Disclaimer: Os personagens de Saint Seiya pertencem a Masami Kurumada e a ele todos os direitos são reservados. Mas a personagem Sofia e os parentes do Miro são de minha autoria, portanto respeitem. Música incidental: "Think of Me" da Trilha de Fantasma da Ópera, composição de Andrew LloydWebber e Charles Hart.

O QUE PODE MUDAR A SUA VIDA?

Capítulo XI- Uma Inundação

Apoiou-se na grade com um suspiro e retirou o fone de ouvido voltando a realidade. Junto à visão das sombras verticais projetadas pelas estruturas metálicas, a vista que tinha era de tirar-lhe o fôlego. Diferente de sua Terra Natal, um centro urbano muito movimentado e agitado, uma área plana em que a vista seguia longe para prédios e construções monumentais modernas. Pessoas elegantes e muito sóbrias por toda parte. O tom violeta do céu se somava a um cinza chumbo de fundo e de alguma maneira misteriosa, a Torre Eiffel era um lugar encantador, estranhamente romântico.

Do lado oposto da construção, Miro a observava melancólico. A garota tinha os olhos perdidos no horizonte, colorindo de verde a cidade cinza com seu vestido xadrez de pregas. Os densos cachos escuros sob a boina preta e o all star de cano alto, davam a ela aquele ar rebelde que tanto amava. O corpete escuro completava o visual gótico, mas também o lembrava que era um recurso para manter a postura por conta de seus ferimentos.

Sofia sorveu o ar, ainda distraída. Olhou para a munhequeira de tecido preto do pulso, verificando se as manchas estavam devidamente escondidas. Podia ouvir os cliques e instruções atrás de si. A equipe artística de Anuska indo e vindo, as instruções de Kâmus e indagações curiosas do pequeno Isaak se misturando numa variedade de sons mecânicos e flashes.

Miro decidiu enfim se aproximar da prima. Percebendo sua presença, Sofia virou o rosto e esboçou um sorriso ao encontrar com as esferas azuis que a encaravam com alguma esperança. Mas voltou a olhar para o horizonte com um suspiro. Nos últimos dias, ela continuava no que parecia uma espécie de greve de silêncio com ele. Mesmo depois de algumas semanas, mantinha aquele ar distante e sequer falava mais do que o necessário, evitando sua presença. Isto o enlouquecia. Arregaçou as mangas da camisa clara e apoiou-se na grade, sorvendo o ar pesadamente e decidido a acabar com aquilo.

- Tem certeza que esse troço não está justo? Lembra que o médico disse que…

- Não está nem apertado, nem me impedindo de respirar.

Ela o encarou mais uma vez, mas ele desviou o olhar para o horizonte.

- Hm. Esqueci de te falar. O Mú encontrou a pedra do seu anel nos escombros, pouco antes de virmos pra cá.

Miro retirou uma pequena caixa do bolso da calça jeans.

– Eu mandei arrumar pra você.

Abriu a caixa e estendeu-a na direção das mãos de Sofia. Um brilho úmido passou por seus olhos escuros ao segurar o objeto que representava toda a história deles e quase se perdera. Aquele gesto significava muito para ela e Miro sabia disso.

- Obrigada. – sussurrou, por fim.

O cavaleiro tomou a iniciativa e precipitou-se para recolocar o anel na mão direita dela.

- Sofia… Pode me dizer por que tem me evitado tanto?

A menina engoliu em seco, com os olhos ligeiramente úmidos.

- Não estou.

- Entendo que está chateada. Mas o lance de me ignorar é bem cruel, sabe.

Sofia tomou fôlego, sentindo a voz falhar. Não conseguiu encará-lo e fixou os olhos no horizonte.

- É difícil admitir que estava certo sobre nós.

- Certo sobre o quê exatamente?

Uma lágrima escorreu por seu delicado rosto.

- Que eu ia querer mais do que pode me dar.

Miro a encarou, com pesar. Escutar dela o que já imaginava, era ainda muito pior do que ter uma espada atravessada no peito. Aspirou todo ar que conseguiu, mas sentiu como se entrassem flechas no lugar do oxigênio.

- Mas eu sei… Que não posso te pedir que…

Ela tenta recobrar o fôlego e o raciocínio.

- E mesmo assim não quero… Não quero perder você, Miro. E isso… Isso é tão confuso, tão… Complicado… Sem sentido e...

- Eu sei.

Miro enfim conseguiu falar. Vê-la sofrendo para expressar seus sentimentos já o havia torturado por tempo demais.

- Por que acha que te trouxe pra longe da nossa família? Ou não te dei outro celular?

Ela o encarou, confusa, tentando secar os olhos com as mãos.

- Isto é entre eu e você. E com eles na nossa orelha ou as coisas do Santuário na minha cabeça, só consigo ficar louco!

Ele a tocou no rosto, após um suspiro cansado.

- Eu quase perdi você. E não quero arriscar que aconteça de novo.

As últimas palavras soaram firmes. Em um curto momento de silêncio, os dois se entreolham com pesar e amor. De súbito, um beijo intenso e apaixonado pegou Sofia de surpresa e a desmoronou por instantes que pareceram uma eternidade.

Empurrou-o levemente com pesar, ainda sem fôlego e com o coração descompassado. Seus sentimentos, desejos e decisões misturavam-se num turbilhão desconexo.

- Miro eu...

- Eu sei que devia ter tido mais paciência com eles. Me dê tempo pra pensar numa saída pra nós dois.

Sofia engoliu em seco e tentou sorrir.

- Me dê esse tal tempo também. Por favor.

Ela prosseguiu se desvencilhando dele e se afastou apertando o passo na direção do elevador, tentando esconder as lágrimas. Miro não a seguiu.

A esta altura, Kâmus já se aproximava, percebendo que havia algo errado.

- Não é melhor ir atrás dela?

- Ela não vai longe.

Um suspiro transpassa pesado por seu corpo.

Kâmus não entende de imediato e arqueia as sobrancelhas.

- Posso ajudar em alguma coisa?

- Já está me ajudando muito, Kâmus.

Think of me, think of me fondly,

When we've said goodbye.

Remember me once in a while

Please promise me you'll try.

Despertou de um tempestuoso e confuso pesadelo com o peito arfante e o rosto encharcado de suor. Sonhara com o assassinato de Sofia, por inimigos do Santuário. Levantou-se do colchão estendido sobre o tapete o quarto. A vislumbrou sob a penumbra, na cama de casal ao seu lado em sono profundo. Respirou aliviado e sorriu ao vê-la usando o fone de ouvido de um ipod - ela continuava com a mania de dormir ao som de Fantasma da Ópera.

Seguiu para o banheiro em silêncio para lavar o rosto. Lidar com aquele tipo de sensação não era tarefa fácil, muito menos agradável. Sofia era o que havia de mais valioso em sua vida e não estava disposto a colocá-la em risco outra vez. O mais esquisito, era que até alguns dias trás, jamais tivera medo de morrer por Athena. Mas agora… Tendo quase perdido sua garota, conseguia entender muito melhor os sentimentos dela. Como poderia deixar Sofia para trás?

Jogou a água fria sobre o rosto com as mãos e jogou os cabelos para trás. Olhou-se no espelho e virou-se para trás num pulo. Podia jurar ter visto um homem de com uma grande semelhança física a sua, acenar-lhe com a cabeça logo atrás de si, encarando-o com os olhos claros e um sorriso familiar. Esfregou os olhos, rindo de si mesmo. Precisava de uma boa noite de sono.

Voltou-se para fechar a torneira e olhou para o espelho mais uma vez. Não tinha mais nada lá. Sentiu um calafrio. O vento soprou pela janela e pensou ter ouvido um sussurro.

- Quero ver se tem força suficiente para acender a chama de seu coração.

Boquiaberto, passou a mão sobre a testa para voltar a respirar. Não entendia o que aquilo significava e não queria entender. Só podia ser fruto da sua imaginação. Secou o próprio rosto com a toalha.

Levou um novo susto quando seu próprio celular iluminou o recinto através da porta entreaberta, vibrando eloqüente sobre a cômoda de madeira do quarto. Atendeu-o depressa e afastou-se da cama.

- Alô.

- Acho que me confundi um pouco com o fuso-horário, não?

- Não seria a primeira vez, "grande mestre". – respondeu em tom de deboche. - Que aconteceu? Estão com algum problema?

- Não se preocupe. Tem coisas mais importantes para resolver por aí. Como ela está?

- Melhorando.

- Conseguimos informações sobre a família dela. Quando voltarem, Athena explicará tudo com mais calma. Mas prepare-se para a ironia do seu destino.

- Isso é algum tipo de piada?

Miro ouviu um riso sarcástico do outro lado da linha.

- Acontece que o bisavô dela foi o seu antecessor, Kardia, o antigo Escorpião. Dohko ficou intrigado com o episódio da sua armadura, achou a fisionomia dela familiar e somou dois mais dois. Não sei o que acha disso, mas é exatamente o que eu chamo de ter a vida traçada pelas estrelas.

- Isso é piada. E uma piada estúpida.

Outra gargalhada.

- Conseguimos algumas fotos e achamos documentos que podem comprovar o que digo. A família do dourado permaneceu junto ao Santuário mesmo depois da morte de Kardia. A neta dele era a última parente viva a nos servir, quando desapareceu numa batalha, pouco depois de dar à luz.

Miro ficou em silêncio por um tempo, digerindo a informação.

- Vamos esperar por vocês, para maiores esclarecimentos.

- Sofia terá milhões de perguntas.

- Faremos o possível para respondê-las.

- Agora preciso desligar, Saga.

- Cuide bem dela, Escarlate. O Santuário tem eterna dívida com aquela família.

Desligou o telefone e sentou-se ao lado da cama em que Sofia dormia, pensando no que acabara de descobrir. Acariciou-lhe o rosto de leve, afastando alguns cachos de seu rosto. Lembrou-se da noite em que a encontrou nos escombros entre os braços de uma jovem que a protegeu antes da própria morte. Ele era ainda muito jovem, estava em treinamento. A constelação de Escorpião brilhava forte e chamou sua atenção até o local. Aquilo o marcou profundamente e deu novo sentido aos seus princípios. Jurou lealdade àquelas estrelas desde então. Sua existência dali em diante seria para evitar tragédias como aquela. Se pudesse evitar que mais inocentes como ela ficassem sem família, daria sua vida.

Estaria seu antecessor olhando por eles naquele instante fatídico? Teria sido ele a enviar sua armadura em proteção a Sofia, quando ele próprio falhou recentemente?

Suspirou pensando no quanto a amava, hipnotizado por sua delicadeza ímpar. Repensou seu juramento de anos atrás e sobre o que ele realmente significava agora que sabia da verdade. Estaria distorcendo as palavras de seu coração em favor de si mesmo ou devia realmente considerar aquilo?

Voltou a se deitar, com a palavra "coração" fixada em sua mente. Lembrou-se do que Saga acabara de lhe contar sobre seu impetuoso antecessor. Seria possível que...?

- Não. Eu estou ficando louco.

When you find that, once

Again, you long to take your heart back and be free

If you ever find a moment

Spare a thought for me...

O tempo continuava a correr. As manhãs e as tardes iam delineando os passeios entre Notre Dame, Museu do Louvre, Institut de France e "Le Pont des Arts", a praça dos Pombos e outros locais turísticos marcantes dos quais a equipe fotografava Anuska para a campanha "Ma France" da Dior. Sempre seguida pelo esposo e o filho, que agora tinham como companhia o casal grego, que aproveitava para conhecer a cidade. Miro sentia-se entediado até o último fio de cabelo, mas suportava tudo com um sorriso sincero, quando via a expressão interessada de Sofia.

Naquele dia, as fotos tinham sido noturnas e os cinco resolveram caminhar pelas ruas para respirar o ar fresco da noite. Kâmus fizera uma pausa para comprar os itens que faltavam para o jantar e Miro o acompanhou. Gostava de perceber o quanto Anuska e a prima estavam se dando bem e de vez em quando dava espaço a elas.

As duas aguardavam pacientemente do outro lado da calçada, distraindo Isaak com as vitrines. Foi então que Sofia avistou uma loja de música e não conseguiu se conter.

- Vou dar uma olhada e já volto, tudo bem?

A mais velha concordou com um sorriso e a garota entrou no estabelecimento. Sua visão tinha um só destino: um belo exemplar de violino que estava disposto entre as flautas doces e os violoncelos, sobre uma valise de couro. Era fascinada pelo instrumento desde muito pequena e ficou a admirá-lo com os olhos fixos. Um vendedor elegantemente vestido, logo percebeu o encanto que o instrumento provocava na moça e aproximou-se prestativo.

- Eh-Interessée?

- Désolée, je ne pense pas que je peux l'acheter...

O vendedor a olhou por um momento sorridente, tentando avaliar o que poderia diminuir sua frustração, ou convencê-la a adquirir o instrumento em outra oportunidade.

- Vous ne trouverez pas un bruit son. Voulez-vous l'essayer?

Sofia o encarou consternada, tentando acreditar na sugestão que lhe era feita.

- Je peux?

- Oui, d'accord.

Ainda com certo receio, ela tomou o instrumento nas mãos e posicionou-se, ante o incentivo silencioso do rapaz, que preparou-se para algo levemente desafinado. Para sua surpresa, o som extraído foi suave e melodioso, imediatamente reconhecido por quem ouvia como "All I Ask of You". O que mais chamou atenção, foi o momento do refrão, em que com maestria e perfeição, a melodia misturou-se com "Fear of the Dark", encantando os presentes e atraindo curiosos para o local.

Sofia, distraída com o som do instrumento, demorou a perceber que era o centro das atenções quando, sem jeito, interrompeu a música. A esta altura, juntamente com vários franceses que a aplaudiam, também estavam Anuska, Isaac, Kâmus e Miro. Todos espantados com aquele desconhecido talento. Escorpião era o único que parecia sério demais, encarando-a. Os outros três seguiram na direção dela, indagando em tom de brincadeira, quantos dons ela ainda tinha escondidos nas mangas.

Durante todo o retorno e também durante o jantar, Miro ficou em silêncio e evitou o olhar de Sofia, que conversava animada com os amigos sem notar – ou fingir que não notava – a expressão sisuda do primo. Ele, ao fim da refeição, levantou-se dizendo que iria dar uma volta.

Apesar do clima pesado, ninguém respondeu ou o impediu. Sofia ajudou a recolher os pratos e arrumar a cozinha também em silêncio. Anuska e Kâmus preferiram não interferir e também mantiveram-se calados. Assim que acabaram, a menina seguiu para o quarto, tomar um banho. Não conseguia entender muito bem o que havia de errado.

Quando saiu descalça do banheiro penteando os cabelos, vestida com uma camiseta e uma calça leve, viu que o primo já chegara e estava encostado na sacada da suíte, com a expressão mais severa que já vira.

- Já desocupei o banheiro, se quiser usar.

Houve um longo silêncio até que ele respondesse, ainda de costas e com a voz alterada.

- Você toca violino e eu nunca sequer a ouvi.

Sofia tentou responder em sua defesa, quando ele virou-se na sua direção e ela perdeu a coragem, engolindo seco.

- Aliás, nunca te ouvi cantar. Mas sobre o violino, eu sequer sabia a respeito.

- Por estudar música, tenho que conhecer algum instrumento, mesmo que o foco seja o canto. Não achei que fosse importante que...

- Você é importante pra mim, Sofia. Tudo o que faz tem importância.

- Não sei o que te dizer.

- Talvez eu tenha feito por merecer todo esse silêncio.

- Miro...

Escorpião pegou um embrulho que estava em sua mão e colocou sobre a cama.

- Não sei se já tem o seu, mas pareceu gostar deste.

Sem dar tempo de resposta, ele entrou no banheiro pegando uma toalha e fechando a porta.

Sofia deixou-se desabar sentada sobre o colchão. Olhou para o embrulho assim que ouviu o som do chuveiro. Sabia o que havia nele e estava constrangida e confusa. Nunca tivera seu próprio violino, pois era um pouco caro e seus pais diziam que devia experimentar o antigo piano de tia Berenice. Mas não tinha muita paciência com as teclas. Já o instrumento famoso por sua ausência de notas marcadas, a fazia sentir toda sua vida numa simples canção. Descobrir um som novo, uma nota nova, era como descobrir a si mesma.

Abriu o pacote e vislumbrou a valise de couro que o protegia, ainda emotiva. Passou a mão pelo fecho e o abriu devagar. Passou os dedos levemente sobre ele, como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Ali ficou por muito tempo, sentindo a textura da madeira e das cordas, com a culpa a lhe corroer. Era estranho como coisas tão simples, poucas palavras ou um breve descuido tivessem um poder de mágoa tão grande. Jamais imaginou que aquilo importaria tanto para Miro, quanto importava para ela.

O ruído da porta assustou-a, fazendo com que fechasse a caixa rapidamente, enxugando o rosto. O porte alto do grego de cabelos ainda úmidos, vestido apenas com uma calça, roubou seu fôlego. Tinha algo na largura dos ombros dele que lhe parecia absolutamente perfeito. A proporção dos músculos definidos sem exagero, até mesmo as diversas cicatrizes o deixavam mais imponente. A fingida frieza dos olhos azuis era ainda mais impressionante e encantadora, fazendo de conta que não percebia estampado no rosto dela o magnetismo que provocava. Sofia tentou recobrar o ar. Miro arrumou suas coisas e ajeitou-se no colchão ao lado da cama em silêncio, torturando-a com a atitude indiferente.

- Nem sei como te agradecer. Eu...

- Já agradeceu. Agora vá descansar.

- Boa noite, Miro.

Aquela noite lhe custou a acabar. Passou-a praticamente em claro, olhando para o violino até ter coragem de finalmente guardá-lo. Foi só quando os primeiros raios de sol invadiram a janela, que finalmente conseguiu fechar os olhos e adormecer.

We never said our love was evergreen,

Or as unchanging as the sea

But if you can still remember,

Stop and think of me...

Miro conversava animadamente na sala de jantar com o casal, após o almoço. O cavaleiro estava falando algumas bobagens, fingindo estar indiferente ao ocorrido da noite anterior, quando ouviram um som familiar e melodioso, muito baixo, sair abafado pela porta. Sua namorada já ouvira aquilo tantas vezes, que Miro reconheceu a canção "Think of me" imediatamente e ficou ali, paralisado tentando escutá-la melhor.

- Posso saber o que ainda está fazendo aqui, Miro?

Escorpião caiu em si com aquelas palavras de Kâmus e sobressaltou-se. Isaak sentou no colo de Anuska tomando seu suco, enquanto ela sorria para o cavaleiro em aprovação.

Miro entrou no quarto e observou a sombra sobre a cortina que esvoaçava com o vento. Fechou a porta devagar e parou encostado no batente da saída da pequena sacada. Com os cabelos soltos e o brilho dos olhos escuros iluminado pela luz da manhã, tinha ar perdido fingindo ignorar a presença dele.

O grego estava emocionado demais para dizer alguma coisa. Demorou a aproximar-se, com medo de estragar o momento. Por fim, deu mais alguns passos em sua direção, envolvendo-lhe a cintura e beijando-lhe no canto da orelha suavemente.

Sofia escorregou nas notas e suspirou, abaixando o instrumento. Sem conseguir olhá-lo ainda e muito corada, continuou a canção cantando em tom soprano.

-"Think of all the things We've shared and seen

Don't think about the way things might have been

Think of me, think of me waking silent and resigned

Imagine me, trying too hard to put you from my mind

Recall those days, look back on all those times

Thinks of the things, we'll never do

There will never be a day, when I won't think of you..."

Ele a virou para si suavemente. Tocado pelo o significado do gesto e da música, acariciou seu rosto com a mão e ficou algum tempo a admirá-la em silêncio.

- Não existe saída, não é?

A frase dela era quase um sussurro e estava claro em seu olhar o quanto estava triste, embora tentasse sorrir. Miro apenas meneou a cabeça em negativo e engoliu em seco, assustado pela intensidade do pesar que sentia pela resposta que dava. Sofia baixou os olhos. Se afastou dele. Seu corpo todo doía por fazê-lo. Entrou no quarto e deixou o violino sobre a caixa que jazia na cômoda.

Ao se virar, percebeu o primo estagnado onde o deixara, com o olhar perdido no horizonte. Era tudo tão difícil para os dois… No dia seguinte estariam de volta à terra natal e à todos os problemas que lá enfrentavam. A lógica dizia que era impossível continuar assim. Mas também ela apontava para o fato que, depois de passar por tantas coisas, seria tolice deixar tudo pra trás.

- Te amar é a melhor e a pior coisa do mundo, Miro.

- Prometi respeitar o que decidir.

Sofia tocou seu ombro e segurou sua mão, fazendo-o entrar e encará-la novamente.

- Eu quero o melhor pra nós dois.

A menina o tocou no rosto, o sorriso mareado e a voz embargada. Mirou ficou o mais sério e controlado que conseguiu. Sentia que aquele era o momento em que ela definitivamente terminaria com ele e já era doloroso demais antes mesmo de acontecer. A menina aspirou o ar, antes de se encorajar a continuar:

- Ainda que isto também custe o pior... Enquanto não quiser desistir de mim, eu não desisto de você.

O grego piscou embasbacado com a resposta e foi Sofia que o puxou para perto de si. Assim que seus lábios se tocaram, Miro envolveu-a pela cintura com quase toda força que possuía, num beijo ardente. A saudade era mais forte que a razão e ele não queria dizer mais nada. Só queria tê-la nos braços como temeu que nunca mais teria.

O desejo lhe consumia como nunca. Quando se deu conta, tocava seu corpo com uma urgência descomedida. Sofia estava ofegante e tão envolvida quanto ele, naquele sentimento forte que lhe invadia todo o corpo. Pareciam tão ávidos da presença um do outro que tinham-se esquecido do restante.

As mãos dele subiram por baixo da blusa dela e uma onda de desejo percorreu o corpo de Sofia com um arrepio forte, fazendo-a notar que já não tinha medo de se entregar completamente a ele. Mas então se lembrou onde estavam e percebeu o quanto aquilo era loucura.

- Miro, espera... a gente não pode...

Três batidas na porta tiveram a função interromper os beijos e o clima. Sofia tentava recuperar o fôlego, enquanto abaixava a própria blusa.

- Vocês estão bem?

Quando a voz de Kâmus invadiu o quarto, entreolharam-se num sorriso com um misto de malícia e decepção. Sofia se adiantou e afastou-se para abrir a porta, torcendo para que não estivesse muito corada.

- Estamos, sim.

Kâmus não pôde deixar de reparar em Miro na outra ponta do ambiente virado de costas, passando a mão pela nuca e tentando recuperar o controle próprio. Só então o francês percebeu que os havia interrompido e tentou sorrir naturalmente.

- Anuska ficará chateada, se não provarem a sobremesa.

A menina acenou em afirmativo com um sorriso sem graça. Quando ela passou pelo francês, Kâmus notou que o grego sequer se mexeu de onde estava. Mas antes que o antigo Aquário se retirasse, o grego resmungou em tom de ameaça:

- Ajudou pra caramba, Kâmus.

A amigo só restou rir, afinal já estava feito. Seguiu na direção do outro cômodo, encontrando Anuska conversando distraidamente com a menina.

- Tem certeza que está melhor para ir, Sofia?

- Como o médico tinha dito, trinta dias foram suficientes. Os remédios e as dores finalmente acabaram. Eu não teria conseguido tocar violino ontem, se não estivesse recuperada, acredite.

- É uma pena que já estejam para partir. Logo agora que as fotos acabaram, podíamos ter mais tempo para mostrar lugares menos turísticos.

- Não posso perder mais aulas na faculdade, Anuska. E além disso...

- Descobriram sobre sua verdadeira família no Santuário. Entendo sua ansiedade, chérie.

Continuou Kâmus com um sorriso.

- Mas não deixa de ser uma pena.

Assim que Anuska termina de falar, Miro finalmente reaparece. Trocou um olhar incandescente com Sofia, que imediatamente corou. Os dois franceses ficaram aliviados por finalmente vê-los agir como um casal. Tentando se redimir com o amigo, Kâmus sugeriu:

- Temos que fazer compras e cuidar das documentações finais do contrato, mas no caminho podemos deixá-los de frente ao Ópera Garnier.

Percebendo as intenções do marido, Anuska continuou:

- Se não me engano Hamlet está em cartaz esta semana, mas só o edifício já vale um passeio. Tem um Bistrot muito bom ali perto, onde podem jantar depois da peça.

- Parece ótimo.

- Tem certeza, que está mesmo no clima de ópera, Miro?

- Hamlet não deve ser pior que Orpheu, Psyché, Romeu e Julieta ou Daphne.

Ele satiriza com uma cara de desdém, o que a obriga a bater em seu ombro pela provocação ao seu romantismo trágico.

Kâmus e a esposa riram descontraidamente. Anos antes, o grego jamais saberia citar Psyché ou Daphne. Mas ainda não parecia ter qualquer ideia do drama contido em Hamlet, o que era ainda mais engraçado.

- Se estão todos de acordo, significa que antes de qualquer coisa, preciso levar a Sofia para comprar um vestido no mínimo, deslumbrante! - Anuska continua.

- Quem sou eu, pra atrapalhar.

Miro responde com um sorriso sedutor, antes que Sofia tivesse chance de falar.

Can it be?

Can it be Christine?

Long ago, it's seems so long ago,

how young and inocent we were

She may not remember me,

but I remember her...

Não conseguia parar de olhar como aquele vestido tipo grego azul-marinho tinha um decote extremamente cruel. Distraído com a visão que tinha do seu lado da mesa, demorou para perceber que Sofia estava falando com ele.

- Miro, você ainda está respirando?

Piscou algumas vezes e sorriu com malícia, tocando-lhe a mão pousada sobre a toalha, para indicar que a ouvia.

- Eu estava dizendo que seria incrível e pudéssemos ter mais noites como esta. Mas pelo jeito, fiquei falando sozinha.

- Você está tão linda que eu… Desculpe.

Sofia tentou disfarçar que foi pega de surpresa pelo elogio, mas seu tom de pele não ajudava a disfarçar. Tomou outro gole de seu vinho, antes de conseguir voltar a falar.

- O espetáculo foi assim tão ruim?

- Imagine! Que final melhor poderia haver? Todos morrem!

Disse irônico, sem conseguir disfarçar o riso.

- É uma ópera, Miro. Óperas são trágicas por natureza!

- Sabe, se tivesse me dito isso há quatro anos, talvez eu não tivesse tanta raiva da maioria.

Sofia ri como há muito não fazia com tamanha espontaneidade, o que ilumina o coração do dourado.

- Isso eu duvido.

- Eu disse que não teria tanta raiva, não que iria gostar.

- Ah! Isto faz toda a diferença, sem dúvida.

A morena se inclinou com um sorriso atraente e o beijou com volúpia.

- Quer que eu te recompense, pelo esforço em disfarçar que quase morreu de tédio?

A frase sussurrada o arrepiou, acendendo-lhe os desejos todos.

- Não tenho certeza se devia estar tomando tanto vinho. - ele brincou para provocá-la.

- Tenho dezenove anos, estou há um mês em Paris com meu namorado e tudo que fiz até agora, foi brigar com ele, tomar remédios pra dor e evitar coisas como esforço, álcool ou diversão.

Miro alargou o sorriso e estreitou os olhos, observando-a enumerar toda aquela lista com expressão insatisfeita. Só então puxou o queixo dela para outro beijo, desta feita longo e arrebatador. Sofia permaneceu de olhos fechados por um instante e soltou um suspiro longo antes de voltar a mirá-lo.

- Pode continuar me beijando assim, só até amanhã.

A grega ri misteriosa, alcançando a própria taça de vinho para beber o restante, num último gole. Ela estava mesmo sugerindo o que parecia estar?

Flowers fade, the fruits the summer fade,

they have your seasons so do we

but please promise me, that sometimes

you will think of me

CONTINUA...