Disclaimer: Os personagens de Saint Seiya pertencem a Masami Kurumada e a ele todos os direitos são reservados. Mas a personagem Sofia e os parentes do Miro são de minha autoria, portanto respeitem. Música incidental: "Sorri" de Djavan.
O QUE PODE MUDAR A SUA VIDA?
Capítulo IX- Ervas Daninhas
Sofia despertou com um chute leve na cintura, mas que lhe causou uma dor aguda, quase retornando a desmaiar. Com aquele eco sinistro a invadir-lhe os ouvidos como em um pesadelo, quase não enxergava nitidamente as nove pessoas trajadas de armaduras escuras, que, lideradas por um décimo componente, faziam um semi-círculo ao seu redor.
- Ora, ora... O que temos aqui?!
Sofia piscou os olhos apavorada, tentando esgueirar-se para trás, mas sem sucesso, pois não sentia suas pernas.
- Amazona é que não é! - disse o o segundo.
- Deve ser jardineira ou criada, Muriel. - retrucou o terceiro.
- Jardineira, com essa roupa?! Hum... Criada pode até ser. - o quarto deles continuou.
- E qual será a especialidade dela? Puta ou empregada?
- Bem podia ser p...
- Cale-se, Lisandro! Se fosse uma qualquer, não teria sobrevivido ao golpe, seus idiotas!
- Como se o golpe da Miki pudesse servir de parâmetro pra alguma coisa, Agameron!
A amazona Miki cerrou os punhos tentando conter-se. Embora quisesse esganar Adara por sua provocação, a nova amazona de Corvo era sua superior e nada podia fazer. A rivalidade foi logo interrompida por Katsuo, o mais jovem e impulsivo dos aprendizes que se aproximou da garota atacada.
- Ei Muriel, pensando bem, nós a vimos à pouco. Áries e Touro a acompanharam até o Escorpião. E com certeza não foi pra limpar o quarto dele.
- Dourado de sorte, fast food à domicílio.
- Já chega, Barac! Sabem o que temos que fazer. Masao, Feres! Fiquem aqui e cuidem para que ela não nos dê problemas. Vamos atrás dos traidores.
- Depressa, em silêncio e sem arranjar problemas com quem não nos interessa!
Os cavaleiros seguiram silenciosamente pelas escadarias acima sob o olhar fixo de Masao e Feres, que ao vê-los afastarem-se entreolharam-se com um sorriso jocoso. Feres, de cabelos castanhos ondulados e traços marcantes, dirigiu seu olhar até Sofia, que respirava com dificuldade e tentava inutilmente arrastar-se para longe.
- Não adianta tentar fugir, se não consegue nem ficar de pé.
Sofia paralisou e engoliu em seco, limpando o sangue que escorria de sua boca.
- Se Miki não fosse a fracote que é, poderia nunca mais usar suas pernas. Aposto que estão dormentes, mas devem melhorar amanhã. Se tiver sorte, é claro.
Aqueles olhos verdes pareciam divertir-se com seu sofrimento. O oriental, por sua vez, deu um passo à frente para fitá-la melhor e agachou-se até a menina, tirando os fios de cabelo que haviam caído do rosto pálido e colado sobre o sangue que escorrera. O coração de Sofia estava tão acelerado que aumentava sua dor. Queria pedir piedade aos dois, gritar por ajuda. Mas seus lábios não se moviam e sua voz parecia ter desaparecido, tamanho medo que sentia.
- Me lembro de você agora. É a bonequinha do Escarlate, o Mú costuma te dar passagem.
O aprendiz acariciou-lhe a face alargando o sorriso e uma lágrima escorreu pelo rosto amedrontado da garota.
– E sabe que apesar de pedófilo, até que o Escorpião tem bom gosto? Não é nenhuma gostosa, mas tem um "quê" de menininha de torcida, que qualquer cara já fantasiou. Não acha, Feres?
- Com certeza.
- Você não vai me causar problemas, não é?
Sofia piscou e novas lágrimas derramaram-se emdesespero e Masao correu os dedos na direção do decote de sua blusa.
– Que é, você é muda? Melhor assim.
Sofia tentou reagir, mas teve os pulsos presos imediatamente, com imensa força e violência.
Se importa de ser o segundo, Feres?
- Só não a mate, que não dou a mínima.
Com ar de revolta e insatisfação, o grego afastou-se na direção oposta e cruzou os braços, olhando para o horizonte. O oriental aproximou o rosto de Sofia, que ofegante e desesperada, tentava em vão desvencilhar-se.
- Não se preocupe, não faremos nada que Escorpião já não tenha feito.
Tentou aproximar-se a força, mas teve um sobressalto e deu-lhe um tapa sonoro no rosto, antes de levantar-se.
- Sua vadia!
Limpou a boca em sangue, chamando a atenção de Feres, que se virou.
- Dá pra parar com o escândalo?! (Feres)
- Essa vadia, me mordeu!
Sorri, quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios
Alguns Cavaleiros de Ouro estavam na Casa de Câncer, encarando uns aos outros com algumas cartas na mão, naquele jogo de suspense. Desde que Máscara da Morte e Shura convenceram Afrodite e Saga a jogar pôker, aquela cena tinha se tornado um tanto quanto freqüente e dera margem ao plano dos prateados de eliminar os traidores de Athena em um único ataque.
O que não esperavam, era a presença de Miro, que resolvera se juntar aos amigos logo depois que Sofia saiu, na tentativa frustrada de tentar esquecer a cena de poucos minutos atrás. Também tinha aquele recado preocupante de Aioros, mas precisava respirar um pouco, antes de tratar de assuntos sérios. Sentou-se em silêncio, indicando que entraria na próxima rodada.
Saga encostou-se na cadeira e observou o quão pálido e abalado o escorpiano estava, embora tentasse disfarçar.
- Qual o problema, Escarlate?
- Não é nada.
- Tu novia acabou de passar correndo.
Responde Shura entregando as cartas e o observando de soslaio.
– E pela tua cara, desta vez a coisa foi séria.
- Pessoal, se os dois brigaram, nós não temos nada haver com isto.
Ante a voz de Afrodite, os demais deram de ombros. O jogo fluiu com gestos e olhares, até que a voz do anfitrião rompeu o silêncio.
- Se magoar a ragazza, já sabe...
Máscara resmungou entre dentes, antes de apagar o cigarro e apontar o dedo para Escorpião.
- ...Que vai pro inferno bem mais rápido.
Miro sorriu com uma falsidade sepulcral, encarando todos os presentes com o olhar mais cortante que possuía e por fim manifestou-se.
- Se eu quisesse conversar, tinha ligado pro Kâmus.
- Sempre o Kâmus! Como se fosse o único amigo que tem.
- Desde quando ficou sentimental comigo?
Miro não conseguiu esconder a careta.
- Eu bem avisei Afrodite, que estava exagerando no whisky.
- O QUÊ?!
Inconformado com o comentário de Máscara, Afrodite ficou de pé sobre a mesa, pronto para começar uma discussão. Antes que o pior acontecesse, Shura interviu, com ar indiferente e sem desgrudar o olho de suas cartas.
- Que tal deixar o venenoso esquecer os problemas com a chica e voltarmos ao jogo?! Sua vez, Saga. Aposta ou desiste?
Apesar de apaziguar o grupo com a atitude, não houve tempo do geminiano responder à pergunta de Shura. Gritos abafados e desesperados ecoaram pela sombria casa e chegaram aos ouvidos dos presentes.
- ...Feridos! - disse Miki ofegante. – Barac está ferido e a Adara também!
Miro sentiu um calafrio, preocupado com Sofia. Os dourados se levantaram em um sobressalto, prontos para ajudarem os prateados em questão. Eram os Cavaleiros de Ouro, não poderiam esperar atitude diferente.
Assim que eles se apressaram rumo à porta, caminho indicado pela aspirante à amazona, Miki sorriu sarcástica - apesar de incomodada com a presença do quinto cavaleiro, tinha sido muito fácil enganar aqueles dourados à quem Athena tanto confiava.
Ao cruzarem pela porta, grunhidos de dor puderam ser ouvidos: os cavaleiros foram atacados de forma covarde pelas costas.
Sorri, quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
- Você vai deixar mesmo que uma menininha te impeça? Chega a ser patético.
- Cala a boca, Feres!
Inclinou-se novamente sobre Sofia e apertou-a com mais força, como se indicasse quem estava no comando. Sofia tentou se soltar e se debater, mas em vão. Estava desistindo; queria gritar, fugir, pedir por socorro... Passou-lhe um turbilhão de pensamentos na mente, inclusive o de que iria perder sua honra de uma forma extremamente repulsiva. Em seu íntimo chamou por Miro, mesmo sem perceber que o fazia.
- Me solta!
- E não é que ela sabe falar?! Você já teve sua chance de eu sentir pena, garota... Mas desperdiçou com sua grosseria, então trate de calar a boca!
Um súbito clarão cega os olhos do aprendiz, que se afasta tentando olhar acima de suas cabeças, na direção da luz. A dor parece rasgar-lhe a vista e coloca a mão sobre os olhos, afastando-se ainda mais, ao lado de Feres.
- Mas que diabos...?!
Nada menos que a armadura de ouro Escorpião em todo o seu esplendor, descia sozinha e colocava-se entre Sofia e os seus agressores, irradiando cosmo-energia e poder. Entreolharam-se, e antes que pudessem compreender exatamente o que acontecera, foram surpreendidos.
- Starlight Extinction!
Mais luzes douradas rasgam suas visões, levando ambos a serem teletransportados ao lado de Áries, centímetros de distância. Ele os encarava procurando parecer calmo, porém muito sério.
- Vão ter que explicar o motivo desta desonra ao mestre.
- Não temos que explicar nada pra aquele traid... argh...
A respiração dos aprendizes fora quase interrompida por uma forte pressão nos seus pescoços e só então sentiram que seus pés não tocavam mais o chão.
- Vai com calma, Deba... Sofia agora está segura.
Aldebaran, segurando os rapazes pelo pescoço, apenas sorriu com um aceno afirmativo e os largou no chão, para imobilizá-los com uma torção de braço, que os fez gemer de dor.
- Só por pensarem em fazer algo de ruim com a senhorita Sofia, eu deveria torturá-los e trancá-los no cabo Sunion até a morte!
- Seu... desgraçado!
- Calem-se!
- Leve-os até Saga imediatamente, Aldebaran.
Touro consentiu e os aprendizes entreolharam-se cúmplices num meio sorriso, arrogantemente imaginando que encontrar os companheiros que estavam em Câncer seria providencial.
Mais adiante, Sofia estava prestes a desfalecer, tamanha a dor que sentia e diante da súbita luz que havia lhe cerrado a visão. Com a vista turva, enxergou dois pontos escuros e estreitou os olhos, levando alguns segundos para reconhecer seu salvador. Mú se inclinou e tocou sua fronte suavemente tentando acalmá-la, apesar de estar assustado com os ferimentos que ela possuía. Limpou o sangue de sua boca, tentando disfarçar a preocupação por seu estado frágil.
- Consegue sentir suas pernas?
Ela acenou em negativo com dificuldade.
– Sente ao menos algum formigamento?
Sofia consentiu num gemido e as feições de Áries se aliviaram um pouco com a notícia.
– Ótimo.
Uma explosão de cosmos pôde ser ouvida. Vinha da casa de Câncer. Notada a urgência, Mú chamou por Kikí telepaticamente enquanto Sofia tentava balbucinar alguma coisa.
- Onde... como é que está... o Miro?
- Está a caminho, minha pequena.
Antes que ele pudesse concluir Sofia desmaiou, pensando ouvir gritos abafados no corredor e imaginando que devia ser Miro.
- Mestre, depressa! Tem alguma confusão acontecendo na quarta casa!
Encarou seu discípulo por alguns segundos. Aquele rapaz forte e confiante, apesar de ofegante pelo imprevisto, em nada se parecia com aquele garotinho que, ainda ontem precocemente encarara uma difícil e importante missão nos domínios de Poseidon. Estava perfeitamente preparado para assumir sua posição como dourado, assim que precisasse. Neste meio tempo, Kikí notou, confuso, a presença da bela garota que jazia ferida e desacordada e não conseguiu disfarçar a careta.
- Mas o quê...?
- Kikí, preciso que me faça um favor.
- Claro, mestre.
- Chame uma ambulância e vá com a Sofia para o hospital. Leve o celular e encontramos vocês depois.
- Mas mestre Mú, eu...
- Depressa, ela ainda corre risco de...
Não conseguiu ouvir o restante, pois o dourado já saíra às pressas na direção da casa de Câncer.
Sorri, quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doloridos
As risadas macabras prosseguiam, ecoando nos ouvidos dos feridos como um circo de horrores. Tentavam em vão desvencilhar-se da imobilização de seus agressores, que irradiavam uma estranha resistência e força que os pegara completamente desprevenidos. Seria algo em suas armaduras? E que espécie de armaduras eram aquelas que os aprendizes estavam usando?
Afrodite sentiu uma zonzeira mental, detestando admitir a si mesmo que dois copos de whisky a menos já lhe trariam uma enorme vantagem naquela situação no mínimo constrangedora, de ser imobilizado pela sua discípula - a jovem de longos cabelos ondulados e intrigantes olhos verdes, Adara.
- Assim que eu souber no que estão metidos, os mando direto pro Yomotsu.
- É mesmo?! Sinto dizer que você é que vai pro Hirasaka hoje, amigo.
- Páris está certo. Você sempre foi um traidor, Caranguejo. Sempre esteve do lado errado da moeda e ainda assim, Athena confia em você. Um grande erro que não vou permitir que prossiga!
- Matem-nos de uma vez e mantenham o Escorpião fora disso.
Agameron sorri cinicamente ao encarar o dourado que mencionara.
– Nada pessoal, mas você não interessa.
- Grande chifre!
O poder luminoso cruzou o ar e só não atingiu todo o grupo em cheio, porque parte dele foi contido por Feres e Masao, que antes de perderem a consciência, serviram de escudo para os demais.
- Chamas de Babel!
- Cristal Wall!
- Restrinction!
Parecendo sincronizar com seus movimentos propositalmente, Miro desvencilhou-se de Katsuo no instante em que Mú chegara para impedir os demais e acabar com a desvantagem de uma vez por todas. Em seguida, com o susto de Agameron, Saga também consegue uma brecha para imobilizá-lo pelo pescoço.
- Se desistirem agora, daremos chance de explicarem-se e escapar da Outra Dimensão...
Sorri, vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz
Sofia despertou com uma sensação de entorpecimento e o calor de uma mão entre os dedos. Tentou abrir os olhos, mas levou algum tempo para conseguir. Visualizou dois sinais que lhe eram tão familiares e salvíficos.
- Senhor Mú, o que... ?
Sua visão, que estava turva, clareou-se. Mas aqueles olhos exóticos que estavam à sua frente eram ainda mais lilases. Sentiu-se embaraçada ao vislumbrar um belo jovem de cabelos castanho-avermelhados à sua frente.
- Eles já estão a caminho, não se preocupe. Como se sente?
- Me desculpe, eu achei...
- Meu nome é Kiki, sou discípulo dele. Temos algumas semelhanças.
Ele riu divertido, apontando para a própria testa, entendendo perfeitamente porque fora confundido com o mestre. Sofia sorriu sem jeito em resposta, por notar o quanto ele ficava ainda mais bonito ao sorrir.
- Está melhor?
Os olhos da garota ficaram marejados, numa recordação ruim que a tomou. Respirou fundo e desviou o olhar, tentando conter as próprias emoções e lembranças. A dor física diminuíra significativamente. Kikí encarou com pesar, tentando imaginar o que ocorrera ao notar marcas arroxeadas de mãos nos pulsos dela, além dos outros ferimentos e arranhões.
- Eu não sei exatamente o que houve, mas acabou. Você está no hospital e teve sorte de não ter sido grave, pois poderia ter perfurado algum órgão. Pelo que o médico disse, deve ainda sentir muita dor porque a pressão da pancada foi muito forte e teve uma costela trincada. Mas podia ser muito pior.
A menina fechou os olhos por alguns instantes. Ficou tão pálida que seus lábios perderam a cor. Kikí apertou-lhe os dedos em sinal de preocupação e apoio, sentindo uma pontada no peito. A namorada do Miro tinha traços tão delicados quanto uma boneca de porcelana, mas também parecia ser tão nova quanto ele próprio – mas devia ser impressão de sua parte.
- O importante é que o mestre Mú chegou a tempo de te salvar... Não foi?
Ele tinha uma certa dúvida em relação a isso, bem como ainda não imaginava que os agressores fossem seus companheiros de treino. Ela consentiu ao reabrir os olhos.
- Não fosse ele e o Aldebaran, eu nem sei...
- Você está bem agora.
- Na verdade, minhas pernas ainda estão dormentes. Será que...?
Kikí segurou sua mão.
- Não se preocupe, logo vão melhorar.
- Você está sendo um anjo, obrigada.
Foi com esta frase e com aquele sorriso frágil, que Miro entrou no quarto e sentiu uma pontada de ciúmes a confundir-lhe as preocupações.
- Huhum. – Escorpião pigarreou, tentando chamar a atenção dos dois.
Kikí levantou-se e soltou as mãos dela de súbito, sem graça por notar a irritação do dourado.
- Miro.
- O Mú ta lá fora na recepção.
Respondeu Escorpião secamente para Kikí.
- Desculpe, vou deixar vocês conversarem.
Assim que o garoto fechou a porta, Sofia colocou a mão sobre o rosto e fez uma careta, como se até mesmo ficar irritada fosse doloroso. Miro preocupou-se imediatamente e aproximou-se da cama com pesar, afagando-lhe os cabelos.
- Está se sentindo bem?
- Não.
- Quer que eu chame um médico ou enferm...
- Por que você foi tão grosso com ele? – continuou.
Miro emudeceu, completamente consternado. A preocupação era visível, mas também não quisera transparecer o seu ciúme, resultado da frustração que sentia por não ter estado com ela quando mais precisou de sua proteção.
- Eu não quis...
- Onde você estava?
Ela perdeu o controle dos próprios sentimentos e começou a chorar. Escorpião segurou sua mão e sentiu como se uma faca afiada atravessasse seu corpo todo, começando pelo peito. Eu estava jogando pôker – pensou. Por Zeus, como alguém poderia perdoar uma situação como aquela? Um ataque ao Santuário que ele poderia ter impedido se tivesse imediatamente contado sobre as suspeitas de Aioros, em vez de sentir pena de si mesmo.
Não fosse por Mú e Aldebaran, Sofia poderia estar morta. Arrepiou-se com a possibilidade. Sentia-se o mais baixo e inútil dos seres. Que espécie de cavaleiro era ele, que não percebia que aquela que tanto amava estava em perigo, por causa de um orgulho besta? Deveria ter acompanhado ela até a saída, a levado até em casa! Não deixado que ela saísse correndo sozinha.
- Me desculpa... – a menina tentou conter-se. – Sei que estava lá de algum jeito... Eu senti... Senti uma coisa... Um calor estranho me envolvendo quando desci aquelas escadas e depois... Quando me atingiram parecia que...
Ela parecia confusa, tentando dar sentido ao que dizia.
- E teve a armadura... você me mandou a armadura... Não foi?
Miro sobressaltou-se, sem entender o que ouvira.
- Armadura? Está dizendo que... A armadura de Escorpião... Te protegeu?
- Sim.
Miro sentou-se na cadeira deixada ao lado da cama por Kikí, tentando digerir a notícia que recebera.
Sofia apertou a mão dele, percebendo que seu rosto estava sem cor.
- Sofia, eu... Tive tanto medo de você...
O cavaleiro escondeu-se entre uma das mãos e suspirou.
- Ainda bem que está a salvo.
- Me abraça, por favor...
Algumas lágrimas brotaram novamente da delicada face e ele se desmontou com a fragilidade por ela exposta. Miro inclinou-se e beijou-lhe a testa, afagando-lhe a fronte e deixando que ela o envolvesse com os braços, já que não podia deixá-la se mover muito.
– Eu senti tanto medo... eu pensei... pensei tanto em você.
Ali, agarrada a ele que segurava sua própria emoção ao ouvir aquelas palavras sinceras, Sofia chorou copiosamente, extravasando toda a angústia que lhe invadira.
- Não deixe que meus pais me vejam assim...
O cavaleiro afastou-se após beijar-lhe o rosto suavemente. Respirou fundo e passou a mão pelos cabelos dela, ainda tentando acalmá-la.
- Eu sei bem que o tio sumiria no mundo com você.
Segurou novamente uma de suas mãos e fez uma pausa, engolindo seco.
- Mas vamos resolver um problema de cada vez, está bem? Primeiro vou tentar falar com o médico sobre sua alta.
Enxugou as lágrimas do rosto dela com cuidado. Sofia consentiu, tentando sorrir o mais sincera que pôde, fazendo com que o amado também sorrisse.
- Sabe, primo...
Miro sentiu um calafrio ao ouví-la usar aquela palavra. "Primo" nunca era um bom sinal.
- Eu sei que eu tava nervosa, mas eu falei sério sobre...
- Falamos disso depois. Aqui não é o melhor lugar pra gente...
Ouviram uma leve batida na porta e Miro não teve tempo de terminar o que dizia. Aioros entrou segundos depois, notando a expressão pesada dos dois e arrependendo-se por não esperar mais.
- Atrapalho?
- Não, Aioros. Pode entrar.
O cavaleiro respondeu melancolicamente, pois não queria continuar aquela conversa com ela e achou a presença do amigo um tanto conveniente. Aioros queria desaparecer, pois tinha agora certeza de ter interrompido uma conversa muito séria entre os dois.
- Eu não vou demorar. Como está, Sofia?
- Nada mal, pra quem quase morreu.
Ela disse com um sorriso cansado, fazendo com que Aioros se lembrasse da primeira vez que a vira.
- Peço desculpas, Sofia. Mas preciso fazer umas perguntas. Parece que os rapazes estavam envolvidos com mais alguém. Estamos levantando todas as informações possíveis. Miro, acha que ela já está bem pra falar?
- Não sei se é uma boa hora.
Miro levantou-se, ainda encarando Sofia com pesar.
- Por mim tudo bem, Miro.
Com aquelas palavras, o dourado a encarou. Ficou ali se lembrando do quanto se sentia culpado por tudo e como a sensação só pioraria se conversasse a sós com Aioros sobre sua falha em avisar aos demais. Ao mesmo tempo, ficar e ouvir a versão de Sofia do ocorrido também lhe parecia ainda mais terrível. Suspirou, resolvendo deixá-los a sós e beijou a mão dela, antes de afastar-se. Ao passar por Aioros, baixou o tom de voz ao lhe falar:
- Se perceber que ela não está bem, não insista. Ela ainda está muito abalada.
Aioros acenou afirmativamente.
- Qualquer problema, estarei lá fora.
Escorpião saiu do quarto com a cabeça baixa, visivelmente triste. E descobrir que Sofia continuava irredutível em relação a briga, só piorou o mal-estar que sentia.
Sorri, vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz
Smile
Kikí estava sentado na cafeteria da recepção, conversando sobre o ocorrido com Mú, Aldebaran e Shina, que vieram acompanhando Miro até o hospital.
- Mestre, mas então eles pretendiam matar e tomar o lugar dos dourados?
- Segundo eles, Shura, Afrodite, Carlo e Saga ainda são traidores de Athena e não merecem perdão.
- O pior foi o que quase fizeram com a senhorita Sofia. – Aldebaran respondeu, sério. – Falando em traição e bancando os certinhos, cheios de direitos... Pra fazer o que fizeram. É imperdoável.
- Aquele nojento do Masao me paga.
- Shina, não consigo acreditar que tenham sido tão inescrupulosos. Eles treinam comigo, todos os dias! Nunca pensei que fossem capazes de...
- Se quiserem esperar na porta pra vê-la, o Aioros está fazendo umas perguntas, mas não deve demorar.
Miro surpreendeu a todos com sua presença, sentando-se ao lado de Kikí.
- Como está, Miro?
A amazona colocou a mão sobre o ombro dele, preocupada por ver que estava ainda mais abatido. Escorpião forçou um sorriso e pediu um café puro. Shina suspirou, sabendo que por enquanto não adiantava insistir.
- Kikí, fique aqui com este cabeça-dura, ok?!
O rapaz concordou, deixando que os outros três passassem silenciosamente pelo corredor. Remexeu-se na cadeira, incomodado ainda com a cena constrangedora de minutos atrás. Miro tinha os braços apoiados no balcão e os olhos perdidos em algum ponto distante.
- Senhor Miro...
- Não fala nada, Kikí.
O cavaleiro apoiou a testa sobre uma das mãos sem olhar para o garoto, que tremia de nervoso, fazendo com que sua xícara de café com leite tilintasse um pouco sobre o pires. O café puro foi entregue à Escorpião, que no entanto, permaneceu imóvel e em silêncio.
- É que, o que houve lá dentro, eu não quis...
- Esquece.
Respondeu secamente, olhando para a xícara à sua frente e passando os dedos sobre a testa impacientemente.
- Me desculpe se eu...
- Já falei pra parar de falar!
O tom de voz do dourado alterou-se, tornando-se mais austero e irritado. Foi então que Kikí percebeu o quão fora de si o amigo estava. Os olhos tinham um brilho sombrio e melancólico, como se estivesse prestes a chorar. Kikí tomou o último gole de sua bebida em silêncio, imaginando que talvez ele precisasse ficar um pouco sozinho. Fez menção de levantar-se logo em seguida, mas foi interrompido pelo mesmo tom irritadiço de antes.
- Garoto, senta aí.
A xícara de Miro permanecia intocada e ele continuava com o olhar fixo em algum ponto obscuro de sua mente. Kikí sentiu um arrepio na espinha, tendo agora certeza de ter irritado o escorpiano e encostou-se no banco, esperando o pior.
- Sofia ia querer que eu te pedisse desculpas.
Suspirou devagar, como se todo o peso do mundo estivesse sobre seus ombros. O que o garoto menos esperava, era um pedido de desculpas. Seu receio transformou-se imediatamente em pesar, ao ver que o amigo estava muito pior do que todos imaginavam.
- Eu sinto muito se piorei as coisas.
- Quem piorou foi eu, garoto. Nunca vou poder pagar a você, Mú ou Aldebaran por salvarem a vida dela.
- Eu só fiz o que qualquer um faria.
- Aprenda a calar a boca de vez em quando, por Zeus!
Miro sorriu por um segundo ao ouvir as próprias palavras, sabendo que deixara Kikí sem reação. Mas logo voltou a ficar muito sério e distante.
- Você não faz idéia do que Sofia significa pra mim. E hoje eu quase a perdi.
- Ela vai ficar bem.
O dourado o olhou de canto por algum tempo e o rapaz compreendeu que era melhor se calar. Houve uma pausa longa, até que Miro voltasse a falar.
- Nós discutimos e eu disse coisas que ela não merecia ouvir. Fui orgulhoso demais pra ir atrás dela e graças a isso...
Naquele momento, a voz dele nitidamente embargou e ele empurrou sua xícara. Apoiou a outra mão sobre a testa, escondendo o rosto.
- Não quero nem pensar no que podia ter acontecido.
- Você não tem culpa, Miro. Foi uma coincidência infeliz.
- "Concerto de Branderburgo numero dois". Que diabos!
- C-como?!
- Essa música idiota, tá me irritando.
Kikí fez uma careta, tentando entender o louco comentário. Levou alguns segundos para conseguir perceber que ali na cafeteria do hospital, podia-se ouvir uma melodia instrumental tocando muito baixo. Mas desde quando Miro entendia de Bach ou de qualquer outra música clássica?! Estava surpreso e sem saber o que dizer, vendo Escorpião respirar pesadamente e alcançar a xícara novamente, depois de enxugar o rosto com as costas da mão.
- A vida só pode ser uma piada.
Fez uma pausa, mas Kikí não teve tempo de resposta.
- Você pode ter um amigo que goste de música erudita e passar a vida inteira o incomodando a respeito, sem nunca entender absolutamente nada sobre o assunto. Mas quando se tem uma namorada que gosta disso, as coisas ficam bem diferentes. E o teu amigo é que passa rir de você.
Miro finalmente tomou um pouco de sua bebida e Kikí sorriu, tentando em vão imaginar o que podia fazer para melhorar o astral do amigo, que já estava divagando.
- Continua detestando?
- Mais ou menos. A maioria me irrita mais do que eu gostaria.
O cavaleiro terminou de tomar seu café, num único gole, enquanto Kikí tentava segurar o riso. O dourado olhou para a entrada do hospital e deu um meio sorriso, ao perceber Hiyoga entrando no saguão.
- Daqui à pouco o Santuário inteiro vai estar aqui.
Hiyoga de Aquário ia questionar a recepcionista, quando viu os rostos conhecidos e se aproximou, cumprimentando a ambos. Parecia bastante chocado e preocupado. E a expressão de Miro não ajudava muito.
- Eu vim assim que as coisas acalmaram um pouco. O Aioros já chegou?
- Já. Está lá no quarto, bancando o detetive policial.
- Kâmus queria estar aqui, mas Anuska está com um contrato novo e eles não podem se ausentar agora. A Eiri queria vir comigo, mas sem ninguém pra ficar com a Nadja, achamos que hospital não é um bom lugar pra crianças. Como é que a Sofia está?
- Viva. Mas não graças a mim.
Hiyoga continuou olhando para o cavaleiro em silêncio, transtornado com a resposta. Kikí interveio a seu favor:
- O mais grave foi uma costela trincada. O restante são escoriações e contusões leves. Está bastante abalada, mas bem.
- E você, Miro... Como é que está?
- Se melhorar estraga. – respondeu cinicamente, tentando voltar ao mundo exterior.
Hiyoga respirou fundo. A expressão do escorpiano o deixou preocupado e resolveu falar a sós com ele.
- Kikí, me faz um favor? Avise Aioros que Athena pediu que ele se reporte o mais breve possível.
O rapaz levantou-se tentando disfarçar que estava contrariado.
- Agora até o pato me expulsa com desculpa esfarrapada...
Hiyoga sentou-se onde estava o garoto e esperou que ele se afastasse para voltar a falar.
- Se continuar se culpando, Miro, vai ficar louco.
- Um cavaleiro tem que assumir quando fez merda.
- O Shura me disse que discutiram, você não estava raciocinando.
- E por isto mesmo eu não devia ter me deixado levar pelo que...
O ruído do celular de Miro irrompeu a conversa, com um som de sirene policial. O cavaleiro praguejou, batendo no balcão e respirando fundo, olhando de relance para o amigo que nada entendia. Deixou que tocasse mais algumas vezes, antes de atender.
- Oi, tia Ágata. Como vão as coisas aí?
"Miro, eu estou tentando ligar pra Sofia, mas o celular só cai na caixa postal. Já está um pouco tarde e ela não voltou. Por acaso ela está com você?"
CONTINUA...
