Disclaimer: Os personagens da fanfic pertencem a Masashi Kishimoto, a trama, no entanto, me pertence.
Warnings: linguagem chula, violência, mortes, tortura, cenas explícitas de sexo homossexual e relações incestuosas.
N/A: Olá leitores! Feliz ano novo (bem atrasado)!
Eu sei que demorei bastante pra atualizar dessa vez, se não me engano atualizei Haunted a última vez no começo de dezembro. Bom, eu preciso ser sincera aqui: não foi culpa de falta de participação, alias vocês foram uns amores na última atualização, muito obrigada!
Eu tive problemas pessoais e profissionais desde dezembro até agora. Na verdade, alguns desses problemas eu ainda não solucionei, mas estou trabalhando nisso. Eu até voltei a fazer terapia, algo que não fazia desde a época de "Pride and Joy", e sei que logo me "encontrarei" novamente em uma questão de tempo. Eu já estou bem melhor do que estava em janeiro, por exemplo.
Aliados a essas preocupações, eu sofri diretamente com o final de Naruto. Eu fiquei muito decepcionada, muito mesmo. Quem me acompanha no facebook ou tumblr sabe disso. Eu nunca chorei de decepção com o final de alguma obra que acompanhei, mas aconteceu isso com Naruto e isso me afetou diretamente na escrita de Haunted, porque querendo ou não Haunted tem muitos elementos do mangá transformados em universo alternativo. Pra ser sincera, eu também fiquei morrendo de medo de vocês me abandonarem por causa do Kishimoto (por favor, não façam isso!), e isso me travou ainda mais.
Pra contornar essa situação, eu comecei a escrever "Owari", que é uma fanfic pós-serie que eu estou fazendo, universo mangá e se passa depois do capítulo 700. Com Owari, eu comecei a aceitar o final de Naruto (criando uma continuação que me agradasse) e me entender melhor com essa decepção, e voltei a produzir Haunted. Se você também está com dificuldades de aceitar o final de Naruto, recomendo acompanhar essa fanfic para também exorcizar tal fantasma junto comigo. Ela também está em reta final, farei apenas dois capítulos e a darei como encerrada.
"Elysium" também me ajudou muito a retomar a escrita de Haunted, porque é uma fanfic de comédia, e fanfics de comédia me animam e me deixam mais apta a escrever drama. É por isso que de tempos em tempos eu faço oneshots ou shortfics de comédia e/ou lemon, pois isso quebra o clima pesado de Haunted do meu dia a dia (apesar de eu brincar com vocês que 'gosto de fazer os personagens sofrerem', eu não gosto não e isso me deixa deprimida as vezes). Então nunca pensem que essas outras fanfics atrapalham Haunted, pois sem elas eu não conseguiria continuar tão facilmente.
Em Elysium eu faço uma proposta de próxima longfic e pergunto a vocês o interesse ou não de ler algo assim. Como Haunted está acabando, precisamos pensar nisso. Quem tiver interesse em ler nova longfic minha, dê uma olhada em Elysium e leia as notas finais, sim?
De qualquer forma, eu só quero deixar claro que nem Owari nem Elysium atrasaram Haunted, muito menos a participação dos leitores. O que atrasou foi o fim de Naruto e os meus problemas pessoais. Além, é claro, da dificuldade que é fazer o final de Haunted, por causa dos detalhes — eu preciso ler muita coisa da fanfic antes de escrever pra não deixar falhas de plot, ainda mais em capítulos puramente regados de enredo como os capítulos finais.
Mas eu estou aqui agora. =) Desculpa pela espera, eu não vou desistir de Haunted, então não desistam de mim e da fanfic! o/
Teremos vários Gaidens nesse capítulo. Gaidens não são flashbacks propriamente ditos, pois a cena não se passa apenas no ponto de vista do personagem que está contando a história. Por isso, Sasuke vai contar algumas coisas, mas mesmo assim teremos a descrição dos sentimentos de outros personagens nesse passado.
E um beijo imenso a todos que comentaram *abraça* vocês me ajudam mais que imaginam.
Boa leitura!
HAUNTED
Capítulo XLIII
Itachi não sabia ao certo quanto tempo havia se passado naquela troca de beijos, mas mesmo sabendo no seu íntimo que deveriam correr daquele lugar o quanto antes, ele não conseguia parar. Os lábios de Sasuke contra os seus lhe causaram uma sensação de euforia tão grande que as dores físicas e emocionais que sentia pareciam cessar totalmente. Ele não pensava em mais nada, não parecia recordar-se dos problemas: tudo que fazia sentido na sua cabeça era o fato de que ele encontrara seu paraíso de novo.
Foi diferente de todos os beijos que os dois trocaram até então, mil vezes mais intenso, e o ex-Akatsuki não entendia a súbita mudança. Não estava nem um pouco preocupado em entender; ele só queria sentir, nada mais interessava no momento. E se Sasuke o beijava daquela forma tão intensa, significava que o seu amor o aceitou de volta.
Isso era muito mais do que ele podia esperar!
Quando Sasuke encerrou o beijo com um estalo, Itachi logo se inclinou para frente e tentou beijá-lo novamente, mesmerizado demais para impedir que a carícia terminasse tão cedo. O caçula riu pelo nariz e permitiu um selinho breve, mas logo se afastou de vez, mantendo a boca de Itachi longe da sua com a pegada firme em sua mandíbula. Todavia, uniu sua testa à dele numa demonstração de ternura comedida, apreciando os cílios longos de Itachi, desejando que ele abrisse os olhos para fitá-lo. Mas o primogênito os mantinha fechado, suspirando fundo e aparentando sonhar.
Bem, na cabeça de Itachi, ele definitivamente estava sonhando...
— Olhe pra mim... — Sasuke pediu com doçura, e o outro Uchiha balançou a cabeça brevemente em negação, levando sua mão saudável para o rosto do mais novo e tateando-o com a ponta dos dedos.
— Eu não posso. Eu não quero acordar.
Sasuke costumava considerar Itachi como alguém superior: forte, determinado, treinado — uma arma mortífera, um homem a ser temido por qualquer pessoa. Outrora, constatou que ele próprio era quebrado demais para um dia ser mais forte do que Itachi, em qualquer sentido, não apenas no sentido físico. Mas agora, ao ver o desespero de Itachi em manter seus olhos fechados e tremer daquele jeito, Sasuke percebeu que Itachi com toda certeza sofreu muito mais do que ele em sua vida: Itachi era sim muito forte por ter sobrevivido a tanto abuso, não havia dúvidas disso, mas ele estava vulnerável, e Sasuke tinha um verdadeiro desejo de protegê-lo como Itachi sempre o protegeu.
Talvez seja a minha vez de fazer uma "dívida de honra". E, desta vez, uma dívida de honra verdadeira. — ele pensou, revivendo momentaneamente os primeiros encontros que tivera com Itachi e relembrando dessa falsa promessa que lhe fora oferecida. [1]
— Abra os olhos, não é um sonho. Eu tenho que te dizer tantas coisas... — Sasuke falou com o mesmo tom de voz doce de outrora, acariciando as maçãs do rosto de Itachi para lhe transparecer confiança.
O Uchiha mais velho respirou fundo e abriu os olhos, fitando o olhar suave de Sasuke e sentindo seu coração disparar de uma forma que chegava a ser dolorosa: o caçula não sorria abertamente, mas parecia feliz com um repuxar singelo nos lábios e um brilho estonteante no olhar. Ele estava corado, quente e satisfeito.
— Eu senti sua falta... — Itachi sussurrou, tentando se recordar da última vez que vira uma expressão como essa no rosto do outro.
Concluiu que, por mais que claramente visse felicidade no olhar de Sasuke quando os dois começaram a se envolver, nunca o vira tão confortável como naquele momento. Era uma expressão inédita, e extremamente especial: era uma honra para Itachi ter o prazer de ver Sasuke tão pacífico como naquele momento.
— Eu senti sua falta também, mais do que você imagina. — Sasuke murmurou, acariciando a ponta do nariz do outro com o seu próprio nariz, num gesto de ternura tão suave e inocente que Itachi chegava a desconhecer.
Madara nunca o fizera se sentir assim, nunca se esforçara para trocar carinhos como esse. Era a primeira vez que alguém o tratava com tamanha gentileza, e isso o fez concluir que gostava muito da mudança de comportamento de Sasuke; mesmo com as diferenças, ele sabia que a essência de seu irmãozinho estava ali, ele só parecia mais aberto para expressar seus sentimentos. Itachi ainda não sabia o porquê dessa mudança, mas estava satisfeito.
No entanto, não pôde se sentir realizado com isso por muito tempo, pois logo sentiu uma dor violenta em seu ombro e deixou um ruído de surpresa e dor escapar da sua garganta. Desesperado, quase se colocou na posição de ataque novamente, mas então ele fitou Sasuke e percebeu que ele inspecionava o seu ombro, apertando-o com cuidado.
Sasuke havia colocado seu ombro no lugar. E, mesmo com muita dor, Itachi conseguia mexer seu braço novamente. Isso era impressionante e surpreendente!
— Como... como você-...!?
— Itachi, escute com atenção, pois nós temos pouquíssimo tempo pela frente. — Sasuke falou de forma decidida, e Itachi viu um pouco de si mesmo em Sasuke naquele momento: pelo menos era mais ou menos daquela forma que sua voz soava quando ele pretendia conversar algo sério.
É... DNA é algo bastante forte mesmo.
Havia muitas perguntas a serem feitas, sua cabeça fervilhava em questionamentos; mas Sasuke parecia decidido em falar, e ele estava pronto para ouvir. Respondeu com um aceno positivo de cabeça, e o Uchiha mais novo suspirou fundo antes de começar um monólogo extenso e extremamente relevante.
(Sete anos atrás)
.x.x.x.
Ele a beijou. Não era seu primeiro beijo, nem era o primeiro dela, muito menos um dos primeiros que trocavam, mas ainda sim ele conseguia se surpreender cada vez que eles aconteciam. Não por serem únicos, especiais ou qualquer besteira do gênero que alguém pudesse ler numa história batida de romance: mas porque eram saborosos, e, acredite, para alguém como Sasuke, o achar alguém que o beijasse de uma forma que ele consideraria "saborosa" era muito difícil.
Ele gostava do beijo dela, e isso era o suficiente para fazê-lo manter aquele relacionamento por um tempo relativamente longo. Não era apaixonado, tampouco tinha planos futuros para os dois, mas sua companhia o agradava no momento, bem como seus beijos e seu corpo — era muito além do que ele conseguia com outras garotas e, por ora, teria que bastar.
Sasuke sabia que ela pensava diferente; ele via em seus olhos exóticos e avermelhados que ela estava apaixonada. Mas ele não mentia, e ela não se enganava. O que eles tinham era um passatempo, uma amizade colorida, e de lá nada sairia além de uma amizade mais intensa, se ela conseguisse deixar essa paixão de lado com o tempo.
— Sasuke... — ela murmurou, se aninhando um pouco mais para perto dele, entrelaçando suas pernas em recebendo um abraço afetuoso em retorno — Orochimaru quer que a gente volte antes das onze.
— Hn... — Sasuke respondeu, desistindo do contato e empurrando-a de leve, sentando-se na cama e passando a mão em seu rosto assim que sentiu sua cabeça latejar um pouco. Era bom saber que Orochimaru desejasse vê-lo tão rapidamente, pois ele estava precisando do tipo de alívio que somente essa pessoa podia lhe proporcionar — Então vamos sair agora. Eu prometi pro Naruto que deixaria o quarto aberto em meia hora, ele vai gostar de entrar antes.
Ela deu uma risadinha breve e roubou-lhe um selinho, depois levantou da cama e se vestiu, não sentindo vergonha alguma de sua nudez.
Ela nem tem por que se sentir insegura. — Sasuke concluiu mentalmente, apreciando a forma como ela se inclinava para baixo para vestir a calcinha e, por um instante, pensou que deixar Orochimaru esperando. Talvez não fosse uma ideia tão ruim assim prolongar um pouco aquela noite...
— Em pensar que da última vez Naruto quase flagrou a gente. — ela comentou, virando-se de frente para Sasuke e tirando-o de seu transe apreciativo — Vai ser bom sair antes de ele bater na porta do quarto.
— É verdade, isso foi uma merda. — Sasuke concordou, puxando suas calças que ele nem havia se incomodado de tirar totalmente durante o sexo, e afivelando seu cinto antes de sair debaixo do cobertor e procurar sua camisa — Ele tá achando que eu 'tô saindo com a Tayuya. [2]
— O quê?! — ela respondeu, indignada, cruzando os braços; ele sorriu de canto de boca, achando divertida a indignação dela — E de onde ele tirou um absurdo desse?
— Ele encontrou um fio de cabelo seu na minha cama aquele dia, e achou que era dela. Porque diabos ele pensou que eu fosse sair com a Tayuya, eu não faço ideia.
Ela detestava Tayuya, não era atoa que havia se ofendido por Naruto tê-la confundido com a outra ruiva da "vida" de Sasuke.
— E você negou, não negou? Você podia ter dito que era da Kushina, que ficou na cama quando ela arrumou.
Sasuke ficou quieto uns instantes, surpreso pela ruiva mencionar sua tia na conversa. Afinal de contas, sua família era uma espécie de tabu entre eles, e ela nunca trazia o nome deles à tona, apesar de ele saber muito bem os motivos pra tanta dificuldade em tratar sobre o assunto.
— Óbvio que não. — ele respondeu, tentando não entrar no mérito do assunto familiar — Quanto menos ele souber, melhor. Ele que pense que é a Tayuya, pra mim não tem problema.
Ela fez uma expressão levemente contrariada, mas no fim estalou a língua nos dentes e vestiu seu sutiã, colocando sua blusa em seguida.
— Eu tenho que ir ao banheiro antes da gente ir. — ela anunciou.
Sasuke colocou a camisa rapidamente e abriu a porta do quarto com cuidado, espiando pela fresta para o corredor.
— Pode ir, 'tá todo mundo na sala. — ele disse bem baixinho, atraindo-a com um gesto de mão.
— Eu já sabia disso, Sasuke. — respondeu, girando os olhos. Às vezes ela se perguntava se Sasuke fazia essas coisas para irritá-la, ou se realmente se esquecia de sua habilidade com os sentidos aguçados.
Quando ela estava saindo do quarto, ele a segurou pelo pulso, e murmurou baixinho:
— Seja rápida, Karin. Nada de espiar.
Ela concordou com um gesto de cabeça e correu para o banheiro.
Sasuke aproveitou o tempo a sós para arrumar o quarto e se desfazer dos vestígios que entregavam suas últimas "atividades" no quarto: pegou a camisinha usada e o pacotinho e amassou uma folha de caderno ao redor dos objetos, escondendo-os no fundo do lixo do quarto. Arrumou a cama brevemente (tentando ao máximo se desfazer de todos os fios de cabelo de Karin) e, por fim, sentou-se, aguardando o retorno da ruiva.
Quando a porta se abriu, Sasuke olhou para a porta, crente de que encontraria Karin ali. Mas seu sangue gelou quando ele viu a pessoa que menos desejava encontrar no momento naquele quarto: Kushina Uzumaki.
Ele engoliu em seco e ela entrou no quarto, fechando a porta e olhando-o com curiosidade.
— Achei que tinha ouvido você ir ao banheiro, Sasuke-chan.
Ele arregalou os olhos, colocando-se de pé e tentando fazer seu cérebro funcionar rapidamente antes que ela descobrisse a verdade, mas nada que ele pensava conseguiria encobertar Karin. Sasuke estava tão apavorado com a perspectiva das duas se encontrarem que nem se incomodou com o sufixo "chan" que sua tia insistia em manter quando se dirigia a ele.
— E-eu...
Mas antes que ele pudesse inventar qualquer mentira deslavada, a porta se abriu uma segunda vez e Karin entrou no quarto, só se dando conta de que Sasuke não estava sozinho quando já era tarde demais. O Uchiha a fitou com verdadeira descrença, como se questionasse "onde diabos estão seus super-sentidos mesmo?".
Mas Karin estava surpresa demais para perceber essa singela acusação.
Kushina virou-se para ela, arregalando os olhos em surpresa, e Karin empalideceu instantaneamente. Sasuke achou que ela fosse desmaiar, e deu inconscientemente um passo para perto, pronto para segurá-la caso fosse necessário.
— Uma garota! — Kushina murmurou entre uma risadinha, cobrindo a boca e puxando Karin pelo braço e apreciando seu rosto com entusiasmo, curiosa para vê-la mais de perto — Sasuke-chan, você já está trazendo garotas pra cá, você cresceu mesmo hein! Qual é seu nome, princesa?
Sasuke viu os olhos de Karin brilharem como se ela estivesse prestes a chorar e, em vez de responder, ela deu um soluço contido, suplicando pela ajuda do Uchiha com um olhar extremamente desesperado. Ele obedeceu ao seu pedido e se aproximou das duas, puxando o braço de Karin e tirando-a de perto de Kushina, que parecia perdida diante desta reação.
— O nome dela é Karin, tia. — Sasuke disse, puxando a garota para perto e deixando-a se esconder parcialmente atrás de si. Sentia a maneira como ela estremecia sobre o toque de sua mão, sabendo que evidentemente era resultado do encontro inesperado com a mãe de Naruto — Ela tem pais muito conservadores e está com medo de que eles descubram que estamos juntos, pois eles não permitem encontros antes do casamento. É por isso que estamos escondidos agora. Naruto sabe que eu estou com alguém, mas não sabe que é a Karin.
Sasuke mentiu com tanta facilidade que Karin até parou de tremer, surpresa por quase não detectar a mentira em seu tom de voz; certamente Kushina não perceberia essa pequena nuance. [3]
Dito e feito, Kushina caiu na mentira e relaxou a expressão de seu rosto, sorrindo para a ruiva a sua frente com doçura.
— Oh Karin, não tem porque ter medo, eu não vou contar nada pra ninguém. Sasuke sabe que eu sei guardar segredos, não é? — ela disse, dando uma piscadinha para o garoto, que corou veementemente.
Kushina realmente sabia guardar segredos, ela sabia de cada coisa constrangedora sobre ele que sequer admitia a existência desses acontecimentos (Kushina tinha um radar potente para encontrar seus garotos em situações constrangedoras). Mesmo estressada como andava nos últimos anos, ela ainda tinha cabeça para tirar sarro dele de tempos em tempos.
— M-me desculpe, Sra. Uzumaki. — Karin murmurou, voltando a tremer de leve — E-eu estava de saída. Desculpe por entrar em sua casa sem seu consentimento.
— Ora, que bobagem! — Kushina respondeu, balançando a mão em um gesto de despreocupação — Essa é a casa de Sasuke também, visitas dele são sempre bem-vindas. Eu só gostaria que você não precisasse pular a janela pra entrar aqui, pois eu não vejo nada de errado em você entrar pela porta da frente.
— Não! — ela murmurou, assustada, e Sasuke lhe deu uma discreta cotovelada no canto da barriga para que ela continuasse a farsa — Q-quero dizer: por favor, Sra. Kushina, eu não quero que Naruto saiba. Quanto menos gente souber, melhor pra mim.
A Uzumaki avaliou a situação, mas Sasuke lhe lançou um olhar de súplica que a fez decidir não insistir no assunto.
— Hm... Ok, se vocês preferem assim, o segredo está guardado. — ela disse, piscando animadamente e olhando pra Sasuke com uma cara de que teria conversa sobre uso de preservativos em breve com ele — Eu vou voltar pra sala então, mas gostaria de conversar melhor contigo em outra ocasião, sim?
— C-claro... — Karin respondeu, forçando um sorriso amigável em seus lábios.
Satisfeita, Kushina acenou para os dois, saindo do quarto.
Assim que ela fechou a porta, as pernas de Karin falharam e Sasuke teve que segurá-la pelo braço para ela não cair sentada no chão. A garota chorava silenciosamente, e ele a ajudou a sentar-se na borda da cama enquanto tinha seu rompante emocional, permitindo-a desfalecer por alguns minutos.
— E-ela... e-ela me viu Sasuke. Ela é tão linda, tão gentil... — Karin murmurava, assombrada.
Sasuke sentiu grande pena de Karin naquele momento, mas não sabia ao certo o que deveria falar. Ele não tinha o dom de consolar pessoas, e se não conseguia fazer isso nem com Naruto, imagina com uma garota. Por isso, abraçou-a e deixou-a chorar em seu peito, tentando passar um pouco de conforto pra ela.
Sasuke sabia a verdade. Karin até tentou esconder no começo, mas com as conversas com Orochimaru logo ele descobriu. Karin era filha biológica de seus tios, irmã de Naruto, mas eles não sabiam da existência dessa garota, pois ela foi gerada em barriga de aluguel. Orochimaru nunca escondeu esses detalhes de Sasuke, deixando bem claro que tentou usar Karin como moeda de troca para ter acesso ao seu DNA, mas que Kushina e Minato não aceitaram a troca, e era por isso que Kushina estava tão entristecida nos últimos tempos. Ela sabia que tinha um filho perdido, mas não era capaz de colocar a integridade física de Sasuke em risco para ter acesso a ele, e então o acordo não fora feito.
Era de se esperar que Karin se sentisse ofendida por isso, mas ela considerou o ato nobre e ficou feliz por Sasuke estar em uma família que o considerava tanto. Mas agora que Sasuke já sabia da verdade, pretendia consertar essa situação e negociar com Orochimaru.
Era por isso que ele aguentava Orochimaru; mais cedo ou mais tarde, ele conseguiria o que desejava, era só uma questão de tempo. E Sasuke faria o que fosse necessário para dar esse presente aos tios, pois essa seria só a primeira demonstração da gratidão que Sasuke sentia por eles terem o aceitado dentro de sua família.
— Karin, se acalme, nós temos que ir. — Sasuke murmurou, ainda sem jeito, tentando se afastar do abraço.
— Ok... — Karin fungou, limpando seus olhos por baixo dos óculos e retirando-os brevemente para limpar o vidro repleto de gotículas de lágrimas.
Os dois saíram pela janela e Karin suspirou fundo enquanto ambos andavam na rua, tentando se acalmar ao máximo antes de encontrar Orochimaru. Ela se sentia melancólica e triste, entendendo as intenções de Sasuke ao comparecer nessas reuniões e sabendo que ele não seria bem sucedido em seus objetivos — mas ela não podia contar isso pra ele, infelizmente.
Sasuke queria retribuir o amor da família Namikaze-Uzumaki e, por isso, oferecia seu DNA e era cobaia das pesquisas de Orochimaru, acreditando que Karin seria liberta e poderia conviver com seus tios em breve. A ruiva achava tudo muito simples pra dar certo e, como já conhecia Orochimaru desde menina, sabia que dificilmente ela teria esse final feliz.
A luta de Sasuke era em vão, pelo menos no que tange ao bem estar dela.
— Tem alguém nos vigiando agora? — ele perguntou depois de um longo período de silêncio; Karin negou com um aceno de cabeça.
Sasori, membro da Akatsuki, vigiava Sasuke frequentemente, mas ele não estava no seu posto no momento. Era uma das raras noites que tinham a sós, e isso era muito conveniente, pois seria complicado se Sasori visse o desespero emocional dela ainda pouco. Com toda certeza ele perceberia que ela não era uma simples "garota comum" do universo de Sasuke.
Karin sabia quem Sasori era, mas ele não fazia ideia de quem ela era. E, apesar de ele estar demonstrando atos que indicariam uma possível traição contra Madara, era melhor não arriscar a sorte.
Sasuke relaxou visivelmente e, um pouco mais calmo e feliz por Karin ter parado de chorar, segurou na mão dela enquanto caminhavam, olhando sempre a frente, com a preocupação de alguém flagrar os dois juntos. A Uzumaki sabia que o gesto era de conforto e não amoroso; ainda sim, sentiu seu coração bater forte; Kushina saiu de seus pensamentos, os quais logo ficaram repleto de "Sasuke" e sonhos impossíveis.
.x.x.x.
Chegaram à mansão antes do esperado. [4] Sasuke surpreendeu-se ao ver que Jiroubou, Kidoumaru, Sakon, Ukon e Tayuya já estavam presentes, cada qual cuidando de seus afazeres envolvendo os "negócios" de Orochimaru.
Karin lançou um olhar irritado para Tayuya, que mais do que rapidamente respondeu à afronta erguendo o dedo do meio, se contendo para não xingá-la até a próxima encarnação apenas porque Kabuto já aplicava algumas doses da droga nela.
— Sasuke, chegou cedo. — a voz arrastada de Orochimaru foi ouvida pelos demais presentes, e Sasuke se virou em direção ao sofá que o mais velho costumava sentar durante aquelas reuniões — Não achei que estivesse tão ansioso para voltar.
O Uchiha trincou os dentes, irritado por estar, mais uma vez, na presença de Orochimaru.
Karin, que já mantinha uma distância segura dele antes de entrarem no bairro em questão, aproximou-se do mais velho e sentou-se ao seu lado, descansando sua cabeça no ombro dele e fitando Sasuke com um pedido silencioso de "não briguem".
Orochimaru, apesar de compreender que Karin tinha sentimentos por Sasuke, não sabia que eles tinham um envolvimento físico. Se soubesse, provavelmente a proibiria de encontrá-lo; porque ele não queria colocar a lealdade dela em cheque, caso fosse necessário. Sasuke tinha certeza que era assim que a cabeça de Orochimaru funcionava; todavia, apesar de todos os pesares, Karin gostava de Orochimaru, e o Uchiha não entendia como isso era possível, já que ele o considerava uma das pessoas mais asquerosas que conhecera em sua vida.
— Eu só vim para receber mais uma dose. — Sasuke murmurou, abrindo e fechando os pulsos, controlando seus nervos e se consolando ao lembrar-se de que logo estaria dopado demais pra sentir raiva de Orochimaru; ou de qualquer outra coisa.
— Mas é claro que sim. — ele respondeu, com um sorriso torto a postos.
Abraçou Karin com um braço apenas, brevemente, como se a cumprimentasse, mas logo se levantou, deixando-a sozinha no sofá e andando em direção ao corredor. Fez um gesto para que Sasuke o seguisse, e logo os dois caminharam lentamente entre as demais pessoas presentes, dirigindo-se para um dos quartos particulares mais distantes da sala de estar.
— Não sei por que ele recebe tratamento VIP. — Jiroubou comentou baixinho para Kidoumaru assim que a dupla passou ao lado deles, mas falou alto o suficiente para que Sasuke ouvisse — Ele deve ser uma puta de primeira na cama pra Orochimaru escolher sempre ele.
Sasuke sentiu seus punhos tremerem de raiva e seu rosto corar pela insinuação, mas Orochimaru o censurou com o canto de olho, deixando claro que não iria tolerar brigas naquele momento. Sabendo que deveria dançar conforme a música, seguiu seu caminho, fingindo não ter ouvido aquela audácia.
— Se eu fosse você, não provocava o Uchiha. — Kidoumaru respondeu, descansando a cabeça na parede e sentindo o efeito da droga alastrar pelo seu corpo — Ele é o que mantém o fornecimento, então cala a boca. 'Tô nem ai pro que ele e Orochimaru fazem, desde que a gente ainda receba o pagamento.
Jiroubou fez um ruído irritado, mas não levou a discussão adiante, provavelmente porque já estava se perdendo nos efeitos da droga.
A gangue do som, como era conhecida, não era nem de longe uma gangue estudantil organizada ou, em algum aspecto, unida. Sasuke liderava o movimento, mas apenas porque ele era o passaporte para as drogas de Orochimaru e, por conta disso, Jiroubou, Kidoumaru, Sakon, Ukon e Tayuya o seguiam e faziam serviços sujos, se necessário: tudo para poderem frequentar abertamente a mansão de Orochimaru e participarem do projeto de pesquisa com pagamentos em drogas.
Dentre os "membros" da gangue, os que realmente tinham algum laço de companheirismo com Sasuke eram Juugo, Suigetsu e Karin; mas, por raramente fazerem o trabalho sujo, nem sempre eram apontados como membros efetivos da gangue do som. Bem verdade, não eram membros de gangue alguma, eram apenas amigos de Sasuke e não negaram quando essa fofoca surgiu.
Juugo e Suigetsu estudavam numa escola do bairro onde Sasuke morava e, por conta disso, espalhou-se a ideia de que a gangue fora formada nessa escola e que recrutava pessoas de fora, ainda mais depois da liderança clara de Sasuke. Karin estudava na escola de Sasuke, mas o contato deles nas aulas era praticamente inexistente.
Sasuke deixara a fofoca correr, pois pra ele era ótimo: Gaara teria o que temer, e isso já estava de bom tamanho. Gaara também usufruía dos serviços de Orochimaru e realizava os testes com a gangue da areia (essa sim Sasuke sabia ser real), mas era chamado em menor escala e não tinha livre acesso como Sasuke e seus "parceiros de crime" tinham.
Mais especulações sobre o porquê de Orochimaru dar maior abertura para a gangue do som surgiu no submundo estudantil, e até mesmo dentro da suposta gangue do som ficou-se convencionado de que o motivo certamente era os dotes do Uchiha: Orochimaru obviamente tinha algum interesse em Sasuke, e por isso dava a preferência para ele — todos podiam jurar que o interesse era sexual, já que Orochimaru parecia realmente interessado no corpo do garoto, analisando-o de cima a baixo a todo o momento.
Entretanto, essas especulações estavam erradas: Sasuke e Orochimaru não tinham envolvimento sexual algum e o mais velho nunca tentou algo assim. Se Orochimaru analisava Sasuke de cima a baixo, era simplesmente porque ele era sua principal cobaia e exibiria os efeitos colaterais mais importantes para aquela pesquisa.
De qualquer forma, o Uchiha não ligava para o que eles falavam na sua ausência, nem dava a mínima quando ouvia os cochichos nos corredores da escola. Naruto não acreditava nisso e nem seu rival, Gaara, parecia levar a sério esses boatos infundados. Era a opinião deles que importava para o ego do Uchiha, os outros poderiam especular o quanto quisessem no inferno que ele não daria a mínima importância pra isso.
Quando entraram no quarto, Sasuke nem fez maiores delongas, já sabendo o procedimento que deveria se iniciar. Retirou sua camisa e deitou-se na maca, aguardando o exame físico extremamente profissional que Orochimaru sempre fazia nele. Ao ser liberado, sentou em uma das cadeiras a frente da mesa de marfim do médico, que sentou do outro lado da mesa e acessou algumas planilhas de dados do computador.
Orochimaru imprimiu as planilhas, entregando para Sasuke o resultado de seus exames semanais.
— Você está sofrendo deficiência de cálcio com o uso da droga, e por isso precisa de reposição. — ele murmurou, apontando a porcentagem estatística — No entanto, os efeitos estão cada vez de acordo com o desejado, e sua dependência deve extinguir assim que encontrarmos a dosagem certa de Tsuki no Me para um rapaz da sua idade, tamanho e peso. No momento, você está usando demais, então vamos diminuir a dose em 15% dessa vez.
Orochimaru abriu uma de suas gavetas, tirando de lá um frasco com pílulas vermelhas, entregando-o para Sasuke, que guardou no bolso sem prestar muita atenção no que era aquilo, um pouco afobado para tratar logo sobre os "outros assuntos" com Orochimaru.
— Isso que eu te dei é a nova forma de ingestão de Tsuki no Me. Estamos confeccionado em forma de pílulas, pra evitar compartilhamento de seringas e selecionar precisamente a dose ministrada. — Orochimaru explicou calmamente, observando Sasuke manter a mão em seu bolso, apertando o frasco de pílulas como se sua vida dependesse disso.
Ele já deve estar com um pouco de abstinência. — Orochimaru concluiu, cruzando os braço..
— Os demais continuarão usando a versão injetável, então não conte das pílulas pra ninguém.
— E por que você não usa os outros no teste da nova versão também?
— Os outros testam as impurezas. — Orochimaru declarou, retirando da gaveta os suplementos que Sasuke tomaria junto com a nova dose de Tsuki no Me e entregando sem fazer maiores pontuações para o garoto; isso já era rotina — Nós não temos a intenção de fazer a droga perfeita em sua condição mais pura para o mundo todo. Quando Tsuki no Me for comercializada, haverá lugares que receberão drogas com menor concentração de pureza; o lucro tem que sair de algum lugar, e você não acredita que um usuário qualquer vai usar a mesma pureza que um político de renome, não é mesmo? Além do mais, a versão injetável é mais barata de produzir.
Sasuke, em partes, sempre torcia para o projeto Tsuki no Me não dar certo. Orochimaru teria muito poder em suas mãos, muito mais do que já tinha, se atingisse a dosagem correta da droga e encontrasse o ponto de perfeição. Mesmo com as drogas impuras, como ele costumava chamar, os efeitos colaterais eram ínfimos, e pelo tanto que aquela mansão crescia a cada mês, Sasuke só podia chegar a conclusão de que Orochimaru já estava negociando com alguém a venda dos protótipos.
Os efeitos da abstinência eram simples: vontade relativamente controlável de fazer o uso da droga, irritabilidade intensa depois de uma semana sem uso, falta de concentração e paciência, além da ausência de libido (o que, na opinião de Sasuke, era a pior parte). Ao total, esses efeitos físicos cessavam quarenta dias depois da última dose da droga, o que era fichinha perto dos efeitos de abstinência de outras drogas no mercado. Sasuke sabia o potencial que Tsuki no Me tinha e ele certamente não tinha interesse em parar o uso da droga antes de conseguir seu objetivo.
Afinal, Sasuke não era nenhum santo: já havia experimentando outras drogas, nada muito pesado, mas definitivamente mais perigosas e irreversíveis do que Tsuki no Me. Ele parou de usar as outras por trocá-las por Tsuki no Me, e se parasse de receber a tal droga revolucionária... Bem, quem disse que ele poderia prometer que não voltaria aos hábitos antigos? Sasuke ainda era um adolescente inconsequente e traumatizado (por mais que não admitisse disso), drogas eram convenientes para a mente imediatista de uma pessoa como ele. Ele nunca foi do tipo que usava para festividades ou momentos alegres, e sim para afogar as mágoas e tentar inutilmente se esquecer do quanto sentia falta de Mikoto (e da cena do crime que presenciara quando ainda era menino) — drogas costumam ter um efeito bastante destrutivo em pessoas que a utilizam dessa forma, a perda do controle vinha mais facilmente nesses casos.
Tsuki no Me vetou todo e qualquer efeito de abstinência das drogas anteriores. Parecia até... magia!
Sasuke tornou-se usuário de Tsuki no Me depois de uma proposta do traficante local: Kabuto oferecera uma entrevista com Orochimaru, alegando que ele procurava novas cobaias para testes gratuitos em uma droga revolucionária. Sem muito pensar a respeito, Sasuke aceitou a proposta e logo descobriram que alguma coisa no DNA dele era fundamental para o avanço das pesquisas sobre Tsuki no Me. Além disso, o Uchiha também sabia que seu DNA era usado para experimentos com uma segunda droga, diferente de Tsuki no Me, mas ele não tinha acesso à ela e não sabia detalhes sobre esse projeto.
Karin deixou escapar algumas vezes que essa segunda droga era mais antiga que Tsuki no Me e que tinha maior sucesso e efeitos permanentes, pois havia outra pessoa com o DNA propício para a pesquisa, e o DNA de Sasuke fora utilizado apenas para complementação do projeto. Sasuke sabia que Karin tinha conhecimento dos estudos dessa "outra droga", mas ela não dividia a informação com ele. Ele desconfiava que a super audição de Karin poderia advir dessa segunda droga mas, até então, era apenas uma suposição de sua parte.
De qualquer forma, Sasuke só sabia que seu DNA era importante, e que por isso ele detinha algum poder de barganha com Orochimaru. E, no momento, o homem pálido e assustador o olhava com expectativa, como se esperasse que ele fosse falar alguma coisa a respeito das novas informações.
Bom, agora é a hora...
— Orochimaru, eu estou caindo fora se você não me der uma posição a respeito do que eu pedi. — ele disse, observando a forma como o homem mais velho franzira o cenho perante sua ameaça.
— O que você pediu? — o outro rebateu, com um sorriso prepotente a postos; Sasuke estreitou o olhar, enfezado — Me falhou a memória agora...
Que audácia!
Sentindo-se muito mais irritado do que se sentiria se não estivesse à dias sem Tsuki no Me, Sasuke se pôs de pé em um pulo, pegando a cadeira onde estava sentado e batendo-a com força contra a mesa, finalizando seu momento de descontrole com um chute violento, antes de puxar Orochimaru pela gola da camisa e rosnar em sua face:
— Não se faça de desentendido, você sabe muito bem o que eu quero! E se você não cumprir o acordo, eu estou fora. Consigo aguentar os efeitos por quarenta dias, é moleza.
Orochimaru não pareceu intimidado, mesmo sabendo que, apesar do garoto ser evidentemente mais baixo do que ele, Sasuke era mais forte e poderia oferecer-lhe algum problema caso decidisse partir pra agressão física.
— Se você estiver fora, eu não vou dar mais droga pra sua gangue. — ele concluiu calmamente, dando de ombros — Saiba que em menos de uma semana você vai aparecer completamente espancado na porta da minha casa, pois o efeito colateral neles será pior e eles certamente não vão dar a mínima pro seu moralismo momentâneo. Eles vão te trazer pra mim, visando conseguir mais doses.
Sasuke se calou, finalmente entendendo porque deixava toda a gangue usar as drogas. Não era apenas no "teste de impurezas", ia além disso: no final das contas, eles poderiam ser usados contra Sasuke caso ele pulasse fora do projeto. Orochimaru o tinha na mão, e ele sabia que isso era resultado de sua falha em ter trazido essas pessoas para o consumo da droga.
Relutante, soltou Orochimaru, que brevemente ajeitou a gola de seu jaleco antes de sentar-se em sua cadeira como se nada demais houvesse acontecido.
— Mas nós somos amigos, não somos? — o mais velho tornou a falar, exibindo um sorriso de falsa cortesia, acenando para outra cadeira que estava em frente a sua mesa — Então se sente que vamos ter uma conversa civilizada, com um conteúdo que com certeza é de seu interesse.
Orochimaru retirou algo do bolso interno de seu jaleco e entregou para o garoto: tratava-se de uma fotografia simples, recentemente revelada, que exibia um homem de cabelos compridos, na faixa dos vinte anos de idade, com uma expressão de apatia. A pessoa em questão vestia um kimono e, muito provavelmente, estava em meio a um treinamento de artes marciais.
Sasuke nunca o vira na vida.
— Quem é esse cara? — questionou, pegando a fotografia com as mãos e inspecionando-a com maior cuidado.
— Tem certeza que ele não é familiar?
Sasuke prestou mais atenção na imagem, e percebeu alguns detalhes que antes lhe passaram despercebidos: o homem possuía traços característicos de sua mãe, era como observar uma versão masculina dela. Olhos semelhantes, cabelo lisos como os dela, apesar da cor dos fios de cabelo parecerem mais com os de Fugaku. Traços singelos, como o formato da mandíbula, o desenho das sobrancelhas e o volume dos lábios também se assemelhavam e muito com os de sua mãe.
Sasuke estremeceu involuntariamente e voltou a encarar Orochimaru, dessa vez com um grande assombro no olhar.
— Quem é essa pessoa? — tornou a questionar, sua voz soando bem mais interessada e assustada do que outrora.
Seu coração batia tão forte que ele podia jurar que ouvia a pulsação do seu sangue. Era loucura suspeitar de algo assim! Era totalmente absurdo, só podia ser sua mente pregando peças, com essa esperança tola de algum dia ter sua família de volta. Isso o fizera ver um estranho com características de sua mãe, com certeza ele nem deveria ser tão parecido assim! Era uma farsa!
— O nome dele é Itachi Uchiha.
.x.x.x.
Sasuke olhava para o túmulo com total apatia, não por nada sentir, mas porque vivenciava tantos sentimentos contraditórios naquele momento que sequer conseguia demonstrar o que realmente se passava em sua cabeça.
Como isso é possível?
— Este túmulo é falso. — Orochimaru afirmou, ajoelhando-se na frente da inscrição de granito e passando delicadamente os dedos sobre o nome esculpido na pedra — Foi comprado para enterrar um suposto recém-nascido. Mikoto Uchiha veio toda a semana visitar esse túmulo durante bastante tempo, alguns anos até.
— Itachi Uchiha... — Sasuke repetiu, olhando as inscrições da lápide, que agora estavam mais visíveis depois de Orochimaru limpá-las — É óbvio que isso é falso, essa pessoa não existe.
Sasuke parecia pouco convicto do que falava, e o mais velho se perguntava se ele tentava convencê-lo disso, ou convencer a si próprio e acalmar suas dúvidas.
— O túmulo se mantém aqui porque eu continuei a pagar a anuidade. — o mais velho declarou simplesmente, sabendo que não precisaria se esforçar muito para convencer Sasuke; afinal, a verdade acabaria se mostrando cedo ou tarde, ele só estava acelerando o processo — Não sei se sabe como funcionam os enterros, Sasuke, mas até para uma pessoa ficar debaixo da terra existe uma espécie de "condomínio". Caso não seja pago, os ossos do falecido serão retirados e será aberto um novo espaço à venda no cemitério. É algo comum de se acontecer quando uma família inteira morre sem deixar herdeiros para continuar pagando a taxa.
— Você está pagando? — Sasuke questionou, totalmente perdido na história; mesmo se fosse verdade, que tipo de relação Orochimaru teria com sua família? — Por quê?
— Porque se abrirem esse tumulo descobrirão que não há ossos aqui. — ele afirmou simplesmente, Sasuke ainda olhava para a inscrição na pedra tentando achar sentido no que lia — Eu poderia ter alguns problemas, já que fui eu que fiz o parto de Itachi Uchiha e declarei seu óbito em certidão.
Sasuke fitou Orochimaru com uma expressão de assombro palpável, e o Sanin até se sentiu levemente compadecido diante da confusão do garoto. Certamente não devia ser fácil descobrir tantas pontas soltas em sua história de uma vez só.
— Sua mãe estava muito doente... — ele começou a explicar, e Sasuke uniu toda sua concentração para ouvir todos os detalhes do que lhe seria dito.
Então ele soube a verdade, por mais dura que fosse: Mikoto estava doente e iria morrer, Fugaku recebeu uma proposta de salvar a esposa, entregando o filho recém-nascido para uma pessoa que prometeria salvar Mikoto e manter a criança viva e em contato com seus pais de maneira indireta.
O acordo, no entanto, só foi realizado em partes.
Madara, o nome do negociador de Fugaku, instruiu Orochimaru para realizar o parto de Mikoto, declarar o óbito de Itachi e curar sua mãe com uma cirurgia na mesa de operação, tudo debaixo dos panos. Mikoto não ficou sabendo de tal cirurgia, muito menos que a morte de Itachi era uma farsa. Ela sofreu com a perda do filho, mas manteve-se viva.
Fugaku teve contato com a criança no começo de sua vida, mas depois de umas semanas Madara desapareceu no mundo, juntamente com os registros de Orochimaru. Fugaku ainda tentou procurá-los de forma legal, mas tudo a respeito dos dois foi apagado da face da Terra. Ele perdeu o ínfimo contato que tinha com Itachi e isso o abalou profundamente.
— E então você surgiu, Sasuke. — Orochimaru declarou, não parando um segundo em sua avalanche de informações, nem mesmo ao perceber que o menino Uchiha estava tremendo de raiva enquanto o ouvia — Mikoto estava com depressão, num quadro bastante avançado, e Fugaku achou que um novo bebê pudesse melhorar o emocional de sua esposa. Ele realmente amou essa mulher.
— É mentira... — Sasuke rosnou, não reconhecendo Fugaku na história mal contada de Orochimaru e tendo a certeza de que se tratava de uma farsa.
Ele virou de costas, pronto para sair do cemitério e não voltar a ver Orochimaru tão cedo. Estava mais do que óbvio que isso era uma tentativa frustrada de fazê-lo perder o foco na sua dívida para com os Namikaze-Uzumaki e parar de insistir na liberdade de Karin.
— Não, não é mentira. — Orochimaru declarava as suas costas, permitindo os passos firmes de Sasuke; sabia que mesmo se ele fosse embora, voltaria em breve — Mikoto não queria filhos, pois tinha medo de perder mais uma criança, mas Fugaku substituiu suas pílulas anticoncepcionais por pílulas placebo, e ela engravidou dentro de alguns meses. Inicialmente ela se desesperou, sua depressão ficou ainda pior, Mikoto sequer ficava sozinha um minuto de sua vida, pois todas as pessoas próximas dela temiam que ela fizesse uma besteira contra si mesma nesse quadro complexo.
Sasuke sabia que era mentira, só podia ser! Todavia, sua curiosidade falou mais alto, e ele parou de andar, ainda de costas para seu interlocutor.
— Nessa mesma época Kushina conseguiu finalmente engravidar, e tentou ao máximo dar uma nova perspectiva para Mikoto. — Orochimaru continuava suas explicações, agora exibindo um sorriso torto nos lábios, sabendo que conseguira a atenção total do Uchiha — Mikoto, aos poucos, passou pelo processo que a maioria das grávidas passam: ela começou a te amar, antes de você nascer e, mesmo morrendo de medo de te perder, ela decidiu continuar firme e não fez nada contra si mesma durante toda a gestação, se prendendo no apoio de Kushina como se fosse sua última esperança.
— Como você sabe disso? — Sasuke indagou, girando os calcanhares e fitando Orochimaru de maneira acusatória — Como sabe o que acontecia nos assuntos pessoais deles? Mesmo se você fosse médico de uma delas, você não poderia-...
Orochimaru o interrompeu, não dando importância para as indagações do garoto no momento.
— Você nasceu saudável, Naruto nasceu logo em seguida, e as duas mães pareciam felizes em criar seus filhos juntas. Por um momento, Fugaku achou que tudo ficaria bem. — declarou, cruzando os braços como se desafiasse Sasuke a interrompê-lo novamente. O Uchiha ficou quieto, novamente interessado nas informações que lhe eram passadas — Ele pensou que Mikoto iria finalmente superar a suposta morte de Itachi, depositando suas esperanças na nova criança e conseguindo seguir em frente. E ela continuou o tratamento psiquiátrico, demonstrando melhoras evidentes.
Orochimaru deu uma pausa em sua explicação, esperando que Sasuke complementasse algo. O Uchiha, no entanto, apenas abaixou o olhar, ainda orgulhoso demais para assumir seu interesse, mas curioso demais para se retirar.
— No entanto, por mais que Mikoto estivesse superando a morte de Itachi, Fugaku sabia da verdade e não conseguia simplesmente se esquecer do filho primogênito. Ele continuou as buscas, de maneira clandestina, e quando estava próximo de descobrir o paradeiro de Madara, Mikoto descobriu a verdade. — Orochimaru apreciou a forma como Sasuke arregalou o olhar com essa informação, e mal pôde conter o aumento do sorriso satisfeito em seus lábios — Foi num descuido de Fugaku, algo extremamente inesperado par um Uchiha: ele estava exausto, cansado de suas noites de busca e dias de trabalho, telefonemas, pagamentos de serviços e análises de informações atrás de Madara. Acabou adormecendo em cima de uma documentação comprometedora, e acordou com Mikoto já ciente de boa parte do problema. Depois de uma briga intensa, ele admitiu a verdade para a sua esposa.
— E, supondo que essa história fosse verdade, o que minha mãe fez? — Sasuke indagou, ainda descrente.
Orochimaru descruzou os braços e coçou o queixo com ares pensativos, apenas para enfurecer um pouco Sasuke. Dito e feito, o garoto estreitou o olhar e abaixou as sobrancelhas em irritação; Orochimaru ficou feliz com o resultado.
Provocar os Uchihas me dá um prazer indescritível!
— Mikoto nunca perdoou Fugaku por ter vendido Itachi. — concluiu, dando de ombros — Não ocorreu nem uma nem duas brigas, foram dezenas. Fugaku continuou a buscar Itachi e Mikoto o pressionava cada vez mais para encontrar o filho perdido. O casamento praticamente não existia e isso fazia Fugaku sofrer, pois ele amava Mikoto, mesmo que ela não tivesse a mínima pretensão de perdoá-lo pelo ocorrido. Ela deixou claro mais de uma vez para Kushina e Minato que só não pedira divórcio por temer que Fugaku cessasse as buscas se ela assim o fizesse, mas que iria terminar o casamento assim que tivesse seu filho mais velho por perto.
Sasuke forçou sua memória, tentando recordar-se do casamento de seus pais em maiores detalhes. Realmente, Fugaku parecia tentar uma aproximação diária com Mikoto, enquanto ela sempre fugia de suas investidas e usava como desculpa para isso ir cuidar do filho pequeno. Sasuke, quando menino, achava que Mikoto nunca havia amado Fugaku e casou a força, mas agora ele conseguia lembrar-se de momentos onde ela reconsiderava as aproximações de Fugaku e permitia um breve contato mais caloroso, antes de logo fugir de sua presença.
Ele concluiu, sem muitas dúvidas, que sua mãe ainda amava seu pai mesmo depois do que aconteceu, mas que ela estava ofendida demais e tinha um orgulho muito forte para admitir isso. De certa forma, Sasuke sempre achou que seu orgulho imensurado vinha do pai; agora ele entendia melhor de quem ele puxara essa característica.
— Num determinado momento, Mikoto começou a achar que Fugaku mentia sobre as buscas. — o mais velho explicou, depois de dar ao adolescente um momento de reflexão — Ela acreditou que Fugaku não estava mais buscando Itachi, mas dizia para ela que estava, para que ela não se divorciasse dele. Mikoto sabia que Fugaku ainda era apaixonado por ela e não queria o fim do casamento, e passou a imaginar que era tudo uma jogada para mantê-la perto.
Típico. — Sasuke concluiu, colocando-se no lugar dela e tendo a certeza de que ele imaginaria a mesma coisa. Sasuke e, pelo jeito, Mikoto tinham essa maneira meio misantrópica de ver a humanidade, acreditando que todos os enganavam em algum momento de suas vidas.
— "Seu filho... como você pode ter feito isso com seu filho..." ela dizia isso, dia após dia. — Sasuke murmurou, mais para si do que para Orochimaru, recordando-se das primeiras brigas intensas entre os pais.
Antigamente, ele acreditava que seus pais estavam brigando por causa dele, pois Fugaku não dava a devida atenção ao filho e achava que Mikoto o estava por defendê-lo. Na verdade, não era bem assim que as coisas aconteciam: Mikoto estava brigando por Itachi, e ela não deixava Fugaku se aproximar de Sasuke. Agora, adulto e compreendendo racionalmente a situação, ele percebia isso.
Nos raros momentos que Fugaku tinha com Sasuke, ele requisitava para o garoto deixar o casal a sós, pois ele queria falar com Mikoto. Sasuke, eterno defensor de sua mãe, discutia com o pai e acabava de castigo, trancado no quarto, enquanto as brigas cresciam em intensidade. Fugaku nunca chegou a bater em Sasuke ou algo assim, mas sempre o tirava de perto, e isso foi o suficiente para fazê-lo odiar o pai — até porque, na cabeça infantil de Sasuke, Mikoto também o odiava, então ele tinha motivos para ser odiado.
— E isso era verdade? — ele questionou, tendo dúvidas a respeito de seu julgamento pelo pai e, mesmo que não fosse admitir, necessitando uma segunda opinião. — Fugaku enganou minha mãe para ela não destruir o casamento?
— Óbvio que não. Não sei que tipo de imagem você tem de seu pai, Sasuke, mas apesar de ter errado, ele jamais cometeria o mesmo erro duas vezes. Ele estava disposto a ser franco com Mikoto desta vez, mesmo que a perdesse, e ele realmente queria seu filho de volta. Fugaku teve contato com a criança, ele também desenvolveu um sentimento forte pelo seu primeiro filho. Fugaku era tão coruja como pai que Madara sumiu com o bebê bem antes do planejado, por não suportar mais as visitas dele toda hora.
Sasuke ficou um bom tempo encarando Orochimaru sem piscar, e quando este percebeu que não receberia qualquer acréscimo da parte do Uchiha, voltou a falar.
— Você não conheceu Fugaku Uchiha tão bem quanto imagina. — declarou, nada afetado perante o olhar ofendido do menino — Seria melhor pra nós dois que você admitisse isso, nem que fosse pra si mesmo, pois ainda há muito a se dizer sobre essa história e nós precisamos seguir em frente.
— E esse tal de Madara? — Sasuke questionou, tentando desesperadamente mudar de assunto; falar de Fugaku sempre foi complicado pra ele, imagina com essa nova perspectiva de análise — O que aconteceu com ele?
— Madara descobriu a investida de Fugaku com o tempo, e o final disso foi bastante... complicado. — Orochimaru respondeu de forma bem vaga, mas a entonação de sua voz deixou algo no ar.
Sendo o garoto esperto que costumava ser, Sasuke captou a indireta.
— Madara... Madara matou a minha mãe?
— É, pode-se dizer que sim, apesar de tecnicamente não ter sido Madara quem botou a "mão na massa".
Sasuke sentiu um arrepio percorrer sua espinha: Madara era um mandante. Madara obviamente tinha poder e dinheiro para poder contratar um assassino profissional. Isso dificultava bastante seu plano de, algum dia, vingar-se do assassino de sua mãe.
— E quem foi? Quem foi que matou!? Eu vi os dois mortos! Eu vi a forma cruel como o executaram! Eu quero saber quem foi! — Sasuke exclamou, sentindo seu coração acelerar a cada palavra — Não importa se era só um executor! Eu preciso saber quem é!
Orochimaru novamente abriu aquele maldito sorriso prepotente de canto de boca, e Sasuke conteve um ruído de insatisfação de sua garganta.
— Ora, Sasuke Uchiha, talvez seja melhor que a gente converse sobre esses assuntos num lugar mais reservado... Não acha?
.x.x.x.
— Teme... — Naruto murmurou, enfiando a cabeça dentro do quarto que dividia com Sasuke e encontrando-o deitado em sua cama e virado em direção à parede — Teme, meu pai 'tá chamando a gente pro jantar.
— Não estou com fome. — Sasuke respondeu firmemente, sequer virando seu corpo para cumprimentar o loiro.
Naruto girou os olhos e se aproximou rapidamente, sentando na borda da cama do Uchiha, puxando-o pelo braço.
— Seu idiota você não-... — ele pretendia xingar o moreno irritado, acreditando que ele estava meramente irritado e fazendo birra; mas quando Sasuke se virou para ele e agarrou seu braço com força, ele ficou totalmente sem reação pelo que viu.
Naruto não via lágrimas no rosto de Sasuke desde a morte de Mikoto e Fugaku; ver os olhos repletos de lágrimas e o rastro da água salgada nas bochechas de Sasuke, além daquela expressão de fúria e vergonha de si mesmo, foi muito surpreendente para o mais novo, que não sabia o que dizer perante esse cenário.
— S-sasuke... — Naruto murmurou, sua entonação assemelhando a um pedido de desculpas.
O Uchiha, que certamente não estava no seu melhor humor, não se compadeceu com Naruto. Muito pelo contrário, o empurrou pra fora de sua cama com irritação, colocando-se de pé num pulo e deixando bem claro que estava no clima de briga.
O loiro caiu da cama e não reagiu inicialmente, ainda assustado em ver Sasuke chorar, mesmo que em decorrência de um rompante de raiva. Não era normal isso acontecer, e se ele antes estava irritado com uma possível birra do moreno, agora ele estava totalmente preocupado pelo que poderia ter acontecido com ele.
— O que houve?
— Cale a boca! — Sasuke exclamou, furioso, agachando-se e puxando Naruto pela gola, encarando ferozmente os olhos azuis arregalados — Você não tem o direito de vir aqui me cobrar alguma coisa, Naruto!
— Ei, seu bastardo! — o loiro se defendeu, forçando o outro a largar sua gola; sim, ele estava preocupado, realmente estava, mas Sasuke não podia descontar os problemas dele desse jeito! Ainda mais em quem estava tentando lhe ajudar! — Se você tá com problema a culpa não é minha!
O moreno não mais retrucou com palavras, desferindo o primeiro golpe físico sério que dera no seu irmão de criação: um cruzado que atingiu certeiramente o queixo do loiro, quase deslocando sua mandíbula e cortando seus lábios com o impacto.
Dizer que eles nunca haviam se machucado fisicamente em combates seria mentira, mas geralmente os ferimentos que exibiam ao final das lutas eram decorrentes de brigas de brincadeiras que saíram de controle. Querendo ou não, desde que Kushina interviu no relacionamento dos dois, eles não mais brigaram por espaço ou qualquer outro assunto sério. Se discutiam, era por conta de jogos de vídeo games ou por besteirinhas de convivência, e eles conseguiram resolver os conflitos em meio a brigas de brincadeira e consideravam se comunicar muito melhor dessa forma.
Sasuke estava atravessando uma linha de paz firmada há anos e Naruto não era um adolescente que dava às costas pra uma afronta como essa. Fechando os punhos com força, o Uzumaki revidou o golpe, e logo os dois rolavam pelo chão em uma briga sem técnica, mas essencialmente violenta, que não era, nem de longe, uma simples "brincadeira de adolescente".
Quando Kushina e Minato entraram no quarto dos dois, atraídos pela barulheira da briga, inicialmente ficaram sem reação. Mesmo com a surpresa diante da cena, Kushina foi a primeira a recobrar o foco:
— PAREM! — Kushina gritou, correndo em direção aos garotos, que pareciam alheios a chegada dos adultos.
Minato, no entanto, foi mais rápido que ela, empurrando-a acima da cama de Naruto, sabendo que os meninos já estavam fortes o suficiente para machucá-la em meio a um descontrole emocional como aquele; ela não deveria tentar intervir fisicamente. Ainda sim, o patriarca ainda era mais forte do que os dois, e conseguiu interromper a briga: agarrou Sasuke, que surpreendentemente parecia mais descontrolado que o loiro, e empurrou o garoto mais novo para a cama vazia, fitando os olhos azuis com autoridade e fazendo Naruto voltar a si.
Sasuke se debateu, tentando escapar da imobilização de Minato, mas logo foi virado frente a frente com o tio, e o olhar gélido e decepcionado que recebeu o fizera voltar à realidade e se dar conta de que havia agido muito além do compreensível. Ouviu os passos acelerados de Kushina em direção a Naruto e os sibilos de bronca e preocupação da ruiva, provavelmente se sentindo dividida entre brigar com Naruto ou cuidar dele.
O Uchiha desviou seu olhar do rosto de Minato, extremamente envergonhado pelo que acabara de acontecer. Sentiu o sangue de um ferimento em sua testa escorrer para dentro de um de seus olhos, causando-lhe ardência, mas não ousou piscar para aliviar a dor. Estava realmente decepcionado consigo, não deveria ter perdido a cabeça dessa forma. Naruto sequer o havia provocado!
Percebendo que o garoto já estava mais centrado, Minato soltou Sasuke. Suspirou, cansado, passando a mão em seus cabelos numa tentativa de se acalmar. Fitou Kushina e Naruto, observando a forma como sua esposa parecia apavorada ao olhar para os ferimentos do seu filho, e como o menino loiro parecia extremamente perdido diante do que acabara de acontecer.
Interpretando as expressões das crianças, não foi difícil para nenhum dos adultos perceber quem detinha a maior culpa naquela briga.
— Kushina, Naruto, eu quero conversar com o Sasuke a sós. — ele declarou em voz alta, atraindo os olhos acinzentados da esposa para si.
— Minato, não é hora pra broncas, eles estão machucados, Sasuke-chan preci-...
— Sasuke não é uma criança mais, Kushina. — Minato declarou seriamente, olhando para a mulher com uma autoridade que dificilmente exibia.
Não era segredo algum que Kushina era quem detinha o maior poder familiar na casa, mas naquele momento Minato precisava tomar as rédeas da situação. Se ela passasse a mão na cabeça dos garotos, talvez eles perderiam totalmente o controle (e de falta de controle, já bastava todo o resto de confusão na vida dos dois).
A ruiva fungou, mas concordou com um aceno breve de cabeça, levantando-se do chão e puxando o braço de Naruto consigo. O loiro sibilou de dor, mas ela continuou a guiá-lo para fora do quarto, murmurando frases soltas de censura.
Minato manteve o olhar duro em direção a Sasuke durante todo o momento, não prestando atenção na saída de Naruto e Kushina.
Quando se viram a sós, Sasuke desconfortavelmente ergueu a cabeça, arrependendo-se no mesmo instante: nunca vira um olhar tão rígido no tio, e isso o fez se lembrar dos olhares severos de Fugaku.
Tio Minato sempre foi o seu favorito porque nunca levantava a voz, nunca brigava com ele, era sempre bastante compreensivo. Era por isso que, quando era criança, Sasuke queria tanto que o tio e sua mãe ficassem juntos. Agora, depois de tudo que ele descobriu, ele não sabia mais o que pensar de todas essas pessoas de sua vida, principalmente a respeito de Fugaku. Isso o estava enlouquecendo, e lembrar-se do pai naquele instante de nada ajudou sua sanidade.
— Antes de mais nada, eu quero deixar uma coisa bem clara pra você: — Minato se pronunciou, segurando o queixo do menino para forçá-lo a manter o olhar erguido — Eu te amo e, independente de qualquer coisa que você venha a fazer ou pensar, eu vou continuar te amando. Você não é simplesmente "como um filho" pra mim, você é meu filho, pois eu te crio e te amo como um.
Sasuke arregalou o olhar, não esperando esse tipo de declaração. Claro, ele sabia que seu tio o amava, mas ele não era o tipo de pessoa que declarava os sentimentos dessa forma. Kushina era a sentimental da relação, gritando a todos os ventos o que ela sentia, enquanto Minato demonstrava seus sentimentos com atitudes gentis e silenciosas. Sasuke nem sequer sabia se Naruto algum dia recebeu alguma declaração assim, e por isso ele valorizou muito essas palavras.
— Eu estou decepcionado. — Minato continuou, e Sasuke fez uma careta de quem tentava segurar um choro eminente — Eu sempre te dei abertura pra recorrer a mim se tivesse com algum problema. Não estou acreditando que você se descontrolou com Naruto dessa forma porque ele o irritou ou algo assim. Eu te conheço e conheço o Naruto, sei que não foi uma briga qualquer, e por isso eu quero que você me diga agora o que aconteceu.
— Eu... — a voz de Sasuke soou rasgada, e ele precisou pigarrear e respirar fundo para se recompor — Eu estou muito nervoso nos últimos dias. Me desculpe.
— Isso não é a resposta para o que eu quero saber, Sasuke.
O Uchiha suspirou fundo no mesmo instante que Minato soltou seu rosto. Não abaixou o olhar novamente, tentando se mostrar forte perante o tio.
— Aconteceram algumas coisas pessoais.
— Coisas pessoais?
— É... — ele respondeu, se sentindo um idiota pela resposta vaga.
Mas o que ele poderia dizer? Ele não podia compartilhar com o tio tudo que acontecera nos últimos dias, ele não podia contar toda sua raiva e ira em descobrir que estava sendo enganado. Ele sequer sabia até que ponto Minato e Kushina sabiam dessa historia e esconderam dele a verdade!
— Você não quer dizer. — Minato concluiu, se afastando um pouco, sentindo-se levemente entristecido pela falta de confiança.
— Não, eu... Desculpe. Eu prometo que não vou perder o controle desse jeito.
O Namikaze ainda insistiu na firmeza do olhar, mas quando Sasuke não fez a mínima menção de se explicar mais além, ele resolveu se retirar e deixar o garoto se recompor. No entanto, quando deu o primeiro passo em direção à porta, Sasuke segurou seu braço.
Sasuke parecia querer falar algo, mas estava criando coragem para tanto. Depois de quase um minuto em silêncio, enquanto Sasuke debatia mentalmente em como trazer aquele assunto à tona, ele reuniu coragem suficiente para indagar:
— O que Fugaku pensava sobre eu e minha mãe? — a voz de Sasuke soou fraca, ele se arrependeu da pergunta antes mesmo de finalizá-la, principalmente depois de ver Minato arregalar o olhar em surpresa — Esquece, eu não devia...
— Calma, você só me pegou despreparado. — Minato declarou, sentando-se em uma das camas e apontando para que Sasuke se sentasse na outra, de frente para ele — Cedo ou tarde você perguntaria mais sobre os seus pais, eu só não pensei que seria hoje.
O garoto obedeceu ao pedido, sentando-se e cruzando os braços e as pernas, evidentemente desconfortável.
— Fugaku e Mikoto formavam um casal perfeito. — Minato declarou, sentindo-se um pouco nostálgico ao se lembrar do início de sua vida adulta e da convivência com os dois — Eles namoraram um bom tempo, antes mesmo de eu e Kushina começarmos a namorar. Mas então Mikoto ficou doente, mentalmente instável, e mesmo assim Fugaku a pediu em casamento e ela aceitou.
Alguma coisa no tom de voz de Minato indicava a Sasuke que ele estava escondendo informações. O Uchiha, no entanto, permitiu que a história prosseguisse, tentando encaixá-la de alguma forma na versão de Orochimaru.
— Sua mãe estava cada vez mais e mais instável, mas seu pai queria que ela se recuperasse e jamais deixou de amá-la. Quando você nasceu, a situação se normalizou um pouco, mas logo a depressão foi ficando mais intensa, e as brigas recomeçaram. Mikoto queria divórcio, não por não amar mais seu pai, mas porque ela era orgulhosa demais.
— Orgulhosa demais. — Sasuke repetiu, um pouco pensativo — E o que isso quer dizer?
— Mikoto achava que a razão dos problemas dela era algo que Fugaku fez no passado.
— O que, exatamente?
Minato aparentava desconforto, Sasuke tinha a completa certeza de que ele iria se esquivar da pergunta.
— Algo que aconteceu entre eles. Eu não sei o que era, muito menos Kushina.
Mentira. — o Uchiha concluiu e seu coração acelerou, percebendo que talvez a versão de Orochimaru não fosse tão absurda assim. E ele entregou a Sasuke supostas provas, então o garoto poderia-...
— Tudo que você tem que saber sobre Fugaku é que ele te amava, Sasuke. — o loiro interrompeu os pensamentos de Sasuke, roubando-lhe a atenção mais uma vez — Fugaku tinha muitos problemas na vida dele e talvez não demonstrasse da maneira correta tudo que sentia por você, mas ele te amava. Ele falava direto de você para mim. O grande erro de Fugaku com você foi achar que ele poderia se redimir contigo no futuro, enquanto a tragédia interrompeu o convívio de vocês antes de qualquer redenção.
Sasuke piscou, sentindo uma dor incômoda no coração. Já fazia dias que Orochimaru havia revelado aquele absurdo e ele não parava de pensar em Fugaku, recordando-se de breves momentos bons que tiveram como pai e filho, mas que sua mente orgulhosa tratara de deixar escondido em sua memória. Sempre que Sasuke forçava a mente para recordar-se do pai, momentos ruins vinham à tona; mas havia momentos bons, mesmo que ínfimos.
Talvez Fugaku Uchiha não era tão ruim como ele imaginava. Talvez o verdadeiro vilão disso tudo fosse outra pessoa: Madara. Talvez estivesse na hora de descobrir à quem deveria direcionar toda essa raiva, orgulho e sede de vingança.
.x.x.x.
Depois do rompante emocional com a família Namikaze-Uzumaki, Sasuke decidiu que não iria trazer mais seus dilemas para casa. Se ele tinha alguma dúvida do que fazer, ele deveria se decidir. Orochimaru compartilhara com ele muito material e ele, por medo do que veria naqueles documentos e vídeos, se impediu de analisá-los.
Agora era a hora de parar de ter medo. Não importava o nível de ira que ele sentiria, ele precisava saber o que acontecera exatamente entre Itachi e Madara. Sasuke estava furioso com ambos, desejando uma vingança lenta e dolorosa; mas Orochimaru deixara claro que ele não podia tomar uma decisão como aquela antes de entender de fato os acontecimentos.
Tendo isto como novo objetivo, Sasuke começou a ficar na parte da tarde no colégio, invadindo o laboratório de audiovisual sempre que tinha a oportunidade para ver os vídeos de Orochimaru. Achou mais seguro do que começar essa pesquisa em casa, até pelo fato de saber que seu "vigia" não o acompanhava no período escolar, seja lá quem fosse.
No começo, os VHS se mostraram extremamente inúteis. Nestes vídeos, Itachi Uchiha, aparentando um pouco mais novo do que na foto que recebera de Orochimaru, aparecia dormindo em uma cama hospitalar, como se estivesse doente e em tratamento, apesar da aparência saudável que detinha. Orochimaru murmurava diagnósticos e prognósticos enquanto o filmava, narrando números e resultados positivos de exames. Sasuke, leigo sobre aquele linguajar, se entediava ao assistir esses vídeos, acelerando-os indiscriminadamente.
Foi no quinto vídeo que ele entendeu o que acontecia: Itachi estava numa espécie de estado de coma. Ele nunca aparecia acordado nas filmagens, mas no quinto vídeo ele estava com os olhos abertos. Ainda sim, não reagia a luz ou aos sons, demonstrando que abrira os olhos apenas num impulso nervoso, e não numa vontade de assim fazê-lo. Orochimaru o forçou a fechar os olhos, e desligou a câmera.
Isso tornou Sasuke mais curioso: Por que Itachi estava assim? Quando isso aconteceu? O que isso significava?
Ele começou a analisar os papeis em conjunto com os vídeos, aprendendo mais sobre "a proteína", descobrindo que essa era a segunda pesquisa além de Tsuki no Me que Orochimaru fazia. Itachi era um usuário da tal proteína milagrosa, que precisava ser sintetizada dentro do corpo de Madara. Com essa informação, Sasuke se deu conta de que, acima de qualquer tipo de relacionamento que eles tinham, havia uma dependência de vida ali: sem o uso da proteína que apenas Madara podia oferecer, Itachi ficava da forma como estava naqueles vídeos de Orochimaru.
Isso, no entanto, não foi o suficiente para que Sasuke direcionasse sua raiva e sede de vingança apenas à Madara. Afinal de contas, se Itachi tivesse um senso de moral forte, ele não mataria para salvar sua existência dessa forma. Sasuke se colocou brevemente no lugar de Itachi e concluiu que se ele fosse escravizado por Madara e fosse usado para fazer seu trabalho sujo em troca da tal proteína, ele preferiria acabar com sua própria vida do que sujar suas mãos com sangue alheio.
Entretanto, o Uchiha caçula não tinha ideia do nível de dependência que havia nesse relacionamento, mas logo começou a entender quando parou de assistir as filmagens feitas por Orochimaru e iniciou sua análise sobre os vídeos mais antigos: um compilado das câmeras de segurança do QG.
Sasuke conheceu Itachi menino, que apesar da baixa estatura e da expressão infantil já realizava deveres de adulto e já lutava de uma forma bastante intensa. Percebeu a forma como o garoto ficava radiante quando estava na presença de Madara, e como este o tratava com gentileza (se Itachi não estivesse fazendo algo de errado, é claro).
Foi ai que Sasuke percebeu a complexidade dos sentimentos que Itachi nutria; tratava-se de uma lealdade intensa, semelhante a um cachorro que é leal ao seu dono: não importa o quanto Madara brigasse com ele ou batesse nele, bastava um sorriso para que Itachi voltasse todo alegre e feliz para o colo de seu "dono".
Nesse momento, Sasuke começou a nutrir uma raiva maior por Madara do que por Itachi, mas ainda sim não perdoou totalmente o seu irmão de sangue. Afinal, pelo que Orochimaru dissera, Itachi assassinou seus pais na idade de quinze anos, não era mais uma criança inocente, não era mais tão passível de manipulação como era aquele menino de mais ou menos sete anos nos VHS antigos.
Acelerando um pouco os anos, Sasuke entrou na adolescência de Itachi. Percebeu claras mudanças de comportamento entre Madara e Itachi: os dois agora agiam como amantes, e a lealdade de Itachi parecia ainda maior. Sasuke de cara percebeu o quão doentio era aquele relacionamento, vendo Itachi sofrer e perder o brilho toda vez que Madara desaparecia por uns tempos, indicando que estava fora do QG.
Itachi também não interagia com outras pessoas de lá, apenas o necessário. Raramente se encontrava na companhia de outra pessoa: um adolescente um pouco mais velho, que Sasuke descobriu dentre os documentos se tratar de Kisame. Ainda sim, Kisame era o único que falava nesses encontros, Itachi apenas desfrutava de sua companhia e raramente acrescentava algo no assunto.
Entediado, Sasuke acelerou logo para o dia da morte de seus pais. Itachi andava pelos corredores do QG sujo de sangue, e isso fez Sasuke sentir um nó na garganta de raiva e indignação.
Logo Itachi entrou em um dos quartos e Sasuke suspirou ruidosamente: ele nunca via o que acontecia dentro dos quartos, provavelmente não havia câmeras ali dentro. Quando estava quase desistindo daqueles vídeos e pronto pra ejetar a fita, uma movimentação lhe chamou a atenção: Madara saiu do quarto que Itachi acabara de entrar alguns minutos depois, aparentando um pouco descontente, ajeitando suas roupas enquanto andava. Ele deixara a porta aberta, e da câmera de segurança era possível ver um pouco do interior do cômodo:
Itachi estava parcialmente nu acima dos lençóis, vestia apenas sua roupa íntima e nada mais. Assim que Madara se retirou, ele agarrou suas pernas e apoiou o queixo em seus joelhos, olhando para o horizonte com ares pensativos, preocupados e arrependidos.
— Ele... — Sasuke murmurou, dando pause no vídeo para analisar melhor o rosto de Itachi, colocando o máximo de zoom que conseguia.
Podia ser coisa da cabeça de Sasuke, ele não sabia ao certo, mas tinha a impressão de que Madara e Itachi tiveram algum tipo de discussão antes ou depois do sexo. Seria uma mera coincidência ou isso teria tinha correlação com a morte de seus pais?
Novamente interessado, Sasuke continuou a assistir os vídeos que se sucederam àquele fatídico dia. Percebeu que o número de interações entre Madara e Itachi diminuiu consideravelmente depois daquela noite, e que mesmo quando Madara se aproximava de Itachi, este parecia mais e mais distante do outro. Madara estava visivelmente irritado com isso, e Itachi vivia se isolando das demais pessoas, sempre pensativo.
Numa semana em específico, Itachi ficou ausente nas filmagens e voltou numa madrugada, desta vez sem manchas de sangue em sua roupa. Interessado, Sasuke prestou atenção na porta do quarto onde o casal entrara, acelerando para ver quem se retiraria do quarto primeiro.
Foi Madara. Madara estava decepcionado e irritado quando saiu de lá, e antes de ver a porta de fechar, Sasuke teve um visível vislumbre de Itachi jogado no chão, com uma expressão de desespero estampada em seu rosto.
Curiosamente, os vídeos de Itachi nas câmeras de segurança se encerravam nesse dia.
Sasuke pegou o VHS com os vídeos da internação de Itachi, vendo a data das filmagens escritas na capa da fita: trinta dias após a última filmagem do vídeo de segurança, nem mais, nem menos.
Depois de uma longa noite de reflexão, ele chegou a conclusão de que Itachi obviamente foi internado depois de alguma discussão que tivera com Madara naquela noite. No relance que tivera do rosto do garoto dentro do quarto, havia machucados evidentes em seu rosto, e ele entrara no quarto intacto. Madara bateu em Itachi e o internou de propósito, possivelmente tirou suas doses de proteína. Aquilo era um castigo, e não um cuidado por conta de algum tipo de doença.
Sasuke sentiu nojo de Madara, mas não ficou surpreso pela falta de coração do mais velho: ele era um assassino indireto, mandava os outros fazerem seu trabalho, torturar uma pessoa daquela forma não era nada demais. O problema é que, tecnicamente, Madara parecia amar Itachi; ele não esperava que algo assim fosse acontecer.
No dia seguinte, Sasuke voltou a assistir os vídeos da internação de Itachi, se preocupando em vê-los bem detalhadamente. Demorou uma semana repleta de cafeína e horas na frente do aparelho televisivo para que Sasuke finalmente vesse alguma interação na aparência de Itachi: manchas roxas de dedos na pele do rosto do garoto, indicando que alguém apertara sua mandíbula com força; não havia qualquer indício que em algum momento Itachi havia despertado de seu estado vegetativo.
Sasuke casualmente aumentou o som da voz de Orochimaru, enquanto este abaixava a câmera e filmava um de seus braços descobertos, que também exibia manchas arroxeadas.
— Madara fez sua primeira visita ontem. — Orochimaru dizia, filmando os machucados evidentes no corpo de Itachi — Ao total, alguns ferimentos superficiais. Analisaremos agora o lapso de tempo que o corpo do número três levará para se recuperar sem o uso da proteína.
— Que nojo desse cara... — Sasuke murmurou para si mesmo, sentindo pela primeira vez um pouco de compadecimento por Itachi.
Itachi podia ser o bandido que era, mas Madara se mostrava cada vez pior. Agredir uma pessoa em estado vegetativo como Itachi não era algo tão facilmente compreensivo. Madara era um covarde, estava bem claro para Sasuke isso.
Os vídeos continuaram por mais alguns dias, Sasuke pulou alguns vídeos que não tiveram acontecimentos relevantes. Itachi demorou semanas para ficar com o rosto e o braço sem marcas, indicando que seu corpo realmente demorava a cicatrizar sem a proteína. Ele emagrecia aos poucos, perdendo massa muscular por ficar tanto tempo parado. Seu rosto estava mais fino, dando-lhe uma impressão de fragilidade.
Sem prévia indicação de que algo ruim aconteceria, Itachi apareceu completamente destruído em uma filmagem, e Sasuke precisou dar um pause no vídeo para se acostumar com o que vira: ele estava muito machucado, com cortes profundos em diversas partes de seu corpo e rosto, arranhões violentos e hematomas gigantescos. Sasuke só conseguia reconhecê-lo pela silhueta e pelos olhos abertos: os impulsos nervosos de Itachi resolveram agir justamente naquele dia, e mesmo que não fosse possível supor alguma emoção nos olhos sem vida de Itachi, Sasuke podia jurar que vira uma expressão clara de tristeza ali.
Apertou o play novamente, aumentando o volume do áudio para ouvir as explicações de Orochimaru e...
(***)
Sasuke parou abruptamente de falar, desviando um pouco o olhar do rosto de Itachi, abaixando a cabeça e respirando fundo. Ele sabia que Itachi desconfiava o que ele iria contar a seguir, e que só se mantinha quieto por estar estupefato com todas aquelas informações para acrescentar algo. Claro que Itachi sabia, ele conviveu anos com aquele monstro chamado Madara; não tinha como não desconfiar.
— E-eu não posso descrever, desculpe. — Sasuke murmurou, piscando rápido pra não se render as mesmas emoções que sentiu quando viu aquela parte da filmagem de Orochimaru — Você imagina, não imagina?
— Sasuke, — Itachi murmurou, atraindo novamente a atenção do outro, que ergueu sua cabeça e encarou seu olhar calmo com grande descrença — você concluiu muito bem até agora: realmente foi um castigo, e eu fiquei três anos daquele jeito. Lembra-se que eu cheguei a comentar isso contigo, não se lembra?
— Sim, mas...
— Eu não senti nada. — Itachi concluiu, pegando o rosto de Sasuke com suas mãos e tentando transparecer um pouco de calma — Era como se eu estivesse em um limbo, somente eu e meus pensamentos. Eu não sentia dor, não sentia fome, não sentia nada a não ser o medo de nunca despertar ou morrer. A maior tortura que ele pode ter feito comigo naquela época não era física, era eu não saber quando iria finalmente abrir os olhos e enxergar algo de verdade; foi como morar três anos numa cela solitária. Não se sinta mal em me dizer o que ele fez, pois é bom que eu saiba, mas tenha em mente que nada que você falar vai me fazer sofrer mais ou menos do que eu já sofri.
Sasuke engoliu em seco, sentindo-se um idiota por ouvir Itachi falar de seu próprio pesar enquanto ele, com muita falta de controle emocional, sequer tinha coragem de se lembrar do que vira.
— Eu não vou detalhar. — ele concluiu, umedecendo os lábios com a língua e evitando de todas as formas um contato visual com Itachi — Mas eu vou contar: ele te estuprou de uma forma bastante covarde, enquanto você sequer podia tentar se defender. Ele te machucou de todos os jeitos possíveis, seu corpo estava muito ferido.
— Eu imaginei isso... — Itachi concluiu, pensativo.
O tom despreocupado de Itachi acabou por enfezar o outro Uchiha.
— Como pode dizer isso com essa calma? — Sasuke exclamou, se afastando um pouco de Itachi, arregalando o olhar em descrença — Itachi, acho que não tinha uma região de seu corpo que não tinha pontos, eu nem sei como você não tem cicatrizes!
— É um efeito da proteína, as cicatrizes vão sumindo com os anos e-...
— Não interessa! — Sasuke gritou, agora bem mais descontrolado em seu rompante — Ele não fez uma, ou duas, ou três vezes! Quando você estava melhorando, ele voltava e fazia de novo! Quando você estava criando escaras por ficar parado naquela porcaria de cama de hospital, ele não exibia o mínimo de piedade! Em algumas filmagens até Orochimaru parecia compadecido contigo, mas o maldito Madara não estava nem aí! [5]
Sasuke respirava de forma ofegante e agora já exibia lágrimas visíveis em suas pálpebras, apesar de não tê-las deixado escorrer ainda. Ele tremia um pouco, recordando-se do seu assombro em descobrir todo aquele absurdo através dos vídeos, e de como se sentiu mal por ter cogitado a possibilidade de vingar-se de Itachi também pela morte de Mikoto.
— Eu mal consigo acreditar que você voltou com ele depois de tudo que ele te fez. — Sasuke concluiu, praticamente acusando Itachi com aquelas palavras — Mas eu entendo.
Itachi piscou, visivelmente surpreso pelo que Sasuke acabara de dizer.
Ele... entende?
— Ninguém nunca entendeu, Sasuke. — Itachi sussurrou — Até mesmo Kakashi e Naruto se prendem a ideia de que eu voltei com Madara por Izuna, mesmo quando eu digo que não é verdade. Você sabe de Izuna, não sabe?
— Eu sei. — o Uchiha caçula respondeu, limpando os olhos e se tornando apresentável novamente — Estava tudo descrito na documentação de Orochimaru, já que ele implantou a memória de Izuna em você. Eu não sei detalhes das memórias, mas sei o vínculo que Izuna e Madara tinham, e a forma nada saudável como Madara era apegado a ele. Sei também da repressão de algumas memórias.
— Eu já consegui acessá-las. — Itachi o interrompeu, e Sasuke franziu o cenho em questionamento — Kakashi me fez conseguir.
— Oh... — Sasuke sorriu de forma comedida, recordando-se do grisalho e das sessões de hipnose e do potencial pouco explorado de Kakashi — Enfim, eu entendo que não há correlação com Izuna. Eu vi sua vida, Itachi, e eu sei que nada mais lhe era dado como oportunidade além de ficar com Madara. E, lembrando de algumas conversas que tivemos, tudo isso faz ainda mais sentido agora.
— Eu não tinha mais oportunidades, até você aparecer. — Itachi disse, puxando Sasuke para perto e dando um beijo em sua testa; sentindo seu coração acelerar pelo outro ter permitido tal contato.
— Itachi... — Sasuke suspirou, descansando seu queixo no ombro do outro, adorando a forma como Itachi instintivamente circundou seu corpo em um abraço — Eu preciso te contar mais coisas, mas antes disso, quero saber o motivo de seu castigo.
Itachi ficou alguns segundos mesmerizado pelo contato físico com Sasuke, mas se deu conta de que ele realmente nunca revelara isso para o garoto, e o afastou um pouco, segurando em seus ombros e mantendo um contato visual firme.
— Por sua causa. — ele declarou, unindo a ponta de seu nariz ao dele, gostando particularmente da forma como Sasuke suspirou e fechou os olhos, como se tentasse prestar atenção apenas em sua voz — Madara quis testar minha lealdade, pois eu fiquei abalado depois da morte de Mikoto e Fugaku. Ele me ordenou a matar você, e eu não consegui. As memórias de Izuna me impediram de agir.
— Eu suspeitei de algo assim... — Sasuke respondeu, abrindo os olhos e fitando-o com seriedade — Vamos continuar.
(***)
A situação melhorou consideravelmente na casa dos Namikaze-Uzumaki com o tempo: Sasuke e Naruto voltaram a conviver como antigamente, apesar de estar claro ainda existir um ressentimento entre eles. Sasuke, no entanto, era orgulhoso demais para pedir desculpas, e Naruto também não ficava muito atrás ao evitar ao máximo esse assunto.
Ainda sim, estavam em aparente paz. Mesmo que aparente.
Sasuke percebia que seus tios andavam cada vez mais e mais tensos e se perguntava se toda aquela ladainha que diziam sobre "questões referentes ao trabalho de Minato estarem estressando o casal" era uma verdade ou uma desculpa. O Uchiha sabia que alguém da Akatsuki ainda os vigiava, mas não sabia se a vigia era apenas uma precaução ou se pretendiam fazer algo; também não sabia até que ponto seus tios saberiam disso.
Todavia, a preocupação de Sasuke sempre era deixada de lado quando ele pensava em uma possível vingança. Sabia que Orochimaru o ajudaria; caso contrário, não teria revelado tudo que revelou — não fez isso apenas para convencê-lo de desistir do problema de Karin, Orochimaru tinha métodos mais eficientes para calar sua boca e obrigá-lo a fazer qualquer coisa. Ainda sim, não tiveram tempo para conversar sobre isso: quando Sasuke terminou de analisar a documentação e vídeos, Orochimaru partiu numa nova viagem longa, pois sua moradia na mansão daquela cidade era uma parada meramente temporária.
Kabuto estava no encargo das drogas e Sasuke não confiava nele o suficiente para tratar de assuntos tão pessoais. Por isso, o Uchiha continuou pegando suas doses de Tsuki no Me, ainda que não as utilizasse, e não mencionou à Kabuto nada sobre Itachi ou Madara. Karin dizia que Orochimaru iria censurá-lo quando voltasse e descobrisse através dos exames que ele deixou de usar a droga, mas o Uchiha suspeitava que essa era uma tentativa frustrada dela para que ele voltasse a "comparecer" na cama.
Sasuke percebeu que ele teve sim os efeitos de abstinência, mas só se deu conta disso quando eles cessaram. Boa parte de seu rompante com Naruto foi por conta do temperamento péssimo que ele estava enfrentando naqueles dias. Karin também recebeu uma ausência total de sexo, coisa que não a alegrou em nada. Todavia, a libido de Sasuke não voltara nem depois do fim do período de abstinência, e ele não sabia mais se era por conta de algo que deu errado neste momento de convalescência, ou se advinha de sua mais nova obsessão vingativa.
Ele não se importava, pra ser sincero. Se antes de tudo isso acontecer ele contava as horas pra poder dormir com Karin de novo; hoje ele só conseguia pensar em Madara, Itachi, Fugaku e Mikoto.
Isso causou algumas discussões entre os dois: Karin não exigia que Sasuke assumisse algum compromisso com ela, mas pelo jeito ela também sentia falta de sexo e sabia que ele não poderia continuar pondo a culpa em Tsuki no Me indefinidamente. Por outro lado, Sasuke não queria conversar com ela sobre os assuntos que Orochimaru lhe mostrara, pois também se sentia um pouco ofendido por ela nunca ter contado a verdade pra ele sobre isso (apesar de entendê-la: assim como Itachi era extremamente leal a Madara, Karin era leal a Orochimaru). Sendo assim, o relacionamento dos dois estava em crise, e Sasuke não sentia a mínima vontade de passar tempo ao lado dela.
Mas hábitos são hábitos e, em nome do velho e saudoso comodismo, os dois ainda continuavam a se encontrar.
— Eu estou farta disso. — Sasuke ouviu Karin reclamar, enquanto ele continuou a jogar seu vídeo game despreocupadamente, nem se incomodando em apertar o pause e lhe dar atenção.
Estavam usufruindo um dia de casal na própria casa dos Namikaze-Uzumaki: Naruto cumpria detenção na escola e Minato e Kushina saíram para trabalhar, deixando a casa liberada para os dois. Karin achou que finalmente teria alguma ação com Sasuke depois de semanas; grande engano.
— Então pegue suas coisas e se retire. — ele respondeu secamente, conseguindo atingir um combo difícil no vilão do jogo.
Sasuke não tratava bem as garotas, isso era de entendimento geral. Sakura vivia correndo atrás dele na escola, dizendo coisas como "temos muito em comum, me dê uma chance Sasuke-kun!", referindo-se ao fato de ambos serem órfãos, mas nem assim o Uchiha se compadecia com ela. Se havia uma única garota em sua vida que ele dava um pouco de atenção, essa garota era Karin: não por ele desejar algo a mais com ela, mas sim por considerá-la de certa forma próxima a família, já que ela era irmã de Naruto (o sexo realmente não era algo que o faria mudar seu comportamento com ela, mas sim a suposta ligação familiar que teriam).
A partir do momento que ele parou de se preocupar em colocar Karin dentro da família Namikaze-Uzumaki e passou a se interessar pelos antigos problemas dos Uchiha, seu comportamento com a ruiva se modificou. Ele ainda passava tempo com ela, mas sua cabeça estava em outros problemas, de modo que ele agia desta forma bruta sem perceber o quanto a ofendia fazendo esse tipo de coisa.
Mas Karin, que não era submissa nem nada, não iria deixar Sasuke tratá-la dessa forma. Decidida, colocou-se de pé, andou até atrás da televisão e puxou todos os cabos de eletricidade dos aparelhos da tomada, desligando o jogo de Sasuke.
— Puta merda, eu não acredito que você fez isso Karin! — Sasuke gritou, jogando o controle para o lado e encarando a menina com olhos furiosos.
— Olhe aqui, Sasuke Uchiha. — ela disse autoritariamente, se aproximando dele e exibindo olhos ainda mais perigosos dos que o dele; Sasuke tinha uma singela impressão que o olhar dela avermelhava ainda mais quando ela estava irritada — Não ouse me tratar como você trata as outras garotas.
— O que te fez achar que eu deveria te tratar diferente? — ele indagou, erguendo ainda mais o tom de voz, bastante irritado por ela ter desligado o vídeo game — Eu disse pra você que nós não tínhamos nada além de uma amizade colorida!
— Exatamente por isso Sasuke: "amizade"! — ela respondeu, furiosa, batendo o pé e cruzando os braços — Eu sou sua amiga! Você pode estar pensando mal de mim e achando que eu só estou indignada pela falta de romance, mas não é verdade. Eu estou preocupada com você e você não se abre pra mim!
Sasuke realmente achava que Karin estava com ele em busca de um futuro relacionamento amoroso, mas ela deixou claro não estar chateada por conta disso, e sim pela ausência de cumplicidade na amizade que, até então, ela julgava possuir com ele.
Pensando bem, Sasuke realmente a considerava sim sua amiga. Naruto sempre seria seu melhor amigo, ele não tinha dúvidas disso, mas havia coisas que ele não podia conversar com Naruto, e as questões sobre Tsuki no Me, Orochimaru, Madara e Itachi faziam parte desse rol de "impronunciáveis". Mas Karin sabia bastante sobre esse lado de sua vida, e era a confidente que ele tinha para tratar desses assuntos.
Karin estava certa: ela era, acima de qualquer coisa, sua amiga.
Ele suspirou pesadamente, passando a mão no rosto e tentando se acalmar. Alguns segundos depois, ele encarou Karin com um pouco mais de complacência e acenou afirmativamente.
— Ok. Eu falo.
(***)
— Eu supus que se Karin estava me questionando aquilo, nós estávamos realmente sozinhos e eu podia falar. Mas nós não estávamos. — Sasuke concluiu, suspirando fundo e sentindo um aperto forte de Itachi em seu ombro, motivando-o a continuar — Sasori estava lá, Karin estava nervosa demais para perceber, mesmo com a proteína, a presença dele.
— Karin não é treinada. — Itachi declarou, recebendo um aceno afirmativo de Sasuke em resposta — Ela consegue ser uma ótima vigia e detém os sentidos ainda mais poderosos que os dos demais Akatsukis, mas ela precisa se concentrar no que está fazendo para fazer direito. Isso é uma dificuldade que temos, por conta da quantidade de informações que recebemos do ambiente quando o uso da proteína está no auge. Karin estava se concentrando em você, e não no exterior, e isso a fez desligar-se do que se passava do lado de fora.
Sasuke achou um pouco estranho Itachi falar de Karin tão abertamente, como se a conhecesse. Mas esse seria um assunto para outra hora; se houvesse uma outra hora.
— Eu sei que ela não fez de propósito... — Sasuke murmurou, abaixando o olhar — Mas a consequência foi ruim. Sasori encobriu Orochimaru, mas disse para Madara que eu descobri algumas coisas por pesquisas inacabadas do meu pai.
Itachi estava gostando muito da maneira como Sasuke se referia a Fugaku como "pai". Naruto declarou que Sasuke nunca agira assim antigamente, sempre utilizava o primeiro nome do progenitor ou algum xingamento para denominá-lo; isso quando se submetia a falar algo sobre.
O Uchiha caçula suspirou, e o mais velho percebeu a melancolia evidente na sua expressão facial.
— Madara ordenou que Orochimaru alterasse minha memória.
Itachi arregalou o olhar, finalmente chegando ao ponto que lhe causava a maior curiosidade dessa história.
— Então foi assim que-...
— Não, não foi. — o caçula discordou, já adivinhando o que lhe seria questionado — Eu me neguei. Eu fui contra, Orochimaru insistiu muito, mas eu...
Sasuke parou de falar, suspirando fundo e tentando engolir um soluço. Estava difícil para ele lidar com esses sentimentos misturados, fazia anos que ele não precisava lidar com a dor emocional dessa forma. A "junção" seria algo complicado de se adaptar.
Quando ficou claro que Sasuke não conseguiria continuar seu relato sem ter um rompante emocional, um ruído de microfonia foi ouvido no ambiente, e em seguida um pigarro grave atraiu a atenção do casal.
— Número três. — A voz de Orochimaru soou de forma clara e lenta; Itachi adotou uma posição visivelmente tensa, mas nada disse, ouvindo as palavras do médico com atenção — Meus experimentos envolvendo inserção repressão de memória alheia em uma pessoa são bastante invasivos e dolorosos, como você pode se lembrar; até hoje os corredores do QG reverberam seus gritos infantis do passado.
Itachi trincou os dentes, lembrando-se das sessões dolorosas que tinha quando criança, para ter acesso às memórias de Izuna e conseguir a atenção de Madara. Àquela época, apesar de doer muito e ele sempre se desesperar na hora da sessão, ele retornava para a sala de Orochimaru no dia seguinte, pois via tudo como um investimento de longo prazo.
Maldito Orochimaru. Maldito Madara. Maldito sonho infantil que tanto atrasou sua vida...
— No entanto, o caso do Sasuke é relativamente mais simples de realizar, porquanto as memórias dele serão simplesmente reprimidas; nada de novo seria inserido. Há drogas que fazem esse serviço, aliado a técnicas complexas de hipnose, o efeito é duradouro. E se você realmente fez hipnose com Kakashi Hatake, você sabe como é preciso confiar no hipnotizador para que dê certo... Não sabe?
— Sim. — Itachi respondeu para Orochimaru, mas continuou a olhar para Sasuke.
Sasuke estava com a ponta do nariz avermelhada e piscava freneticamente, possivelmente segurava o choro. Itachi lembrou-se de como admirava a aparência de Sasuke choroso no passado, e sentiu seu peito se contrair de saudades. Ele sempre achou que seu irmãozinho era o tipo de pessoa que ficava ainda mais lindo quando chorava, mas ao mesmo tempo em que conseguia apreciar essa visão e sentia vontade de beijar Sasuke tal qual costumava fazer sempre que ele estava a um passo de se render ao choro, ele entendia que aquele não era momento para isso. Estava preocupado, se perguntando por que Sasuke estava prestes a um rompante.
— Mas qual o problema? — questionou, recebendo um soluço contido de Sasuke em resposta. Resolveu elaborar sua dúvida um pouco mais. — Você não conseguiu, Orochimaru não reprimiu sua memória, e então...?
— Então Madara deu o alerta: ele mandou Tobi matar Kushina e Minato. — Orochimaru declarou; Sasuke soltou um ruído de tristeza ao ouvir essas palavras, retirando seu rosto da visão de Itachi ao abaixar ao máximo sua cabeça, escondendo-o atrás da franja — Você se lembra, não lembra?
Tobi realmente foi o assassino de Minato e Kushina, Itachi até hoje não revelara nem mesmo para Naruto essa informação, temendo que o loiro seguisse o caminho da vingança tal qual Sasuke seguira. Mas Itachi sempre soube disso, porquanto esse acontecimento causou certo rebuliço na Akatsuki à época.
Itachi estava em crise com Madara, mas recém desperto de seu castigo. Ele achou que essa seria uma forma de mostrar sua lealdade e que seria designado a tal missão. Sasori, por outro lado, acreditava que ele seria o designado a matar a família a qual vigiava, e demonstraria assim sua posição oficial de braço direito perante toda a Akatsuki. No fim, a notícia de que Tobi seria o encarregado pegou todos de surpresa, e até hoje se mantinha a dúvida do por que fora ele quem matou àquelas pessoas, e não os dois mais cotados para essa missão.
Ninguém sabia detalhes sobre isso; somente Madara e Tobi. Talvez Orochimaru, já que ele, cada vez mais, parecia saber de tudo; os Akatsukis, entretanto, não faziam ideia.
— Ele não mandou me matar, Itachi. — Sasuke murmurou, alheio a reminiscência do mais velho, tentando por em palavras o que ele sentia — Ele matou aqueles próximos de mim. De novo.
Itachi piscou, compreendendo finalmente o que se passava na cabeça de Sasuke. Às vezes ele se esquecia do quão traumatizado o caçula era, e o quão complicado deve ter sido para ele lembrar-se dos motivos da morte da sua segunda família. Afinal, o Sasuke que ele conheceu não sabia, de fato, porque Kushina e Minato morreram.
Seria melhor se ele nunca descobrisse... — Itachi pensou, amaciando suas feições e olhando com ternura para o garoto, que agora deixava a primeira lágrima escorrer.
— Madara destruiu de novo a minha família porque eu não consegui fazer a porra da minha parte e deixar o Orochimaru suprimir a memória. A culpa é minha! — Sasuke exclamou, piscando forte e desistindo de tentar conter as lágrimas, sentindo um nó forte em sua garganta que quase o fazia engasgar de tristeza — Eu não tive culpa na morte dos meus pais, mas na morte dos meus tios a culpa foi totalmente minha, se eu tivesse... S-se eu tivesse conseguido reprimir as memórias, e-ele...!
— Sasuke! — Itachi ergueu consideravelmente o tom de voz, agarrando os ombros de Sasuke com maior força e usando sua autoridade para silenciá-lo — Para de dizer asneira! A culpa de nada disso é sua!
— É sim! É tudo minha culpa!
— Você está errado, Sasuke! — Itachi declarou mais uma vez, trazendo Sasuke para perto e forçando-o a descansar seu rosto na dobra de seu pescoço, permitindo privacidade para que ele chorasse sem vergonha do momento de fraqueza. Ele sentiu sua gola ficar cada vez mais úmida e o corpo de Sasuke se mover de tempos em tempos em soluços contidos — Ele iria matá-los mais cedo ou mais tarde. Eles sabiam demais, estavam quietos naquele momento, claro, mas você acha que Minato e Kushina aguentariam ser vigiados desse jeito por quanto tempo? Era uma missão com fim certo, Deidara e Sasori vigiavam vocês em busca de um deslize, pequeno que fosse, para a execução acontecer.
Sasuke esfregou os olhos na roupa de Itachi, para tentar diminuir a quantidade de lágrimas em sua face, e ergueu a cabeça, encarando seu irmão mais velho com um olhar melancólico, levemente inchado, repleto de gotículas nos cílios.
Itachi sentiu seu coração acelerar e o desejo de beijar Sasuke e protegê-lo do mundo aumentar ainda mais. Mas não seria se rendendo a esses impulsos que ele conseguiria terminar essa missão.
— Por que ele não me matou? — a voz de Sasuke soou quebrada, fria, extremamente desgastada. — Ele tinha que ter me matado, não meus tios. Ou me pego pra cobaia, ou dissecado meu corpo, me utilizado pros estudos científicos dele, não sei... Por que ele não fez isso?
— Madara queria você vivo para me usar naquela prova de lealdade e ver se o que tinha de Izuna dentro de mim ainda existia. — Itachi declarou, com certeza do que dizia; se havia alguém que agora entendia a complexa mente de Madara, esse alguém era ele — Ele achava que eu seria leal a ele, por ter a personalidade de Izuna implantada em mim, e mataria por ele como seus demais Akatsukis faziam. No entanto, ele parece ter esquecido que Izuna nunca faria isso, nem por ele nem por mim, ainda mais se tratando de um filho de uma pessoa que ele conheceu em vida e criou amizade.
— Izuna... conheceu em vida...?
— Izuna e Mikoto se tornaram amigos em vida, Sasuke. — Itachi declarou, acariciando o contorno do rosto do mais novo, observando seus olhos escuros encherem de lágrimas novamente — Eu tenho tanto pra te contar sobre ela, sobre Fugaku, sobre os dois...
Orochimaru novamente interrompeu a interação dos Uchiha; ele sabia que tempo era um assunto precioso no momento, e eles poderiam discutir essas curiosidades no futuro.
— Foco, Sasuke. — Orochimaru coordenou — Madara o deixou vivo por tempo limitado, ele pretendia dissecar você e tirar o que prestasse pras pesquisas depois que Itachi provasse a confiança. Como isso não aconteceu, ele quis utilizá-lo numa forma de vingança. Fazer com que você e ele matassem Itachi juntos, para que seu traidor sofresse em dobro. Se Madara matou os outros e não a você é tudo fruto da mente dele, não de alguma atitude que você possa ter tido.
Sasuke não respondeu nem Itachi, nem Orochimaru, virando o rosto para o outro lado, e tentando alterar o conteúdo da conversa: eles tinham que agir em breve, mas havia um detalhe que precisava ficar claro pra Itachi antes disso.
— Após o desastre, quando eu e Naruto fomos levados para o orfanato, Orochimaru me procurou e nós fizemos um acordo... — Sasuke declarou, sua voz pouco maior que um sussurro, deixando Itachi apreensivo com o ar de pesar daquela conversa — Ele me garantiu que a supressão seria temporária, e que juntos conseguiríamos nossos interesses. Orochimaru me explicou que a sua técnica de supressão deixa "gatilhos", e que o número de gatilhos tem como consequência a criação de personalidades autônomas, que são retiradas da própria personalidade da pessoa afetada.
Apesar de Sasuke ter simplificado em grande parte aquela resposta, Itachi não conseguia entender a complexidade desse método. Ainda sim, conhecendo Orochimaru como ele conhecia, não duvidava da sua capacidade de fazer algo assim.
— É por isso que você estava tão estranho hoje? — Itachi questionou à Sasuke, ganhando um aceno negativo em resposta.
— Não só hoje, Itachi... — ele respondeu, com pesar.
A porta do salão se abriu com um rangido alto; Itachi se pôs de pé em um pulo, a frente de Sasuke, que continuava sentado no chão.
O Uchiha mais velho acendeu seu olhar, preparado para proteger Sasuke com sua vida se fosse necessário, mas relaxou visivelmente ao ver que quem entrara era Orochimaru: ainda exibia os machucados deixados por Naruto na noite anterior, e isso fez o Uchiha repuxar um sorriso torto em seus lábios.
Orochimaru obviamente percebeu o motivo daquela expressão, mas continuou a tratar sobre os assuntos pertinentes, sabendo que em breve aquele sorriso do Uchiha se tornaria uma expressão de tristeza.
— Os gatilhos geram instabilidade nas mentes. — declarou, explicando superficialmente a sua técnica — Desde a utilização do primeiro gatilho, Sasuke teve supressão nas personalidades acessórias, detendo dificuldade para acessá-las. O segundo gatilho causou uma supressão na personalidade que ele próprio denominava como "principal", apesar de todas serem fruto dele. Agora com o terceiro gatilho ativado, as três se tornaram uma.
Itachi olhou para baixo, encarando Sasuke, extremamente curioso com o que se passava na mente dele.
— Sasuke está, pela primeira vez desde os seus quinze anos, com a mente completa. — Orochimaru concluiu, cruzando os braços em prepotência — Sasuke está com dificuldade em lidar diretamente com o sentimento das personalidades acessórias, por isso ele parece tão frágil. Ele foi moldado por mim para lidar da melhor forma possível com seus traumas, sua sexualidade e sua personalidade instável. Agora, sem toda essa facilidade, ele se sente perdido.
Itachi novamente se ajoelhou, levantando o rosto de Sasuke e vendo como novamente ele parecia a um ponto de chorar. Sabia que toda essa instabilidade emocional estava destruindo seu ego e por isso Sasuke fazia de tudo para evitar os outros de verem suas lágrimas, mas agora entendia porque ele estava tão instável.
Deve ser difícil separar a intensidade dos sentimentos em três mentes e depois ter de lidar tudo com apenas uma...
— Por que, Sasuke? — ele questionou, limpando duas lágrimas do rosto do caçula que teimaram em escorrer com os seus polegares — Por que você fez um acordo como esse? Você tem noção do quão frágil a sua cabeça está agora? Você tem ideia do tanto de terapia que vai precisar pra poder lidar com a realidade sem as bengalas que antes você detinha?
— Eu fiz isso pela minha vingança, e faria de novo. — Sasuke declarou, mantendo o olhar firme, mesmo que ainda escorresse lágrimas de seus olhos — Orochimaru me deu um caminho, e eu acatei as condições. Eu sabia que em algum momento você viria até mim e Orochimaru deixou intacta minha curiosidade a seu respeito, de modo que eu acabei me aproximando de você.
Itachi lembrava-se o tanto que Sasuke tinha interesse nele, e o quão conveniente foi isso no começo da "missão" que fazia por Madara: Sasuke simplesmente ficou admirado por ele. Permitiu a sua entrada na quitinete como co-habitante sem muito questionar, aceitando coisas absurdamente inaceitáveis perante a maioria das pessoas na sociedade. Itachi achava que Sasuke era inocente demais e por isso abriu os braços dessa forma, mas agora ele percebia que isso advinha do intenso interesse que o garoto possuía por ele.
— Você quer dizer que o que nós tivemos foi condicionado por Orochimaru?
— Não! — Sasuke declarou, indignado, arregalando o olhar — É claro que não! O meu interesse foi o que te aceitou na minha vida, meu inconsciente ainda queria saber mais sobre você. Mas meu interesse sexual por você surgiu ali...
— Sasuke não detinha qualquer interesse sexual por você quando eu revelei a verdade. — Orochimaru declarou, novamente deixando claro que estava presente no recinto e tirando Itachi de seu transe afetivo — Mas talvez isso fosse um mero efeito da abstinência de Tsuki no Me e, posteriormente, de preocupação. Se Sasuke tivesse o conhecido em outras circunstâncias, ele possivelmente despertaria interesse sexual da mesma forma.
Isso deixou Itachi um pouco mais relaxado. Por mais preocupado que estivesse com Sasuke naquele momento, ele não reagiria nada bem ao descobrir que toda atração que sentiram não era recíproca e sim uma mentira.
— Continue. — Itachi declarou, ajeitando uma mecha de cabelo do mais novo que cobria seu rosto, colocando-a atrás da orelha.
Sasuke permitia o contato e, apesar de toda seriedade da conversa, Itachi estava cada vez mais e mais feliz por desfrutar da companhia dele.
— O primeiro gatilho veio quando Orochimaru me encontrou na mansão de Karin, que na verdade é a mansão dele que tantas vezes eu frequentei no passado, e eu me recordei da existência de um acordo entre nós, mas não do seu conteúdo. Eu confiei, deixei que ele me levasse ao QG, não houve impedimento de minha parte, mesmo se eu não estivesse debilitado como estava. Ele me encorajou durante toda a vingança de Madara a não interferir. Por me lembrar da mera existência de um acordo, e mesmo sem saber o conteúdo deste, eu aceitei te ver sofrer...
.x.x.x.
Mas quando tudo acabou, Sasuke parou de se mover. Entretanto, não permaneceu estático por muito tempo, pois foi puxado mais uma vez para que se virasse à Itachi. E ele finalmente viu os seus olhos.
Estavam com a coloração violeta, e não era para menos. Depois de toda essa humilhação, com certeza Sasuke sentia-se ameaçado e furioso ao ponto de ativar aquele olhar. Mas por que ele não escapava? Por que aquela singela corrente no pescoço o impedia de usar toda a sua força física? Sasuke era mais forte do que todos naquele lugar menos Madara! Bom, talvez um pouco desprovido de técnica, mas ainda sim forte e com treinamento de escapismo de primeira linha!
— Isso Sasuke, mantenha o controle! — Orochimaru falou, afrouxando um pouco a corrente. — Por que vai valer a pena aguentar até o fim...
E então a Itachi compreendeu: eles fizeram um trato com Sasuke! [6]
.x.x.x.
Não era um simples trato.
Sasuke sabia que deveria assistir àquele castigo, passar por aquela humilhação, confiar em Orochimaru e seguir em frente. Podia não saber de tudo, mas já sabia que havia um acordo de anos atrás com aquela pessoa, e foi apenas por isso que ele não escapou daquela situação.
Itachi não sabia ao certo se deveria se sentir ofendido ou feliz por essa constatação.
— O segundo gatilho ocorreu quando eu... — Sasuke suspirou, lembrando-se do momento que aceitou para si mesmo a intensidade de seus sentimentos por Itachi, logo depois de sua última conversa civilizada com Konan, à beira da praia; apesar de aceitá-los, ele não tinha coragem para declará-los. [7] Seria pior para todos eles se ele falasse — ... Orochimaru se deu conta de que eu estava me dando muito mal com Madara, e que Madara poderia optar por me descartar antes de você. Ele lançou o segundo gatilho, que me fez criar uma falsa obsessão por Madara, para convencê-lo de que eu estava ao lado dele. Foi sob o efeito do segundo gatilho que você me encontrou hoje, Itachi.
— O terceiro gatilho você presenciou, número três. — o médico declarou, aproximando-se dos irmãos e olhando para o prodígio do alto, deixando claro em sua expressão facial o quão satisfeito estava em ter orquestrado todo aquele circo até este momento — A partir de agora, ele terá que tomar as decisões pelas próprias pernas; acabaram os gatilhos. Mas Sasuke sabe o que tem que ser feito, não sabe?
— Qual é o seu objetivo final, Orochimaru? — Itachi questionou, achando bastante estranho dirigir a palavra ao médico desta forma, também não gostando nada da forma como ainda era chamado por ele como se ainda estivesse na hierarquia da Akatsuki.
Desta vez, foi Orochimaru que abriu o sorriso prepotente nos lábios.
— Ora número três, não ficou claro até agora o que eu quero? Eu quero tirar Madara do meu caminho. Ele está atrasando as pesquisas, há anos! Nós já descobrimos coisas que nos tornariam imortais na história, mas Madara criou um idealismo surreal com relação à Izuna e não permite que desfaçamos o QG e acionemos as autoridades mundiais para venda. Com ele fora do caminho, tudo isso será meu. Eu e Sasuke temos o mesmo objetivo, apesar do resultado nos trazer benefícios distintos.
Itachi já imaginava algo assim, estava claro desde o momento que Orochimaru despertou Sasuke. Por óbvio, ele tentaria ao máximo capturar Madara em vida, e se Orochimaru apenas queria o afastamento de seu Aniki, os objetivos entre eles eram os mesmos.
Apesar de que, sendo bem sincero, Orochimaru também não seria poupado pela polícia pelos seus crimes; mas Itachi não traria algo assim à tona naquele momento. Por enquanto os interesses convergiam a um mesmo resultado, e valia a pena a parceria.
— E você, Sasuke? — ele indagou, sua voz soando bem mais doce.
Sasuke levantou o rosto, fitando Itachi com determinação. Não mais exibia lágrimas ou traços de possível descontrole, mas a expressão severa em seu olhar assustou consideravelmente o Uchiha mais velho.
— Sasuke?
— Eu quero Madara morto, aos meus pés. — Sasuke declarou com a voz rouca — Eu quero fazê-lo sentir cada desespero que me fez sentir todos esses anos, quero vingar minha família, e vingar você. Eu quero destruí-lo de uma forma lenta e dolorosa. A morte nem soará mais como um fim para ele, e sim como uma libertação depois que ele terminar de saborear minha justiça.
A maneira ríspida como a voz de Sasuke soou vez com que o primogênito se recordasse da noite que ele exibiu pela primeira vez os efeitos do olhar violeta, bem como em alguns momentos prévios ao seu despertar. Sasuke claramente estava exibindo traços de uma das suas antigas personalidades, e Itachi já sabia muito bem de qual delas.
— Eu não posso permitir isso, Sasuke. — Itachi declarou, mas o outro Uchiha olhava para frente sem realmente enxergar, parecia alheio ao que ele dizia enquanto se perdia nas suas próprias fantasias de crueldade e vingança — Eu não posso permitir que você suje suas mãos com sangue também. Você será preso, pois nós dois juntos temos meios para capturar Madara sem necessitar a morte. Não poderá alegar uma legítima defesa, você...
— O sangue, infelizmente, significa tudo pra mim. — Sasuke disse, agora de fato observando Itachi com seriedade — Pouco me importa o que vai acontecer comigo depois da minha vingança estar completa.
— Não diga isso! Você terá sua vida do jeito que sempre quis! E nós podemos-...!
— Não existe "nós", Itachi. — ele declarou, calando Itachi instantaneamente, vendo a forma como ele empalideceu com aquela declaração — Desculpe se, de alguma forma, eu dei esperanças a você.
O Uchiha mais velho sentiu como se acabasse de ser jogado num rio de água gélida. Não podia acreditar no que ouvia! Em outras circunstâncias ele aceitaria, mas já fazia minutos que Sasuke agia como se eles estivessem juntos, como ele podia dar uma notícia assim agora?
— Mas... Mas você me beijou! Você permitiu que eu tocasse em você, te confortasse! Você me deu abertura!
— Eu também tenho meus momentos de fraqueza. — Sasuke pegou as mãos de Itachi com as suas, retirando-as de seu rosto e colocando-as acima do colo do outro, deixando claro que o contato físico se encerraria naquele instante — Mas eles acabam agora. Eu lamento Itachi, talvez se não fossemos irmãos a situação seria diferente. Talvez eu realmente cogitasse um futuro pra nós. Mas eu não vou continuar desgraçando minha família desse jeito: eu vou trazer a eles paz em ter seu verdadeiro assassino pagando pelo crime que cometeu, e não desonra ao me meter num relacionamento incestuoso desse jeito.
— Você não pode estar falando sério! Sasuke, você não é meu irmão, nós nunca fomos criados como irmãos! Seu irmão é o Naruto! O sangue não significa nada, você sabe disso! — Itachi exclamou, tentando levar uma de suas mãos de volta ao rosto de Sasuke.
Mas o caçula escolheu aquele exato momento para se por de pé, dando um passo para trás e ficando lado a lado com Orochimaru, abaixando o olhar para encarar o ex-Akatsuki que ainda estava de joelhos, observando-o com total incredulidade.
— Eu disse e repito: o sangue significa tudo pra mim. — respondeu, amaciando as feições ao ver que quem agora detinha lágrimas nos olhos era Itachi, e não ele — Me perdoe, Nii-san...
E o pior disso tudo foi que, desta vez, Sasuke murmurou a palavra "nii-san" com total seriedade e convicção.
... Continua...
[1] Capítulo 3.
[2] Capítulo 23.
[3] Capítulo 38 revela a capacidade de Karin de detectar nuances sentimentais na voz da pessoa.
[4] A mansão de Orochimaru é sim a mesma mansão que o Sasuke morou por um tempo depois que abandonar a quitinete, junto com a Karin. Na época, por óbvio, ele não se recordava que já tinha entrado ali várias vezes no passado.
[5] Escaras são feridas que aparecem na pele daqueles que ficam muito tempo na mesma posição, são decorrência da deficiência de irrigação do sangue. Ou seja, quem não se meche acaba por ter essas feridas (eu não estou falando de pessoas sedentárias, e sim de pessoas incapazes de fazer o mínimo de movimento). É por isso que pessoas em coma ou pessoas que tenham alguma limitação em seu movimento físico precisam ser movimentadas e ter a troca de suas posições, para ajudar nessas lesões. No entanto, é bastante inevitável que elas surjam quando alguém fica muito tempo parado, mesmo com todo cuidado dos enfermeiros e fisioterapeutas (só que sem o cuidado deles com certeza seria bem pior).
As feridas podem variar desde uma lesão superficial da pele, até verdadeiras úlceras que destroem os músculos da região, deixando os ossos da pessoa a mostra. Itachi ficou apenas três anos desse jeito e, por ser jovem e saudável, provavelmente não ficou num estado tão crítico assim. Mas lembre-se que Orochimaru provavelmente não se importava muito em movimentar o Itachi pra impedir isso de acontecer...
[6] Capítulo 25.
[7] Capítulo 32.
Observação: Eu gostaria de perder uns minutinhos aqui explicando as atitudes do Sasuke, para quem não entendeu com clareza toda essa mudança. Sasuke, anteriormente, possuía as "três mentes", sendo que podemos definir essas personalidades como: a mente vingativa e orgulhosa (o 'machinho'), a mente apaixonada e sexual (o 'frutinha') e a mente ponderada e envergonhada (o 'principal'). As mentes agora se uniram em uma só.
É por isso que Sasuke consegue agora demonstrar carinho tão abertamente no começo do capítulo, pois é um trejeitos dele que estava preso em uma de suas personalidades. Por outro lado, ele também consegue chorar e se sentir envergonhado por isso. Sasuke está ainda mais determinado na vingança. Enfim, assim vai. Vocês vão ver momentos que o Sasuke vai agir como cada uma das mentes, só que de uma forma mais sutil, velada, porque agora que ele se "misturou" as mudanças de comportamento não são tão abruptas.
Sasuke não vai ficar OOC, você não o verá tendo um rompante de lágrimas na frente de pessoas desconhecidas, ou indo contra o seu orgulho Uchiha. Mas por conta principalmente da mescla com a personalidade mais doce que ele tinha, ele será mais amável com aqueles que ele ama. Perceba também que antes da divisão de mentes, ele conseguia ser carinhoso com a Karin, e isso decorria do fato da mente dele estar "completa" naquele momento do passado.
Por outro lado, o Sasuke não está acostumado a receber emoções de uma forma tão incisiva. Toda vez que ele sofria uma decepção ou uma forte emoção, havia aquela "discussão mental" e as mentes relaxavam umas as outras. Agora, ele está reaprendendo a lidar com os sentimentos de uma forma mais direta, e isso gerará a necessidade de readaptação dele.
No mais, o fora que o Sasuke deu no Itachi não está ligado apenas ao seu repúdio moral ao incesto consangüíneo. Ele tem problemas para aceitar os outros em sua vida, ele próprio nunca disse abertamente que Naruto e Kakashi são sua família, pois ele é traumatizado e acha que quem entra na sua família acaba morrendo. Sasuke disse o que disse para empurrar Itachi pra longe, mas a complexidade dos sentimentos dele é maior do que ele declarou. Sasuke tem verdadeiro pavor que Madara atinja Itachi para prejudicá-lo quando ele for confrontá-lo, e isso o faz tentar se manter distante o irmão.
Tenham em mente que nesse ponto da fanfic Sasuke realmente ama o Itachi; apesar de ainda não ter dito isso.
N/A: Pobres leitores... Vocês acharam que o Sasuke ia parar de fazer Sasukices tão cedo assim? Hehehehe. Desculpe o balde de água fria, mas seria muito fácil. Ainda há sim chances para Sasuke rever tudo isso, mas... bom... terão que ler pra descobrir se isso vai acontecer ou não!
Sem muito o que dizer nas notas finais, espero que tenham gostado! Aguardo reviews com a opinião sincera de vocês! =D
Até a próxima! Um beijão!
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Aviso sobre Plágio: Plágio é crime (artigo 184 do Código Penal) e quem plagiar qualquer fanfic minha, seja totalmente, parcialmente, ou seguindo os mesmos acontecimentos e apenas escrevendo com outras palavras (plágio conceitual) será denunciado e processado judicialmente. Eu sou advogada, sei meus direitos e não vou hesitar em buscá-los, pois pra mim vai ser só mais um processo pra levar a diante, enquanto para você será uma imensa dor de cabeça. Tenha em mente o que te aguardará caso você decida plagiar algo meu, e tenha certeza do seguinte: se eu ou algum leitor meu encontrar o seu plágio de fanfics de minha autoria, eu não terei piedade. Quem não teve respeito com minhas obras não merece minha consideração e meu perdão.
Resposta das reviews deslogadas:
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Brubassaur:
Oiee! =D
Que bom que gostou do capítulo! Fico contente!
Huahauhauhua Orochimaru é muito safo, ele descobre cada coisa que ninguém acredita como ele pode ter pensado em algo assim. Ele é muito "arrepiante" mesmo hahahaha.
Você não é a única que está com um caso de ódio com as mentes do Sasuke. Muita gente parou de gostar delas de cá pra lá. Mas, como pode ter visto nessa atualização, acabou esse dilema. =)
Itachi é sempre um fofuragem! Ok, não sempre, mas no momento ele anda muito amorzinho hahaha. Também concordo, Itachi deve ser bem melhor de cama que o Madara, é mentira do Sasuke hahahaha.
Muito obrigada pela review, espero que goste da atualização!
Um beijão! Até a próxima!
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Chrizes:
Olá! Seja muuuuito bem vinda!
Muito obrigada pelo elogio, estou contente que a fanfic supriu suas expectativas! =D É sempre muito bom ter leitores que voltaram pro fandom, espero que acompanhe Haunted até o fim! Tá acabando!
Eu sei hahehehehe muitos leitores estavam impacientes pro Sasuke e Itachi se encontrarem, mas eu não pude acelerar muito os fatos até esse capítulo porque os Akatsukis também são importantes pro plot. Mas espero que o capítulo anterior tenha matado um pouco a vontade de vê-los junto. =)
Madara está... A caminho. Sim, ele vai aparecer ainda, é claro que vai. Aguarde.
Sobre o Orochimaru, acho que algumas coisas já ficaram claras sobre ele nesse capítulo, mas ainda terá algumas revelações?
Bom, Gaara e Sai são amigos! Quem sabe, né? Se eles sobreviverem... Hehehehe.
Me desculpe pela demora flor, sinto muito que você tenha começado a leitura na etapa final da fanfic. Eu atualizava semanalmente antigamente, depois passei pra quinzenalmente, e no momento eu ando bem sem prazo. O problema é que nesse período final eu preciso reler muita coisa da fanfic, está cada vez mais difícil escrever Haunted pra não deixar pontas soltas. Isso acaba demandando semanas de foco quase exclusivo em Haunted pra atualizar a fanfic sem falhas de plot. Espero que compreenda e continue comigo até o fim! =D
Eu juro que faço tudo que posso pra atualizar o quanto antes! =D
Um beijão, obrigada pela review! Espero te ver nos comentários novamente!
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Maisa:
Oie!
Muito obrigada! Seu apoio é essencial, principalmente nessa fase final!
Obrigada por vir aqui me animar hehehehe!
O problema não é tanto falta de animação, eu ando animada com a fanfic. O problema é a correria profissional aliada à etapa final da fanfic. Tá sendo difícil escrever, preciso reler muitas coisas pra não ter falha de plot, e o meu trabalho não tem dado folga. Tive alguns problemas profissionais, uma proposta que eu tinha de emprego não saiu e eu estava contando com isso pra "relaxar". Não vou entrar em detalhes, mas basicamente minha vida pessoal e profissional também tá demandando muito de mim.
Mas eu nunca esqueço de vocês e faço o possível pra atualizar o quanto antes.
Obrigada pelo apoio, espero que não esqueça de mim também e tenha gostado desse capítulo! ^^ Beijos!
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Ale:
Oie Ale!
Entendo perfeitamente, não se preocupe!
Huahuahuahua curiosidade faz parte, se vocês não ficassem curiosos com a fanfic tenho certeza que já tinham abandonado. É a única arma que eu tenho pra prender vocês à leitura ueheuhuehuehue.
Eu escrevo livros! Eu só não publiquei ainda uahauhau! Mas quando eu publicar, eu vou anunciar aqui pra vocês. =) Está no plano de produção!
Não vou abandonar a fanfic, fique tranqüila. Eu nunca abandono algo que comecei, nunca. Eu sou muito persistente. Posso demorar, mas chego até o fim, independente dos leitores. Claro, quanto mais leitor participativo tiver, mais prazeroso é escrever e os capítulos saem mais rápido.
Confie em mim, ok? ^^ Eu já disse mais de uma vez pra vocês que não vou parar. Se vocês continuarem comigo, vai ser ainda melhor!
Desculpe se a demora dessa atualização te deu um medinho, mas foi por causa do caos do fim do mangá de Naruto. Eu acabei perdendo muita inspiração e precisei escrever fanfics diferentes pra retomá-la. Mas agora estou aqui! o/
Um beijão! Espero que tenha gostado do capítulo!
