O QUE PODE MUDAR A SUA VIDA?

Disclaimer: Os direitos dos personagens de Cavaleiros do Zodíaco pertencem ao Kurumada. Os personagens novos são meus, portanto respeitem. Não tenho nenhuma finalidade lucrativa com esta história. As músicas incidentais são trechos de "Vida Real", "Depois de Nós" e "3x4" de Engenheiros do Hawaí.

Capítulo V - ...Pra que a vida nos dê flor...

Cai a noite sobre a minha indecisão
Sobrevoa o inferno minha timidez
Um telefonema bastaria,
passaria a limpo a vida inteira

Era um frio final de tarde, porém ensolarado e acolhedor. Sofia saiu pela varanda cor de salmão da casa de Berenice, carregando a bandeja dos refrescos. Respirou fundo, sentindo o vento gelado bater no rosto enquanto admirava os parentes no jardim. Ela desce as escadas e observa o céu avermelhado, constatando que a noite seria estrelada.

_ Sofia, meu bem! Venha logo!

A dona da casa, de ar jovial e densos cachos negros caindo-lhe até metade do pescoço, caminha rapidamente na direção de Sofia com sua calça de um azul suave e camisa clara estampada com flores amarelas e azuis.

_ Você perdeu mais uma das piadas do seu tio Georgio!

E tomou a bandeja de suas mãos, seguindo pra a mesa entre risos. Sofia sorriu diante da cena. Quando se sentou, os presentes ainda estavam dominados pela gargalhada, com direito a típica pancada na mesa que nosso tio Adônis, grande e corpulento, sempre deixava escapar quando já estava sem fôlego para rir mais. Até mesmo seu pai que era o mais sério, meneava a cabeça, trocando um olhar divertido com o irmão.

Nem bem há tempo de se ajeitar, sua tia Madge passa a travessa de salada para a sobrinha.

_ Coma alguma coisa, menina! Sua mãe disse que mal almoçou! (Madge)

_ Obrigada, tia.

Enquanto Sofia se servia, as risadas foram cessando. Mesmo com a cabeça baixa, conseguia sentir o peso de todos aqueles olhares pousando sobre ela, um a um. Conhecia bem aquele silêncio repentino e sabia exatamente o que viria na sequência. Sempre rezava para que estivesse enganada e fingia não perceber, mas suas preces nunca eram atendidas. Por fim, veio aquele suspiro disfarçado de seu pai enquanto limpava a garganta e a olhava de soslaio... Ia começar.

_ Você também soube, Adônis? O filho mais velho de Péricles voltou do extremo da Europa.

_ É verdade, ouvi rumores sobre isso no mercado. Estava estudando, não é?!

_ Sim, estava. Alguma coisa relacionada com informática. – continuou Georgio.

_ Ainda acho um desperdício que garotos como ele, desprezem a educação dos gregos! Como disse que é mesmo o nome dele, querida?!

_ Aquiles. Acaba de completar dezoito anos e é muito bonito, Sofia! Devia ver como é inteligente. – completou Berenice, em resposta ao marido Adônis.

Madge, também nada discreta, começa a por lenha na fogueira.

_ Por acaso não foi ele que ligou na semana passada, procurando pela menina?

_ Não. Quem ligou foi o Tales. – responde Ágata.

_ O fato é que nem se quer fala com gente da idade dela. Age como se nenhum deles fosse inteligente ou interessante o bastante para que dê se quer alguma atenção!

Sofia comia sua salada silenciosamente, tentando parecer indiferente ao último comentário de seu pai, que a incluía definitivamente na discussão.

_ Por que você não aceita passar um tempo com o Aquiles, querida? Vocês são jovens, precisam se distrair! – Berenice pergunta com a voz mais doce que tinha.

O silêncio entre todos que esperavam sua reação é tamanho, que se pode ouvir o tilintar dos talheres. Sofia por fim, dá de ombros e responde sem tirar os olhos de sua salada.

_ Bom, ao menos eu sei que não posso dar-lhe uma flechada no calcanhar.

Com raiva pela resposta, Egídio esmurra violentamente a mesa, sacudindo os pratos mais próximos.

_ Está vendo?! Foi o que eu disse, Georgio! Vai acabar sozinha no mundo, com tanta arrogância!

_ Tenha paciência, querido. Ela só tem quinze anos... – a mãe tenta amenizar.

_ E já está insolente!

_ Sofia, seu pai tem razão. Devia ao menos fazer amizades. Eu sempre a vejo sozinha ou enfiada no quarto.

Uma rajada de vento ameaça levar os guardanapos e sacode a toalha da mesa, fazendo estremecer alguns copos. Aproveitanto a deixa do vento frio, Sofia aproveita para fugir da conversa.

_ Eu vou pegar uma blusa, ou vou congelar. Com licença.

Cai a noite sem explicação,
sem fazer a ligação
Na hora da canção em que eles dizem "baby",
Eu não soube o que dizer.
Ah! Vida real!

Miro estava especialmente irritado naquele fim de tarde. Ninguém sabia exatamente a razão, embora todos desconfiassem que tinha relação com a tal prima que o visitara. Afinal, desde aquele dia alguma coisa no cavaleiro saíra dos eixos e ficava cada vez mais insuportável conviver com ele.

Por enquanto ninguém se atrevera a tocar no assunto. Todos sabiam que seria razão para uma de suas explosões. Até perder mais vezes no poker estava perdendo, o que era sempre motivo de piadas sobre sorte e amor que o deixavam ainda mais mau-humorado e isolado dos demais.

Hiyoga, o novo substituto de Aquário, achou que o único que seria capaz de falar com ele seria seu mestre Kâmus e entrou em contato para que o francês ligasse para o Escorpião para ver se ele se abria.

Mas nem isto havia dado resultado. Por mais que Kâmus se esforçasse com perguntas e indiretas, Miro se quer mencionara a visita dos parentes e muito menos o que se passava em seu coração.

O dourado não era besta. Sabia muito bem o que o amigo estava tentando descobrir e já desconfiava quem o havia convencido de ligar para ele. Não estava disposto a falar com ninguém e os companheiros iam ter que respeitar. É fácil obter fórmulas secretas de felicidade quando o problema não lhe pertence! Eles que engolissem todas elas e rissem o quanto quisessem.

Jamais entenderiam sua relação complicada com a família. Todos eram órfãos como ele, mas a maioria nem se quer tinha parentes. E por mais que isso fosse duro e triste, tornava a jornada de um cavaleiro muito mais simples e lógica.

Em compensação, deixar a família como ele fizera, abdicar de um sobrenome e das pessoas que amava... Isto tinha sim conseqüências bem complicadas.

Nenhum de seus amigos tinha vivência para compreender como era ser odiado pelos seus. Porque nenhum familiar entende a ausência como heroísmo. Isso era coisa para filmes de guerra, não para a vida real! Na vida real seus parentes entendem isto como ingratidão.

Esperei chegar a hora certa, por acreditar que ela viria
Deixei no ar a porta aberta no final de cada dia
Cai a noite, doce escuridão, de madura vai ao chão

É claro que isso não tornava seu problema o maior e o mais insolúvel do universo. Nunca foi homem de sentir pena de si mesmo. Mas também não era lá muito bom em solucionar questões emocionais, uma vez que estava sempre fugindo delas.

Também reconheceu o tom de voz disfarçado da tia quando ligou para a casa de Sofia. A mágoa e a tristeza ainda estavam ali e muito provavelmente sempre estariam. Não a culpava por isto. Evitara qualquer contato justamente para protegê-los, mas tinha consciência de que isso nunca faria sentido para nenhum deles.

Quanto a Sofia, era ainda tão pequena quando partiu não tinha nem idade para tentar entender. No entanto, de alguma forma... Era a única deles que apesar de não aceitar, compreendia suas razões.

Talvez isto fosse o que mais mexera com seus sentimentos. Era completamente ilógico pensar tanto nela como havia pensado nos últimos dias enquanto mirava as estrelas. Sabia que não devia, mas esta consciência não era suficiente para controlar a lembrança daqueles lábios doces.

Não sabia exatamente o que estava a sentir por ela e, em outra situação, nunca seria impedimento para deixar acontecer e entender depois. Mas Sofia já tinha importância em seu coração e memórias para arriscar uma coisa passageira. Diante de si estavam dois sentimentos muitos diferentes e conflitantes, que o confundiam. Estava começando a gostar de alguém que já nutria sentimentos por ele há muito mais tempo e parecia injusto arriscar ferir-la por algo incerto e complicado. Isto era ainda mais assustador.

Ela devia ter muitas ilusões a respeito dele, que provavelmente não poderia corresponder nunca. Ambos também deviam ter uma visão completamente distorcida um do outro depois de passados tantos anos.

A verdade era que pela primeira vez, temia magoar alguém.

Os dias transcorriam cada vez piores. A dúvida o enchia de raiva. E a falta que sentia de ouvir aquela voz ou de mirar aqueles olhos escuros lhe atormentava a alma.

Depois daquela visita, lembrara-se da outra razão de seu afastamento: quanto mais via seus familiares, mais sentia falta deles. E isto atrapalhava demais sua posição de protetor de Athena. No entanto, estava feito. Simplesmente precisava vê-los.

Eram tempos de paz - Athena dizia. Não havia motivos para que não buscasse ter uma vida além do Santuário. Mas são nestes tempos calmos, em que o pior pode acontecer quando estamos todos dormindo ou distraídos a sonhar.

Mas se estava a sonhar de qualquer modo, por que não enfrentar um pouco de realidade?

Na hora da canção em que eles dizem "baby"
Eu não soube o que dizer.
Ah! Vida real!
Como é que eu troco de canal?

Sofia sempre se irritava com aquelas conversas sobre como devia ou não interagir com as pessoas. Às vezes chegava a sentir que pretendiam descartá-la para o primeiro negociante ou filho de um, na primeira chance que tivessem. No fundo sabia que não era bem assim, mas quando começavam a forçar muito, ficava inevitavelmente irritada e triste.

Não é que não quisesse ter amigos. Apenas não tinha encontrado ninguém com que tivesse afinidade o bastante. Não sentia falta de amigas que a achassem esquisita por ser reservada ou por não falar o tempo todo sobre garotos, roupas e sapatos. Muito menos estava disposta a ficar ouvindo filhinhos de papai contarem vantagens sobre as posses que haviam sido conquistadas pelos pais. Todos eles tinham alguma vantagem estúpida a contar e Sofia não estava nem aí para adolescentes vazios como a grande maioria dos seus colegas de escola eram.

Para quem tinha crescido no meio de tantos adultos, - tirando o drama e a crise existencial inevitáveis da adolescência, – era bem difícil agir e pensar como alguém da sua idade.

Caminhou rapidamente, contendo-se para não chorar. Quando chegou ao quarto, fechou a porta. Ligou o rádio, aumentou o volume e subiu em direção ao telhado. Mas as lágrimas acabaram por escapar de seus olhos. Queria ser adulta, mas seu coração ainda se machucava com bobagens como aquela.

Começou a cantar baixinho distraída com as estrelas. Escorpião brilhava forte aquela noite e sentiu uma pontada no peito, imaginando se Miro estaria bem.

Como podia pensar em garotos, quando havia um homem repleto de caráter e altruísmo tomando-lhe o coração inteiro?

Sentada lá em cima admirando as terras dos Ptolemaîos, aos poucos foi se acalmando e os soluços diminuíram quando deixou-se levar pela sua ópera favorita. Do outro lado da propriedade, os mais velhos perceberam tarde demais que a conversa anterior afastara a menina do jantar.

_ Eu te disse que ela não ia voltar. Agora não há quem a tire do quarto!

_ Eu só não quero que ela acabe sozinha, quando não estivermos mais aqui.

_ Mas quanto mais falamos, mais ela se afasta.

Neste instante, um grande carro preto de vidro escuro estaciona nas proximidades do gramado. O rapaz desce do banco traseiro e fica algum tempo dando instruções ao motorista de como retornar. Vestia uma calça jeans escura e uma blusa bege de gola "v" e mangas compridas. Havia prendido os cabelos e usava um anel dourado com uma grande pedra vermelha que brilhava ao reflexo da lua - única recordação que levara dos pais. Despediu-se do motorista, pegou seu casaco de couro e olhou em volta.

Ele ainda se recordava com carinho de todos os detalhes daquele lugar e ao vê-lo, percebeu o quão maior estava a vegetação e teve a impressão de que algumas cores nas paredes externas haviam mudado.

Sentiu um calafrio na espinha quando percebeu que todos o encaravam.

Hoje os ventos do destino começaram a soprar
Nosso tempo de menino foi ficando para trás
Com a força de um moinho que trabalha devagar
Vai buscar o teu caminho, nunca olha para trás

O silêncio foi interrompido por Berenice, que se levantou bruscamente.

_ Meu Deus... Você veio!

Miro deu de ombros, com um sorriso meio sem graça. Berenice lhe recebeu com um abraço carinhoso, ainda em choque pela visita.

_ Ágata me contou, mas eu não acreditei!- afastou-se segurando-lhe pelos ombros.

O sobrinho constatou que os olhos castanhos da tia ainda tinham a mesma doçura de outrora.

_ Por Deus! Como está bonito e mudado! Quase não o reconheço.

_ Quem é vivo, às vezes aparece.

Adônis aproximou-se, batendo brutalmente em suas costas, como de hábito. Seus cabelos estavam mais brancos e uma grande falha se formava no alto da cabeça, mas os olhos azuis brincalhões e as grandes bochechas vermelhas pouco haviam mudado.

Escorpião soltou um suspiro pesado antes de lhe responder:

_ Achei que nunca mais fosse olhar pra essas árvores.

_ Meu Deus, querido... Por que foi nos deixar assim?!

Ágata surgiu em meio a eles de repente, lhe agarrou bruscamente e se desmanchou em lágrimas, fazendo-o engolir em seco para conter a emoção que também sentiu. Mal teve tempo de retribuir o gesto, quando Georgio também se aproximou.

_ Seu teimoso insolente! Eu lhe avisei que aquele lugar o deixaria ainda mais magrelo!

O homem esfregou o punho sobre a cabeça do sobrinho com uma força que lhe fez lembrar de Aldebaran. Grande e imponente, seu tio mantinha ainda a mesma magreza da juventude.

Quando chegou a vez de Madge, ela colocou as mãos na própria cintura com ar repreendedor.

_ Está um atrasado, seu moleque ingrato.

_ O motorista errou o caminho e ficou dando voltas... Ai!

Antes que acabasse de falar, a tia lhe puxou pela orelha esquerda até que ele inclinasse na sua altura.

_ Estou aqui angustiada e tudo que tem pra me dizer é que o motorista errou o caminho?! É muito descaramento mesmo!

Antes de se afastar um pouco, ela ainda deu um tapa no braço do sobrinho, que riu da situação. Constatou que era muito mais doloroso ficar longe daquela bagunça do que levar alguns puxões de orelha da tia.

_ Eu devia ter ligado.

Miro percorreu os olhos em busca do pai de Sofia. Egídio ainda estava imóvel e sério no banco, com seus olhos cinzentos e perspicazes a analisar cada movimento com os braços cruzados. Ficaram se entreolhando por um tempo que pareceu uma eternidade.

Hoje o tempo voa nas asas de um avião
Sobrevoa os campos da destruição
É o mensageiro das almas dos que virão ao mundo
Depois de nós

Finalmente Egídio levantou-se e veio em sua direção. Miro sentiu um certo pânico, como se o seu coração estivesse a bater na garganta em lugar do peito. Nunca se arrependera de suas escolhas e não ligaria para a reação difícil do tio, não fosse pela culpa de um beijo de Sofia a atormentar-lhe a memória. Pigarreou, estendendo a mão até o ombro de Egídio.

_ Há quanto tempo, tio.

_ Tempo demais.

_ Sei que ainda está chateado, mas conhece bem os meus motivos.

Os braços do mais velho ainda estavam cruzados e tensos, mas o olhar já entregava certa emotividade.

_ Não me importa o que tinha na cabeça quando saiu. Por que voltou? O que pretende? Aparecer agora e sumir outra vez por mais dez anos?

A pergunta e a expressão do tio eram agressivas, mas compreendia bem a razão do discurso.

_ Na verdade enquanto estiver tudo bem no Santuário, talvez eu possa visitá-los pelo menos uma vez por mês, tio.

_ Bom, então só "talvez" você magoe a Sofia novamente. – continuou severo.

_ Egídio!

Ágata os interrompe, repreendendo o marido com o olhar mas ele a ignora.

Miro engoliu em seco e suspirou por um momento, preso em seus próprios pensamentos sobre o assunto.

_ Não pretendo brincar com os sentimentos de ninguém. Estamos vivendo em uma época pacífica, mas não posso garantir que continue assim.

Desta feita é o mais velho que respira profundamente.

_ As guerras são ainda mais cruéis do que já parecem ser. Espero que suas expectativas não tenham sido de muita glória.

_ Não escolhi este caminho por glória. Protejo aquilo em que acredito em favor daqueles que sempre amei.

_ No entanto esta "nobre" missão te afasta de quem realmente se importa com você.

_ Foi o preço que tive que pagar.

_ Todos nós pagamos o preço.

Hoje o céu está pesado, vem chegando o temporal
Nuvens negras do passado... Delirante flor do mal

Cometemos o pecado de não saber perdoar
Sempre olhando para o mesmo lado, feito estátuas de sal

_ Sinto muito por não ser o sobrinho que esperavam que eu fosse.

_ Não, você não é mesmo. Da última vez que o vi ainda era um garoto insolente. Mas agora posso ter orgulho do homem que se tornou. Tem a mesma teimosia e coragem de seu pai.

A última frase pegou dourado de Escorpião de surpresa, bem como o abraço apertado que veio em seguida. Retribuiu o gesto sentindo-se desajeitado com aquilo. Não fazia ideia do que dizer em agradecimento ao que ouvira, pois não imaginava que seria algo tão importante de se saber, mas o era. E por isto, perdera as palavras.

Seu tio, percebendo-o sem jeito, deu-lhe alguns tapas no ombro e continuou:

_ Então vamos aproveitar enquanto temos o privilégio de tê-lo conosco.

Todos aliviaram as feições a partir dali, enquanto voltavam a se sentar. O enorme falatório começou depressa enquanto as tias lhe enchiam o prato com todo o tipo de comida. Todos tinham perguntas e curiosidades sobre a profissão do sobrinho, que mal tinha tempo de responder alguma coisa e já haviam mais dez questões na fila de espera.

Passado algum tempo, conseguiu enfim ter uma oportunidade de fazer a própria pergunta, aquela que estava engasgada em sua boca desde que chegara.

_ E onde está a Sofia?

_ Trancada no quarto, pra variar.

_ Vá arrancá-la de lá, querido. Fechou-se por desculpa de uma blusa.

_ Veja se a convence a comer conosco, ficará surpresa em te ver.

_ Surpresa?!

_ Ah, sim, querido. Tememos que não viesse e preferimos não dizer nada a ela.

_ Ainda lembra o caminho?

_ Sim, claro.

Ok, ele merecia aquela atitude. Levantou-se de onde estava, sentindo as pernas bambearem por um instante. Seguiu na direção da casa de Ágata e subiu as escadas apreensivo. Tinha tantas coisas para dizer e seu tempo a sós com ela seria curto.

Um som pesado saía do corredor, vindo do quarto dela. Bateu na porta, mas como não houve resposta, resolveu verificar se estava destrancada. Abriu-a devagar olhando ao redor, à procura da prima. O ruído estava muito mais alto agora que entrara. O quarto tinha um clima acolhedor, nostálgico... Embora assim como Sofia há muito perdera o ar infantil de outrora.

Encostou a porta ainda sem saber onde ela estava. Ao aproximar-se do rádio para abaixar o volume, encontrou uma foto de seu último aniversário em um porta-retrato e notou a sacada aberta com uma luneta rente ao parapeito. Sorriu ao compreender onde ela realmente estava.

O vento gelado soprou movendo as cortinas e as páginas de um pequeno caderno que estava sobre a cômoda, deixando escapar uma folha seca e chamando-lhe a atenção.

Hoje o tempo escorre nos dedos das nossas mãos Ele não devolve o tempo perdido em vão É o mensageiro das almas dos que virão ao mundo Depois de nós

Aproximou-se para devolver a folha no lugar e instintivamente leu algumas palavras da página aberta. Ao deparar-se com a palavra "primo", não conseguiu mais parar de ler.


Somente hoje, eu compreendo a história de meu primo sobre as folhas e as escolhas. Isso nem de longe me consola ou ameniza o que sinto, mas sei agora que as coisas mais banais e poucas vezes percebidas podem mudar o curso de nossas vidas radicalmente, anunciando a próxima fase. Como o dia em que ele partiu. Ainda posso sentir toda a raiva e dor que se acumularam no meu peito, anunciando o longo período de inverno que eu enfrentaria.

Meus pasadelos com aquele homem de armadura dourada aumentaram nos últimos dias. Eu sempre o vejo morrer violentamente em algum tipo de guerra sem armas de fogo. E quando me aproximo dele para tentar ajudar, a face que vejo é a de Miro: meu tão amado primo, meu tão querido amigo... travando batalhas igualmente violentas por nós. Por todos nós.

Agora tudo se mistura: o amor que sinto por ele, o medo de perdê-lo...

Acho que meu pai nunca vai entender a escolha que ele fez, assim como eu talvez nunca me conforme com sua ausência. Mas se apaixonar? Começou com uma bobeira de criança, que em vez de sumir, foi crescendo junto comigo. Já cheguei a pensar se não poderia ser pelo fato de ele ser o único a ter conhecido a face de minha mãe, por ter me encontrado e protegido entre os seus. Ou se porque quando ele me abraçava eu me sentia em casa, pertencente a uma família, protegida e amada...

Ah, Miro! Se você estivesse aqui não deixaria que nossos tios bancassem os casamenteiros todo o tempo. Não deixaria que eu me sentisse tão alheia ou que ficasse com essa impressão horrível de que eles querem se livrar de mim. Sei que me entenderia e me repreenderia por pensar dessa maneira.

Não morra Miro, por favor. Volte pra casa. Venha ver que sua luneta ainda pousa sobre minha sacada e que todas as noites ainda repouso meu olhar sobre ela para ver minha casa... A casa de minha mãe... Para te ver.

Meu conforto e esperança estão sobre as estrelas, sobre a constelação que todos insistem em dizer que me protege por ter brilhado mais forte na noite em que você me encontrou e espero que, como eu faria se pudesse, proteja a você também.

Boa noite, primo. Sinto sua falta. Fico imaginando se olharás para o céu esta noite...


Escorpião sentiu seu estômago revirar. O que tinha nas mãos era muito sério. Fechou o diário rapidamente, sentindo-se culpado por ter lido aquelas palavras tão pessoais e sinceras.

Diga a verdade
ao menos uma vez na vida:
Você se apaixonou
pelos meus erros

Miro seguiu para a sacada e abriu a portinhola que tinha acesso a uma pequena sacada que dava no telhado. Largou o casaco sobre a mureta e arregaçou as mangas antes de subir.

Lá de cima, escutou uma voz suave cantarolar distraída e a avistou de costas para ele. Atravessou as telhas com cautela para não cair. Sofia pareceu-lhe uma boneca de porcelana, tão pálida e delicada ficava sob o luar. Estava abraçada aos joelhos, com os olhos no céu. Usava uma saia preta de tecido cru que descia-lhe pouco abaixo dos joelhos e uma blusa roxa afinava-lhe a cintura, adornando-lhe os braços com algumas fitas no lugar de mangas.

O dourado sentou-se ao seu lado e ela sobressaltou-se assustada.

_ Devia ficar um pouco mais para a esquerda, a laje é um pouco mais firme por ali.

Ficou a piscar os olhos repetidas vezes, como se verificasse se o que via era mesmo real. Miro lhe sorriu.

_ Mas a vista não é tão bonita.

Ela respondeu em um sussurro, retribuindo-lhe o sorriso.

_ O que faz aqui?!

_ Consegui permissão para visitá-los por uns tempos.

_ É sério?

Os olhos dela brilharam ao luar como um par de obsidianas e Miro conteve o impulso que teve de beijá-la ali mesmo.

_ Enquanto houver paz, posso vir uma vez por mês.

_ Isso é... Que notícia maravilhosa, Miro!

_ Você é sempre tão otimista.

_ Achei que nunca mais te veria. Qualquer coisa diferente disto é lucro.

Escorpião deu um de seus sorrisos de canto da boca, arrancando o fôlego da prima, que desviou o olhar.

_ Sofia, a gente precisa conversar.

Os dois estavam tensos. Muita coisa estava em jogo do que daquela conversa fosse decidido e nenhum dos dois sabia se seria bom ou ruim. Mas foi Sofia a primeira a falar.

_ Espero que não tenha ofendido você naquela noite.

_ Se ofender for sinônimo de confundir, talvez sim. – respondeu rindo.

_ Sinto muito, Miro.

A morena sentiu o toque da mão dele afastando-lhe os cabelos do rosto.

_ Bom, eu não.

Ela voltou a encará-lo, sem saber o que pensar ou dizer.

_ Você se tornou uma mulher linda e continua espalhando doçura por onde passa.

Ficaram se olhando alguns segundos mais. Miro engoliu em seco para falar o que precisava ser dito.

_ Mas a questão, Sofia... É que não tenho certeza se você realmente me conhece. Provavelmente boa parte do que pensa de mim é fruto de alguma idealização do passado.

_ Não precisa fazer esse discurso. Eu sei que eu não estava lá nas experiências de quase morte pelas quais deve ter passado e que não faço a menor ideia do que lhe aconteceu ou do que tudo isto fez a você. Mas para te amar, basta saber que continua o mesmo cara que finge ser irresponsável e avacalha qualquer conversa séria, só para que ninguém repare nos sacrifícios que fez ou faz. E não tente me dizer que estou imaginando coisas, porque eu sei bem o que vi quando te visitei. Seus amigos todos adoram sua companhia. Todos sabem o quanto você se importa e que vai estar presente assim que um deles precisar. E era exatamente assim que eu me sentia enquanto você vivia aqui. Importante, protegida, segura... Você era o meu significado para a palavra "lar". Por isso foi tão difícil quando...

Quando uma lágrima quis escapar de seus olhos escuros, Sofia parou de falar para impedir a emoção de sobressair.

Não fique pela metade,
vá em frente minha amiga
Destrua a razão desse beco sem saída

_ Sofia, se eu fosse seguir meus sentidos, te beijaria agora mesmo e diria o quanto pensar em você tem me tirado o sono por todos esses dias. Mas isto me coloca em uma situação complicada por várias razões, inclusive legais. Claro que uma parte se resolveria sozinha daqui uns três anos, mas há muito mais com o que me preocupar.

_ Como o quê?

_ As regras do Santuário continuam as mesmas. Além disto não gostaria que fosse até lá. Acho arriscado para vocês todos o simples fato de eu estar aqui, por exemplo. E não posso te fazer nenhuma promessa sobre o que vai ser do futuro.

_ Eu não quero que faça mais nenhuma promessa, porque a última me afastou de você.

Miro tocou o rosto dela com as costas da mão, admirando sua beleza antes de tomar coragem para continuar.

_ Os Ptolemaîos todos iam declarar guerra em sua defesa. E com razão, porque você sabe muito mais sobre mim do que sei sobre você. Eu se quer consigo explicar o quê exatamente estou sentindo e você... Tem tanta certeza de que seus sentimentos são tão sérios! Não posso brincar com isto.

_ Então não brinque.

A lágrima enfim saltou de seus olhos, direto para os lábios. Ela a secou com os dedos finos e se levantou bruscamente, ajeitando a própria roupa.

_ Sofia, eu...

_ Vamos descer? Estou começando a congelar de frio e logo ouviremos as gritarias daqui de cima.

_ Claro, tudo bem.

Miro também se levantou e lhe estendeu a mão para ajudá-la a se equilibrar entre as telhas até alcançar a pequena escada. Desceu logo atrás de Sofia e quando entrou novamente no quarto, encontrou-a guardando dentro de uma gaveta o caderno que acabara de ler.

_ Antes de a gente ir, eu preciso te confessar uma coisa.

_ Pode dizer.

Ela respondeu distraida enquanto procurava por uma blusa nas outras gavetas tentando não parecer frustrada como estava.

Miro pigarreou.

_ Eu li uma página do seu diário.

_ Não vai esquecer seu casaco ali na sacada.

_ Você ouviu o que eu disse?

Ela encontrara uma jaqueta de lã fina e a vestiu enquanto respondia.

_ Ouvi.

_ Você não quer me matar?

_ O que pode ter de mais, se foi só uma página?

_ É como se eu tivesse lido sobre todos os seus medos.

Sua prima deu de ombros e saiu ela mesma para pegar o casaco dele.

_ Aposto que foi aquele dia em que escrevi algo sobre a sua luneta no final. Toma seu casaco.

_ Como você sabe?

Ele veste a jaqueta com cara de bobo e Sofia desliga o rádio, ainda sem olhar pra ele.

_ Porque tem uma folha seca no meio e ele ficou viciado, sempre abre naquela página por causa disto. Tá tudo bem, Miro. Ninguém mandou eu deixar ele largado aqui com a porta do quarto destrancada. Vamos? – ela enfim o encara.

Aquela conversa estava mesmo encerrada, por hora. Mas o que exatamente eles haviam decidido?

Diga a verdade,
ponha o dedo na ferida:
Você se apaixonou
pelos meus erros

CONTINUA...

Notas finais do capítulo

Depois de tanto tempo sem escrever, sinto que desaprendi um pouco, fica tudo muito mais difícil com a falta de prática... Este capítulo foi particularmente complicado porque além de marcar meus primeiros textos do ano depois de uma longa estagnada, eu mudei completamente a ideia do texto original. A gente vai envelhecendo e a nossa visão das coisas muda muito mais do que nos damos conta. Textos antigos é que me fazem perceber isto com mais clareza. Bom... O que eu fiz aqui me obriga a praticamente reconstruir boa parte do antigo enredo. Fico feliz em fazer isto, mas também significa que vou demorar mais para conseguir recolocar toda a fanfic no ar. Este casal inusitado e esta família maluca sempre me dão uma nostalgia danada, mas também me sinto na responsabilidade de melhorar o testo inocente de uma época de minha vida, sem perder a essência. Espero que gostem. Eu demoro mesmo para escrever, peço desculpas. O tempo, a falta de ideias e de prática também atrapalham bastante. Mas nunca vou abandonar estas histórias que tanto me ajudam lembrar quem eu sou. Abraços e obrigada pelo carinho de todos!