Disclaimer: Os personagens da fanfic pertencem a Masashi Kishimoto; a trama, no entanto, me pertence.

Warnings: linguagem chula, violência, mortes, tortura, cenas explícitas de sexo homossexual e relações incestuosas.


N/A: Olá Leitores! *ignora o olhar reprovador dos leitores e abraça todo mundo* Saudades!

Eu sei, eu sei, demorei demais pra atualizar, foi meu recorde. Aliás, eu fui contar a quantidade de atualizações que eu fiz em Haunted no ano passado e quis me açoitar por perceber que foram tão poucas! Me desculpem por isso, ano passado minha vida ficou uma loucura mesmo, foram muitas mudanças e imprevistos de uma vez só (e a novela continua). Eu só não me sinto pior por isso porque eu escrevi outras fanfics além de Haunted, então até que eu produzi uma quantidade razoável de material.

Esse ano minha meta principal é terminar Haunted. Doa a quem doer, de 2016 não passa. Portanto, peço só mais um pouquinho de paciência, porque estamos na reta final! Tem gente me perguntando quantos capítulos falta pro fim de Haunted e, apesar de eu não confiar muito nessas minhas previsões, eu chuto que faltam três capítulos. Depende de como vou conduzir o capítulo seguinte, porque eu ainda não tomei uma decisão a respeito disso. De qualquer forma, vocês estão sendo muito pacientes comigo, então MUITO OBRIGADA! Mesmo, de verdade, eu me sinto muito contente toda vez que me explico na página e vocês me dão apoio e dizem para eu tomar meu tempo que vocês vão esperar a atualização. ^^ O apoio de vocês conta muito. Explico mais sobre o que está acontecendo comigo ao final do capítulo, para os que se interessarem.

Com relação ao capítulo, eu espero que esteja compreensível. Foi um capítulo que demandou muita experimentação, reescrita e tudo mais, até eu chegar a técnica final que utilizei. Pra ser sincera, eu não estou totalmente satisfeita com o resultado, mas eu sinceramente sou incapaz de fazer melhor numa cena com mais de quinze personagens. Foi o que deu pra fazer com a minha experiência limitada... Desculpe.

Chega de lenga-lenga. Boa leitura a todos! Espero que gostem do capítulo e que me perdoem mais uma vez por ser essa pessoa tão bagunçada. ^^'

Amo vocês! S2


HAUNTED

Capítulo XLVI

Ele sempre sentiu um prazer imensurável em observar o caos.

Havia uma beleza pouco explorada nessas situações. A demonstração da natureza particular de cada pessoa perante uma situação de desordem era inquestionável. Planos detinham o controle até certo momento, todavia, quando o caos se instalava, não havia tática de emergência que estabilizasse a completa desordem e retornasse ao status quo. A natureza e o instinto se apresentavam como peças fundamentais perante essas situações e a consequente derrota ou vitória resultava única e exclusivamente da capacidade pessoal de cada um de ministrar, da melhor forma possível, o seu desespero. Não havia meio termo, tampouco qualquer possibilidade de ponderação.

Mas para ele era assim que a existência das pessoas deveria ser, visto que era assim que ele se viu obrigado a viver: sem meio termo, só extremos.

Zetsu deixou um sorriso sádico emoldurar seus lábios, pensando acerca da ironia de toda aquela situação. Sempre o condenaram pelo seu "comportamento extremista", frisavam a existência problemas em sua personalidade, o obrigaram a se submeter à terapia e incontáveis ministrações de medicamentos que nada mais eram do que o mais puro placebo dentro de seu organismo. Transtorno bipolar é uma assombração na sua existência, suas inconstâncias de humor e alterações da fase maníaca e depressiva diversas vezes durante um mesmo dia se mostraram dois extremos complementares: Madara não o desejava como cobaia por seu defeito incurável e irremediável, mas o líder precisava mantê-lo como cobaia para descobrir como solucionar esse problema e poder comercializar a proteína.

No fim das contas, ele foi resumido em o "elo fraco" de todo o experimento, enquanto ainda era essencial para o próprio aprimoramento destas pesquisas. Se Madara e Orochimaru não conseguissem tratar transtornos mentais de usuários da proteína, qual governo utilizaria esta descoberta em seu exército próprio ou na segurança pública? Zetsu era forte como qualquer outro Akatsuki ali presente, mas qualquer antidepressivo colocado em sua boca se tornava tão efetivo quanto uma capsula vazia, porquanto seu corpo eliminava rapidamente qualquer droga, seja ela lícita ou ilícita, e este era o efeito colateral que todo cobaia da proteína estava submetido. A única exceção, por óbvio, era a morfina, e o resultado desse tipo de medicação era extremamente... desconfortável.

Pra piorar ainda mais esse quadro, havia a possibilidade de ter sido a própria proteína quem potencializou a severidade de sua condição psicológica; era difícil saber se o transtorno se manifestaria tão intensamente caso ele não tivesse sido submetido à proteína desde criança. Que país, em suas reais condições, arriscariam dar aos seus soldados ou cidadãos alguma droga que pudessem deixá-los instáveis? Em outras palavras: que nação daria poder à uma pessoa louca e incontrolável como Zetsu?

Orochimaru costumava dizer que ele não deveria referir a si mesmo como "louco", afirmava que seu transtorno era mais comum no mundo exterior do que ele podia imaginar, o que o tornava era uma pessoa normal como qualquer outra (dentro do nível de normalidade que um Akatsuki pode ter, é claro). No entanto, já fazia alguns anos que Zetsu sentia conforto em pensar a si próprio como louco e extremista. Porque em situações de caos como aquela em que ele se encontrava naquele exato momento, a loucura vinha a calhar como um conforto que os sãos jamais conheceriam.

Zetsu se sentia mais forte do que qualquer um deles. Sua cabeça, sempre tão bagunçada e inconstante, era a mais familiarizada com esse sentimento; enquanto todos, inclusive Madara, pareciam padecer perante suas emoções. Era reconfortante essa troca de posições, pois pela primeira vez em sua vida, Zetsu tinha o controle de saber lidar com a situação enquanto todos eles estavam perdidos.

Afinal de contas, foi por esse momento que eu esperei todos esses anos...

(***)

Por alguns instantes, Sasuke pensou que seu corpo não obedecia mais aos seus comandos. O desespero que sentiu foi tão intenso que era difícil compreender o que ele mesmo fazia na dominação de seus instintos. Quando se deu por si, sua garganta estava em chamas, possivelmente pelo grito que deve ter exclamado para que Madara se afastasse de Itachi; ele já se encontrava há poucos metros do líder da Akatsuki, visando atacá-lo, e fez tudo isso sem dar conta de seus atos.

Não perca a cabeça! — Foi tudo que ele conseguiu pensar quando voltou a si, sabendo que deveria, de alguma forma milagrosa, manter a calma para batalhar contra Madara. O Uchiha mais velho detinha técnica e anos de treinamento enquanto ele não possuía nem um terço desta vantagem. Estar nesse cenário com a cabeça-quente pioraria ainda mais essa disparidade de técnica; instinto não era um diferencial naquele momento, ele precisava de racionalidade.

Suas pernas estavam dormentes e ele tinha a certeza que jamais em sua vida correra tão rápido. Seu medo de que Madara matasse Itachi ali, sem grandes cerimônias, era palpável e desnorteador.

Mas isso não podia acontecer, ele não iria deixar!

Se Naruto não tivesse aberto a boca e feito a cabeça de Madara funcionar e unir os pontos, nada disso aconteceria! Entretanto, a culpa não era de Naruto, por mais idiota que o loiro fosse: a culpa era de Madara, a culpa de tudo que todos eles tiveram que passar em sua vida era dele. Este monstro teve a capacidade de destruir a sangue frio sua família duas vezes, e Sasuke não permitiria que Madara retirasse a vida de qualquer pessoa que era importante para ele; muito menos a vida de Itachi, e não era apenas em virtude dos seus sentimentos que ele pensava assim.

De certa forma, Madara já destruiu a vida que Itachi nunca pôde ter o prazer de usufruir com toda aquela manipulação de anos. Contudo, Sasuke sabia que se alguém ali podia se recuperar dos traumas e ter uma vida normal, esse alguém era Itachi. Enquanto o Uchiha mais novo não via mais um futuro para si, já se considerando "quebrado" demais para colocar sua vida de volta nos trilhos, ele via em Itachi a possibilidade de "concerto": afinal, ele parecia ter adquirido algum vínculo com as pessoas que decidiram invadir o QG, principalmente com Kakashi e Naruto, e isso deixou claro que Itachi não era forte apenas fisicamente, mas também mentalmente. Se nem mesmo anos de experimentos e manipulações psicológicas destruíram-no por completo, Itachi era capaz de se reerguer e ser feliz algum dia.

Se havia a mínima possibilidade de Itachi ter uma vida normal, Sasuke faria de tudo para garantir-lhe esse presente. Não por dívida de honra ou qualquer baboseira do gênero, mas porque somente se Itachi se livrasse deste pesadelo, Sasuke conseguiria redimir toda aquela maldição. Era isso que Fugaku e Mikoto queriam para Itachi, não é mesmo? E, é claro, não era somente eles que queriam a felicidade de Itachi; não havia como Sasuke continuar negando, não para si próprio:

Kakashi, Naruto, Itachi... Sasuke amava essas três pessoas, cada qual a sua maneira, com forma de amores diferentes e relacionamentos totalmente distintos, mas com a certeza de que daria sua vida por qualquer um deles. No entanto, Sasuke considerava que, dentre todos, Itachi era quem mais merecia uma nova vida... Ele nunca teve uma vida de verdade, existindo à sombra de uma pessoa já falecida em uma mentira orquestrada por Madara e abraçada por toda a Akatsuki.

Itachi ansiou por algo a vida toda sem saber exatamente o que era, e esse "algo" nada mais era do que sua própria liberdade. Ele lutou tanto por essa carta de alforria; Sasuke o via como um verdadeiro guerreiro por conseguir conquista-la, mas achava um desperdício o mais velho mal ter disfrutado de tempo para usufruí-la, gastando-a em nome de uma missão suicida de resgate. Não, as coisas não podiam terminar assim! Itachi precisava, merecia e iria viver. Viver como Itachi Uchiha, e não como a sombra de Izuna Uchiha.

Eu quero que ele volte a jogar xadrez, a aprender receitas, a ler clássicos da literatura. Eu quero que ele se preocupe com coisas mundanas como pagamento de contas, estudos e brigas com colegas de trabalho. Eu quero que ele tenha a oportunidade de amar e ser amado por alguém normal... Alguém que o mereça... E... Eu quero que ele finalmente seja normal, e eu sei que no fundo também é o que ele quer. Ele quer ser livre, e eu darei à ele essa oportunidade.

Era estranho como Sasuke conseguia pensar em tantas coisas enquanto corria, mas parecia que tudo fazia mais sentido naquele momento. Itachi já havia dito em outra ocasião que era Sasuke quem mantinha sua humanidade, mas Sasuke discordava disso: Itachi era humano, em sua mais pura forma de humanidade, mas incubado; Sasuke pode ter dado um pontapé inicial para essa humanidade aflorar, mas todos os novos amigos de Itachi o auxiliaram nesse redescobrimento dos sentimentos humanos e da unicidade que ele tem como Itachi Uchiha. Naruto, talvez, tenha tido até mais importância para essa libertação do que o próprio Sasuke. Estava claro que Sasuke não seria a pessoa ideal para alguém como Itachi (ou qualquer outra pessoa, se perguntasse a opinião do próprio rapaz), mas já estava mais do que na hora de permitir que ele vivesse essa humanidade em sua plenitude; mesmo que não fosse ao seu lado.

Ele iria salvar Itachi, custe o que custar; não por uma mera questão de amor egoísta, mas por humanidade.

Assim que Madara ergueu o braço para pegar impulso e acertar o rosto de Itachi, Sasuke pulou em sua corrida e caiu por cima do corpo dos dois, impulsionando o homem mais velho para longe e conseguindo impedir o golpe de acontecer: Madara, em meio ao ataque surpresa, acabou socando o chão de concreto ao lado da cabeça de Itachi, e o piso rachou em dois pontos com o impacto de seu golpe.

Se ele tivesse acertado, Itachi certamente não teria sobrevivido.

Sasuke se moveu: viu uma brecha na defesa de Madara e tentou imobilizá-lo com suas pernas, mas o outro voltou a si mais rápido do que ele antevira. Naturalmente, o líder terminou o breve combate em solo por cima do seu atacante, prendendo-o contra o chão sem qualquer problema e fitando-o com a mais pura ira estampada em seu olhar.

— Você é mais idiota do que eu pensei, pivete Uchiha! — a voz de Madara soava recheada de desdém; fazia muito tempo que Sasuke não o ouvia chamá-lo desta forma e, pela escolha desde termo, ele soube que qualquer tipo de falso respeito que os dois tivessem conquistado até então não possuía a mínima possibilidade de ser retomado. Madara detinha lágrimas de raiva nos olhos, e Sasuke certamente nunca o vira tão descontrolado — Você acha que eu não te treinei e mandei que outros fizessem isso atoa? Você acha que eu assistia porque não tinha nada melhor pra fazer?!

Sentindo uma fúria grande demais para que pudesse responder em palavras, Sasuke fitou os olhos cor de violeta de Madara, tão semelhantes aos seus novos olhos, com uma vontade súbita de arrancá-los de suas órbitas.

— Você não sabe nenhum ponto fraco meu, mas eu sei todos os seus pontos fracos! Eu assisti todos eles sendo escancarados para mim enquanto você treinava com número um. — Madara aproximou seu rosto de Sasuke e sussurrou em seu ouvido, apertando mais a sua imobilização enquanto o mais novo procurava uma escapatória, forçando-o a virar a cabeça para o lado e praticamente encostando seus lábios no ouvido do rapaz — Eu conheço cada pequena falha na sua técnica de combate, eu inclusive ordenei para que Pain deixasse algumas falhas passarem e não te corrigisse em certos aspectos. Eu sempre tenho minhas cartas na manga, pirralho insuportável. Não seja estúpido em me subestimar!

O ego de Sasuke fervilhava em raiva ao confirmar sua suposição: é claro que Madara não o treinara de propósito, ele sabia, no fundo no fundo, que a confiança entre eles nunca foi plena, nem mesmo no auge da manipulação de Orochimaru em sua cabeça. A confirmação disso o deixou ainda mais furioso, mas antes que ele pudesse se render e perder a cabeça, o olhar semicerrado de Itachi em seu novo campo de visão lhe chamou a atenção.

Itachi sorria, seu rosto estava sujo de sangue bem como a maior parte de suas roupas por causa do tiro, mas ele se mantinha consciente e ainda conseguia sorrir em alívio, provavelmente por perceber que Sasuke o salvara de um golpe mortal, o que certamente era uma surpresa agradável. Apesar de aparentar felicidade ao poder trocar olhares com Sasuke, parecia sem forças para falar; ainda sim, ele moveu os lábios em uma tentativa silenciosa de comunicação e, mesmo que som algum fosse audível, Sasuke conseguiu ler seus lábios:

"Confie nele".

O caçula estava irritado demais com tudo que acontecia pra fazer essa afirmação ter algum sentido em sua cabeça. Itachi estava muito machucado, quase desacordado! Ele precisava se desvencilhar de Madara o quanto antes e tirá-lo dali, forçá-lo a parar de direcionar sua raiva para Itachi.

E que técnica melhor para conseguir isso do que desviar a raiva do outro para si?

— Você se vangloria demais! — Sasuke rosnou à Madara, conseguindo deixar um de seus braços escaparem da imobilização, empurrando seus ombros para trás na tentativa de fuga — Eu derrotei Pain e Konan, juntos! Você é quem está sendo estúpido em me subestimar!

Madara não viu dificuldades em retomar a imobilização de seu prisioneiro, alterando a sua força para o baixo ventre e conseguindo mudar seu centro de gravidade o suficiente para o impedir de se debater; gargalhou, satisfeito e vitorioso, enquanto Sasuke se sentia ainda mais preso conta o seu corpo e o encarava com ira cada vez maior.

Se Sasuke pudesse ter um frenesi, ele já teria perdido o controle. Assim seria ainda mais fácil arrancar a garganta deste traidor!

— Você se vangloria por derrotar dois Akatsukis que estavam em nível mínimo de proteína? Precisa selecionar mais seus exemplos para comparações, moleque! — ele rebateu em um murmuro provocador ao ouvido do traidor — Ainda sim, agradeço pela piada. Obrigado por me tirar do meu estado de raiva. Eu não posso matar Itachi agora, vocês dois tem que ser os últimos. Acredite: estou sendo generoso ao permitir o prazer da morte mais rápida aos primeiros. Enquanto vocês dois...? Ah... Quem sabe dentro de três ou quatro anos eu tome piedade para acabar com a vida de vocês; se os negócios estiverem prosperando e eu estiver de bom humor, naturalmente.

— Você não passa de uma lenda, Madara! — o caçula declarou, praticamente cuspindo veneno e tremendo dos pés aos cabeça, se preocupando mais do que poderia admitir com a vida de Naruto e Kakashi. Ele precisava ganhar tempo, irritando Madara sua raiva seria novamente direcionada apenas à ele, não aos que ele considerava meros "inconvenientes prontos para serem descartados" — Você se acha tão poderoso, mas sempre esteve atrás de seus capangas e eles são quem colocam seu jogo sujo em prática. Você é um covarde, tentando lavar sua índole por não sujá-la com sangue, mas sendo pior do que todos ao se tornar o mandante! O pior tipo de assassino que existe, aquele que não tem nem a coragem necessária de pôr a mão na massa!

Madara ergueu a mão e desferiu um golpe violentíssimo no rosto de Sasuke, mas mediu sua força para não matá-lo; o traidor ainda iria sofrer muito antes de ter o prazer da morte. Ainda sim, precisava admitir que até seus punhos doeram com aquele impacto, mas foi uma dor extremamente satisfatória.

O caçula, por sua vez, nem soube ao certo se chegou a apagar com aquele soco lateral, mas quando voltou a sua consciência, sentiu o indiscutível gosto metálico de sangue em sua boca e teve a certeza de que boa parte de suas roupas já estavam banhadas nesta substância.

Ele estava preocupado demais para se preocupar com a dor, no entanto.

— Você me acha covarde, seu protótipo de Uchiha? — Madara retrucou, olhando-o com extrema repulsa, levantando-se e lhe mostrando seu punho sujo de sangue para Sasuke perceber o quanto ele não se importava nem um pouco com aquilo. Ao fundo, o Uchiha caçula ouvia os gritos de Naruto e Kakashi, mas estava zonzo demais para compreender outros detalhes do ambiente; e, mesmo sendo libertado da imobilização, ele não conseguia se mover o suficiente para fugir — Eu tratarei de ter isso em mente enquanto arranco a pele de todos os outros aqui presentes e mostro pra você como eu não me importo com sangue. Você vai assistir de camarote, não se preocupe. Quando você tiver o seu primeiro chilique de hematofobia [1], vai ficar claro quem aqui odeia ver sangue, seu covarde. Número quatro e cinco, venham!

Sasuke não ouviu os passos, mas sua visão começou a estabilizar quando percebeu a aproximação de Deidara e Sasori. O ruivo o olhava de cima com uma expressão neutra, até mesmo um pouco entediada; o loiro, no entanto, parecia temeroso e incerto, espionando Sasori a todo momento de canto de olho, como se aguardasse avidamente por um comando dele.

Ele tentou se levantar, mas Madara aproveitou aquele momento para pisar com força em seu peito, forçando-o a expelir o ar de seus pulmões e o deixando ainda mais zonzo pela falta de oxigênio e dor em suas costelas.

Apesar de sua vontade de torturar Sasuke até o garoto perder mais uma vez a consciência, ele já tinha gastado tempo demais com besteiras. Pouco depois das primeiras tossidas de agonia, Madara o libertou, amando o som que Sasuke fazia ao ofegar e tentar inutilmente reestabelecer a constância de sua respiração.

— Prendam esse imprestável e me sigam! — Madara ordenou aos seus subordinados, não desprendendo nem mais um olhar ao traidor, dando-lhe as costas e caminhando em direção aos demais prisioneiros.

Logo o Uchiha foi imobilizado, desarmado e amarrado com as mãos às costas pela dupla dos artistas. Muito provavelmente Sasori e Deidara não conseguiriam render Sasuke tão facilmente se ele não estivesse ainda sentindo os efeitos do golpe de Madara, e estava evidente de que ele demoraria a se recuperar: sua boca sangrava de uma forma extremamente preocupante, cada movimento de respiração distribuía uma dor dilacerante em seu corpo e ele fazia o máximo para não desmaiar novamente. Mesmo assim, o garoto ainda realizou uma tentativa ridícula de se desvencilhar, talvez por instinto, ou talvez por estar confuso quanto aos planos de Sasori.

O ruivo girou os olhos, um pouco cansado dessa expressão que todo mundo fazia de duvidar de suas intenções.

— Foco, Uchiha. — Sasori murmurou ao ouvido de Sasuke enquanto o amarrava, tão baixinho que o garoto sequer sabia se estava ouvindo algo real ou alucinando.

Itachi afirmara que Sasori e possivelmente Deidara estariam ao lado deles, mas Sasuke não podia contar tanto com essa certeza; ele agora compreendia que era isso que Itachi tentou relembrá-lo em seu sussurro inaudível. Confiar nele... Confiar em Sasori... Era isso que ele deveria fazer.

Só que o jogo virou muito rapidamente e, talvez para manter sua pele intacta, Sasori e Deidara teriam reconsiderado a parceira. Certamente Deidara parecia bastante incerto do que fazia, mas as palavras de Sasori deram um pequeno pingo de esperança para o Uchiha; além disso, a forma como seus braços foram amarrados porcamente, com muita folga e com grande abertura de escapatória, lhe deram a confirmação de que, ao menos até o momento, Sasori continuava ao seu lado: número quatro estava interpretando, pois alguém ali tinha que manter as aparências já que o Uchiha caçula deixou a máscara cair cedo demais.

A dupla o colocou de joelhos enquanto amarrava seus braços às suas costas, e Sasuke brevemente trocou olhares com Kakashi e Naruto enquanto se debatia para manter algum grau de farsa, observando o espanto e medo nos olhos de cada um deles. Mesmo com o nervosismo evidente de ambos, principalmente de Naruto, eles mantiveram a boca fechada. Por fim, Sasuke olhou brevemente para as costas de Madara e, se seus olhos fossem capaz de atear fogo, o líder já estaria em chamas.

— Vem. — Sasori murmurou em seu ouvido antes de agarrar Sasuke pelos cabelos e puxá-lo para seguir Madara, retirando do corpo dele qualquer armamento que ainda estivesse preso em sua roupa — Confie nele.

Porque tá todo mundo me falando essa merda de "confie nele"?

Grunhindo em irritação, Sasuke se colocou de pé, mas nem por isso Sasori afrouxou a pegada em seus cabelos, machucando de verdade. Deidara, para acompanhar os dois, apenas segurava os braços de Sasuke e o impedia de se mover e escapar das amarras frouxas antes do tempo.

Ambos o arrastaram até chegarem ao lado de Madara e forçaram seus ombros para baixo, seus joelhos cederam e latejam com o impacto contra o chão duro; sua cabeça foi forçada para baixo, e ele nada mais observava do que suas próprias calças surradas.

O Uchiha aproveitou a posição para virar a cabeça milimetricamente para o lado e espionar o estado de Itachi, ainda extremamente preocupado com ele. Itachi não parecia estar desacordado ainda: ele tossia, virando a cabeça para a lateral e tentando respirar, como se estivesse se sentindo sufocado naquela posição.

Itachi não está bem. — Sasuke concluiu, temeroso pela sua saúde.

No entanto, vê-lo ainda acordado, mesmo que não conseguisse falar, era algo bom. Talvez ele pudesse se recuperar um pouco agora que Madara estava longe; talvez eles tivessem sorte o suficiente para Madara não mandar nenhum Akatsuki torturá-lo enquanto ainda lidava com o súbito combustível de ira que só um orgulho ferido proporciona a um Uchiha.

Sasori soltou seus cabelos e se afastou, dando alguns passos para trás.

— Teme... — Naruto murmurou bem próximo do Uchiha, desviando sua atenção e fazendo-o erguer um pouco o olhar e se dar conta do quão perto estava do loiro: talvez apenas dois metros de distância separasse um do outro.

Isso não era nada bom. Madara podia ter deixado Itachi para escanteio por alguns minutos, mas sua aproximação aos demais invasores não era, nem de longe, um bom indício.

Kakashi estava amarrado logo ao lado de Naruto, respirando de forma ofegante, analisando seu arredor como se esperasse um milagre acontecer. Shikamaru mantinha o olhar baixo e a quietude evidente, bem como seus olhos fechados, ao certo tentando bolar um plano de fuga. Sai, um pouco próximo dali, também parecia rendido, e apenas olhava a cena com uma expressão de desesperança. Zetsu encontrava-se de pé a poucos metros dali, aparentando despreocupação e curiosidade, não visando agir sem receber uma ordem de fato (como todos os Akatsukis sempre foram ensinados a agir). Pain, Konan e Tobi não estavam no campo de visão de Sasuke.

Gaara, no entanto, olhava desafiadoramente para ele, atraindo totalmente sua atenção.

Sasuke sabia que Gaara tinha alguma carta na manga, e o ruivo já percebera antes da farsa toda cair que Sasuke estava do lado deles. Ao encarar os ferozes olhos verdes Sasuke teve um insight, lembrando-se que Sasori sussurrou alguma coisa no ouvido de Gaara antes de tudo sucumbir... Isso indicava que o "ele" ao qual Sasori se referia era Gaara, só podia ser! Sasori disse para ele confiar em Gaara, deve tê-lo ajudado também; o Uchiha caçula ele não tinha outra escolha no momento, confiar era sua última saída.

Só espero que esse idiota saiba o que está fazendo.

— O que você acha, moleque? — Madara falou, sua voz soando alta e um pouco divertida, atraindo a atenção de todos os presentes para ele mais uma vez — Que tal um teatrinho de relembranças? Temos pessoas o suficiente aqui para reencenar a morte de seus pais e padrinhos. Se bem que, levando em consideração o tanto de trabalho que todos vocês deram pra mim, eles merecem mortes mais violentas. Hm... Acho que o loirinho ali deve ser o primeiro, talvez começar cortando aquela língua grande que ele tem seja um bom prelúdio.

O silêncio da indignação estupefata de todos seria marcante no ambiente, se Zetsu não tivesse deixado escapar uma risadinha sarcástica e empolgada. Sasuke, por sua vez, estava apavorado demais para se irritar com a ousadia do Akatsuki: sentiu seus corpo todo arrepiar ao se dar conta de que, pela primeira vez, Madara pretendia realmente pôr a mão na massa quando ele deu um passo à frente e apontou a Desert Eagle na têmpora do loiro.

Não era uma ameaça vazia. Não desta vez.

— Madara! Não! — Sasuke exclamou, sua voz soando esganiçada e fraca; sua mandíbula latejava pelo esforço de tentar falar, mas ainda sim ele respirou fundo na intenção de gritar mais alto suas súplicas.

Entretanto, Sasori cobriu sua boca com a mão, impedindo-o de chamar a atenção de Madara para si.

— Não dê pra ele exatamente o que ele quer, Uchiha. — Sasori sussurrou baixinho ao ouvido do garoto; Madara, milagrosamente, não percebeu.

Ele estava concentrado demais no desespero estampado nos olhos de Naruto para perceber.

— Abra a boca, Uzumaki. — Madara sussurrou em um falso tom de ternura, ignorando qualquer tentativa de Sasuke de atrapalhá-lo e confiando que Sasori e Deidara seriam capaz de contê-lo. Retirou uma kunai de um dos bolsos de sua calça e a girou entre os dedos de sua mão, passando a lâmina afiada contra o lábio inferior de Naruto, levemente, mas com pressão o suficiente para cortá-lo em alguns pontos e permitir um pequeno filete de sangue de escorrer em seu queixo — Farei doer menos se você obedecer.

Naruto estava com os olhos arregalados, tremendo de medo ao sentir o gelado do cano da arma em sua cabeça e a kunai tão próxima de sua boca, mas mantendo a firmeza no olhar; ele podia estar ferrado e prestes a sofrer a ira de Madara, mas ele não iria acatar as ordens de um maldito como ele. Ouvia Sasuke respirar de forma ofegante e instável próximo de si, provavelmente preocupado em demasia e sendo impedido de falar por conta de um dos capangas de Madara. Também ouvia os gritos desesperados de Kakashi ao seu lado, mas não tinha coragem de tentar olhar o seu namorado nos olhos.

— MADARA! SOLTE-O! EU POSSO CURAR VOCÊ! — Kakashi gritava, se debatendo e tentando jogar-se entre Naruto e Madara, sem muito sucesso — EU POSSO ACABAR COM A SUA DOR! NÃO FAÇA ISSO, POR FAVOR!

— Você está insinuando que eu sou doente, Kakashi Hatake? — Madara questionou sobriamente, não direcionando sua atenção para o grisalho apesar de dirigir suas palavras a ele — Antes eu estivesse... Há alguns anos, tudo que eu queria era ter ficado doente também. [2]

Kakashi podia dizer que me ama logo em vez de convencer o louco do Madara coisas que ele nunca vai entender. — pensou com melancolia, odiando o gosto de seu sangue que já se fazia presente em suas papilas gustativas, mas detestando ainda mais os berros desesperado de Kakashi — Pelo jeito, não adiantou nada a nossa "garantia". [3] Eu vou morrer aqui e agora, e vou morrer sem ouvir as três palavras mágicas...

Naruto sabia o que Madara pretendia fazer: ter reprovado diversas vezes nas aulas de anatomia e Jiraiya o fizeram aprofundar um pouco mais na matéria do que ele deveria, talvez por tentar desesperadamente passar (o que nunca parecia ser o suficiente e hoje ele entendia que, de certa forma, Jiraiya talvez o tenha mantido naquela matéria para vigiá-lo durante algum tempo). Ele sabia que um ferimento na língua era capaz de matar: se fosse feito na base, a quantidade de irrigação sanguínea que aquela parte do corpo possuía poderia fazer com que a pessoa sangrasse até a morte, mas muito provavelmente faria com que a vítima se afogasse com o próprio sangue e, no caso de uma extração total do órgão, ele não seria capaz de engolir, o que causaria uma morte por engasgo. Seria uma morte simbólica pela forma como ele provocara Madara, e extremamente humilhante: algo de se esperar de uma pessoa grotesca como aquela.

Naruto nunca foi uma pessoa que se prendia demais aos sentimentos negativos. Nem mesmo na sua época mais trágica ele conseguia ficar furioso com alguém por muito tempo, ou culpar os outros pelos seus problemas — talvez até por isso ele tenha se culpado tanto pela sua forma diferente de ser e tenha se afogado em sua melancolia. Independente de seu passado, Naruto nunca se prendeu muito à quem era o assassino de seus pais e padrinhos: apesar de saber que alguém cometera o crime, não interessava para ele encontrar culpados. Nem mesmo depois de conhecer Itachi e saber que ele sabia quem havia executado os seus pais, ele nunca o forçou a lhe contar quem foi o escolhido para a tarefa. Mas Madara... Madara estava abaixo de qualquer atitude de benevolência de Naruto. Ele não conseguia perdoá-lo, não apenas por ser o mandante daqueles crimes que retiraram de si sua família e sua juventude, mas por tudo que ele fizera com Itachi e Sasuke.

Desta forma, o Uzumaki tremia sim de medo, mas muito mais de raiva. Era incapaz de trocar olhares com Madara, mesmo que tentasse parecer forte e enfrentar sua sina com coragem, ele não era acostumado a lidar com tanta fúria interior e se via incapaz de observá-lo por muito tempo. Naruto nunca desejou a morte de alguém como naquele momento, e sentia-se até um pouco mal por esse sentimento.

Incapaz de olhar para Madara ou sua família em um momento de humilhação e ira como aquele, Naruto buscou conforto ao tentar trocar olhares com Gaara. Ainda não entendia como o ruivo se envolvera com os mercenários e quais motivos o fizeram ir até ali, mas vê-lo são e salvo, distante daquele manicômio, era algo extremamente recompensador (mesmo que ele não estivesse numa posição muito melhor naquele momento). Ele queria o conforto que sabia que Gaara poderia proporcioná-lo com uma troca de olhar, mas o Sabaku não o observava como ele inicialmente imaginou.

Gaara olhava para Sasuke, comunicando-se silenciosamente com ele enquanto Madara ainda tentava dar o seu showzinho. Naruto apreciou a dinâmica dos dois pelo canto de seus olhos e, antes que pudesse entender o que os dois faziam, Madara cortou ainda mais seus lábios com a kunai e a forçou contra seus dentes com firmeza, obrigando-o a permitir passagem e machucando o céu de sua boca com um corte doloroso.

Antes que Sasuke pudesse começar a soltar suas amarras para defender Naruto, Gaara resolveu agir: arremessou a kunai que Sasori o entregara, usando toda sua concentração para mirar na garganta de Madara; apesar de saber a dificuldade do arremesso dar certo, não havia muito que Gaara pudesse fazer àquela distância e, por isso, optou por abraçar o elemento surpresa e rezar para que desse certo.

Todos os expectadores pararam de respirar ao perceber a grande movimentação; contudo, Madara foi rápido o suficiente para conseguir se desvencilhar antes da arma branca atingir seu pescoço: defendendo-se com seu braço à frente do rosto, sentiu a kunai atingir em cheio as costas de sua mão, quase perfurando-a de ponta à ponta, mas protegendo-se de um golpe que poderia muito bem ser fatal.

Hn. Fazia algum tempo que eu não sentia dor. Quem foi o audacioso...?

Madara procurou seu atacante com o olhar e logo se deu conta de que tratava-se do prisioneiro desamarrado, o qual ele mal recordara dos relatórios de espionagem de número quatro e cinco: Gaara Sabaku, se não lhe falhava a memória. Impressionante que alguém tão zero à esquerda tivesse chegado tão longe, mas ele trataria de resolver esse pormenor agora mesmo.

Sem pestanejar, apontou a Desert Eagle para o ruivo e pretendia atirar, mas antes de puxar o gatilho, Naruto conseguiu desprender um de seus braços das amarras e agarrou o cabo da kunai que ainda feria o interior de sua boca e puxou-a para fora, ignorando a dor aguda que já se espalhava por toda a sua cabeça e o sangue vasto que banhava seu pescoço, utilizando a arma afiada para atacar Madara.

Seria sorte demais, ele tinha que admitir. Madara se movimentou mais do que rapidamente, desarmando Naruto com maestria e mal recebendo um pequeno corte em seus dedos com a movimentação; a arma branca fez um ruído seco ao cair contra o concreto, longe do alcance de Naruto. Ele ainda tentou atacá-lo com o punho ensanguentado pela força que fizera ao se soltar das amarras, mas Madara se esquivou sem grandes dificuldades do golpe impreciso e recheado de desespero do garoto. Depois deste breve inconveniente que lhe resultou um atraso de segundos, ele finalmente disparou quatro tiros em direção ao mercenário.

Foi um exagero gastar munição cara como aquela contra um estúpido que mal lhe oferecia algum perigo concreto, mas Madara já estava precisando descontar sua raiva daquele jeito. Tsk, ele até que foi generoso com esse moleque, já que ele iria morrer mais rápido do que merecia.

— GAARA! — Naruto gritou de maneira esganiçada, não conseguindo ouvir nada além da própria pulsação de seu sangue em seus ouvidos.

Tentou se afastar de Madara de qualquer forma, visando aproximar-se de Gaara, usando seu braço livre para tentar empurrá-lo: no entanto, o Uzumaki se machucara de alguma forma além do superficial ao escapar da imobilização, e não conseguia fazer com que os movimentos de seu pulso machucado fossem fortes ou precisos o suficiente para agir contra o Uchiha.

Madara via toda a movimentação de Naruto como a mais completa prova da inferioridade; até deixou o garoto ter uns segundos de glória e se afastou por uns instantes. Naruto rastejou em direção ao corpo inerte do ruivo e Madara precisou se segurar para não rir daquela cena ridícula, mas logo se entediou e chegou a conclusão que estava mais do que na hora de parar de brincar. Ouvia de longe os gritos de várias pessoas, principalmente de Sasuke, e resolveu que um showzinho em especial para aquele moleque era uma boa pedida.

Agiu rapidamente: livrou-se da kunai que machucava sua mão esquerda e prendeu-a entre os dedos da mão direita. Mesmo com a mão esquerda machucada, conseguiu utilizá-la para imobilizar os punhos machucados de Naruto e o deixou com menos espaço para se movimentar do que quando tinha as cordas envolvendo seus pulsos.

— Eu tentei ser piedoso, você iria morrer rápido, Uzumaki. Ao que parece, os vermes nunca entendem meus atos de caridade. — ele falou estoicamente, fitando os olhos azuis repletos de pavor com uma indiferença palpável, colocando a ponta afiada do objeto bem acima da maçã de seu rosto — Agora não serei mais caridoso, eu vou te dar o que você está implorando pra receber: eu vou mutilar você.

(***)

Os gritos de dor de Naruto soavam abafados e orgulhosos demais, como se o garoto se recusasse a soltar um único som de agonia, mas perdendo contra seu orgulho de tempos em tempos e deixando a prova de sua mais evidente dor se tornar audível. Em contrapartida, os berros de desespero dos demais invasores e a gargalhada insana de Zetsu, aliados com o nada motivador silêncio mórbido de Madara enquanto realizava seu ato hediondo, faziam com que Sasuke estivesse à beira de um ataque de pânico.

Ele hiperventilava, tentando desesperadamente se livrar das amarras frouxas que envolviam seus pulsos. Estava praticamente fora de si e não conseguia realizar a técnica de escapismo corretamente, e cada novo berro de Naruto o deixava ainda mais próximo à perda total de sua sanidade, fazendo com que seu coração batesse tão rapidamente que chegava a doer. Do ângulo que se encontrava, não conseguia ver o que acontecia, pois tudo que via era as costas de Madara e a mancha escura era do que o sangue de Naruto ao chão; ainda sim, não ver o que acontecia não ajudava em nada na sua ansiedade, talvez a piorava consideravelmente.

Ele não! Ele não! Madara não pode fazer isso com minha família de novo! NÃO PODE!

Como se Deus ouvisse suas preces, sentiu algo gelado passar por cima de seus punhos e soube que alguém cortara suas cordas. Virou-se rapidamente, encarando Sasori por apenas uma fração de segundos antes de abaixar o olhar e ver sua própria ninja-tō presa firmemente na mão direita do Akatsuki.

Apesar de Sasuke se recordar que eles o haviam desarmado quando o amarraram, ele não esperava que fossem devolver seu armamento, mesmo que lhe possibilitassem a fuga com os nós frouxos às suas costas — era inimaginável receber tanta ajuda assim. Deidara e Sasori estavam-no auxiliando muito mais do que ele antevira e, por conta disso, ele teve a completa certeza de que agora não iriam mais esconder a realidade para Madara.

Estava na hora de Madara conhecer todos àqueles que o traíram; não havia mais volta para a dupla dos artistas, e a expressão temerosa de Deidara demonstrava o quão nervoso ele ainda estava com esta constatação.

Sasuke compreendia seu medo perfeitamente...

— Vai. — o loiro murmurou, agarrando a espada da mão de Sasori e entregando-a para Sasuke — Vai logo, antes que eu me arrependa disso tudo!

Sasuke agarrou a espada sem fazer qualquer outra pergunta ou expressar sua gratidão: não que ele achasse que a dupla em questão merecia gratidão, já que também estavam em busca de seus interesses pessoais com aquela revolução, mas Sasuke gostaria de ter a oportunidade de agradecê-los no futuro. No entanto, agora não era a hora e, sem fazer qualquer outra pergunta ou planejamento, correu em direção à Madara.

O golpe foi violento, rápido e quase preciso. Se Madara não tivesse percebido a movimentação de Sasuke pelo canto de seu olhar, possivelmente teria sua mão decepada. No entanto, a lâmina da espada de Sasuke o desarmou de sua kunai e cortou totalmente a parte de cima de seus dedos, deixando-os em carne viva.

Sasuke não teve coragem o suficiente de olhar para Naruto e constatar seu estado, concentrando-se apenas no inimigo, ao menos por ora.

Só que, apesar de Madara obviamente não ter se dado por vencido, sua raiva crescente perante as interrupções o deixava tão desnorteado que, antes de voltar sua atenção totalmente para Sasuke, ele decidiu finalizar Naruto prematuramente: deu dois tiros às cegas no loiro, não mirando corretamente mas torcendo para pelo menos ter acertado um (o que não se mostrava muito difícil, já que foram quase à queima-roupa), antes de se virar em direção à Sasuke e colocá-lo precisamente em sua mira.

Naruto não gritou de dor, mas sibilou com os dentes fechados, o que era um grande indício de que ao menos um dos tiros causou-lhe um ferimento. Madara nada fez por alguns instantes, focando sua atenção em Sasuke mas percebendo em sua visão periférica que Kakashi Hatake, de alguma forma, conseguiu se soltar totalmente de suas amarras e praticamente voar em direção de Naruto, agarrando-lhe e retirando-o de perto dos Uchihas com uma velocidade que apenas o mais completo desespero faria um humano atingir.

Madara não se importava de sua presa ter sido retirada de seu alcance; Naruto já tinha ferimentos o suficiente para morrer de choque hipovolêmico, era uma questão de tempo. O líder estava muito mais preocupado em entender como Sasuke, Kakashi e Gaara haviam escapado de suas amarras tão facilmente.

E, por óbvio, ele sabia a resposta. Ele só não queria acreditar.

Sasuke parecia até mesmo animalesco, não dando a mínima importância para a ameaça que a arma prateada oferecia. Ainda empunhava sua ninja-tō e tentou atacar Madara mortalmente antes que este pudesse processar as informações e aceitar a traição de sua dupla favorita, mas o Uchiha se defendeu com o cano da arma e conseguiu dar um chute no garoto bem no centro de sua barriga, não medindo a força e fazendo-o cair de joelhos no chão, com dificuldade respiratória.

Madara estava desnorteado e decepcionado, mas ele ainda era Madara Uchiha, e nenhum moleque com poucos meses de treinamento o conseguiria atingir tão facilmente. A força de alguém que tomava os comprimidos roxos era maior do que qualquer pessoa extremamente treinada sem o uso desta droga, Sasuke não tinha a mínima possibilidade de manter-se de pé depois deste golpe; seria um milagre se não tivesse quebrado algumas costelas ou causado uma hemorragia interna ao receber aquele chute.

Desinteressado em Sasuke por hora, muito menos aos silenciosos prisoneiros às suas costas, Madara recobrou o foco de sua ira: seus olhos cruzaram com os olhos vermelhos e apáticos de Sasori, e Madara seria incapaz de medir o nível de indignação que sentia ao observá-lo.

— O moleque não se soltou. — Madara concluiu, falando mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa.

Obviamente Madara havia cogitado a traição desde o segundo que Gaara o atacara, mas ele se recusava a acreditar nessa possibilidade: Sasori o venerava! Ele sabia muito bem do poder que ele tinha e constantemente lhe tecia honrarias por isso; Deidara, seu possível cúmplice, só faltava lamber o chão onde ele pisava! Se havia alguma dupla que estava vacinada contra toda a desconfiança do líder da Akatsuki, era tão somente a dupla dos artistas.

— Eu superei você. — Sasori respondeu, deixando seus olhos brilharem ainda mais o escarlate que Madara já estava começando a associar às suas incontáveis traições — Você foi o fantoche mais difícil de controlar. Foram anos e anos de planejamento, mas finalmente eu consegui esta superação. Me dá até certa tristeza ter que te revelar a verdade, já que a arte em questão já estava durando anos, se tornando imortal e digna de ser apreciada futuramente. Mas toda obra-prima um dia chega ao fim... O que acha da minha arte agora, líder?

O mais irônico do discurso de Sasori era o fato de não possuir um viés provocativo: o ruivo realmente acreditava na loucura que dizia, encarando tudo aquilo como uma arte e sua consequente superação de um mentor. Era verdadeiramente absurdo, um grau de loucura e desafio que Madara nunca antecipara em seus planos de manipulação.

Todavia, o Uchiha em questão, sendo do jeito que era, jamais admitiria que sua manipulação teve uma grande falha no que tangia ao controle do ex-número quatro da Akatsui. Ele não tinha o sangue-frio necessário para interpretar a situação desta maneira e observar sua culpa naquela consequência, apenas conseguindo ver um traidor da pior índole perante seus olhos.

De fato, a traição de Sasori foi melhor orquestrada e certamente traria rombos em seu planejamento de contra-ataque: se Sasori o traia, o silêncio de Deidara há pouco metros do traidor indicava sua natureza de comparsa. A traição veio de quem ele jamais suspeitou, enquanto, de certa forma, ele sempre suspeitou dos outros traidores que lhe escaparam entre os dedos (até mesmo Pain e Konan). Aquela atitude era ainda pior do que a traição de Itachi, pelo menos para a interpretação repleta de rancor do Uchiha; só que ele estava furioso demais para pensar em prender Sasori e dar a ele todo o sofrimento que ele merecia em uma tortura de anos ao lado de Itachi e Sasuke.

Naquele momento, tudo que Madara queria era ver o sangue desta dupla de traidores pintando o chão de concreto. E foi o que fez: desviou sua mira do Sasuke ainda ofegante e, com um urro de fúria e mais completo descontrole, atirou em Sasori com uma velocidade sobre-humana, a qual não permitiria esquivas.

Contudo, nada aconteceu.

Madara puxou o gatilho mais uma vez; e mais uma, mais uma, mais uma... Nada. Repetidamente nada. A pistola simplesmente parou de funcionar!

Ao fundo, ouviu-se uma risada fraca e sem ânimo algum. Os presentes viraram o pescoço e olharam nesta direção para ver quem era o suicida da vez, pois não era nem um pouco sábio provocar Madara naquele estado de espírito.

Tratava-se de Itachi, sentado no chão de concreto, ainda parecendo fraco e cobrindo a sua ferida com a mão, mas consciente e forte o suficiente para olhar nos olhos de Madara e falar:

— Eu não disse que sete de munição era pouco, Nii-san? [4]

Madara estreitou o olhar para Itachi, desaprovando sua petulância que era tão característica a personalidade natural de Itachi Uchiha. Ele sempre odiou esses momentos desafiadores do rapaz, algo que o provava, dia após dia, que ele não fora totalmente sucedido em seu experimento para transformá-lo em Izuna. Seu irmãozinho real nunca o desafiaria dessa forma, ele era incapaz de provocá-lo ou ir contra seus ensinamentos.

Itachi nada mais era do que um erro, um desprezível e absurdo erro que sua carreira trouxera pra sua vida. Uma decepção. Madara fazia questão de dobrar ainda mais o castigo que Itachi receberia antes de sua morte, apenas para prová-lo que ninguém, ninguém mesmo, estava acima del!

— Ora ora Madara, que eu saiba seus olhos ainda não conseguem causar incêndios. Pra que olhar pro menino desta forma, hm?

A voz soou distante, mas era bem conhecia da maioria dos presentes naquele combate. Inevitavelmente todos olharam em sua direção e tiveram sua certeza: Orochimaru estava ali, despreocupado, sem uma única arma em mãos, olhando para a cena à alguns metros de distância como se observasse uma simples reunião familiar; parecia até mesmo feliz, por mais absurdo que fosse constatar isso.

Madara pareceu chocado com a audácia do médico, demorando um pouco a reagir. Itachi até imaginou que ele fosse recarregar a Desert Eagle atirar em Orochimaru assim que o visse, mas o Uchiha não se moveu por vários instantes.

O líder engoliu em seco, abaixando a arma ao lado do corpo enquanto seus punhos sujos de sangue estremeciam em raiva. Sua expressão estava cristalina, a indignação que ele demonstrava por ver Orochimaru ali, de cara limpa, era até maior do que sua ira ao dar-se conta da traição de seu braço direito.

— Como você ousa...? — Madara questionou, estupefato, balançando a cabeça em negação e se perguntando se estaria enlouquecido e vendo coisas que na verdade inexistiam — Você veio de braços abertos pra morte? Assim, sem mais nem menos? Você acha que eu não percebi a sua traição no momento que Sasuke me deu as costas e desfez a sua farsa?

Orochimaru sorriu de canto de boca, não parecendo nem um pouco preocupado com as ameaças de Madara, tratando-o como se estivesse falando com uma criança levada e sonhadora demais.

— Oh? Você quer que eu tente te convencer de que falei a verdade? Que implore para que você confie em mim, que afirme que nós somos "parceiros"? — Orochimaru chacoteou, sorrindo sarcasticamente — Eu alguma vez te dei algum indício de parceria da minha parte? Nossa relação era de necessidade: eu necessitava de seu cérebro brilhante assim como você necessitava do meu. E não venha fingir pra mim que você era leal ao meu legado; eu sei que se a oportunidade tivesse surgido antes, você teria me traído há muitos anos.

O tom cor de lavanda dos olhos de Madara brilhavam em uma promessa de vingança que qualquer um temeria, se não se tratasse do corajoso (e talvez suicida) Orochimaru o destinatário de toda aquele gélido olhar. O médico estava certo, Madara nunca confiou nele e nunca confiaria, sempre esperou o momento certo para descartá-lo de seus planos de estudos. Só que esse momento nunca chegava, porque Izuna nunca renascia do jeito que deveria ser e-...

Madara piscou, finalmente unindo a peça do quebra-cabeça que faltava para tudo fazer sentido.

— Itachi foi uma falha experimental. Você não fez direito de propósito! — Madara o acusou, erguendo consideravelmente o tom de voz — A transferência de mente foi um fracasso porque você...! VOCÊ...!

— Auto lá! — Orochimaru rebateu às criticas, dando alguns passos à frente e se aproximando do homem que estava prestes a quebrar seu pescoço na primeira oportunidade que tivesse — As transferências de memórias de Izuna Uchiha não falharam por incapacidade ou minha falta de vontade. O que eu ganharia dedicando tempo e esforço em um projeto fadado ao fracasso? A culpa é sua, inteiramente sua, por querer ocultar memórias que foram extremamente importantes no desenvolvimento do caráter de Izuna. Como você faria Izuna "renascer" se queria vetar a existência de metade de sua vida? Não me culpe pela sua burrice, Uchiha.

Itachi, bastante atento com à conversa dos dois, sentiu seu coração acelerar pela menção ao experimento científico que resultou tanto na destruição quanto na salvação de sua vida (o fato dele não ter matado Sasuke ainda criança decorria das memórias de Izuna, e se isso não era 'salvação', nada mais poderia se qualificar desta forma). Saber mais sobre o experimento era um desejo quase que inato do seu ser, e por isso ele torcia para que Madara não atacasse Orochimaru antes de ele receber algumas respostas.

Contudo, ao ouvir Orochimaru ofender Madara ao chamá-lo de "burro", Itachi soube que não teria seu desejo concretizado.

Irritado demais para responder, Madara tentou levar suas mãos trêmulas ao bolso e recarregar a Desert Eagle, mas acabou derrubando o carregador no chão por conta de seu descontrole. Furioso e envergonhado demais pela humilhação, resolveu mudar seus planos iniciais, olhando para Zetsu com autoridade e lhe dando um comando.

— Mate Orochimaru! Não deixe que ele fale sequer mais uma palavra!

Zetsu correu tão rápido que a maioria dos olhos destreinados não conseguiram acompanhar. No entanto, quando chegou bem ao lado de Orochimaru, em vez de sacar sua espada e atingi-lo em meio ao peito como Madara queria ver, ele simplesmente parou de se mover, olhando para o líder Uchiha com os braços cruzados e o mesmo olhar de prepotência do médico.

Ao encarar o olhar estupefato do líder, Zetsu sentiu a empolgação envolver seus ânimos de uma maneira que nem mesmo sua condição mental poderia estragar. Durante anos ele esperou por esse momento, e ele já conseguia sentir a eminência de sua liberdade.

(***)

Madara me ofereceu a posição de espião oficial na Akatsuki.

É mesmo? E o que você acha deste reconhecimento?

Reconhecimento? Quem dera. O líder não acha que eu sou capaz de agir. Essa proposta foi irrelevante. Espionagem pode até parecer uma posição importante, mas não é única. Todos espionam eventualmente, Sasori e Deidara estão em uma missão de espionagem há anos. Não há nenhuma meritocracia aqui.

Orochimaru fez um barulho de apreciação com a garganta, olhando para os olhos âmbar de Zetsu, tão parecidos com os seus, com uma satisfação impressionante. Ao contrário de psiquiatras convencionais, ele sequer se esforçava para transparecer conforto aos seus pacientes; mas Zetsu, que não teve a oportunidade de conhecer qualquer outro profissional da área, não tinha ideia de quão ofensivo poderia ser um comportamento como aquele.

Eu concordo com você: Madara realmente não acha que você é capaz de agir.

Zetsu olhava para Orochimaru com apatia, sentindo-se incapaz de sequer ficar irritado com aquele comentário. Era a verdade, e Orochimaru não estava ali pra fazê-lo acreditar em mentirinhas.

Até você acha que eu sou um caso perdido. — ele comentou, sem demonstrar qualquer inclinação para questionamento.

Zetsu não tinha a esperança de se se "curar" e poder cair nas graças de Madara com o tempo, não havia porque alimentar esse tipo de pensamento. E Orochimaru, muito provavelmente, também não achava que isso era possível.

Pelo contrário, número oito. Eu acho que você é a solução de todos os nossos problemas.

O tom de voz sincero de Orochimaru atraiu a atenção de Zetsu, surpreendendo-o pelo conteúdo daquela frase. Ele estava longe de sentir qualquer esperança com aquela afirmação, mas não pôde negar que sua tão pouco explorada curiosidade foi atiçada.

Orochimaru colocou os cotovelos na sua escrivaninha de metal, entrelaçou seus dedos e descansou neles o queixo enquanto olhava penetrantemente para o adolescente. Zetsu ainda tinha treze anos, mas seu grau de apatia o fazia parecer mais velho do que qualquer adolescente da Akatsuki; não que Orochimaru sentisse pena do infeliz, é claro.

Madara pode te ver como um impasse, mas eu te vejo como alguém muito além disso. — ele falou com sinceridade — Você é especial, número oito.

Zetsu não respondeu inicialmente, sentindo-se um pouco acuado perante o olhar analítico do médico. Independentemente de seu desconforto, sua apatia conseguia falar mais alto: sendo sincero, ele não ligava para o que se passava na cabeça do mais velho, só que essa história de "especial" só podia ser lorota das boas.

Você vai começar a tentar me animar nas sessões a partir de agora? — questionou mecanicamente, cruzando os braços acima da mesa e descansando sua cabeça neles numa expressão desinteressada e petulante — Essa é sua tentativa desesperada de me fazer reagir?

Não, porque você já mostrou que não vai reagir a nenhum tratamento ou medicação. — Orochimaru respondeu, sua voz soando calma e despreocupada — Eu não estou aqui para te trazer mais uma droga, triplicar mais uma dose, e receber o mesmo resultado frustrado. Eu acho que está na hora de encararmos toda essa situação com outros olhos.

O que quer dizer?

Que tal eu "prever o futuro" para você, Zetsu?

O Akatsuki se endireitou na cadeira, verdadeiramente surpreso por ouvir seu nome pela primeira vez da boca de Orochimaru. Estava tão acostumado com a informalidade de ser chamado de "número oito" que ele quase esquecia de seu verdadeiro nome. Era um pouco revigorante ser tratado como algo além de um número de tempos em tempos, então ouvir seu próprio nome lhe trazia alguma sensação de importância pessoal, mesmo que este sentimento fosse meramente passageiro.

Futuro. — Zetsu repetiu, piscando forte e se dando conta do absurdo que Orochimaru dizia — Não há como prever o futuro.

Quando as pessoas são previsíveis, há sim. — Orochimaru declarou, também ajeitando sua postura e começando a sua explicação — Eu posso prever facilmente o que todos eles vão fazer, quer ver só?

Zetsu desviou o olhar, mas Orochimaru sabia que ele ainda ouvia suas palavras atentamente.

Eu prevejo que Madara nunca vai te fazer subir na hierarquia, porque ele teme à sua instabilidade. Não importa quão capaz você se mostre nas missões e quão leal você seja, Madara nunca deixará a desconfiança de lado. Ele vai brincar com os seus sentimentos, fazendo-o crer que eventualmente você vai ganhar a confiança dele, te prometerá o mundo e não te dará nem um terço dele.

O garoto permaneceu em silêncio, mas mentalmente concordou com o que ouvia. Zetsu poderia culpar sua própria desesperança, mas a forma como Madara o tratava deixava claro que ele jamais teria chance de ganhar méritos com o líder. Não que ele merecesse qualquer tipo de reconhecimento, afinal ele não passava de um-...

E você, por conta de toda sua condição psicológica, vai acreditar que não é digno de qualquer mérito de Madara e que ele está certo em não reconhecer seu potencial. — Orochimaru pontuou, vendo o garoto arregalar os olhos ao ter sua mente praticamente decifrada pelo profissional — Não que eu ache que você é previsível, número oito, mas eu sou seu psiquiatra, e se tem alguém que sabe como sua cabeça funciona, esse alguém sou eu.

Nada do que você disse é uma grande descoberta. — Zetsu murmurou, sua voz soando calejada demais para a sua pouca idade — É obvio que isso vai acontecer, e Madara estará certo em não confiar em mim.

Deixe-me terminar. — Orochimaru pediu, erguendo a mão e silenciando o adolescente com um gesto — Por consequência do sistema de parcerias do QG, seu parceiro também nunca subirá na hierarquia. Isso vai causar problemas no relacionamento de vocês dois, ao contrário das outras duplas, que terão uma maior aproximação agora que a adolescência se iniciou.

Orochimaru sabia que Zetsu entendia o que ele queria dizer com esses comentários: todos os Akatsukis eram instruídos desde pequenos a iniciar o quanto antes o contato sexual com sua dupla. Duplas com grande afinidade, como Pain e Konan, já estavam há algum tempo dividindo os lençóis de maneira mais íntima. Orochimaru sabia que Zetsu e Tobi não tinham chegado a este ponto da relação; os Akatsukis de postos mais baixos tinham câmeras em seus quartos, então era de conhecimento geral que Orochimaru os vigiava de tempos em tempos, como uma forma de controle e avaliação.

Nós não precisamos disso. — Zetsu comentou, um pouco encabulado.

Não, ele não tinha vergonha do ato sexual em si; ele era um Akatsuki, desde criança teve contato com esse assunto e isso jamais seria tabu entre os moradores do QG. Todavia, ele não tinha qualquer interesse nesse tipo de coisa, enquanto Tobi parecia cada vez mais desinteressado em tentar algo assim com ele. No fim, acabou se tornando algo improvável entre os dois, não porque o assunto era polêmico, mas porque parecia não ser interessante para nenhum deles: seja pela falta de interesse no outro, seja pela falta de interesse no ato sexual em si.

Sinceramente? Zetsu não via graça nenhuma em sexo... Nenhuma mesmo.

Todo mundo precisa liberar o estresse de alguma forma. Se não for desta maneira que Madara propôs a vocês, será de outro jeito. Número sete anda se mostrando bastante sanguinário em seus ataques, eu me pergunto o porquê.

Olha Orochimaru, Tobi pode fazer o que ele quiser, eu não tenho nada a ver com-...

E se número sete quiser subir na hierarquia e, para tanto, desejar cortar o cordão umbilical com você?

O que está insinuando?

Você sabe o que estou insinuando. Número seis não tem dupla, número três também não, apesar que ele jamais terá por conta de todo favoritismo de Madara para com ele. Se a dupla de alguém morrer, como foi o caso da antiga dupla de número seis, você acha que vão parear o parceiro remanescente com quem?

Zetsu não esboçou qualquer sinal de surpresa ou medo desta "premonição" de Orochimaru, mas pareceu ficar ainda mais melancólico com essa nova preocupação. Era verdade, Kisame não tinha dupla há anos e muitos cogitaram a possibilidade de haver um pareamento com Itachi, até porque eles pareciam se dar bem. Só que, por conta do romance de Madara com Itachi, essa parceria nunca se concretizou de fato. Kisame ainda estava "disponível", e Tobi era inteligente o suficiente para somar dois mais dois.

Que seja. — murmurou, seu olhar ficando distante e sem esperança — Não o culparia, ele merece um parceiro melhor. Talvez morrer seja o melhor pra mim mesmo.

Orochimaru se ergueu da cadeira, deu a volta na mesa e parou diante do adolescente, abaixando-se a sua altura e forçando-o o queixo dele para que ele encarasse seu rosto.

Você é especial.

Não sou.

Você é especial para mim. — Orochimaru declarou, soltando o queixo de Zetsu e ficando satisfeito ao perceber que ele não desviara o olhar — Madara é egocêntrico demais pra deixar seu umbigo de lado um segundo e perceber o quão importante você é, mas eu percebi. Você é o mais especial de todos para mim.

O garoto de cabelos esverdeados ficou sem reação com aquela declaração, deixando seu queixo cair sem saber ao certo o que deveria falar. O mais especial dentre todos? Ele!? Isso só podia ser um sonho, nem em seus maiores delírios imaginou que o líder ou Orochimaru declarassem algo assim para ele. Era... absurdo!

Eu sou apenas mais um problema que você tem que tentar corrigir. — ele sussurrou, como se tentasse fazer Orochimaru se lembrar da verdadeira inutilidade que ele tinha naquele QG.

O médico, no entanto, manteve seu olhar firme e até mesmo um pouco bondoso, para o completo espanto do adolescente.

Perante os olhos do Madara, sim, você é um problema que eu estou tentando inutilmente corrigir todos esses anos. Aos meus olhos, você é alguém absorto de qualquer dúvida, alguém que Madara pensa que tem na palma da mão, só que na verdade você é um garoto inteligente que sabe reconhecer uma oportunidade, não é?

O que você-...?

Trabalhe para mim. — Orochimaru disse, encarando-o de forma penetrante e convincente — Eu saberei te recompensar como Madara jamais será capaz.

Como-...?

Antídoto. — Orochimaru declarou; Zetsu não entendeu prontamente o que ele insinuava, deixando uma expressão de confusão transparecer em seu rosto — Com o antídoto, eu posso fazer você não precisar mais da proteína pra viver. Sem a proteína, as medicações que tentamos aplicar em você, sem sucesso, irão funcionar. Sem a proteína, sua vida será infinitamente melhor e digna de ser vivida, porque nós vamos tratar a sua condição.

O mais novo piscou lentamente, assimilando melhor a proposta que lhe era feita. Se ele queria ter a possibilidade de uma vida melhor? Não havia dúvidas nisso, não existia nada que ele desejava mais na sua vida. Uma perspectiva de cura era algo totalmente impensável há poucos segundos, mas agora Orochimaru dizia que era possível. Para isso, ele teria que cooperar, e ele faria qualquer coisa para retirar a proteína de seu corpo e poder ser uma pessoa normal; ter uma mente normal.

Mas...

Madara não permitiria algo assim. — ele disse, timidamente, abaixando o olhar e tornando o impasse como resolvido.

Orochimaru deixou uma risada anasalada escapar, bem baixa e breve. Afastou-se do garoto, olhando-o com bastante satisfação. Se Zetsu não rebateu sua oferta com palavras de autocrítica e desmerecimento, significava que ele queria a cura e se sentia de certa forma merecedor dela. O maior problema seria se sua condição tivesse tirado toda a sua vontade de viver, mas parece que Orochimaru conseguiu intervir a tempo.

E Madara? Bom... Madara era apenas um mero inconveniente que dentro de alguns anos estaria longe de seu caminho.

Madara vai cair, rapaz. — ele declarou, sombriamente — Você vai estar do meu lado neste fatídico momento; e quando esse dia chegar, o antídoto será seu. Você estará livre.

(***)

Madara estava sem reação, olhando para mais uma exemplificação de traição à sua frente como se estivesse em um pesadelo. Só podia ser isso! Não era possível que a maioria dos Akatsukis houvesse lhe dado as costas sem temer à nada, não depois do show de humilhação que fizera com Sasuke e Itachi! Eles não eram loucos de imaginar que sairiam impunes depois de tudo isso, eram? Pelo jeito eram. Eles estavam erroneamente achando que sairiam vivos dessa, e por cima da sua liderança.

Grande engano.

— Vocês são ingênuos demais. — Madara declarou, retomando em partes sua compostura, trabalhando com os poucos elementos que ainda tinha ao seu lado e aceitando que teria que por em prática o seu plano B.

Não queria ter que recorrer a isso, mas infelizmente não havia escolha. Era um pouco humilhante ter que recorrer à esta pessoa, mas depois que tudo se resolvesse ele lidaria com seu ego ferido.

Utilizando sua mão menos dolorida, retirou seu celular do bolso e constatou que havia quebrado o visor em meio a toda aquela movimentação. Não importava, o contato que ele buscava estava gravado em seus atalhos de discagem rápida; até porque era uma das poucas pessoas com quem ele falava no telefone a esta altura da sua vida. Um toque bastava, ele não pretendia esperar que fosse atendido; o financiador saberia que uma ligação fora do combinado era um pedido de ajuda, e Madara só teria que lidar com o problema por poucos minutos até seus reforços chegarem.

No entanto, ele não esperava que Orochimaru fosse dar uma risadinha breve de sua atitude, afinal de contas o médico com certeza sabia para quem ele estava ligando. Ele deveria estar tremendo na base, e não rindo!

Orochimaru retirou o seu próprio celular do bolso, jogando o cabelo para trás de forma despreocupada antes de atendê-lo sem a menor cerimônia.

— Olá Madara. — ele falou, sua voz soando divertida e vencedora, como se tivesse acabado de lançar seu próprio xeque-mate.

O Uchiha sentiu seu sangue congelar, ouvindo a pessoa que atendeu a sua linha dizer as mesmas palavras. Era uma voz extremamente diferente à de Orochimaru, era a voz com quem ele sempre falava ao telefone para pedir auxílio e dinheiro para as pesquisas. Como...?

— Oh Madara, você pode ser tão ingênuo as vezes. — Orochimaru declarou, desligando o telefone e atirando-o para trás, sabendo que não precisaria mais daquele aparelho modificado e impossível de rastrear agora que toda farsa acabara — Se está difícil de entender, eu soletro pra você: eu sou o financiador. [5]

... Continua...


[1] Sobre a hematofobia (medo de sangue): desde o reencontro de Sasuke com Itachi no hospital, Sasuke consegue se controlar seu pavor ao ver sangue quando alguém que ele gosta está em perigo. Ele mesmo se deu conta disso no Capítulo 40, quando interagiu com o Naruto depois que Kakuzu o levou pro QG (e o machucou um pouco, fazendo o loiro sangrar). Isso não quer dizer que Sasuke esteja curado, mas ele está conseguindo se recuperar aos poucos desse trauma, ao menos consegue continuar "funcional" em situações de exposição de sangue quando a vida ou a saúde das pessoas que ele gosta está em jogo.

Madara, no entanto, não sabia disso (mas é claro que deve ter percebido no decorrer do capítulo).

[2] Madara se referia aos acontecimentos do Capítulo 35 (gaiden do Izuna). Kakashi, obviamente, se referia a outro tipo de doença.

[3] Naruto se refere a promessa que ele e Kakashi fizeram no Capítulo 38.

[4] Referência ao flashback do Capítulo 45.

[5] CALMA! Eu explico capítulo que vem. =) Mas gente, deixa eu perguntar: o fato de o Orochimaru ter uma mansão nunca levantou a suspeita de vocês?


N/A: Bom leitores, antes de mais nada eu tenho umas considerações ao capítulo pra fazer. Como são muitos personagens na mesma cena, eu não dei enfoque para alguns deles (como Pain, Konan e Tobi), e os coloquei propositalmente fora do campo de visão ou de interesse dos personagens que usei para escrever os pontos de vista. Mas é claro que os personagens estão ali, vivenciando tudo aquilo, só que eu optei para dar um enfoque maior para eles e para o que estão sentindo/fazendo no capítulo que vem por uma questão de escrita. O mesmo vale para os outros prisioneiros, que foram pouco mencionados. E não se preocupem, não esqueci do Kakuzu. =)

Agora assuntos mais pessoais: o atraso decorreu em 50% de crise produtiva, 50% de crise política (é sério). Eu sei que a última vez que eu atualizei eu estava mudando minha vida, começando um novo curso e novo emprego, mas o cenário político do Brasil me atinge diretamente no trabalho (eu trabalho no executivo federal) e toda pequena estabilidade que eu consegui foi por água abaixo. Isso me deixa estressada demais para escrever, porque provavelmente terei que me mudar novamente, terei dificuldades financeiras pois vou ficar sozinha em Brasília pra tentar terminar meu curso antes de voltar pro sul, visto que minha família irá se mudar e, bem, sei lá onde eu vou morar. Pior, sei lá da onde vou tirar dinheiro o suficiente pra morar sozinha na cidade mais cara do Brasil.

Alguns leitores que acompanham a página sabem por cima a minha confusão, pois trabalhar num cenário como esse não gera muita estabilidade funcional, de modo que a depender dos novos governantes eu posso ser demitida para apadrinhamento político (já que eu não sou filiada a partidos, sou técnica) e, numa situação de estar morando sozinha numa quitinete, vai ser bem difícil de se manter caso eu perca o emprego. Enquanto a política brasileira não se estabilizar e eu não tiver a confiança dos novos chefes (terei indiscutivelmente novos chefes, independente de quem ficar como Presidente do Brasil ao final dessa confusão), eu estarei numa corda bamba e tentarei administrar minha ansiedade/estresse para refletir o mínimo possível na minha escrita. Eu juro que vou tentar, o capítulo de Haunted ter saído em meio à essa confusão foi uma vitória inimaginável pra mim, pois eu não pensei que fosse capaz de escrever enquanto estou tão estressada desse jeito.

Enfim, é isso! Espero que tenham gostado da atualização! Eu vou finalizar Owari na sequência e não iniciarei fanfics novas até o final de Haunted, de modo que o foco será realmente finalizar este projeto. Como estamos em reta final, vou reler toda a fanfic, fazer um "pente fino" no plot e... até dezembro acaba!

Um beijão! Estou doida pra saber sua opinião sobre o capítulo!

Até a próxima! =D


Respostas das reviews deslogadas:

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Jacque:

Huahuahua não tenha tremedeira! Não vou pagar conta de hospital de ninguém, tô num processo de contenção de gastos auhauhauhau!

Muito obrigada querida, fico feliz que tenha gostado do capítulo.

Controle-se e não mate o Sasori ainda, precisamos dele no "Time Itachi".

Gaara é muito observador, percebeu rapidinho que o Sasuke voltou ao normal (gostei do "não tá mais bugado" hahaha). Itachi deve ter sofrido de ciúmes, mas acho que ele já tinha se ligado que era encenação (mesmo assim né... dói).

Madara não ficou feliz com o desfecho desta atualização, mas espero que você tenha gostado!

Um beijão!

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Tati:

Hehehehe obrigada linda, eu tento. ;)

Fico muito feliz que tenha gostado do capítulo anterior! Madara não levou grandes surras neste, mas o ego dele com certeza tá latejando.

Nada supera Casos de Família. Huhauhauhau! Nem as tretas do Madara!

Beijoooos!

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Bruna:

Obrigada linda! Fico feliz que você tenha gostado, espero que goste da atualização também!

Beijocas!

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Carol:

De nada querida! E me desculpa por essa atualização ter demorado tanto. Espero que ainda esteja comigo. ^^

Espero também que tenha gostado dos acontecimentos dessa atualização. O circo certamente pegou fogo auhauhauhau!

Uma fanfic pro Gaara? Bom, eu tenho Changes, mas é romance... Sem ser romance eu nunca pensei, vou cogitar essa possibilidade, ok?

Muito obrigada pelo desejo de sorte, estou precisando.

Beijão!

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Ana:

Hahaha bem, Madara não tá nos melhores lençóis, mas ele também não deixou barato. Espero que tenha gostado da atualização! Continue torcendo pelos meninos, eles precisam de toda torcida do mundo!

E o Sasuke concorda com você, Naruto foi muito bocudo kkkk!

Beijinhos!

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Carolis:

Olá! Tudo bem e com você?

Seja muito bem vinda! Eu fico realmente triste por ter demorado tanto pra atualizar essa fanfic quando recebi leitor novo, nem sei se você ainda está aguardando uma atualização de Haunted. Espero que sim, e espero que tenha gostado do capítulo!

Muito obrigada por todos os elogios, é uma honra pra mim saber que vocês gostam do que eu escrevo e se empolgam com a leitura. Espero que a reta final da fanfic supra suas expectativas e você me perdoe pela demora. ^^

Tomara que seu desejo se realize e Sasuke e Itachi fiquem juntos, vivenciando a paixão auhauhuahuahua. Agora, se o Sasuke não quiser, eu e o Itachi já combinamos até nosso acordo pré-nupicial, então nem vem hihi!

Será sempre bem vinda pra comentar, muito obrigada e desculpa a demora!

Beijocas!

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Ale:

Oie linda!

Fiquei te devendo os pensamentos do Pain neste capítulo, mas prometo que no capítulo que vem vamos voltar ao desespero dele.

Fico contente que esteja ansioso para a continuidade da fanfic! Ela realmente está chegando ao fim... Mas eu espero que você goste do final. Continue torcendo pelo casal! =D

Muito obrigada pelo carinho!

Um beijão!