Disclaimer: Os personagens da fanfic pertencem a Masashi Kishimoto, a trama, no entanto, me pertence.

Warnings: Linguagem chula, violência, mortes, tortura, cenas explícitas de sexo homossexual e relações incestuosas.


N/A: Olá gente, vamos lá!

Sem grandes ponderações, apenas se lembrem de que quem estava no controle do Sasuke no fim do capítulo passado era o "Sasuke-em-negrito" (o qual já tem milhares de apelidinhos dados por vocês uahauhau), e que ele continua no controle nessa primeira cena. Lembre-se também que Madara e Sasuke ainda estão sobre o efeito da droga.

E... acho que é só. Espero que gostem da atualização!


HAUNTED

Capítulo XXVIII

_ O... o que você disse? – Sasuke murmurou, com a voz não passando de um mero sussurro, tão fraco que ele próprio mal conseguia ouvir suas palavras. Observava "Itachi" com completo pavor, não acreditando que ele acabou de gritar o nome de outra pessoa em meio ao sexo.

Não era verdade! Não podia estar acontecendo algo assim!

Sasuke! Assuma, por favor! Eu te imploro!

Eu não quero...! Eu...! Não faça isso comigo, resolva você!

Nem pense em mim, também não quero... Se vira colega!

Eu não sei o que fazer!

Eu também não sei! Só sei que é melhor você ficar no comando, se não eu vou matar o Itachi. E eu falo sério!

_ O que houve? – Madara perguntou, obviamente não compreendendo porque "Izuna" parecia tão indignado daquela forma. Ele fez algo de errado?

_ Seu filho da puta! – Sasuke gritou, tentando sair debaixo do corpo do outro, empurrando-o com os braços e as pernas.

Contudo, completamente alheio ao porque daquele desespero de seu parceiro, Madara tentava acalmar o mais novo, segurando seus pulsos e ouvindo mais e mais gritos de irritação e agonia do outro. O que havia acontecido? Independente da resposta, ele sabia que a situação pioraria se o outro conseguisse fugir dali.

_ Me solta! Me larga seu idiota! – Sasuke gritava, repetidamente, cada vez mais alto e tentando se debater para se soltar dos braços de "Itachi".

Lágrimas se formavam nos olhos do mais jovem enquanto ele tentava fugir, Madara realmente não sabia o que fazer, pois não conseguia entender o que tinha feito para que "Izuna" ficasse tão magoado assim.

_ O que diabos aconteceu Izuna? – questionou, preocupação evidente em seu tom de voz, bem como uma grande quantidade de desespero.

Sasuke estava tão emerso em seus próprios sentimentos que sequer prestou atenção no tom de voz utilizado, apenas no nome que, mais uma vez, saiu dos lábios daquele que dizia lhe amar! Sem que pudesse conter, ele gargalhou, envolvido por um delírio repleto de horror e raiva. Piscou as lágrimas, deixando que elas escorressem em um choro furioso, misturado com aquela gargalhada enlouquecida e repleta de dor que lhe deixava quase sem fôlego. Tudo doía tanto!

_ Eu não acredito nisso! EU NÃO ACREDITO! – ele falava, dentre o riso descomunal e enlouquecido, se debatendo e tentando, ao máximo, fugir dos braços do outro. Como aquele idiota podia ter a ousadia de chamá-lo mais uma vez de um nome que não era o seu!? COMO!?

Saia daí! Pelo amor de Deus saia daí! Eu estou a um passo de dominar o corpo e estrangular o Itachi! SAIA JÁ DAÍ!

E por que você não faz isso? Ele merece!

PORQUE EU O AMO E VOU ME ARREPENDER! VAMOS, SAIA DE PERTO DELE AGORA!

Madara, ao se dar conta de que tentar imobilizar o outro não estava ajudando em nada, resolveu soltá-lo. Imediatamente foi empurrado com força para o lado e caiu de qualquer jeito sobre os lençóis úmidos de água e espuma. O mais novo pulou para fora da cama, quase escorregando no piso molhado enquanto corria de volta para o banheiro.

_ Izuna! – Madara gritou, tentando acompanhá-lo e impedir que se trancasse no banheiro.

Mas Sasuke foi rápido o suficiente, entrando no cômodo ainda quente pelo vapor d'água e batendo a porta nas fuças do mais velho. Ele girou a chave duas vezes e encostou-se a porta com suas costas, escorregando até o chão, caindo de joelhos no piso de azulejo. Seu corpo tremia dos pés a cabeça intensamente, até mesmo seus dentes tremiam de um jeito bem audível, mas não era como se conseguisse se controlar; e não era de frio.

E-ele... Ele está brincando. N-não está?

...

Não volte pro quarto, haja o que houver!

Não volte! Eu vou fatiá-lo se você voltar!

Sasuke se sentou com as costas apoiadas na porta de madeira e agarrou as pernas, puxando-as para próximo de seu peito, escondendo os olhos em seus joelhos. Não se importava com o frio que sentia sentado daquela maneira no chão gelado do banheiro. Sequer conseguia se preocupar com o fato de estar nu naquela posição, chorando por um idiota que ainda chamava por outra pessoa enquanto gritava do outro lado da porta, esmurrando-a e ameaçando derrubá-la.

_ Eu estou avisando Izuna! Se você não abrir essa porta agora, eu vou arrombar! – Madara esbravejava.

O mais velho socava a porta com tanta força que Sasuke sentia a sentia estremecer e quase ceder atrás de si, mas ele estava zangado, triste e decepcionado demais para poder se importar com isso no momento.

_ Se você fizer isso vai me machucar! – Sasuke gritou em meio a mais uma gargalhada, cobrindo os próprios ouvidos em uma tentativa de não escutar mais os gritos desesperados daquele idiota!

Estava na cara que ele não iria arrombar a porta coisíssima nenhuma! O outro sabia que ele estava sentado no chão atrás dela, e que isso iria machucá-lo com toda certeza. Sasuke se dava conta de que, de alguma forma, "Itachi" não queria feri-lo, mas certamente não era a si mesmo que ele enxergava. Ele estava não apenas fantasiando com outra pessoa, mas vendo, literalmente, outra pessoa! Era a única resposta possível!

_ Eu não acredito que ele fez isso comigo... – Sasuke murmurou entristecido, sentindo o lábio inferior tremer em meio ao recomeço de um choro, agora silencioso, embora ele estivesse soluçando um pouco. – Eu... Eu sou... quem mais o a-ama! Is-so não é... Não... Não é ju-justo!

Olha, até eu estou com pena de você, florzinha...

Tinha sido tudo tão perfeito! Tão excepcional, tão amoroso...! Mas era por isso que Itachi estava diferente, era sim! Ele pensava em outra pessoa e não nele, por isso agiu daquela maneira apaixonada! Nada disso era direcionado a ele, nada!

Enquanto Itachi era o seu completo mundo! Todas as três mentes amavam Itachi, mas para ele... Para ele em particular... Para ele...! Putz, isso doía mais do que ser apunhalado diretamente no coração! Instintivamente, ele levou uma das mãos até o seu peito, tentando cobrir o buraco doloroso que parecia se formar sob sua carne; como algo psicológico podia doer tanto? Essa dor era impossível de suportar!

_ Por favor...! – Sasuke falava consigo mesmo, perdendo um pouco o controle de suas ações enquanto tremia cada vez mais forte, sua voz falhando enquanto ele obviamente agia feito um louco, murmurando atrocidades para si mesmo, como se fosse necessário falar em voz alta para que os outros dois o compreendessem. – Troque comigo!

Eu...

Calma cara, você...

_ POR FAVOR! – gritou em plenos pulmões, chorando tanto que mal era possível identificar a palavra que acabou de esbravejar. Até o mais velho se calou do outro lado da porta, tentando entender o que acontecia naquele banheiro trancado. – DÓI DEMAIS!

Ok. – ele cedeu, não mais aguentando o sentimento de dor que o seu outro eu espalhava para os outros dois presentes naquela cabeça. – Vamos trocar. É a minha sina mesmo.

Obrigado Sasuke... Eu não... Eu não ia aguentar mais nenhum minuto...

Isso não 'tá me cheirando bem...

Sasuke piscou. Quando abriu os olhos novamente, sua faceta de completa dor emocional mudou para total lividez. Seu corpo ainda tremia, mas por motivos diferentes agora. Com certa dificuldade se colocou de pé, alcançou uma toalha próxima e amarrou ao redor da cintura, observando seu reflexo por alguns instantes.

Seu corpo estava totalmente marcado por chupões, mordidas e arranhões. Nada muito grave, marcas normais de uma noite de amor mais intensa. Marcas que ele odiava observar naquele momento. Itachi... Ele não conseguia perdoá-lo! De maneira alguma!

A raiva intensa que sentia, de alguma forma, fez com que todas as memórias ruins relacionadas à Itachi voltassem a sua mente. A traição, o assassinato, a mentira, o parentesco. Tudo voltou a sua mente com uma avalanche de sentimentos surreal! Como ele podia ter se esquecido de tudo aquilo durante o sexo?! Não fazia o menor sentido!

_ Não...! – ele sussurrou, encarando a sua própria expressão de pavor completo naquele reflexo. – N-não!

Desesperado, Sasuke tentou recorrer às demais mentes, temendo que, como da outra vez, elas desaparecessem.

Me respondam! Agora! Me digam que vocês estão aí! SE MANIFESTEM!

Mas, mais uma vez, ele estava só. Mais uma vez estava sozinho, enquanto a raiva era grande demais para apenas uma pessoa suportar.

Preso em um sentimento de fúria intensa e uma vontade assassina que jamais sentira, nem mesmo quando descobrira toda a verdade, Sasuke deu um soco com toda sua força no espelho do banheiro, quebrando-o em pedaços grandes que se espatifaram na pia de porcelana. Agarrou o maior deles com a mão direita, já completamente ensanguentada e não se importando, nem um pouco, em cortá-la ainda mais.

O cheiro de sangue que se espalhava pelo ambiente era até reconfortante!

No mesmo instante, a porta do banheiro foi, de fato, arrombada. Madara adentrou ao banheiro, observando a cena com total pavor. Sasuke reconheceu Madara, não via mais Itachi, e não se perguntou por que não foi Itachi quem destruiu a porta do banheiro. Não! A culpa também era de Madara! Ele podia pagar antes de Itachi, não tinha problema! A ordem dos fatores não alterava o produto! E o "produto" é a vingança!

O moreno mais velho piscou rapidamente e a grande onda de adrenalina despejada em seu corpo diante daquela cena desnorteante quebrou prontamente o efeito da droga. Era um dos efeitos de resgate das ilusões que a droga produzia. Madara se lembrou de deixá-lo a postos, obviamente quando se sentia adrenalina com grande intensidade, isso representava que a sua vida ou a vida de alguém estava em perigo, assim não era interessante estar sob efeito da "Tsuki No Me".

Apesar de ser reconfortante saber que este dispositivo de quebra funcionava, ver Sasuke diante de si lhe deixou um pouco desnorteado, ainda mais com aquela expressão de completo ódio e desprezo nos olhos; a mesma expressão que foi direcionara a Itachi no dia do grande espetáculo que ele patrocinou. O que diabos Sasuke fazia ali? Onde estava Izuna?

_ Sasuke?

_ Eu odeio o Itachi...! – ele murmurou, aproximando-se um passo depois do outro, ainda com o pedaço de vidro em mãos, não se importando com o sangue que escorria por seu antebraço; era quente e aconchegante, promissor de um reconforto iminente. Sangue, precisava de mais sangue! – MAS NEM POR ISSO EU ODEIO MENOS VOCÊ!

Sasuke não precisou de porcaria de pílula roxa alguma para conseguir ser o mais rápido que podia. A intensa carga de adrenalina e a memória do treinamento intacta (1) em sua cabeça foi o suficiente.

Ele acertou o seu golpe!

Isso era pouco se comparado a um combate de igual para igual, mas muito se comparado a o combate de uma presa contra o seu predador. Madara, instantaneamente, ativou os olhos violetas. Sasuke, por sua vez, desmaiou por um golpe bem dado em sua nuca, décimos de segundos depois de condenar a pele intacta de Madara a possuir, dentro de algum tempo, sua primeira cicatriz permanente.

(***)

Itachi desejava muito um período sozinho, mas ao que tudo indicava não teria esse presente tão cedo em sua vida.

No momento, Kakashi estava ao seu lado, oferecendo ajuda em sua alimentação e destruindo totalmente o seu ego no processo. Não era como se seu braço direito não funcionasse, oras! O problema é que ele precisava manter o braço parado, pois recebia soro e algum tipo de medicação na veia e dessa forma não conseguiria comer sem a ajuda de alguém...

Por mais que não admitisse isso em voz alta, em nenhuma hipótese!

_ Não faça essa cara, estou tentando te ajudar. – o grisalho o censurou, depois do terceiro olhar mortal que recebera àquela manhã.

Antes que o moreno pudesse falar qualquer absurdo regado de orgulho ferido, Kakashi enfiou mais uma colherada na boca do paciente, mantendo-o calado por alguns instantes. Enquanto era forçado a mastigar a comida hospitalar, Itachi exibia a corriqueira feição de irritação e homicídio iminente, mas o grisalho aprendeu a ignorar as ameaças visuais com maestria. Afinal, Itachi estava agindo como um "Sasuke mais velho", e quando se tratava de "sasukices", Kakashi tirava de letra.

Ele era o encarregado da vez de cuidar do Uchiha, visto que Jiraiya não poderia simplesmente abandonar seus demais pacientes e dar atenção à apenas um deles. Em virtude de toda peculiaridade da internação de Itachi, da ausência de digitais e demais documentações, o moreno não pôde ser acompanhado de perto pela equipe de enfermagem do hospital ou receber uma ficha ativa na administração hospitalar. Por conta disso, seus "amigos" o ajudavam nos momentos de necessidade, porque certamente a polícia seria envolvida caso descobrissem a real identidade do paciente moreno internado na ala de fraturas, corredor 3, quarto 401.

O problema é que esses "momentos de necessidade" ocorriam a todo instante! Itachi já não conseguia fazer mais nada sem a ajuda de alguém, e isso estava lhe tirando do sério! E ele nem queria comentar as "idas ao banheiro", já que essa era uma das causas da sua maior irritação – e pelo menos, até agora, conseguiu se segurar o suficiente para não precisar da ajuda de Kakashi ou Naruto, esperando por Jiraiya até o último minuto.

Por óbvio, o maldito Uzumaki já aproveitou a sua situação para insinuar que ele estaria com câncer de próstata (2) e que Sasuke não ia gostar nada disso... Idiota! Itachi até sonhava com sua recuperação e no quanto iria esmurrar o Naruto quando isso acontecesse!

Mas o que mais o irritava nem era tanto o loiro idiota. Não, por incrível que pareça o que mais o deixava completamente estressado era o sentimento de inutilidade que o assolava sem dó nem piedade.

Depois da conversa que tivera com Naruto e Karin, e consequentemente da revelação sobre Izuna, os dois o deixaram sozinho por algum tempo. Karin disse que precisava pesquisar algumas coisas com a nova informação, equanto Naruto foi expulso por Jiraiya do quarto por se exaltar em virtude desta informação e xingar Madara com veemência. Por óbvio, tal afronta resultou em uma briga entre os dois e Jiraiya não pensou duas vezes em arrastar o garoto dali, puxando-o pela orelha. Itachi achou reconfortante aquela visão, rindo internamente do momento de vergonha do loiro abusado.

Naruto ainda retornou algumas vezes, mas procurava evitar o assunto. O loiro até podia ter compreendido bem sua situação no QG e também toda o problema com os progenitores Uchiha, bem como o que sentia por seu irmão, Sasuke, mas verdadeiramente não entendia o que Itachi sentia por Madara; e toda a santa vez que tocavam no assunto, os dois brigavam como gato e rato.

Karin, contudo, parecia entender. Mas ela ficava mais tempo no esconderijo de Orochimaru do que em sua companhia – não que Itachi estivesse reclamando, pois lidar com um Uzumaki só já era de bom tamanho. Todavia, quando ela o visitava e tocavam no assunto, ela entendia e não o recriminava.

Apesar de jamais mencionar sua relação com Orochimaru, Itachi sabia que esse sentimento de cumplicidade advinha dali. E isso o deixava preocupado: Karin estaria ao lado deles se precisassem, de alguma forma, prejudicar Orochimaru também?

Itachi tinha certeza que não era o único que se perguntava isso.

Kakashi e Jiraiya também estavam presentes em seu quarto com frequência, e ouviam atentamente tudo que Itachi podia contar sobre o QG, tentando identificar sua localização com relatos geográficos da região. Apesar de tais esforços, estava bem difícil de chegar sequer próximo da resposta para a principal pergunta deles: onde seria o QG?

Itachi sabia que Kisame era o único da Akatsuki que conseguiria dizer, mais ou menos, onde ficava o local. Os demais membros, inclusive ele, eram transportados de uma localidade para outra em sobre o efeito de sedativos, de modo que não conseguiriam sequer afirmar em qual país o esconderijo principal se localizava. Às vezes Itachi demorava três dias para chegar ao QG, às vezes apenas um... E certamente mapas e medidores de distância eram objetos proibidos dentro das instalações de seu antigo lar.

Os pontos de encontro para transporte aconteciam na sede central do local de missão. Madara sempre tinha um imóvel ou algum furgão para fazer o papel de sede regional e o Akatsuki que fosse para alguma cidade em nome de uma missão levava consigo o endereço daquele lugar. Era para lá que se dirigiam quando a missão acabava, e aí um dos cientistas entregava os medicamentos tarja-preta e o Akatsuki amanhecia em seu quarto, horas ou dias depois.

Era tudo muito simples e indolor, por isso nenhum deles reclamava de tal procedimento, inclusive Itachi, pois costumava acordar nos braços de Madara e isso era o suficiente para fazer qualquer preocupação sumir de sua cabeça. Pelo menos era assim na época em que fazia esse tipo de missão, pois desde que se envolvera com Sasuke costumava gostar cada vez menos dos retornos ao QG, seja na presença de Madara ou não.

De qualquer forma, na cidade onde Sasuke e Naruto viviam o ponto de encontro costumava ser o laboratório do Kisame, e isso Itachi sabia dizer onde ficava. Informou para Kakashi assim que conversara com Karin e Naruto, e aguardou as providências que seriam tomadas. O grisalho, por sua vez, utilizou-se de sua influência policial e conseguiu um mandato de busca do local, e quatro horas depois conseguiu revistar o lugar.

Todavia, o local já estava completamente vazio e sem qualquer vestígio de ocupação humana. Madara não deixaria algo tão estúpido delatar sua localização, e provavelmente já fizera a limpa no mesmo dia que capturou Kisame.

Sua frustração por confiar tão cegamente em Madara não tinha tamanho. Itachi sentia-se irritado consigo mesmo por não tentar, nem mesmo uma única vez, descobrir onde diabos ficava o QG, geralmente porque Madara o distraia com sexo até que ele esquecesse de fazer tal pergunta.

Pensar nisso lhe fez recordar de uma conversa em particular que teve com Karin:

_ Alimentos sintetizados e de paladar genérico, ausência total de arte e entretenimento, repúdio ao contato social fora do realizado entre as duplas, contato social nulo ou próximo do inexistente quando fora dos quartos particulares... – Karin repetia suas informações, como se fizesse uma lista mental daqueles dados que Itachi acabara de proferir, calmamente. – Madara sabe bem como controlar todos vocês.

Itachi não entendeu muito bem o que a garota quis dizer com isso, mas como sua curiosidade parecia não ter limites agora que ele convivia abertamente com aquelas pessoas, ele não se absteve de questionar:

_ Por quê? – sua voz soara fraca e cansada, mas recheada de uma curiosidade quase que infantil. Karin falava bastante nos poucos momentos em que se encontravam e ele gostava de ouvir suas informações. Karin e Naruto gostavam de falar; Itachi ficava cada vez mais curioso.

Eram o completo oposto de Kakashi, que preferia ouvir bem mais do que falar, irritando Itachi e afrontando sua curiosidade quando agia desta forma.

_ Porque ele retirou de vocês todas as coisas que fazem o ser humano se tornar crítico: a interação humana, a arte e o conhecimento. Bem como também tirou todas as formas de prazer, como uma alimentação diferenciada, atividades recreativas e até mesmo prazeres simples, como passear dentro do QG nas horas vagas. Mas Madara tinha que controlar a tensão de todos vocês de alguma forma e ele resolveu o problema da maneira mais fácil possível.

Ah, essa Itachi sabia responder.

_ Sexo. – ele respondeu e ela concordou com um aceno de cabeça.

Karin parecia enojada por algum motivo. Itachi não entendia muito bem.

_ Exato. Sexo. – ela murmurou, abaixando o tom de voz e corando um pouco. – Vocês faziam sexo com regularidade, não é?

Itachi não tinha a mínima vergonha de falar sobre o assunto, ao contrário de Sasuke, então respondeu francamente.

_ Todos os dias, às vezes mais de uma vez. Algumas duplas faziam com uma regularidade ainda maior. – ele respondeu num tom de voz um pouco mais alto do que o da garota, demonstrando não estar nem um pouco envergonhado pelo que falava, e Karin ficou um pouco mais rosada pela franqueza.

_ A maneira como você trata o sexo de forma tão aberta demonstra que isso não era nenhuma espécie de tabu entre vocês.

Itachi pareceu curioso ao ouvir tais palavras, mas aguardou em silêncio por maiores explicações. Mas Karin sorriu, encorajando-o a falar com tal gesto.

_ Não... Mas era proibido trocar as duplas. – Itachi comentou. – Nós podíamos até ouvir ou ver eventualmente alguma dupla em meio a um contato sexual, mas não podíamos tocar em outro alguém que não fosse o nosso parceiro. A não ser Madara.

Essa informação chamou a atenção de Kakashi, que lia seu livro erótico no sofá de visitas do quarto. Ele ficou atento, mas não fechou o livro, agora apenas fingindo ler as páginas surradas de seu romance e se concentrando no diálogo.

Karin, não percebendo a atenção do namorado de seu irmão naquela conversa, continuou a falar sem grandes delongas. Afinal, estava curiosa demais em saber o que Itachi achava do comportamento do líder Madara.

_ E você nunca se importou com isso? Madara se envolvia sexualmente com outras pessoas, mas era o seu parceiro, não era?

Itachi precisou pensar um pouco sobre os seus sentimentos, talvez pela primeira vez tentando analisar as coisas naquela perspectiva. Era verdade, jamais sentiu ciúmes de Madara quando ele visitava as duplas, mas sabia que seu aniki ficaria completamente furioso se o contrário acontecesse.

Apesar de Madara aceitar mais ou menos a relação carnal que Itachi e Sasuke tinham, ele deixou sempre bem claro que não gostava daquilo. Inclusive, no seu aniversário de quinze anos, quando Madara e ele tiveram sua primeira noite juntos, seu Nii-san esclareceu que iria retirá-lo de todas as missões sexuais e que ele não deveria ter aquele tipo de contato com outra pessoa, abrindo uma exceção somente depois que Itachi o convenceu de que seria melhor aproximar-se de Sasuke através do sexo.

Madara se importava, muito, apesar de Itachi não se importar. Por que isso acontecia? Ele não sabia responder.

_ Eu não me importava. Ele sim.

_ E você nunca se perguntou por que ele se importava e você não? – a ruiva questionou, um pouco empolgada com o rumo da conversa, sentindo que estava entendendo um pouco mais Itachi.

Kakashi também parecia ainda mais curioso e levantou os olhos do livro que lia, prestando atenção na interação dos dois. Itachi, por sua vez, sentia que a cada conversa que tinha com todas aquelas pessoas, ele apenas afirmava cada vez mais sua ignorância perante o mundo.

isso o deixava desnorteado.

_ Eu...

_ Itachi, Madara não é como você, como os demais Akatsukis. – Karin começou a explicar, calmamente, como se falasse com uma criança inocente, por mais contraditório que fosse agir assim com o Uchiha mais velho. – Ele foi criado no mundo exterior e por isso tem os nossos padrões de comportamento.

_ Eu não entendo... – ele murmurou, odiando os sentimentos confusos que o invadiam.

Sentira tantas coisas nos últimos dias que sequer se reconhecia. O Itachi de antes, que parecia tão certo de si e de suas convicções, não se preocuparia com nada além de si mesmo e de Madara, parecia uma sombra distante. Parecia que ele nunca foi àquela pessoa. Isso, apesar de ser algo bom, – ou pelo menos eleachavaque era algo bom – o deixava completamente perdido.

_ Ele sente ciúmes porque nós, do "mundo externo", como você de vez em quando nos intitula, sentimos ciúmes e tendemos a ser monogâmicos, apesar de isso ser uma utopia social. Porque nosso lado animal tende a desejar que procuremos mais de um parceiro, mas o nosso lado racional geralmente nos impede de fazê-lo. –"Nada disso faz sentido", Itachi não pôde deixar de constatar enquanto ouvia o discurso de Karin. – Como Madara sabia que você não ligaria pra isso, ele nunca tratou de esconder as suas escapadas sexuais. Mas ele ficaria frustrado caso você fizesse a mesma coisa, por causa do sentimento de posse que ele tem por você. E você não sente ciúmes porque nem sabe que isso existe, por conta da maneira como você foi criado naquele lugar.

Itachi ficou pensativo por alguns instantes, e quando falou novamente, destruiu todas as certezas da garota Uzumaki.

_ Mas eu sinto ciúmes.

Ela piscou algumas vezes, perdida.

_ Mas você disse que não sentia ciúmes do Madara!

_ Por causa do Madara, não; mas por causa do Sasuke, sim. – Itachi falou, lembrando-se prontamente do sentimento de ciúmes que a própria garota causava em si naquelas aproximações com Sasuke. Seus olhos se avermelharam um pouco, e Karin franziu o cenho. – Principalmente quando você tentava algo com ele.

Neste momento, Kakashi se levantou da cadeira e se aproximou ainda mais, colocando uma mão no ombro da garota confusa e fazendo-a olhar para ele. Não queria que os dois continuassem aquela conversa, até porque provavelmente iriam brigar.

E Itachi já tinha Naruto Uzumaki para ser seu grande rival de brigas desproporcionais, irracionais e completamente idiotas.

_ Não confunda mais a cabeça dele. – o grisalho falou para a garota, com gentileza. – Já está bem difícil compreendê-lo como um profissional... Teorias leigas não vão ajudar em nada, apenas confundi-lo.

Karin olhou para Itachi novamente, e quando tornou a fitar o grisalho, suspirou com apatia.

_ Mas Kakashi, como ele pode...

Hatake sabia o que ela iria perguntar. Sabia muito bem. Mas não era a hora de Itachi ouvir isso, e por isso ele a interrompeu.

_ Eu não sei Karin. Nós não precisamos saber. – ele olhou para Itachi naquele instante, de uma maneira gélida que conseguiu. – Nós só precisamos dele pra achar Sasuke. Nada mais, nada menos.

Karin pareceu um pouco assustada com a frieza de Kakashi, mas concordou minimamente com um aceno de cabeça. Mesmo sem ver os olhos da garota, o mais velho tinha certeza que ela tentava pedir desculpas ao moreno através do olhar.

Itachi conseguiu interpretar o pedido silencioso da Uzumaki, mas para ele pouco importava: Kakashi estava certo, tudo que interessava era ter Sasuke de volta em segurança. Ponto final.

A dor que ele sentia ao ouvir palavras duras como aquela não fazia a mínima diferença. Ou ao menos não devia fazer.

Seus pensamentos fizeram Itachi suspirar pesadamente, virando o rosto para a janela enquanto engolia o alimento. Kakashi tentou levar uma nova colherada em sua boca, mas Itachi se recusou a comer.

_ Perdi a fome. – o moreno murmurou, virando o rosto para o outro lado, fechando os olhos em seguida e tentando transparecer que desejava dormir. Não era verdade, estava sem sono, mas queria que Kakashi saísse logo dali.

Receber ajuda de Kakashi era o que Itachi menos suportava (e olha que isso era um feito, pois significava que Naruto era mais suportável!), Provavelmente por causa de tudo que fizera o grisalho passar ou por achar que havia algo de errado naquela situação...

O Hatake deveria tentar surrá-lo, e não ajudá-lo daquele jeito. Apesar dele saber, com toda certeza, que não havia qualquer tipo de vontade nas condutas do mais velho. A presença de Kakashi lhe deixava envergonhado e furioso ao mesmo tempo.

_ Olha Uchiha, eu sei que você deve estar frustrado com a situação do Sasuke, mas você precisa sair desse humor péssimo pra se recuperar o mais rápido possível.

Aquele papo de novo... – Itachi não pôde deixar de pensar, girando os olhos com impaciência antes de fechá-los com força.

_ Me recuperar não vai fazer uma informação que eu não tenho brotar na minha cabeça. – Itachi murmurou, abrindo os olhos e encarando o grisalho com firmeza. – Vou repetir mais uma vez: eu não sei onde fica o QG.

_ Eu sei que você não sabe, mas talvez você pense em alguma maneira pra...

_ Cale a boca! – Itachi gritou, perdendo a calma e a compostura e sabendo que se arrependeria de agir assim em breve, mas não dando a devida importância para isso. – Não venha dar uma de psicólogo pra cima de mim!

Quando foi que começara a agir dessa forma? Itachi não costumava perder a calma, explodir ou demonstrar os seus sentimentos daquela forma, mas atualmente tudo que ele fazia parecia ser gritar, se estressar ou sentir melancolia. Céus, ele nunca agiu assim! Qual era seu problema?

Ele mal se reconhecia!

_ Itachi... – Kakashi recomeçou a falar, ainda com o tom de voz suave e comedido. – Eu não estou te tratando como um paciente, até porque eu estremeço só de imaginar em pegar um caso como o seu pra tratar. Mas é natural, num momento de calma, uma pessoa lembrar algo que não conseguia se lembrar no momento de fúria. Por isso seria melhor se você se mantivesse calmo. E isso ajudaria na sua recuperação física também.

Itachi expirou com força, quase grunhindo de irritação. Tal demonstração de ferocidade e a maneira como os seus olhos se tornaram rubros calaram Hatake de prontidão.

_ Não comece...! – ele ordenou, seu tom de voz extremamente mais grave.

Kakashi optou por ficar em silêncio por alguns instantes. Quando Itachi pareceu relaxar ele tentou novamente alimentá-lo e dessa vez o moreno limitou-se a girar os olhos, mas aceitou a comida, talvez para não brigar mais uma vez.

Itachi perdia a paciência com facilidade atualmente, talvez fosse um dos resultados da constante convivência com Naruto, era difícil dizer. Contudo, ele sempre se arrependia em seguida, sabendo que não era a intenção de Kakashi irritá-lo ao falar sobre aqueles assuntos. Afinal de contas, todos eles tinham um objetivo em comum: salvar Sasuke.

E o Sasuke pode nem estar vivo...

_ Eu nunca disse isso pra ninguém, apesar de saber que Naruto e Sasuke já perceberam isso. – Kakashi voltou a falar, aparentando mudar de assunto e deixando Itachi bem grato por isso. – Mesmo sem querer, eu adquiri uma relação um pouco mais peculiar com Sasuke do que com Naruto.

Essa informação pegou Itachi de surpresa e ele recusou a nova colherada de comida, encarando Kakashi como se ele tivesse acabado de revelar que era um alienígena.

_ O que foi? – o mais velho questionou, verdadeiramente perdido diante do olhar do Uchiha.

_ Mais um pra lista dos apaixonados pelo Sasuke?

O ciúme era tão evidente no tom de voz de Itachi que Kakashi não conseguiu deixar de gargalhar, pousando a colher sobre a bandeja hospitalar e empurrando para longe na mesinha, temendo que fosse derrubar o seu conteúdo caso continuasse a segurar enquanto ria.

_ Não! – Kakashi respondeu, entre o riso, balançando a cabeça freneticamente enquanto tentava se controlar. – Eu não sou apaixonado pelo Sasuke!

Kakashi conseguiu parar de rir depois de alguns segundos, suspirando e recompondo-se instantaneamente. Seus olhos demonstraram tanta seriedade que Itachi não compreendeu como o outro conseguira mudar de espírito tão abruptamente.

_ Sasuke é como um filho pra mim. – o grisalho terminou sua explicação, encarando Itachi da maneira que apenas um pai consegue encarar um possível genro problemático. Não que Itachi percebesse essa peculiaridade, é claro. Ele provavelmente nem sabia o que significava a palavra "genro", mas ainda sim sentiu um frio na espinha ao observar o olhar do grisalho a sua frente, mesmo sabendo que ele não lhe oferecia qualquer tipo de perigo.

_ Como você pode sentir que ele é seu filho, se ele é filho de Fugaku Uchiha? – o moreno inquiriu, um pouco curioso, deixando o medo irracional de lado. Kakashi não oferecia perigo, não tinha porque temer sua presença.

_ Da mesma forma que você considera Madara seu irmão, mesmo ele não passando de... – Kakashi engoliu em seco, refreando os xingamentos que queriam escapulir de seus lábios a tempo. –... Alguém sem parentesco sanguíneo com você.

Itachi franziu o cenho, sabendo que não era exatamente isso que Kakashi queria dizer, mas não queria brigar por causa disso. Já não bastava as discussões com o maldito Uzumaki.

_ Por que você está me falando isso? – foi o que Itachi resolveu perguntar, sentindo-se curioso pelo rumo da conversa.

_ Pra explicar que, como pai de Sasuke, eu sou completamente contra a união de vocês dois.

Itachi não era burro. Não era preciso Kakashi falar isso com todas as letras, ele já percebera que o grisalho era contra a união dos dois desde que espionara aquela sessão de hipnose, ainda na época que Sasuke vivia na quitinete.

_ Isso não faz diferença alguma pra mim. – ele respondeu, e se pudesse se mover direito daria de ombros. Não se importava mesmo com o que os outros pensavam da relação que ele e Sasuke tinham.

Bom, talvez se importasse um pouco com a opinião de Naruto. Por quê? Ele não fazia ideia. Mas o que importa é que Naruto deixou claro que não tinha nada contra, então agora Itachi não dava a mínima mesmo. Não era como se eles ainda estivessem juntos, afinal.

_ Pra você não, pra Sasuke provavelmente sim. Ele não admite, mas o nosso laço é recíproco. – Kakashi respondeu calmamente, escondendo bem o verdadeiro asco que sentiu do tom de voz teimoso de Itachi. – Até porque ele nunca chegou a ter uma relação paternal de verdade com Fugaku e Minato era mais o seu ídolo, até mesmo uma espécie de paixão platônica e infantil, do que seu pai adotivo. Eu sou a verdadeira figura paterna na vida do Sasuke e não preciso ser um psicanalista pra perceber isso.

Itachi fechou os olhos, relaxando um pouco na cama, mas sem a intenção de ignorar Kakashi, pois respondeu logo em seguida.

_ Não faz a mínima diferença se você apoia ou não. Eu e Sasuke jamais ficaremos juntos novamente.

_ Como pode ter certeza disso?

Kakashi sabia qual era a resposta, mas ainda sim gostaria de ouvi-la da boca do Uchiha. Ele nunca havia lhe admitido a verdade cara-a-cara, e Kakashi ainda esperava por esse momento para confrontá-lo de uma vez.

_ Porque ele me odeia. Tenho certeza que Naruto te contou tudo que nos conversamos, não se faça de desentendido.

Itachi ainda mantinha os olhos fechados, provavelmente em uma fuga inconsciente daquele assunto. Estava claro que ele não gostava de falar do que aconteceu, principalmente com Kakashi. Mas este não ia deixar o assunto morrer tão facilmente, agora que finalmente conseguiu fazê-lo admitir algumas coisas.

_ Sim, eu sei de tudo. Eu e Naruto já tivemos muitos problemas por conta de "segredinhos" e agora isso não existe mais entre nós. – E era verdade, uma das coisas que combinaram antes de assumirem uma relação verdadeira foi que jamais, jamais mesmo, voltariam a esconder algo um do outro. – Só que você não conhece Sasuke como eu e Naruto conhecemos.

Nesse momento Itachi abriu os olhos, encarando o grisalho que ainda exibia a postura séria e os braços cruzados em seu peito.

_ O que quer dizer? – a confusão era tão evidente em seu tom de voz que Itachi sentiu vontade de nunca mais abrir a boca novamente. Essas pessoas estavam acabando com seu orgulho, deixando-o curioso e perdido a todo o momento!

Kakashi deu de ombros, levantando-se da cadeira onde estava e sorrindo um pouco por detrás da gola alta que sempre usava, Itachi conseguia identificar quando o grisalho sorria pela maneira como ele fechava os olhos levemente. Contudo, não aparentava ser um sorriso sincero ou benevolente; ele ainda exibia aquele olhar desafiador.

_ Esqueça o que eu quero dizer. – ele respondeu. – Você está certo, você e Sasuke não têm chances de ficar juntos.

Bom, era também o que Itachi pensava, mas ouvir isso com tanta franqueza fez seu coração pular uma batida.

_ Mas você disse...

_ Eu sei o que disse. – Hatake o interrompeu, estreitando ainda mais o olhar enquanto sorria. – Só que eu me esqueci de um pequenininho detalhe, Uchiha.

Kakashi se debruçou na cama, encarando Itachi de perto e parando de sorrir, agora apenas exibindo um olhar desafiador e cruel, dedicado apenas a genros não desejados. Apesar disso, o Uchiha não se alterou. Não havia nenhuma expressão de tristeza, não havia medo ou qualquer coisa, se não desmotivação. Sem desfazer sua postura, Kakashi se viu obrigado a explicar o que queria dizer.

_ Você vai apodrecer na cadeia depois que encontrarmos Sasuke. Tenha certeza disso.

Desta vez, a expressão do Uchiha mudou: Itachi sorriu de canto de boca e riu de maneira prepotente, o que fez com que Kakashi estreitasse ainda mais o olhar perigoso.

_ Acho engraçado como vocês policiais conseguem se iludir com tanta facilidade. – Itachi comentou, provocando sem dó nem piedade o ego de Kakashi. – Como se você pudesse me capturar depois que eu me recuperar!

Contudo, antes que a discussão tomasse proporções maiores, a porta do quarto foi aberta.

_ Você precisa que eu te puxe pra fora da sala pela orelha também Kakashi? – Jiraiya anunciou sua presença em voz alta.

Hatake parou de se debruçar sobre a cama de Itachi, endireitando a postura e olhando para a porta em seguida.

_ Você tem um radar, só pode. – ele comentou em um tom de voz entediado, apesar de acabar de ser repreendido pelo outro.

_ E você parece que tem dez anos. – o mais velho respondeu, entrando no quarto e deixando mais três pessoas o acompanharem, o Uchiha conseguia identificar pelas passadas. – Não brigue com o moleque, já basta o seu namoradinho fazer isso todo santo minuto.

_ "Namoradinho" uma ova, Ero Sennin! – Itachi ouviu a inconfundível voz de Naruto soar em alto e bom tom. – Detesto quando você não dá a verdadeira importância pra nossa relação!

Itachi, com muita dificuldade, conseguiu girar a cabeça e um pouco do corpo, e olhou para a porta. Naruto estava lá, com a mesma expressão emburrada que sempre exibia ao discutir com Jiraiya. Itachi sorriu sadicamente, porque adorava toda vez que Naruto se metia em uma discussão que não fosse com ele, e o loiro percebeu seu gesto, mostrando-lhe a língua e o dedo do meio.

Itachi sentiu vontade de rir e só não o fez porque finalmente prestou atenção nos demais recém-chegados. Se deu conta de que não conhecia os novos ocupantes do quarto, mas devido sua visão especial capturou cada detalhe na aparência destes no segundo em que pousou sua íris na fisionomia dos desconhecidos.

Era um casal. O homem era jovem e possuía cabelos castanhos, curtos e arrepiados, um olhar analítico e uma postura extremamente relaxada, o que não condizia muito com o ar de sapiência que o emoldurava. Estava de mãos dadas com uma mulher, também nova, de cabelos loiros e olhar severo, amarrados em um rabo de cavalo alto e impecável e maquiagem leve. Ambos possuíam alianças de ouro na mão esquerda; pelo que Itachi recordava de suas aulas no QG isso significava que eram casados.

Mas o que mais chamou atenção no casal peculiar era a barriga da mulher loira: um pouco saliente, apesar do restante do corpo parecer em forma, em uma primeira vista. Isso só podia significar uma coisa: ela estava grávida.

_ Você é um moleque e apesar de Kakashi agir como se tivesse dez anos ele ainda é bem mais velho que você. E isso te transforma em "namoradinho". – Jiraiya provocou pelo simples prazer de provocar.

Talvez fosse por isso que Itachi gostava tanto de Jiraiya, ele parecia ter um passatempo em comum com ele: provocar Naruto.

_ VOCÊ...!

_ Shii Naruto. – Kakashi censurou o garoto e interrompeu qualquer argumentação barulhenta que o Uzumaki pretendia fazer.

Aproximou-se de Naruto rapidamente e o abraçou, curvando um pouco a postura para ficar da sua altura e fitar em seus olhos, encostando nariz com nariz enquanto cumprimentava o namorado a sua maneira.

Itachi se perguntou mentalmente se parecia tão patético como Kakashi quando ficava algum tempo sem ver Sasuke e, finalmente, tinha o prazer de ficar próximo do mais novo. Provavelmente sim.

Que vergonha!

_ Naruto é meu companheiro Jiraiya. – Kakashi falou em voz alta, sem desfazer o contato carinhoso com o loiro, que sorria abertamente e levava os braços ao redor do pescoço do grisalho, circundando-o e puxando-o para mais próximo de si. – Nós, inclusive, moramos juntos. Então, apesar de te respeitar muito profissionalmente, exijo respeito quando se referir ao meu companheiro. Ele pode ser um moleque, mas é omeu moleque.

Naruto exibiu um beicinho, sentindo-se contrariado e soltando os braços na lateral do seu corpo, agora olhando para Kakashi com irritação.

_ Achei que você seria menos idiota, faz três dias que não te vejo e você me chama de moleque. Grande "companheiro" que eu consegui...! – ele respondeu baixinho, fungando ressentido e tentando girar o corpo para se soltar do abraço.

Kakashi girou os olhos em suas órbitas, sabendo muito bem o que Naruto pretendia fazer. Desde que transaram pela primeira vez e, imediatamente, iniciaram um romance, o mais novo fazia uma birra tremenda toda vez que queria algo e não conseguia. Naruto gritava e esperneava com a maioria das pessoas, mas com Kakashi ele passara a fazer charme, draminha, e no fim sempre conseguia o que desejava. Ele tinha a completa certeza que era tudo caso pensado e que Naruto devia se sentir muito satisfeito e cheio de si por conseguir dominá-lo tão facilmente.

Afinal de contas, ele ainda era um psicanalista, então compreendia que essa era uma situação comum em alguns casais: um dos dois se considerava dominante, mas o outro conseguia tudo que queria com drama e jogo de palavras. O falso-dominante acabava cedendo, mas por causa da delicadeza de aproximação do parceiro ele ainda mantinha seu ego intacto.

Kakashi sabia muito bem como isso funcionava, mas não significava que ele queria modificar qualquer coisa na relação deles. Ele gostava da relação que tinha com o loiro, exatamente desse jeito, sem tirar nem por.

Kakashi puxou Naruto para mais próximo de si, abaixou a gola que cobria seus lábios e beijou Naruto antes que este pudesse protestar. Nem se importava que estivessem na companhia de muitas pessoas, apesar de que os expectadores pareciam extremamente incomodados com o beijo, tossindo e tentando chamar a atenção do casal para si. Mas Kakashi não se importava, até porque Naruto retribuiu o beijo sem reclamar e ainda levou as mãos para os seus cabelos, parecendo feliz e rendido sob o seu toque.

Isso, claramente, só alimentava o ego do "falso-dominante". E Kakashi não dava a mínima, estava feliz e era o que importava.

_ Vou ter que jogar água fria pra desgrudar? – o casal ouviu a voz de Jiraiya censurá-los e risadinhas abafadas do novo casal que ainda estava parado na porta do quarto.

Interromperam o beijo e Kakashi ainda depositou um pequeno selinho nos lábios vermelhos de Naruto, murmurando um "bem vindo de volta" antes de se afastar e encarar os outros recém-chegados pela primeira vez.

Naruto, agora sorrindo de orelha a orelha, aproximou-se de Itachi, debruçando-se sobre a cama do paciente e beliscando a bochecha esquerda do Uchiha. Até sentiu uma espécie de reconforto ao ver os olhos de Itachi exibirem o brilho avermelhado de raiva pelo beliscão, porque isso significava que ele ainda tinha proteína suficiente em seu organismo. Por quanto tempo, seria difícil dizer.

_ Olá demônio das trevas, sentiu minha falta? – ele questionou ao Uchiha, adorando a maneira como ele se irritava com cada novo apelido, em especial aqueles em que associava a coloração vermelha dos olhos de Itachi com os monstros mais sinistros do mundo. O que não deixava de ter algum fundo de verdade, para ser bem franco.

Era até irônico chamá-lo assim, já que ele próprio deixou claro para Itachi que não o considerava um monstro. Mas, ah, no fim só queria irritar mesmo, Itachi sabia disso e não levava os comentários para o lado pessoal, apesar de detestá-los de qualquer forma.

_ Nem um pouco, você tinha que aparecer e estragar meu dia? – Itachi respondeu com a voz seca, mas Naruto sabia que não era verdade: Itachi se sentia entediado sem a sua presença e se ficasse sozinho ia pensar na morte da bezerra. Não era preciso ser um psicanalista como Kakashi para saber disso. – Quem são eles?

O moreno olhou para a porta novamentoo e Naruto sorriu ainda mais, imitando o movimento do outro e chamando os convidados com um aceno de mão. O casal se aproximou da cama e o homem se debruçou sobre Itachi, aparentemente curioso com as características peculiares de sua íris.

_ Você não pareceu surpreso pelo Kakashi estar comigo, Shikamaru. – Naruto comentou, ignorando a pergunta de Itachi e irritando-o ainda mais. O brilho do seu olhar se intensificou um pouco e o tal Shikamaru soltou um murmúrio de contemplação.

Itachi conhecia o nome de algum lugar, só não se recordava de onde.

_ É porque eu sempre soube. – ele respondeu, ainda prestando atenção em Itachi, demonstrando que era capaz de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. – Estava bem claro que você gostava do Kakashi.

_ Só você e Sai sabiam... – Naruto comentou, tristeza evidente em seu tom de voz. Trocou olhares com Kakashi e o grisalho percebeu que a preocupação do loiro em pensar a respeito do paradeiro de Sai não diminuiu nenhum pouco.

_ Eu tenho a leve impressão de que quando encontrarmos Sasuke, Sai também será encontrado. – Kakashi respondeu, aproximando-se do namorado e envolvendo-o os braços ao redor de seus ombros.

_ É provável. Ainda mais provável depois de tudo que Naruto nos contou. – a mulher loira respondeu.

Itachi estava a um passo de gritar com todos naquele quarto.

_ Alguém pode me explicar o que diabos está acontecendo aqui? – Itachi grunhiu, um pouco irritado em ser tratado como um objeto interessante pelo homem recém chegado.

Todos voltaram sua atenção para o paciente, menos Jiraiya, que suspirou cansado e caminhou até a porta de saída do quarto. Provavelmente seria melhor alguém vigiar a entrada, não seria bom ter ouvidos enxeridos naquele momento. Retirou-se, sem chamar a atenção dos demais presentes.

_ Você é Itachi Uchiha, certo? – o homem, Shikamaru, questionou. – É meio idiota da minha parte perguntar isso, porque você é igual ao Sasuke, mas temos que passar por esse procedimento problemático de qualquer forma.

_ Sou Itachi sim, Uchiha apenas pelo sangue. – Itachi respondeu.

_ E registro de nascimento. – Kakashi complementou.

_ E temperamento. – Naruto não se controlou e teve que comentar, arrancando uma risadinha dos demais presentes, até mesmo a mulher loira com a face severa sorriu. Itachi apenas o censurou com o olhar, mesmo que não tivesse gostado nenhum pouco da afirmação do imbecil. – O que? É verdade! Os olhos de demônio enfurecido não mentem! Se Sasuke tivesse essa porcaria dentro dele, certeza que exibiria os mesmos olhos!

_ Eu sou Shikamaru Nara. – o moreno mais novo resolveu se pronunciar, antes que Naruto e Itachi começassem uma briga. – E esta é minha esposa, Temari Sabaku. Nós viemos te ajudar.

A mulher grávida o cumprimentou com um aceno de cabeça suave, e Itachi franziu o cenho diante da informação. Sabaku? Seria ela parente de Gaara, o amigo de Naruto que Sasuke tanto odiava?

_ Shikamaru e Temari podem ajudar porque são do exército. – Naruto explicou para Itachi, agora exibindo as feições sérias que sempre exibia quando tratava desses assuntos importantes. Naruto realmente era a personificação de uma dualidade extremamente peculiar...

_ Vocês são o meu "pequeno exército"? – Itachi se viu obrigado a questionar, lembrando-se das palavras de Jiraiya na primeira vez que despertara naquele quarto de hospital.

_ Eu não sei exatamente do que você está falando, mas se você estiver interessado na nossa ajuda posso começar a explicar como viermos parar aqui. É de seu interesse? – Shikamaru questionou, bocejando em seguida e demonstrando que tinha um grande interesse em falar tudo que precisava ser dito o mais rápido possível.

_ Óbvio. – ele respondeu brevemente, e Shikamaru suspirou para começar o seu discurso.

_ Gaara é o irmão mais novo de Temari, então quando houve todo aquele alvoroço por conta da explosão da casa dos Sabaku eu acabei fazendo uma visita ao irmãozinho dela lá no manicômio. – Shikamaru explicava calmamente enquanto Temari parecia incomodada com aquele assunto. – Eu não acreditava que Gaara fosse o autor daquele atentado, até porque eu convivia de perto com a família Sabaku e sabia que apesar de todas as desavenças que Gaara tinha com o pai, também sabia o quanto Naruto mudou a forma de pensar do meu cunhado. Nós estudamos juntos, afinal.

Naquele instante Itachi se lembrou quem era Shikamaru Nara: era o amigo de Naruto, que o ajudou a encontrar as cartas no carro da herança de Minato. Seu coração começou a bater mais rápido, porque pelo que Naruto disse e pelo que aconteceu nessa situação particular, Shikamaru era uma pessoa muito inteligente e um grande estrategista, provavelmente não estava ali a toa!

E isso era ótimo!

_ Quando eu fui visitá-lo, me dei conta de que ele estava muito lúcido. Depois de algumas horas refletindo sobre o assunto, eu procurei Naruto.

_ E como sabia que Naruto teria alguma relação com essa história? – ele questionou, realmente não visualizando uma maneira de Shikamaru chegar a esta conclusão.

_ Eu disse para Gaara que Temari quase foi atingida por esse incidente e que ela estava grávida. Gaara podia ter uma relação ruim com o pai, mas ele amava seus irmãos e jamais iria desejar que algo ruim acontecesse a eles. Ele abriria o jogo pra mim para ajudar a sua família, tenho certeza disso. E apenas uma coisa o faria esconder esse segredo a sete chaves: Naruto. – Shikamaru respondeu, olhando rapidamente para Naruto e logo voltando sua atenção para Itachi. – Seja lá quem fez o que fez, deve ter ameaçado Naruto, porque ele é a única pessoa tão importante pra Gaara quanto sua família.

Naruto pareceu envergonhado com as palavras de Shikamaru, e Kakashi parecia levemente enciumado. Itachi sabia o porquê dessa reação, visto que não era nenhum segredo que Gaara e Naruto tiveram uma espécie de romance quando mais novos. O próprio Naruto já havia lhe contado isso, no dia que narrou todo o caso da morte de seus pais e do conteúdo das cartas.

_ Naruto também pareceu relutante em me falar, nós conversamos por telefone. Eu passei o meu e-mail para ele, caso ele tivesse alguma informação pra me dizer. No mesmo dia recebi uma mensagem curta de e-mail, digitada no celular. Naruto dizia que era constantemente vigiado e por isso não poderia falar em voz alta, mas que entraria em contato novamente.

_ Nesses dias Kisame já não havia entrado em contato. Eu suspeitava que tinham colocado outro Akatsuki na nossa cola... – Naruto se explicou e Itachi compreendeu o que aconteceu. O contato de Shikamaru com Naruto ocorreu na mesma época do seu sumiço, há alguns dias.

_ Enfim, o fato é que Naruto me ligou há dois dias e nós marcamos um encontro. Eu estava em outra cidade, ele foi até lá com a Karin.

Itachi piscou, compreendendo algumas coisas que antes se perguntava: como Naruto, que tinha tanto medo de ser vigiado, conseguiu combinar com Shikamaru aquele encontro no hospital? O oficial parecia a par da situação e por isso eles provavelmente conversaram muito, bem mais do que simples mensagem de e-mail poderiam dizer. Eles se encontraram pessoalmente e Naruto não falava assuntos sérios pessoalmente quando achava que era vigiado.

Mas agora havia a escolta de Karin.

Itachi não mediu muito bem os poderes que a ruiva adquiriu em virtude da proteína, mas ela havia mencionado que usava uma versão mais límpida do que a dele, e por isso adquiria os sentidos um pouco mais fortes. Karin era o escudo contra a Akatsuki, pois se Itachi era capaz de identificar passos há uma distância razoável quando estava no auge da proteína em sua corrente sanguínea, Karin era capaz de ouvir um objeto em funcionamento. Ela até encontrou câmeras de espionagem apenas com a audição, antes mesmo de Itachi despertar! Karin tinha sentidos impressionantes, era uma pena que alguém como ela não tivesse o treinamento físico que ele teve.

De qualquer forma, Karin vigiava o local com regularidade e, surpreendentemente, nenhum Akatsuki se aproximara do hospital nos últimos dias. Eles provavelmente já sabiam que a câmera fora desativada, mas ainda sim não vieram fazer uma visita. Itachi não tinha do que reclamar, pois isso o deixava mais aliviado para falar sem ter o medo de ser descoberto por Madara. Afinal, se algum Akatsuki começasse a vigiá-los ele teria que fingir que ainda estava em coma, sem os efeitos da proteína e com a ausência total de seus sentidos.

E isso seria impossível se Naruto ficasse gritando no seu ouvido a todo o momento!

_ Então Karin vigiou o ambiente e te deu carta branca pra falar? – Itachi questionou Naruto, que sorriu com orgulho.

_ Karin não é só uma irmã legal, como também é muito útil. Ela está fazendo guarda fora do hospital, no momento.

Itachi sentia-se cada vez mais curioso sobre a história particular de Karin, mas ela optou por não contar a mais ninguém além de Naruto (e Kakashi, que com certeza soube das informações logo depois). Mas um dia ele ainda faria a ruiva falar!

_ Naruto me contou tudo. E quando digo tudo, quero dizer tudo mesmo. – Shikamaru complementou, olhando Itachi com certa seriedade. – Mas eu não estou aqui para te julgar, muito menos para salvar o Sasuke. Detesto aquele idiota.

_ Como disse? – Itachi não acreditou no que ouviu. O que diabos Shikamaru estaria fazendo ali se não fosse para ajudá-los a encontrar Sasuke?

_ Nós não vamos ajudá-los por conta do bem estar de Sasuke, e sim por Gaara e por nós mesmos. – Temari respondeu, decidindo não ficar de fora da conversa. – Nós temos uma ligação com Naruto e se essa tal da Akatsuki está prejudicando as pessoas próximas de Naruto numa tentativa de atingi-lo, nós também somos alvos fáceis, assim como meu irmão foi.

E então Itachi entendeu o que seu aniki planejou: para prejudicar Sasuke, Madara tentaria quebrar Naruto através dos amigos do loiro. Tudo fazia mais sentido agora, o porquê de Gaara estar no hospício e o sumiço de Sai, mas o quê Madara pretendia fazer com esse garoto, Itachi não tinha ideia. Ele arriscou um olhar para o Uzumaki, percebendo como este estava preocupado com aquelas implicações. Naruto o encarou com olhos tomados pela tristeza, ainda assim desafiando-o a dizer alguma coisa; Itachi ficou calado.

_ E para isso, eu preciso saber o perfil de todas as pessoas nesse tal de QG. – Shikamaru respondeu e Itachi concordou com um aceno de cabeça. – Você está ciente do que aconteceu com Gaara?

_ Sim, a explosão. Eu sei quem foi.

_ Quem foi!? – Temari questionou com a voz alta, mas Shikamaru a segurou, fazendo-a relaxar.

_ Calma, não prejudica a bebê. Teremos tempo pra conversar sobre isso com calma. – ele sussurrou em seu ouvido, envolvendo sua cintura em um abraço e voltando a atenção para Itachi.

O Uchiha, por sua vez, percebeu que o casal se amava à sua maneira e que estavam preocupados um com o outro. Contudo, ao contrário de Kakashi e Naruto, eles não exibiam a mesma abertura emocional em público; eram mais comedidos. Foi a primeira vez que Itachi constatou o quão diferente os casais poderiam ser naquela sociedade em que jamais viveu e que acabou de cair de paraquedas.

_ Temari está aqui contra a minha vontade. – o moreno comentou, ainda abraçando sua mulher e acariciando de leve o ventre dela. – Eu tenho certeza que encontraria uma maneira de descobrir a localização do QG sem a ajuda dela, mas...

_ Quieto Nara, respeite a minha ordem! – ela disse em voz alta por cima do ombro, censurando o marido.

_ Nós não estamos aqui a trabalho. – ele respondeu, um pouco encabulado pela forma como a esposa se dirigiu a ele em público.

_ E? Desde quando você desrespeita uma ordem minha, independente de ser no pelotão ou não? Quieto! – ela arrancou os braços de Shikamaru de sua cintura, enquanto ele murmurava "mulher problemática" e se afastava da cama de hospital.

Naruto riu baixinho e Shikamaru se aproximou de Kakashi, que o observou com olhos complacentes.

_ Eu te entendo. – o grisalho falou; seu namorado fazia a mesma coisa que Temari, só que de maneiras diferentes.

Claro que o moreno sabia que Kakashi entendia, afinal, ele viu o drama de Naruto! Shikamaru fez uma careta, erguendo os ombros e deixou-os cair em seguida e Kakashi deu uma risadinha baixa, antes de Naruto lhe lançar um olhar irritado.

Itachi arregalou o olhar, impressionado pelo comportamento da mulher. Nunca viu Konan ou Karin agirem daquela forma autoritária, não que ele tivesse conhecido muitas mulheres em sua vida... Mas mesmo assim: era algo inédito e o pegou de surpresa.

_ Itachi, – ela falou, ainda com o ar autoritário que o deixava desnorteado. – Karin mencionou na explicação como funcionam os sentidos aguçados que vocês possuem. Ela disse que até a mínima mudança de temperatura é captada por vocês. Isso é verdade?

_ Sim, é verdade. No momento eu estou com menos proteína do que a Karin, talvez ela seja mais útil do que eu nesse instante. – ele respondeu, um pouco contrariado por admitir isso.

Os níveis de proteína estavam caindo rapidamente, porque ele ainda sangrava em alguns ferimentos e isso diluía ainda mais a quantidade em seu sangue. Resumindo, provavelmente ela cairia a zero mais rapidamente do que quando estava saudável, e Naruto, Karin, Kakashi e Jiraiya estavam preocupados com essa perspectiva. Karin recebia suas doses diretamente de Orochimaru e não conseguiria pegar uma amostra para Itachi e ele duvidava muito que Konan reaparecesse para trazer mais de sua própria droga, pois ela provavelmente estava sentindo dificuldade por não ter tomado a sua dose do mês. Isso sem entrar no mérito de que, muito provavelmente, ela se arrependeu do que fez durante um impulso sentimental.

Afinal, era essa a única conclusão que Itachi conseguiu tirar das ações de Konan.

_ Eu não preciso de você nesse momento, quero retomar ao seu passado! – Temari comentou com simplicidade.

Itachi suspirou irritado. Não acreditava que aquela mulher fez todo aquele drama pra andar em círculos!

_ Eu já disse pra todo mundo aqui, mais de uma vez, que eu não sei onde fica o QG. Não tenho isso na minha memória!

_ Quieto você também. Nem terminei de falar e você já vai bancar o estressado? – ela o censurou e Naruto gargalhou ao vê-lo receber uma bronca da loira.

Itachi ficou tão surpreso que sequer soube o que responder e nem pensou em retrucar o idiota loiro ao seu lado, que, comprovando ser realmente a pessoa mais retardada do universo, só riu ainda mais.

Indiferente a dupla, Temari continuou:

_ Eu quero saber se há uma possibilidade de você lembrar as máximas e mínimas de temperatura de alguns dias do ano passado, ou do começo desse ano, em que você esteve nesse tal QG. Uns quatro dias serão o suficiente. – Itachi a observou com uma sobrancelha erguida em questionamento, e ela respondeu rapidamente a pergunta implícita. – Eu trabalho no Centro Meteorológico do Comando das Forças Armadas, nós controlamos a mudança meteorológica de todo o mundo, por conta de possíveis guerras. Para lançar um simples míssil, precisaríamos saber a velocidade do vento em todos os pontos de percurso, e isso é apenas um exemplo de como o tempo é importante pras Forças Armadas... Digamos que as coisas lá são um pouco mais precisas do que a "moça do tempo" diz na televisão. E temos todos os dados dos últimos trinta anos registrados, cada santo dia.

Ok, essa era uma estratégia nova e extremamente encorajadora. Itachi conseguia medir temperatura com precisão, principalmente a ambiente, mas não era algo que se atentasse ao ponto de guardar em algum lugar acessível na sua memória, afinal, jamais achou que isso pudesse ser útil para alguma coisa.

_ Eu não saberia dizer agora, mas eu consigo determinar a mínima e a máxima todos os dias. É inevitável... Karin deve ter dito pra você que por causa dos sentidos aguçados recebemos muitas informações por segundo, e por isso precisamos selecionar as informações certas para guardar na memória, mas isso não significa que não percebamos as supérfluas.

_ Sendo assim, eu consigo fazer o Itachi se lembrar. – Kakashi falou, interrompendo o diálogo dos dois.

_ Como? – Temari questionou, franzindo o cenho e cruzando os braços em descrença.

_ Eu sou psicanalista. Eu posso hipnotizar o Itachi e fazê-lo se recordar de coisas que presenciou, mas não guardou em sua memória facilmente acessível. Em sessões de hipnose os pacientes podem declarar o tempo, se chuvoso ou ensolarado, no caso de uma regressão simples, mesmo que não se lembrem desses detalhes quando vão contar a história antes da hipnose. – Hatake explicou, intercalando seu olhar com todos os presentes, segundo a segundo.

Naruto sorria com orgulho, provavelmente feliz demais em saber que finalmente as habilidades que cada um possuía se encaixavam para que iniciassem uma nova estratégia.

_ Se Itachi percebe mais coisas do que uma pessoa normal, provavelmente consigo extrair essa informação de uma sessão de hipnoterapia.

Itachi abriu a boca para intervir naquela decisão, não queria de jeito nenhum Kakashi destruindo sua mente! Já não bastava Madara? Ele precisava deixar bem claro suas condições. Mas a esposa de Shikamaru foi mais rápida e se pronunciou:

_ Perfeito. Pode fazer já?

_ Temari, o Itachi ainda não concordou. – Shikamaru a censurou, um pouco apreensivo em pensar como os presentes no quarto de hospital lidariam com o jeito autoritário de Temari.

_ Eu concordei, é o que interessa! – ela respondeu, virando-se para Itachi e finalmente percebendo que ele parecia um pouco assustado com essa perspectiva.

O Uchiha se deu conta que, mais uma vez, estava deixando os sentimentos à mostra nas suas expressões faciais e voltou a usar a máscara da estoicidade. Céus, o que estava acontecendo com ele?!

_ Não adianta disfarçar, eu vi que você 'tá com medo. Medo do quê? – a mulher perguntou.

_ Amor, o Itachi passou por um monte de coisa, você lembra o que Naruto disse, não lembra? – Shikamaru falou, aproximando-se da esposa e tentando por um pouco de senso na mulher. Às vezes Shikamaru se perguntava como Temari criaria uma criança, pois geralmente agira tão rispidamente que ele não conseguia visualizá-la cuidando de um bebê. Ainda mais agora, afetada por todos os hormônios da gravidez.

_ E daí Shikamaru? – ela olhou para o marido, e depois observou o olhar levemente censurado de Naruto. – Não me diga que todos vocês acham isso certo?

_ Acontece que... – o loiro tentou defender Itachi, mas Kakashi colocou a mão em seu ombro, fazendo-o parar de falar.

Temari aproveitou a deixa.

_ Vocês estão pensando que isso daqui é brincadeira? – ela censurou todos ao seu redor. – Vocês ainda não perceberam com que tipo de inimigo estão lidando? Isso daqui é uma guerra! Olha o nível de perigo que alguém como Madara oferece!

Ela ficou em um silêncio reprovador e os demais presentes abaixaram o rosto, envergonhados.

Até mesmo Itachi agiu dessa forma, embora também estivesse irritado consigo mesmo. Não conseguia entender porque não conseguia ser como antes, quando tudo parecia ser tão mais... Simples.

Irritada, virou-se novamente para Itachi e voltou a falar apenas com ele.

_ Numa guerra, Itachi, nós temos que fazer sacrifícios. Tenho certeza que você sabe disso, visto a forma militarizada como foi criado durante toda sua infância e adolescência. Nós temos que fazer sacrifícios em nome de um bem comum. – ela mantinha o olhar firme e Itachi era incapaz de desviar o contato visual. – No caso, você terá que se sacrificar por Sasuke.

_ Eu sei. – ele respondeu, imediatamente. – Eu sei disso. Eu não estou negando a minha participação... Não é algo que me agrada, ser hipnotizado por Kakashi, mas se isso vai ajudar a encontrar o QG, não me importo. Façam o que quiser, mas tirem Sasuke de lá!

Ela sorriu e pela primeira vez demonstrou outro lado de sua personalidade para Itachi, pegando-o de surpresa mais uma vez: acariciou seus cabelos de uma forma suave e carinhosa, gesto este que apenas Sasuke e Madara fizeram nele até aquele momento.

_ Vai dar tudo certo, ok? – ela murmurou. – Nós temos que agir como uma equipe aqui, então confie nos seus colegas.

Temari exibia um sorriso singelo nos lábios e parecia extremamente carinhosa com o Uchiha. E naquele instante, Shikamaru soube que independente de toda brutalidade de Temari para com os demais, ainda havia algo de maternal dentro de sua esposa. Relaxou visivelmente, pensando em quão problemático era entender as mulheres, mas percebendo que era exatamente isso que o fazia gostar tanto da sua esposa.

Itachi, por sua vez, suspirou de leve e fechou os olhos, aceitando a carícia de bom grado.

_ Ok. – ele respondeu, não se importando em parecer fraco diante dos demais. Sentir o carinho de Temari em seus cabelos lhe fez recordar da parte de Madara e Sasuke que sentia falta, do lado suave e amoroso.

E ele precisava se lembrar de algo bom para continuar firme no meio de toda aquela tortura; muito provavelmente esse tipo de envolvimento nunca mais se repetiria com os outros dois Uchihas. Às vezes a retomada de uma pequena lembrança é o suficiente para dar um novo gás para a completude de seus objetivos.

Temari, apesar de todos os pesares, foi a única que percebeu essa peculiaridade em Itachi Uchiha.

(***)

(Algumas semanas depois)

Sasuke treinava incansavelmente. Treinava da aurora ao crepúsculo, parando apenas para se hidratar e comer algo, evitando assim o desmaio pela exaustão corporal. Sua evolução física e de combate era simplesmente inacreditável e insuperável.

Madara coordenava Pain e Konan para treinarem Sasuke, enquanto ele supervisionava de perto. O garoto não lhe dirigia a palavra, agia como se ele não estivesse presente em nenhum momento daqueles treinamentos, e por isso de nada adiantava tentar treiná-lo sozinho.

Desde que o pivete despertou depois daquela cena estúpida, imobilizado e amordaçado por conta do seu surto psicótico dentro do banheiro, Madara explicou, com muita calma, o funcionamento da droga que ele tinham tomado e o que, de fato, aconteceu e como ambos acabaram sofrendo um problema de comunicação ao esbravejar o nome de outra pessoa durante o sexo.

Sasuke ouviu quieto, sem sequer levantar o olhar, focando toda sua visão em um ponto especifico da parede e parecendo tão indiferente que transformou todas as tentativas de Itachi de mascarar suas reais emoções uma grande piada.

Obviamente, Madara ainda estava furioso com ele. Sasuke, se aproveitando do seu momento de surpresa e incerteza, lhe machucou bastante e seu rosto agora tinha mais de oito pontos na parte esquerda de sua mandíbula. Falar era um incômodo leve e ele sabia que não deveria falar muito para que a cicatriz não ficasse ainda pior, mas ele mal se importava com isso.

A fúria que sentiu do pivete naquele instante lhe anestesiou e lhe fez esquecer de todo o resto! Ele só não arrancou a pele do moleque com uma lâmina superaquecida porque, infelizmente, precisava do maldito! Então optou por canalizar toda sua raiva naquela explicação ríspida sobre o que tinha acontecido. Se Sasuke compreendeu ou não todas as suas palavras o líder era incapaz de saber, mas uma coisa era certa: ao menos a forma como "Tsuki no Me" funcionava ele captou.

Porque ele pediu por mais. Muito mais...

Madara permitiu que Sasuke continuasse hospedado no quarto que um dia foi de Izuna, sendo que esse tinha uma porta direta para o quarto que antigamente dividia com Itachi, onde agora dormia sozinho. Contudo, toda noite Sasuke tomava uma pílula e Madara o esperava, deixando a porta que unia os dois cômodos destrancada.

Quase toda a noite Sasuke o visitava. Sempre lhe tratava como se ele fosse Itachi e ele aprendeu a entrar na brincadeira, até porque sempre recebia um sexo muito bom como recompensa. Como uma tentativa de também tirar o máximo proveito da situação, Madara tomou algumas vezes a droga "Tsuki no Me", em uma dose menor, é claro, e em virtude dessa diminuição do medicamento pôde refrear o absurdo da situação anterior. Ainda tentava encontrar uma maneira de reverter esse quadro, talvez fosse possível fazer Sasuke esquecer seu próprio nome e o nome de Itachi por meio de hipnopédia (3). Mas isso ainda era uma tese, sem experimentos práticos por ora.

Tudo que ele sabia era que, até então, Sasuke treinava incansavelmente e com uma raiva indescritível direcionada tanto à ele quanto à Itachi. Ele não era tolo de achar que o garoto Uchiha não pretendia tentar matá-lo ao fim de todo aquele treinamento. Contudo, sua posição sobre o que um dia disse à Itachi não se alterou: ele não dava poder para alguém que eu não pudesse controlar. Tudo estaria sobre controle quando a hora chegasse.

Até aquele momento, Madara apenas desfrutava o prazer de coordenar o treinamento de Sasuke, mesmo que a distância, e aproveitar as maravilhosas noites ao lado da versão mais dócil, feliz e libidinosa de Sasuke - completamente anestesiado de seus traumas e infelicidades no período que ia do pôr-do-sol até o nascer do dia.

Hn. O garoto mal parecia se importar em acordar todas as manhãs e se lembrar do que fez. Porque quando o efeito da droga passava, Sasuke se recordava da sua explicação sobre a droga e compreendia o que aconteceu no seu momento de fuga. E, assim, ele não necessitava pensar muito para compreender a quem pertencia os vestígios de esperma e marcas de desejo em seu corpo a cada novo despertar.

Se nem Sasuke não se importava, Madara definitivamente não dava a mínima.

De resto, estava tudo as mil maravilhas! Madara até fingia não perceber os olhares analíticos que Pain e Konan davam ao moleque Uchiha; eles provavelmente se questionavam de onde vinha tanta raiva. Essa curiosidade era normal, afinal, nem mesmo Itachi era capaz de aprender as técnicas tão rapidamente; portanto Sasuke definitivamente usava o ódio como um combustível muito eficiente.

Era natural que número um e dois se sentissem curiosos sobre o que motivava o garoto a agir daquela forma. Enquanto isso fosse apenas uma mera curiosidade, Madara não estaria diante de um problema. Mas se isso evoluísse para algo além... Ah... Cabeças iriam rolar mais uma vez!

(***)

Tsunade era uma médica extremamente diferente de Jiraiya e Orochimaru, os únicos médicos que Itachi conhecia. Aliás, vale a pena dizer que ele estava bem surpreso com essa diversidade interpessoal que existia no mundo: quando que imaginou que as pessoas que exerciam as mesmas profissões podiam ser tão diferentes umas das outras?

Ela era loira, bonita, com um olhar tão severo quanto o de Temari, e aparentemente muito mais nova do que Jiraiya, apesar de ser sua esposa e de afirmarem estar na mesma faixa etária. Era especializada em ortopedia (4) e passou a visitá-lo depois de alguns dias de internação. Inicialmente, Itachi achou que Tsunade não tinha a mínima vontade de tratá-lo, pois ela se irritava facilmente, era brusca e um pouco estressada. Mas, com o tempo, ele percebeu exatamente porque ela era considerada uma das melhores ortopedistas do país: sua paixão pela profissão era incrível.

Desde que você não falasse com ela durante os procedimentos, Tsunade desprendia toda sua atenção para tentar tratar seus músculos e ossos machucados. Logo em sua segunda visita, Tsunade teve que submetê-lo a uma cirurgia de emergência, pois aparentemente seus ossos estavam cicatrizando da maneira errada, e muito mais rápido do que o esperado para um humano normal. A cirurgia consistia em quebrá-los novamente e imobilizá-los da maneira correta.

A dor foi, mais uma vez, excruciante, mas Itachi conseguiu suportá-la. Tsunade passou a respeitá-lo de alguma forma ao vê-lo enfrentar a dor bravamente; Itachi aprendia, aos poucos, que enfrentar a dor da melhor forma possível era uma qualidade imensa perante esta sociedade, enquanto para o povo do QG nada mais era do que uma simples obrigação.

O Uchiha não sabia ao certo se gostava da médica ou não, principalmente porque ela normalmente ficava ao lado de Naruto nas discussões, entretanto ela o tratava profissionalmente e estava guardando segredo de sua internação e isso por si só já bastava.

_ Sua perna esquerda está cicatrizando melhor dessa vez. – ela falou em voz alta, sabendo que a audição de Itachi não estava muito boa. Afinal, o procedimento cirúrgico de três dias atrás lhe fez perder muito sangue e, com isso, uma boa quantidade da proteína.

_ Quando a acha que podemos voltar a fazer as sessões? – Kakashi inquiriu do outro lado do quarto, alto o suficiente para Itachi ouvir.

Ah... As sessões...

Bom, as sessões não eram tão torturantes quanto as "sessões" do QG, mas certamente não era algo que ele gostava. Nos últimos trinta dias, Kakashi tentava hipnotizá-lo a todo custo, mas faltava algo básico: confiança. Era algo essencial para que a hipnose fosse possível. Depois de treze tentativas frustrantes, Kakashi transformou as sessões em um "bate-papo", uma maneira de forçá-lo a gostar de seu psicanalista por meio de conversas falsamente amigáveis.

Todavia, era bem claro que o psicanalista não queria qualquer tipo de amizade com ele (e era um sentimento recíproco), mas ainda assim o outro se forçava a esse tipo de interação, já que sem isso era impossível conseguir o grau de relaxamento necessário para a hipnose.

Por sua vez, Itachi mal conseguia relaxar sozinho por conta das dores que sentia, que dirá ao lado do maldito Kakashi? Era impossível! O pior? Ele não tinha ideia de como conseguiriam algum tipo de sucesso. O que ele viu enquanto espionava a interação de Kakashi e Sasuke parecia tão mais simples! Jamais imaginou que fosse complicado desse jeito ser hipnotizado. (5)

_ Não agora. Itachi ainda precisa de repouso. – a médica respondeu, certificando-se de que os curativos estavam presos com firmeza contra a pele de Itachi e não dando a devida atenção a pergunta de Kakashi.

_ Não é como se a gente corresse maratonas nas sessões, Tsunade. – o grisalho respondeu, girando os olhos.

Esses médicos tratavam Itachi como se ele fosse de porcelana! 'Tá certo que ele estava meio quebrado, mas seu cérebro estava bem. Qual era o grande problema nisso? Até porque Itachi não era como qualquer um deles, era diferente e estavam perdendo tempo na busca de Sasuke.

_ Não desrespeite minhas orientações Kakashi. – ela respondeu, um pouco irritada, apontando o dedo indicador para o grisalho do outro lado do quarto. – Quando ele estiver pronto, estará pronto! Quem sabe você não devesse usar esse tempo pra tentar, ao menos, ganhar a confiança dele. Ou você ainda está achando que vai acontecer um milagre aqui?

Dito isso, ela anotou algumas coisas na prancheta que sempre carregava consigo e voltou sua atenção para o paciente.

_ Amanhã venho te visitar mais cedo. – ela falou em alto e bom som, abaixando-se para tentar fazer com que Itachi conseguisse enxergá-la. Sua vista parecia desfocada, e ela tinha certeza que apesar de ele não estar reclamando, muito provavelmente ele não conseguia ver nem 50% dos seus arredores naquelas condições. – Tente sobreviver ao Naruto e Kakashi, ok?

_ Ok. – ele murmurou em resposta, fechando os olhos e sentindo uma terrível dor de cabeça em forçar a vista daquela forma.

Precisava de proteína. Precisava logo de proteína. O que ia fazer? Como iria conseguir relaxar sabendo que logo poderia se tornar um mero fardo para os demais no hospital? Como conseguiria dizer a informação que Kakashi precisava repassar a Temari se mal conseguia ouvir o que o outro falava?

Itachi não sabia ao certo se adormeceu, mas quando abriu os olhos novamente conseguiu enxergar um pouco melhor o ambiente, e percebeu que já era noite. Não havia mais acompanhantes no seu quarto, apenas o pequeno botão de emergência que deixavam próximo de sua mão direita todos os poucos minutos em que ele ficava sozinho. Provavelmente aquele que fosse dormir em sua companhia naquela noite deveria ter descido à bombonière ou estava no banheiro.

Fechou os olhos mais uma vez, planejando apreciar um pouco o momento de solidão. Pensou em Sasuke e no que ele deveria estar fazendo nas últimas semanas na companhia de Madara. Boa coisa provavelmente não era, mas o que será que Sasuke achava de tudo aquilo? Estaria ele ao lado de Madara, acreditando em suas "verdades" e contribuindo para as suas pesquisas? Ou estaria ele sendo forçado a se submeter aos mais diversos tipos de experimentos?

Será que ao menos ele... estava vivo?

Antes que seus questionamentos pudessem ir mais além e o arrepio em sua pele pudesse se intensificar, Itachi sentiu alguém puxar o seu braço direito e penetrar algo cortante em seu corpo. Abriu os olhos, a adrenalina invadindo sua corrente sanguínea e melhorando, momentaneamente, os seus sentidos.

Konan estava ao seu lado, injetando algo sem seu braço através de uma seringa...Proteína!

Sua retina, instantaneamente, começou a captar melhor a pouca luz do ambiente. Os detalhes do rosto de Konan pareciam mais nítidos, mas Itachi não conseguia decifrar suas feições. Ela olhava para a seringa e agora já a retirava de seu braço, tampando o pequeno furo em sua pele com um algodão seco e pressionando por alguns instantes. Ela não o fitava nos olhos, em nenhum momento.

_ Por quê? – ele questionou, lutando contra o sono que o invadia sem dó nem piedade. Tinha tantas coisas que queria perguntar a ex-colega de Akatsuki, tantas coisas, mas sabia que era inútil lutar contra aquele efeito colateral terrível.

Ela o ignorou, evitando até mesmo virar o rosto em sua direção. Konan soltou o algodão de seu braço e em movimentos fluídos, caminhou com passos lentos até a janela sem lhe responder.

_ Espere! – ele pediu, mas novamente ela não parecia ouvi-lo, subindo no parapeito da janela e se preparando para pular. – Só me diga se ele está vivo!

Konan parou de se mover, provavelmente assimilando o questionamento de Itachi e decidindo se deveria, ou não, responder o que ele pedia. Todavia, ela não se virou para encarar o doente. Itachi não oferecia nenhum risco físico para ela, ainda sim ele era o motivo de todas as suas dúvidas mais recentes; ele era o causador da sua angústia emocional.

_ Por favor... Konan. – Itachi murmurou, ainda lutando contra o sono, piscando tão pesadamente que não sabia se conseguiria aguentar mais de dois minutos acordados.

_ Você me pediu "por favor"? – ela questionou, surpresa ao extremo, virando-se abruptamente e encarando-o pela primeira vez.

O ex-colega parecia mal, muito mal, mas era o olhar de misericórdia em seus olhos que a deixou sem reação; era algo espantosamente autêntico! Diferente de tudo que aprenderam no QG e isso não fazia sentido algum. Itachi, o prodígio, o preferido de Madara, estava implorando para ela! Isso era algo impossível de se imaginar a uns seis meses atrás! Diversas perguntas surgiram em sua mente e nenhuma delas podia ser respondida e isso lhe deixava apreensiva. Mas uma coisa ela aprendeu naquele instante: as situações mudavam e nenhuma certeza era imutável.

_ Só me responde isso: me diga se Sasuke está bem. É tudo que eu preciso saber! – Ele implorou, mais uma vez, sua voz soando ainda mais sonolenta.

Konan avaliou as possibilidades: estava ali injetando proteína no corpo de Itachi e pronta para um mês de situações deploráveis em virtude da pouca proteína que conseguiria ao dividir com Pain. Estava ali, mais uma vez, arriscando tudo em nome de algo que nem ela sabia definir. O que era responder uma pergunta como aquela, perto de tanta coisa imensamente mais absurda que ela acabou de fazer?

_ Sasuke está vivo e em uma rotina puxada de treinamento. – foi tudo que ela disse, antes de voltar a atenção para a abertura da janela e dar um impulso para a noite.

Instantes depois que Konan saiu de lá, Karin escancarou a porta e entrou correndo no quarto escuro, seguida de perto por Kakashi. A ruiva foi até a janela, tentando ver se quem invadiu o local ainda estava por perto, apenas vendo a paisagem noturna habitual.

_ ITACHI! – a garota chamou, tentando chamar a atenção do moreno. Ela ouviu a voz de outra pessoa no quarto, sabia que um Akatsuki acabara de adentrar ali.

Mas Itachi agora dormia, em um sono tão profundo que só conseguiriam acordá-lo dali dez horas. Ele mantinha um sorriso singelo nos lábios, provavelmente sonhava coisas boas e esperançosas. Karin olhou para o criado-mudo e identificou a seringa de proteína, e não foi preciso pensar muito para entender o que aconteceu ali.

_ O que você ouviu Karin? – Kakashi questionou com agilidade, correndo pelo quarto e olhando pela janela também, a procura de algum intruso.

_ Relaxe. – ela respondeu, com um suspiro. – Itachi vai dormir por algumas horas... Mas vai amanhecer melhor.

A ruiva caminhou até próximo da cama do paciente, fitando a face adormecida do moreno e tentando compreender as palavras que acabara de ouvir. Não era tão difícil assim de entender, mas a maneira surpresa como a voz feminina dissera: "Você está me pedindo 'por favor'?" deixara bem claro que não era apenas ela quem percebeu a mudança de Itachi.

Itachi já não era mais quem foi um dia.

_ Você tem certeza disso? – Kakashi soou um pouco preocupado, provavelmente com medo de perder a única pessoa que poderia levá-los até a localização de Sasuke.

_ Sim...

Permaneceram em silêncio por alguns instantes e então o grisalho compreendeu o que aconteceu, também se dando conta da seringa vazia na mesinha de criado mudo do quarto.

_ Esperemos que a proteína faça algum milagre então.

_ Não pela proteína, olhe pro Itachi!

Kakashi observou o sorriso nos lábios do moreno; durante todos esses dias Kakashi nunca viu Itachi sorrir dessa forma, nem lúcido, nem adormecido.

_ Ele acabou de receber uma ótima informação. – constatou, virando-se para a ruiva logo em seguida. – E você ouviu também Karin?

_ Sim... – ela imitou o pequeno sorriso nos lábios do Uchiha, demonstrando à Kakashi que a informação era realmente boa. – Ao menos agora sei que estamos lutando por alguém que ainda vive! Ele está vivo, Kakashi!

O mais velho finalmente compreendeu a felicidade dos demais. Sasuke estava vivo! Itachi acabou de ter essa confirmação. E, desta vez, o grisalho também não pôde evitar sorrir, sentindo que ao menos uma coisa ele e Itachi tinham em comum.

Talvez, com a certeza de que Sasuke estava vivo, os dois pudessem colocar um pouco as desavenças e estresses de lado e se concentrar na primeira certeza que tinham desde o início desta guerra: podiam não ter a certeza da vitória, mas ele sabia que se fizessem tudo certo ao menos não seriam vítimas de uma luta em vão.

Sasuke estava vivo e isso era motivação o suficiente para lutar contra todo o mundo, apenas por ele.

... Continua ...


(1) A memória do treinamento que Sasuke teve com Itachi é um tipo de "Memória de procedimentos". É uma técnica, algo que não pode ser verbalizado, mas sim aprendido com a prática e a repetição. Esse tipo de memória é muito estável se comparada a outras memórias, inclusive a de longo prazo. Como exemplo, cito a capacidade de andar de bicicleta (por isso dizemos quem aprende a andar de bicicleta nunca esquece). De fato, a coisa mais difícil de esquecer é a memória de procedimento, por isso mesmo nos maiores desesperos conseguimos fazer certas coisas mecânicas, como dirigir ou andar de bicicleta. Técnicas de luta e combate também entram nessa categoria, e, portanto, Sasuke será capaz de se lembrar dos seus ensinamentos de luta nas condições mais hostis – sejam elas criadas pela sua mente, ou pelo ambiente em si.

Afinal, de que adiantaria a prender a lutar se você esquecesse tudo no momento que precisasse lutar por conta do desespero?

(2) Um dos sintomas de câncer de próstata é dificuldade de urinar.

(3) Hipnopédia: é uma técnica de condicionamento/aprendizado durante o sono, e geralmente consiste em uma gravação de um assunto específico que o paciente escuta durante todo seu sono. Foi estudada veementemente na década de 40/50 do século passado, mas os resultados não foram muito eficientes e não foram levados a sério pelo governo dos Estados Unidos, que parou de investir na pesquisa. Só que se você pesquisar no google vai encontrar, inclusive, vendas de material para isso e um monte de gente falando que funciona.

Eu ouvi dizer na década de noventa que o resultado desse tipo de "aprendizado" era moderado, mas não dava pra aprender coisas complexas, o que tornava o processo um pouco inútil porque necessitaria de muitas horas de repetição para aprender algo dormindo que poderia ser aprendido em poucos minutos acordado. Não sei se essa informação procede, o "material cientifico" que achei na internet sobre isso é muito duvidoso e não encontrei nada sobre isso nas minhas pesquisas em livros. Então não vou dar maiores informações sobre essa técnica.

O termo Hipnopédia foi criado pelo Aldous Huxley, o autor de "Admirável Mundo Novo", na década de 30 (livro que, de vez em quando, cito nessa fanfic) e é utilizado até hoje, inclusive na comunidade cientifica. Hipnopédia também é conhecida como "Sleep-Learning".

(4) A Tsunade do mangá Naruto está mais pra uma médica de todas áreas da medicina, mas temos que lembrar que no nosso mundinho há as especializações e eu não pude fugir disso no mundo de Haunted. Por isso, Tsunade ficou como ortopedista... Acho que isso aconteceu porque eu estava reassistindo o clássico na época que fiz o roteiro de Haunted, e a Tsunade agiu como uma ortopedista ao cuidar do Lee depois da briga com o Gaara.

(5) Eu expliquei lá no capítulo da hipnose que é necessário essa relação de confiança. Não lembro se foi em nota ou se foi no corpo do texto. De qualquer forma, por conta disso Kakashi passará por alguns problemas pra conseguir hipnotizar o Itachi, pois a confiança que o Itachi tem na sua pessoa não chega nem a 1% da confiança que Sasuke tinha nele.


N/A: Bom gente, mais um capítulo chegou ao fim. Esse foi um capítulo de mudança de tempo, transição de momentos da fanfic. Prometo um capítulo mais animadinho na próxima atualização ok? Espero que tenham gostado! Um beijo a todos que ainda estão comigo nessa luta de Haunted hahaha!


Respostas reviews "guest":

.

Mayara: Oie!

Pois é, Karin é a irmã do Naruto! Ao menos aqui nessa fanfic uahauhauhuahau!

Que bom que gostou da personalidade do Sasuke. É uma fofura né? Uhuahauhuahau!

Fico feliz que tenha gostado do capítulo! E vamos continuar torcendo pro Itachi sarar logo hehehe.

Obrigada pelo voto de confiança! T^T Fico muuuuuito contente por isso!

MadaIzu é vida flor! Huahuahuahuahu!

Um beijão, muito obrigada pela review. S2

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Faiume: Oba! \o/ Fico muito feliz que tenha gostado da fanfic! Obrigada mesmo pelos elogios, e espero que continue acompanhando! *3*

Um beijão! S2

.

Giih: Oie flor!

Imagina, não tem que se desculpar de forma alguma! Eu também estou com dificuldade pra atualizar, então demoro pra responder hahahaha!

Eu imagino que os capítulos estejam muito grandes pra ler de uma vez só né. Acho que esse ficou menor, um pouco mais fácil de ler, com alguma sorte. Bom, espero que sim! Porque eu estou contente que consegui deixá-lo menor hehehehe!

Faculdade é algo complicado mesmo! Ainda mais com mudanças e tudo mais. Eu compreendo totalmente e te desejo muita sorte no seu curso e na sua nova moradia! ^^

O Pain e Konan estão juntos nessa, é o que interessa. Passar por uma dificuldade é difícil, mas quando se tem uma companhia esse desafio se torna mais suportável. Tomara que os dois aguentem juntos.

Huiahuahuahuahua suportar a dor é uma questão de costume, não só pro Itachi. Claro, por ele ter sentido bem mais na vida dele, ele suporta melhor. Mas eu suporto bem a dor também porque fui o tipo de criança que se quebrou inteira fazendo arte e aprendi a conviver com ela. Eu já levei até pontos sem anestesia hahaha!

Itachi e Naruto também são fofos! Eu gosto deles como casal, mas claro que em Haunted isso não vai acontecer. Mas não deixam de ser fofos! *3*

Karin e Naruto são irmãos! Essa é uma das grandes surpresas que eu guardava pra vocês, espero que tenha gostado!

É, Madara é complicado né... Pensa muito nos seus desejos, sem pensar nas consequências dos seus atos nas outras pessoas. Está judiando tanto de Itachi quanto de Sasuke por conta do seu amor doentio.

Eba! Fico feliz que tenha gostado da minha narrativa em primeira pessoa! Não estou acostumada, então fico muito insegura quando escrevo um texto assim.

Bom, o Sasuke já machucou ele um pouco, serve como vingança? Hehehe!

Eu é que tenho que agradecer o seu esmero em me deixar uma review mesmo passando por tantas mudanças. Muito obrigada!

Eu já fiz um, mas ainda tenho dois concursos. Continue torcendo, por favor! /o/

Um beijão! Mais uma vez, obrigada!

S2