Disclaimer: Os direitos dos personagens de Cavaleiros do Zodíaco pertencem ao Kurumada. Os personagens novos são meus, portanto respeitem. Não tenho nenhuma finalidade lucrativa com esta história. A música incidental é Stormrider, do Iced Earth.
VII- Tempestades
As I travel through the astral plains
I see the break ahead
As though the sky has burst in flames
Before the storm I dread
Lightning breaks across the Sky
Blackish blue at night
Riders ride on dismal clouds
I scream at heavens light
Miro levanta-se de sua cama pela quinta vez naquela noite, desistindo de dormir. Sentou-se ao lado da cabeceira esfregando as têmporas nervosamente, soltando um longo suspiro.
Olhou para o relógio, constatando que ainda não eram nem três horas da madrugada.
— Que saco...
Vestia apenas uma calça de tecido leve e de tom azulado e seguiu descalço para a cozinha sem acender as luzes. Sobre a mesa, a caixa de calmantes o atraiu mais uma vez, mas ao abri-la, notou que os comprimidos estavam no fim e a devolveu sobre o móvel. Se continuasse naquele ritmo, aquelas drogas acabariam lhe fazendo mal, se já não estavam; pois há várias semanas estava com problemas para dormir. Não adiantava se enganar, sabia exatamente o que o estava deixando assim.
Bebeu um pouco de água e saiu à soleira da porta da casa, para tomar um pouco de ar fresco. Ficou a fitar as estrelas, pensativo.
Aquela situação mal resolvida, era no mínimo desconcertante. Cedo ou tarde, teria de enfrentar seus tios - incluindo Egídio - e dizer a verdade. O assunto o deixara desequilibrado e a insônia era tanta, que já estava sentindo-se um zumbi. Aquilo não podia mais prolongar-se...
Soltou o ar com pesar. Kâmus continuava lhe fazendo imensa falta, pois com certeza há esta hora estaria lhe dando uma bronca ou distraindo-lhe com assuntos mais suaves. Mas Kâmus estava em Paris, finalmente tendo uma vida... Sua própria vida. Talvez fosse chegada a hora de também ele desprender-se e seguir o exemplo do francês, mas este era um assunto ainda mais complicado, com o qual não queria lidar.
Passou a mão pelos cabelos, pois um sopro de brisa os arremessara para frente de seu rosto. Correu os olhos ainda mais uma vez pelo céu e visualizou sua constelação. Fechou os olhos, tentando fugir dos próprios sentimentos. A imagem de Sofia surgiu em sua frente no mesmo instante, com aquele sorriso cálido, a tocar seu rosto. Abriu os olhos assustado, com a sensação quente que invadira-lhe o rosto, como se alguém realmente o tivesse tocado. Mas não havia ninguém, todo o santuário estava adormecido. Passou a mão pela em face de qual sentira o toque suave e baixou o olhar num meio sorriso, constatando-se irreversivelmente enlouquecido.
Resolveu entrar. Sentou-se no sofá, sentindo o corpo pesado, com todo aquele cansaço acumulado. Ligou a tv, constatando enraivecido que a maioria dos canais já estava fora do ar. Tentou o rádio... Mas nenhuma música distraía-lhe a mente caótica. Deitou no braço do sofá, fechando os olhos e passando as mãos sobre eles, começando a entrar em desespero. Passados alguns segundos, voltou a si, ainda com aquele aperto no peito.
Seguiu em direção ao banheiro, pedindo aos deuses que um bom banho solucionasse um pouco daquela angústia e o tornasse capaz de raciocinar novamente.
Por longo tempo, deixou simplesmente que a água quente recaísse sobre sua cabeça, como se ela tivesse o poder de levar consigo todo aquele torpor. E realmente algo aliviou em sua mente, mas também sentiu a força do cansaço de todos aqueles dias sem dormir se transformarem em dores musculares. Meio cambaleante, vestiu-se e seguiu novamente para o quarto. Jogou-se na cama num suspiro pesado e fechou os olhos.
Storming demons travel through the night
The time is almost here
I lay in a jacket of steel
My scream no one hears
— Miro! ¡Despierta, hombre! Virou bela adormecida?!
O cavaleiro sobressaltou-se com o forte solavanco, flertando com um ataque cardíaco. Capricórnio apoiara os pés em sua cama e provavelmente a havia chutado para chamá-lo. Sentia que fechara os olhos por um único segundo, mas notou que a luz do sol já invadira seu quarto e sentou-se assustado.
— Vai pra balada, se enamora por aí e ahora duerme en servicio! Athena está chamando há horas! Quer deixar todo mundo maluco? Pensamos que até estivesse muerto! Quase destrocei a porta de tanto bater e gritei feito um louco lá fora!
Miro levantou-se meio titubeante, sentindo uma forte dor de cabeça.
— Que horas são?
— São sete horas. ¿Qué tenía? Está com uma cara horrível, hombre.
O cavaleiro apoiou-se no batente da porta do banheiro e procurou respirar.
— Não há nada, eu estou bem. Ou vou ficar.
— Está ainda mais pálido que o Shaka.
— Provavelmente graças a sua delicadeza. - suspirou e levantou a cabeça. - Disse que Athena deseja falar conosco?
— No, no. Con usted! Aposto que aprontou das suas outra vez!
—Claro, é só isso que sei fazer.
Miro lavou o rosto e penteou os cabelos apressadamente. Ao seguir em direção a sua armadura, notou que o amigo ainda não havia retirado-se da casa e o observou interrogativamente com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Y tu niña... ¿Como estas la bella muchacha? ¿Ya Colocó riendas en ti?
Escorpião sorriu cansado, por quase ter-se esquecido que este ainda era o assunto do momento.
— Estamos oficial e finalmente juntos, se é o quer saber.
— Si, claramente... — respondeu cínico – Y ahora te dejas así! Mujeres, Miro... Destruyen la vida de cualquier hombre.
— Eu devia comentar com a Shina, que pensa assim.
— Não se atreveria.
— Shura, preciso que vigiem a casa de Escorpião nesta manhã. Vou passar na casa dos meus tios logo mais. Podem me fazer este favor?
— Si, no tiene problemas. Mas se vai ver tu novia, então por que está com cara de toro que prevê la muerte? – disse o guerreiro apertando-lhe o ombro de maneira amistosa, constatando que apesar de abatido, ao menos o humor do aracnídeo estava melhor, desde que se resolvera com a prima.
— Hm. Porque hoje é dia de enfrentar o toureiro.
Miro sorriu de canto com o olhar distante, imediatamente compreendido pelo amigo, que soltou-lhe o ombro e bateu-lhe nas costas com força exagerada, antes de afastar-se.
— Ah, ahora entiendo... Isso é quase pior que encarar Hades, hã? Entonces, buena suerte con su tío. Va necesitar.
Capricórnio afastou-se em silêncio e Miro logo seguiu para a Sala do mestre, lá encontrando Saga e Athena a postos. Fez uma respeitosa mesura a ambos e indagou sobre o chamado, desculpando-se pela demora. Saga apenas o cumprimentou com um sorriso e Saori pediu para que Escorpião entrasse em sua sala particular.
— Temos um assunto a tratar que pode ser de seu interesse. Siga-me.
Miro a seguiu até uma mesa de mogno, onde sentaram-se frente a frente.
— A Shina nos contou sobre a menina que foi encontrada aqui no Santuário colhida pela sua família há dezoito anos.
— Sofia.
Saori sorriu satisfeita, notando o brilho no olhar de Miro ao pronunciar o nome que os outros dourados afirmaram ser a proprietária do coração do Escorpião.
Ele estava surpreso, tentando entender porque a amazona levara este assunto até eles de repente. Estava confuso também pelo interesse de seus superiores no assunto.
— Sofia. Exatamente. Acha que ela tem algum interesse em saber sobre a família verdadeira? Se for desejo de vocês, posso providenciar uma investigação.
— Creio que ela ficaria muito feliz, senhorita.
— Ótimo. E com quem eu posso ter detalhes sobre o dia em que ela foi encontrada?
— Eu mesmo a encontrei naquela noite.
— Ah... Certo. Então... – ajeitou alguns papéis e pegou uma caneta para fazer a anotações. - Explique exatamente, onde foi que a encontrou e as características da mulher que a carregava. Qualquer coisa que puder lembrar será importante, inclusive a data e o ano que ocorreu.
Após aquela longa conversa com Athena, Miro sentia-se esquisito. Nunca imaginou que lembraria de tantos detalhes. O assunto o havia assustado como se de repente, pudesse perdê-la para suas verdadeiras origens. Procurou afastar aquele pensamento negativo, sabendo o quanto estava sendo tolo em cogitar tal possibilidade. Além disso, não havia mais ninguém que pudesse solicitar a guarda dela, depois de tanto tempo. Porém, precisou ficar algum tempo para voltar a si antes de seguir para as terras de seus tios.
I can feel the storm approaching
The pain is its' reality
The death I breathe is in the air
I feel no more, no longer care
Estacionou o carro em frente à casa de Egídio e respirou profundamente antes de soltar o volante, pedindo aos deuses algum tipo de iluminação divina para que não fizesse nenhuma bobagem.
Mal teve tempo de descer e já foi recepcionado pela doce Ágata, que ofereceu-lhe um abraço carinhoso, confessando-se preocupada com o "assunto sério" que ele tinha para tratar com o tio. Miro esboçou um sorriso, compreendendo que ela ainda não desconfiava do que acontecera entre ele e Sofia, pois do contrário o trataria mais friamente. Levantou a cabeça e engoliu seco. Sua bela menina o esperava na soleira da porta, com uma calça preta e uma blusa lilás de mangas caídas nos ombros. Ao vê-lo, esboçou um sorriso tão retraído e distante, que de pronto soube que ela também estava aflita.
— Como vai, meu docinho?
Segurou sua gélida mão por um momento, sorrindo da careta que ela fez diante do adjetivo que usara. Beijou a testa de Sofia e apertou seus dedos para inspirar a ambos um pouco de confiança, ao qual ela prontamente retribuiu e fechou os olhos por um instante. Ele a abraçou, tentando amenizar a ansiedade.
— Que bom que veio.
Não houve tempo para sentar-se ou conversar com as duas. Assim que entrou na casa, Egídio, todo sisudo, apareceu sala adentro e cumprimentou-lhe rapidamente, indagando se estava bem. O coração do dourado parou, antes que fosse capaz de responder que sim. Diante da questão do tio sobre o que o queria conversar, Miro pediu que pudesse ser em particular. Os olhos cinzentos do homem estreitaram-se e consentiram silenciosamente. Ele, diferente de Ágata, parecia supor o que pairava no ar e não estava nem um pouco satisfeito.
Afastaram-se, fechando a porta do escritório ao entrar. Ágata voltou tranqüilamente aos seus afazeres e Sofia grudou no sofá, apertando uma mão contra a outra, tentando em vão manter a calma e torcendo para que tudo transcorresse sem muitas brigas.
— E então, sobrinho... Que assunto tão sério é este?
— Bem, na verdade são dois assuntos. – sua voz saíra tão fraca e rouca, que Miro teve raiva de si mesmo.
Egídio apontou-lhe a cadeira do lado oposto da mesa e franziu o cenho. Ambos sentaram-se. Escorpião sentiu como se estivesse frente à frente com o Dom Corleone, prestes a confessar que traíra sua confiança. Indagou-se sobre onde foi parar todo o oxigênio do local. Cruzou os braços sobre a mesa e puxou o ar com dificuldade.
— Se for algo sobre sua parte das terras, é Madge quem detém esta documentação e ninguém ousou mexer na casa de seus pais, está exatamente como a deixaram.
— Não, não é isso, tio. É sobre a Sofia.
— O que tem minha filha?!
Miro pigarreou, tentando tomar coragem.
— Athena soube como a encontramos e pretende providenciar uma investigação sobre a verdadeira família dela. Eu queria saber se vocês têm alguma objeção quanto a isso.
O homem arregalou os olhos e recostou-se sobre a cadeira, nitidamente chocado.
— Bom, acredito que seria egoísmo da nossa parte não permitir que a menina saiba a verdade sobre sua origem.
— Foi o que pensei, tio. Afinal, se ninguém nunca procurou por ela é porque realmente não restou ninguém, portanto não há risco de que vocês...
— A Sofia jamais sairia desta casa. – Egídio ficou sério outra vez e apoiou os braços sobre a mesa. – Seria ingratidão demais e não creio que ela seja capaz disto.
— Ela nunca abandonaria vocês. Bom, assim que eu tiver alguma notícia a respeito, vocês saberão.
— E qual é o outro assunto?
Miro respirou fundo e retirou a franja dos olhos.
— Também é sobre a Sofia. – engoliu seco e encorajou-se.
— Onde quer chegar, Miro?
O mais velho já começara a ficar vermelho de raiva e Miro indagava-se se haveria alguma chance de que ele não estourasse. Buscou palavras amenas, mas concluiu que isso nada mudaria e resolveu dizer de uma vez:
— Tio, eu nem sei como dizer ao senhor, mas... Eu estou apaixonado por ela.
Silêncio absoluto. O tio o encarava incrédulo, bufante, tentando voltar a respirar e sentindo seu sangue ferver.
— Eu sei que...
— Você o QUÊ?
The trumpets sound as I break free
This vision I see just can't be me
What is this that I have done
Why am I the chosen one
— Tio, eu sei que isso é um pouco maluco, mas...
— Não, não, não! Espera. Repete o que disse!
— Estou apaixonado pela Sofia e queria pedir a você que...
— Você é algum tipo de idiota ou retardado, rapaz?! Ou você acha que EU sou algum tipo idiota?!
Miro respirou fundo sem nada responder, tentando ignorar a provocação contida nas ofensas do tio.
— Deixa eu ver se eu entendi direito! Você entra na minha casa, com essa sua cara de pau e esta históriazinha barata sobre a suposta "família verdadeira" da minha filha... E espera que com isso eu considere plausível que você se aproveite da inocência dela, é isso?! Se foi pra isso que veio, pode sair imediatamente!
Egídio, completamente alterado, já ergueu-se da mesa, mas Miro também já estava quase saindo do sério e também levantou-se.
— Não confunda uma coisa com a outra. O caso da família dela nada tem haver com o que estou tentando dizer sobre...
— Eu não quero saber! Saia da minha casa.
— Pelo menos me escuta, tio.
— Eu não vou escutar desaforo nenhum, que venha de você!
Miro de repente estava igualmente vermelho, perdendo agora o controle da própria raiva.
— Dá pra calar a boca e me ouvir uma única vez na sua vida?!
O mais velho estava incrédulo e ofegante, embasbacado com a ousadia do sobrinho, que empurrara a cadeira com força contida. Sabia que Miro era capaz de destruir o móvel em migalhas se assim quisesse, mas isto não mudava a audácia e a violência do gesto.
Sofia e Ágata abriram a porta, aflitas com os gritos e ruídos agressivos - a mãe finalmente compreendendo a gravidade da situação.
— Por favor, parem com isso. Papai deixa eu tentar explicar que...
— Sobe pro seu quarto!
— Papai...
— Sobe pro seu quarto, se não quer que eu a carregue até lá a força!
Sofia engole em seco. Miro procurou recompor-se e fez sinal para que obedecesse o pai e só então ela aceitou se afastar. Egídio a seguiu até as escadas da sala, furioso que estava.
— E não saia mais de lá, até segunda ordem!
Ágata aproximou-se do marido, procurando acalmá-lo.
— Querido, o que está havendo aqui? Mantenha a calma, ou a sua pressão pode...
Miro aproximava-se da sala também muito sério e ao revê-lo, o homem perdeu o controle de si mais uma vez, apontando para o sobrinho com o dedo em riste.
— Este petulante teve o disparate de dizer que quer namorar com a Sofia! Como acha que devo ficar?! Ele só pode estar achando que sou idiota!
— Miro, você enlouqueceu? Ela é sua prima! – disse a senhora, embasbacada.
— Tia, tio... Podiam ao menos tentar entender as razões que tenho para...
— Não importa os motivos que tenha! Isso continua sendo uma insensatez, tão absurda quanto aquela que te tirou de nós, seu ingrato desgraçado!
Miro queria ir embora. Preferia desaparecer a ouvir cada uma daquelas palavras, fincadas como facas em seu peito. Sentiu que sua vista estava ficando embaçada e seus olhos ardiam. Só então notou que lágrimas queriam escapar de seu rosto e se esforçou para não deixar que o tio pudesse perceber que estava conseguindo atingi-lo.
— Não use uma decisão que nunca entendeu, pra justificar sua intolerância com outra!
— Ágata, vá ficar com a menina, você não tem que ouvir isso.
A gentil senhora estava paralisada, tentando raciocinar e compreender o por que do sobrinho estar fazendo aquilo. Suspirou e meneou a cabeça negativamente, desaprovando Escorpião, antes de subir as escadas. Egídio voltou seu olhar fulminante a Miro.
— Como ousa me enfrentar assim, moleque?!
Fight on, grab on
Stormrider
Stormrider
— Não sou nenhum moleque.
— Mas está agindo como um! O que leva um homem feito a querer namorar com uma menina, se não um ato de molecagem tardia?! Por acaso vai me dar algum dos seus motivos altruístas sobre proteger?! Os mesmos que te afastaram de nós, agora te aproximam da Sofia?! Isso é ridículo!
— Vai continuar dando voltas no passado, ou vamos finalmente tratar do presente?!
— Não me desafie, moleque.
— Então comece me chamando pelo nome que seu irmão me deu.
— Ah, agora vai desrespeitar a memória de seu próprio pai?!
— Você é que o está desrespeitando!
— O que está querendo fazer, é incesto!
— Não, não é incesto! Você sabe que não é! O sangue que corre nas veias dela não é o mesmo que o nosso!
— Isto nada tem a ver com sangue! Não importa o que diga, Sofia é tua prima!
— Eu a amo, tio. E juro que...
— Ah, é mesmo?! E desde quando?! Quando foi que, magicamente, à distância, teve o poder de se apaixonar pela própria prima com visitas programadas por mês?! Ela tem praticamente a metade da sua idade, o que ainda por cima o classifica como um…!
— Não sou tão burro a ponto de ignorar todos os empecilhos que existem. Do contrário, eu não me daria o trabalho de vir até aqui e ser obrigado a ouvir seus absurdos!
— Eu é que não sou obrigado a ouvir esta tolice!
— A Sofia foi o que de melhor aconteceu na minha vida.
— Na sua vida, não! Na minha e na de Ágata! Porque era tudo que este bando de velhos tinha, quando você resolveu desaparecer! Como ousa vir até aqui e querer nos tirar isto também?!
— Não quero tirar ninguém de vocês! Deve ter-se esquecido quem a encontrou no Santuário e a trouxe até vocês! A verdade é que se eu tivesse feito uma escolha diferente, ela jamais moraria aqui e provavelmente estaria morta!
— Cale essa sua boca!
— Você me obrigou a tratar desse assunto!
— Fique bem longe da menina, ou vai se arrepender.
— A a escolha não é só minha. E não está mais na suas mãos.
Miro vira as costas para o mais velho e segue para perto da saída enquanto o ouve gritar:
— Esqueça de uma vez que tem uma família! Eu não tenho sobrinho nenhum! Há doze anos atrás eu o perdi e agora não existe mais nada, além da minha filha! E não é nenhum intruso que vai desviá-la de seu caminho!
Miro interrompeu seu caminho e deu meia volta em torno de si mesmo, in embasbacado com a afronta de Egídio.
— Um intruso?! E eu vou desviar ela do quê, exatamente?! Até onde eu sei, o caminho que ela percorreu até agora, foi o que vocês queriam! Que espécie de escolha deram a ela?!
— Saia da minha casa e nunca mais apareça aqui! Quero você bem longe da minha filha! Não deve ser tão difícil continuar a fazer o que sempre fez, pois então, suma das nossas vidas!
— Está distorcendo minhas ações, para fingir que está com a razão!
— Eu não admito que nos trate como idiotas! Além de ser um abuso, no mínimo incesto, você jamais poderia dar uma vida normal e descente a ela, porque a sua "nobre escolha" exige que se dedique tempo integral àquele maldito Templo! E lá, não permito que ela pise nunca mais! Volte e proteja o que tem que proteger, mas bem longe das minhas vistas!
Desta feita uma lágrima quase escorreu pelo rosto do cavaleiro, que estava incrédulo e apertou com força o próprio punho. Egídio notou que o sobrinho tinha os olhos marejados e soube que tocara em rancores que não deveriam ter sido reavivados, mas já era tarde.
Com certeza se não fosse por Sofia, Miro já teria esmurrado a cara de seu próprio tio ou pior, tal foi sua repulsa contra as atrocidades que ouviu. Mas também era certo que, se não fosse por ela, se quer saberia que os parentes ainda estavam vivos ou tido uma chance de revê-los. Esfregou o rosto, vermelho de raiva, decidido que devia ir embora antes de fazer maiores besteiras.
— Não pode obrigar a Sofia a fazer o que você quer.
Egídio passou fulminante por ele e abriu a porta de saída com rispidez.
— Suma de uma vez da minha casa.
— Esse assunto não acabou.
— Eu já o encerrei.
Miro saiu a contragosto, para evitar que a briga os levasse longe demais. Já tinham falado além do que deviam e muita mágoa havia sido espalhada. O tio bateu a porta com força no mesmo instante, indo procurar o seu remédio de pressão imediatamente, pois estava trêmulo de desgosto.
Miro saiu também com os nervos a flor da pele, com a última frase do tio sobre suas obrigações do Santuário lhe martelando os pensamentos insistentemente. Socou o capô do próprio carro, tentando extravasar. Este era um ponto que o incomodava muito, único no qual dava razão aos temores do tio. E a discussão havia sido um caos completo entre as mágoas guardadas e o que realmente deveriam ter conversado.
Olhou frustrado para a lataria agora gravemente amassada de seu veículo. Não devia ter deixado que todas aquelas ofensas lhe abatessem e o tirassem do sério. Tais palavras nunca deveriam ter sido ditas. Ao mesmo tempo, ambos precisavam pronunciá-las um ao outro há tempo demais. E aquilo, ainda que talvez necessário para acabar com as rusgas, doía. Doía muito mais do que gostava de admitir.
Now the rider rides through the night
The time is almost here
As I lay wrapped in steel
My scream no one hears
Sofia estava trancada no quarto. A mãe já havia desistido de pedir para deixá-la entrar e rezava baixinho no quarto para que tudo acabasse bem. Sofia, abraçada a um travesseiro chorava copiosamente, sabendo que a culpa novamente era sua, pelo primo ter ouvido de seu pai todas aquelas atrocidades. Aquilo era a última coisa que ele merecia no mundo todo.
O que fariam eles, depois de Miro ter sido expulso daquela forma? Além disso, irado como estava, seu pai não a deixaria sair de casa sem companhia de alguém por muito tempo, até que lhe arranjasse um pretendente. Tinha certeza de que esta seria a primeira coisa que faria: apressar-se em arranjar-lhe um noivo. E agora, pouco iria ligar se ela gostasse da escolha ou não.
Chorou até sentir que as lágrimas haviam secado e não fosse mais capaz de sentir nada. Não sabia o que fazer. Apenas estava certa de que no momento não queria falar com nenhum deles, pois repetiriam todas as calúnias contra Miro assim que a vissem.
Ouviu os outros tios chegarem na casa e uma grande confusão formou-se, tal foi o descontentamento geral. A discussão durou longas horas e pareceu que jamais cessaria. A voz de Madge soava forte, como uma advogada que tentava manter a calma dos outros, pedindo-lhes paciência e tempo, para que tudo ficasse esclarecido. Demorou muito para que algo silenciasse todos os Ptolemaîos finalmente, como se a perplexidade tivesse substituído a fúria.
Berenice subiu com Ágata. Depois Madge. Até mesmo Georgio e Adônis rogaram-lhe insistentemente que abrisse a porta. Mas não adiantou. Sofia ficou o dia todo trancada no quarto. Não jantou, nem deu o menor sinal de que iria sair e Egídio já não deixava que Ágata insistisse.
Ela mantinha o olhar perdido na foto de Miro com o fone de ouvido em alto volume, enquanto tentava escrever uma longa carta que jamais enviaria ao remetente - alguém que existia apenas em seus pesadelos frequentes.
Pensou ter ouvido um estalido na janela, mas não deu atenção ao fato. O barulho se repetiu. Sofia olhou na direção da janela. Uma nova pedra atingiu o vidro e com o coração na mão, resolveu verificar.
Miro estava abaixo da escada de incêndio, procurando outra pedra. Tinha expressão aversa e resmungava alguma coisa a si mesmo.
— ... Que ninguém nunca saiba que cheguei a esse ponto.
Ele já estava prestes a arremessar uma nova pedra, quando viu Sofia abrir a janela e congelou o movimento.
— Você ficou maluco!
— Desce aqui. Não temos muito tempo...
Sofia desceu em silêncio pela escada de incêndio. Quando a luz da lua tocou sua face, Miro pôde ver o inchaço e vermelhidão de seus olhos e sentiu-se ainda pior por ter perdido o controle na discussão com o tio.
— Se meu pai descobre que está aqui, nós...
— Vim saber como você está.
— Como acha que estou, depois de fazer sua própria família se voltar contra...?
Miro a interrompeu, puxando Sofia pela cintura para beijar-lhe com todo desejo e saudade que estava, apertando-a contra si. Sofia sentiu as pernas falharem mas retribuiu a carícia, também tocando-lhe no rosto e se entregando a exigência do beijo, quando sentiu a língua dele explorar sua boca com avidez. Suas respirações aceleraram e seu coração parecia que ia saltar-lhe pela garganta.
Toda a angústia e insegurança se dissiparam e por um instante e nada mais importou. Quando enfim Miro se afastou um pouco, abraçou-a levemente.
— Sinto muito por tudo que o papai te disse.
Sofia o apertou com força e Miro lhe encarou novamente.
— Suspeitei que ele fosse me atacar com nossas antigas rixas. Voltarei quando os ânimos estiverem menos exaltados. Não fique preocupada, vamos resolver.
Sofia fez que sim com a cabeça e Miro a beijou mais uma vez, de maneira mais amena, lenta e carinhosa. Despediram-se com pesar e então aguardou que ela subisse para quarto antes de sair da propriedade.
Seguiu em silêncio para o Santuário, desta feita a pé - maneira que encontrou se de acalmar e de não ser notado. Agora a batalha era real e tanto ele, quanto o tio, haviam pego pesado com os recursos que tinham. Miro amaldiçoou-se novamente por sua falta de paciência, pois agora as coisas ficariam mais difíceis para ele e Sofia.
As ruas e escadarias estavam praticamente vazias, a não ser por alguns bares, boates e casas de festa. Caminhava distraído, pensando e remoendo o que poderia fazer para que o tio lhe desse uma chance. Passou pelos portões de um anfiteatro e a porta entreaberta deixava a mostra uma orquestra ajeitando os instrumentos para o último ensaio da noite. Um órgão de tubos imediatamente iniciou os pesados acordes temáticos de "The Phantom of the Opera" e o cavaleiro quase caiu para trás com o baque.
Foi o seu segundo grande susto do dia e precisou de alguns momentos para recuperar-se, paralisado ao lado dos portões. Aos poucos se recompôs e, prestando mais atenção na tão conhecida melodia, fugiu da realidade por alguns instantes.
Help me, through this hell inside
My life's my own, it's my pride
Carry on my solid dream
Save me from this horrid scream
"Estava dormindo na casa de sua tia Madge, quando pareceu ouvir movimentações estranhas no andar superior e resolveu verificar. Encontrou sua tia entrando no quarto oferecido a Sofia, meio sonolenta. Ela fez sinal para que ele fizesse silêncio e deixou-o entrar depois de acender o abajour do local. Sofia estava em meio a um pesadelo e se debatia um pouco enquanto chorava. Madge aproximou-se dela. Miro notou que usava um fone de ouvido, quando a tia verificou o celular que estava sobre a cama.
— A porcaria da bateria acabou...
A senhora passou as mãos pelas faces da sobrinha e segurou uma de suas mãos, que logo ela apertou com muita força.
— Chhh... calma, querida, calma.
— Não acha melhor acordá-la, tia? Ela parece tão...
— Acordá-la agora vai ser pior, acredite. Depois nem consegue voltar a dormir. Vem até aqui e segura a mão dela um pouco, enquanto eu vou atrás do carregador.
Com dificuldade, soltou a mão da menina e entregou a Miro, que logo sentiu a força com que Sofia apertava-lhe a mão. Não entendeu sobre o que o aparelho tinha a ver com o tormento da prima, mas não teve tempo de perguntar.
— Por favor... Não...
O cavaleiro colocou a mão sobre a testa da amada, sem saber o que fazer para ajudar - já que, segundo a tia, acordá-la não era a melhor opção.
Sofia abrandou um pouco suas feições, mas ainda agitava-se e apertava-lhe a mão com força cada vez maior. A tia apressadamente colocou o celular para carregar e logo ele voltou a funcionar. Miro teve um sobressalto com a melodia fúnebre que vazou pelo fone de repente. Os fortes acordes de "The Phantom of the Opera" o fizeram supor que a menina acordaria. Mas do contrário, ela aos poucos foi acalmando-se e, com o tempo, a pressão que fazia na mão do primo desapareceu. Escorpião não entendeu absolutamente nada. Sua tia fez sinal para que saíssem e ele soltou a mão da prima, afastando-se. Fecharam a porta atrás de si.
— A única coisa que a impede de ter pesadelos todas as noites, é esta porcaria. Mas se uma única vez você a ouvisse cantar qualquer parte desta ópera, entenderia porque todos estes seus velhos tios a amam tão profundamente.
O rosto de Madge divagou por um momento, até que percebeu com quem estava conversando e meneou a cabeça, mudando o tom de voz e empurrando o ombro do sobrinho.
— E agora volte a dormir, seu magrelo. Ela vai ficar bem."
Sentiu um solavanco. Alguém trombara com ele ao passar, pois estava paralisado no meio da calçada. Voltou a si com o choque e tornou a caminhar, pensativo.
Fight on, grab on
Stormrider
Stormrider
CONTINUA...
