Disclaimer: Os personagens de Saint Seiya pertencem a Masami Kurumada e a ele todos os direitos são reservados. Mas a personagem Sofia e os parentes do Miro são de minha autoria, portanto respeitem. Música incidental:"Desde Aquele Dia", de Humberto Gessinger.

O QUE PODE MUDAR A SUA VIDA?

Capítulo VIII – Falsos passos

Há alguns dias que o Santuário não recebia visitas e a calmaria continuava, trazendo-nos o desconforto de estranhos pressentimentos. Mú estava a conversar com Aldebaran exatamente sobre este assunto, do lado de fora da casa de Áries enquanto sentiam a brisa fresca daquela tarde nublada. Alguns aprendizes aproximaram-se com passos apressados e puderam notar que havia alguém atrás deles.

- Mestre Mú, uma jovem chamada Sofia insiste em solicitar uma conferência. Já explicamos que não é possível, mas ela alega que é parente de Escorpião e que...

- A entrada dela está liberada pela senhorita Kido, Muriel.

Aldebaran mentiu, pois não havia liberação ou proibição alguma a respeito. Mas conseguiu que os rapazes se afastassem e ambos puderam vislumbrar uma angustiada Sofia. Seus cabelos estavam soltos e deixando o lado esquerdo de seu rosto parcialmente coberto por alguns cachos.

- Me desculpem, eu não sabia pra onde ir.

- Já faz tanto tempo.

Ela sorriu timidamente para Áries, mas nada respondeu.

- Por favor, entre.

Os três entraram no aposento e Mú apontou para uma poltrona onde a menina se acomodou. Parecia pálida e quando esfregou as mãos nervosamente uma sobre a outra, puderam perceber que tremia.

- Fique aqui com Aldebaran. Vou te trazer um copo de água.

Ela se sobressaltou e ergueu o rosto.

- Não precisa! É melhor eu...

- Eu insisto.

Ela cedeu, abaixando o olhar. Mú deixou o local por um instante enquanto Aldebaram se acomodou no sofá e suspirou, encarando-a sem saber exatamente o que lhe dizer naquele momento.

Mú retornou a sala e lhe entregou o copo de água, ao qual ela bebeu de uma só vez e deixou o copo sobre a mesa de centro. Os dois cavaleiros perceberam que ela tinha lágrimas presas aos olhos e Áries ergueu uma das sobrancelhas ao falar:

- Problemas muito sérios em casa?

-Desculpe. Sei que nenhum de vocês aprova que eu venha. Ainda mais sem avisar, mas… Quem de mais perto tenho como amigo é o próprio Miro, ou… Vocês.

- Fico honrado em ouvir isto e aposto que os demais também.

- Sem dúvida.

Os dois amigos se entreolharam por um instante.

- Quer conversar sobre o que aconteceu?

- Miro não trouxe boas notícias sobre seus pais.

- Quando disse "pais", ele quis dizer "pai".

- Não se aflija. É natural que ele queira protegê-la.

- Eu… Só estou cansada de que proteção seja a justificativa para que todos decidam pelo que tenho que fazer com a minha vida.

- Você e seu pai discutiram?

Desta feita é Sofia que solta um suspiro cansado e leva as mãos até a boca com o olhar distante. A resposta era óbvia agora, mesmo antes que ela afirmasse com a cabeça e deixasse que uma lágrima escorresse sobre seu rosto.

A menina se levantou bruscamente, como se estivesse incomodada com sua própria fragilidade.

- Eu não devia estar aqui. Desculpem, eu não consigo…

- É um assunto muito pessoal. É compreensível que não se sinta a vontade conosco.

- Mas Miro ficaria chateado, se soubesse que chegou até aqui e não foi até ele.

A morena respirou fundo uma vez mais e secou o rosto com as costas da mão, tentando retomar o controle de si mesma. Por fim tentou sorrir e concordou com um aceno.

- Te acompanharemos até a oitava casa.

Miro saiu à porta com uma expressão séria, quando percebeu a presença dos outros dourados com Sofia entre eles. Estava sem sua armadura, vestindo apenas jeans e uma camiseta escura. Observou como a altura e a aparência contrastante da moça delicada vestindo uma blusa preta, calça jeans e um tenis de cano alto, posicionada ao centro de dois homens com armaduras de ouro. Acenou silenciosamente na direção deles. Aquele era um recado para que saíssem sem perguntas. Ficou um tempo a encarando, tentando desvendar a razão de sua aflição e daquela visita repentina.

- Não devia estar aqui.

- Espero que me perdoe por aparecer assim.

Sofia sorriu nervosa e colocou as mechas de seu cabelo atrás da orelha, revelando uma marca vermelha na própria face. Escorpião aproximou-se alarmado para examinar a mancha, tocando seu rosto e ficando ainda mais sério.

- Diga que não foi seu pai que fez isso.

- Podemos entrar um pouco?

Sofia ficou um pouco magoada pela suposta frieza do primo, que pareceu enfim sair de seus próprios pensamentos e se afastou um pouco, conduzindo-a para dentro.

Escorpião apressou-se na direção da cozinha e pegou um um pano, que enrolou com um pouco de gelo. Ambos encostaram-se na bancada sem trocarem ainda nenhuma palavra. Miro colocou a compressa sobre o rosto dela, com ar preocupado.

- Não me deixe com raiva do tio, sem saber o porquê.

A menina solta o ar, em seguida um pequeno gemido em reação a dor causada pelo gelo. Ficou alguns longos minutos em silêncio, mas por fim cedeu e tentou ser o mais fiel possível em sua narrativa.

Desd'aquele dia
Nada me sacia
Minha vida tá vazia

- Papai, há mais de três meses o Miro tenta falar com o senhor, mas o coloca para fora daqui. Não existe nenhuma chance de conversarmos sobre isso, como…?

- Não vai tornar a vê-lo e eu não tenho nada para conversar.

- Mas eu tenho. É a minha vida que está sendo decidida e eu já tenho idade pra fazer minhas escolhas.

- Não o suficiente para entender do que estará abrindo mão, ao escolher este caminho!

- E do que exatamente estou abrindo mão, papai?

- Sofia, seu primo fez uma escolha sem volta. Ele nunca poderá te dar qualquer futuro e mais cedo ou mais tarde, vai te fazer infeliz!

- E o que exatamente você chama de futuro?

- Família, Sofia! Ele nunca vai te dar uma família! Ele nunca vai sair daquele lugar e eu jamais permitiria que você morasse num local marcado pela morte! Vai estar sozinha, antes mesmo que perceba e eu não quero que...

- Essa escolha cabe a mim, papai!

- Não se importa com isso agora, porque não entende a dimensão do que isto significa! E se eu esperar que entenda, vai ser tarde demais.

- E desde quando me forçar a noivar com algum imbecil que está de olho nas terras de vocês, vai me deixar mais feliz?!

- A longo prazo, vai me agradecer.

- Você quer se livrar de mim!

- Eu só não quero que você sofra, Sofia!

- Já está me fazendo sofrer, ao me impedir de decidir minha própria vida!

- Porque está prestes a escolher o que não é vida nenhuma!

- Não vou mais deixar que me impeçam. Estou cansada de ficar parada aqui, vendo todos vocês discutindo sobre o que devo ou não fazer. Eu amo o Miro e não pode me impedir de vê-lo.

- Não ouse! Se sair desta casa sem meu consentimento, não precisa voltar!

- Não teria coragem, pois sabe que estaria propiciando o que mais teme que eu faça.

Em resposta a ousadia da menina, o que se segue é um pesado tapa no rosto. Chocada com a atitude violenta do pai adotivo, Sofia contém suas lágrimas com dificuldade - mais pela atitude, que por seu resultado físico. O silêncio revela também o arrependimento do pai, que não consegue articular um pedido de desculpas por seu gesto impensado.

Sofia se virou bruscamente tentando fugir do local, mas foi segurada pelo braço esquerdo. Tentou desvencilhar-se, notando que o próprio pai tinha olhar de quem também estava prestes a chorar.

- Não vai a lugar nenhum.

- Está me machucando.

O pai acabou soltando-lhe o braço, pensando ter encerrado a discussão. Assim que ele a soltou, Sofia correu para a saída e o encarou com rancor por um instante. Bateu a porta, saindo sem rumo pelas ruas.

Desd'aquelia dia
Parece que foi ontem
Parece que chovia

- Ai, meu rosto tá congelando!

Miro retira a compressa do rosto por reflexo ao protesto da prima, mas permanece calado. Estava ainda embasbacado com a gravidade da discussão e a observava, incapaz de dizer palavra. Incomodada com o silêncio, Sofia baixou o rosto com o olhar distante.

- Sei que não devia ter deixado escapar aquelas palavras, mas...

- Foi errado vocês se tratarem assim. Mas o que seu pai teme, sabemos que faz sentido.

Miro suspirou enquanto jogava o gelo sobre a pia. Voltou a encará-la para sustentar a gravidade do que dizia. Não gostava de admitir, mas se arrependia de não ter falado mais diretamente sobre o assunto antes de sua família despejar o que havia de pior sobre os ouvidos dela.

- Creio que já tivemos essa conversa há três anos, Miro.

- Não, não tivemos.

- Como assim?

O mais velho a tocou de leve no rosto e o acariciou por um momento, enquanto tentava encontrar as palavras certas, se é que haviam.

- Falamos sobre os riscos que corre e combinamos que não viesse mais aqui para diminuí-los.

- Por favor, não me repreenda de novo. Já expliquei que…

Escorpião aproximou-se para um beijo lento e acolhedor, antes que a menina terminasse de falar. Sentia-se mal por ser quem era, pela primeira vez na vida. Ao afastar-se, admirou-lhe a face rosada e sentiu o hálito doce da respiração de Sofia antes de voltar a falar.

- Senti sua falta.

Em resposta ao seu sussurro, a namorada lhe sorriu tímida e pousou as mãos sobre o tórax dele.

- Pensei que nunca ia dizer isso.

Miro retribuiu o sorriso e acariciou seu cabelos antes de voltar a beijá-la, desta feita puxando-a pela cintura para mais perto de si. Pegou em sua mão a conduziu até o quarto, onde indicou que ela se sentasse na cama, enquanto se acomodou na poltrona a sua frente.

- Sofia, preciso ter certeza que entende que nunca teremos mais do que agora.

A grega torcia uma mão sobre a outra como se algo a incomodasse e baixou os olhos por um instante, antes de olhá-lo novamente.

- Não sei onde quer chegar.

- Visitá-los uma vez por mês... Isso é tudo que posso fazer.

Ela suspirou e colocou os cachos que caíram sobre rosto para trás da orelha.

- Já me disse isso antes. E minha resposta foi que ainda é muito mais do que eu podia esperar.

Miro alcançou as mãos dela com a própria e as segurou, tentando acalmá-la. Engoliu em seco e ficou sério ao continuar.

- Sei que parece certo agora. Mas daqui algum tempo, vai perceber que nunca estarei o tempo todo com você. E um dia isso vai fazer falta.

Sofia afastou os braços, como se não quisesse que ele a consolasse, e apoiou-se sobre o colchão, com expressão melancólica.

- Não fale comigo como se eu não soubesse que o templo de Athena é sua missão e seu lar. Ou que sou ingênua o bastante para achar que me aceitaria em um local que a qualquer momento pode ser um campo de guerra. Eu entendi perfeitamente o que isto significa. Mas ainda assim, quero estar com você.

Um rosto apareceu
Uma heroína
O rosto era o seu
Seu rosto de menina

O olhar dela pareceu suplicar que a entendesse de uma vez por todas. Comovido com a resposta dela, o cavaleiro sentou-se ao lado dela e a envolveu pelos ombros.

- Só estou tentando dizer que não foi isso que meu tios desejam pra você. E que há uma parte de mim que também gostaria que tivesse a vida normal que não posso te dar.

- Se casar com um comerciante grego aparvalhado for uma vida normal, pro diabo com ela! E vocês não podem impor como devo viver minha própria vida. A escolha cabe a mim.

- Exatamente. Não quero te privar de uma vida plena e feliz.

- Você é a minha felicidade.

Ela o encarou novamente para responder. Escorpião sorriu, acariciando-lhe o rosto. Ficou algum tempo sem saber o que dizer. Era um misto de emoção e medo que lhe trazia vez por outra a dúvida de ter feito a melhor escolha para ambos. Mas ali estavam, brigando com a família um pelo outro. Já perdera completamente a noção do que era certo ou errado desde que se apaixonara por ela.

- Um dia minhas palavras vão fazer mais sentido. E vou apoiá-la qualquer que seja sua decisão, quando este dia chegar.

Sofia segurou o pulso dele afastando-o de seu rosto, indignada com o que ouviu.

- 'Quando' esse dia chegar? Miro, 'se' este dia chegar! Como quer que fiquemos juntos, se está certo do fracasso?

O grego respira profundamente, voltando a segurar uma das mãos dela, sem saber exatamente o que era certo fazer.

- Sofia, eu te amo e vou continuar a amar sempre. Isto é a pior e a melhor coisa que poderia me acontecer. O final dessa história ou o que eu penso sobre ela não importa.

Ela riu de nervoso, meneando a cabeça.

- É como dizer que escolheu ser um cavaleiro de Athena, mas não acredita na paz.

Miro achou graça no comentário e ergueu uma das sobrancelhas fazendo uma careta.

- Você realmente ouviu o que eu disse? Porque eu não vou repetir...

A morena sorriu e colocou os próprios cachos atrás da orelha novamente.

- Então não vamos mais falar sobre o que não aconteceu, porque também não me importa.

O cavaleiro fez que sim com um aceno. O silêncio se tornou ligeiramente incômodo. Miro enfim se inclinou e apertou-a contra si com força, oferecendo-lhe um beijo longo e arrebatador, segurando-lhe a nuca como se a tomasse inteira para si. Sofia pouco a pouco o envolveu nas costas e pescoço. Quando deu por si, ele já a erguia em seus braços para recliná-la sobre a cama.

Os beijos ficaram mais intensos e uma das mãos dele escorregou por baixo da blusa dela até tocar-lhe os pequenos seios sobre a lingerie. Sentiu a pele dela arrepiar-se por completo diante da carícia e pensou tê-la ouvido abafar um gemido de prazer. Excitado por tê-la tão entregue a suas carícias, desceu a mão por sua coxa e puxou-lhe a perna para mais perto de seu corpo. Ambos deixavam-se levar pelo momento e pelo desejo que os tomou, sem pensar em consequências.

Miro subiu a blusa da namorada até que pudesse ver a renda escura que cobria-lhe os seios e mordeu-lhe o pescoço com avidez. Sofia ofegou e apertou as costas dele com os dedos finos por baixo da camiseta. Escorpião inclinou-se para beijar e provocar-lhe cintura acima, em direção aos seios alvos.

Parece que foi ontem
Parece que chovia

Quando notou uma das mãos dele a abrir o botão de sua calça, Sofia afastou-o empurrando-o levemente pelos braços. Estava ofengante e corada, e Miro compreendeu em seus olhos o que lhe pedia.

Tentou recobrar um pouco da própria consciência sem parecer frustrado como estava. Tomou-lhe os lábios com ânsia e volúpia, apertando-a para si pela cintura para ouví-la gemer uma vez mais em seus braços. Mordiscou-lhe o queixo e seguiu para o lóbulo da orelha, antes de sussurrar-lhe de leve próximo ao pescoço, com o cuidado de deixar seu hálito quente tocar-lhe a pele.

- Faz tanto tempo que queria ficar a sós com você...

Arrepiada, ela encolheu-se imediatamente. Um beijo exigente se seguiu e Miro voltou a percorrer suas curvas com desejo. Uma de suas mãos seguiu por seus quadris descendo por baixo da calça dela e Sofia o segurou instintivamente, impedindo-o de continuar. O sorriso malicioso ainda tomava as faces de Escorpião quando ergueu-se para admirá-la. Levou a mão que o segurou até a seu lábio, beijando-a e fazendo com que ela a pousasse sobre seu queixo. Passou os dedos pelo decote dela, se inclinando para outro beijo, mas Sofia tentava gaguejar alguma coisa.

- D-desculpa, não é que eu não queira... é só que…

O grego pousa o indicador sobre os lábios avermelhados da amada.

- Não peça desculpas.

Ela suspirou pesadamente. Ficaram algum tempo se entreolhando enquanto ele acariciava o ventre descoberto da namorada e trocavam beijos breves, como que a tentar recuperar-se da loucura de minutos atrás. Por mais que a desejasse, sabia que teria de esperar seu próprio tempo. Já estava distraído a pensar sobre o assunto, quando sua voz doce voltou a falar.

- Acha que papai tem mesmo coragem de me prometer a algum estranho?

Se Miro até agora mantinha um esforço surreal para esfriar a ânsia que estava por Sofia, aquela frase lhe caiu como uma avalanche de neve. Fazê-lo pensar no tio protetor era o que havia de mais desanimador num momento como aquele. E o sentimento de corta clima pouco a pouco foi se misturando com irritação devido a aquela nova ameaça do tio.

Sofia não ia se casar com nenhum a força. Isto ele jamais permitiria! Se deu conta de repente, que gostava do privilégio de ser o único homem da vida dela e um calafrio passou por sua espinha ao cogitar que outro pudesse tocá-la, ainda mais a contragosto.

- Seu pai só pode estar louco, se acha que vou deixar que um moleque petulante encoste em você. Só de cogitar que algum pirralho idiota tente se aproveitar, eu… - pigarreou, ao perceber que estava exagerando. - Isso não vai acontecer.

Sofia deixou escapar um riso solto, divertida com a expressão severa de Miro, que fez uma careta ao perceber que ela ria.

- Posso saber é a graça?

- É que você foi tão enfático sobre um moleque ou pirralho se aproveitando de mim...

- A ideia do seu pai que é ridícula! Como se te jogar direto pra um fedelho ganancioso fosse a solução pra nos separar ou...

A menina não conseguiu segurar e disparou a rir-se dele.

- E com isso devo entender que vai defender meu direito de escolher um homem de verdade e vez de um mero garoto?

Miro suspirou em derrota, sorrindo maliciosamente para ela.

– É obvio.

A menina balançou a cabeça divertida e tocou-lhe a face carinhosamente. O grego roubou-lhe um longo beijo, tentando fazê-la esquecer o assunto.

- Devia ficar na casa da tia Madge essa noite, até a poeira baixar.

- Até porque eu nem tenho cara de ir pra casa, depois das coisas que eu disse.

- Queria muito que ficasse aqui comigo, mas nós dois sabemos que por várias razões, é melhor evitar...

- As possíveis guerras, é claro. - ela respondeu entre risos.

Miro deu de ombros, com um sorriso cínico.

- Tenho que garantir que não corra perigo.

Sofia estreitou o olhar com um riso de moleca atrevida que o arrepiou imediatamente.

- Você é perigoso, Miro?

- Não me provoca.

A morena riu. Afastou a franja dele dos olhos e lhe ofereceu um beijo breve e doce, que o desarmou.

- Acho que é melhor eu ir.

O escorpiano respirou profundamente. Estavam finalmente sozinhos e não queria que ela partisse, mas era o mais sensato a se fazer.

Ajeitou a blusa da namorada, depois de beijá-la na barriga um última vez. Ambos se levantaram e ele a observou enquanto se recompunha e ajeitava os próprios cabelos tentando reorganizar os pensamentos e recobrar a sanidade.

- Te acompanho até lá embaixo. E mais tarde te ligo para saber como está.

Desd'aquele dia
Minhas noites são iguais
Se eu não vou à luta
Eu não tenho paz

Certa noite, Sofia telefonou-lhe aos prantos. O tio conseguira obrigá-la a noivar-se com Aquiles, que agora passara a visitar-lhe quase todos os dias. Miro teve ímpetos de esmurrar o próprio tio quando a ouviu confessar. Estava furioso e teve sorte de estar distante dele ao receber a notícia. Porém, na semana seguinte "inexplicavelmente", Aquiles e sua família desfizeram o acordo sem nunca mais dar notícias. Miro nunca respondeu nenhuma das perguntas de Sofia sobre o assunto.

Egídio e Ágata começaram a se irritar com a rebeldia da filha, que agora dava um jeito de sair de casa sem consentimento por diversas vezes. Os meses foram passando, as discussões familiares continuavam. Por fim pareceram ter desistido de impedi-los de se ver e voltaram a receber o sobrinho. Não que aprovassem aquilo, mas ao menos a menina estaria mais perto deles. Era difícil para todos os envolvidos, desconfortável e muitas vezes o stress causado já era motivo para outras discussões.

Para os dois jovens era especialmente desgastante, pois já se viam tão pouco e aguentavam todo tipo de ofensas da família. Toda semana Sofia ouvia de um de seus familiares algum comentário inconveniente, ou ouvia alguma discussão por causa do primo. Madge mal dava conta de apaziguar os ânimos e a sobrinha passava cada vez mais tempo trancada em seu quarto ou fingindo estar. Miro vivia as rusgas com Egídio e sentia cada vez menos vontade de voltar a fazenda dos tios, sabendo que teria de tolerar todas aquelas indiretas cruéis.

Quanto menos se viam, mais discutiam entre si, principalmente por telefone. E quanto mais se desentendiam, mais motivo davam aos mais velhos de implicar.

Miro agora levava quase dois meses para aparecer e ficava por menos de três dias. Quando saíam juntos, tinha sempre um celular tocando histericamente com os pais de Sofia exigindo que voltasse logo para casa ou criando algum tipo de problema para que fosse para casa. Aquela guerra contra os Ptolemaîos já estava durando tempo demais.

Se eu não faço guerra
Eu não tenho mais paz
Não aguento mais

Naquela tarde cinzenta de sábado, Aioros apareceu na oitava casa com ar severo e urgente. Escorpião estava sozinho caminhando de um lado para o outro na sala passando a mão sobre o rosto, visivelmente irritado.

- Desculpe ir entrando, Miro. Mas o assunto é… Está tudo bem?

Escorpião parou, coçando a cabeça e olhando para o companheiro,

- O de sempre, mas não to afim de falar do meu tio. O que houve?

- Aconteceu uma coisa muito grave.

- Você… Quer se sentar?

- Estou bem assim, obrigado.

- Ok, desembucha.

- Encontrei rastros de sangue em locais que não estão na programação dos treinos. As pistas estavam desconexas, mas depois de muito procurar...

Aioros suspira e abaixa o olhar por um instante.

- Miro, eu encontrei o que pode ser o corpo de um dos nossos aprendizes, mas o estado em que se encontra dificulta que eu identifique quem.

O rosto de Miro fica pálido e o tom de voz se altera completamente.

- Isso é... C-como...?

- Não tivemos sinais de invasão, até porque algum de nós perceberia. Nada desapareceu ou foi destruído. Encontrei-o num local que poucos de nós conhecemos. Não tem como um invasor chegar até ali sem que tenha sido guiado por alguém que conheça bem o caminho. Quem quer o deixou lá, sabia que era uma área pouco visitada e não queria ser descoberto.

- Está sugerindo que foi fogo amigo. Isto é muito sério.

- Sei que posso confiar em nós doze, mas...

- Acha que pode haver outro ataque na surdina, se não descobrirmos logo.

- A qualquer momento. O corpo deve ter no máximo uns dois dias. Temos que ficar alertas e procurar quem está desaparecido, para poder investigar.

- Os outros já sabem? Athena… Athena está sabendo disso?!

- Nos reuniremos em breve, mas por enquanto só consegui falar com Hiyoga. Shura e Afrodite devem estar lá embaixo na casa do Máscara. Se depois puder falar com eles, ainda tenho umas coisas pra resolver.

- Claro, Aioros. Você tem mais alguma informação, ou…?

Os dois ficam em silêncio por um instante, percebendo a chegada de alguém. Após aguardarem um pouco, Aioros apontou com os olhos para a outra entrada do saguão. Sofia estava parada ali e também nada dizia. Sagitário foi o primeiro a se manifestar dentre os três.

- Olá, Sofia.

- Como vai, Aioros?

Sagitário tentou sorrir educadamente, enquanto acenou com a cabeça para não demonstrar sua preocupação.

- Vou deixá-los a sós. Depois conversamos.

Encarou Escorpião por um instante, antes de sair.

"E se puder, tire ela daqui imediatamente."

Miro acenou em despedida antes que Aioros se retirasse, tendo entendido perfeitamente o recado que Aioros lhe passara através do cosmo.

Um dia mais, um dia a menos
São fatais
Pra quem tem sonhos pequenos
Sonhos tão pequenos
Que nunca têm fim

O casal se entreolhou em silêncio, ainda a distância. O escorpiano suspirou, tenso. Detestava ter que dispensá-la bruscamente, mas dadas as circunstâncias era o mais certo a fazer.

- Sofia, vai pra casa, não é uma boa hora.

Sofia torceu as mãos uma na outra de um modo que o grego já havia aprendido que significava que estava nervosa.

- Precisamos conversar.

- Não pode aparecer aqui sem avisar. Quantas vezes vou ter que explicar que isto aqui é um campo de guerra?

Sua entonação foi mais dura do que gostaria e só se deu conta disto pela expressão da namorada, que engoliu em seco e franziu a testa.

- Eu avisei. Estava cansada de esperar que me desse notícias.

Passou a mão pelos cabelos, ao lembrar que não sabia do próprio celular há pelo menos cinco dias.

- A situação por aqui está um pouco difícil, Sofia.

- Se me contasse, eu saberia.

Agora a menina foi quem soou severa. O tempo estava passando e a preocupação do escorpiano começava a aumentar de tal modo, que a tensão se misturava com impaciência.

- Sofia, me diz logo o que você quer!

- Por que está me tratando assim?

Sofia cruzou os braços, visivelmente magoada. O cavaleiro abaixou o rosto e suspirou, com a mão sobre a testa.

- Porque como eu acabei de dizer, não é uma boa hora.

- Acontece que ultimamente nunca é uma boa hora. Você sequer responde as minhas mensagens. Eu fiquei preocupada que pudesse…

- Estou vivo. Você já viu, agora vai.

Brusquidão insensata outra vez. Suas palavras tinham saído cruéis e sequer conseguiu encará-la depois de pronunciá-las. Sentiu-se culpado quando a voz dela em seguida soou embargada.

- Miro, quanto mais você nos evita, quanto mais se afasta da fazenda, mais dá motivo para que os tios o maldigam.

- Sofia, de novo isso?!

Desta feita a encarou, subindo o tom de voz exageradamente. Estava cansado daquelas discussões constantes que tinham sempre os mesmos motivos. Não estava nenhum pouco disposto a seguir com mais uma delas.

- Acontece que tendo paciência ou não, esse assunto não se resolveu.

- O que você quer que eu faça?!

- Você mal os tolera, Miro! Ultimamente, sequer aparece!

- Ah, eles estão agindo como adultos.

- Evitar não resolve. Você está fugindo deles, Miro!

- Porque cansei de escutar tanta merda!

- Bom pra você que pode fugir, enquanto tenho que ficar e ouvir a mesma coisa todos os dias.

- Volta pra casa, Sofia.

- Miro porque eu tenho que ser a única sensata no meio dessa guerra ridícula entre vocês?! Vocês só faltam se matar, isso não tá certo! Detesto como isto afeta toda a nossa família, mas às vezes parece que você desistiu!

- Sofia, eles não me escutam!

- Então não fala nada, Miro. Apenas esteja lá. Abaixe o tom quando eles se exaltarem, em vez de entrar na deles!

- Claro, com certeza.

O sarcasmo da frase ficou tão claro que Sofia suspirou melancólica.

- Sabe, sempre soubemos que nos veríamos pouco, mas ultimamente está me evitando, Miro.

- Não estou evitando você.

- Está. Inclusive agora, conversando a dois metros de distância de mim.

Miro passou a mão pelo rosto.

- Sofia, a gente vai ter que deixar isso pra depois. Tem coisas muito sérias acontecendo. Precisa ir embora. Agora.

A menina abaixou o rosto por um segundo. Encarou-o novamente com mágoa no olhar. Estava cansada de se sentir lutando sozinha pelo seu amor. Quando conseguiu voltar a falar, sua voz saiu muito mais baixa e embargada do que gostaria.

- Vou fazer melhor que isso, primo. Nunca mais precisa tocar no assunto. E também não precisa mais agüentar nem a mim, nem seus tios. Faça o que tem que fazer, não vou mais atrapalhar.

Quando Sofia virou as costas para sair, Miro chegou a dar dois passos para impedí-la. Mas nada conseguiu fazer ou dizer, além de deixá-la partir. Se lembrou de que precisava tirá-la do Santuário o quanto antes, se quisesse protegê-la do pior. Pregou os pés no chão com o coração apertado, sentindo-se impotente enquanto via Sofia se afastar. Engoliu em seco. A namorada estava séria e chateada demais para supor que fosse da boca pra fora.

Eu só queria saber
O que você foi fazer no meu caminho
Eu não consigo entender
Não consigo mais viver sozinho

Sofia desceu as pressas, enquanto as lágrimas que prendia sob os olhos embaçavam sua visão. Não percebeu ao chegar ao final das escadarias, que um grupo estranho se aproximava da entrada da primeira casa. Sentiu um calor intenso atingir-lhe o ventre e arremessá-la contra as rochas de um pilar violentamente. Teve tempo ainda de ouvir algumas risadas sinistras e olhares maldosos aproximarem-se, antes de sentir o gosto do próprio sangue e desfalecer.