Disclaimer:Os personagens da fanfic pertencem a Masashi Kishimoto, a trama, no entanto, me pertence.

Warnings: Linguagem chula, violência, mortes, tortura, cenas explícitas de sexo homossexual e relações incestuosas.


N/A: Feliz Natal atrasado queridos leitores/amigos!

Muita paz, alegria, amor e luz! Principalmente luz!

Caramba viu! Tô sofrendo horrores com queda de energia! Acabei me mudando (estou em Brasília) e nessa cidade acaba a luz toda hora uahauhauhau! Estou sofrendo pra digitar esse capítulo viu, escrevi metade dele a mão. Ontem fiquei mais de nove horas sem energia, pra vocês terem uma ideia.

Meus problemas a parte, espero que a atualização não tenha demorado muito e que vocês aceitem como presente de Natal! Eu tinha planejado especiais de natal esse ano, mas por causa da mudança não consegui fazer. Entre atrasar mais Haunted pra por uma oneshot natalina ou atualizar "em dia", preferi atualizar a fanfic.

Espero que gostem! E um próspero ano novo para todos!


HAUNTED

Capítulo XX

_ U-Uchiha...? – Naruto balbuciou depois de um longo período de silêncio, o qual Itachi usou para praticamente fumar todo o seu cigarro.

_ Uhum, você escuta direitinho, isso é bom! – o outro falou com prepotência e ironia, dando um último trago em seu cigarro e jogando a butuca pela janela.

Naruto compreendeu prontamente o grau de chacota na frase do estranho, mas não respondeu. Não sabia o que pensar sobre tudo isso. A verdade é: se estivesse em seus melhores dias, logicamente iria rebater a provocação do bastardo e mostrar quem é que manda em uma guerra de palavras (e de punhos, se o maldito chegasse até esse nível), mas naquele momento tudo que queria era um pouco de paz.

_ Você é o cara do banheiro da boate? O louco que andava com uma Desert Eagle no bolso?

_ É, o próprio, menos a parte do "louco". – Itachi cumprimentou, certificando-se de que assumira a faceta da ironia sem falhas; era uma das mais versáteis, e já fazia um bom tempo que não a utilizava, desde que... Bem... Isso não vinha ao caso agora. – Sinto falta da minha pistola...

Naruto sacudiu a cabeça diante do papo surreal que se iniciava, mal percebendo quando o tal Itachi se aproximou dele o suficiente para se agachar e encará-lo de frente. Assustado com a súbita invasão em seu espaço pessoal, Naruto tentou sair da cadeira, virando o rosto, mas o outro o forçou a continuar encarando-o, segurando firmemente o seu queixo com uma das mãos.

_ Parece os olhos de Deidara... – comentou brandamente, fazendo Naruto se assustar ainda mais com o comportamento completamente bizarro do... Uchiha?

_ Me solta, bastardo! – o loiro retrucou, estapeando a mão de Itachi para longe e se levantando da cadeira, circundando a cama de Kakashi e protegendo seu amado, com medo do que aquela pessoa completamente bizarra queria com ele.

_ Já disse, meu nome é Itachi Uchiha. – o outro respondeu calmamente, analisando as unhas da mão estapeada, como se não houvesse acontecido nada demais.

_ "Uchiha" o caralho! – Naruto respondeu, enfezado e deixando de lado o ânimo 'paz acima de tudo' – Sasuke por um acaso casou com você e eu não 'tô sabendo? Porque, até onde eu sei, o Teme é o único Uchiha vivo!

_ Falou bem, "até onde você sabe".

Itachi sentou-se na cadeira que Naruto anteriormente ocupava e observou com certa curiosidade a falta de paciência do outro. Por mais que Naruto e Sasuke fossem diferentes, decerto possuíam algumas semelhanças, como impaciência. Essas similaridades eram visíveis a olho nu e, talvez, por isso Sasuke gostasse tanto do outro rapaz (por mais que jamais admitisse isso nas poucas conversas que tiveram a respeito).

_ O que você quer comigo? O que quer com o Sasuke? – o Uzumaki esbravejou, alcançando o botão de emergência posicionado acima da cama de Kakashi, pronto para apertá-lo e chamar os enfermeiros se o 'cara bizarro' desse a resposta errada.

Itachi sorriu de canto de boca e antes que o loiro pudesse prever qualquer tipo de movimentação, um objeto metálico foi arremessado em sua direção, fazendo um som estridente e agudo soar ao cortar o ar em tanta velocidade. Naruto soltou um som abafado de pavor, cobrindo o rosto com os braços e abaixando-se para proteger o corpo de Kakashi.

Mas depois de alguns instantes, uma risada peculiar o fez recuperar a calma e perceber que não estava ferido.

_ Acalme-se nervosinho, eu só quero conversar! E... não quero que chame companhia.

Naruto abaixou os braços e abriu os olhos, voltando a observar o botão furtivamente, mas o objeto metálico (Puta que pariu é uma shuriken! Uma shuriken de verdade!) cortou o fio de energia, de modo que era impossível fazê-lo funcionar com a corrente elétrica interrompida.

_ Quem é você? – Naruto perguntou com extremo pavor, finalmente se dando conta do perigo que Itachi significava... Não era nem um pouco simples acertar o alvo que ele acabara de acertar, tão rapidamente e em uma única tentativa, ainda por cima.

Itachi relaxou na cadeira, satisfeito por finalmente ser levado a sério.

_ Eu sou a "namorada" do Sasuke, mas não tão fêmea quanto você imaginou, não é? – respondeu, recordando-se do recado deixado por Naruto na secretária eletrônica. ¹

Naruto abriu e fechou sua boca, estupefato diante daquela informação, e quando finalmente assimilou as palavras de Itachi, seu olhar, se possível, arregalou-se ainda mais.

_ Você... Você é o dono da calcinha rosa? – perguntou em tom de brincadeira, arrependendo-se quase que instantaneamente.

Uma segunda shuriken foi arremessada, e essa cortou a roupa de Naruto na altura do ombro, fincando com tudo contra a parede atrás de si. Se houvesse se movido um único centímetro, podia ter a completa certeza de que agora teria uma estrela ninja perfurando o seu corpo.

_ Sasuke já tinha mencionado que você falava demais, eu só não imaginei que tinha tendências suicidas. – Itachi rosnou, mostrando o olhar ainda mais avermelhado do que antes, fazendo com que o mais novo sentisse medo novamente ao mesmo tempo em que todo o ar lúdico do ambiente desaparecia.

O Uzumaki engoliu em seco, ergueu as duas mãos à altura do peito em um gesto de redenção e expirou aliviado quando o avermelhar dos olhos de Itachi diminuiu. Obviamente ele possuía um senso de humor tão ralo quanto o de Sasuke.

Não é atoa que os dois estão se comendo.

_ Então me deixe ver se eu entendi. – Naruto falou ao visualizar o outro guardar as malditas estelas ninjas em seu casaco. – Você é o namorado "bad-boy-foragido-da-polícia-procurado-vivo-ou-mor to" do Sasuke e está se passando por um Uchiha pra conseguir manter-se livre de encrenca? Olha, não sei o que você queria com tudo isso, mas te garanto que o Teme não é uma boa estratégia pra se manter fora das grades.

_ Eu não sou namorado do Sasuke.

_ É claro que não é, você está usando o Sasuke. – Naruto falou em um tom de voz acusatório, e Itachi se perguntou se o outro gostava de brincar com o fogo ou realmente tinha memória rala. – O que é uma grande crueldade sabia? Ele está apaixonado por você!

Após ser interrompido pela língua grande de Naruto, Itachi ficou estático tentando assimilar o que acabara de ouvir. Sasuke realmente estaria apaixonado por ele? Apaixonado, de verdade?

_ Naruto... – Itachi murmurou, com os olhos fora de foco e a voz um pouco distante. – Acho que nós realmente precisamos conversar.

O loiro pendeu a cabeça para o lado, curioso, mas ainda sim não entendendo o que havia dito de tão importante para fazer com que o outro saísse do foco daquela forma.

(***)

Itachi instalava o último parafuso acima da janela da quitinete de Sasuke. Não foi muito fácil para ele compreender como funcionava a instalação de trilho de cortina, até porque envolvia uma ferramenta elétrica chamada furadeira e...

Ok, digamos que ele jamais precisou fazer algo do gênero. Mas para uma primeira tentativa, até que ficou bom. E o que importava era que com a porcaria da cortina instalada, ele não precisaria mais lidar com o olhar penetrante de Madara na sua nuca durante todo santo dia.

Sasuke não voltou para permitir a pequena mudança no apartamento – não que isso fosse impedi-lo de fazer qualquer coisa, geralmente não necessitava do consentimento do adolescente hormonal para quase tudo que queria fazer. Ou melhor: Quase tudo. Afinal, depois da conversa que tivera com Naruto, Itachi não tinha mais a completa certeza de que as coisas com Sasuke seriam tão simples novamente.

Foi uma discussão longa, Naruto falava demais e ficava quieto por pouco tempo, não deixando que Itachi terminasse qualquer explicação muito longa. De fato, ele não estava interessado em contar toda sua vida, visto que apenas se revelara para o outro com a intenção de fazê-lo compreender o estado clínico de Kakashi, mas, depois de suas palavras intrometidas, Itachi soube que teria que conversar um pouco mais.

Explicou que havia pessoas atrás de Sasuke e, consequentemente, de Naruto e Kakashi; que o Hatake descobriu isso e uma ordem de execução foi dada, mas Itachi a ludibriou com aquele coma induzido; em suma, revelara apenas o essencial – e o questionamento sobre o sobrenome Uchiha foi deixado de lado depois de tantas informações novas.

Itachi deixou claro, diversas vezes, que o grisalho não poderia, em circunstância alguma, despertar. Se isso ocorresse seria eliminado instantaneamente. Madara aindanão tinha chegado ao extremo de mandar assassinar um homem em coma, mas talvez a sua paranóia chegasse a esse ponto.

Naruto demorou a compreender a delicadeza da situação, ameaçando Itachi a cada momento e sendo completamente hostil. Até que Itachi se viu obrigado a relembrar as palavras de Sasuke de instantes atrás, utilizando a briga como exemplo para que Naruto entendesse porque o outro agiu daquela forma numa tentativa desesperada de mantê-lo longe.

_ Você só quer que eu fique longe do Teme para que você tenha carta livre pra abusar dele, seu bandido! – o garoto gritara, furioso pela intromissão de Itachi.

E assim foram mais de duas horas de explicações (nem um pouco) pacientes por parte de Itachi.

Alguns médicos ousaram interromper, mas Itachi os desacordou antes mesmo que Naruto pudesse compreender o que acontecia. Deixou os doutores encostados contra a porta, adormecidos, sabendo que teria poucos minutos de conversa particular com Naruto antes que eles recobrassem a consciência.

_ Olha aqui, moleque teimoso...! – Itachi rosnou, sem um pingo de paciência restante. – Eu vou embora, porque tenho mais o que fazer, e se você se preocupa com Sasuke e Kakashi vai manter o bico calado e agir como eu o instrui! A medicação está aqui! – Itachi colocou o vidrinho de remédios na mão do loiro, fechando seus dedos ao redor do recipiente com firmeza. – Seja prudente e faça o certo! Quando os médicos acordarem, aja com naturalidade e finja que os dois tiveram uma queda repentina de pressão.

_ Como eu vou saber se...

_ Você não vai saber se eu estou falando a verdade ou não! Ou confia em mim, ou sofra as consequências! Eu não posso vir dopar o Kakashi todo santo dia, e eu disse o que aconteceria se ele despertar. – Itachi virou as costas, andando despreocupadamente em direção à janela. – Mas saiba de uma coisa, Sasuke confiou.

_ Eu não costumo confiar em... Ei! O que você 'tá fazendo!?

E, pulando para fora da janela, Itachi fugiu da companhia irritante do Uzumaki barulhento.

Apesar de todo o tempo desperdiçado, ele sabia que Naruto faria aquilo que fora instruído a fazer. Sasuke já mencionou o quão cabeça-dura o loiro era, mas também como ele agia com seriedade quando a vida daqueles a quem amava estavam em jogo. Naruto era tolo, mas não completamente tolo...

A conversa com o garoto teimoso trouxera à tona toda a situação com Sasuke, algo que ele jamais achou que chegaria a ser tão sério quanto estava se tornando, por isso Itachi decidiu interromper a visão de Madara: precisava pensar, precisava de privacidade.

Precisava, acima de tudo, compreender, verdadeiramente, o que sentia pelo seu irmãozinho.

(***)

_ Qualquer coisa é só me interfonar, os números estão colados ao lado do aparelho.

_ Ok.

_ Tem certeza que você prefere não dormir no mesmo quarto? Eu não vou pular em você, sabe?

Sasuke virou-se para Karin, encarando suas feições esperançosas. Até parece que a garota não tinha segundas intenções com aquele convite.

_ Não. Como eu disse das outras vezes, seria bem constrangedor se seu pai nos pegar juntos antes do casamento.

_ Na verdade ele... – a ruiva começou a argumentar, mas Sasuke a interrompeu.

_ Eu sou a moda antiga, Karin.

Ela suspirou em derrota, arrumou os cabelos atrás da orelha e virou-se para sair do aposento. Sabia que seria difícil convencer Sasuke a fazer algo além do trato, mas não custava nada tentar, certo? Despediu-se com um sorriso comedido e finalmente se retirou.

Sasuke observou a porta fechada por alguns instantes, antes de voltar a se preparar para dormir.

Logo após a ligação, Karin propôs para Sasuke buscá-lo no hospital para que os dois pudessem conversar sobre o trato. Quando já se encontravam em um café lotado, onde ninguém prestava atenção no casal, Sasuke contou o que aconteceu.

Explicou sua desconfiança com relação à morte de seus pais e os de Naruto, deixando claro que não sabia se realmente era sua culpa todos aqueles acontecimentos, mas que sua preocupação chegou a tal ponto que ele não queria mais um envolvimento com Naruto e Kakashi. Naturalmente, Karin não acreditou que ele fosse "amaldiçoado" ou "perseguido", ou qualquer baboseira do gênero, apesar de ter hesitado em sua decisão quando ele informou que, atualmente, ainda havia gente atrás de si, provavelmente para matá-lo.

Primeiro ela tentou convencê-lo a recorrer à polícia, mas Sasuke foi irredutível. Apesar de ter deixado de lado a figura de Itachi, Madara e demais Akatsukis, ele tentou explicar que os criminosos envolvidos não eram pessoas normais e que a polícia nada mais faria do que atrapalhar sua segurança, caso se intrometessem em sua vida. Fora de que ele não tinha nenhuma prova do que acontecia e, em circunstâncias como essa, o máximo que ele conseguiria fazer era um mero e inútil boletim de ocorrência.

Depois de parar de insistir, Karin levou Sasuke direto para a mansão de sua família. O convenceu de que se voltasse para sua quitinete não estaria seguro, e não permitiu nem que ele buscasse suas coisas. Afirmou que mandaria alguém buscar suas roupas no outro dia, mas que o moreno não podia ir sozinho até sua casa.

Karin explicou a segurança de sua casa de família, evidentemente confiante de que nenhum criminoso adentraria ali. Inclusive, pelo que ela disse, Sasuke também começava a se perguntar se não estaria seguro o suficiente ali. Por um pequeno momento sentiu paz e gratidão pela ruiva, e ela se sentiu extremamente satisfeita com esse feito.

Boa parte de seus pertences pessoais chegaram dois dias depois da suposta "mudança", dentre os objetos trazidos estava a maldita calcinha de renda cor-de-rosa de Sakura. Sasuke se controlou imensamente para não cometer suicídio diante do olhar desconfiado que um dos seguranças de Karin o lançou. Mas nenhum dos empregados da mansão era tolo o suficiente de imaginar que Karin e Sasuke tinham um romance, contudo não eram ousados o suficiente para dizer o contrário. O tratavam com respeito como se, de fato, fosse o companheiro da "Senhorita Karin".

Os pais de Karin estavam em uma viagem a negócios desde o dia que Sasuke colocou os pés na residência, e uma semana já se passara desde então.

A ruiva, por sua vez, deixara claro que só resolveriam a papelada de casamento quando seus pais voltassem da Europa, e instruiu a Sasuke que continuasse sua rotina normal, alegando que colocaria alguns de seus seguranças particulares para protegê-lo à distância. E foi o que ele fez.

Os empregos de meio período voltaram a ser atendidos, e aparentemente seus patrões não ficaram tão irritados assim com as faltas desmedidas (decidindo que apenas descontariam a ausência de seu salário). Sasuke suspirou aliviado, estava imaginando que receberia uma demissão por justa causa, e isso era algo que não podia acontecer de maneira alguma no momento.

Então seu maior medo foi com relação a faculdade. Faltara muitas aulas desde o começo de toda aquela confusão com Itachi, ao ponto de perder qualquer controle que possuía com suas presenças nas aulas do curso de Administração.

Sasuke sempre foi um aluno exemplar e raramente faltava nos estudos, de modo que não tinha um controle de número de ausências em sala. Depois de correr atrás dos professores durante uma noite inteira, tomou conhecimento de que estava por um fio em Finanças Empresariais II, mas que se não faltasse mais conseguiria terminar o semestre com certa dignidade.

As provas estavam próximas, e ele sinceramente não tinha cabeça para estudar naquele instante (o que não era um problema muito grande, visto que sem estudos ele já conseguia média suficiente para passar).

Em uma noite em específico foi até o ginásio, aguardando a presença de Itachi com certa esperança. Precisava conversar com o outro, discutir tudo que acontecera. Mas Itachi não apareceu, e Sasuke foi para casa, cabisbaixo.

Visitou Kakashi todos os dias, em horários que sabia que Naruto não estaria presente. O grisalho estava em um quadro estável, mas por algum motivo o efeito da droga não parecia passar nunca. Os médicos acreditavam que assim que a intoxicação de... hum... bar-... barbatúrico?

Seja lá o nome da maldita droga, os médicos acreditavam que assim que o efeito da medicação passasse Kakashi iria despertar naturalmente e só aí poderiam medir possíveis danos irreversíveis. Mas o grisalho não despertava nunca! Sasuke estava quase perdendo a paciência com os profissionais, acreditando que isso decorria de descaso dos médicos, chegando a cogitar a hipótese de tentar uma transferência hospitalar para Kakashi.

Mas não agora. De qualquer forma, estava tarde para tentar uma remoção hospitalar. Sasuke suspirou. Passara apenas uma semana, algo semelhante a todos os dias anteriores à Itachi, mesmo assim, ele sentia-se imensamente cansado.

Ele trocou de roupa, logo entrando debaixo das cobertas para tentar dormir naquele ambiente que ainda não estava acostumado. De certo modo, ele sentia falta do seu apartamento, e também de outras coisas. Se ele fosse muito franco consigo mesmo, ele admitiria que sentia falta de Itachi. Ele afastou aquele pensamento, conscientizando-se que seu corpo e mente estavam exaustos, tanto que não foi preciso se concentrar muito para dormir, ele sequer conseguiu travar uma batalha digna contra o sono...

E então o pesadelo característico se iniciou.

A correria, a casa, os policiais, o casal morto. Sasuke chorava de olhos fechados, sabendo que se tratava de um sonho, mas nem por isso sentindo menos dor. Ele lutava bravamente para despertar e fugir daquele sofrimento, enquanto as lágrimas escorriam dentre suas pálpebras fechadas.

Contudo, somente quando sentiu uma movimentação sutil em seus lençóis, Sasuke conseguiu despertar, abrindo os olhos molhados pelas gotículas de água salgada e piscando-os, para tentar focalizar alguma coisa na escuridão daquele quarto.

Estava deitado de lado, com o corpo posicionado no canto esquerdo da cama de casal de um dos quartos de hóspedes. Rolou na cama, numa tentativa de voltar até o centro desta e enfiar o rosto nos travesseiros, mas tal movimentação fez com que desse de cara com o corpo de outra pessoa, que o abraçou instantaneamente e o aconchegou em seu peito coberto apenas por uma fina camada de algodão.

_ Shii Sasuke, acabou... – a voz rouca de Itachi foi ouvida, mas o Uchiha já reconhecera o outro habitante do quarto antes mesmo de ele se pronunciar, bastava sentir o cheiro característico de canela e tabaco. Itachi o puxou ainda mais para si. – Eu estou aqui agora.

O mais novo estava completamente sem reação, seu corpo ainda repleto de adrenalina devido ao pesadelo surreal e sabendo que o outro se referia ao seu sonho. Depois de tanto tempo dormindo juntos, Itachi aprendera que ele era um dos únicos que conseguia acalmar Sasuke ao ponto de livrá-lo do pesadelo. Contudo, Sasuke não sabia como deveria agir com a presença de Itachi naquele determinado instante.

Bom... Você não estava furioso com o Itachi por causa do beijo com Madara?

Mas você tentou procurá-lo. Afinal, as coisas mudaram depois que você relembrou da memória esquecida... Itachi não...

Já disse, foi uma traição de qualquer forma!

Sasuke, eu só acho o seguinte: isso daqui não é um conto de fadas pra ser preto e branco, às vezes os tons de cinza aparecem. Vale a pena conversar e ver as razões dele, já que ficou bem claro que o que ele possui com Madara não é um romance normal.

Eu... Eu vou conversar.

Seu corno!

Você é que é um idiota! Parcela mental chata! Fique quieta e escute o que Itachi tem a dizer!

_ Eu estou furioso com você. – Sasuke respondeu, ainda com voz trêmula em virtude do pesadelo.

Mas não se fugiu no abraço de Itachi, aproveitando para circundar ainda mais os seus braços ao redor do corpo maior. Suas palavras contradiziam suas ações naquele determinado momento, mas ele não conseguia se importar muito com isso.

_ É... Eu também estou furioso com você. – Itachi respondeu com uma voz divertida, puxando Sasuke para cima e se afastando um pouco, o suficiente para encarar os olhos lacrimejantes do mais novo. Levou uma de suas mãos até os cílios negros, acariciando-os com doçura para limpar a umidade ali presente. – Não é algo que se faça, sabe? Deixar alguém pelado do lado de fora de casa, apenas com um avental para se cobrir. Se fosse outra pessoa que tivesse feito isso comigo, já estaria morta.

Sasuke corou, virando o rosto e evitando fitar os olhos escuros de Itachi.

_ Você mereceu! E você sumiu por uma semana!

_ Eu estou com raiva de você Sasuke, mas confesso que estou com mais saudades do que raiva. – o outro respondeu, puxando Sasuke para perto e quase unindo os lábios dos dois. A cada palavra, seu lábio inferior encostava-se ao de Sasuke, e ele tinha certeza absoluta que podia sentir o outro estremecer por antecipação – Nós brigamos, conversamos, nos matamos e o que mais você preferir outra hora. Agora eu...

Eu preciso de você– provavelmente era isso que Itachi ia dizer, mas Sasuke não permitiu que ele continuasse a falar. Ele queria conversar, mas Itachi não era o único que sentia falta do contato físico com o parceiro.

Sasuke o beijou com suavidade, como se experimentasse os doces lábios do parceiro pela primeira vez. Itachi, por sua vez, não aumentou a intensidade da carícia, como era seu costume. Apenas retribuiu o beijo, entrelaçando seus dedos nos cabelos revoltos de Sasuke e girando o corpo dos dois, de modo que agora ele estava acima dele e, ainda sim, permitindo que o outro mantivesse o comando sobre o roçar de lábios.

Era um beijo suave e carinhoso, mas ao mesmo demandante: nenhum deles permitia que o outro interrompesse o ósculo. Quem, porventura, presenciasse a troca de carícias acreditaria que Sasuke e Itachi se viram pela última vez há anos atrás e não há poucos dias. Mas quando a pessoa está verdadeiramente apaixonada, pouco tempo de separação é o suficiente para deixá-los tão afoitos quanto agora. Sasuke podia não saber disso e não compreender exatamente o que sentia, mas Itachi finalmente entendeu.

Não que ele fosse muito experimente nos sentimentos humanos, – coisa que ele realmente não era – mas Itachi já foi apaixonado em outra ocasião. O auge de sua paixão por Madara ocorreu quando tinha quinze anos e ele se sentia exatamente da mesma maneira: quando precisava sair para missões, sentia tantas saudades do seu irmão que seu coração chegava a doer. Os reencontros eram igualmente intensos e cheios de necessidade.

Naturalmente, as coisas não ocorriam mais dessa maneira com relação ao seu Nii-san. Isso era extremamente engraçado na visão de Itachi, pois sempre deram a entender nos livros que lera na casa de Sasuke que uma paixão era algo eterno; o "final feliz" mantinha implícita a informação de que o casal nunca se separara, sendo felizes para todo o sempre após a última página escrita. Itachi suspeitava que até poderia escrever uma história de amor completamente melosa e absurda com o que vivenciara com Madara... Como é que, para eles, não houve o "felizes para sempre"?

Sasuke mordeu seu lábio inferior, aprofundando o beijo e respondendo, sem perceber, as indagações momentâneas do mais velho. Itachi envolveu o corpo de Sasuke, unindo o baixo ventre de ambos e ganhando um suspiro contente do mais novo. Ah... Esse era o tipo de som que poderia ouvir por toda sua vida, logo após o seu "feliz para sempre".

Ao estar finalmente com Sasuke, Itachi compreendeu que as pessoas mudam. Madara sempre foi uma pessoa prepotente, um pouco mesquinha e possessiva, mas carinhoso a sua maneira e extremamente sexual. Não foi ele quem mudou: foi Itachi. A missão da morte de Fugaku e Mikoto foi apenas o início de sua mudança como pessoa, e Sasuke continuava a mudá-lo, dia após dia.

Por ele ter mudado, os sentimentos e expectativas que compartilhara com Madara não mais existiam. Era Sasuke quem ele desejava próximo de si, e não mais o seu irmão mais velho. Mas será que essa paixão por Sasuke seria eterna, ou passaria com o tempo quando um deles mudasse?

E se Sasuke mudasse e não mais o desejasse?

Este último pensamento fez seu corpo estremecer em um leve desespero. Itachi interrompeu o beijo, observando os olhos inquisitivos do menor enquanto ambos tentavam regularizar a sua respiração.

_ Eu estou apaixonado por você. – Itachi sussurrou e os olhos do Uchiha arregalaram-se em surpresa. Sasuke, por um instante, esqueceu de respirar.

_ O-o... O que disse?! – o menor questionou, praticamente sem fôlego.

_ Exatamente o que você ouviu. – Itachi não negaria. Ele precisava ser sincero com os seus sentimentos, antes que pudesse ocorrer uma possível mudança em Sasuke e ele não tivesse sequer a oportunidade de vivenciá-los.

_ Mas... Mas você disse que amava o tal Madara! Na minha frente, naquela noite! – Sasuke respondeu, ainda impressionado com as palavras de Itachi. O mais velho esticou a mão para acariciar seu rosto, sorrindo enquanto respondia.

_ Eu não estou dizendo que te amo Sasuke, seria mentira dizer "eu te amo" para alguém que conheço há tão pouco tempo. – Itachi constatou, fazendo o outro corar de vergonha; contudo, ele achou essa reação extremamente adorável. – O que eu sinto pelo Madara é complicado, mas não sou mais apaixonado por ele, não o quero mais como meu companheiro.

Sasuke ouviu aquelas palavras tentando controlar inutilmente as batidas aceleradas de seu coração, sem que percebesse um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. Itachi acariciou seu rosto, afastando sua franja de suas bochechas. O Uchiha aproximou seus rostos, colando seus lábios aos de Itachi mais uma vez em um ósculo carinhoso. Com o término do beijo, Itachi separou seus rostos, ficando subitamente sério.

_ Madara traiu minha confiança antes de eu trair a dele, mentiu e me usou como ferramenta para os seus objetivos, sem pensar nas minhas emoções. – Itachi fez uma pausa. – Por outro lado, ele me criou, é minha figura familiar, e seria absurdo eu dizer que não o amo. Além do mais, naquela circunstância eu falei que o amava para tentar salvá-lo da ira dele, mas mesmo assim não vou negar para você meus sentimentos com relação tanto a você quanto a ele.

Sasuke retirou a mão de Itachi de seu rosto, abaixando-a e olhando com cuidado para os dedos desprovidos de digitais. Como podia se sentir atraído e preocupado com uma pessoa que ele sequer conhecia direito? Madara parecia fazer parte de toda vida de Itachi, enquanto ele nada mais era do que um intruso que acabou com o romance dos dois... Ou assim parecia.

_ Quem é esse homem, Itachi? – Sasuke questionou sem ter certeza se gostaria de ouvir a resposta para aquela pergunta.

Itachi sentou-se na cama, puxando o braço de Sasuke para que ele fizesse o mesmo. Sim, eles precisavam conversar, e agora que o desespero inicial já fora controlado com a troca de beijos, poderia pensar o suficiente para revelar ao outro o que ele ansiava saber.

Chegou a hora de Sasuke descobrir mais um pouco de sua história.

_ Madara é meu chefe, Sasuke. – Itachi falava com clareza, sem jamais desprender sua atenção do olhar curioso do mais novo. – Ele nos comanda na Akatsuki e aos demais funcionários do QG. Ele é o criador de tudo, nosso superior hierárquico.

_ Você o chamou de Nii-san. – Sasuke constatou, sentindo-se ainda mais envergonhado por lembrar-se que ele também repetira aquela palavra em meio ao último encontro sexual com Itachi.

_ Madara é meu irmão. Não de sangue, apesar de que durante muitos anos eu acreditei que ele realmente era meu irmão de sangue. Mas sempre nos tratamos assim, antes mesmo de nos tornarmos amantes.

_ Isso torna as coisas mais fáceis, acreditei que você fosse incestuoso. – o mais novo suspirou relaxado. Apesar de não gostar de ouvir que Itachi e aquele homem eram amantes, seria ainda mais estranho se eles fossem realmente irmãos.

_ O que é incestuoso? – o outro questionou, visivelmente curioso e perdido com a palavra.

Sasuke piscou algumas vezes antes de responder, tentando achar um tom de brincadeira na pergunta; Itachi realmente não sabia o significado daquilo?

_ Bom, incesto é quando uma pessoa se relaciona amorosamente com alguém do mesmo sangue, com parentesco sanguíneo próximo, até o grau de parentesco de primos. – Sasuke explicou, sentindo como se estivesse novamente conversando com uma criança. Às vezes esquecia o quanto Itachi era ignorante a respeito de alguns fatos do mundo "real". – Quem tem uma relação com um parente próximo pratica incesto, e os que praticam incesto são considerados incestuosos.

O outro ainda parecia confuso, franzindo o cenho ao tentar assimilar a informação.

_ Isso é algo ruim? – o mais velho perguntou, pegando Sasuke de surpresa mais uma vez.

_ Na sociedade cristã é visto como um pecado, em alguns países é até considerado um crime. Mas esse não é o foco Itachi, continue falando sobre Madara.

Itachi ficou pensativo por alguns instantes, mas com um leve sacudir de cabeça continuou a falar, ignorando o assunto de incesto por hora.

_ Madara me... Construiu.

_ ... Construir?

_ Eu nasci como você, de um pai e uma mãe, normal como qualquer outra criança. Mas eu nasci uma casca, uma "tela em branco" para as criações de Madara. O que fizeram comigo não foi igual ao que fizeram com o restante da Akatsuki, foi mais além do que um treinamento físico.

_ O que quer dizer?

Itachi quebrou a troca de olhares, observando a parede branca enquanto se perdia em seus próprios pensamentos.

(***)

Seu corpo inteiro latejava, e não era como a dor dos treinamentos convencionais. Afinal de contas, a dor física não mais o incomodava. O que considerava a verdadeira "tortura" era o sentimento de inutilidade, pois agora ele era incapaz de se movimentar ou agir como um indivíduo normal, pelo menos até os efeitos colaterais passarem.

Orochimaru o colocara sentado em sua mesa afastada, entregando uma colher em sua mão, mas ele se sentia tão fraco que mal conseguia segurar o objeto firmemente. Itachi ouvia as crianças mastigarem e engolirem a ração em silêncio, não conseguindo comer da mesma maneira, por mais que estivesse faminto. O coordenador se retirou, sem ajudá-lo.

Não que ele desejasse ajuda... Ele precisava superar os seus limites, sabia muito bem disso!

Depois de uma grande luta para tentar erguer o talher, o cabo de metal escapuliu de seus dedos e o objeto se chocou contra o chão, causando um som de impacto que fez com que muitas crianças pararam de comer e voltaram à atenção para si. Itachi às vezes se perguntava se alguma delas tinha a vontade de auxiliá-lo no momento de pós-sessão, ou se apenas o observavam para tirar sarro do "prodígio" quando ele não estivesse por perto.

Estavam sozinhos, sem supervisores ou coordenadores, mas nenhum de seus companheiros infantis era tolo o suficiente para ir contra a ordem e ajudá-lo em suas dificuldades. Ou era isso que o pequeno Itachi acreditava...

Um barulho suave de cadeira sendo arrastada contra o chão foi ouvido, e mesmo sem conseguir erguer a cabeça para apreciar a cena, o menino conseguiu ouvir.

_ Sasori! Não podemos...! – uma voz desesperada falou, sendo interrompida em seguida por uma extremamente mais ríspida que a primeira.

_ Quieto!

Itachi não conhecia verdadeiramente todas aquelas crianças, mas sabia reconhecer suas aparências, vozes e capacidades especiais de combate. Sabia muito bem que a voz da primeira criança era do loiro especializado em explosões envolvendo os mais diversos materiais caseiros.

Já a segunda voz, por sua vez, era do garoto ruivo de feições apáticas, cuja especialidade era a tortura psicológica intensa ao ponto de transformar meros civis em ferramentas de combate, com o emprego de drogas e pressão psicológica. Se existia alguém que já era considerado extremamente perigoso com a idade de oito anos, esse alguém era Sasori.

Ouviu os passos lentos, até mesmo relutantes, e aqueles que ainda se alimentavam pararam de comer diante a cena extremamente peculiar. O silêncio era intenso, e apenas os sons da sandália de madeira do garotinho eram ouvidos naquele local. Itachi percebia que a destinação do outro era até a mesa onde ele se encontrava naquele momento.

Observou pelo canto do olho o garoto adentrar o seu campo de visão. Ele se abaixou, tomou a colher em suas mãos e entregou para Itachi com mais delicadeza do que Orochimaru empregou ao lhe ajudar a segurar o objeto mais firmemente. O moreno conseguiu erguer o olhar o suficiente para encarar os olhos castanhos do outro, não sabendo ao certo como deveria agir diante dessa reação inusitada.

_ Obrigado, número três. – Sasori falou em um tom de voz monótono, encarando o garoto praticamente paralisado com um olhar gélido. – Obrigado por me mostrar que existe alguém mais incompleto do que eu. Eles estão te destruindo, pouco a pouco, não é mesmo?

_ Sasori! Não fale com ele! – Deidara gritou mais uma vez, correndo até onde os dois se encontravam e puxando o garoto ruivo para longe dali.

Itachi observou a colher em sua mão, ignorando os sons de mastigação que voltavam a ressonar no ambiente e a bronca apavorada que Deidara proferia ao colega ruivo.

Sentiu-se verdadeiramente miserável naquela ocasião: diferente de todos, sozinho, incapaz de sequer se alimentar. Tentou novamente levar a colher até o prato, mas não conseguiu. Aguardou, o efeito colateral das sessões era sempre doloroso e lento de se dissipar, provavelmente apenas daqui algumas horas conseguiria mover os primeiros músculos.

Enquanto isso, ele apenas revivia a dor que sentira com tanta intensidade há poucos instantes atrás. E saber que ele era o único do recinto a passar por tudo aquilo... Uma lágrima solitária em seu olho esquerdo se formou. Nela estava toda a dor dos sentimentos que tanto era ensinado a esconder.

Somente naquele momento Itachi não quis ser quem Madara-nii-san desejava que ele fosse, e sim a si próprio: uma criança, com desejos e teimosias.

Mas assim que a lágrima caiu em seu colo, ele tratou de novamente abafar aquele sentimento. Itachi não podia ser quem queria ser: ele tinha que ser a pessoa destinada ao coração de seu irmão. E toda dor no mundo valeria a pena, apenas para que o outro pudesse observá-lo com novos olhos.

Um dia tudo valeria a pena. Ser 'destruído' valeria a pena. ²

(***)

Será que valeu a pena?

Itachi piscou pesadamente algumas vezes, saindo de seu devaneio momentâneo. Respirou fundo e voltou a falar com Sasuke em um tom de voz neutro, o qual o Uchiha já aprendera a associar com más lembranças.

_ O que quero dizer é que sou diferente, apenas isso. Madara mudou minha personalidade também, ao ponto de eu me tornar o que ele queria que eu fosse. Digamos que eu não duvide do amor de Madara ou de seu sentimento de paixão, mas com ele não funcionou como é na maioria das pessoas. Ele já tinha a paixão feita antes de me "criar", ele me moldou de uma maneira que eu acabasse me tornando essa pessoa dos sonhos dele. O seu robô particular.

_ Isso é doentio... – Sasuke comentou.

Ele não entendia totalmente o que Itachi queria dizer com aquelas palavras, mas sabia que não era necessário ser um gênio da psicologia para compreender que aquele tipo de comportamento não era nem um pouco natural e saudável.

_ Nunca disse que Madara é a pessoa mais sã do mundo.

_ Mas pense Itachi: se ele te "montou como um robô", já que estamos utilizando analogias aqui, ele pode montar outro "robô" novamente! Ele não ama você, ou é apaixonado por você pelo que você é, mas sim pelo que ele decidiu que você viria a ser! É uma ilusão que pode ser reconstituída novamente, se for necessário.

_ E quem disse que importa se você está afim ou não? Será que realmente esqueceu sua condição? Claro que pra mim é muito mais cômodo mantê-lo vivo e comigo, mas eu não hesitaria em começartudo do começo com outra pessoa se você deixasse de suprir minhas expectativas.³

_ Ele já comentou algo assim... – Itachi falou com amargura, desviando momentaneamente o olhar. Sasuke foi rápido, tomando a cabeça do outro com as mãos e forçando-o a encará-lo novamente.

_ Eu gosto de você do jeito que você é! – ele falou com um pouco de vergonha e tentando conter a consequência que aquela simples frase teve em sua mente: as parcelas mentais voltaram a perturbá-lo, uma sendo contra a sua declaração e a outra totalmente a favor.

Finalmente! Finalmente! Antes tarde do que nunca!

Você vai deixar o puto do Itachi muito cheio de si falando essas coisas Sasuke! Tenha um pouco de amor próprio!

Não é uma questão de falta de amor próprio. Eu já acho o contrário, se Sasuke teve coragem de se declarar, significa que está amadurecendo o sentimento! E uma relação não funciona quando é baseada em mentiras. É bom para os dois que ele seja sincero, orgulho só gera problemas!

... Eu ainda acho que vocês são gays demais para mim.

Oh, cale a boca!

_ Eu nem sei se deveria estar te dizendo isso, mas eu gosto muito de você, Itachi. – disse Sasuke tentando ignorar o rubor em suas bochechas. – Eu não sei se é tesão, atração, paixão ou amor, porque eu nunca soube diferenciar esses sentimentos. Só sei que... Isso está longe de ser indiferença.

Itachi sorriu mais uma vez e Sasuke suspirou mentalmente. Era tão raro ver o mais velho sorrir que ele não conseguia deixar de se sentir especial quando presenciava uma reação com aquela.

O moreno de cabelos compridos levou uma das mãos de Sasuke até seus lábios, beijando a junta de seus dedos com adoração e ternura. Ao fim, respondeu àquela declaração fixando seu olhar avermelhado e contido nos orbes cor de ônix do mais novo.

_ Eu também não sei direito, mas gostaria que você tentasse aprender sobre isso comigo.

Itachi está te pedindo em namoro!

Não, não está! Está pedindo auxílio em um trabalho meramente acadêmico!

Não Sasuke... Itachi realmente está te pedindo em namoro.

Até você está achando isso?

Ah Sasuke... Contra fatos não há argumentos. Acho melhor eu desistir de ver peitos na minha frente novamente...

Itachi não aguardou uma resposta, acreditando que depois de tudo que foi dito, esta não era mais necessária. Inclinou-se para frente numa tentativa de beijar Sasuke, mas este o impediu com o indicador sobre seus lábios. Um pouco perdido, voltou à posição inicial, questionando com o olhar o significado da rejeição.

_ E Madara? – Sasuke questionou com a voz firme.

_ O que tem o Madara? – Itachi franziu o cenho, não entendendo o porquê daquela conversa mais uma vez.

_ Você ainda está se deitando com ele, não está? Como isso vai ficar se nós decidirmos... Você sabe.

Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes, o assunto se tornando ainda mais desconfortável com o passar do tempo. Itachi foi o primeiro a ceder, expirando com força e passando as mãos pelos cabelos para se acalmar e responder com coerência. Estava com medo de brigar com Sasuke.

Céus, quando em toda sua vida imaginou que teria medo de brigar? Ele realmente estava mudado.

_ Eu não posso fazer milagres. Eu não posso te oferecer fidelidade, mas posso te oferecer lealdade. – talvez não tivesse escolhido as palavras corretas, mas era verdade. Não havia a possibilidade de terminar com Madara, pois o que eles possuíam não era um relacionamento normal de namorados.

_ Mas...! – o outro começou a falar com um tom de voz indignado e sentindo seu orgulho completamente ferido, mas Itachi o interrompeu.

_ Você quer o quê? Que eu diga: "vamos fugir apenas nós dois!" para nos tornarmos "um contra o mundo"? – o olhar de Itachi avermelhou-se um pouco mais, talvez por se sentir acuado com o questionamento de Sasuke. – Eu não sou como você, por mais que eu esteja apaixonado ainda tenho em mente que precisamos pensar mil vezes antes de tomar uma decisão drástica! Não é apenas a nossa existência que está em jogo, sua família também correria perigo se Madara percebesse que eu o traí e fugi com você!

_ Minha família está morta. – Sasuke murmurou, também começando a se sentir enraivecido. Oras, ele só estava pedindo o que qualquer pessoa pediria ao se iniciar um namoro! O que tinha demais nisso!?

_ Sua família atual se chama Naruto Uzumaki e Kakashi Hatake. Nem ouse negar porque está na cara!

Sasuke abaixou o olhar, pensando novamente em Naruto e Kakashi.

_ Eu cortei relações com Naruto propositalmente, para que...

_ Ah Sasuke, acho que nem o próprio Naruto se enganou com esse teatro de quinta categoria! – Sasuke piscou algumas vezes, tentando recordar como Itachi saberia da suposta "briga" que tivera com o loiro, mas o mais velho respondeu antes que ele pudesse perguntar com todas as letras. – Eu observei vocês dois no hospital e ainda o acompanhei por mais algum tempo, analisei as possíveis reações dele.

Itachi quase contou que chegou a conversar com o Uzumaki, mas o olhar indignado de Sasuke o fez pensar duas vezes em revelar essa informação. Talvez não fosse a hora de testar o orgulho Uchiha tão a fundo.

_ Você o quê? – Sasuke sentiu um nó se formar em sua garganta, acompanhado de uma estranha sensação de...

_ Ciúmes? Por eu ter observado o seu amigo? – Itachi questionou com inocência, inclinando um pouco sua cabeça como se analisasse a nova forma de rubor do mais novo.

_ Não estou com ciúmes! – Sasuke respondeu, colocando-se de pé em um pulo e caminhando até a janela, dando as costas para Itachi e prestando atenção no nascer do sol, sequer imaginava que pudesse ser tão cedo. – Mas você está se metendo na minha vida sem ser chamado Itachi!

_ Achei que você já estava acostumado com isso! E eu nunca te pedi permissão para fazer as coisas e você parecia ter parado de se importar...! – o outro respondeu, colocando-se de pé e caminhando suavemente até Sasuke, de modo que o outro era incapaz de perceber sua movimentação pela ausência de sons denunciadores. – E não se preocupe, Naruto é bonitinho, mas não faz o meu estilo.

_ O quê?! Como você... – Sasuke se virou, dando de cara com Itachi. Ele fora rápido, Sasuke perdeu completamente a capacidade de compreender como o outro se movera sem que ele se percebesse.

Quando se dera conta de que Itachi estava na sua frente, Sasuke abriu a boca para protestar raivosamente mais uma vez, todavia Itachi fora mais rápido, capturando seus lábios em um beijo e derrubando o menor de encontro ao colchão mais uma vez.

Sasuke lutou contra o beijo por alguns instantes, mas logo perdeu a batalha, se rendendo a grande atração física que sentia por Itachi. O calor das carícias foi aumentando, até que o mais velho passou a acariciar sua virilha por cima da roupa, ganhando um gemido intenso em recompensa.

Depois do que pareceu uma eternidade, Itachi parou de beijá-lo, mordendo o lábio inferior em meio ao processo de separação e observando com adoração a beleza dos cílios negros dos olhos fechados, em contraste com o rosado sobre as maçãs do rosto do mais novo.

_ Eu prefiro morenos branquinhos, que ficam cor-de-rosa por diversos motivos, e que são esquentadinhos ao ponto de se tornarem ainda mais lindos quando perdem a paciência. – Itachi respondeu, dando um peteleco brincalhão na testa de Sasuke, o qual fez um singelo "outch!" de protesto.

_ Você é um idiota. – Sasuke respondeu contrariado, ganhando mais um breve selinho em seus lábios.

_ E você é lindo.

Itachi sentia vontade de se matar a cada demonstração melosa e tão pouco condizentes com o seu comportamento natural, mas não conseguia se controlar. Ele realmente foi pego pelas garras da paixão mais uma vez, ao ponto de sentir-se jovem, como um adolescente em seu primeiro namoro. Talvez ele estivesse voltado a ser um adolescente hormonal.

Bom, há quem diga que ele nunca saiu dessa fase, não há?

_ Então... você não vai terminar com o Madara? – Sasuke questionou, ainda massageando a testa e não permitindo que um assunto importante como aquele morresse. Nem mesmo os elogios o fariam perder o foco.

_ Não, não posso. – Itachi respondeu, mantendo o olhar firme. – Não é como se eu estivesse me comportando como aqueles homens casados que não terminam com a esposa pra ficar com a amante, Sasuke. Pare de fazer essas comparações surreais e novelescas com esse olhar indignado! Eu não posso terminar com Madara até acharmos uma solução para o seu problema, pois se eu fizer isso a minúscula confiança que ele ainda sente por mim será abalada e estaríamos todos em risco. Ele vai me descartar Sasuke, e logo você será o próximo da lista.

_ Você preza mais por ele do que por mim! – o mais novo respondeu, cego demais pelo ciúme para perceber a coerência da argumentação de Itachi.

_ Por que diz isso? – o mais velho questionou, realmente não entendendo onde Sasuke queria chegar com aquela conversa.

_ Você... Faz... 'coisas' com ele que não faz comigo...

Sasuke corou imensamente, virando o rosto e tentando se levantar novamente. Itachi não compreendeu inicialmente sobre o que o outro se referia, mas ao observar a reação do mais novo se deu conta do que era.

_ Você se refere ao sexo? Ao que você assistiu aquela noite?

Itachi segurou Sasuke, forçando-o a encará-lo para identificar qualquer tentativa de mentira.

Ele sabia que o mais novo não era tolo; se Sasuke recordara do ocorrido naquela noite, lembrava exatamente a maneira como ele e Madara se relacionavam no sexo, o que era bem diferente do que estava acostumado com Sasuke. Não que aquele sexo fora bom, de maneira alguma: foi doloroso e humilhante. Mas Itachi podia entender a curiosidade que Sasuke sentira ao observá-lo em uma posição diferente da que estava acostumada. Era natural, afinal de contas.

_ Me solte Itachi! – rosnou enraivecido, tentando desesperadamente fugir daquele assunto que tanto o envergonhava.

_ Você quer tentar?

_ Itachi! – menor respondeu, horrorizado, ruborizando cada vez mais.

_ Falo sério, Sasuke. – o mais velho o forçou contra a cama, sentando sobre o colo do outro e imobilizando-o contra o colchão. – Eu não tenho problema algum com isso, eu até gosto, apesar de só ter feito daquele jeito com o Madara. Mas eu te disse uma vez pra você pedir tudo que quisesse fazer e você nunca pediu assim.

Subitamente, Sasuke se relembrou das palavras que o outro proferiu na primeira vez em que fizeram sexo.

_ Eu vou falar isso apenas uma vez, então preste atenção. – Itachi murmurou ao pé de seu ouvido, friccionando sua virilha encoberta contra a de seu futuro parceiro sexual, fazendo-o gemer e tornando o ato de "prestar atenção" algo extremamente difícil para o Uchiha. – Você pode tocar em mim, mas apenas quando eu permitir. Se quiser algo, não faça imediatamente: peça primeiro. Se não seguir essa regra estará sujeito às penalidades cabíveis. Sou eu quem manda aqui, entendeu?

Sasuke piscou algumas vezes, convocando uma reunião mental de emergência para tentar chegar a um consenso do que pensar sobre essa informação que, em meio ao calor da sua primeira vez com Itachi, ele deixou passar despercebida.

Jura que era algo tão simples assim?

Não... Não acredito que estivemos tentando a abordagem errada todo esse tempo!

Ah, sem essa, no fundo, no fundo o Sasuke não tinha tanta intenção assim de dominar. Sejamos francos...

Do outro jeito é bom, mas... Eu tenho curiosidade sim.

Sasuke! Não é apenas 'curiosidade', você precisa finalmente assumir seu papel real de alfa nessa relação!

Ah, cale a boca parcela mental chata. O papel na relação é sentir prazer, e ele vai assumir o que gostar mais. Pare de complicar o que é simples!

Cale essa sua boca de veadinho!

Cale a boca você!

Você!

Aiai... Como vocês são inúteis...!

_ Hum... Eu... – tentava formular alguma frase, mas em nada a reunião de emergência o ajudou.

_ Sasuke, – Itachi o chamou, retirando Sasuke de seu momentâneo devaneio. – Eu preciso de uma resposta. Já está amanhecendo, daqui a pouco sua noiva voltará para te acordar. Preciso sair desse quarto e preciso saber se você aceita minhas limitações e quer continuar comigo.

_ Você não se importa com a Karin? – perguntou, relembrando pela primeira vez da ruiva depois que acordara. Realmente, Itachi tinha um dom de fazê-lo esquecer-se de tudo.

_ Eu não sabia que você tinha essa carta na manga, mas foi muito útil. Contanto que ela esteja a par da sua real situação e sexualidade, eu não ligo.

_ Você está com ciúmes? – Sasuke questionou com um sorriso desafiador dos lábios; Itachi respondeu sem se sentir intimidado, também sorrindo de forma desafiadora.

_ Sim, eu estou e não nego. Você é meu... Se você quiser, claro.

Sasuke sorriu de verdade, de uma maneira que poucas pessoas no mundo (talvez Naruto, nos melhores dias de sua amizade) tiveram o prazer de presenciar. Itachi se aproximou minimamente, e o menor agarrou o seu pescoço, beijando-o com selinhos estralados e causando cócegas (não ao ponto de fazê-lo rir, mas definitivamente o fez sorrir ainda mais).

Puxou o queixo do namorado para cima encarando-o brevemente antes de dar mais um beijo, o último daquela noite, a despedida para uma longa manhã tediosa para ambos.

_ Eu volto de noite, depois das três. – Itachi murmurou ao finalizar o ósculo. – E vou voltar com um plano.

_ Plano?

_ Óbvio, não vou te deixar casar com essa garota. – respondeu, voltando a beijá-lo e marcando a pele de sua clavícula com possessividade, desejando deixar uma marca roxa naquela região. – No momento é bom que você não esteja na quitinete, mas isso é apenas algo provisório. Eu vou achar uma solução para tudo.

_ Hum... s-sim... – Sasuke recebeu mais alguns beijos em seu pescoço, pendendo a cabeça para trás e fechando os olhos para se afogar na sensação extasiante que era receber tamanha devoção do moreno mais velho.

Itachi o mordeu com força, sugando sua pele e ganhando um gemido de dor que o fez rir pelo nariz. Assoprou a pele judiada, e não se encostou mais em Sasuke, deixando-o ofegante, a procura de seu corpo pelo tato. Sorriu, deu um singelo selinho nos lábios apartados do menor, e desapareceu pela noite, da mesma maneira que aparecera: em completo silêncio.

O Uchiha abriu os olhos, percebendo que estava sozinho, excitado e exausto. Tsk, depois de tantas ocasiões como aquela ele ainda caia nesse tipo de truque.

_ Maldito Itachi...

Mas apesar das palavras, o sorriso satisfeito ainda continuava em seus lábios.

... Continua...


¹ Referência ao capítulo 12.

² Continuação da cena do gaiden do capítulo 12.

³ Citação do capítulo 14.

⁴ Citação do capítulo 11.