Disclaimer: Os direitos dos personagens de Cavaleiros do Zodíaco pertencem ao Kurumada. Os personagens novos são meus, portanto respeitem. Não tenho nenhuma finalidade lucrativa com esta história. A música incidental é "Meu Mundo Gira em Torno de Você" do Kid Abelha.

Capítulo IV- Porque é Preciso se Cuidar do Broto...

A folha ama a árvore

Te amo mais

A estátua grega ama o mármore

Te amo mais

" Miro segue atrás daquela garotinha tão pequena, que recostara-se debaixo de uma árvore e chorava copiosamente. Colocou as mãos em torno de seus ombros e fez com que ela o encarasse.

- Ei, ao fique assim.

- Você não pode ficar, primo?

- Não, Sofia. Fui convocado para servir Athena finalmente e não posso negar esta honra. Um dia você vai entender minha escolha.

- Fica aqui com a gente.

O vento sopra e derruba algumas folhas sobre seus pés. Miro observa uma delas e encontra um modo de tentar consolar a pequena menina.

- Está vendo isto, Sofia? Às vezes uma simples folha que cai, pode simbolizar mudanças na vida da gente. Quando o vento sopra pode carregar muita coisa com ele. Para longe ou para perto. Mas se vamos aceitar ou não aquela folha, é algo que só a gente pode decidir. O vento está soprando, Sofia e eu quero aquela folha do Santuário. Para iss, terei de ir para longe de vocês, mas não significa que deixei de amá-los.

- Você vai lembrar de mim quando outra folha cair?

Ele sorri diante da inocência dela, percebendo que a menina não entendera nem metade do que acabar de dizer.

- Claro que sim. Vamos, não me deixe partir sem me dar um abraço! Não fique furiosa comigo, priminha. "

Mais que a casca ama semente,

Mais que o ovo da serpente, a serpente

Porque meu mundo gira em torno de você…

Ainda com os olhos fixos na folha que Sofia deixara em suas mãos e perdido em lembranças, Miro de repente se sobressalta, percebendo que alguém apertara seu ombro esquerdo.

- Que é que você quer, Aioros?

- Já faz uma hora que você tá parado aí.

- Agora deu pra ser espião, ou virou minha babá?

Aioros deu de ombros e sorriu. Conhecia bem aquela grosseria típica que o amigo adquiria quando estava na defensiva.

- Só acho que você precisa conversar.

Miro levanta uma das sobrancelhas.

- Preciso?

- Será que só eu te acho problemático por se contentar com isto?

O cavaleiro apontou para a folha que Escorpião segurava, com ar divertido. Miro virou as costas para ele, entrando em sua casa.

- Vai amolar outro.

De modo brusco, seguiu em direção ao seu próprio quarto, mas foi seguido por Aioros.

Decidido a manter o silêncio, o aniversariante vira-se para observar Sagitário com um sorriso cínico e tenta fechar a porta do local. Aioros rapidamente o impede.

- Você vai deixar essa oportunidade passar?

Ele revira os olhos e solta a porta. Aioros entra no quarto a tempo de vê-lo guardar a folha seca num pequeno baú ao lado de sua cama.

- ... Ela é linda, doce, inteligente e é óbvio que é completamente apaixonada por você. É impossível que seja imune a uma mulher como a Sofia.

Escorpião fecha o cenho visivelmente irritado e se aproxima a um dedo do cavaleiro de Sagitário. Aioros instintivamente dá um passo para trás.

- Seja lá o que pretendiam, o showzinho de vocês já acabou! Minha tia já foi pra casa, então chega dessa palhaçada porque eu não admito que fale dessa maneira sobre a minha prima!

- Você ficou parado lá fora por mais de uma hora olhando pro nada! É óbvio que a visita dela te deixou abalado.

- Se sua família viesse até aqui e jogasse na sua cara a falta que faz a eles, eu duvido que reagiria diferente.

Aioros engoliu em seco. Ao menos em parte, aquilo era uma grande verdade. Haviam muitas questões envolvidas naquela visita que mexiam com os sentimentos mais antigos e profundos do cavaleiro.

- Concordo plenamente. Mas parece que não foi a família toda que ficou na sua cabeça a tarde inteira. Ou então não ficaria olhando tanto tempo pra uma folha que carrega a história de uma tal garotinha.

Miro cerrou os punhos, enraivecido. Se tinha algo que jamais perdoaria em Kâmus, era o fato de ter espalhado ao Santuário inteiro porque ele era tão apegado a folhas de árvore que chegavam à sua casa com o vento.

Ficara tão furioso na época que foi parando de reparar nelas, tentando não pensar mais em Sofia. Até que um dia, provavelmente pouco depois de Hades, ele simplesmente esqueceu de verdade. Ao menos até aquele dia...

- Aioros, sai do meu quarto.

- Ficou ofendido porque eu te disse a verdade, ou porque não consegue admitir o que está sentindo?

- Sai do meu quarto. Agora.

Sagitário suspirou pesarosamente, pensando que Escarlate tinha determinadas características que nunca mudariam. Por fim, deixou Miro sozinho com seus pensamentos.

Um pouco de amor

Resiste a tudo

O mundo inteiro gira em torno de você

Sentado em sua cama, Escorpião se pegou observando o presente que pendia em seu pescoço. Segurando o pingente em uma das mãos, fechou os olhos por um instante. Naquele momento, sua mente estava embaralhada com um turbilhão desconexo de sentimentos e sua cabeça estava doendo e latejando. Praguejou. Seria péssimo ter uma enxaqueca agora que ia sair com os amigos e tentar ter uma noite agradável.

Seu coração o traía com batimentos acelerados desde que pusera os olhos em Sofia e aquilo só piorou depois do beijo. Odiava-se por ter sido fraco o bastante para permitir que acontecesse.

Era ilógico como um toque tão suave dos os lábios dela o tivesse deixado naquele estado. Havia passado muito longe de ser um beijo mais íntimo, mas fora marcante o suficiente para deixar seu gosto doce impregnado em sua boca. Imaginou por um segundo como seria a sensação de tomá-la em seus braços.

Sentado ali, sentindo a frieza do ouro entre os dedos, concluiu que a visão de Sofia, apesar de perturbadora, era também reconfortante. O levava de volta pra casa. Assustadoramente, era aquela pureza e meiguice que a tornavam a mulher mais sensual que já conhecera.

Miro levantou-se alarmado, quando se deu conta de que estava sonhando acordado com algo no mínimo contra da lei. Depois de quase uma hora amaldiçoando a despeito de sua fraqueza e insanidade, imaginando que era o mesmo que pedir que o universo conspirasse contra ele; foi até a sala e encarou a garrafa de vodca que chegara pelo correio em nome de Kâmus naquela tarde.

Riu ao admitir ter sido salvo pelo amigo mais uma vez. Encheu um copo com a bebida forte e a sorveu num único gole, para finalmente ter coragem de sair e descer, para ter com os demais cavaleiros.

Teve ainda muitos dias para pensar no que lhe confundia a mente. Mais de um mês se passou. Os amigos ansiavam por ouvi-lo admitir alguma coisa ou se precipitavam em dar-lhe conselhos sobre o que pensavam perceber com mais clareza do que ele. Mas Miro preferia se calar e tirar suas próprias conclusões sobre o que devia ou não fazer.

Ficar com Sofia não era o mais difícil e nem a solução de todos os problemas. Era o início de muitos outros. Decidir seguir seu coração e desejo era o mesmo que preparar-se para uma guerra-santa que o atingiria não fisicamente, mas moralmente. Significava oferecer-se em sacrifício aos deuses Ptolemaîos e rezar para que o baque não o separasse dela. A reação dos tios e a maneira com que ele correspondesse a isto, é que seriam realmente decisivos.

Isto sem contar que iria colocá-la em grande risco. Ele, que jurou tanto protegê-la, a estaria expondo a coisas terríveis que podiam lhe acontecer. E mais: nunca poderia dar a ela um lar, uma família, ou até mesmo filhos. Ou qualquer outra coisa com que as garotas românticas costumam sonhar. E a simples idéia de ser o responsável por ferir o coração de Sofia, ou de impedir que levasse uma vida normal e plena como sempre desejou que ela tivesse, lhe dava mais motivos pra se odiar.

Mas Aioros tinha razão. No fundo, desde que partira de casa, apaixonou-se pela criança que lhe era a referência de sua missão no Santuário - salvar os inocentes. Mas jamais achou que enfrentaria aquela paixão algum dia e que ela ainda seria recíproca.

Para ele era tão fácil dar a vida pela paz em nome de Athena, mas extremamente difícil lidar com alguns desafios pelas quais todas as pessoas normais passavam. Era estranho perceber que o vazio que sempre existira dentro dele, estava sendo preenchido por nada menos do que a sua pequena Sofia e de uma maneira ainda mais inesperada.

Eu sei que o zero ama o infinito

Te amo mais

Assim como bolero é bonito

Você é mais

Ágata admira a bela fazenda que divide com os irmãos e sorri sincera, carregando o que restara dos doces na venda da manhã. Avista o balanço de sua varanda branquinha como o restante da casa e em seguida verifica que suas adoradas plantas estavam devidamente regadas. Habilidosa com o imenso molho de chaves, abre a porta da ante-sala, feliz por voltar a tempo de fazer um almoço rápido.

Ao passar pela soleira da porta sente o cheiro de pinho e pára para ouvir o silêncio. Os móveis brilhavam aos raios do sol, vindos da grande janela aberta. Ao percorrer em volta da residência, nota todos os cômodos igualmente impecáveis e conclui que aquele tipo de limpeza metódica só podia ser arte de sua filha num momento de ansiedade. Aproxima-se da cozinha e enfim escuta alguns sons de metal e vapor, acompanhados de um cheiro agradável de temperos.

- Sofia? Lídia, meu bem, você está aí?

Ágata surge na soleira da porta, encontrando a filha cantarolando distraidamente sobre as panelas, entretida com um ipod no volume máximo. A senhora de olhos esverdeados e cabelos escuros fica ainda a observá-la por algum tempo enquanto admirava a voz da menina, tão suave e afinada quanto a de um pássaro. No instante seguinte, é flagrada por Sofia.

- Mãe!

- Aí está você, meu rouxinol.

Sofia sorri largamente e tira o fone dos ouvidos para abraçá-la com carinho.

- Oi, mamãe. Você chegou cedo!

- Cedo?! Estava aqui desesperada com o horário do almoço!

- Então não se preocupe mais. Tudo bem com as vendas hoje?

-Ah, foi um pouco fraco esta manhã. Voltei com cinco compotas.

- Ai, mãe! Que exagero! É claro que foi bem, você levou umas vinte!

- Ah, mas eu já voltei mais cedo pra casa, sem mais nenhum pote e tendo prometido mais.

Ambas escutam um ruído de fritura e Sofia se alarma, voltando a olhar as panelas apressadamente.

- E eu cheguei aqui imaginando o que ia fazer pro almoço, mas pelo visto já cuidou de tudo! E pela quantia absurda que fez, é para os seus tios também... Já ligou pra Madge? Você sabe que ela arruma a comida muito cedo e se for agora, não dá mais tempo...

- Já. Avisei sim, mãe.

Notando Sofia concentrada demais no que fazia para dar muita atenção à sua conversa, Ágata retira os potes da sacola e coloca sobre o balcão para poder empilhá-las no armário; mas não resiste ao silêncio por muito tempo.

- Essas faxinas impecáveis estão se repetindo com freqüência, querida. Está com algum problema?

Sofia finge não ter ouvido.

- É impressão minha, ou desde que visitou seu primo você anda inquieta?

Sofia deixa escorregar um copo dentro da pia, que por pouco não se quebra.

- Que foi, mãe?!

- Estou perguntando se você se arrependeu de ter visitado o ingrato do teu primo. Você tem andado pela casa igual barata tonta, quando não está trancada no quarto!

- Não fala assim do Miro, mamãe.

- Ah, querida, me desculpe! Mas seus velhos aqui não têm coração forte o bastante pra se conformar com a maneira como ele nos abandonou. Se você não se lembra, custou muito convencer o seu pai a deixar você ir até lá.

Ágata começa a pegar os pratos e talheres para a mesa e Sofia suspira pesarosamente.

- Sim, eu sei. Se eu não tivesse convencido a tia Madge a ir comigo, ele não teria deixado nunca.

- Pois então. Agora me diz o que te incomoda pra você estar desse jeito, minha filha?! Você pode enganar seu pai com essa carinha, mas não a mim!

- Nada, mãe. É que ir até lá me fez sentir falta dos velhos tempos, só isso.

- Por isso eu não ponho meus pés naquele lugar! Me dá arrepio só de pensar em vê-lo moço e não reconhecer nem a sua voz, sabendo que cresceu longe de nós sem nos dar um único sinal de vida! Provavelmente eu cairia em prantos ao ver o belo homem que deve ter se tornado.

Ágata sai com a louça empilhada nos braços em direção a sala de jantar e Sofia agradece aos céus por sua mãe ter se contentado com a última resposta. Sofia desliga o fogo e se distrai pegando os copos do armário.

Mais que eu amo a melodia,

Mais que o poeta a rima e a metonímia

Porque meu mundo gira em torno de você...

- Lídia! Telefone pra você!

A moça estremece e derruba alguns copos no chão, fazendo uma careta quando vê os estilhaços sob seus pés. A remota possibilidade de receber um telefonema de Miro a deixou apavorada e seu coração disparou, como se tivesse ido parar na garganta. Sua mão tremia e ela tentava se convencer de que era impossível que fosse ele.

- O que foi isso?!

Ágata volta correndo até a porta cozinha, assustada com o barulho.

- Nada mãe, foi um copo que caiu. Quem é no telefone?

- Ah, meu Deus! Um copo ou alguns copos?! Me diga que não é a louça de sua avó...

Ágata veio a passos rápidos em sua direção para verificar o estrago.

- Ai, graças aos céus que são esses copos velhos!

Sofia se inclina e passa a recolher nervosamente os cacos do chão e Ágata lhe entrega o telefone.

- Toma, eu transferi pro sem fio. É o Tales de novo.

- Ai!

Sofia cortara o dedo em um dos cacos e levou o indicador até a boca.

- Diz que não estou!

- Mas que juízo, menina! Já falei pra não pegar essas coisas como a mão! E além do mais eu já disse que você estava, querida. Deixe de ser ingrata e atenda, ele é um bom rapaz!

A garota revira os olhos, irritada.

- Um bom rapaz que só sabe falar dele mesmo e no quanto a família está enriquecendo. "Ai, você viu as fotos de quando fui pra Austrália?!" ou "Olha o relógio de ouro que eu herdei do meu pai!" Ah, ninguém merece, mãe! Diz que eu estou no banho ou qualquer coisa assim.

- Como você é dura com as pessoas, Lídia. Parece uma velha.

Sofia respira fundo e pega uma vassoura para recolher os estilhaços, ainda praguejando pelo dedo cortado.

- Tá mãe. Se te deixa feliz, me dá aqui que eu atendo.

- Me passa esses copos antes que você termine de quebrá-los.

- Oi, é a Sofia. Alô? - há uma pausa silenciosa na linha. - A ligação caiu.

- Eu também teria desligado se tivesse te ouvido dizer aquelas coisas horríveis a meu respeito! Na minha opinião é mais um bom pretendente que desiste de você.

- Mãe, pelo amor de Deus! Vocês ainda vão me deixar louca!

Sofia termina de limpar o chão e faz menção de sair para o quarto, mas o telefone toca novamente.

- Eu não vou atender ninguém! Vou subir pro meu quarto e desço depois pro almoço! Me avisa quando o papai e os tios chegarem.

Um pouco de amor

Resiste a tudo

O mundo inteiro gira em torno de você

Ágata suspira pesarosa ao ver a filha subindo nervosamente as escadas e atende o telefone novamente.

- Fazenda dos Ptolemaîos. (...) Alô?

Houve tempo suficiente apenas para escutar algo que não conseguiu identificar se era um chiado do telefone ou uma respiração nervosa.

- Tales, é você?

Silêncio.

- Tem alguém na linha?

Ouve-se um estalo e a ligação é cortada.

- Mas que praga de telefone!

A senhora larga o aparelho no balcão da cozinha para finalmente levar os copos até a sala de jantar. Quando já estava saindo, o telefone volta a tocar e ela respira fundo, largando os copos novamente.

- Praga! Só me faltava ser a Berenice dizendo que não vem.

E o atende após o terceiro toque.

- Pronto. É da fazenda dos Ptolemaîos. (...) Sim, é Ágata. Quem está falando? (...) Ah, meu Deus! Só pode ser brincadeira! Se você não me dissesse, não o reconheceria nunca. (...) Ah, querido é uma pena... ela está indisposta, não creio que ela queira atender. Mas se quiser eu posso tentar falar com ela, de repente...

Ágata parece compenetrada no que a pessoa do outro lado dizia.

- Hum... Então está bem.(...) Imagine, ninguém te deserdou meu bem, você é que desapareceu no mapa. (...) Huhum. Não querido, não tem ninguém aqui zangado com você, isso é exagero da Madge.

Um começo sem começo é até o fim sem fim

Cuido de você, meu bem, você cuida de mim

Te amo mais...

Te amo mais...

CONTINUA...

NA.: Aew! Finalmente o Miro tomou um Dan'up! E o que será que vai pegar agora? Ai, que falta de educação a minha, olá para todos!

Como deu pra perceber melhor neste capítulo, o nome da Sofia também é Lídia. Ou melhor, Sofia Lídia Ptolemaîos. (Mais tarde eu digo o motivo da escolha do nome dela e de Madge.) Por hoje, posso dizer o significado do nome da Ágata: "bondade", e o nome do pai da Sofia (que se vocês não se recordam é Egídio), que significa "aquele que protege". E o sobrenome deles se vocês também não se lembram, significa "guerreiro". Por aí vocês já podem começar a ter uma base sobre o que aguarda o nosso pobre Escorpião...tsc, tsc, tsc. Só tenho a desejar-lhe boa sorte, Miro!

Bom, até mais!