer a terapia com um profissional desconhecido, Kakashi eventualmente poderia convencê-lo de assim proceder.

Mas, de certa forma, havia uma situação concreta em mãos: Naruto afirmara ser apaixonado por ele. E agora? Independente do tratamento psicoterapeuta e paciente, ex-tutor e ex-tutorado e colegas de apartamento, o que ele, Kakashi Hatake, deveria fazer ao saber que Naruto Uzumaki o desejava?

O que você deseja Kakashi? – sua mente o indagou, fazendo-o pensar ainda mais.

Depois de alguns minutos, ele se decidiu: Desejava Naruto fisicamente, não havia como negar (e nem tinha coragem de tentar negar depois do que ocorreu naquela sala). Contudo, não desejava estragar o tipo de relação que eles possuíam em nome de algo que poderia não passar de uma aventura. Afinal de contas, Naruto era como um pedaço de sua própria família e nada é mais importante do que a família.

_ Nós precisamos conversar. – Murmurou, colocando-se de pé ao decidir que, sozinho, jamais chegaria a uma solução perfeita. Já errou em achar que era capaz de desvendar qualquer mistério, de interpretar o loiro como se houvesse um manual de instrução para tal. Não, não iria errar mais. Naruto tinha todo o direito de ter sua opinião naquilo que estava acontecendo e Kakashi iria levá-la em conta dessa vez.

A noite chegara, mas ele não se importou com o horário: alcançou as chaves do carro e da casa, tateou a mesinha em busca de sua carteira. Ao reunir todos os objetos necessários, correu para a porta do apartamento, pronto para sair e procurar Naruto.

Sabia que se tentasse telefonar, o Uzumaki não o atenderia, pois ele próprio deixou claro que precisava de um tempo. Kakashi recordava o endereço de Gaara quando ainda era adolescente, pois algumas vezes foi buscar Naruto lá. Talvez com alguma sorte o garoto ainda morasse naquele local.

Todas as suas indagações sobre a morada de Gaara, a situação de Naruto e as suas incertezas viraram pó assim que ele abrira a porta e dera de cara com uma figura que, por mais diferente que pudesse parecer, era de total conhecimento de Kakashi.

O homem estava parado, com o braço erguido e os dedos juntos, provavelmente prestes a bater educadamente em sua porta. Possuía os cabelos castanhos e um pouco compridos, presos em um rabo de cavalo; sua pele era bronzeada e ele tinha uma cicatriz peculiar na parte de cima do nariz. Se para Kakashi restasse alguma dúvida a respeito da identidade do visitante, esta foi completamente suprida quando ele sorriu daquela forma radiante que ele sempre definiu como única, fechando os olhos castanhos de maneira suave enquanto iluminava completamente aquele ambiente. Era um sorriso único... Kakashi sempre o considerou único...

Até o dia em que conheceu Naruto.

_ Iruka? – sentia-se um tolo em chamar o amigo de longa data com a voz tão confusa, mesmo tendo certeza de que não tinha dúvidas quanto a sua identidade. Por que parecia que tudo ao seu redor estava desmoronando (em vez de se reconstruindo ) com o retorno de Iruka?

Alheio ao conflito emocional de Kakashi, Iruka sorriu ainda mais largamente, cruzando os braços em seu peito e anunciando com energia.

_ Finalmente te achei Kakashi Hatake!

E foi nesse momento que Kakashi teve certeza de que jamais, em nenhuma outra circunstância de sua vida, se sentiu tão sem chão como naquele momento.

... Continua ...


¹ Wikipédia, mas em Haunted é do livrinho do Sai hahaha!

² Substituição: trata-se de um mecanismo de defesa em que o inconsciente cria um substituto aceitável para a consciência, para satisfazer os desejos do id e do superego (termos não convém explicar aqui). Algo que inicialmente não era o objeto de desejo da pessoa acaba se tornando, pois essa pessoa não tem mais acesso ao outro objeto, àquele que ela verdadeiramente deseja. No caso, Kakashi pensou por um instante que Naruto, ao se dar conta de que não tinha chances de ficar com Sasuke, transferiu sua "paixão" através da substituição para ele. Mas o próprio Kakashi descartou essa possibilidade, então só estou explicando a vocês em caráter de curiosidade.

* Todos os trechos citados na cena de Itachi e Sasuke pertencem ao texto conhecido como "Alegoria da Caverna", do livro "A República" de Platão. São apenas as falas de Sócrates, eu cortei as falas de Glauco (para os que não sabem, Sócrates é um personagem de Platão, apesar de também ser seu professor... Seria Platão o primeiro autor de fanfic de celebridade? HUAHAUHAUHUA Me ignorem, por favor! HUAHUAHUA).

Talvez alguns de vocês já tenham estudado isso na escola, mas acho que poucos realmente leram... Apesar de eu me esforçar imensamente pra não citar filósofos nos capítulos (eu sou fascinada por filosofia e tiro muitas parcelas dos meus plots desses estudos) eu não consegui resisti. Não pegue raiva da fanfic se você não gosta de filosofia clássica (eu particularmente sou adepta a filosofia moderna), não pretendo transformá-la em escola de ensino médio auhauhauhau!


Respostas reviews "guest":

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Dea:

Oi flor! Como tive que esperar atualizar aqui pra responder, essa informação já está atrasada, mas eu atualizei The Plan! Fico muito contente que você esteja acompanhando ambas, assim posso responder as duas reviews em uma atualização!

Sem dar spoilers pra quem não leu The Plan: Ufa! Que bom que gostou da "solução" que eu dei para aquele impasse hahaha! Eu achei que muita gente não ia gostar, mas pelo contrário ! Parece que o povo está curtindo mesmo!

Muito obrigada pelos elogios aos enredos, fico feliz pacas em saber que The Plan é uma de suas favoritas s2 Vou atualizá-la assim que der ok? OAB está ferrando meus horários vagos, mas atualizar The Plan é uma das minhas prioridades no tempo livre, já que ela está no finalzinho!

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Scar:

Essa nossa memória imprestável hein -_-' Tenso!

Éééé, nova fase pro Naruto na fanfic! Mas nem tudo está perdido, só que tudo depende do Kakashi e no que ele decidirá fazer hahaah!

Então, agora que sua indecisão já deve ter passado: Gaara ou Kakashi? HAHAHAH! (tempo!)

Ainda haverão mais flashbacks, mas todas as informações que serão dadas vão ser uteis para que vocês consigam entender melhor as coisas.

Fico feliz que tenha gostado do capitulo! Espero que tenha gostado da atualização de agora também! ^^

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Guest:

Eee que bom que gostou! Espero que tenha gostado dessa atualização também! =)

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Kaka:

Huahuahua Ahhh que pessimista você!

E agora, será que ainda acha que foi tudo pro espaço? Eu acho que não (ainda não, AINDA! Hoho!).

Sim, realmente Kakashi ainda está bem confuso e os dois precisam conversar, sem sombra de dúvidas.

Teve mais Gaara nesse capítulo, deu pra matar a saudades? Huahuahua!

Que bom que gostou da cena familiar, do capítulo e tudo mais! Muito obrigada pelos elogios e incentivos, adorei!

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Um beijo enorme pra todos que comentaram! Acelerei a produção desse capítulo por vocês s2.