Disclaimer: As personagens originais desta fanfic são minhas, mas os cavaleiros pertencem a Masami Kurumada. Respeitem nossos direitos autorais viu? Não tenho nenhuma finalidade lucrativa com esta história. Neste capítulo a música Incidental é "Can you feel the love tonight", de Elton John.
Capítulo III- Lançadores de Sementes
There's a calm surrender
To the rush of day,
When the heat of a rolling Wind
Can be turned away
Os dourados e as duas amazonas de prata seguiram para a casa do aniversariante entre risos e cochichos, como se compartilhassem algum segredo com Aioros. Miro os esperava na porta, com um sorriso que lhes pareceu suspeito. Especialmente porque desde a partida de Kâmus ele se quer se atrevia a sorrir. Mas naquele momento, parecia renovado. Como se as lembranças do passado lhe tivessem recobrado suas forças.
_ Aí está o nosso aniversariante!
Foi Saga o primeiro a cumprimentá-lo com um sorriso e um forte tapa em seu ombro. Trocaram um aperto de mão.
_ Os marmanjos empacaram tanto tempo na casa do Leão por que? A princesa demorou pra alisar a juba ou estavam em outra partida de poker sem mim?
_ Poker.
_ O Aioria demorou.
Foi um uníssono desconexo, em que parte deles dizia "poker", alguns diziam que era Aioria, enquanto Dohko, Mu e Shaka apenas se entreolhavam com um meio-sorriso e Aioria - irritado pela provocação geral, - apenas cruzara os braços. Um segundo depois, todos tentaram inverter a resposta, mas sem muito sucesso:
_ Foi o Aioria.
_ Partida de poker.
Por fim, Marin tentou fazer um último remendo, se é que aquilo seria suficiente.
_ Na verdade eu que me atrasei pra secar o cabelo e esses viciados ficaram jogando poker pra matar o tempo.
Aquilo talvez resolvesse a polêmica, mas o fato de Marin assumir que se arrumara na casa de Leão, levantava um segundo ponto: estava finalmente assumindo que ela e Aioria estavam juntos ou se quer percebera o que acabara de fazer?
_ Sei.
Com aquele resmungo e um sorriso malicioso, ninguém soube dizer se Miro realmente acreditara naquela desculpa. Mas ao menos o assunto foi encerrado e os cumprimentos pelo aniversariante prosseguiram. O último foi Afrodite que, muito perspicaz, percebeu algo que ninguém notara.
_ A última vez que o vi tão elegante foi no desfile de Anuska... Acho que alguém deve ter planos pra mais tarde!
E entrou dando um beliscão constrangedor na bochecha do escorpiano, que revirou os olhos desejando desaparecer. Enquanto isso, os demais caíam na gargalhada e teciam novas gozações a respeito do que a ausência do "pingüim" lhe causava. Miro aprendera a ignorar tais gozações, embora ficasse um pouco irritado. Falar em Kâmus ainda era complicado para ele mas sabia que, lá no fundo, os demais queriam apenas fazê-lo rir.
_ Minha tia e minha prima estão na cozinha a manhã inteira, mas deve estar tudo pronto num minuto. – conseguiu dizer ainda, enquanto indicava que seus convidados entrassem.
O que todos viram ao entrar foi até ligeiramente assustador, mas explicou bem que a frase dele não era força de expressão. Porque uma refeição daquele tamanho - praticamente um banquete, - só poderia ter levado realmente uma manhã inteira.
A mesa estava repleta de carnes e pratos enormes: cordeiro assado, uma travessa gigantesca de moussaka, salada horiatiki, arroz e outras porções exageradas. Isso sem falar na torta folhada de nozes, o baklavá, que já estava a vista no canto da mesa e fazendo com que todos os conterrâneos de Miro começassem a salivar por antecedência.
Madge foi a primeira a recebê-los, pois Sofia estava no banheiro ou qualquer coisa assim. Foi quando Escorpião começou a apresentar a todos e apontar para cada um.
_ Tia Madge este é Saga, cavaleiro de Gêmeos e atual mestre do Santuário. O clone dele ali é o Kanon, também cavaleiro de Gêmeos. Aldebaran de Touro, Carlo de Câncer, Shaka de Virgem, Shura de Capricórnio, Shina de Cobra, Afrodite de Peixes, Dohko de Libra, Aioros de Sagitário e seu irmão Aioria de Leão, Marin de Águia... E creio que já foi apresentada ao Mu de Áries. Por pouco não conheceram Hiyoga de Aquário, mas o filho dele estava para nascer e ele precisou se ausentar.
_ Eu já esqueci o nome e o título da metade de vocês, pelo menos. Me desculpem por isso, mas meu queridíssimo sobrinho podia ter lembrado da minha idade avançada e diminuído um pouco essa apresentação!
O grupo não sabe se ri ou se contém, antes que o próprio Miro interviesse.
_ A senhora não é velha, tia. (Miro)
_ Ora, cale a boca seu magrelo desnaturado! Me tratar por "senhora" é a forma mais baixa de chamar uma mulher de velha! Então vocês aí, também arranjem outra forma de me chamar. E não fiquem aí parados. Sentem-se e sirvam-se, pois eu não estou tão disposta para encher tantos pratos!
_ Ela quis dizer para ficarem à vontade. (Sofia)
Sofia entrou no aposento, tomando a respiração de todo mundo.
An enchanted moment,
and it sees me through
It's enough for this restless warrior
Just to be with you
Aquele vestido vinho contrastava perfeitamente com a pele clara e seus cabelos escuros em densos cachos. E havia aquele sorriso. Um sorriso quase angelical de tão doce, ampliando a sensação de estar diante de uma ninfa do ar. Os rapazes não precisariam se esforçar nem um pouco para elogiá-la em provocação ao Escorpião. Até mesmo Shina e Marin ficaram encantadas com a delicadeza de seus traços e com a meiguice que vinha do seus olhos escuros. Bastou aquele segundo, e todos concordavam com Aioros, torcendo e achando-a o par perfeito para o amigo.
_ Ora, então você é a famosa Sofia! – começou Shina com um sorriso.
_ Aioros e Mu nos falaram muito da sua beleza, mas não foram fiéis o bastante. – continuou Marin.
_ Até porque pelo que dizia o Escorpião, era pra pensar que tivesse 12 anos ou menos. Retrucou um ousado Dohko, entrando naquele jogo com a maior naturalidade. Enquanto isso, Sofia tentava agir de modo a não demonstrar o quanto ficara sem graça.
_ É de família! O pai dela ainda acha que a Sofia tem 5 anos. (Madge)
_ A senhora... – Carlo pigarreia tentando corrigir a frase. – Digo, Madge. Me lembra muito a minha falecida nona no jeito de falar. (Carlo)
_ Sua família é italiana? Devia ser gigantesca! Mas pode ter certeza que o macarrão que eu faço é péssimo, melhor se contentar com o cordeiro.
_ Macarronada é mesmo a coisa mais horrível e grudenta que a titia já tentou cozinhar.
A menina grega soltou uma risada divertida e Madge a repreendeu com olhar furioso.
_ Sofia, menos! Vamos pessoal, sentem-se e sirvam-se logo, antes que esfrie!
O almoço correu livremente entre risos e provocações. O tempo todo alguém soprava a Miro o quanto sua prima era linda e até mesmo as duas amazonas não perdiam a chance de dizer o quanto ela era uma moça encantadora. O aniversariante já havia entendido perfeitamente as intenções dos companheiros, mas tentava não dar o gostinho da vitória a eles, esforçando-se para não demonstrar o quanto queria estrangular a todos a cada elogio inconveniente.
_ Madge, sua comida está maravilhosa.
Disse Mu ao final da refeição, enquanto saboreavam a sobremesa.
_ Esse baklavá então, está de matar.
Kanon nem precisava ter dito o quanto gostara, pois já estava no segundo pedaço de torta e só faltava lamber os dedos durante o processo.
_ Essa sobremesa está realmente divina. – comentou Afrodite.
_ Tenho que admitir tia, que sua comida está ainda mais gostosa do que me lembro. Andou aperfeiçoando a bruxaria? –zombou Miro.
_ Eu só fiz o cordeiro e o tzaziki, o resto foi coisa da Sofia. A moussaka e o baklavá que ela faz são melhores até que os da Berenice.
O aniversariante ficou sem saber o que dizer, pois estava ainda um pouco em choque. Foi Aioros quem conseguiu quebrar o gelo e continuar o assunto.
_ Estava tudo delicioso, senhorita Sofia.
_ Obrigada.
And can you feel the love tonight?
It is where we are
It's enough for this wide-eyed wanderer
That we've got this far
O dia passou depressa. Não demorou muito para que parte do grupo fizesse a habitual roda de baralho e as amazonas se ocupassem de conversar com Sofia e Madge em meio a confusão de vozes que ia se formando. Logo surgiam as piadas sarcásticas do trio Kanon, Saga e Shura, o que conseqüentemente levava aos ataques de riso de Aldebaran e Miro, que recebia dele algumas porradas que chegavam a fazer eco em seus pulmões.
Em algum ponto, alguém fez a pergunta fatídica e ficaram alguns minutos ouvindo tia Madge contar como Sofia havia sido encontrada ainda bebê pelo jovem Miro, caída sobre o corpo morto da mãe nas proximidades do Santuário e da alegria provocada por sua adoção pelos Ptolemaîos.
Como sempre, ao mencionarem seu passado, a menina deu um jeito de escapar para fora e tomar um ar sem dar indícios de que voltaria.
Pouco depois, os dourados já começavam a se despedir, pois já estava escurecendo. Shina e Shura, faziam parte do primeiro grupo a sair e a amazona, notando a menina sentada sobre as escadas com o olhar distante, tocou-lhe o ombro.
_ Tudo bem, Sofia? (Shina)
_ Eu só precisava de um pouco de ar fresco.
_ Foi bom conhecê-la. Espero revê-la um dia desses.
_ Também gostaria de revê-la senhorita Shina, mas acho pouco provável.
Shura começou a gritar lá de baixo para que a companheira parasse de enrolar.
_ Homens! Nunca pense que serão sensíveis algum dia. – ela revirou os olhos claros, arrancando um riso da menina. - Tchau, Sofia.
Sofia acenou com a cabeça. Mas antes de descer a escadaria, Shina pensou por um instante, decidindo se devia contar o que sabia. Por fim, achou justo que a garota soubesse.
_ Sabe, logo que todos nós chegamos aqui no Santuário, flagramos o novo cavaleiro de Escorpião olhando de um jeito esquisito para uma folha seca no chão. E o vimos fazer isto muitas outras vezes. Chegamos a considerar que era maluco. Até que Kâmus de aquário fez ele contar. Eu não me lembro bem dos detalhes, mas se referia a uma garotinha que se dizia namorada dele e que era dona de um sorriso que o Miro se esforçava para não esquecer.
Shina desceu alguns degraus ante ao silêncio da grega e os novos chamados de Shura em espanhol. Mas enfim Sofia lhe chamou pelo nome e Shina se virou para ouvir o que tinha a dizer.
_ Obrigada por me contar.
A amazona ofereceu-lhe um sorriso seguido de uma piscadela e desceu gritando alguns xingamentos em italiano ao impaciente caprino.
And can you feel the love tonight,
How it's laid to rest?
It's enough to make kings and vagabonds
Believe the very best
Sofia ficou parada ali ainda por muito tempo, até que todas as estrelas já tivessem se apresentado no céu. O dia chegara ao fim e ela ainda não encontrara nenhuma oportunidade de dizer a Miro o que realmente a trouxera ali. E esta talvez fosse a última vez que o veria.
Parecendo ler seus pensamentos, Miro saiu ao luar a sua procura e, encontrando Sofia sentada no primeiro degrau a admirar as estrelas acima do Parthenon, fez o mesmo.
_ Espero que aqueles paspalhos não tenham te deixado muito sem graça. O alvo era eu e não você.
Sofia olhou-o com doçura, deixando escapar um sorriso leve e divertido ao menear a cabeça negativamente. Miro sentiu um arrepio. Percebeu que estava se esforçando demais para não beijá-la naquele instante. Mas tomou suavemente uma das mãos dela na sua, deixando-as pousadas sobre a própria perna.
_ Não sei o que deu na cabeça daqueles pastéis, mas se esforçaram muito pra que eu dissesse o quanto você tá uma gata.
Sofia alargou o sorriso e ruborizou um pouco, pousando o olhar sobre os templos abaixo deles. Era uma vista romântica e ao mesmo tempo trágica - para aqueles que soubessem que as ruínas não vinham do desgaste do tempo e sim de duras guerras e combates cruéis.
_ Mas se eles conhecessem a tia Madge como eu, saberiam porque eu jamais diria isso na frente dela.
A menina soltou uma gargalhada, encarando-o mais uma vez.
_ A tia Madge não faz mal à uma mosca!
_ Isso porque a mosca não sou eu. – ele se defende, com uma careta.
_ Ah, ela nem se compara ao papai! Isso você tem que admitir.
_ E quem aqui colocou tio Egídio no páreo? Ele nunca vai me perdoar por ter largado tudo pela missão de cavaleiro.
O sorriso deles diminuiu um pouco e ela baixou o olhar.
_ Tenho que confessar que me esforço, mas é mesmo difícil pra ele entender.
_ Eu não o culpo. O estranho é que logo você, que tinha tão pouca idade na época, tenha sido a única a ter perdoado a minha ausência.
_ A tia Madge também veio até aqui pra te ver.
_ Fez isso por você, não por mim. Eu a conheço bem, Sofia. Não precisa aliviar a minha barra.
_ Aliás, onde ela está?
Escorpião sorriu de um modo que Sofia reviveu algumas de suas antigas lembranças.
_ Apagada no sofá.
_ Não comente isso com ela. Você deve lembrar que ela detesta assumir que cochilou vendo TV. Se falar qualquer coisa, sabe que vai acabar sobrando chumbo grosso pra você.
Ambos trocam um sorriso cúmplice e ficaram em silêncio por alguns instantes.
_ Sua constelação está bonita hoje.
"Deve ser por sua causa." – ele pensou.
Mas não ousou dizê-lo em voz alta. Ela podia interpretar da maneira errada. Aliás, naquele ponto, nem ele mesmo tinha certeza de qual era a maneira certa de interpretar seus próprios pensamentos.
There's a time for everyone,
If they only learn
that the twisting kaleidoscope
Moves us all in turn
_ Gosto dela. Digo, das estrelas de um modo geral.
Miro percebe que ela "escorregara" nas próprias palavras, ficando um pouco sem jeito. Aquilo lhe aquece o peito e ele aperta mais a mão dela na sua.
_ Eu e um grande amigo gostávamos muito de conversar sob a vigia das estrelas.
_ Não conversam mais?
_ Ele voltou para a terra natal e se casou.
Dito isto, Escorpião deixou escapar um suspiro pesado. Havia um misto de melancolia e felicidade naquela frase murmurada com dificuldade, que Sofia entendeu perfeitamente o quanto o tal amigo era importante.
_ As estrelas ajudam a ficar mais perto de quem está longe. Como meus verdadeiros pais ou...
Ela pigarreia, ainda indecisa sobre falar do seu sentimento por ele.
_ Ou os seus... – ela fez uma pausa, tentando conter a emoção que lhe invadiu. - Onde quer que seu amigo esteja, pode estar olhando na mesma direção que você e isso sempre os aproximará.
Miro engoliu em seco. Aquela era a primeira vez que alguém lhe dizia algo sobre a ausência de Kâmus que realmente foi capaz de fazê-lo se sentir melhor. Por pouco não foi tomado por uma emoção piegas que deixasse uma lágrima teimosa escapar. Mas em vez disso, olhou de volta para as estrelas, procurando a constelação de Aquário. Respirou fundo novamente, agradecido pela doçura de Sofia ser capaz de fazer aquilo por ele.
Olhou novamente para sua menina, percebendo-a emotiva também a olhar para a noite. Se perguntou subitamente se ela olhava para as constelações pensando nele. E secretamente admitiu que adoraria constatar que a resposta era sim. Sentiu-se bobo e egoísta por isto.
Kâmus, porém, saberia lhe dizer o que era certo fazer ou pensar. Mas os tempos em que podia ter aquela facilidade haviam se esgotado. Agora ele tinha que reaprender a agir e a pensar por si mesmo.
_ Passamos a tarde toda falando de nossos tios, mas quase nada sobre você.
_ Não tem muito o que falar.
_ Não tem mesmo, ou você não quer?
Ela toma fôlego para se abrir com ele. Algumas coisas não eram assim tão difíceis de confessar.
_ Desde que aprendi um pouco de piano com a tia Berenice comecei a estudar música e canto. A música me leva a lugares que nunca vi e isso mexe muito comigo. Mas não sei se isso é uma profissão, acho que é só um jeito de passar o tempo, para não ficar pensando bobagens.
_ Que tipo de bobagens?
_ Sua morte, por exemplo.
Aquela frase o pega de surpresa e Miro fica sem saber o que dizer.
_ Sabe, quando eu fiz treze anos, eu disse ao papai que queria ser uma amazona. – ela esboçou um sorriso enquanto o olhava. – Foi a maior surra que já tomei em toda a minha vida. Claro que diferente de você eu não tinha realmente um ideal, só queria poder te ver. E depois que entendi isto, passei a me ocupar mais com desenhos ou música.
_ Sinto muito ter causado isto a você.
_ Não sinta. Adoro sua família, Miro. De verdade. Sou muito grata por ter me encontrado e levado até eles. São muito bons pra mim. Só que, não sei se por causa da minha idade... Cada dia que passa, sei menos sobre quem realmente sou e me sinto uma peça fora de lugar.
There's a rhyme and reason
To the wild outdoors
When the heart of this star-crossed voyager
Beats in time with yours
_ Você ainda vai se encontrar. Essa fase é mesmo meio confusa.
_ Mas você sabia exatamente o que queria.
_ Eu era maluco, isso sim.
_ Era? – ela faz uma careta que o diverte.
_ Isso foi golpe baixo.
Eles trocam um breve olhar, mas não há mais sorrisos.
_ Miro... Você nunca pensou em fazer o mesmo que seu amigo?
_ Me casar?! Acho que quem ficou maluca, foi você!
_ Voltar pra casa.
Escorpião precisou de algum tempo tomando fôlego para conseguir responder. Não queria magoá-la, nem dar-lhe falsas esperanças.
_ Aqui é a minha casa agora.
_ Já cumpriu mais de dez anos dessa difícil e linda missão. Ainda não foi suficiente?
_ Isto não é como um emprego. É um meio de viver em que se deixa tudo para trás ao escolhê-lo. Não é algo que se faz para trocar por outra coisa depois.
Miro faz uma pausa, buscando palavras para se explicar.
_ Quando a minha constelação me ajudou a achar você naquela noite, Sofia... Eu me senti em dívida com ela. Enquanto as guerras forem necessárias para manter a paz e eu puder estar lá para defender pessoas como você, não tenho nenhum outro lugar em que devo estar.
_ Por que vocês precisam deixar tudo pra trás?
A pergunta era sincera e não uma mágoa qualquer. E foi somente por ter percebido isto, que o cavaleiro se empenhou tanto em respondê-la da maneira mais sincera que conseguiu.
_ À partir do momento em que nos tornamos cavaleiros, todos aqueles que nos são próximos podem e serão utilizados contra nós. É um risco que ninguém quer correr.
And can you feel the love tonight?
It is where we are
It's enough for this wide-eyed wanderer
That we've got this far
_ Isso deveria ser uma escolha conjunta. Aqueles que são deixados para trás também deveriam opinar sobre correr ou não esse risco.
_ Seria injusto. A escolha foi nossa e não de vocês. Seria uma insanidade.
_ Insanidade?
Desta feita Sofia se solta da mão dele, um pouco embargada com as próprias emoções. Mas sustentou os olhos sobre os dele com uma seriedade que ele nunca havia visto nela.
_ Miro, a tia Berenice teve dois natimortos e um aborto. A tia Madge nunca teve coragem de tentar ter um filho depois que sua mãe morreu. Meus pais adotivos nunca puderam ter filhos. O que pode ser mais insano do que a sua ausência? Você é o único dessa geração, a única chance do sobrenome deles sobreviver! Como acha que se sentem? Descontam toda a super proteção em cima de mim. E ainda chego aqui e encontro outro Ptolemaîos falando de me proteger! E tenho que ouvir dele, que o perdi pelo meu suposto bem. Miro, sua missão é linda e te admiro do fundo do meu coração. Mas eu gostaria muito que estivesse novamente conosco algum um dia.
Sofia se levanta, como que fugindo do ponto em que aquela conversa a levaria. Já falara demais. Miro levantou-se atrás dela, segurando-a pelos ombros.
_ Foi muito importante tê-la aqui hoje, Sofia. De verdade. Vou visitá-los quando puder.
_ Não me diga coisas que eu vá passar a vida toda acreditando, mesmo sabendo que é mentira.
A menina o tocou na face com os olhos úmidos, enquanto o olhava pelo que achava que seria a última vez. Nenhum deles soube dizer exatamente quem se aproximou primeiro. As respirações se misturaram em um único e ofegante ritmo. Quando deram por si, seus lábios já haviam se tocado em um beijo doce.
Miro sentiu o gosto salgado de uma lágrima dela trazendo-o de volta a sua complicada situação e afastou-se. Sentia-se o pior dos seres por ter se deixado levar, depois de todo o discurso que fizera a ela e a si mesmo.
A grega sorriu timidamente, enxugando as próprias lágrimas e olhando-o como se agradecesse por aquele "golpe de misericórdia". Ao que parecia, ela pensava ser a despedida perfeita, apesar de todas as verdades dolorosas que ouvira dele.
_ Sofia querida! Vamos embora, já ficamos mais do que devíamos!
Antes que se movessem, tia Madge gritou, aproximando-se da entrada da casa de Escorpião.
Sofia recuperou-se e segurou uma das mãos dele, entregando-lhe uma folha que caíra em seus ombros há poucos instantes.
_ Eu sempre vou amar você, Miro.
And can you feel the love tonight,
How it's laid to rest?
It's enough to make kings and vagabonds
Believe the very best
CONTINUA...
N.A.:Bom, aí está mais um. Este foi um pouco mais difícil pois era o pior deles e precisou praticamente renascer do zero. Espero que gostem dessa novelinha mexicana e a comentem! Até a próxima! =*
