Disclaimer: Os direitos dos personagens de Cavaleiros do Zodíaco pertencem ao Kurumada. Os personagens novos são meus, portanto respeitem. Não tenho nenhuma finalidade lucrativa com esta história. As músicas incidentais são trechos de "3x4" de Engenheiros do Hawaí e "Coração de Estudante" de Milton Nascimento.

O QUE PODE MUDAR A SUA VIDA?

Capítulo VI - ...E fruto

Seguiu-a até a porta. Mas não queria deixar o momento passar e decidiu que falaria sobre a confusão de sentimentos que o consumiram por tantos dias. Segurou a madeira pesada com um braço, antes que Sofia pudesse abri-la.

- Espera. Eu ainda não terminei.

A menina sentiu o corpo todo tremer e levou alguns segundos para conseguir se virar e encará-lo novamente. Miro estava tão próximo a ela, que sentia a respiração dele sobre si. O braço que segurava a porta estava a poucos centímetros acima de seu ombro, a ponto de roçar levemente nela conforme Miro falava.

- Não é que eu esteja dizendo que não sinto nada por você ou... Que não seja significativo... Pelo contrário, fiquei quase louco tentando encontrar a melhor maneira de...

Miro passou a mão pelos cabelos nervosamente. Detestava não conseguir dar sentido as próprias palavras e tentou tomar o fôlego para recomeçar. Havia tantas coisas passando em sua mente que sua voz engasgava e se perdia.

- Sofia, eu não posso chegar aqui, te beijar e dizer aos nossos tios que à partir de agora você é minha namorada. Estamos enrrascados em um crime moral e familiar. A guerra estaria perdida, antes mesmo de começar.

Sofia baixou os olhos. Sabia que ele tinha razão em tudo que dizia, mas detestava ter de ouvir dele quantos motivos tinha para esquecer o que havia sido por tantos anos a sua razão de viver.

Ficaram algum tempo calados, sem trocar mais nenhuma palavra. Até que Miro engoliu em seco e finalmente quebrou o silêncio, forçando-a a encará-lo novamente ao erguer o queixo dela com a mão.

- Não posso ignorar o fato de que provavelmente aquele foi o seu primeiro beijo. Isso me coloca numa posição muito mais complicada, porque...

Ele novamente se perde com as palavras e suspira. Se alguém de sua idade se interessasse por Sofia, ele seria o primeiro da fila a impedir que o marmanjo se aproveitasse dela com força bruta e uns palavrões bem apropriados. Mas estar do outro lado fazia seu cérebro dar voltas entre se odiar, querer desaparecer dali, seguir seus sentimentos ou simplesmente não saber o que fazer.

Mas a mais nova é quem continua.

- Sei que não é nenhum padre, Miro. Não espero que seja virgem aos 27.

O cavaleiro sente o próprio sangue congelar com a frase, dita com uma tranqüilidade comparável apenas ao tibetano de Áries, com um sarcasmo tão disfarçado que passaria despercebido por alguém com menor intimidade. Mas como podia explicar que a lista de mulheres que passaram por sua cama era "ligeiramente" maior do que se orgulharia em assumir para alguém como sua doce prima? Como contar-lhe o quanto especial ela era, a ponto de não se achar merecedor a tamanha pureza, dado o seu passado fugaz? Seus olhos corriam de um lado para outro, perdidos e baixos. A língua passou nervosamente por seus lábios secos. Mas enfim conseguiu mirar seus olhos negros novamente.

- Só não quero que crie expectativas demais e nem de menos.

- Por mim, tudo bem.

Miro solta outro longo suspiro. A calmaria de Sofia o irritara profundamente. Tão frias e racionais aquelas frases curtas que pouco diziam do que realmente se passava na cabeça dela. Isto o torturava e o confundia ainda mais. Não queria que estivesse tudo bem. Era absolutamente injusto que ela não se sentisse no mínimo tão mexida e e perdida quanto ele. Queria sacudí-la e arrancar-lhe a verdade por traz de seu mistério, que loucamente o atraia ainda mais. Escorregou a mão que estava pousada no queixo dela até a curva de seu pescoço e tomou fôlego, tentando não falhar a voz novamente.

- Se seguirmos em frente com essa loucura, precisaremos dar um tempo até que nossos tios se acostumem comigo. E pra que você também tenha chance de entender o quanto isto tudo é complicado e, quem sabe, desista.

- Esperarei o tempo que precisar. Sei que é delicado e que você tem muito mais a perder do que eu. Não quero te pressionar, te forçar a fazer algo por pena ou porque pareça errado ignorar.

Engoliu em seco a maturidade contida naquela resposta. Ao mesmo tempo, era duro descobrir que ela o esperaria por toda uma vida se ele assim lhe pedisse.

- Eu só não quero te magoar, Sofia.

- Já falou tanto sobre como se preocupa com isso, que ambos sabemos que não vai.

O grego prende a respiração por um instante. A melancolia e a sinceridade das palavras da prima já o haviam torturado por tempo demais. Quanto mais a olhava, mais encantadora ela lhe parecia, mais aquele aroma de lavanda o distraíam e a lembrança do beijo o fazia encarar aqueles lábios tão finamente desenhados enquanto ansiava por mais daquela fonte naturalmente tão vermelha... Escarlate. Inclinou-se lentamente e se rendeu ao que mais desejara por tantos dias, enfim tocando sua boca inocente com a própria. Apertou mais o rosto de Sofia contra o seu, quando sentiu uma lágrima dela escorrer até sua mão a lembra-lo novamente do significado profundo que isto tinha para ela.

Passional. Piegas. Louco. Que fosse! O beijo que começara lenta e delicadamente, aos poucos foi ficando mais exigente e a língua dele invadiu o céu da boca de Sofia. Ela apoiou as mãos no ombro e tórax do grego, sentindo o mundo todo desabar. Miro envolveu-a pela cintura com o outro braço quando a percebeu pender e fraquejar diante de sua carícia. Ansiava por deixá-la frágil em seus braços, desarmá-la de sua racionalidade e paciência... Que o deixasse sentir o quanto ela já o pertencia e percebesse a gravidade da recíproca.

E eu perdi as chaves,
mas que cabeça a minha!
Agora vai ter que ser
para toda vida

Quando finalmente conseguiu desgrudar-se de sua boca, recostou a própria testa na dela, a admira-la e arfou para recobrar o próprio raciocínio. Sofia estava ainda a abrir os olhos lentamente, ofegante e corada da cabeça aos pés. A cena lhe pareceu a visão mais incrível que já tivera na vida e permitiu-se sorrir.

Mas assim que voltou a pensar, Miro ergueu a sobrancelha em uma careta de indignação.

- Espera aí, você... Ousou dizer que eu estava falando demais?!

A pequena riu abaixando o olhar e ainda com a respiração descompassada. O universo inteiro acabara de desaparecer para ela e parecia que o primo não havia se dado conta.

Outro não saberia dizer se era uma confirmação, mas ele conhecia aquele riso tímido. Empurrou-a lentamente contra a porta enquanto erguia uma sobrancelha e lhe oferecia seu mais perverso sorriso.

- Você não vai querer brincar disso comigo.

- Meus pais devem estar esperando lá fora.

Encarou Sofia, que lhe parecia agora um bichinho acuado enquanto tentava parecer séria e sob controle. Conseguiu sustentar seu olhar mais sarcástico e, de repente, Miro estava rindo. Mas era aquele tipo de riso louco, pausado e irracional comuns a raiva ou a indignação. Afastou-se e girou em torno de si, dando alguns passos para frente enquanto colocava as mãos sobre a cabeça.

- Isto está tão errado e de tantas formas! O que é que eu...?

Virou novamente na direção da prima, que consciente do balde de água fria que utilizara para escapar dele, estava com os olhos baixos e a face rubra.

- Como é que vamos encarar esse jantar depois de...? Merda.

Praguejou a si mesmo e ao que fizera enquanto uma das mãos escorregou pela própria boca nervosamente.

- Que tipo de linha, nós acabamos de cruzar Sofia?

Ela ergueu os olhos ainda encostada porta. Perdida, em choque... Frágil. Não olhava exatamente para ele e nem para nada que estivesse a sua volta. Quando falou, parecia não conseguir controlar a própria respiração, como se lhe faltasse o ar muitas vezes.

- Eu... Não sei. Acho... Existe um ponto em que simplesmente... Não tem como voltar.

Só agora seus orbes encontravam com os dele. Ambos sabiam que o pior os aguardava dali em diante. Miro solta um suspiro e volta a perambular pelo quarto.

- Mais três anos e metade dos nossos problemas sequer existiriam. E mesmo assim seria um inferno encarar os Ptolemaîos!

- Queria poder te dizer que me arrependo.

Girou sobre os calcanhares, tão sério quanto nunca estivera.

- Mas acontece que não pode, porque é aos quinze que temos certeza absoluta de tudo que realmente importa e nos julgamos capazes de decidir pela própria vida.

Sofia mordeu o lábio inferior e baixou de novo os olhos. Não sabia se era apenas uma constatação ou se estava levando um sermão. Miro suspirou, se compadecendo por sua doçura e suavizou o próprio olhar, abaixando o tom de voz.

- Eu já fiz isso quando deixei de voltar pra casa e decidi que um cavaleiro de ouro jamais poderia manter laços familiares.

Caminhou de volta para perto dela e tocou seus ombros.

- Eu não quis pensar nas consequências. Sabia apenas que tinha de fazer. E talvez... Talvez eu tenha uma parcela de culpa por você...

- Procurar de quem é a culpa não nos leva a nada. Talvez... Não exista culpa nenhuma pra sentir.

O grego enxugou uma lágrima da menina, antes que escorregasse pela face delicada.

- Ou talvez eu esteja me tornando o pior tipo de pessoa e mais uma vez colocando o que eu quero acima de qualquer coisa.

- Não se pode ser herói quando se escolhe a garota, não é? Vejo isso em todos os HQs e acho que é uma droga de clichê.

Escorpião se permite rir daquela frase que demonstrava tanta inocência e inteligência numa só conta.

- Está me pedindo para ser um vilão de gibi e roubar você daqui?

- Não, eu só acho que... Não tem que ser o honrado cavaleiro em tempo integral. Existe uma pessoa por baixo da armadura e é com ela que me importo.

- A pessoa por baixo da armadura pode ir pra cadeia só por pensar em você como...

O grego ameaça se afastar e ela o impede apertando suas mãos entre as dele enquanto aguardava o fim da frase ir com o vento.

- Você não veio até aqui pra me provar como me beijar transgrede as leis da sociedade.

A carícia o congelara e o fez encarar os delicados dedos da menina por longo tempo. Como um simples entrelaçar de mãos podia ter tanta importância?

- Então me diz você, Sofia. O que diabos estou fazendo aqui.

Ela suspir melancolicamente dentro dela e sua voz era quase um sussurro:

- Me pedindo pra não te esquecer.

Somos o que há de melhor,

somos o que dá pra fazer

O que não dá pra evitar

e não se pode escolher

Miro suspirou melancolicamente, fechando os olhos por um instante. Mil desastres se desenrolaram em sua mente. Soltou-se devagar das mãos que o prendiam.

- Seria cruel com você. Não quero te pedir demais pelo que ainda é uma loucura incerta.

- Não estamos escrevendo nenhum contrato, Miro. Se apenas concordarmos que qualquer parte pode desistir, desde que deixe isto claro ao outro... Estaríamos correndo riscos iguais.

- Está pedindo pra puxar o pino dessa granada e tampar os ouvidos, esperando ela explodir?

Sofia riu sem jeito, sem saber se era mais engraçado a metáfora do primo ou o desepero que vinha do que ele queria dizer.

- Se achar melhor Miro, vamos esperar até meu aniversário de dezoito. Você continua a nos visitar quando puder e nossa família volta a aceitar você nesse meio tempo… Enquanto isto, fingimos que nada do que acabamos de dizer ou fazer aconteceu.

Miro solta o ar com certa irritação. Cogitar aquilo já era um absurdo. Fingir que nada aconteceu?! Não fazer absolutamente nada com seus sentimentos por quase três anos? Isso tinha tudo pra dar errado. Queria acreditar que fosse possível, mas as chances eram quase nulas… Tentou em vão voltar a raciocinar. Precisavam mesmo de uma trégua. Ele apenas não queria! Mas no fundo, era o melhor que podiam fazer.

Soltou as mãos para tocar Sofia no pescoço e remover seu antigo pendente. Tirou dele o antigo anel que havia sido símbolo de tantas promessas. Segurou a mão direita dela, sentindo o suor frio escorrer entre os dedos. O peso e significado daquele gesto tomaram conta dele. Deixou a corrente de lado na escrivaninha e enfim colocou o solitário no fino dedo anelar de sua menina, ao qual lhe serviu perfeitamente.

- Se eu falhar em alguma das minhas visitas... Ou se voltar eu aqui e você tiver decidido não usar este anel... Então saberemos que uma escolha foi feita.

Sofia toma fôlego, mas a voz que sai para completar a frase de Miro, quase não se ouvia.

- Vamos deixar o tempo fazer sua parte.

O grego apenas fez que sim com um aceno. Sofia sorriu timidamente, tentando conter as próprias emoções. Ele então beijou-a na testa demoradamente antes de se afastar.

Ficou encarando-a por mais alguns momentos, tentando congelar o relógio e gravar aquele momento para sempre. A imagem daquele primeiro e por hora último beijo, era tudo que ele teria por muito tempo. Por fim, soltou os ombros e respirou profundamente. Voltou ao seu ar divertido e sarcástico para tentar recobrar o controle de si mesmo.

- Pronta pra mais uma daquelas refeições em família com perguntas cheias de patifaria e comentários infames?

Sofia riu da careta dele e o afagou no ombro antes de abrir a porta e lhe piscar:

- A tia Madge te arruma umas doses de ouzo*.

O jantar se seguiu tumultuado e repleto das indiscrições e sarcasmos tradicionais. Estava tenso com a situação. Sofia tinha um brilho diferente naquela noite. Seu sorriso era mais sincero e amplo, mas também parecia mais tímida e doce que o habitual. Isto com certeza não passou despercebido pelos tios e temia causar suspeitas por parte de alguns deles.

Egídio estranhou como a rebeldia de sua enteada havia diminuído e como suas respostas estavam mais educadas naquela noite. Não sabia o que isto significava, mas sabia que tinha relação com a presença do sobrinho mais velho e que não podia ser boa coisa.

Madge notou o rubor típico que a menina adquiria perto de Miro. Não era tola e sabia da admiração exagerada que ela tinha pelo primo. Mas havia algo mais. Seus olhinhos negros estavam felizes demais. O mais velho estava tenso demais e agindo como se tivesse receio de encarar a menina ou Egídio nos olhos. E havia aquele anel no dedo dela, depois de tanto tempo sendo carregado no pescoço. Culpado. Isto cheirava a encrenca das grandes.

Madge e Egídio não foram os únicos a farejar algo estranho no ar. Porém, por mais que todos os Ptolemaîos se esforçassem, nenhum deles conseguiu extrair a informação pela boca dos sobrinhos e tiveram que ficar com aquela estranha sensação para si até desistir dela.

Se eu tivesse a força

que você pensa que eu tenho

Eu gravaria no metal da minha pele

o teu desenho

Sua vida inteira ia se resumir naqueles dois anos e meio. E apesar de todo esse tempo, a convivência havia sido restrita. Às vezes deixava o Santuário para ficar dois ou cinco dias na fazenda dos tios. Ele e Sofia estavam sempre rodeados pela família e pouco podiam dizer um ao outro. E com o passar deste tempo, pensava nela cada dia mais. Não havia como escapar do que sentia. Infelizmente ou felizmente, era sério. Iria realmente ir em frente com aquela loucura, o que o deixava apreensivo.

Claro que os demais dourados estavam divertindo-se com o novo comportamento do antigo solteirão convicto. Aparentemente perdera o interesse pelas mulheres ou pelo menos por todas as outras. Era fácil e inevitável caçoarem daquele seu repentino celibato e do modo como fugia de certas situações. Mas mesmo isso tinha pouca importância agora.

Não que estivesse sendo fácil. Com certeza as oportunidades com outras mulheres não haviam desaparecido. Muito menos seu desejo - Tinha todo o tipo de sonho com Sofia. Às vezes, inclusive acordado. Na sua maioria de um tipo que não ousaria contar a ninguém mais… Porém, tinha em mente que se pretendia ter algo sério com ela, não podia bancar o babaca do passado. Precisava demonstrar que tinha mínimo de respeito por Sofia.

Aquele dia enfim chegara. Fazia as malas para dois dias na fazenda da família e para o tão esperado aniversário de Sofia. Ela lhe pedira para levá-la ao teatro para assistir uma tradicional tragédia grega. Não era o seu tipo favorito de entretenimento, mas a prima era encantada por todo tipo de arte e não custava nada lhe acompanhar. Isto lhes daria um tempo longe dos olhos de águia dos Ptolemaîos para conversarem.

Vestiu um casaco de couro preto, pois o fim da tarde prometia ser gelado. Àquela altura, quase todos os companheiros já haviam passado na casa de Escorpião para rir um pouco do seu nervosismo ou para fazer pilhéria. Então, de repente, sentiu uma energia diferente da que esperava. Olhou para trás com uma careta, estranhando que Afrodite é quem estivesse ali diante dele.

- Está elegante feito um rockstar. Vai fazer sucesso.

Encarou-o nos olhos tentando entender seus motivos. Certo que era um excelentíssimo jogador de pôker e blefava como ninguém, - mesmo quando não era um blefe e isso tornava difícil desvendar o sorriso de desdém do pisciano. Mas se dar ao trabalho vir apenas para bancar o engraçadinho, não parecia do feitio dele.

- Já estou de saída, então espero que tenha algo melhor que uma piada repetida pra me dizer.

- Disse que Sofia gosta de música erudita e óperas tradicionais.

Afrodite estendeu-lhe uma magestosa rosa vermelha. Era gentil de sua parte lhe oferecer uma de suas flores para Sofia. Ergueu a sobrancelha quando reparou na fita de cetim preta formando um laço no meio do cabo. Simples, mas de bom gosto. Pegou a rosa de sua mão e acenou a cabeça em agradecimento.

- Tem certeza que preto é uma boa escolha?

- Achei que conhecesse a história.

- Pareço saber do que tá falando?

- Fantasma da Ópera. Ela vai entender e achar muito romântico.

- Não, se eu não souber o que dizer.

- Um triângulo amoroso entre Erik, Raoul e a inocente Christine. A história tem algumas coisas em comum com vocês. Sei que não tem paciência pra ópera ou livros, mas tem um filme que te ajudaria. Entenda um pouco mais sobre o universo da Sofia e vai deixá-la feliz.

- Está mesmo me dando conselhos amorosos?

- Sugerindo que demonstre que se importa de verdade. Enfim... O fantasma da ópera deixava uma rosa como essa a cada apresentação da soprano, para demonstrar sua admiração.

- Pena que tenho que ir.

Bateu no ombro do companheiro e acenou em despedida. A voz soou um pouco mais irônica do que gostaria, mas particularmente não estava afim de ouvir a longa versão da história que o pisciano provavelmente pretendia lhe contar. E, afinal, o outro dourado o conhecia suficiente para entender que estava grato.

Feitos um pro outro...

Feitos pra durar

Uma luz que não produz

sombra

Ágata terminou de subir os degraus e se ateve por um momento, apoiando no corrimão. Respirou fundo, tentando conter a emoção que sentia. Era bobo de sua parte, mas sua filha estava se tornando uma mulher e a data lhe deixava daquele jeito. Voltavam todas as memórias de quando seu pequeno sobrinho Miro trouxera aquele bebê tão assustado e contara a trágica situação em que a encontrara. De como aqueles grandes olhos negros a encantaram e acolheram imediatamente.

Sofia era ainda a mais doce menina, de uma pureza que desejava do fundo do coração que jamais se acabasse. A cada dia se aprofundava mais na música, demonstrava cada vez mais o quanto era especial e iluminada. Apresentava gostos muito diferentes dos jovens de sua idade e era tão retraída... Responsável até demais. Continuava a resistir em fazer amizades na escola.

Engoliu seco. Temia que um dia a menina acabasse sozinha, quando ela e Egídio lhe faltassem. Respirou fundo e aproximou-se para bater de leve na porta do quarto da enteada. Entrou antes que houvesse qualquer resposta.

Sofia estava diante do grande espelho, terminando de passar um batom púrpura. Os cabelos soltos e volumosos deixavam os densos cachos penderem em ondas sobre a nuca. O longo vestido de renda modelo sereia era de tecido leve e romântico, começava preto no busto e seguia em degradê com um roxo muito escuro que ia suavizando até chegar ao lilás. A calda do vestido tocava o chão suavemente em semi-círculo, fazendo com que as ondulações do tecido emoldurassem sua silhueta fina. O decote coração e as longas mangas sino destacavam o acabamento do tecido e a cor escura se sobressaia no colo pálido. O corcelet ia justo a cintura e se entrelaçava nas costas por uma larga fita de cetim.

Ágata segurou as lágrimas que inundaram seu olhar de mãe orgulhosa e enfim se aproximou beijando-lhe a face.

- Está linda, filha. Continuo não gostando da cor, mas por Zeus! Tenho que admitir que ficou maravilhoso em você.

- Obrigada mãe.

Sofia sorriu tímida e abaixou os olhos por um segundo. Voltou-se para o espelho para finalizar a maquiagem dos olhos.

- Qualquer adolescente pediria uma festa ou permissão para ir a algum tipo de baile com um bando de amigos, bebidas e pretendentes. Mas você, pede para ir ao teatro com o primo mais velho, assistir a peça de uma bruxa filicida!

- Retificando, a Medéia era uma das mais poderosas feiticeiras da Grécia que foi derrotada pelo amor, teve o infortúnio de ser traída e enlouqueceu. E você sempre me dizia para não ser como todo mundo.

Ágata ficou séria por um momento e ajeitou a calda do vestido da filha com as mãos distraídamente, enquanto resmungava.

- Talvez não tivesse que ter levado tão a sério, filha.

- A música é minha vida mãe. É natural que eu tenha gosto por arte e algumas coisas diferentes.

- Sei. Bom, o Miro já está lá embaixo com seu pai, todo de preto, feito vampiro. Tem certeza que não vão pra alguma festa de Haloween fora de época?

Sofia riu divertida. Desejou não ter que esconder da mãe o que lhe ia ao coração por muito mais tempo ou enlouqueceria. Se Ágata soubesse o quanto a comparação de Miro com um vampiro era um elogio que lhe deixava sem fôlego só de imaginar, não ficaria dizendo aquilo aos quatro cantos.

- Eu já vou descer.

- Veja se não exagera nesses olhos, querida. Já são lindos naturalmente.

A mais velha saiu e adiantou-se para fora do quarto e desceu, encontrando sobrinho e o marido sentados no sofá conversando distraidamente sobre um jogo de que passava na tv. Egídio tinha um dos braços estendidos sobre o encosto e parou de falar quando viu a esposa. Com os cotovelos apoiados sobre a perna, Miro também se deteve e virou o rosto para encarar a propria tia.

- A Sofia já está vindo.

Ouviram o ruído de uma porta abrir e fechar no andar de cima e se levantaram ansiosos. Ágata olhou a expressão séria de expectativa dos dois e achou certa graça no nervosismo de ambos.

- Acho bom se apoiarem em alguma coisa, porque ela está linda feito uma deusa!

Um salto preto surgiu nos degraus e aos poucos foi revelando o tecido do vestido e as delicadas mãos que o erguiam levemente. Miro tentou disfarçar o alívio que sentiu quando notou que seu anel ainda estava a reluzir sobre o dedo dela. Mas segundos depois, engoliu em seco, sentindo o ar lhe faltar e o coração disparar incontrolavelmente. Nunca a vira tão linda em toda a sua vida. E como aquele vestido acentuava todas as suas curvas delicadas! A cor escura destacava sua pele, fazendo-a parecer uma boneca de porcelana. O rosto estava corado assim que olhou para ele, o que a deixava ainda mais encantadora. E tinha aquela boca, tão evidenciada e pequena… Sofia possuía uma sensualidade tão graciosa e única, que por muito tempo achou que não fosse suportar.

- E Todos os que habitavam em Olimpo foram enfeitiçados por esta menina, Cora.**

Disse Egídio encantado com a visão da filha, disfarçando a voz embargada. Aproximou-se e beijou-a na testa, segurando-a pelos ombros. Por fim se recompôs, voltando-se para o sobrinho com um sorriso jocoso.

- Miro, tem certeza que não trouxe sua armadura no porta-malas?

Mas Miro pareceu não ouvir. Estava ainda a encará-la, enquanto digeria o quão perfeitamente lhe servia o adjetivo de Perséfone: Inocente e espectacularmente bela, a ponto de enlouquecer o próprio deus do Submundo. Passaram-se alguns segundos até se aperceber dos olhares dos tios e processasse a mensagem. Pigarreou um tanto sem jeito pela gafe e tentou sorrir.

- Não vou precisar.

Despediram-se dos tios. Os minutos seguintes passaram-se como num delírio. Miro não ouvia o som da própria voz ou o som da voz dela. Se quer se lembrava direito de como chegou até o carro, do que disse a ela ou como fez para dirigir até o teatro. Estava tão nervoso com a situação, que já estavam no estacionamento quando se lembrou de lhe entregar a rosa que guardara no porta-luvas.

Sua audição e consciência foram voltando aos poucos, a tempo de ouvir dela que Fantasma da Ópera era sua ópera favorita, com lágrimas nos olhos. Abriu a porta do passageiro e lhe estendeu a mão para ajudá-la a descer. Não mais se conteve e envolveu-a pela cintura num beijo intenso que pegou Sofia desprevenida. Aos poucos sentiu os braços dela enrolarem-se em seu pescoço delicadamente. O momento pareceu durar uma eternidade. Sentiu-se tolo por estar tão vulnerável. Quando deu por si, estava a sussurrar que a amava.

Somos o que há de melhor,

somos o que dá pra fazer

O que não dá pra evitar

e não se pode esconder...

A noite havia sido maravilhosa. Diferente de qualquer outro encontro em sua vida, havia se dado ao trabalho de prestar atenção na peça. Sofia ficara encantada com apresentação e a todo tempo lhe segurava no braço empolgada para fazer algum comentário que exigia uma resposta maior que um sim ou não. Quando no ápice da história, o famoso ato filicida de Medéia entrou em cena, pela primeira vez teve uma percepção diferente do tão conhecido conto - com a qual tinha a visão simplória de um assassinato a sangue frio.

A interpretação da atriz e a sensibilidade de Sofia o emudeceram. A atuação permitiu que seu julgamento sobre a escolha tão edionda da poderosa feiticeira se alterasse. Parou para analisar em como Medéia julgou ser o único modo de romper com tudo que Jasão resolvera ignorar ao aceitar a mão de uma princesa. Mostrou-se uma loucura aterradora de cometer. A Medéia da peça, sofrera terrivelmente ao matar os próprios filhos, mas estava determinada em provar ao marido o que suas falsas palavras realmente significaram. Também foi a única maneira que ela encontrou de seguir seu próprio destino - ainda que mais solitária, sem nenhum vínculo ou memória do que deixou para trás. Afinal, tendo adquirido poder naquelas terras estrangeiras, Jasão não poderia facilmente lhe tomar os filhos? Miro demorou algum tempo para absorver o novo parecer e chegou ao final da exibição em choque.

Ao saírem do teatro e voltarem ao veículo, ficaram ainda algum tempo em silêncio, digerindo toda a tragédia. Permaneceram alguns minutos parados no estacionamento, onde finalmente puderam namorar um pouco e trocar seus os primeiros beijos de sua nova relação. O dourado se conteve em manter seu desejo sob controle e evitar que suas mãos escorregassem por onde realmente queriam percorrer. Sofia ficava com as faces rosadas facilmente e seu jeito tímido deixava seu beijo doce e delicado. Estava encantado por ela e todas as suas particularidades, inclusive o modo como o forçava a quebrar pensamentos clichês e criar uma opinião e análise própria. Foi com pesar que resolveram que estava na hora de ir para casa.

Estavam de volta a propriedade dos Ptolemaîos. Era tarde da noite e conversavam de mãos dadas sobre o gramado que cercava as quatro casas distribuídas em arco. Falavam do espetáculo e da perspectiva feminista da história, de si mesmos ou de como iriam contar aos tios que estavam apaixonados sem serem deserdados ou coisa pior. Mas um beijo suave escapou em meio a aquelas palavras jogadas ao vento.

Neste instante, tia Madge passou despercebida atrás do vidro da janela do sótãoenquanto aguardava a chegada dos sobrinhos. Não demorou muito, escutaram seus passos irritados descendo as escadas e acendendo as luzes da sala.

- Sofia... é você, meu bem?!

Sofia fez uma careta para Miro.

- Sim, tia, somos nós!

Enquanto Sofia respondia a Madge, Miro fingiu retirar um objeto pequeno do bolso da jaqueta e com a outra mão destravar uma alça na parte de cima, jogando-a em seguida por trás do próprio ombro. A menina desfere um tapa no braço dele, indignada com a disposição para uma piada de granada imaginária numa situação como aquela.

A tia abriu a porta a varanda bruscamente.

- Entrem os dois, ou vão congelar!

Madge gesticulou para que se aproximassem.

- Vamos! Está muito gelado aí fora.

Madge beijou-os no rosto, conduzindo os sobrinhos para dentro com rispidez. Fechou a porta atrás de si, passando a mão sobre os ombros de Miro e empurrando-o para o centro da sala silenciosamente. Todas as outras luzes já estavam apagadas e ficaram brevemente naquele silêncio constrangedor. Ele e a tia sentaram no sofá em frente à mesa de centro, enquanto Sofia permaneceu de pé ao lado deles.

- Seus pais pediram para que ficasse conosco esta noite querida, pois vão sair cedo amanhã.

- Se não te incomodar, por mim tudo bem, tia.

- Até parece. Já está tudo pronto lá em cima pra você e o Miro não se importa de dormir aqui no sofá.

Uma forte rajada de vento causou um estrondo no vidro da janela, seguido de uma longa trovoada que previa uma grande tempestade.

- Sofia, suas coisas já estão lá no quarto. Vá tomar um banho quente e colocar um pijama para se aquecer, antes que pegue um resfriado!

Sofia acenou com a cabeça e seguiu em silêncio pelas escadas, como uma criança que sabe o que fez de errado. Assim que a prima saiu, Miro encontrou com o olhar fuzilante da mais velha apontado para ele e suspirou pesadamente.

- Tia Madge, eu sei que preciso...

- Precisa me dar muitas explicações, seu magrelo. Mas não pretendo acordar o seu tio, para que ele não o esfole e escorrace daqui com ajuda de Egídio. Amanhã cedo quando ele sair nós nos entendemos.

- Queria que soubesse que eu realmente...

- Nos falamos amanhã ou eu o esbofeteio agora mesmo.

- Não precisa ficar tão nervosa.

- Ainda não me viu nervosa, querido. E é melhor que continue assim.

Quero falar de uma coisa

Adivinha onde ela anda

Deve estar dentro do peito

Ou caminha pelo ar

Sofia despertou assustada, percebendo que era muito mais tarde do que pretendia acordar. Provavelmente o café já estava pronto e tio George já saíra há muito. Vestiu rapidamente uma calça jeans e uma camiseta. Quando desceu e se aproximou da cozinha, ouviu o tom exaltado de Madge e se escondeu próximo ao batente aguardando o momento certo para entrar.

- Você ficou louco?! Ela é sua prima, Miro! Sua prima! Sangue do teu sangue! Como você tem coragem de me dizer uma coisa destas e esperar que eu aceite?!

- Tia, fica calma. Nós dois sabemos que não é bem assim. Ela pode ser uma Ptolemaîos, mas não tem o nosso sangue!

- Isto não faz com que ela deixe de ser sua prima! Ela foi criada sob o teto de sua tia Ágata, foi criada como sua prima e sempre será a sua prima!

- Tia, tente ser um pouco mais razoável.

- Eu nunca deveria ter levado a menina para aquele inferno! Nunca!

- Mas levou, tia. Você mais do que eu deveria saber o que...

- Ilusão de criança, Miro! Ilusão de criança! Achei que ela fosse esquecer essa bobagem de uma vez. Ou que você fosse ter juízo suficiente para tirar isso da cabeça dela! Miro você perdeu o resto da sanidade?! Ela tem quase metade da sua idade, pelo amor de Deus! Perto de você, ela é só uma criança!

- Tia, você não entende...

- Não, eu não entendo! Você está confuso porque ela virou uma moça linda, mas isso não muda nada! Ela continua tendo só 18 anos e sendo sua prima!

- Eu não planejei gostar da Sofia, tia. Mas mesmo tendo todos os motivos para evitar, eu...

- Miro, você perdeu a cabeça! Está confuso, mas vai passar. Tudo isto vai passar e os dois vão...

- Tia, eu sei que parece errado, mas não consigo ignorar o que...

- Você já devia ser inteligente o bastante pra saber que foi a beleza dela mexeu com você. Você não pode sentir isso pela sua própria prima!

- Só que eu sinto.

- Ôh, meu Deus que desgraça.

Sofia ouviu um ruído de madeira sendo arrastada e o suspiro profundo da tia, que provavelmente se sentara na cadeira.

- Tia, por favor não faça isso. Não precisa chorar desse jeito.

- A culpa é toda minha. Eu não devia ter levado ela até lá, não devia... Que desgraça, meu Deus!

- Não é nenhuma desgraça, tia. Acha que eu não pensei em tudo o que isso significa?

- Se pensou, por que está fazendo isto com a menina?! Por que você não deixou tudo como estava e...?

- Porque eu a amo, tia!

- Não! Não... Você não sabe o que está dizendo! Não pode ser verdade!

A esta altura, dava para ouvir o quão embargada estava a voz de Madge e a sobrinha resolveu entrar em silêncio. A mais velha estava sentada à mesa com as mãos sobre o rosto e foi a primeira a lhe ver.

- Aí está, falei alto demais. Vá lá pra cima, querida, deixa eu me entender com seu primo.

Discordando de seu pedido, se aproximou e abaixou perto dela, afagando seus cabelos.

- Titia, por favor não fica assim.

- Querida, por favor não interfira nessa conversa.

- Titia, eu sei que eu sou muito nova, mas... Eu não sou mais nenhuma criança, por favor não deposite a culpa toda no Miro.

- Meu bem, vocês estão confundindo as coisas. Não podem estar se gostando como dizem que estão!

- Mas estamos. E se a senhora não nos ajudar, como vamos fazer todos entenderem que…?

- Pelos deuses! Vocês precisam tirar essa ideia absurda da cabeça!

Os sobrinhos se entreolharam cúmplices um instante antes de se voltar para rosto abatido da tia. Não havia mais o que dizer e isto pareceu arrancar o fôlego dela, que voltou a se alterar.

- Pelos deuses! Não posso apoiar isso, não posso! Vocês estão malucos e me enlouquecendo também! Saiam, vão lá pra sala. Preciso respirar e vocês estão me sufocando.

- Tia...

- Saiam, eu já disse!

Pode estar aqui do lado

Bem mais perto que pensamos

A folha da juventude

É o nome certo desse amor

A guerra contra os Ptolemaîos inevitavelmente começara. E estavam diante ainda da menor das batalhas. Quando Sofia deu por si, tinha os olhos marejados, triste por aquela notícia ter depositado tanto peso na consciência de sua mais querida tia. Miro a segurou pelos ombros, fazendo com que se afastasse e beijou-lhe o topo da cabeça, sussurrando para que a deixassem um pouco sozinha.

Provavelmente o tempo real da espera fora do recinto foi de pouco menos de meia hora de silêncio com o pensamento longe, mas pareceu-lhes muito mais. Estavam quase voltando por conta própria até a cozinha para ver como estava Madge, quando ela surgiu na soleira da porta com os olhos vermelhos.

- Eu devia espancar vocês. Os dois. Mas principalmente você, seu moleque.

Silêncio. Nenhum deles sabia o que dizer porque nada poderia amenizar a situação, nem torná-la mais fácil.

- Miro venha até aqui, por favor. E Sofia não se atreva a sair daí.

Sofia sentiu a força do abraço dele aumentar por alguns segundos enquanto ele respirou fundo e a soltou. Sem mais, seguiu a tia com olhar pesaroso e ambos desapareceram no outro cômodo. Assim que entraram, Madge impulsivamente começou a bater com um guardanapo de pano no ombro dele compulsivamente.

- Por que você tá fazendo isso comigo?! Por quê?!

Miro permanece calado tentando não rir da cena tragicômica, esperando Madge acalmar-se. Até que ela pára e solta um suspiro dolorido, que parece restabelecer parte das suas forças.

- Filho, você tem ideia da gravidade dessa decisão?

- Se não tivesse, não estaríamos tendo esta conversa.

Ela cruzou os braços e meneou com a cabeça.

- Eu sinceramente não sei o que quer que eu faça. Ela é só uma menina, Miro.

- Eu sei disso.

- Eu devia ter previsto. Não podia ter deixado acontecer! Você já imaginou o que seus tios vão dizer, eles nunca vão aceitar isso! Nunca!

- Não seria a primeira, nem a última vez que discordam das minhas decisões.

- Ah, Deus... Você não sabe o que te espera!

- Gritos, estupidez, ofensas e louça quebrada. Mas você era a única Ptolemaîos que costumava me entender.

- Ela é só uma menina, Miro! E você já é um homem feito. Você sabe que isso vai fazer diferença uma hora ou outra!

- Tia, eu não vou desrespeitar a Sofia. Eu não esqueci a idade dela e nem a minha.

- Ela não é como as suas antigas namoradas.

- Por isso mesmo eu a amo.

- Isso só pode ser uma brincadeira de muito mal gosto de Eros! Meu coração não agüenta, eu já estou velha demais pra isso.

- Diga que pelo menos você, não vai ficar contra nós.

- Era só o que me faltava!

Miro sustentou o olhar sério, aguardando que a tia digerisse seu pedido silencioso e voltasse a falar.

- Escute aqui, eu não disse que concordo com esta loucura! Não estou aprovando nada! Mas... Se estão tão convictos do que querem fazer, vocês estarão declarando guerra e alguém vai precisar acalmar os ânimos para que ninguém se machuque. E isso... Isso talvez eu possa fazer.

- Obrigado, tia. De verdade.

Miro abraçou a tia carinhosamente, que limitou-se a olhá-lo por cima dos olhos e apontar o dedo para ele

- Se você aprontar alguma coisa... Se a menina derramar uma lágrima por causa de você... Eu não preciso nem dizer o que vai te acontecer!

Miro apenas soltou um riso nervoso, para concordar com ela.

- Eu que não vou dar o gosto a ninguém de ser a responsável por desandar nenhuma loucura juvenil! Mas ontem foi aniversário da Sofia e é melhor você ir embora agora, antes de transformar essa fazenda num campo de batalha! Seus tios não merecem o tratamento de choque que tive que agüentar! Vamos encurtar esta sua visita, antes que aconteça o pior!

Enquanto falava, Madge foi rapidamente conduzindo Miro para porta de saída, de maneira tão brusca que ele apenas acenou para Sofia com uma expressão engraçada. Fechou a porta praticamente na cara do sobrinho e encarou a mais nova com ar severo.

- Vai tomar um café e comer alguma coisa, que está mais pálida que papel!

Já podaram seus momentos

Desviaram seu destino

Seu sorriso de menino

Quantas vezes se escondeu

- Nossa, tia. Não precisava ter expulsado ele daqui daquele jeito...

- Precisava sim, senhora. E a senhorita também me deve muitas explicações. Porque para o seu primo ter vindo até aqui e me desafiado desse jeito, alguma coisa você aprontou!

- Eu não aprontei nada, tia.

- Ah, Sofia me poupe! Um homem não fica tão desconcertado assim por nada! Alguma coisa você fez, para ele ter coragem cometer esse absurdo! Sozinho é que não ia decidir nada.

Madge pareceu dispersa por longo tempo, partindo na direção da janela. O café ficou um pouco indigesto naquela manhã. Sofia estava muito chateada por saber que aquilo entristecia tanto a tia e entristeceria o restante deles ainda mais. Ao mesmo tempo, não conseguia conter sua própria felicidade ou retirar totalmente o sorriso do rosto. Parecia que finalmente aquele pequeno vazio que carregava em sua alma podia enfim lhe abandonar com a chegada de um amor correspondido.

Quando acabou a refeição e ajudou a arrumar a cozinha com sua silenciosa acompanhante, continuou sem saber o que dizer a ela já que qualquer coisa naquele momento a magoaria ainda mais. Percebendo o sorriso bobo de Monalisa que a sobrinha não conseguia disfarçar apesar do olhar melancólico quando a encarava, foi a mais velha que enfim tomou a palavra.

- Você realmente o ama muito, não é?!

Abaixou a cabeça timidamente, ficando corada. A pergunta tinha uma resposta extremamente óbvia, mas Madge queria ter certeza que sobrinha admitiria com palavras.

- Sim.

Madge suspirou demoradamente antes de resmungar quase que para si mesma:

- O que não tem remédio, remediado está.

Sofia nunca esqueceria aquele olhar de pesar. Sempre que passasse por momentos difíceis por estar ao lado de Miro, ela lembraria daquilo que traduzia o paradoxo de seu coração: Iria sempre lembrar daquele olhar doloroso da tia, que poucas vezes vislumbrou tão distante.

Mas renova-se a esperança

Nova aurora a cada dia

E há que se cuidar do broto

Pra que a vida nos dê flor

Flor e fruto

CONTINUA...

Notas do Autor

* Ouzo é um destilado típico grego, uma aguardente a base de pressadas uvas, anis, ervas e frutos silvestres. Ouzo tem o aroma de alcaçuz e um elevado teor alcóolico de aproximadamente 40%. Possui aspecto transparente e incolor, mas fica leitoso quando se acrescenta gelo ou água. Pelo seu forte teor de alcóol, é conhecida como a bebida da aproximação e das confissões.

**Nono de Panópolis , Dionysiaca 5.562.

Medéia: Na tragédia de Eurípedes, a poderosa maga Medéia que foi manipulada pelas deusas Hera, Atena e Afrodite em favor de Jasão para apaixonar-se por ele acreditou em suas juras de amor eterno e depois de ajudá-lo a realizar sua missão, seguiu com o grupo para a pátria dele: Iolcos, na Tessália. Mais tarde, Jasão aceitou casar-se com a princesa Glauce e abandonou Medéia. Inconformada, ela estrangulou os filhos e presenteou a rival com um vestido mágico que grudou na sua pele e incendiou-se ao ser vestido, matando-a juntamente do pai que tentou ajudá-la. Medéia foge para Atenas num carro puxado por dragões alados que foram presentes do titã Hélios. Sua lenda serviu de tema a obras artísticas e literárias de todos os tempos, das quais a mais conhecida é a tragédia Medéia, de Eurípides.