Disclaimer: Os personagens da fanfic pertencem a Masashi Kishimoto, a trama, no entanto, me pertence.

Warnings: linguagem chula, violência, mortes, tortura, cenas explícitas de sexo homossexual e relações incestuosas.


N/A: Finalmente, oi!

A atualização demorou, mas não foi culpa minha. Como vocês devem ter percebido, o Nyah ficou dias em manutenção e, quando voltou ao ar, colocou um novo limite de palavras pra publicação de capítulos (quinze mil palavras no máximo). Eu tinha escrito um capítulo maior do que isso e, por isso, não conseguia postar no Nyah. Comecei a resumir o que escrevi, e então tive a ideia de entrar em contato direto com o dono e ele aumentou o limite máximo pra 25 mil. Mas nessa altura do campeonato eu já tinha cagado algumas coisas no capítulo e tive que trabalhar nele novamente (alias, devo frisar que não estou satisfeita com ele ainda, mas chega de esperar)... Enfim, estamos aqui finalmente com atualização! Peço desculpas a quem acompanha pelo ffnet e acaba sendo prejudicado por conta dessas confusões de outro site, mas é injusto postar em um site e não no outro ao mesmo tempo.

Capítulo não betado, perdoem erros, e tenham paciência com o andar da carruagem! Esses capítulos-plots estão ocorrendo com certa frequência, mas eles são essenciais pra entender a trama e continuarmos com os acontecimentos mais importantes da fanfic. O próximo capítulo será mais leve no quesito plot, e os seguintes vão fazer o "circo pegar fogo", teremos ação novamente.

Um beijão a todos, espero que gostem. Digam suas opiniões!


HAUNTED

Capítulo XXXIV

— Sai? — ele repetiu o nome do seu amigo reaparecido, sua voz soando ainda mais fraca do que outrora.

— Oi Naruto, tudo bem? — foi o que o moreno respondeu, abrindo um sorriso ainda maior, e o sangue do Uzumaki ferveu completamente ao presenciar aquele simples gesto.

Apesar de não ter o costume de entrar em brigas físicas com as pessoas (tirando Sasuke e suas frustradas tentativas de golpear Kakashi), Naruto foi incapaz de se conter e voou para cima do pescoço de Sai. Como que o maldito tinha a ousadia de aparecer como se nada houvesse acontecido depois de seis meses desaparecido!? Como que ele podia surgir com aquela cara mais deslavada do mundo depois de todos os dias de preocupação que obrigou Naruto a suportar? Não, se Sai estava vivo e bem, ao menos um soco bem dado ele merecia! E isso não queria dizer que Naruto não estivesse feliz em ver Sai, só que ao mesmo tempo em que sentia isso também estava indignado com aquela aparição depois de tanto sumiço e preocupação.

Todavia, quando chegou perto para desferir o golpe, Sai se moveu com uma graciosidade que Naruto não conhecia. Rapidamente se esquivou e utilizou uma técnica profissional para, mais do que rapidamente, imobilizá-lo em um contra-ataque. Ou ao menos era isso que Naruto imaginara, porque de alguma forma Sai compreendeu sua movimentação de maneira equivocada, visto que antes que o Uzumaki captasse com exatidão o que acontecera, sentiu os lábios do amigo contra o seu.

Por um momento, Naruto ficou sem reação.

— Eu senti sua falta! — Sai murmurou contra seus lábios, tentando capturá-los para mais um beijo. Mas como Naruto voltou a si com aquelas palavras, virou o rosto e tentou escapar da pegada do outro, conseguindo se desvencilhar depois de algum esforço (ou da piedade de Sai, vai saber).

— Mas que caralho Sai! — o loiro rosnou, se afastando um pouco e limpando a boca com a manga da sua camisa. Não era como se sentisse nojo de Sai, mas as circunstancias mudaram muito de seis meses até agora. Ele não podia nem pensar em beijar outra pessoa senão Kakashi, se sentia mal com isso. — Como você me aparece depois de todo esse tempo desaparecido e tem a ousadia de me beijar!?

O moreno fez uma expressão de incompreensão, pendendo a cabeça para o lado e fitando Naruto com olhos analíticos.

— Bom... — ele falou, com calma, pretendendo escolher as palavras certas — Nós já ficamos mais tempo que isso sem nos ver e eu cheguei fazendo isso e você não disse nada.

— As coisas mudaram! — Naruto exclamou um pouco alterado, mas se controlou balançou a cabeça numa tentativa de recobrar o foco. Aquilo não era importante, Sai era sem noção mesmo, grande novidade! O que era importante mesmo era entender como ele estava ali! — Você me deve explicações, não beijos!

Sai, surpreendentemente, pareceu satisfeito com a resposta e concordou afirmativamente com a cabeça. Naruto franziu o cenho diante do comportamento, mas deu de ombros, sabendo que não devia esperar algo menos "estranho" vindo de uma pessoa como Sai.

O moreno agarrou a mão do Uzumaki e o levou para uma das mesas do estabelecimento, sentando-se em uma cadeira e apontando pra que ele se sentasse na outra. Os dois ficaram quietos por uns segundos , mas foi Naruto quem quebrou o clima pesado, descansando a testa na mesa e expirando com força. Ele sentiu seu corpo relaxar visivelmente e uma nova onda de emoções o invadiu; agora sem a raiva e indignação de antes.

— Eu estou tão feliz e aliviado por você estar vivo... — Naruto soltou um soluço baixinho, e cruzou os braços ao redor da cabeça, ainda encostada na mesa — Eu realmente estou!

Naruto ouviu passos e logo sentiu que Sai o abraçava por trás. Incapaz de se conter mais, deixou as lágrimas de alívio rolarem, apesar de ainda manter a dignidade ao esconder o rosto ao chorar silenciosamente. A ficha caia finalmente, e depois do sentimento de revolta inicial vinha a alegria de saber que Sai estava bem, vivo, e excêntrico como sempre. Ele não morrera com o ataque da Akatsuki, ele não morrera por sua causa! Ele estava bem, e essa singela constatação parecia tirar o mundo das costas dele — ou ao menos boa parte de suas preocupações.

— Desculpe Naruto. — Sai murmurou em seu ouvido, ainda abraçando-o — Eu não podia entrar em contato com você pra te relaxar, mas não imaginei que ficaria tão preocupado.

O loiro endireitou sua postura, limpando as gotículas salgadas de seus olhos antes de virar o tronco para trás e encarar Sai, seu olhar indignado e levemente ofendido.

— Achou que eu não fosse ficar preocupado?

— Eu não sabia que me considerava algo digno da sua preocupação. — Sai respondeu no ato, dando de ombros.

Naruto balançou a cabeça em descrença; existem coisas que nunca mudam mesmo, e a "panaquice" do Sai é uma delas, pelo jeito.

— Você realmente não sabe interpretar o sentimento de ninguém Sai. — ele constatou enquanto o moreno despreocupadamente voltava para a sua cadeira — Você acha que é o que pra mim?

— Um amigo colorido?

— Ai Sai, como você é idiota... Você é um amigo, um amigo mesmo. Independente da troca de favores que a gente tinha, você vai ser meu amigo sempre. E mesmo se não fosse, como que eu ia ficar calmo sabendo que alguém podia ser ferido por minha causa? — Naruto engoliu em seco naquele instante, tremendo de leve ao recorda-se do seu pavor ao imaginar que seria a causa mortis de Sai — Supondo que você saiba do perigo que eu ofereço, é claro.

— Eu sei. Sei mais do que você imagina.

Naruto sentiu seu coração bater mais forte, resultado da euforia que aquelas simples palavras causaram. Sai sabia, ele reaparecera com informações, com novidades, quem sabe com um norte. Porque ele estava cansado de tatear no escuro, e com certeza novas informações iriam ajudar. Naruto rezou mentalmente para que Sai não estivesse falando sobre outro assunto, implorou aos céus para que não fosse um alarme falso.

— Então desembucha. — ele murmurou euforicamente, sua voz soando um pouco ordenadora, mas estava ansioso demais para se importar.

O moreno sorriu animado ao ver que Naruto recobrava sua compostura e estava com um tom de voz firme, pronto para discutir assuntos complicados. Entretanto, ele gostaria de manter o espírito de camaradagem por mais algum tempo, com medo que Naruto não gostasse muito do que teria que propor ao fim da conversa.

— É bastante coisa, então que tal uma bebida? — ele ofereceu casualmente — O estabelecimento é uma fachada pro nosso encontro, mas acho que tem álcool nesse café em algum lugar. Posso fazer um drink, como nos velhos tempos.

— Eu parei de beber.

Sai arregalou o olhar, e demorou alguns instantes para recobrar a voz e exclamar com animação:

Isso sim é o que eu chamo de milagre!

Naruto girou os olhos, mas permitiu que uma singela risadinha escapasse de sua garganta; céus, sentia-se tão bem naquele momento que acreditava que qualquer coisa que antes o fazia perder a paciência e surtar, seria o suficiente para fazê-lo rir. Essa é diferença que o sentimento de alívio faz na vida de uma pessoa.

Por um momento, Naruto se lembrou de Kakashi e sentiu um pequeno peso na consciência. É verdade, ele o amava (e a maneira como impediu o contato físico com Sai só deixara ainda mais claro isso), mas ainda sim ele não estava se portando como o melhor namorado do mundo. Naruto percebia agora que descontava todo o seu estresse em Kakashi, enquanto Itachi e os outros membros do "time" só recebiam seus comentários humorísticos e brincadeirinhas. Kakashi era quem recebia a carga pesada, e agindo assim Naruto estava desgastando a relação. Não havia sexo que consertasse os problemas do convívio ruim de um casal.

Ele teria que deixar claro para Hatake sua constatação quando voltasse para casa. Quem sabe não seria valido ligar o celular novamente e trocar umas palavrinhas com ele depois da conversa com Sai, não é mesmo? Ele poderia ligar daqui a pouco, e dizer para Kakashi que o amava, e...

— Você parece sonhador e pensativo. — Sai murmurou, analisando corretamente as expressões de Naruto pela primeira vez no dia — Eu perdi alguma coisa?

O loiro voltou a si e se endireitou na cadeira, tirando seus pensamentos de Kakashi e retomando o foco. Qualquer conversa que deveria ter com o namorado podia esperar, agora era Sai quem interessava.

— Eu te conto tudo depois. — ele respondeu com sinceridade, já que mais cedo ou mais ou tarde Sai precisava saber que não haveria mais "troca de favores" entre eles — Mas agora quero ouvir você me contar as coisas, Sai.

— Certo... — o moreno respondeu, cruzando os dedos das mãos acima da mesa e adotando uma postura séria e compenetrada que nada combinava com sua personalidade. Independente disso, negócios são negócios. — Fiquei sabendo que Gaara não contou detalhes do que aconteceu naquele incidente, mas vocês já devem saber mais ou menos o que aconteceu.

— Eu quero saber sua versão.

— Ok...

E então Sai contou minuciosamente tudo a respeito daquele dia: a invasão de Deidara, sua ameaça, a conversa sobre arte, a explosão na casa dos pais de Gaara e, por fim, a explosão do próprio apartamento. Sai achou peculiar a forma como Naruto parecia concentrado em sua explicação e não o interrompeu em nenhum momento. Não era algo que ele esperava de Naruto, pois ele sempre achou que o amigo fosse incapaz de ficar quieto ao discutir assuntos como esse. Pelo visto, estava muito enganado.

Quando terminou sua história, Naruto finalmente fez a primeira pergunta:

— Não que eu não esteja feliz com isso, mas... Como vocês sobreviveram?

Sai sorriu, já que sabia que cedo ou tarde chegariam nesse assunto.

— Minha especialidade principal é escapismo. — ele explicou calmamente — Eu não sou muito bom em confrontos físicos, mas consigo escapar com certa facilidade de qualquer situação de vida ou morte. Minhas missões exigem esse tipo de coisa.

Naruto piscou duas vezes, tentando assimilar aquela conversa. Sai estava soando estranhamente como Itachi, e isso o assustava.

— Quem é você? — ele questionou, agora verdadeiramente se sentindo ameaçado.

Afinal, estava óbvio que Sai não era quem dizia ser.

— Eu não sou nada além de uma ferramenta. — ele respondeu com a voz neutra — Sai é um papel que eu interpretei pra você, Gaara, e demais envolvidos...

Naruto se colocou de pé em um pulo, mas o moreno não se moveu um milímetro diante daquele gesto de afronta.

— Você é um Akatsuki! — ele gritou, apavorado, respirando de forma ofegante e olhando para todos os lados, procurando uma forma de escapar dali e livrar sua pele.

Todavia, Sai o fitou com um sorriso sincero nos lábios, achando graça do comportamento de Naruto, apesar de compreender seu medo momentâneo.

— Não Naruto, não. — ele tentou se explicar, pois por mais engraçado e peculiar que fosse ver o amigo agir dessa forma, tinha que seguir adiante com sua missão — Eu não sou um Akatsuki, mas sei o que é isso.

— Você...

— Acalme-se, eu estou do seu lado. — ele apontou para a cadeira agora vazia, indicando silenciosamente que seria melhor que Naruto se sentasse.

Mesmo um pouco relutante, o loiro obedeceu o pedido.

— Se você me falasse que vive uma identidade falsa há seis meses eu iria duvidar, brigar com você, surtar e te moer na porrada. — o Uzumaki murmurou, cruzando os braços e suspirando pesadamente — Mas agora já estou acostumado com esse tipo de coisa, então... uh... apenas me diga como devo te chamar.

— Me chame de Sai. — o moreno falou, ainda sorrindo — Eu não tenho um nome próprio, e dentre os diversos codinomes que adotei na minha vida esse é o que mais me trás boas lembranças. — Sai apoiou o queixo nas mãos e os cotovelos na mesa, e fitou Naruto de maneira penetrante — Eu sou um espião.

— Eu percebi isso agora, obrigado por subestimar minha inteligência.

Naruto parecia irritado, e Sai não conseguia compreender a mudança de comportamento.

— Só estou deixando as coisas claras Naruto, não era o que você queria? — ele questionou com evidente confusão: se havia algo que detestava nessa vida era a sua dificuldade de interpretar os outros, uma falha comportamental decorrida de anos de isolamento para treinamento.

— Queria que você não tivesse mentido pra mim. — Naruto respondeu, fazendo uma careta de desagrado — Eu achava que você era um garçom, achava que te conhecia.

— Eu não menti, eu omiti. Você nunca me perguntou com todas as letras de eu era mesmo um garçom...

Naruto se sentiu estúpido naquele instante, mas o que poderia fazer? Não era como se fosse normal suspeitar da identidade de pessoas com trabalhos do dia a dia! Era surreal imaginar esse tipo de suspeita, até de alguém tão paranóico como ele. Ainda sim, Sai não estava de todo errado... Naruto não se lembrava de alguma vez perguntar detalhes da vida de Sai.

Como a maioria das amizades entre garçons e clientes, Sai e Naruto se conheceram no bar em uma noite do tipo "afogar as mágoas até as seis da manhã" e, por óbvio, Naruto começou a reclamar da vida e falar com quem quisesse ouvir seu papo de bêbado. Sai lhe deu bola, e depois de mais alguns dias repetindo esse procedimento, decidiram sair para conversar fora do bar e, trocando em miúdos, acabaram na cama. Quando não estavam transando, era sempre Naruto quem falava da vida, nunca Sai.

Ele se sentiu culpado e extremamente estúpido naquele momento, mas preferiu mudar de assunto para se preservar.

— Pra quem você trabalha?

— Você foi perguntar justo o que não posso responder.

Naruto grunhiu e levou as mãos ao cabelo, agarrando os cachos com força e se sentindo evidentemente frustrado. Ele não conseguia deixar de confiar em Sai, criara um laço de amizade forte com ele após todos esses anos, mas receber esse tipo de resposta não era nada reconfortante.

— Tudo que posso te responder é que se trata de alguém que não deseja seu mal, e vocês possuem um inimigo em comum: Madara.

— Certo... ok... — Naruto respondeu, respirando fundo algumas vezes para se acalmar — Qual é a ligação de Neji nessa história?

— Neji e eu somos subordinados da mesma pessoa. — o moreno respondeu calmamente, ignorando a afobação de Naruto — Neji é um novato, eu sou um sênior.

— Sênior? — o loiro repetiu, evidentemente surpreso — Quantos anos você tem Sai?

— Tinta e cinco.

Naruto arregalou os olhos e deixou seu queixo cair. Depois dessa informação, ele demorou algum tempo para recobrar a compostura e voltar a falar.

— Você tá brincando comigo! — indignado, o Uzumaki exclamou depois da longa pausa — Você tem cara de vinte!

Sai deu de ombros e soltou uma risadinha.

— O que é uma vantagem muito grande pra maioria das missões... — o moreno respondeu, evidentemente satisfeito com a surpresa de Naruto — E antes que você brigue comigo, você também nunca perguntou minha idade, nem a data do meu aniversario; o que eu, sinceramente, não sei responder.

Como se não bastasse todo o sentimento de culpa pela amizade unilateral, Naruto se sentiu um verdadeiro lixo com aquela informação. Era verdade, ele conseguia deixar seus problemas ocuparem sua mente de tal forma que se esquecera de fazer perguntas óbvias como essas aos seus amigos. Naruto Uzumaki, o grande egoísta; quem diria... ele sempre achou que essa característica combinava mais com Sasuke do que com ele.

— Me desculpe por isso. — murmurou suas desculpas com sinceridade e vergonha, abaixando o olhar sem conseguir continuar a encarar Sai.

— Não se preocupe, eu sei que você tinha muita coisa na cabeça. Eu sempre soube de tudo que se passou na sua vida, Naruto. — o moreno esticou o braço naquele momento, agarrando a mão do loiro e apertando-a com um gesto de apoio — Eu me afeiçoei de verdade a você e aos seus problemas, então era difícil não falar sobre eles.

— Itachi, o trevoso endiabrado, sempre diz que em missões não há a possibilidade de se afeiçoar a um... — Naruto se calou, percebendo que não sabia se Sai tinha conhecimento da existência de Itachi.

Contudo, logo o moreno tirou sua dúvida.

— O que Itachi te disse se aplica à Akatsuki, e a política de Madara é diferente da que nós temos. Nós temos um pouco mais de liberdade nas missões, de modo que quando somos colocados em uma missão muito importante é natural esperar que assumamos aquele papel por muitos anos e, para isso, devemos criar laços com as pessoas relacionadas à vida do personagem. — Sai abaixou um pouco o tom de voz, parecendo entristecido ao tocar naquele assunto — Eu não queria ter que desfazer da minha vida como Sai... Mas com a aparição de Deidara foi complicado.

Naruto, um pouco desconfortável com toda essa ideia de Sai ser um mero personagem, resolveu mudar de assunto.

— O que você sabe sobre a Akatsuki e Madara?

O moreno soltou a mão de Naruto e abriu o zíper do seu moletom, procurando algo dentro de um bolso interno da roupa. Tirou de lá algumas folhas de papeis dobradas em pedaços pequenos e entregou-as ao Uzumaki, mas fez um gesto para que ele não abrisse ainda os documentos.

Naruto, apesar de curioso, guardou os papeis no bolso e voltou a prestar atenção nas instruções de Sai.

— Leia no hotel, ok? — ele aconselhou, ganhando um aceno afirmativo em resposta — O que eu sei não deve ir muito além do que vocês sabem agora que o Akatsuki Itachi passou pro lado de vocês, mas pode ser que tenha alguma novidade esclarecedora.

Naruto sentiu seu peito esquentar pela esperança, colocando a mão sobre o bolso de maneira protetiva. Suspirou fundo e fez a pergunta que evitava até então:

— O que você deseja Sai? Porque deve ter uma razão pra você se revelar justo agora.

— Uma parceria. — Sai respondeu, tirando mais um objeto do bolso e entregando a Naruto. Era um celular da década de noventa, gigantesco e ultrapassado — Este aparelho não é rastreado, e é um contato direto com o meu superior. Ele quer que você ligue para ele caso optem por aceitar a parceria. Os telefones estão na agenda.

Naruto ficou admirado com a relíquia em suas mãos, mas logo recobrou o foco. Sai, afinal de contas, não dissera exatamente a intenção do seu "chefe".

— Uma parceria para...?

— Derrotar Madara. — Sai respondeu, sem fazer mais rodeios — Eu entrei na sua vida quando descobrimos que havia vítimas da Akatsuki com um propósito maior para Madara, diferente das anteriores. Descobrimos que Sasuke era essencial para as pesquisas de Madara e Orochimaru, e então eu o conheci para ficar mais perto de vocês. Com todas as informações que consegui com a convivência e, porque não, com a espionagem, eu percebi que a derrota de Madara é essencial para que a vida de vocês volte a ter paz.

Bom, isso era extremamente interessante. Mas havia um problema...

— E o Teme?

Sai sorriu, feliz por perceber que Naruto ainda se preocupava com o Uchiha rebelde. O laço que os dois possuíam sempre o interessou muito, de modo que era reconfortante perceber que ele ainda existia dentre tantas adversidades.

— Sasuke não nos causa interesse imediato. Nós só queremos que Madara seja capturado com vida para propósito de interrogatório. Sasuke pode ir com vocês ao final da captura se cooperar em dividir todas as informações que adquiriu no QG.

Naruto voltou a analisar o aparelho celular, pensativamente. Tudo parecia bom demais para ser verdade, tinha que haver alguma armadilha nesse acordo.

— E o que vocês estão oferecendo? — ele questionou, ainda suspeito das reais intenções de Sai e seu misterioso chefe.

— O que vocês obviamente não possuem: dinheiro e habilidades. Tem um bônus também: se vocês concordarem com isso, nós vamos comprar a liberdade de Gaara na justiça.

Não... Tem que existir alguma falha nesse acordo. Não é possível! É bom demais pra ser verdade!

— Por que precisam de nós se vocês são tão poderosos? — era sua última pergunta, e pelo brilho no olhar de Sai, ali estava o grande impasse.

— Temos poderes, temos habilidade, temos treinamento. Mas somos humanos comuns, enquanto os Akatsukis são extremamente poderosos.

— Isso eu sei. — Naruto comentou, desejando que Sai parasse de fazer rodeios — Itachi conversa muito a respeito disso.

Sai confirmou com um aceno de cabeça e se deu conta de que não havia mais escapatória. Precisaria chegar logo no cerne da questão.

— Sim, mas agora é pior do que isso. Sasuke também está extremamente poderoso, seu poder chega próximo ao de Madara.

— O Teme... o quê?

— Me escute: Apesar disso, eu sei, e você sabe, que Sasuke jamais atacaria você e Kakashi. — Naruto nada declarou, Sai optou por prosseguir — Nós precisamos de aliados para diminuir a dificuldade do combate, e vocês seriam uma carta na manga contra Sasuke. Ele não nos atacaria se estivéssemos com vocês presentes, só que ainda sim vocês dois correriam perigo de vida nessa investida porque os demais membros da Akatsuki poderiam atacar... Por isso, a escolha não é tão fácil como pode parecer inicialmente, vocês tem que pensar antes de nos dar uma resposta.

— Deixa eu ver se entendi... — o Uzumaki murmurou, tentando compreender as informações — Vocês realmente acham que o Teme vai ficar do lado do déspota quando alguém aparecer para derrubar o maldito? Por que ele teria interesse nisso? Ele não teria! Não há necessidade alguma de eu e Kakashi estarmos presentes, Sasuke vai ser o primeiro a aderir uma rebelião. De onde surgiu essa afirmação?

Estava claro pelo tom de voz de Naruto que ele não desejava fugir do confronto, e sim compreender porque Sai acreditava que Sasuke estava do lado de Madara. O moreno escolheu as palavras a seguir minuciosamente:

— Naruto... — ele suspirou, detestando ser aquele que traria esse tipo de notícia — Você não sabe o tipo de coisa que Madara e Orochimaru podem fazer para convencer uma pessoa. Não creia fielmente que Sasuke é incorruptível, porque ninguém é na mão desses dois; nem você seria. Devemos estar sempre preparados para o pior, e Madara consegue trazer o pior de uma pessoa com uma facilidade que você não é capaz de imaginar.

O loiro abaixou o olhar, detestando o que Sai acabara de dizer. Ele já havia cogitado essa possibilidade, até porque entendera com todas as conversas com Itachi o quão desprezível Madara podia ser. Ainda sim, ela muito difícil imaginar que Sasuke poderia se aliar a uma pessoa tão desprezível como aquela. Independente de qualquer motivo, Sasuke tinha um coração bom e Naruto não gostava de deixar de confiar no seu irmão.

E ele não queria mais pensar sobre isso. Não agora. E ainda faltava uma pergunta:

— Eu vou ler as informações passadas, mas antes preciso perguntar algo... Hinata?

Novamente, Sai se sentiu orgulhoso ao ver Naruto preocupado com seus amigos.

— Hinata não sabe de nada que está acontecendo, apesar da família de Neji saber que estavam correndo perigo se ficassem em casa. — ele respondeu sinceramente, com um sorriso suave de satisfação nos lábios — Hinata viajou com a família, Neji ficou.

Entretanto, Naruto não pareceu satisfeito com a resposta e rapidamente fez mais perguntas.

— Por que a família de Hinata está em perigo? Só porque ela é minha ex-namorada?

Sai, mesmo com toda sua falta de sensibilidade, se deu conta da grande parcela de culpa no tom de voz do Uzumaki. Precisava relaxá-lo, ele já estava carregando o mundo todo nas costas...

— Não. — ele respondeu, suas feições estóicas e indecifráveis — É porque descobriram que Neji vai depor, e por isso ficaram de olho nele. Eu não vou depor, até porque a intenção é fazer com que a Akatsuki pense que eu morri no incêndio, e apesar do nome do Neji não ter sido revelado como testemunha ainda, Madara tem seus métodos de descobrir as coisas.

— E Neji não vai vir pra essa reunião, não é?

— Não. Ele combinou com você à mando do nosso superior, para que você conversasse comigo. Se eu entrasse em contato direto com você poderia ser pior, pois não tínhamos como prever sua reação. E do jeito que você reagiu, acho que a escolha de colocar o Neji foi sábia.

Ainda sim, Naruto não pareceu muito convencido com aquela desculpa, e por isso esmiuçou um pouco mais as suas dúvidas.

— Então não foi Hinata quem me ligou diversas vezes?

— Não. Fomos nós. Nos temos a capacidade de assumir qualquer número de celular em ligações para outros celulares.

— Com essa tecnologia de ponta? — Naruto questionou ironicamente, mostrando o celular de quase duas décadas.

— O celular que te entregamos é antigo porque celulares antigos não podem ser rastreados. — Sai explicou brevemente, e Naruto se sentiu um besta por não ter chegado a essa conclusão sozinho — Mas nós temos sim aparelhos de ponta e colocamos o número de Hinata estrategicamente. Sabíamos que você iria atrás logo que percebesse, e inevitavelmente entraria em contato com Neji; o que causaria menos suspeitas para a Akatsuki se fosse o contrário. Caso você atendesse as ligações falsas, nós desligaríamos imediatamente.

Eles são espertos — Naruto não pode deixar de constatar. Era bom ter uma equipe tão esperta quanto Shikamaru para o seu apoio, ao menos até então. Faltava uma pergunta para concluir o interrogatório:

— Gaara sabe de algo?

Isso era algo que verdadeiramente intrigava Naruto, porque devido ao voto de silêncio do ruivo, ele não fazia ideia do quanto ele sabia sobre essa confusão. Naruto desejava que Gaara não soubesse muita coisa, pois estava preocupado com sua ignorância. E no que tange à comprar briga com Madara, ignorância é uma dádiva.

— Não.

Naruto suspirou aliviado, mas Sai ainda não havia terminado sua explicação.

— Gaara está preocupado com você Naruto, e é por isso que ele não abre a boca. Ele tem medo de Deidara fazer algo contra você se você souber a respeito da existência dele. — Sai recebeu um olhar duvidoso do Uzumaki, por isso optou por responder antecipadamente a pergunta que logo viria — Eu sei o que ele está sentindo porque eu conheço o Gaara, compreendo o que ele sente por você, e estava presente no momento da ameaça de Deidara.

Naruto ficou calado por vários minutos tentando processar tudo aquilo que ouvira. Estava sentindo dúvidas, mas sua cabeça doía e ele não conseguia mais pensar. Queria ler os papeis, mas ao mesmo tempo queria dormir, descansar, fugir desse mundo e ter paz. Sai, percebendo seu desconforto, o permitiu um período de silêncio para botar as ideias no lugar, mas logo chamou sua atenção novamente com um pigarro.

— Eu sei que são muitas informações... Apenas...

— Eu estou acostumado com esse tipo de coisa Sai, não se sinta mal. — Naruto o interrompeu, deixando o moreno sem palavras e reiniciando mais um período de quietude.

— Você mudou. — Sai concluiu.

Naruto o respondeu com um sorriso irônico.

— Você também. — ele constatou, mas o mais velho balançou a cabeça negativamente.

— Eu nunca mudei, eu só estou revelando quem realmente sou pra você. — Sai corou um pouco ao dizer aquelas palavras, se sentindo subitamente exposto demais — E espero que você não se decepcione.

Naruto sorriu de verdade e, agora, foi ele quem esticou a mão para dar conforto ao outro.

— Não se preocupe. — ele disse, adotando a postura calorosa que era sua marca registrada — Não é como se eu esperasse que coisas convencionais viessem do excêntrico Sai!

Sai sorriu em retorno, apertando a mão de Naruto e sentindo felicidade por conta do gesto.

— Acho que se tem algo que eu realmente sou em qualquer personagem é excêntrico, talvez seja uma característica própria. — ele constatou com um humor evidentemente melhor.

Naruto gargalhou, e Sai sentiu como se seu mundo fosse muito mais brilhante que outrora.

— Viu só Sai? Itachi existe, você existe, e eu não entendo qual é essa síndrome de "eu sou apenas um robô" que vocês parecem ter. Confie um pouco na sua autenticidade!

Sai teve certeza que Naruto não tinha a menor ideia de que aquelas foram as palavras mais especiais que ele ouvira em toda a sua vida. Não confiando na firmeza da sua voz naquele momento, o moreno apenas retribuiu o sorriso.

E Naruto, apesar de ainda ter mil perguntas na cabeça sobre os mais diversos assuntos, inclusive sobre questionamentos passados (o que diabos ele falara pra irritar tanto Gaara no dia que os três resolveram transar?), optou por apenas continuar a sorrir e transmitir seu apoio. Porque independente de qualquer coisa, eles eram amigos, e tinham toda uma eternidade de amizade para conversar sobre qualquer assunto.

(***)

— Para um homem que já derramou o sangue de milhares e passou por situações de vida ou morte, você está bem apreensivo para conhecer um bebê, hein?

Itachi olhou para Kakashi com indignação, mas se controlou ao máximo para não se irritar com as provocações (o maldito realmente estava agindo como Naruto!). Shikamaru o orientou para que tentasse manter o olhar o mais neutro possível, com a menor concentração de carmesim, para que não assustasse a recém nascida Miya, só que Kakashi estava dificultando muito as coisas!

Itachi e Kakashi estavam no corredor, sentados nos bancos de espera do hospital, logo ao lado do quarto onde Temari estava internada. Shikamaru havia entrado para passar um momento a sós com sua família, enquanto Karin já havia visitado o bebê há poucos minutos e agora voltava para a mansão de Orochimaru (ou de seus "pais", como ela declarava perante a sociedade) para descansar depois da longa viagem. Kakashi e Itachi, agora de banho tomado e sem qualquer vestígio de sangue em seu corpo, aguardavam sua vez de conhecer o bebê e parabenizar a mais nova mãe daquela maternidade.

Só que Kakashi parecia muito falante nesse período de espera...

— Uma curiosidade Itachi: no QG vocês aprendem sobre bebês? — ele questionou, e Itachi se controlou para não suspirar. Kakashi estava falando demais, aparentando felicidade por terem descoberto pistas da localização do QG.

Por outro lado, Kakashi sabia que ainda teria que conversar com Itachi sobre a última sessão de hipnose e que teria que tentar ligar pra Naruto de outro número (porque o seu namorado teimoso estava dificultando demais as coisas em não atendê-lo). Shikamaru, todavia, insistiu que fossem conhecer o bebê naquele momento, e as demais preocupações tiveram que esperar. Sendo bem sincero, o grisalho se sentia feliz sim por estarem perto de encontrar o QG e um pouco aliviado em saber que o perigo que corria não era eminente, mas estava preocupado com Naruto e tentava disfarçar sua preocupação com conversas triviais com Itachi.

— Sim. — Itachi respondeu brevemente, mas ao perceber que a curiosidade continuava no olhar de Kakashi, resolveu entender sua resposta — Eles ensinam que um bebê é gerado com a relação sexual de um homem e uma mulher quando a mulher está no período fértil.

— Wow, até que eles ensinam razoavelmente bem. — Kakashi se admirou — O que é muito peculiar, visto que eles deixam de ensinar outras coisas mais relevantes para uma vida em sociedade.

— Eles ensinam pra explicar o porquê de algumas mulheres requisitarem o uso de preservativo nas missões sexuais. — Itachi deu de ombros — Acho que é apenas para não agirmos de maneira estranha.

Kakashi se desencostou do banco de espera e fitou Itachi de frente, erguendo uma sobrancelha de leve.

— Você fez muitas missões sexuais Itachi?

Isso era algo que Kakashi queria perguntar há tempos, mas pelo medo que tinha de Itachi começara a detalhar tudo e ele ficar morrendo de vergonha (e raiva) evitava essa pergunta. Até porque não era muito pudente que ele revirasse o passado de Itachi dessa forma, seria mais ético esperar que o próprio ex-Akatsuki optasse por contar. Mas, dessa vez, a curiosidade falou mais alto.

Itachi não pareceu ofendido com a pergunta e logo respondeu com sinceridade.

— Fiz missões prolongadas, mas não foram com muitas pessoas. A missão com Sasuke tornou-se uma missão sexual também a partir de um determinado momento.

Foi uma resposta vaga, e Kakashi não estava acostumado a ver Itachi agir dessa forma, visto que ele geralmente era tão explícito em suas respostas que podia envergonhar o menos puritano dos seres humanos.

— Quantas pessoas? — Kakashi perguntou mais uma vez, curioso para ver a reação de Itachi. O moreno não respondeu prontamente, e ele resolveu reformular — Você está se sentindo envergonhado de tocar no assunto por algum motivo?

Itachi ficou pensativo por alguns instantes, mas logo balançou a cabeça em negação.

— Na verdade não, só que eu achei que responder com mais detalhes poderia te ofender, já que você vê Sasuke como seu filho.

Isso... Que surpresa! — Kakashi pensou, arregalando o olhar e deixando o queixo cair, estupefato.

Itachi provavelmente não tinha ideia do passo que dera, e talvez várias outras pessoas que presenciassem essa cena pudessem compreender a mudança estonteante. Itachi não sabia controlar o discurso para evitar atrito com as demais pessoas, algo que só se aprende na prática. Não significa que deva mentir, mas sim aprender a dosar as palavras, a cuidar com a entonação de voz, e a se preocupar em transformar o discurso no mais gentil possível, principalmente em meio a uma crítica, para não ofender o outro.

Itachi, na verdade, sempre se comportava como alguém sem papas na língua, aquele tipo de pessoa "doa a quem doer", e que depois se arrependia das coisas que poderia ter deixado de falar. Faltava compreender o jogo de cintura para se viver pacificamente em sociedade, e essa pequena demonstração de "não quis entrar em detalhes para não te ofender" deixou claro para Kakashi que o Uchiha finalmente estava pegando as regras do jogo.

Isso era uma avanço fenomenal pra quem estava vivendo em uma nova sociedade em tão pouco tempo. Kakashi sentiu orgulho da evolução imensa que Itachi dava a cada novo dia.

— Bom... — Itachi acreditou que Kakashi estava em silêncio por ainda aguardar uma resposta, e por isso resolveu continuar a explicar — Foram três mulheres, e eu era bem novo. As missões ocorreram antes dos meus quinze anos, missões escaladas por Orochimaru e não designadas diretamente por Madara. Aliás, Madara não queria que eu fizesse missões sexuais e não gostou nada quando eu contei.

Voltando ao foco da conversa novamente, Kakashi se sentiu surpreso ao pensar em Itachi com alguma mulher. De qualquer forma, não era como se ele pudesse falar muito nesse aspecto, não é mesmo? Já que Naruto foi o primeiro e único homem com quem se deitara.

— Oh... E você se apaixonou por alguma delas?

— Não. Eu era apaixonado por Madara. — e ele nem precisou pensar para responder. Kakashi sentiu pena das pobres mulheres.

— E elas se apaixonaram por você?

— Lógico que sim. — Itachi suspirou, parecendo um pouco enojado com o que ia responder — No meu treinamento, eu fui educado para agir do jeito certo para atrair a atenção de qualquer pessoa. Todo os Akatsuki sabem como seduzir alguém, seja esse alguém homem ou mulher, e eu não era diferente. Sem querer me gabar, mas mesmo eu sendo tão novo e inexperiente à época, elas não tiveram chances. Funciona quase como uma lavagem cerebral.

Kakashi não duvidava que Itachi fosse capaz de fazer algo assim. Tinha que confessar, ele tinha boa aparência e provavelmente aprendeu técnicas de profissionais, de modo que mesmo com a sua dificuldade de viver em sociedade, ele conseguiria atrair a atenção de uma pessoa apenas em especifico. Afinal, Hatake se lembrava bem como Sasuke se sentia curioso com relação a Itachi logo no começo de toda essa confusão, antes de se apaixonar ou sentir atração. E, por isso, ele não conseguiu evitar sua pergunta:

— Você usou suas técnicas com Sasuke também?

Itachi sorriu tristemente, provavelmente se lembrando do início de seu relacionamento com Sasuke.

— Não... — respondeu tristemente — Confesso que no começo era uma missão, mas como não era sexual, não fiz nada com a intenção de seduzir. Ele se sentiu curioso, assim como eu, e as coisas aconteceram com naturalidade. Quando eu convenci Madara a trocar a natureza da missão, eu e Sasuke já estávamos nos primeiros passos para nos apaixonarmos. Já era tarde.

— Entendo... — Kakashi suspirou, abaixando o olhar e decidindo que seria melhor não forçar Itachi a falar mais nada sobre o assunto, pois parecia desconfortável ao conversar sobre aquilo.

Todavia, foi pego de surpresa quando Itachi não deixou o silêncio se estender e fez uma pergunta um tanto peculiar para o policial:

— Será que eu iria ter um bebê também?

Kakashi ficou estático por alguns instantes, perplexo diante do questionamento e tentando captar algum sentido naquelas palavras. Por fim, interpretou a pergunta da maneira mais cômica possível e seguida caiu na gargalhada, ofendendo o moreno consideravelmente.

— Cale a boca idiota, não é o que você está pensando. — Itachi resmungou, cruzando os braços antes que qualquer piadinha envolvendo o anticoncepcional e Sasuke visse a tona.

— Eu não disse nada!

Itachi fez um barulho de impaciência com a garganta e Kakashi, controlando um pouco o riso, o fitou com atenção, se dando conta que ele estava genuinamente confuso para fazer aquela pergunta, e parecia até mesmo amedrontado. Ele tentou compreender o que Itachi estava tentando entender com aquela pergunta, mas alguma coisa não fazia sentido nela. Como assim Itachi "iria ter um bebê"?

Quando abriu a boca para responder a pergunta com outra pergunta (algo que, sinceramente, odiava fazer), Kakashi se deu conta do que Itachi insinuara; e seu sangue inteiro gelou.

— Você... Não usou proteção com elas?

Itachi respondeu com um aceno de cabeça negativo, levando as mãos à lateral da cabeça e fechando os olhos. Parecia cada vez mais e mais desconfortável em pensar no assunto.

— Nunca pediram, sempre indicaram pra gente só se preocupar com isso se pedissem já que não ficamos doentes, e as missões sexuais não costumavam demorar muito tempo, a mais longa que eu tive foi com o Sasuke e...

Itachi estava tagarelando, habito adquirido com a convivência com Naruto quando estava nervoso demais. Apesar de achar um pouco engraçado o comportamento, Kakashi não fez comparações em voz alta, e manteve a seriedade da conversa.

— Itachi, acalme-se. — ele pediu, interrompendo o discurso do Uchiha que já não fazia sentido algum — Do que você está com medo? De ter algum filho perdido no mundo?

— Não Kakashi. Eu preferiria ter algum filho perdido no mundo. — ele respondeu, emocionalmente destruído e abaixando a cabeça para os seus joelhos, deslizando seus dedos nos cabelos e puxando o couro cabeludo com força. Ok, Itachi não estava mais levemente frustrado; ele estava realmente desesperado — Missões sexuais terminam em morte Kakashi, eu já te falei isso.

O grisalho suspeitava que essa fosse a razão da pergunta, mas ainda sim precisava tirar a prova real, pois seria um assunto bem delicado de se iniciar. Subitamente um sentimento de pena invadiu seu coração, bem como uma raiva desmedida, porque, no fundo, mesmo se Itachi tivesse matado alguma vítima grávida, Itachi teria agido apenas como uma ferramenta; Madara e Orochimaru eram os reais assassinos.

A maneira como os dedos de Itachi tremiam enquanto ele enfiava as mãos com força em seus cabelos só demonstrava que, ao menos aparentemente, ele nunca havia cogitado a possibilidade de uma das vítimas estar grávida até a presente data. E Kakashi tinha que ser franco, não era algo impossível de acontecer...

Ele realmente não queria estar na pele do Uchiha agora, pois a culpa que ele estava sentindo certamente não tinha como ser mensurada. Ainda sim, conseguiu pensar em algo que, talvez, pudesse resolver o problema da dúvida.

— Itachi, é importante pra você saber disso?

Ele era um policial, afinal de contas. Conseguir descobrir as condições da morte e o estado da vítima de crimes brutais não era difícil, difícil mesmo era descobrir o autor deles. Se Itachi compartilhasse o nome das garotas e o local, ele conseguiria descobrir se alguma delas estava grávida no momento da morte. Não que Kakashi realmente achasse que isso seria uma descoberta boa para Itachi, mas viver o resto da vida na dúvida certamente não era muito melhor do que ter a certeza. Havia ainda a possibilidade de nenhuma delas estar grávida, o que seria reconfortante.

— Eu não... eu não sei se quero saber. — Itachi respondeu, levantando a cabeça e fitando Kakashi com olhos entristecidos.

O grisalho deu um tapinha em seus ombros de forma afetuosa.

— Se quiser, eu posso descobrir. — Kakashi ouviu Shikamaru abrir a porta, e por isso colocou logo a mão no ombro do Uchiha, na intenção de transmitir conforto e melhorar os ânimos — Não precisa me dar uma resposta agora, ok? Tente parecer mais feliz ao encontrar Temari, ela deve estar com os hormônios bagunçados e pode se ofender com qualquer coisinha.

— Ok. — o moreno respondeu baixinho e depois desviou sua atenção para Shikamaru, que olhava para a cena dos dois com curiosidade.

— Vocês estão com cara de enterro. — o militar constatou, cruzando os braços — Aconteceu alguma coisa?

— Não, só estamos tão cansados de esperar que quase dormimos aqui. Você e Temari parecem duas noivas, Shikamaru.

Shikamaru franziu o cenho enquanto Itachi se concentrava para tentar melhorar suas feições. Por fim, mesmo não acreditando na desculpa de Kakashi, o mais novo pai deu de ombros, não se importando muito com a conversa que acontecia ali. Chamou Kakashi e Itachi para dentro do quarto com um gesto de mão, e os dois, agora mais recompostos, obedeceram ao pedido.

Temari estava na cama, com as costas na cabeceira levemente inclinada. Seus cabelos estavam soltos, o que era uma visão rara de se ver (Itachi percebeu pela primeira vez que os seus cabelos eram maiores do que aparentavam no penteado característico que sempre usava). Ela parecia cansada, com os olhos levemente inchados e um vestígio sutil de olheiras, mas ainda sim sorria radiante, olhando para os novos visitantes com um brilho no olhar tão intenso que Itachi deixou de pensar nas suas preocupações prontamente.

— Oi Itachi, oi Kakashi. — ela os cumprimentou, sorrindo ainda mais enquanto eles se aproximavam lentamente da cama.

— Sinceramente Temari, e com todo respeito do mundo Shikamaru, você parece ainda mais bonita agora que virou mãe. Meus parabéns pelo bebê.

Kakashi a elogiou e congratulou com sinceridade, e Itachi teve que concordar mentalmente. Talvez fosse o momento de felicidade que a deixara imensamente mais bela do que antes, mas a diferença era absurda. Itachi não sabia se isso era comum entre as mães, mas ao mesmo tempo em que admirava inocentemente a beleza de Temari, se viu surpreso ao ver que o mais velho debruçava-se sobre o colo da mulher, olhando um pequeno embrulho que ela segurava nos braços.

O bebê.

Estava coberto por uma manta branca, de modo que o Uchiha não havia percebido a presença de uma criança tão pequena até Kakashi se movimentar. O grisalho ergueu a ponta da manta e, pelo sorriso que exibiu em seus lábios logo em seguida, conseguiu ver o rosto da criança. Itachi estava curioso, mas desconfortável por não saber como se portar naquele momento. Não era como se visitasse recém-nascidos com frequência, por assim dizer.

— Ela tem seus olhos. — Kakashi comentou, enquanto Shikamaru caminhava até o outro lado da cama e olhava para a pequena Miya com os mesmo olhar sonhador de Temari.

— Espero que puxe somente o intelecto do Shikamaru — Temari comentou, e seu marido fez uma careta de falso ofendido, acariciando o cabelo da esposa com carinho.

— Oras, achei que queria que ela tivesse alguma característica física minha! Por que ela foi ficar igualzinha a você?

— Sabe o que dizem, não sabem? — ela tentou se justificar, sorrindo para o esposo enquanto ele mantinha as falsas feições de ofendido — Quando o filho puxa muito o físico da mãe, ele puxa a personalidade do pai. E vice versa.

— Isso não faz sentido. — ele resmungou, e ela deu uma risadinha.

— Nem a sua palhaçada dos cigarros matrimoniais Shika. — dando o assunto por encerrado, Temari voltou sua atenção para o presente mais silencioso até o dado momento — Venha ver a Miya, Itachi.

Temari entendia a dificuldade de Itachi de lidar com todas as situações comuns da vida humana, e por isso achou melhor chamá-lo e não esperar uma reação da parte dele. Itachi concordou com um aceno de cabeça e se aproximou devagarzinho, inclinando-se como Kakashi fizera e olhando para dentro do embrulho.

Ele nunca tinha visto um bebê de perto. Claro, em suas missões ele chegou a ver de relances algumas crianças, mas não uma tão pequena como esta. Talvez os pais só levassem os bebês para fora de casa quando eles ficassem maiores, e ver uma criança tão pequena pegou Itachi de surpresa.

Miya estava acordada, observando seus arredores com atenção e choramingando delicadamente quando via uma nova movimentação no ambiente, na mais ingênua curiosidade de recém-nascido, sem, contudo, chorar. Isso foi outro ponto que pegou Itachi desprevenido, pois ele imaginava que bebês recém-nascidos só faziam chorar e dormir.

— Miya é muito quietinha. — Temari comentou, parecendo perceber sua curiosidade perante o comportamento da sua criança — Ela só chorou duas vezes até agora, e eu sinceramente estou preocupada com isso.

— Vai ver ela já sabe que chorar é problemático. — Shikamaru respondeu, e Kakashi riu diante do comentário tão característico do militar.

O casal continuou esse dialogo sem sentido algum, enquanto Itachi não conseguia desgrudar os olhos da pequena figura no colo de Temari. Miya tinha grandes e brilhantes olhos verdes, mais claros que o da mãe, e cabelos negros, curtinhos e bagunçados pela manta. Ela chupava sua minúscula mãozinha enquanto olhava para Itachi com os mesmos olhos curiosos, piscando devagar ora ou outra.

Itachi decidiu que Miya certamente era uma das coisas mais graciosas que já vira na vida e imaginou que seria educado dizer isso para Temari, mas não conseguia fazer esse tipo de elogio enquanto sua cabeça fervilhava com tantas perguntas.

— Bebês não deviam nascer sem cabelo? — Itachi ergueu a cabeça, encarando Temari com tanto questionamento no olhar que ela não sobe como reagir.

As primeiras palavras do Uchiha desde que viera visitá-la causaram um silêncio prolongado no ambiente, mas Temari foi a primeira a rir em voz alta. Logo Kakashi e Shikamaru acompanharam sua risada divertidamente, achando graça do comportamento de Itachi.

E o Uchiha, por sua vez, se controlou para não se irritar e ascender o olhar carmesim, pois não queria assustar a criança. Odiava quando tiravam sarro de sua curiosidade, e ele não tinha culpa se não sabia de tudo sobre o mundo, oras!

— Itachi não sabe muito sobre bebês, não é?

Ela segurou o braço de Itachi e o puxou para mais perto, demonstrando com um gesto que queria colocar Miya nos braços dele. Itachi tentou dar um passo para trás, apreensivo, mas Kakashi o manteve na mesma posição, segurando seu outro braço.

— Não tenha medo de segurar o bebê, apenas seja gentil. Eles são bem molinhos quando são recém-nascidos, os ossos não calcificaram totalmente.

— E vocês esperam que eu segure uma criança de um dia de vida? Vocês estão malucos?

— Itachi, você consegue ser doce quando quer, tenho certeza que vai conseguir. — Temari falou com gentileza, conseguindo espaço o suficiente para colocar Miya nos braços dele. Ela choramingou um pouco mais alto, mas não chegou a chorar; devia estar somente um pouco assustada com a movimentação.

Totalmente sem jeito, Itachi segurou a criança. Shikamaru logo apareceu para ajudá-lo, auxiliando como deveria segurar a cabeça para não machucar o pescoço de Miya. Itachi olhou para Temari como se desejasse uma avaliação do seu comportamento, e ela esticou os braços ao lado do corpo, provavelmente para descansá-los, e lhe ofereceu um sorriso de "muito bem Itachi".

Ele se sentiu mais confiante para segurar a criança depois do aval da mãe, e voltou a fitar os olhos verdes da menina.

— Bebês podem nascer com cabelo, mas vai cair daqui um tempo e nascer de novo, a cor pode mudar. — Kakashi respondeu a pergunta de Itachi olhando por cima de seu ombro e apreciando as feições curiosas de Miya novamente — Os olhos podem mudar também.

— Geralmente escurecem um pouco. — Shikamaru declarou, olhando a criança por cima do outro ombro de Itachi, complementando as informações de Itachi — O que é previsto, já que Temari tem os olhos um pouco mais escuros.

Miya parecia estar com o olhar pesado agora, e logo fechou os olhos, adormecendo instantaneamente. Itachi sentiu seu peito ficar mais quente, era um sentimento que não soube definir muito bem; só sabia dizer que achou o comportamento da criança muito... interessante.

— Ela dormiu? Assim? De uma hora pra outra? — ele questionou baixinho, com medo de acordar Miya.

— Ela se sente segura no seu colo. — Shikamaru comentou, sua voz soando um pouco irritada — E comigo ela só chora. Malditos Uchihas e os efeitos que causam nas mulheres.

— Se serve de consolo, eu prefiro você Shika. — Temari falou, e Shikamaru voltou sua atenção pra esposa, caminhando até ela, pegando uma de suas mãos e beijando-a com ternura.

Isso não era algo comum, pois Shikamaru e Temari não realizavam muitas demonstrações públicas de afeto, e por isso Kakashi desviou o olhar, sentindo como se estivesse invadindo a privacidade daquelas pessoas.

Voltou a observar Itachi, que ainda parecia completamente hipnotizado pelo comportamento do bebê em seus braços. Ele estava agindo de uma maneira peculiar, até mesmo bonitinha. Se Naruto tivesse ali, não ia dar folga alguma para Itachi depois que Miya voltasse ao colo de Temari.

Mas Kakashi não era Naruto, e por isso resolveu sair de fininho do quarto, deixando o casal sorridente, a recém-nascida e o Itachi curioso para trás. Porque algo lhe dizia que deveria entrar em contato com Naruto naquele momento.

E era isso que ele iria fazer.

(***)

Já fazia quarenta minutos que Pain estava sozinho no quarto, procurando alguma coisa para mantê-lo entretido. Não gostava quando Konan e Sasuke saiam para conversar; não apenas por detestar o pirralho, apesar de achar que Konan não deveria passar sequer um segundo ao lado de outra pessoa que não fosse ele, mas também por ficar completamente entediado sem a presença de sua companheira de longa data.

Pain e Konan foram criados juntos, aprenderam tudo juntos, de modo que não se viam mais como figuras separadas; independente de qualquer análise romântica, eles eram um único ser. Quando eram separados para missões, eles não se sentiam tanta falta da sua "outra metade" justamente porque estavam ocupados, mas ficar sozinho no quarto aguardando a chegada de Konan era extremamente tedioso.

Pain analisava suas mãos, se dando conta que sua pele não estava mais tão saudável como outrora. Isso era decorrente da falta de proteína, e cada vez mais estava difícil ficar sem a outra metade da dose. Quando tomava a injeção, tudo ficava bem por algum tempo, mas quinze dias depois ele já estava péssimo novamente: sentia sono, dores de cabeça, falta de ar, enfim, varias coisas que não estava nem um pouco acostumado a sentir, visto que Akatsukis que recebiam a dose completa jamais ficam doentes. Isso sem levar em consideração o pior efeito colateral de todos: a ineficiência crescente dos seus cinco sentidos básicos.

Konan também não andava nada bem, apesar de parecer que sofria mais efeitos do que ele. Além dos mesmos efeitos colaterais que ele sentia, ela andava vomitando com certa frequência (Pain nunca havia visto alguém vomitar até o primeiro surto de Konan) e reclamava muito de fadiga muscular e dores, principalmente nos seios. Por conta disso, Konan andava mais frígida com relação a sexo e mais enfezada, e pra ser bem sincero, o número um da Akatsuki também não se sentia muito disposto a fazer sexo ultimamente.

Às vezes ele tentava convencer Konan a parar de levar proteína a Itachi, ou ao menos guardar uns 30% para si, mas ela sempre argumentava algo que o fazia mudar de ideia. A nova desculpa da vez era o tal plano envolvendo Sasuke, para que conseguissem sair logo do QG; Sasuke não faria nada por eles se Itachi não fosse o premio final, e para isso Itachi precisaria manter-se saudável.

Mas na verdade ele não dava a mínima pra Itachi ou Sasuke, tudo que ele queria era o fim do desconforto. Não era como se eles pudessem recorrer a equipe científica e pedir remédios ou (o que seria melhor ainda) uma dose extra de proteína, pois afirmar que estavam "doentes" seria o mesmo que assinar uma confissão de culpa.

Pain estava prestes a se levantar e caminhar pelo campo de treinamento quando a porta do quarto foi escancarada e Konan correu em direção ao banheiro, provavelmente passando mal mais uma vez. Ele se sentou, um pouco surpreso por não ter ouvido seus passos antes dela chegar; realmente, seus sentidos estavam péssimos demais naquela semana...

Ouviu o barulho característico de vômito e a tosse engasgada e constante de Konan, e isso o fez se levantar para ajudá-la. Adentrou o banheiro da suíte (um privilégio que as primeiras posições da hierarquia possuíam) e a encontrou agarrada na privada.

— Não vem aqui. — ela pediu baixinho, antes de passar mal mais uma vez e choramingar baixinho.

Pain não lhe deu ouvidos e se sentou ao seu lado, acariciando suas costas enquanto ela tentava controlar sua ânsia. Ele nada disse, mas todas as vezes que ela levantava o olhar conseguia perceber a preocupação evidente nas expressões faciais dele.

Depois de se sentir um pouco menos enjoada, Konan limpou a boca na manga de sua blusa, tocou a descarga e se colocou de pé, apoiando-se com a ajuda de Pain na pia e abrindo a torneira para lavar o rosto e escovar os dentes.

— Você não esta levando nada bem a ausência de proteína. — ele comentou, acariciando os cabelos curtos da companheira enquanto ela escovava os dentes com pressa e ignorava seus comentários — Vamos parar de ser radicais?

Ela cuspiu a pasta de dente e enxaguou a boca rapidamente antes de virar-se para o ruivo com o olhar extremamente cansado.

— Pain, eu não vou tirar nada da dose de Itachi, nós já conversamos sobre isso! Ele ainda perde sangue com frequência, ele precisa de mais proteína do que a gente e...

— Eu vou ficar com 40% na próxima dose. — ele a interrompeu, mas ela não pareceu entender prontamente a sua insinuação — Geralmente você fica com 50% e eu com 50%, mas você visivelmente está sofrendo mais com a ausência da proteína, então vamos fazer 60% e 40% na próxima.

— Nem pensar! Isso está fora de cogitação! — ela respondeu, enxugando rapidamente o rosto e caminhando com certa dificuldade até o quarto, jogando-se de qualquer jeito na cama e dando aquela discussão por encerrada.

Mas o ruivo não parecia nem um pouco disposto a deixar aquele assunto morrer, e por isso caminhou lentamente até a cama e se sentou ao lado dela, acariciando suas costas por poucos minutos antes de retomar o assunto.

— Isso não foi um pedido Konan. — ele murmurou baixinho, inclinando-se para beijar a parte visível do rosto dela e se sentindo reconfortado por ela não ter fugido da carícia — Eu vou ficar com 40% e você com 60%, está decidido.

— Pain... — ela suspirou, fazendo força para se virar de barriga pra cima e olhá-lo nos olhos — Eu não quero que você saia ainda mais prejudicado nessa confusão que eu arranjei. Isso tudo é culpa minha, claro que quem deve sofrer mais sou eu.

Pain balançou a cabeça em negação, levando o indicador aos lábios da companheira e silenciando-os com um toque suave.

— Eu resolvi comprar essa briga também Konan, e quando fiz, sabia que sacrifícios viriam. A próxima leva chega amanhã, então vamos tentar. Se você não se sentir melhor ou eu me sentir muito pior, a gente volta pra divisão igual no mês que vem.

Ela não respondeu, mas retirou o dedo de Pain de seus lábios e fechou os olhos pesadamente, cobrindo-os com o braço direito, como se fugisse da claridade.

Pain, apesar de não ser especialista em microexpressões como Konan, sabia que quando a companheira agia dessa forma estava se esforçando para segurar o choro. Por isso, resolveu que seria melhor mudar de assunto antes que ela desabasse mais uma vez. Konan não chorava com frequência, certamente ele só presenciara isso duas vezes em sua vida, mas ainda sim toda vez que via Konan chorar, o ruivo se sentia quebrado por dentro.

— Conversou com Sasuke? — ele questionou da maneira mais doce que conseguiu, retirando o braço de Konan de seu rosto e fingindo não ver a maneira desesperada que ela piscava para conter as lágrimas — Ou o palerma não apareceu e teve a audácia de te deixar esperando enquanto podíamos ficar juntos nesse meio tempo?

Apesar de xingar Sasuke, ele colocou um sorriso nos lábios, e isso fez com que Konan sorrisse também e conseguisse controlar o choro com um pequeno soluço. Ela esticou os braços e Pain a abraçou, tomando o devido cuidado para não machucar o corpo dolorido dela.

— Ele não apareceu... — ela respondeu com a voz um pouco mais firme — Mas eu ouvi que Madara ia voltar de viagem uns dias antes do esperado, a movimentação no QG está grande hoje. Sasuke está tomando cautela, até porque ele pode me dizer a resposta em outra ocasião. Talvez bata aqui no quarto dentro de algumas horas.

Konan sentia-se mais segura nos braços de Pain, mas ainda sim não conseguia se livrar do sentimento de medo a assombrava desde madrugada. Era um pressentimento, algo que não conseguia evitar nem controlar, e parecia ter se intensificado ainda mais aquela tarde. Talvez não apenas pelo pressentimento ruim em si, mas também por ela estar se sentindo especialmente mal naquele dia.

— Tem certeza que não quer que eu de uma volta e procure por ele? — o ruivo questionou, afastando-se de Konan e fitando-a nos olhos — Ele sabe que eu estou no trato, e eu prometo me comportar.

— Não... Apenas fique aqui comigo. — ela murmurou um pouco dengosa, parecendo mais pálida do que antes.

Pain piscou, agora evidentemente preocupado com a saúde de Konan.

— Aconteceu alguma coisa diferente hoje? — ele perguntou passando as mãos em seus ombros e cintura para acalmá-la, levemente e com delicadeza. Pain descobrira com a convivência que quando Konan estava emocionalmente frustrada ou chateada, a melhor maneira de contornar isso era agindo com gentileza; algo que, sinceramente, ele gostava de fazer.

Konan mordeu o lábio e pensou se deveria ou não abrir o jogo para Pain. Constatando que ele poderia ficar mais preocupado do que devia e agir com imprudência caso ela não explicasse o que estava acontecendo, ela decidiu falar.

— Eu voltei pro quarto não apenas por causa do enjôo.

— E por quê?

— Eu sangrei ainda pouco Pain.

Pain pareceu confuso, mas ela sabia que não era por deixar de entender a mensagem implícita.

— O que tem de errado nisso? Acontece todo mês, não é?

Pain e Konan, apesar de todas as adversidades, não eram totalmente ignorantes no quesito "diferenças entre corpo feminino e masculino". Na verdade, por causa da convivência, Pain era o Akatsuki que mais entendia toda aquela diferença. Ele sabia que Konan ficava menstruada todo mês (apesar de eles não utilizarem esse termo), geralmente próximo à época de tomar novamente a dose de proteína. Apesar de não entender exatamente o porquê disto acontecer, sabia que era algo normal do organismo feminino e não se preocupava quando acontecia.

Então porque Konan parecia preocupada dessa vez?

— Sim, acontece, mas tinha parado desde que começamos a ter os efeitos mais drásticos.

— Parado?

Ele se afastou um pouco dela, olhando-a com mais preocupação do que antes. Konan suspirou fundo e confirmou com um aceno de cabeça.

— E por que você não me falou? — ele já estava começando a ficar irritado com isso,detestava quando Konan escondia as coisas dele! — Isso não é normal de acontecer, é? Achei que tínhamos combinado que você não ia esconder uma piora drástica na sua saúde!

— Já aconteceu outras vezes, não é algo tão regular assim, quando eu era mais nova não acontecia todo mês, lembra?

Bom, era verdade. Quando os dois atingiram a puberdade e esse tipo de coisa começou a acontecer com Konan, não era comum que acontecesse todo mês. Demorou uns dois anos até que regularizasse, e Orochimaru costumava dizer que isso era normal com algumas garotas. Mas, ainda sim, já fazia muito tempo que isso não acontecia.

— Mas...

— Pain, pare de se preocupar, eu acho que é só mais um dos efeitos colaterais, nada que vai deixar de voltar ao normal quando voltarmos a tomar a dose completa. — ela falou com firmeza, pois era realmente o que achava. Pain estava se preocupando atoa, provavelmente era apenas mais um efeito colateral (e um que nem era tão chato assim).

Ele a analisou por algum tempo, mas ao fim relaxou, retirando a franja de Konan dos seus olhos e colocando-a atrás da orelha.

— Ok, ok, mas por que você esta preocupada que sangrou hoje então?

Isso ela realmente não conseguiria explicar.

— Porque... droga, não sei como por em palavras. — ela murmurou com sinceridade, levando sua mão ao ventre e sentindo-se um pouco mais confortável com o gesto — Foi diferente.

O seu companheiro, no entanto, parecia cada vez mais confuso com aquilo.

— Diferente como? — ele teve que perguntar depois de um longo período de silêncio. Konan o estava deixando cada vez mais preocupado.

— Ah, esquece, eu não devia estar falando sobre isso com você.

Ela se esforçou para retirar Pain de seu caminho e se levantar, mas ele a segurou pelos ombros e manteve-a estática contra o colchão.

— Konan, não ouse levantar dessa cama. — ele a observava com apreensão, ainda mais quando ela não argumentou e apenas fechou os olhos, aparentando exaustão — Você tem certeza que não quer que eu fale com alguém da equipe científica? Eu tenho certeza que posso oferecer algo pelo silêncio deles.

É esse tipo de ideia estúpida que Pain tem quando está preocupado comigo. — ela pensou, um pouco arrependida por ter tocado naquele assunto.

— Não. — respondeu com convicção — Mesmo que não falem nada pro Madara, Orochimaru vai ficar sabendo e você sabe que com ele a situação é mais preocupada. Orochimaru sabe de tudo que se passa na equipe científica.

— Konan...

— Eu vou ficar bem, acredite em mim. Foi só um pouco, o que é bom porque se não vou perder mais proteína. — ela murmurou, sentindo a dor diminuir um pouco e o sono aumentar consideravelmente — Fique despreocupado.

Pain não respondeu, pois não queria mentir. Não havia como ele não se preocupar com a saúde dela enquanto ela parecia sofrer daquela forma, mas concedeu seu pedido e a abraçou com cuidado. Dentro de alguns minutos ela estava adormecida, ressonando de leve e gemendo de dor de tempos em tempos.

E ele, mesmo sabendo que deveria sair para treinar por algumas horas para não levantar suspeitas, optou por ficar ao seu lado a tarde toda. *

(***)

Orochimaru bebia seu chá despreocupadamente, saboreando o gosto particular do alecrim e não perdendo a compostura nem ao ouvir a gritaria do lado de fora de seus aposentos. Madara estava chegando, e ele trazia a fúria Uchiha consigo, como esperado.

— Isso será interessante... — Orochimaru comentou em voz baixa para ninguém em particular, com o humor visivelmente melhor a cada nova gritaria e barulho de objetos espatifando no chão. Se havia uma coisa que amava fazer nessa vida, era ver o estóico Madara Uchiha perder a sua sólida, mas não impenetrável, compostura.

Orochimaru estava contando os segundos para o início do divertimento, mas antes de chegar até "trinta", a porta de seu quarto foi escancarada e um furioso Madara marchou em sua direção.

— OROCHIMARU! — ele rosnou em um tom de voz bastante alto. Orochimaru nem se moveu, apenas levantou um pouco a cabeça para enxergar o "visitante".

Madara estava lívido e com os olhos violetas brilhando ferozmente; Orochimaru precisou se controlar para não gargalhar. Ele ainda usava a roupa de viagem, o terno que geralmente vestia nos momentos de negociação, e os cabelos presos de uma forma que geralmente não usaria quando estava à vontade no QG. De certo ele já tinha conhecimento das "boas novas", e isso o impedira de ir direto para o seu quarto descansar da viagem. O Uchiha respirava de forma descompassada e, se fosse um Akatsuki, Orochimaru diria que ele estava prestes a sofrer um ataque de Frenesi.

Mas, graças ao bom Deus, não era o caso.

— A que devo a honra de sua visita, chefe? — ele questionou em um tom de voz sarcástico, preparando-se para mais um gole. Madara, todavia, agarrou sua xícara antes que ele pudesse encostá-la novamente em seus lábios e atirou o objeto longe; o barulho de porcelana se espatifando em mil pedacinhos deixou claro que não havia mais conserto, não que Orochimaru ligasse para isso.

Ele não pareceu amedrontado com o comportamento, e simplesmente cruzou os braços enquanto aguardava mais uma reação do "troglodita". Fazia tempo que não via Madara perder a compostura daquela forma; Orochimaru achava isso curioso, divertido, e extremamente patético.

— Chega de palhaçadas! Cadê o Sasuke? — sem nem pestanejar, o mais novo (e mais forte) agarrou o outro pela gola de sua camisa, forçando-o a ficar de pé e encará-lo nos olhos. Orochimaru continuou calmo diante do tratamento, mas agora exibia um sorriso desafiador nos lábios — Sem joguinhos, sua cobra maldita! Onde está o Sasuke? Me responda!

— Se você fosse até seu quarto antes de dar chilique, descobriria que Sasuke está dormindo pacificamente nos seus lençóis e aguardando seu retorno.

Madara procurou algum sinal de mentira no olhar de Orochimaru, mas como sempre não conseguiu interpretar o que se passava na cabeça daquele maldito filho da puta. Como odiava estar preso até o fim de seus dias ao lado dessa pessoa desprezível!

Olhou para trás e constatou que ainda havia expectadores na porta do quarto. Encarou um dos cientistas, aquele que ainda há pouco havia tentado acalmá-lo e impedi-lo de invadir o quarto de Orochimaru. Não foi preciso dar ordens em voz alta, apenas um olhar bastou: mais do que rapidamente, o homem franzino correu pelos corredores, entendendo o recado sem precisar de maiores instruções.

— Se for um truque seu... — Madara ia começar uma leva de ameaças, mas Orochimaru suspirou de maneira tediosa e girou os olhos.

— Acalme-se, você ainda vai me agradecer. — ele comentou displicentemente, balançando uma das mãos demonstrando total descaso com a fúria Uchiha.

Madara ainda ficou alguns segundos segurando seu "colega" pela gola, tentando escolher qual local daquela cara de cobra ele acertaria com um belo soco caso ele estivesse mentindo. Mas antes que tomasse uma decisão sobre o impasse, o cientista retornou.

— Sasuke está em seus aposentos, chefe. — ele respondeu ofegante; Madara soltou Orochimaru, que pareceu um pouco mais confortável quando sentiu seus pés de volta ao chão.

— Nos deixem a sós. — Madara ordenou aos demais presentes, e logo ouviu o clique suave de porta sendo fechada, bem como os passos acelerados da equipe científica. Eles não seriam loucos de tentar espionar, não quando sabiam o poder perceptivo que Madara tinha quando ativava os olhos violetas.

Orochimaru sentou-se novamente em sua poltrona, e Madara relaxou os ombros, visivelmente mais calmo. Ainda sim, possuía aquela desconfiança de sempre direcionada ao outro, e não desativou os olhos violetas.

O médico não se importava, pois não era como se Madara fosse realmente matá-lo. Não era uma questão de incapacidade e sim de necessidade, afinal, o Uchiha precisava de seus serviços como um usuário necessitava de drogas; mesmo que repudiasse, não poderia ficar longe por muito tempo.

— O que você fez? — Madara questionou, sua voz soando assustadoramente como um rosnado, enquanto erguia o punho ameaçadoramente; qualquer pessoa teria medo ao ouvir aquele timbre e ser presenteado com aquela visão, menos em Orochimaru.

— Apenas um agrado pra você Uchiha. — o mais velho quase sentiu o soco que receberia do Uchiha, mas logo complementou a informação para poupar algumas semanas de olho roxo. Não havia porque chegar a tanto em nome de uma mera diversão — Uma indução, simplesmente isso.

Madara abaixou o punho que havia erguido por instinto, cruzou os braços e aguardou mais informações. Orochimaru, sentindo-se mais poderoso e evidentemente mais confiante diante do comportamento de seu suposto "superior", sorriu despreocupadamente e levantou-se da cadeira.

— Sasuke foi induzido a agir diferente com você Madara, talvez devesse tentar conversar com ele pra conferir as mudanças. — ele anunciou, caminhando ate o outro lado de seu quarto e abrindo uma gaveta do criado mudo.

Retirou de lá as pílulas vermelhas, a mais nova leva de Tsuki no Me. Apesar de que ele acreditava que o uso da droga seria menos frequente a partir de agora, queria aproveitar a deixa e entregar para Madara naquele momento. Afinal, ele precisaria fazer a entrega de qualquer jeito não desejava encontrar Madara mais tarde naquele dia, vê-lo uma vez ao dia era mais do que suficiente.

— Aqui está. — Orochimaru colocou o vidro diante do rosto de Madara, que o agarrou com rapidez e enfiou no bolso, ainda fitando-o de maneira duvidosa.

— Como assim Sasuke vai agir diferente?

Orochimaru riu baixinho, e isto fez Madara se enfezar e bater com força na parede de pedra, causando uma rachadura digna de um golpe de super-herói.

— Ria mais uma vez e vai ser sua cara, não a parede, quem vai receber esse singelo tratamento!

O mais velho levantou o olhar para o cientista, resolvendo que já tinha se divertido o suficiente. Chega de brincadeiras, iria dizer logo o que o esquentadinho queria ouvir.

Uchihas e seus temperamentos complicados regados por uma grande dose de impaciência...

— Sabe Madara, acho que se não fosse por mim, seus planos ridículos já teriam caído por terra. — ele anunciou calmamente, analisando despreocupadamente suas unhas enquanto falava — Sasuke e Konan estavam de conluio, e se eu não entrevisse os dois criariam um plano bem eficiente pra passar a perna em você. Mas não se preocupe, eu não forcei Sasuke a nada. Ele escolheu.

— Ele escolheu? — o Uchiha franziu o cenho em descrença, pois era um pouco difícil acreditar que Sasuke, sendo o grande cabeça dura que era, escolheria se submeter à uma "indução".

Madara sabia que apesar de Orochimaru utilizar o termo "indução", não era bem isso que ele havia feito. Ele não compreendia muito bem qual era a técnica de seu colega, mas sabia que se tratava de algo mais complexo do que uma mera indução hipnótica. Uma indução hipnótica se tratava de um procedimento mais sutil, para ajudar a superação de traumas ou problemas, e não agiria tão enfaticamente na personalidade do paciente. Orochimaru ia mais além nos seus experimentos, e se havia uma coisa que Madara detestava admitir era que ele não compreendia como fazer isso.

Ele daria muita coisa para compreender o funcionamento dessa técnica...

— Sasuke estava confuso, eu me aproveitei de seu momento de confusão, não nego. — Orochimaru comentava de uma forma tão casual que quem observasse a cena de longe acreditaria que ele estava falando sobre o tempo. — Ele parecia perdido, sofrendo de amor por Itachi, e eu sei que você queria judiar dos dois com aquela missão, mas de certo não esperava que Konan colocasse as garrinhas pra fora justo agora.

— O que ela fez? — a voz de Madara soou mais grave.

Sim, ele já sabia que Konan e Pain estavam planejando coisas em suas costas. Desde que ficou claro que Pain deixou de fiscalizar Kakashi e Konan era quem entregava a proteína para Itachi, Madara deixou de confiar no casal. Ainda sim, estava tentando evitar maiores confrontos por causa da nova perspectiva de experiência; queria ver como o bebê de Konan iria nascer depois de todas as mutações e demais experimentos realizados em sua mãe. Mas a maldita parecia estar implorando por um aborto forçado, e Madara tinha que se controlar para não por tudo a perder por causa de sua raiva.

Em breve eu dou um jeito nessa vadia.

— Ela propôs uma parceria, é claro. Sasuke iria aceitar, tenho certeza disso. Ele, Pain e Konan contra você... Seria uma briga interessante de se assistir.

Os olhos de Madara brilharam com mais intensidade, Orochimaru alargou seu sorriso de canto de boca. Ah... estava realmente interessante ver o ego Uchiha sofrer daquela forma!

— Seriam obliterados! — o mais novo sibilou, repetindo o gesto de outrora e batendo mais uma vez com o punho na parede — Eu não sou prepotente de achar que conseguiria acabar com os três ao mesmo tempo, mas os demais Akatsuki estariam do meu lado! Com a ajuda de Deidara e Sasori, não sobraria um fio de cabelo desses três!

— Tem certeza disso, colega?

Madara ficou em silêncio, completamente sem reação diante do ultraje da insinuação de Orochimaru. Não, não iria cair nessa, ele estava querendo por mais dúvidas em sua mente para obrigá-lo a colocar os pés pelas mãos e perder todos seus aliados. Ele conhecia o jogo da cobra, e não iria cair nessa! Deidara e Sasori estavam além de qualquer suspeita.

— De qualquer maneira, eu ofereci o que ele queria... — ele continuou a falar, dando de ombros e se contentando em apenas plantar a sementinha da dúvida na mente do Uchiha — O esquecimento, o auxílio ao fim da dor.

Madara respirou fundo para se acalmar, levando o indicador e polegar da mão direita à ponte do nariz numa tentativa de recobrar a compostura. Tinha que manter a calma e entender o que aconteceu com Sasuke.

— Você manipulou suas lembranças? Ele sequer se lembra que Itachi matou os pais dele? — questionou, agora com seus nervos sobre controle, mas, ainda sim, mantendo as feições de pouquíssimos amigos — Porque se ele não lembrar, quero que desfaça isso agora.

— Na verdade não foi isso que eu fiz, apenas redirecionei seus sentimentos. Sasuke se lembra que ele e Itachi foram amantes, se lembra do parentesco com ele e da revelação de que o antigo número três foi o assassino de sua amada mamãezinha. Sasuke também se lembra que você é o ogro petulante que é, do castigo de Itachi e tudo mais. Nada foi esquecido de seu passado.

Madara não se aguentou mais, e dentro de instantes segurava a mandíbula de Orochimaru com sua mão direita de maneira ameaçadora, fazendo questão de encará-lo sem piscar ou demonstrar qualquer sinal de inferioridade.

— Não brinque com a sorte Orochimaru, ou vai perder sua língua. Você sabe escrever, e eu não me importaria de me comunicar com você apenas com papel e caneta. Seria menos estressante, para ser sincero.

Orochimaru agarrou o braço de Madara e tentou se soltar, em vão.

— Se você me enforcar vai perder seu grande aliado. — Orochimaru falou baixinho, entre os dentes.

Madara o soltou, e ele tossiu.

Dessa vez acho que passei dos limites... — Orochimaru contestou, sentindo o gosto de sangue no fundo da sua garganta. Tomaria cuidado pelo resto do dia.

— Em suma, Sasuke se lembra de tudo, mas eu redirecionei os sentimentos. — ele respondeu com a voz rouca, pigarreando para tentar diminuir o desconforto em sua garganta — Agora ele está sentindo paixão por você, e não por Itachi; por quem apenas ódio.

— Como fez isso?

Ah mas essa oportunidade infelizmente não vou deixar passar! — ele pensou, e o sorriso prepotente voltou aos seus lábios instantaneamente.

— Mágica! — Orochimaru exclamou de maneira divertida, estalando os dedos. Madara nem pareceu tão irritado dessa vez, apenas suspirou em cansaço. — Não é como se eu fosse dar a você minha galinha dos ovos de ouro, não é? Eu fiz, está feito, não precisa agradecer. Tudo que precisa saber é que eu propus a ele tornar a maneira dele lidar com Itachi e sua vingança mais palpável, mais fácil, só não disse que métodos usaria. Ele concordou, então não fiz nada além do combinado. A única coisa que ele esqueceu foi que fez o acordo comigo, já que seria um absurdo ele se lembrar disso.

Madara ainda encarou Orochimaru por alguns instantes, mas depois de um tempo a curiosidade falou mais alto. Virou-se e, sem dizer uma única palavra, saiu do quarto, ignorando a risadinha debochada de Orochimaru às suas costas. Poderia lidar com o humor ácido de seu querido "colega" (ou carma, tanto faz) mais tarde; agora estava realmente curioso e queria conferir de perto as possíveis mudanças do Uchiha.

— Se você não gostar, posso desfazer. Mas garanto: ele está louquinho pra te ver. — Foram as últimas palavras que ele ouviu Orochimaru dizer antes de adquirir uma distância segura daquela pessoa desprezível.

Dentro de alguns instantes chegou a frente da porta de seu quarto, que encontrava-se entre aberta, provavelmente pela pressa do cientista o qual ele requisitara que verificasse seus aposentos. Empurrou-a com cuidado e constatou que não havia sequer um abajur acesso, mas Madara não se incomodou de ascender a luz. Afinal, enxergava perfeitamente bem com os olhos violetas a postos, e não intencionava desfazê-los até ter certeza que Orochimaru falara a verdade.

Sasuke estava dormindo, enrolado em seus lençóis, ressonando de leve enquanto abraçava um travesseiro. Ele estava coberto até a cintura, mas Madara conseguia perceber que o garoto encontrava-se nu debaixo da fina camada de seda escura. Com aquela visão particular, ele não pode deixar de recordar de Izuna e Itachi, pois ambos, cada qual a sua maneira, costumavam esperá-lo em sua cama nas mesmas condições.

Seu coração doeu um pouco, mas ele aproximou-se de Sasuke, deixando as lembranças no passado, ao menos por hora. Caminhou com passos silenciosos, mas mesmo assim fez algum ruído que despertou Sasuke.

O garoto se sentou na cama, mas parecia grogue de sono e um pouco desatento, tentando entender onde estava. Ainda exibia os olhos negros e, por conta disso, os sentidos no seu estado natural de humano. Ele sabia que havia alguém ali, mas não conseguia visualizar quem naquela escuridão.

— Madara? — ele questionou com a voz suave, um tom ouvido por Madara apenas nas noites recheadas de Tsuki no Me. Logo observou o brilho violeta tomar posse da íris de Sasuke, e soube que ele estava utilizando do mesmíssimo truque pra enxergar no escuro.

Ele não falou mais nada, e aguardou em silêncio a aproximação do dono do quarto. Madara chegou bem perto, sentou-se ao lado do garoto e fitou seus olhos, mantendo as feições estóicas à postos, indicando que aguardava algum tipo de explicação.

Afinal, não era nem um pouco normal no relacionamento dos dois Sasuke o esperar daquela forma num retorno de viagem, como se oferecesse um convite para uma noite de sexo. Geralmente ele o visitava depois de tomar Tsuki no Me, mas definitivamente não era o caso; se fosse, ele o chamaria pelo nome de Itachi.

— O que está fazendo aqui Sasuke? — o mais velho questionou com a voz neutra depois de se cansar do silêncio nada esclarecedor.

Sasuke olhou nervosamente para os pontos escuros do quarto, tentando criar coragem e escolher as palavras certas para responder. Depois de poucos segundos, voltou sua atenção para Madara, encarando-o de frente numa provável tentativa de transparecer seriedade.

— Eu... Eu estive pensando a madrugada toda de ontem pra hoje. — Ele respondeu, um pouco envergonhado — Eu cheguei a conclusão que estava encarando as coisas do jeito errado.

O mais velho procurou qualquer sinal de mentira na expressão de Sasuke, mas não encontrou nada além da mais genuína sinceridade.

— Prossiga. — ordenou com a voz rouca e ansiosa.

— Eu não sei Madara, eu não sei explicar, mas parece que tudo fez sentido de uma hora pra outra. — Sasuke falou com seriedade, levando as mãos ate o rosto do mais velho com um pouco de receio de ser rejeitado. Madara, no entanto, cobriu as mãos de Sasuke com as suas e acariciou-as de leve, encorajando-o a continuar a falar — Como que eu passei todos esses meses me martirizando por achar que amava aquele assassino? Tudo parece tão claro agora... Você estava certo Madara, ele não passa de um mentiroso, egocêntrico, egoísta. Não há como amar uma pessoa como aquela. Eu consigo entender o que sinto agora.

Orochimaru... Você só pode ser um mago mesmo... — ele pensou, não conseguindo conter o sorriso de satisfação que brotava vagarosamente em seus lábios.

— Então você abriu os olhos finalmente. — Madara respondeu, e antes que pudesse falar qualquer outra coisa, Sasuke o puxou para um beijo.

Beijar não era algo que faziam costumeiramente; beijar era algo totalmente surreal quando se encontravam no seu estado natural. Eles até transavam sem o efeito da droga (e Madara tinha que confessar, sem Tsuki no Me o sexo com Sasuke era o mais violento e impúdico que ele poderia fazer com alguém), só que nunca chegavam a trocar beijos, talvez por considerá-los íntimos demais, ou associá-los com sentimentos.

Beijos entre os dois, de qualquer natureza, só aconteciam quando eles estavam sob os efeitos de suas fantasias geradas pelo Tsuki no Me ou no período de transição entre a realidade e o sonho, e ainda sim Madara imaginava o beijo de Izuna quando Sasuke o beijava naquelas circunstâncias. Por conta disso, ele sentiu como se fosse a primeira vez, ao menos de forma totalmente consciente, que beijava Sasuke.

Sim, era diferente, não pode negar. Era reconfortante, era saboroso, Sasuke conseguiria suprir, ao menos superficialmente, o buraco em seu peito. E por um momento ele teve que agradecer Orochimaru ao menos em sua consciência, porque era um verdadeiro presente ter um conforto como aquele em seus braços.

Madara abraçou Sasuke e aprofundou o beijo, mas logo o Uchiha mais novo o interrompeu.

Para Sasuke, beijar Madara não foi o que ele imaginava. Bom, de qualquer forma, não era como se ele gostasse de beijar as outras pessoas. Sempre tivera problemas com esse tipo de contato, a não ser com Itachi, mas pensar em beijar Itachi novamente o dava ânsia de vômito naquele momento. E daí que ele e Madara não combinavam no beijo? Não era nada que não pudessem resolver com o tempo. Ele entendia Madara, os dois queriam a ruína de Itachi e, de certo modo, ele desejava Madara para si, fisicamente e emocionalmente.

Ele não queria se questionar como os sentimentos mudaram daquela forma. Era reconfortante sentir o que sentia, era muito melhor do que aquela paixão cega e dolorosa que tinha anteriormente por Itachi, não havia necessidade de maiores especulações. A sua nova maneira de enxergar o mundo se mostrou mais apropriada e reconfortante; Sasuke não achava prudente brigar contra algo que era bem mais simples de se vivenciar.

— Eu repensei sua proposta. — o jovem murmurou, depositando um pequeno selinho nos lábios de Madara, antes de se afastar o suficiente para encará-lo de perto mais uma vez — Sobre ficar com você depois que tudo acabar.

— É? — o mais velho perguntou de maneira retórica, descendo seus lábios ao pescoço de Sasuke e chupando sua pele com devoção. Ao mesmo tempo, puxou o corpo do outro para o seu colo, e logo que se sentiu as pernas de Sasuke ao redor de sua cintura, tratou de levar uma de suas mãos a ereção recém desperta de Sasuke, enquanto a outra tentava abrir de forma desajeitada suas próprias calças.

— Uhum... — o Uchiha mais novo suspirou dengosamente, descansando o rosto no ombro de Madara enquanto se deliciava com a masturbação firme e dolorosamente lenta.

— E a que conclusão chegou? — Madara sussurrou docemente ao ouvido do garoto, se animando cada vez mais com essa nova perspectiva.

Claro, não seria irônico de dizer que não gostava da transa animalesca que geralmente tinha com Sasuke, mas já fazia muito tempo que ele desejava um sexo mais emotivo em sua vida. Ele tinha isso com Itachi, mas desde que o relacionamento dos dois começou a desandar, esse tipo de intimidade foi se tornando cada vez mais fria, de modo que transar com Itachi ou com um prostituto não faria diferença alguma – não havia envolvimento passional.

Se Sasuke estava disposto a lhe conceder paixão, sem drogas, apenas paixão e nada mais, como ele conseguiria negar? Madara era humano, afinal de contas, e como todo humano sentia-se carente não apenas de contato físico. Ele necessitava de mais, e essa noite, depois de muito tempo de abstinência, sentira-se desejado de verdade.

Porra, ele merecia uma folga também, não é?

— Vamos Sasuke, me diz: o que decidiu? — mordeu o lóbulo da orelha do jovem enquanto sussurrava.

Sasuke gemeu dengosamente, de fato se sentindo envolvido pelas carícias de Madara, mas ainda conseguiu forças para se afastar por breves segundos. Queria deixar seu ponto bem claro, para que pudessem começar da maneira certa de uma vez por todas.

— Vamos tentar Madara. — ele disse com seriedade, gemendo baixinho depois de uma pequena pressão que Madara fizera com o dedo na cabeça de seu pênis, provocando-o — E-eu me sinto atraído por você e disposto a continuar do seu lado mesmo depois que tudo acabar, desde que você poupe a vida das pessoas que são importantes pra mim. Deixe Naruto e Kakashi fora disso, e eu serei somente seu.

Madara sorriu um sorriso sincero, um dos raros sorrisos que dava desde a morte de Izuna. Estava extremamente satisfeito com isso. Sasuke não era Itachi, consequentemente não era Izuna, mas Sasuke bastava. Ele faria bastar.

E só uma coisa era necessária pra tornar tudo ainda melhor...

— E Itachi? — Madara questionou, segurando a respiração ao aguardar uma resposta.

Sasuke não respondeu com palavras inicialmente: estalou a língua nos dentes demonstrando impaciência. Madara deixou uma pequena risadinha escapar, agarrando o outro para mais perto de si e unindo suas testas enquanto fitava com cuidado cada detalhe na íris de Sasuke, tão igual a sua com aquela cor arroxeada.

Eles finalmente se tornaram semelhantes. Em quesito de força, poder, e motivação.

— Itachi pode jazer trinta palmos abaixo da terra, ou boiar no seu tanque de acido, eu não ligo. — Sasuke respondeu, imitando seu sorriso satisfeito e sarcástico. — Desde que seja eu quem presencie seu último suspiro. O idiota me fez prometer isso, e eu estou mais do que a fim de realizar essa promessa.

O peito de Madara se inflou de orgulho e tudo que ele mais desejava nesse momento era arrancar suas roupas e possuir Sasuke para si como jamais Itachi conseguiria possuí-lo novamente. O agarrou pelos cabelos e lambeu seu pescoço de uma forma obscena, até seus lábios chegarem próximos ao ouvido de Sasuke mais uma vez.

— Esse é meu garoto. — Madara sussurrou sensualmente e Sasuke suspirou, levando suas próprias mãos ao zíper de Madara para acelerar as coisas; céus, como queria sentir o outro naquele momento e selar de uma vez por todas esse acordo!

Sasuke e Madara só deixaram de sorrir quando seus lábios se encontraram mais uma vez e, desta vez com o mesmo objetivo final, dividiram prazeres carnais durante horas a fio, sem qualquer arrependimento posterior.

... Continua ...


* Só pra deixarem vocês um pouco mais relaxados: não, Konan não teve um aborto. Sangrar durante a gravidez acontece em alguns casos, o que indica que a gravidez não será fácil. Eu sei a causa do sangramento da Konan, porque eu sou a autora da fanfic e andei pesquisando um pouco sobre gravidez complicada, mas tudo que vocês devem saber agora é que ela continua grávida, mas não está muito bem. Ok?


N/A: E aí? Tem algum leitor meu que não quer me matar nesse momento? Hahahaha! Paciência leitores, paciência... Não tem a mesma graça sem as reviravoltas. xD