Comentários; Demorei, mas já vim postar. Estava viajando e como disse no capítulo passado, a preguiça nos pega de jeito. Espero que vocês gostem desse capítulo, ele é o que eu gosto de chamar de "desfecho" :)

Prelúdio Para o Amor

CAPITOLO DODICESIMO

― Ah não... ― gemeu quando escutou o telefone tocar, estava em meio ao seu treino de violoncelo, sabia que devia ter tirado o telefone do gancho, pensou em ignorar a chamada, mas os latidos que seguiram os gritos histéricos de seu telefone fixo tornaram essa tarefa um tanto impossível ― certo... Já vou... ― disse para ninguém em particular descansando o instrumento e o arco na cadeira.

O pequeno Yun começou a correr em volta dela, fazendo-a pegá-lo no colo, para evitar acidentes desnecessários, já que ele era tão pequenino. O telefone parou de tocar e ela fez uma cara indignada, estava quase lá e agora a pessoa tinha parado de ligar? Mas que coisa.

― Acho que não devia ser tão importante ― disse olhando para o filhotinho em seus braços, dando um pulo quando ele começou a latir e o telefone tornou a tocar ― céus! ― pegou o aparelho e respondeu de uma vez.

― S-Sim?

― Boa tarde, poderia falar com Hyuuga Hinata-san? ― perguntou uma voz séria feminina, o que será que podiam querer com ela?

― É e-ela falando... ― respondeu devolvendo Yun para o chão, que saiu correndo logo em seguida.

― Certo, quem esta falando é Mikage Shizuka, represento os artistas japoneses no festival de verão na Áustria, é um prazer falar com a senhorita Hyuuga-san.

― O p-prazer é todo m-meu Mikage-san... Desculpe perguntar, mas aconteceu alguma coisa com Akira-san? ― ele quem costumava tomar conta do festival, um senhor muito simpático de quem Hinata gostava bastante.

― Ele se aposentou mês passado e agora sou a responsável, ― explicou ― a senhorita já deve estar acostumada com os procedimentos Hyuuga-san ― não era uma pergunta ― gostaríamos de saber se a senhorita estaria disponível para apresentar na penúltima semana de Julho em Salzburg, serão seis apresentações solo e dez com a orquestra internacional, temos reservada para a senhorita a quinta cadeira.

― A-Ah... ― havia esquecido do festival, apesar de não pensar que seria convidada mais uma vez para tocar lá, havia tocado nas férias passadas afinal de contas... Será que ela queria ir mesmo? Seria ótimo para sua carreira, isso já era fato... Mas as coisas já estavam meio estranhas por aqui, desde o ocorrido com Kiba ele estava agindo meio distante com ela, quase começou a suspeitar que ele a estava evitando um pouco, mas resolveu descartar a idéia. Enfim, se ela não conseguia nem acertar sua relação direito, como ia fazer com sua carreira? Precisava pensar mais... ― s-será que eu p-posso re-responder depois? ― mordeu seu lábio inferior de hábito.

― Sem problemas, apenas pedimos para que faça sua decisão o mais rápido possível, tenha uma boa tarde ― e com isso a mulher desligou o telefone.

― Hm... B-Boa tarde... ― pela segunda vez esse dia, disse pra ninguém em particular.


― Chouji...? ― o que diabos ele queria com ela no meio da noite? As pessoas pareciam que adoravam acordá-la, incrível. Não, não! Brigou consigo mesma empurrando pensamentos sobre certo loiro pra fora de sua mente ― você sabe que horas são por acaso?

― Hn... Mal Ino, mas sabe o que é, eu precisava da sua ajuda... ― disse meio sem jeito, seu olhar continuava fixo no olho mágico da porta.

Suspirou. Dai-me paciência, dai-me paciência Deus.

― O que posso fazer por você Chouji às duas da manhã? ― disse entre dentes. O chef pareceu não notar.

― É que sabe o que é... Eu marquei de sair com uma amiga minha... ― opa! Opa! Ele agora havia ganhado total atenção da loira, encontro? Chouji e encontro? Quem podia ser? A filha do velho da quitanda talvez? Mas ela era meio feinha, aquele cabelo, eu ein... Talvez a cozinheira do restaurante chinês? Não! ― pensou horrorizada ― tio Chouza ficaria arrasado se seu filho saísse com a concorrência ― Ino? Ei, Ino! ― ele estalou os dedos em frente aos seus olhos, fazendo-a dar um pulinho ― então, como eu estava dizendo... Eu precisava de um restaurante pra ir, daí sabe como é, eu só posso ir nos restaurantes que não vão me fazer mal etcétera, etcétera.

― Verdade, você só pode ir nos restaurantes que eu deixar! ― ela riu sozinha, depois tossiu tentando disfarçar e parecer séria ― conheço esse restaurante-bar que é super correto de preço e tem umas comidas bem saudáveis, e quando é que você vai?

― Sábado...

― Perfeito, sábado é a noite de karaokê livre, olha que divertido, e você já sabe o que vai usar? ― tentou parecer o mais interessada possível, seu plano tinha que funcionar.

― Não... Eu devia saber isso? ― perguntou levantando uma sobrancelha indignada.

― Não ― respondeu ― Que horas são?

― Duas e meia ― respondeu olhando o relógio.

― E com quem você vai?

― O nome dela é Momoko ― respondeu automaticamente, arregalando os olhos depois de se tocar do que havia dito.

― Momoko...? ― viva Ino! Seu plano mais uma vez funcionou e ela arrancou mais uma verdade de Chouji.

― Hanazono... ― respondeu derrotado, não reparando na cara surpresa da amiga. Hanazono Momoko, a modelo?!


Naquela quinta-feira em especial estava chovendo, o que deixou muitas pessoas de mal humor, pois seus calçados teriam mais chances de ficarem molhados e a umidade do ar causaria danos a certos cabelos, mas é claro que essas eram pessoas pessimistas que formam a personalidade urbana que te faz pensar em telefones tocando, buzinas de carros, pessoas falando, correndo, celulares, fumaças, luzes e bem, você entende aonde eu quero chegar.

Nenhuma dessas pessoas sequer parou para pensar que a chuva regaria as plantas esquecidas, como as da varanda do Kankuro, por exemplo, ou como a chuva ajudaria a limpar um pouco do ar poluído da cidade ou como seria ótimo tirar seu par de galochas até então abandonadas no seu armário desde o inverno, e é por isso que uma pequena quantia de pessoas como Hinata existem em meio à sociedade urbana, são pessoas como ela que mantém o equilíbrio harmonioso nas grandes cidades.

Cantarolando uma música que havia escutado na rádio pela manhã fechava as janelas para que a enchente não chegasse para dentro de sua casinha e checava pela segunda vez a tranca da porta da varanda, para evitar inconveniências é claro. Pegou seu guarda-chuva favorito, que combinava com seu par de galochas vermelhas de bolinhas brancas e saiu de casa, hoje ela e Kiba fariam dois meses de namoro e ela planejava surpreende-lo no trabalho naquela tarde, ver se conseguia conversar com ele e ver se o clima meio estranho entre os dois ia embora, era pouco tempo que os dois estavam juntos, ela nem tinha muita certeza sobre o que sentia, mas sabia que gostava muito dele e que sentia-se muito confortável em sua companhia, ele também não era nem um pouco ruim no departamento "beijos e carícias", ela corou só de pensar olhou para os lados pra ver se ninguém a observava, ou seja, ela estava contente com sua situação atual, sentia-se segura.


Akane havia decidido o que fazer pela hora do almoço, já estava sem paciência e não queria saber de mais nada. Já nem mais escutava o que quer que seja que as meninas do seu grupo de "amigas" estava falando, não devia ser nada interessante também, povo mais sem assunto elas. Não conseguiu conter-se e revirou seus olhos de tédio. Elas falavam demais e isso já estava começando a dar nos nervos dela.

― Meninas, eu tenho que ir ― disse num tom de voz meigo e dando um sorriso de como quem pede desculpas ― prometi que ia ajudar minha avó no supermercado, realmente preciso ir ― mentiu.

― Ah... Você é uma menina tão boa Akane-chan ― disse uma das meninas, as outras concordando.

― Não se preocupe Akane-chan, se acontecer qualquer coisa enquanto você estiver fora nós te informamos, ok?

― Obrigada meninas, vocês realmente são muito boas amigas! ― respondeu ela entusiasmadamente, graças a Deus ia conseguir sair dali ― vejo vocês mais tarde! ― despedindo-se delas Akane saiu correndo do café.

Vasculhou sua bolsa a procura de um papel que havia conseguido há uns dias com um dos meninos da faculdade, realmente, meninos são tão fáceis de persuadir.

Encontrou o papel e dessa vez sorriu quando leu, escrito nas letras meio tortas do menino da faculdade que provavelmente estava nervoso demais pra fazer qualquer coisa direito, as duas palavras;

"Clínica Inuzuka" e em baixo o endereço.

Era hoje que ela iria ter Inuzuka Kiba, nem que ela tivesse que usar de todos os métodos possíveis necessários, sua paciência estava esgotada e ela sempre conseguia o que queria.

Sempre.


Toda vez que algo acontece nas nossas vidas que não estava de acordo com o plano é comum escutar as pessoas dizerem "é o que tinha que acontecer" ou "alguém lá em cima não vai com a minha cara", e até os mais otimistas que dizem "tudo acontece com um propósito", mas é claro que isso é o que você pensa depois que a coisa acontece e não durante o período em que a realidade da um tapa na sua cara e te surpreende com uma surpresa. Até porque isso varia de pessoa em pessoa.

É claro que sempre tem a velha história do "E se..." que durante incontáveis horas tomam conta de nossas mentes.

E se a amiga da menina do prédio da esquina vizinha não tivesse ido àquela festa que seus pais a proibiram de ir e ela não tivesse acabado se metendo em um rolo com um Yakuza, fazendo com que ela ligasse aos prantos de desespero para sua amiga que levava o lixo para fora de casa distrair-se e largar o lixo no meio da rua que logo se se esparramou por causa da chuva?

E se a menina do prédio da esquina vizinha tivesse deixado o celular em casa como sua mãe havia mandado desde o começo e não tivesse atendido a ligação da amiga que a fez ter que sair correndo para chamar a policia e ir socorrê-la, fazendo-a deixar o lixo no lugar errado?

E se o cara do caminhão de entregas não tivesse ficado de porre na noite passada por falta do que fazer causando uma ressaca no dia seguinte e também com que ele acordasse atrasado e não checasse os pneus do caminhãozinho como fazia todos os dias e tivesse visto que um deles se encontrava furado?

E se aquele grupo de turistas americanos não tivesse parado naquele banheiro da lojinha de conveniência, mas esperado chegar até o hotel fazendo com que eles ficassem impressionados quando o caminhão de entregas escorregou no monte de lixo esparramado pela rua, pneu furado voando pra longe e fazendo o caminhãozinho jogar-se contra a parede do terreno em construção, que fez com que a pilastra caísse sobre o carregamento e as milhares de gomas de mascar espalhando-se pelo chão fazendo as criancinhas americanas saírem correndo histericamente atrás dos doces e os pais e mães cercarem o lugar para discutir o acidente causando uma grande comoção e um engarrafamento na única ruazinha que dava para o veterinário por onde Hinata em questão de segundos havia de chegar.

Quem sabe se nada disso tivesse acontecido, ela não teria ficado presa naquele trânsito de pessoas por dez minutos, sem querer esbarrando em alguém o que fez com seu guarda-chuva caísse no chão e fosse pisoteado e destruído, e tivesse chegado mais cedo ao veterinário impedindo que as coisas acabassem do jeito que acabaram. O que não aconteceu, obvio.

― Hinata-san ― escutou alguém cumprimentá-la assim que entrou na clínica Inuzuka.

― Chiaki-san ― cumprimentou a secretária de volta, tirando as gotículas de água de sua roupa e braços com as mãos. A sensação de água fria fazendo-a tremer um pouco.

― Ah querida, a senhorita deve estar morrendo de frio! ― exclamou a secretária em tom maternal, Hinata apenas espirrou incapaz de responder ― temos toalhas reservas no armário do banheiro feminino, vá se secar lá que é quentinho, Kiba-kun esta atendendo agora, mas logo logo ele termina e é o tempo de você ficar pronta, depois é só voltar que eu estou preparando um chá, tudo bem? ― sentindo-se como uma criancinha ela concordou com a cabeça e foi até o banheiro.

Tapou seu nariz enquanto passava pelos corredores espirrando mais uma vez, com medo de infectar alguma coisa, era um hospital afinal de contas. Tinha que se secar rápido, não queria causar problemas pra ninguém, nem fazer Kiba esperar, estava pensando em convidá-lo para ir ao cinema e depois eles podiam jantar em algum restaurantezinho ― riu quando se lembrou de quando jantaram na barraquinha de Ramen e encontraram Naruto. Ah! Ali o banheiro, cantarolando baixinho mais uma vez foi em passos apressados até a porta do toalete, escutou uns barulhos meio altos, mas afinal de contas, era um veterinário, pobrezinhos dos animaizinhos que vinham fazer curativos ou que estavam doentes deviam sofrer bastante antes da anestesia.

O que quer que estivesse passando por sua cabeça há segundos atrás desapareceu assim que ela virou em direção às pias do banheiro. Os ocupantes só se tocando de que mais alguém estava ali presente assim que a porta bateu. Ela sequer olhou para a mulher em cima dele, viu o olhar horrorizado que se formou no rosto do veterinário. Sabe aquela conversa toda de "tudo acontece com alguma razão" ou "alguém lá em cima não vai com a minha cara" e "reações que variam de pessoa a pessoa"? A verdade é que ela não pensou em nada, por um instante sua mente pareceu um grande clarão, como grande parte das noticias e fatos chocantes que presenciamos e não registramos no exato momento.

― Hinata... ― ele começou, só de escutá-lo chamar seu nome ela pode sentir as lágrimas enchendo seus olhos, sabia que ia começar a chorar cedo ou tarde, e tarde estava soando maravilhoso.

― Ah... Hm... ― não que ela realmente tivesse alguma coisa a dizer, aliás, o que ela ainda estava fazendo aqui? ― com licença ― sua voz saindo atordoada, como ela estava se sentindo, não saiu correndo, mas foi quase isso.

― Hinata-san? ― pegou seu casaco na entrada e sequer escutou quando a secretária Chiaki a chamou, ou quando Kiba terminou de se vestir e saiu atrás dela, não podendo segui-la por causa da forte chuva que inundava a rua agora.

Ela corria agora para fugir da chuva, apesar de seus esforços serem um tanto inúteis já que agora a chuva era grossa e pesada, dificultando a visão de qualquer passante, bem hoje o seu guarda-chuva tinha que ser quebrado! Conseguiu sinalizar-se pelo vermelho carmim da calçada. A luz do prédio tinha acabado e ela teve que subir pelas escadas, estava tudo um breu, ela não via nada e tampouco sabia no que pensar, pela sua mente passavam-se milhares de coisas ao mesmo tempo, a imagem de Kiba com uma mulher em cima dele fazendo Deus sabe o que no banheiro, o frio que ela estava passando, a dor que estava sentindo por ter tropeçado no começo da escada, seus espirros que agora não paravam de sair, o escuro e agora que estava no seu andar, o fato de não estar encontrando suas chaves. Uma coisa em si era boa, racionou enquanto se dirigiu até a porta do seu vizinho, a chuva havia disfarçado quaisquer traços de choro de seu rosto. Bateu na porta e abraçou-se em uma tentativa de esquentar a si mesma, seus dentes trincando de frio.

― Hinata ― ouviu uma voz cumprimentá-la, estavam falando seu nome demais nesse dia... Só de pensar...

― G-Gaara... ― sua voz saiu baixinha, porém alta o suficiente para ele escutá-la ― e-eu não e-encontro as cha-chaves do meu apartamento... Será q-que eu podia...? ― o feixe de luz que saia da lanterna do ruivo e iluminava o chão agora parecendo a coisa mais interessante por ali.

― Pode sim, ― fez menção para ela entrar no apartamento ― o banheiro é no final do corredor à esquerda, ta sem água quente, mas você pode se secar, ― ele pareceu pensar um pouco ― tem toalhas reservas no armário em baixo da pia, vou pegar umas roupas minhas ― ela agradeceu e foi até onde estava o banheiro, ele desaparecendo dentro do que supostamente seria seu quarto em busca de uma muda de roupas.

Certo, o que ela ia fazer agora? Pegou seu namorado a traindo com uma outra mulher ― já podia sentir seus olhos incharem mais uma vez ― isso aconteceu por que ele estava com raiva dela por não querer dar sua virgindade o outro dia? Tinha grande probabilidade de ser isso... Mas Kiba não era de fazer essas coisas, ou pelo menos ele não parecia que era de fazer... Não, ela não podia pensar mal dos outros, precisava conversar com ele, disso sabia, mas só de pensar nisso ela já perdia a vontade de fazer qualquer coisa. Talvez ela pudesse conversar com ele depois, quem sabe, não precisava ser agora...

― A-Ah! ― gritou surpresa saindo de seus devaneios assim que ouviu alguém bater na porta, é mesmo, ela estava no apartamento de Gaara...

― Trouxe suas roupas, ― anunciou. Hinata caminhou cuidadosamente pelo banheiro escuro até a porta, abriu apenas uma fresta colocando a cabeça pra fora e pegando a muda de roupas ― vou estar na cozinha, é a porta ao lado da sala. Mais uma vez ela agradeceu e fechou a porta.

Vestiu a camiseta cinza grande demais pra ela e a calça de moletom azul que assim que ela a vestiu escorregou por suas pernas, mais uma vez puxou-as para cima e elas caíram, ela ficou ali parada olhando para o par de calças, se essa situação tivesse ocorrido outro dia ela até teria sorrido, mas sinceramente ela quase começou a chorar mais uma vez, esses hormônios eram tão chatos... Contou até dez e respirou profundamente tentando se acalmar pegou as calças mais uma vez, agora pensando melhor e começou a dobrar a cintura da calça até que ela não caísse mais, sorriu quando terminou seu trabalho, a calça ainda arrastando pelo chão, mas pelo menos não caindo.

Agora seca, quentinha e confortável na sua roupa ela caminhou até a cozinha, Gaara estava lá, sentado na frente da bancada comendo alguma coisa e lendo um livro com uma capa vermelha, ela ficou um tempo na porta da cozinha observando-o, era interessante como ele parecia diferente iluminado apenas pelas três velas que derretiam em cima da bancada, ela não conseguia ver nada além dele por ali, seu cabelo ruivo avermelhado agora estava mais para o vinho, seus olhos turquesa, notou, com o contraste da luz das velas ficava um verde escuro e moviam-se rapidamente enquanto ele lia o que quer que estivesse naquelas páginas com o maior interesse, como se estivesse sozinho... Podia ver o efeito da sombra em seus braços, deixando-os em uma coloração mais amarelada, ele lia ali sentado tão serenamente, ele devia sentir-se realmente em casa, mesmo que fosse o apartamento dele e tudo, pensou, não são todas as pessoas que conseguem se sentir em casa mesmo tendo um telhado sobre suas cabeças. Conhecia Gaara desde que havia se mudado para o prédio, era seu vizinho, no começo conversaram pouco, com o passar dos meses se conheceram melhor e ela até arriscava dizer que eram amigos, conversavam bastante e mesmo que ele a deixasse às vezes um pouco inconfortável ela gostava da companhia dele, mesmo depois dessas conversas todas que tiveram Hinata ainda achava que tinha uma parte dele que ela não conhecia e nesses meros segundos em que ela ficou parada na porta da cozinha o observando enquanto ele lia aquele livro de capa vermelha com tanto interesse, nesse momento ela pensou que essa parte havia se preenchido, mesmo sem saber o certo com o que.

― Desculpe ― começou ele, pegando-a de surpresa.

― Por que as desculpas? ― nem tomou seu tempo para reparar que havia dito isso sem gaguejar. Não tinha por que se desculpar.

― Sobre as roupas, ― disse referindo-se a camiseta grande demais e a calça arrastando no chão ― não consegui achar nada menor... Você pode se sentar se quiser ― fez menção ao banco alto que ficava do outro lado da bancada, para que ela sentasse em frente a ele.

― N-Não se preocupe... É-É b-bastante confortável ― respondeu meio sem jeito e corando enquanto sentava-se no banco.

― Quer? ― ofereceu um garfo e colocou o prato que estava escondido atrás da cesta de frutas no meio da bancada, para que ela pudesse comer também ― minha irmã esteve em Hokkaido essa semana e mandou esses pêssegos de lá, são bons...

― O-Obrigada ― agradeceu pegando o garfo e experimentando um dos pedaços de pêssego ― n-nossa! É-É muito bom m-mesmo! ― nunca havia comido um pêssego melhor que esse! Ele apenas concordou com a cabeça.

― N-Não sabia que v-você tinha uma irmã ― pensou que era apenas ele e o irmão, Kankuro se não estava enganada.

― Tenho, mas ela mora em Tóquio por causa do trabalho, ela também costuma viajar bastante e só costumamos vê-la nas férias e no Natal.

― Entendo... ― examinou a mesa mais uma vez, o livro com a capa vermelha ganhando sua atenção mais uma vez, agora que via de perto ele tinha o aspecto daqueles livros antigos, que tinham as bordas douradas e capa dura ― v-você parecia estar g-gostando bastante desse li-livro, f-fala sobre o que? ― os dois agora olhavam para o livro intacto ao lado do prato de pêssegos.

― É uma coletânea de fábulas infantis na verdade, é bastante antigo e só foi escrito décadas após as histórias realmente existirem, antes eram contadas oralmente por um grupo de pessoas conhecidas por Aesop, é interessante ― ela sorriu ao ver o quão interessado ele realmente parecia ser com o livro.

― A-Ah... Eu g-gosto bastante de li-literatura infantil, li n-no mês passado a co-coletânea dos irmãos Grimm... ― ficando mais entusiasmada ao ver a expressão interessada de Gaara mais uma vez, estava contente por conhecer esse lado dele, quando seus lábios se curvavam levemente e suas sobrancelhas inexistentes pareciam levantarem-se um pouco, seus olhos ganhando um brilho extra.

Pouco notou o tempo passando, quase nunca notava o tempo passar quando conversava com Gaara, fosse no elevador, no corredor, quando ela o convidava para almoçar em seu apartamento, quando ia buscar Tora no apartamento dele, sempre esquecendo de comprar as redes de proteção, quando se encontravam no mercado, sempre...

― Hn... Sei que não tenho nada haver, mas já esta tudo bem? ― ele perguntou desviando o olhar.

― Por que não estaria? ― perguntou de volta curiosa.

― É que... Hn... Quando eu te encontrei mais cedo você estava chorando... ― ele agora acendia uma vela nova.

Hinata olhou tristemente para os restos de cera grudados na mesa, é verdade, quase tinha se esquecido... Apoiou os pés no banquinho, tomando cuidado para não perder o equilíbrio e abraçou os joelhos, numa tentativa de auto-consolo.

― Vi uma coisa que não deveria ter visto... Só isso... ― disse baixinho, mas sua voz saindo um tanto tremida.

Eles ficaram em silencio durante um tempo, ela agradecendo por isso, não queria falar agora. Sua cabeça levantando quando sentiu uma mão pousar sobre suas costas, Gaara agora estava sentado no banco ao lado do seu, sua mão fazia leves movimentos em forma de oito em suas costas, ele não a olhava, observava atentamente a chama da vela derreter a cera, Hinata entendeu, fechou seus olhos e encostou sua cabeça nos seus joelhos, dessa vez mais calma.

Deviam ter passado alguns minutos quando o celular de Gaara tocou fazendo-o parar com a mão e ir até a sala para atender a ligação, ela se permitiu sentir aquela sensação de perda por alguns segundos, sem o que fazer abriu sua bolsa, quem sabe dessa vez, com a mente menos embaçada ela encontrasse suas chaves, e realmente as encontrou, escondidas em baixo de sua carteira e entre o tecido da bolsa, um lugar complicado e ela não fazia a menor idéia de como elas conseguiram parar bem ali.

Quando Gaara voltou à cozinha ela já estava de pé e sua bolsa já estava pendurada no seu braço, a chave em suas mãos não passando despercebida.

― Acompanho você até o seu apartamento ― sem dar tempo para que ela respondesse, ele já havia saído mais uma vez da cozinha, sorrindo um pouco ela o seguiu.

Lembrando que havia deixado os pequeninos no quarto conseguiu impedir que se surpreendesse quando não fora atacada quando abrisse a porta de casa. Agora para dentro do apartamento, a porta aberta e Gaara do outro lado ela agradecia.

― Muito obrigada mesmo, por tudo... ― talvez ele nunca soubesse o quanto havia ajudado, mas talvez fosse por isso mesmo que ele tivesse causado esse efeito.

― Hn... De nada...

― Até depois e-então... ― sorrindo ela tomou a iniciativa de fechar a porta.

Levou um susto quando viu uma mão segurando a porta e rapidamente soltou a fechadura quando sentiu a pressão contrária da porta abrindo e num pulo se distanciou, foi tudo tão rápido que ela nem teve chance de captar. Sentiu suas costas baterem na parede e uma perna se posicionar entre as suas sustentando-a para que não caísse, um dos braços dele estava envolto em sua cintura e o outro segurava seus cabelos, sentiu um calor subir por seu corpo assim que seus lábios encostaram-se nos dele, uma sensação eletrizante que nunca havia sentido antes subindo por sua espinha, o beijo se aprofundando cada vez mais e um calor desconhecido deixando-a cada vez mais sem ar, suas línguas explorando cada parte do outro como quem desesperadamente tenta decorar as resposta da prova em pouco tempo, rápido e extremo, desesperado e com uma necessidade incrível. Algo que ela nunca havia experimentado antes. Da mesma maneira que começou o beijo acabou.

― Até depois ― ele disse e saiu, mas sua voz foi apressada e ofegante, uma expressão um tanto surpresa estava no rosto do ruivo e Hinata viu, escutou a porta bater e tampouco se mexeu, continuou em pé encostada na parede, sua respiração ofegante igual à do ruivo, saindo de seu devaneio apenas quando escutou vozes no corredor... Sabia que não devia fazer isso, mas seu corpo se mexendo por si próprio. Olhou pelo olho mágico da porta e ela viu quando Sakura envolveu Gaara com seus braços e quando ela fechou os olhos a espera de um beijo, também viu quando ele beijou sua bochecha e entrou no apartamento. Não esperou para ver Sakura entrar também, dessa vez encostou suas costas na porta e escorregou até o chão.

Uma onda de sentimentos passando por seu coração, triste por causa de Kiba, excitada por causa do beijo, contente por causa da ajuda de Gaara, surpresa por causa de tudo que havia acontecido e principalmente confusa... O pequeno pontinho de felicidade que sentiu quando viu Gaara beijar a bochecha de Sakura e o buraco negro de culpa que sentiu depois por ter ficado feliz por causa disso. Suspirou, ela precisava dormir...


A se ela ficou brava, ela ficou maluca, doida, fora de controle, o bicho do mato, ela ficou sim desse jeito quando chegou no prédio, passando sua cópia do cartão que tinha feito escondida de Neji, e viu ele com aquelazinha fisioterapeuta, os dois conversando juntos em frente ao elevador que não chegava por causa da falta de luz, os geradores provavelmente com problema.

Claro que ela não saiu por ai gritando e arrancando os cabelos, Anko podia ser doida por tudo que ela fizesse, vide o pára-quedas em suas costas, mas sabia se comportar... Um pouco... Se fosse para seu beneficio...?

― Neji! ― chamou com sua voz entusiasmada, logo adicionando um ― Shizune-san ― meio azedo e rapidinho.

― O que você esta fazendo aqui Anko? E pra que o pára-quedas? ― ele perguntou com a mesma expressão monótona de sempre, porém, conhecendo Neji como ela conhecia, sabia que ele estava curioso... Um pouquinho curioso... Indignado com o pára-quedas, ta bom, ta bom.

― É que eu fui pular de pára-quedas hoje num lugarzinho aqui perto da cidade, só que eu fui sem carro daí pedi pro cara do avião ― sorriu cinicamente ao lembrar-se do efeito de suas técnicas de persuasão no jovem piloto e a expressão embaraçada dele ― me levar até o parque, daí eu desci lá enquanto tava só garoando ― disse terminando de contar sua aventura.

― E você resolveu vir aqui por...? ― ah! É mesmo, tinha esquecido disso... Talvez... Não... Não, nem tinha, estava pensando em uma desculpa pra colocar no lugar de "né, eu vim aqui porque queria ter certeza que essazinha não ia estar com você" ― combinei de encontrar com um amigo meu aqui ― pode sentir seus nervos chegarem a um ponto supremo quando Neji e Ela se entreolharam, a fisioterapeuta não tinha aberto a boca até agora e Anko estava começando a perder a paciência.

― Entendo...

― E vocês? Fazendo o que por aqui? ―lembrando que estavam sem luz complementou ― ou o que vocês planejavam fazer até que a luz acabou ― apontou pra uma das lâmpadas apagadas do hall.

― Estávamos indo assistir a um filme na casa de Neji ― pela primeira vez desde que a conversa havia começado Shizune falou, com aquela vozinha dela irritante e toda cheia de si, só porque era fisioterapeuta se achava o máximo, urgh... Como Anko odiava ela! E ela ainda por cima dizia essas coisas com aquele sorrisinho "veja como eu sou a mulher boazinha", queria mesmo é ir lá na frente e enfiar seu pára-quedas no meio daquele sorrisinho metido a besta da mulher.

A luz voltou ganhando a atenção dos três e impedindo qualquer ação fora do controle de Anko, que se deu uns segundos para se acalmar.

Não demorou muito e o elevador chegou fazendo aquele barulinho de sempre e os três entraram ali, no começo ficaram em silêncio, até que Neji reparou em Anko, conhecia aquela expressão no rosto da mulher e sabia que nada muito bom resultava dela, assim que ela começou a falar ele já podia sentir seu sistema nervoso suspirar.

― Mas olha que coincidência! Eu ia assistir a um filme com meu amigo também! Vou lá chamar ele ― a porta do elevador abriu no oitavo andar ― e daí a gente pode assistir todo mundo junto! Super divertido! ― o entusiasmo falso na voz dela não passando despercebido por ele, que quase fez uma expressão horrorizada, quase, quando ela tocou a campainha da sua porta vizinha e Uchiha Sasuke apareceu espelhando o mesmo sorriso cínico disfarçado de Anko.

E foi assim que Sasuke, Shizune, Anko e Neji, nessa exata ordem, acabaram sentados no sofá do apartamento de Neji assistindo O Grito.

Sasuke e Anko contentes demais consigo mesmos para notar qualquer traço de expressões cômicas no rosto dos outros dois presentes, que logo reviraram os olhos assim que Anko "sem querer" tacou uma almofada na cara de Shizune.


Ter dado a idéia de colocar aquela cesta de revistas e aquele banquinho estofado no elevador havia sido uma das melhores idéias que Sakura havia dado, e ser amiga da caseira do prédio era só bônus mais rápido pra ter feito sua idéia funcionar.

É claro que precisaram da assinatura do síndico, mas foi só mandar Chiyo fazer uma horinha no apartamento dele, falar sem parar e conseguir que Shino assinasse o bendito papel. Era exatamente para situações como essa, falta de luz e possível quebra de geradores, que ela havia dado sua idéia das revistas e do banquinho. Ficar presa num elevador nunca havia sido mais interessante, principalmente quando metade das revistas ali presentes eram as de vestibular desse mês e o fato de que a luz reserva do elevador fosse movida à pilhas.

Uma hora e pouquinho se passou desde que ela havia entrado ali e ficado presa quando a luz finalmente resolveu retornar, levantou do banquinho e guardou as revistas na cestinha, o elevador subiu mais um andar e as portas abriram quando a luzinha apontou para o número cinco.

― Gaara! ― não esperava vê-lo assim de cara, mas contente com a coincidência saiu correndo e passou seus braços pela cintura do ruivo.

― Sakura ― cumprimentou com aquela voz dele de sempre que ela adorava escutar.

Ficou esperando seu beijo de "oi" que ele logo deu, o que talvez ela não esperasse fosse um beijo de "oi" na bochecha, um beijo sem graça na bochecha, mesmo que estivessem namorando há uns anos fazia já algumas semanas que não se viam, e o que ele fez? Deu um beijo na sua bochecha. Não teve nem tempo de fazer nada e ele já havia entrado no apartamento deixando a porta aberta para que ela entrasse.

Entrou, é claro, mas uma pontada de frustração se formando e passando por seu estômago. Suspirou, talvez estivesse sendo neurótica demais, devia ser todo aquele café que havia tomado de manhã.


Espero que vocês tenham gostado desse capítulo, não teve muito humor porque foi um capítulo mais sério (como disse antes, todos temos nossos momentos sérios).
Sobre o Kiba, não vou mentir, foi bastante difícil resolver o que fazer para terminar o namoro entre os dois (independente da Hinata gostar dele ou não), não consigo imaginar, nesse contexto, ele terminando com ela por vontade própria nem ele a traindo por livre e espontânea vontade (também sabia que ela é quem não tomaria a iniciativa de terminar o namoro sem motivo algum, já que a verdade é que Hinata é muito insegura e como ela mesma disse, sentia-se segura e confortável com sua situação) então tive que pensar numa outra opção (que não fosse matá-lo né, hahaha) e daí que surgiu a Akane. Pode ter ficado bastante clichê, mas é uma coisa comum que acontece na vida de qualquer um e que acaba parecendo até uma piada sem graça.

Vejo vocês no próximo capítulo, não esqueçam dos reviews :)