Disclaimer: Os personagens de Saint Seiya pertencem a Masami Kurumada e a ele todos os direitos são reservados. Mas a personagem Sofia e os parentes do Miro são de minha autoria, portanto respeitem. Música incidental: "Sweet Child O' Mine", do Guns N' Roses.
O QUE PODE MUDAR A SUA VIDA?
Capítulo X- Tempos de Seca
Mú, Shina e Aldebaran estavam no quarto do hospital, fazendo companhia para Sofia enquanto Miro falava com o médico responsável. Touro apoiou Sofia devagar, ajeitando o travesseiro em suas costas para que pudesse sentar-se um pouco. A expressão dela ficou tensa, pois as feridas do baque nas pedras a deixavam desconfortável.
- Obrigada, Aldebaran. Aliás, a vocês todos. Estou envergonhada pelo que lhes causei.
- Nós é quem sentimos muito pelo que aconteceu, Sofia.
- Os envolvidos estão sendo interrogados por Athena, nesse momento.
- E já estamos no rastro de quem fez a cabeça deles.
Sofia apenas acenou com a cabeça, tentando sorrir. O assunto ainda a deixava desconcertada, as lembranças de todo o medo que passou voltavam à tona e seu coração disparava. O grupo percebeu sua expressão melancólica e decidiram tratar daquilo em outro momento.
Ouviram uma leve batida na porta e Escorpião entrou, naquele estado nunca antes visto, mesmo em meio a grandes batalhas. Com ar cansado e quase que desesperado, os olhos estavam vazios e distantes. Era pura dor e sentimento de culpa personificados.
- A sua alta será amanhã cedo, caso esteja movimentando as pernas normalmente, prima.
Ali estava uma palavra que dizia muito. Não era nada comum que chamassem-se por primos depois que o namoro começou. Quando os dois se entreolharam, ficou claro aos presentes que havia algo pesado no ar além do ocorrido que presenciaram. Miro cumprimentou os demais com um aceno de cabeça e aproximou-se dela tentando sorrir.
- O médico pediu para avisar caso tenha você febre, pois os cortes podem infeccionar. No mais, só precisa de repouso.
Sofia apenas confirmou silenciosa. Os três visitantes despediram-se da garota um por um para em seguida sair, dando-lhes um pouco de privacidade. Quando a porta encostou, Miro sentou-se na cadeira ao lado da cama.
- Sua mãe acabou de me ligar.
Sofia sobressaltou-se.
- E o que você...? Ai.
O movimento rápido exigiu muito de si e ela fez uma careta. Miro a encostou de volta no travesseiro e examinou o corte que havia no canto de sua boca perdido em pensamentos.
- Devagar, mocinha.
Esperou que ela conseguisse se reajustar e aliviar as feições para continuar a falar.
- Eu disse que quando chegou ao Santuário já estava muito tarde e não a deixei voltar pra casa sozinha. Ela ficou de falar com a tia Madge, para lhe trazer uma troca de roupa e passar a noite conosco. Foi o melhor que pude fazer.
- Mas Miro, se a tia Madge...
Ela fez uma careta, tendo se movimentado com brusquidão outra vez. O cavaleiro acariciou o ombro dela e esboçou um sorriso enquanto a fazia se recostar novamente.
- Eu sei, Sofia. Mas ela é a única que pode nos ajudar.
- E o que vamos fazer?
- Era sobre isso que eu queria falar.
O grego estava nervoso ante as conseqüências severas, caso seus tios descobrissem o que realmente havia acontecido. Passou a mão pelos cabelos e voltou a encará-la.
– Falei com o Kâmus e ele nos convidou para passar um mês na casa dele em Paris. Seria bom que ficássemos longe... Te ajudaria a se sentir mais segura e nossos tios não poderiam interferir.
Sofia ficou em silêncio, tentando digerir a ideia. Depois de uma pausa longa, foi o grego quem continuou a argumentar.
- Também seria uma forma de descansar e se recuperar dos ferimentos.
- Meus pais me buscariam assim que soubessem.
Miro suspirou. Detestava forjar situações como estava prestes a propor. Mas não conseguia ver melhor solução para o que enfrentavam agora.
- A tia Madge poderia dizer que você ganhou uma bolsa para estudar música por um mês e que quis partir antes que eles a impedissem. Então daremos um jeito de trazer algumas das suas coisas para viagem e com o resto eu me viro.
Sofia engoliu em seco.
- Já falou com ela?
- Não quis dar a notícia por telefone. Mandamos um carro buscá-la e conversaremos quando ela chegar.
- Eu não sei se esta história vai convencer meus pais.
- Não vai. Mas nos dará tempo suficiente para sairmos da Grécia.
- E Athena permitirá que fique tanto tempo fora?
- Dadas as circunstâncias, sim.
Miro ainda tocou-lhe o rosto, esperando pela resposta dela. O telefone voltou a tocar insistentemente e ficaram se olhando por algum tempo.
- E então, nós vamos?
Sofia titubeou. Queria mesmo fugir, desaparecer do mundo. Sabia agora que tudo ficaria estranho e doloroso por ela e Miro estarem brigados, principalmente ficando tão perto dele por todo aquele tempo. Mas era isso, ou admitir o que havia realmente acontecido e aceitar que os Ptolemaîos nunca mais a deixariam sequer ter notícias de Miro ou vice-e-versa. E isto seria algo que não podia suportar. O relacionamento poderia não estar funcionado como gostaria, mas ainda o amava profundamente.
Encarou-o no fundo do olhos. Era nítido que ele se sentia culpado pela tragédia. Estava tentando fazer alguma coisa por ela, para compensar e tentar perdoar a si mesmo. Também ela se sentia culpada por contrariar todas as recomendações dele e tê-lo deixado naquela situação. Vencida por seu próprios sentimentos, acenou afirmativamente com a cabeça e Miro finalmente atendeu o próprio telefone.
She's got a smile that it seems to me
Reminds me of childhood memories
Where everything was as fresh as the bright blue sky
Assim que notou que estava em um hospital seu coração disparou. Madge vinha caminhando apressada e com os olhos arregalados. Miro veio de encontro a ela, que imediatamente notou alguns ferimentos leves que ele tinha e o pegou pelos braços.
- Pelo amor de Zeus, sobrinho! Diga que a Sofia está bem ou eu vou infartar! Que diabos aconteceu?!
- A Sofia está bem, mas infelizmente foi por pouco. Por favor sente-se, tia. Precisamos conversar.
- Não vou conversar, coisa nenhuma! Me diga onde ela está e depois me entendo com você.
- Tia, calma. Senta, por favor.
- Me fala logo como ela está, Miro, ou vou ter um troço.
- Ela está com alguns hematomas e cortes superficiais. Teve uma costela trincada, mas o médico disse que ela só precisa de repouso.
- E como foi que se meteram numa encrenca dessas? Como isso foi acontecer?!
- Fomos atacados quando ela estava saindo do Santuário.
- Ah, Zeus! Tem certeza que ela está bem?
- Um pouco abalada, mas bem.
- Preciso vê-la. Agora.
- Antes prometa que vai nos ajudar.
- Da última vez que disse isso, me meti numa pior. Eu não vou…
- Os tios não podem vê-la assim. Muito menos saber o que realmente houve.
- Está maluco, filho?! É claro que eles precisam saber!
- Posso aguentar que me culpem, me odeiem ou me expulsem. Mas não posso suportar que a Sofia se prejudique ou que eu fique sem notícias dela.
- Quando a virem machucada, sabe exatamente o que farão.
- Pretendo fazer uma viagem com ela, até que se recupere. Mas vamos precisar do seu apoio, pra que...
- Ficou maluco, Miro! Isso nunca…
Now and then when I see her face
She takes me away to that special place
'Gratidão eterna por proteger nossa menina até o fim'
Correu os dedos sobre a inscrição gélida da pequena pedra de mármore escuro, abaixo da árvore que havia acima da colina próxima a casa de Escorpião. Uma lágrima brotou teimosa de seus olhos.
- Então essa era minha mãe...
O dourado alcança o ombro de Sofia.
- Ou talvez apenas alguém que queria protegê-la.
- Como ela era? Você a viu, não? Ainda se lembra?
Sofia enxugou o próprio rosto antes de encará-lo.
- Para ser franco, não me lembro muito. Mas creio que tinha os cabelos escuros, a pele era clara como a sua. Nós não... Não investigamos muito a fundo, sabe. Sei que parece errado agora, mas temi que você fosse parar em um orfanato.
Voltaram-se novamente para a inscrição. As pontas dos dedos de Sofia estavam avermelhadas e quase sem tato, devido ao frio da tarde. O pôr-do-sol já tingia as ilhas gregas de um tom adamascado característico. O cavaleiro retirou sua própria jaqueta e a colocou sobre os ombros da prima, que permanecia imóvel, com o olhar fixo na lápide. O vento assoviou mais uma vez, agitando-lhe os cabelos.
- Devíamos ir, Sofia. Está ventando muito forte.
Ele sabia que estava sendo cruel em apressar-lhe, mas tanto o sol, quanto a temperatura, caíam cada vez mais rápido. Sofia pareceu alheia às suas palavras e limitou-se a mover os dedos finos que jaziam sobre a pedra.
- Sonhei com aquele homem da armadura dourada outra vez. – disse por fim, em tom de voz muito baixo.
- É sempre o mesmo sonho?
- Não. Às vezes é um pesadelo horrível com mortes e tudo mais. Mas às vezes... Ele conversa comigo por muito tempo.
Miro notou que as pálidas mãos da menina começavam a atingir um tom arroxeado.
- Que tipo de coisas ele te diz?
- Que sempre vai estar por perto. Que nada de ruim vai me acontecer. Ou então...
Ele observou uma lágrima cair sobre o rosto fino.
– Que vai proteger você nas guerras.
- Sofia, escute...
- Mas eu não sei…
Ela respirou com dificuldade, tentando continuar a falar.
- Eu não sei até que ponto ele é criação minha ou...
Sofia passou os dedos sobre o rosto numa tentativa de secá-lo. Miro a puxou devagar, para que ficasse de frente para ele. Ele lhe segurou o rosto com ambas as mãos.
- Não vai acontecer nada comigo, Sofia. Tem que parar de se preocupar.
Ela abaixou a cabeça, com outras lágrimas resas aos olhos. Miro a puxou para si num beijo profundo e sincero. Sofia fechou os olhos, sentindo o conforto que o namorado lhe oferecia com o gesto.
O vento soprou novamente, abaixando a temperatura e dissipando a sensação quente do corpo de Miro. Sofia abriu os olhos e girou em torno de si mesma à procura dele, mas agora estava sozinha. Olhou mais uma vez para a pedra escura e a releu.
'Gratidão eterna por proteger nossas vidas até o fim'
Quis sair à procura de Miro, mas titubeou. Pensou ter lido errado da primeira vez e abaixou o olhar novamente, esfregando os ombros arrepiados com o frio. Retesou-se. Havia algo mais, abaixo da frase.
'Miro Ptolemaîos'
Despertou engasgada com as próprias lágrimas. Detestava quando algumas lembranças suas se misturavam aos seus medos mais profundos, formando um novo pesadelo. Fez uma careta de dor. Havia se levantado rápido demais e sentiu os ferimentos reclamarem. Secou o rosto com as costas da mão e olhou em volta, no quarto escuro do hospital. Sua tia estava adormecida na poltrona ao lado e o relógio marcava que eram ainda duas e pouco da manhã.
Miro estava de pé do outro lado do ambiente com os braços cruzados. Não sentiu sono ou paz o bastante para sair de perto dela e tinha passado a noite ali, vigiando o sono agitado da prima. Assim que a viu acordar assustada, aproximou-se dela e segurou sua mão.
- Outro pesadelo?
Sofia se recostou entre as almofadas com ajuda dele.
- Só os de sempre. Eu estou bem.
- Amanhã antes de embarcar, arrumamos outro celular ou algo pra você voltar a ouvir sua ópera. Agora tente descansar mais um pouco.
Ela apenas confirmou com a cabeça e apertou a mão dele como se lhe pedisse pra ficar. Miro acariciou seus cabelos e ali ficou, perdido em pensamentos, até que a mão dela afrouxou da sua e soube que voltara a dormir.
And if I stare too long
I'd probably break down and cry
- Messieurs et Mesdames, nous preparons pour l'aterrisage. Sil vous plâit, firmez les ceintures et votres dispositifs elétroniques...
Afastaram-se um do outro para ajustar o cinto e sentiram o avião inclinando pouco a pouco, aproximando-se do chão e diminuindo a velocidade. O aviso de desatar cintos tirou Sofia dos devaneios. A movimentação na aeronave para o desembarque havia iniciado e Miro estava de pé, pegando a mala guardada acima dos assentos. Soltou-se.
Não conseguiram conversar por toda viagem. Estavam tão absortos em seus próprios medos e anseios, que a única comunicação que mantinham, era o olhar. Apesar de tudo, estava curiosa para conhecer finalmente o melhor amigo de Miro e empolgada com a ideia de conhecer Anuska e o filho dos dois, que pelo que tinha visto nas fotos já devia estar para completar dois anos.
- Vamos?
Miro lhe ofereceu a mão para ajudar-lhe a levantar e ela aceitou, já que ainda estava um pouco dolorida. Saíram pelo corredor e ele apertou-lhe a cintura como quem guardava um tesouro precioso enquanto desciam as escadas.
Esperando sua última bagagem aparecer na esteira, Miro ficou a divagar sobre seus últimos dias antes da crise que agora enfrentavam. Quando enfim seguiram para o saguão de desembarque, Miro imediatamente reconheceu o famoso francês a espera, vestido em um terno elegante e com seu típico sorriso.
- Benvenue, amigo.
Escorpião deixou a bagagem no chão e abraçaram-se saudosos, trocando provocações e "elogios" comuns a grandes amigos. Somente depois de uma breve conversa é que Kâmus voltou-se para Sofia, disfarçando seu espanto por suas feições de menina. Embora soubesse que ela era mais nova, o amigo nunca mencionou sua idade e realmente não esperava que a diferença fosse tão grande. Agora compreendia melhor todas as desavenças e dificuldades enfrentadas pela família de ambos e teve pena das coisas que o amigo deveria ouvir de seus tios. Por fim sorriu educadamente para cumprimentá-la.
- Enchantè, Sofia. Então é você que está pondo um pouco de juízo na cabeça deste desajustado?!
Sofia finalmente sorriu sinceramente, sentindo-se acolhida.
- Ele continua desajustado, só disfarça melhor.
Miro fez uma careta, como se estivesse indignado.
- Viu o que eu disse? Formam uma dupla perfeita, pra me elogiar.
- Tinha razão quando disse que eu ia gostar dela.
Escorpião apenas sorri, enquanto seguem para a saída.
- Anuska e Isaak nos esperam para o almoço. O garoto está ansioso para conhecê-los.
- Sofia está louca para vê-lo. Vive espiando as fotos que manda e sempre me pergunta dele.
- Miro estava me contando outro dia Sofia, que minha afilhada Nadja adora passar horas com você para pintar as "obras de arte" que ela me manda.
- Ele aumenta um pouco. Mas como vê, mal chegamos e já está com ciúmes do seu filho também, só porque que adoro crianças.
- Isso nem precisava dizer. Para encarar este crianção, tem que ter muita paciência mesmo.
Kâmus foi rapidamente atingido por um soco no ombro e riu da indignação do amigo. Apesar da brincadeira, era um alívio para Miro estar perto de quem melhor o conhecia outra vez. A distância podia ser cruel às vezes.
Chegaram até o veículo azul escuro e deixaram a bagagem no porta-malas. Aquário estava para abrir a porta para eles, quando viu Miro fazê-lo para Sofia e achou graça no repentino cavalheirismo que não lhe era muito comum. O parisiense guiou o veículo na direção do centro e ficaram conversando sobre a cidade, pois Sofia tinha muitas de perguntas e ele tinha em mente algumas opções de lugares que poderiam visitar.
- Falando nisto, Sofia... Precisamos ter uma conversa séria sobre este aí. Tenho que me atualizar sobre as novas e você precisa saber das velhas.
Sofia riu, mas não teve tempo de responder.
- Nem pense em envenenar a Sofia com histórias, seu Pinguim.
- Envenenar, eu? Jamais, mon cher. Esta coisa de veneno é com você.
Oh, oh! Sweet child o' mine
Oh, oh! Sweet child o' mine
Oh, oh, oh, oh! Sweet love of mine
O dourado de Libra entrou no recinto e aproximou-se do trono de Athena, curvando-se perante a deusa.
- Com licença, senhorita.
- Em que posso ajudá-lo, Dohko?
Dohko enfim ficou de pé, encarando a sua senhora com ar sério.
- Na verdade, eu espero ajudá-la em algo.
Saori apenas sorriu. Dohko entregou-lhe algumas fotos antigas, das quais ela analisou por algum tempo.
- Este é Kardia, o antigo Escorpião. Shion e eu estivemos com ele naquela guerra fatídica. Antes de falecer, ele nos pediu para manter sua família sobre as asas do Santuário. Os Hadjides nos serviram fielmente por pelo menos duas gerações, até uma batalha há dezenove anos, em que tivemos muitas perdas. Toda a família foi dada como morta.
- Me lembro de algo assim. Houve um corpo que não foi encontrado na ocasião. Por que trouxe este assunto à tona novamente?
- Aioros nos contou que Sofia recebeu proteção da armadura de Escorpião. Sem a ordem de Miro, senhorita.
A deusa ficou pensativa. Libra lhe entregou outras fotos, desta feita de uma mulher de cabelos escuros. Analisou-as e esperou que ele continuasse a falar.
- A mulher desaparecida estava no último mês de gestação. Eu não obtive informações completas na época, mas há a possibilidade de que esta mulher tenha sido a última parente de Kardia que nos serviu. E se eu estiver certo, talvez a menina Sofia seja...
- Entendo onde quer chegar. A semelhança e o sorriso, são suficientes para ser possível.
- Senhorita Saori.
Aioros interrompeu a conversa apressado, aproximando-se.
- Athena, Dohko... – o dourado curvou-se por breves instantes. - Peço desculpas pela interrupção.
Saori o encarou em silêncio, como se lhe pedisse para prosseguir.
- Conseguimos uma confissão. Parece que quem produziu as armaduras que os aprendizes utilizaram e incentivou o motim foi Adan Masaishi. Na época de seu avô, foi assistente no projeto das armaduras de aço.
She's got eyes of the bluest skies
As if they thought of rain
I hate to look into those eyes
And see an ounce of pain
Chegaram a um grande edifício acinzentado e clássico. Kâmus estacionou e o grupo seguiu para o elevador, parando na cobertura.
- Voila. Sintam-se em casa. Mas você, Miro... Nem tanto, oui?
- Vou pensar no seu caso.
O aquariano sorriu pensativo enquanto destrancava a porta. A quem Miro queria enganar com aquela falsa alegria? Não quis comentar nada na frente de Sofia, mas via claramente em seus olhos que ele guardava uma tristeza perturbadora, que ia além dos acontecimentos já passados no Santuário nos últimos dias. Então por que fingir que estava tudo bem? Será que realmente acreditava que não perceberia?
Entraram no belo apartamento em silêncio, sentindo um aroma de lavanda no ar. O assoalho de madeira clara tomava emprestado o brilho amarelado que vinha da janela, semi coberta pelas cortinas azuis.
Foi o pequeno Isaak o primeiro a aparecer na sala, correndo em direção ao pai e parando em seguida para encarar os visitantes, com ar desconfiado. Kâmus alargou o sorriso e afagou-lhe os finos cabelos.
- Filho, estes são os amigos que estávamos esperando. Miro e Sofia.
- Oi.
Miro engoliu em seco, atônito. Era uma sensação estranha estar ali, diante daquela criança e loura com os olhos iguais aos do amigo, diante daquele apartamento. Tudo tornava mais real e palpável o universo que o aquariano agora fazia parte. Sorriu sem jeito e bagunçou os cabelos do menino. Viu Sofia inclinar-se com certa dificuldade e encarar Isaak com meiguice, provavelmente esquecida novamente do ferimento na costela.
- Então você é o famoso Isaak. Não parecia estar tão grande nas fotos!
Sofia afagou-lhe o rosto pequeno e o garoto se encolheu, agarrado à perna de Kâmus.
- Aí estão vocês.
Foi quando o outro anjo de madeixas douradas veio recebê-los. Altiva e ao mesmo tempo doce, delicada e ainda assim de presença marcante, os lábios rosados contrastando com a pele clara, lá estava Anuska. Com um brilho diferente e reluzente nos olhos, o sorriso mais aberto, mas ainda a mesma estrela. Seguiu em direção a eles com passos leves e emoldurados até alcançar os ombros de Miro.
– E como foram de viagem?
- O vôo atrasou um pouco, mas foi tranqüilo.
Enquanto respondia, olhou de relance para Sofia, que entregava um pirulito ao menino.
- E como vai a campanha nova?
- Corrida, mas as fotos estão ficando boas.
Anuska também olhou na direção do filho por um instante.
– Como é que se diz?
- "Meci".
Sofia alargou o sorriso e ergueu-se, para cumprimentar a linda esposa de Kâmus.
- É um prazer conhecê-la, Anuska.
Anuska ficou atônita com aquela delicada e frágil escultura grega à sua frente. Não pôde evitar entreabrir os lábios em espanto, um tanto sem jeito. Tentou não demonstrar a preocupação que sentiu ao encarar aqueles hematomas e o corte em seus lábios, lembrando o que Kâmus lhe contou. Mas havia outro espanto com a qual não conseguiu disfarçar. Nunca imaginou que ela fosse tão...
- ... Menina.
Sussurrou as palavras que escaparam, mas emendou o mais rápido que pôde.
- Menina, como estava ansiosa pra te conhecer! Por favor, entrem.
Os dois anfitriões conduziram a dupla até o quarto de visitas. Ao deixar as malas no quarto, Sofia pareceu constrangida ao olhar para a cama de casal. Encarou Miro como se quisesse dizer algo, mas não conseguiu. Anuska percebeu a mudança de cor do rosto dela e questionou.
- Está tudo bem?
- Ah... Está. Está sim. É que...
Miro veio em socorro e disse algo ao ouvido da modelo, que encarou Sofia novamente.
- Não precisa se preocupar, podemos resolver.
Kâmus arqueou uma das sobrancelhas, fazendo-se de desentendido para Miro, que o repreendeu com um olhar gélido.
- Venha Sofia, vamos deixar estes dois colocarem as fofocas em dia. Preciso ver se o Michel precisa de ajuda na cozinha.
Assim que Anuska conduziu Sofia e o filho para o outro cômodo, Kâmus riu cínico para o amigo, enquanto arrumavam as outras valises.
- Deixa eu ver se eu entendi. Três anos cortejado às escondidas de seus tios, mais um ano as rusgas com eles e...
- Kâmus.
- Miro, você vai ter que me desculpar. Mas conseguiu me surpreender...
- Cala boca.
Miro resmungou revirando os olhos, para divertimento do aquariano que a esta altura estava aos risos.
- Quatro anos é um recorde assustador, sabia?
- Não tem graça, Kâmus.
Kâmus riu-se mais uma vez, enquanto seguiram para sala.
- É, não deve ter mesmo.
Miro fuzilou-o com os olhos e Kâmus continuou sorrindo.
– Mas pensando bem, não fez mais do que obrigação em respeitá-la.
- Dá pra mudar de assunto?
- Certo. Então me diga o que está havendo.
Diante do silêncio do grego, o aquariano sentou tranqüilamente no sofá, acenando para que o amigo o imitasse.
- Miro, te conheço o suficiente. Tem alguma coisa errada e não é apenas o susto de quase ter perdido a Sofia naquele ataque.
Miro adquiriu ar perdido e suspirou.
– Eu já devia saber que ia notar.
- E então?
Miro ficou em silêncio por algum tempo, pensando por onde começar ou que dizer. Então finalmente desabou no sofá, sorvendo o ar.
- Ainda não sei o que fazer.
Kâmus sempre foi rápido para compreender as suas mais vagas frases, mas sabia que dessa vez tinha que se abrir mais.
- Errei muito com ela. Estava tão convicto em ignorar a minha família, que não me dei conta de que também a estava afastando de mim.
Respirou com pesar e um brilho opaco em seus olhos o mantinha distante.
– Enquanto ela enfrentou diariamente meus tios, eu a abandonei. Pedi que ela fosse forte para enfrentarmos eles e no fim, eu fui o fraco.
O francês o encarou e inclinou-se para frente.
- Ambos sabemos que não é só isso que te preocupa.
Sem telepatia, sem truques. Sem visão de raio x. Aquário era assim. Direto, sem rodeios... Preciso e certeiro. Tinha um profundo conhecimento sobre tudo o que Miro sempre escondia de todo mundo e era também o único a conseguir respostas a respeito. Escorpião solta outro suspiro pesado.
- Enquanto eu estiver com ela, continuará indo ao Santuário quando não tiver notícias minhas. Continuará correndo risco de vida e ainda que nos separássemos...
- ...Ela sempre vai temer pela sua morte. Não tem saída fácil nisso, Miro. Em ambas as situações, ela sofre. E pela primeira vez, você se importa demais pra ignorar.
- Me sinto egoísta por insistir em ficar com ela.
- Talvez não esteja sendo egoísta o bastante.
- Kâmus, você sabe que eu nunca...
- Não vou te dizer o que fazer. Mas daqui alguns dias terá visto o bastante para ter as respostas que precisa. Então voltamos a conversar.
Her hair reminds me of a warm safe place
Where as a child I'd hide
And pray for the thunder and the rain
To quietly pass me by
Sofia foi apresentada a Michel, o cozinheiro francês de trejeitos afeminados. Sorriu-lhe, lembrando-se de como Afrodite agia de modo semelhante quando exagerava na bebida. Anuska dava instruções a ele no idioma do país com Isaak a seus pés, chupando o pirulito que ganhara. A loira também observava a visitante vez ou outra, sabendo que levaria algum tempo até que ela ficasse mais à vontade.
Sentada em frente à bancada, Sofia ficou ouvindo aqueles sons estrangeiros que havia estudado há algum tempo e tentou acostumar-se com a rapidez com que falavam. Entendia duas ou três palavras por vez e esforçou-se para aumentar este número, até que sua mente divagou.
"- Não se preocupe, não faremos nada que Escorpião já não tenha feito."
Sobressaltou-se e encolheu-se com a imagem lívida de seu agressor, ao mesmo tempo em que Michel tocou-lhe a mão.
- J'ai adoré des bracelets.
- Merci.
Sofia respondeu sem jeito, escondendo os braços abaixo do balcão. Os adornos escondiam as marcas de seu agressor para os outros mas não para ela, isto ainda era difícil de encarar.
- Precisa de alguma coisa, meu bem?
Anuska se aproximou com ar maternal, percebendo-a ligeiramente pálida.
- A viagem deve ter sido difícil. Pode dizer do que precisa.
- Não quero parecer rude, mas um banho ajudaria.
- Venha comigo.
Anuska seguiu na frente e Sofia se ergueu titubeante. Avistou então uma pequena mãozinha estendida em sua direção e encarou os olhos claros de Isaak com ternura. Segurou-lhe a mão com um sorriso e os seguiu.
Descobriu que a parte mais difícil de tomar banho sozinha, era se despir e se vestir. Por sorte, sua tia era protetora o bastante por ter lhe trazido camisas de abotoar e calças de malha, que tornavam a situação menos desastrosa. Ficou algum tempo sobre a água quente do chuveiro, evitando que as gotas caíssem diretamente em suas costas e tentando não pensar em nada. Se vestiu ao terminar e ia saindo do banheiro, quando ouviu a porta do quarto encostar. Miro a aguardava.
- Sente-se.
Fitou-o em silêncio, a toalha com que secou os cabelos ainda nas mãos. Aquele olhar assustado e evasivo não conseguia dizer palavra. Sentou-se ainda sem entender o que ele queria, sentindo-se tensa com sua presença. Só reparou na caixa de primeiros socorros que estava sobre a cama, quando ele sentou-se do seu lado.
- Não tem que se preocupar com isso, eu mesma posso...
- Você não tem como enxergar suas costas. Só alguns curativos e vamos almoçar.
Ela resfolegou, sem jeito. Virada de costas, desabotoou os botões da camisa que usava em silêncio. Miro prendeu a respiração ao roçar os dedos pela pele quente e macia entre o pescoço e os ombros dela para ajudar. Sentiu o cheiro adocicado que ela exalava. Mas o coração quase parou quando a vista dele atingiu os cortes de suas costas, lembrando-o de porque sentia-se tão culpado nos últimos dias. Não eram tão graves ou profundos, mas mesmo assim eram muito mais do que ela jamais mereceu.
Levou muito mais tempo do que o necessário para refazer os curativos, pelo excesso de cuidado. O silêncio era dolorido, mas também a fina linha que ainda o mantinha conectado a ela. Ergueu a camisa clara novamente para que ela recolocasse o traje. Sentiu um arrepio na espinha ao visualizar com perfeição o desenho dos dedos de Masao em seus pulsos. O estômago revirou-se num misto de raiva e indignação, por não ter estado lá para impedir. Engoliu em seco, enquanto ela abotoou os últimos botões.
Sofia virou-se em sua direção. Miro segurou-lhe o queixo com as mãos, enquanto com um algodão umedecido limpava melhor o ferimento do canto da boca dela e verificava a vermelhidão do rosto. Ela fez uma careta de dor e fechou os olhos por um instante. Quando os abriu de volta, ele a encarava perto demais, a ponto de sentir-lhe a respiração ofegante. Uma lágrima correu teimosa até os lábios finos e delicados. Instintivamente Miro soltou o algodão e passou a mão sobre o pálido rosto para secá-lo.
- Obrigada, Miro.
- Sinto muito, Sofia. Por tudo.
Ela consentiu com a cabeça. A mão dele mantinha-se firme em seu queixo e ficaram assim por algum tempo. Miro parecia enxergar através de sua alma. E por alguns segundos, pensou que ele a beijaria ali mesmo.
- Tia Sofi, vem 'amoçá'!
A voz do pequeno Isaak rompeu o silêncio, enquanto batia desajeitadamente na porta. Sobressaltaram-se, quebrando a ligação de momentos antes. Miro entregou-lhe os braceletes e apoiou Sofia para que se levantasse.
Oh, oh! Sweet child o' mine
Oh, oh, oh, oh! Sweet love of mine
Where do we go? Where do we go now?
Where do we go? Where do we go now?
CONTINUA...
