Tempos de Mudança - Capítulo 4

Recados:

- Olá. Estamos no Carnaval, mas isso não significa que eu vou deixar vocês na mão.

- Esse capítulo tem cara de filler, mas ele vai servir para deixar tudo preparado para os próximos.

Agradecimentos:

- Virgo Nyah - Se eu perder o rumo, você me avisa. Que bom que está gostando. Sim, eles são um casal, mas ainda vai acontecer muita coisa até os dois ficarem juntos.

Boa leitura.


Faculdade de Atenas

- Irakasleen (Professor) Aramis.

- Bai? (Sim?)

Shura caminhava pelos corredores da faculdade quando ouviu sua voz ser chamada. Virou-se, e observou uma de suas alunas vindo até ele de forma apressada.

- Kaixo (Olá), Diana. Por que não veio na aula hoje?

- Barkatu (Desculpe), mas eu tive um imprevisto. Mas eu vim mesmo assim para poder entregar o trabalho que o senhor havia dado na última aula.

Então abriu sua bolsa, entregando algumas folhas grampeadas para ele.

- Ah, sim.

Pegou as folhas, dando uma folheada por cima.

- Preciso olhar melhor, mas parece estar tudo em ordem. Se continuar se dedicando dessa forma, logo será uma Euskaldun.

- E... Eskerrik asko (M.. Muito obrigada).

Ela falou ficando envergonhada.

- Bom, eu vou indo então. Gero arte (Até mais).

- Gero arte (Até mais).

E da mesma forma apressada com a qual ela apareceu, ela partiu. Ele ficou a observando sumir no corredor, até que outra voz o fez virar a cabeça novamente

- Néih hóu (Olá), Shura.

- Ah, me desculpe Dohko, mas Cantonês não é minha praia.

Os dois gargalharam enquanto o recém-chegado se aproximava mais.

- Como foi seu dia?

O chinês revirou os olhos.

- Primeiras aulas da turma. Estou tendo problemas.

- Sei como é. Hoje o meu foi tranqüilo. Entrega de trabalho e revisão para a prova.

- Então foi isso que aquela bela jovem lhe entregou?

- Sim. Ela faltou na aula e veio trazer agora. A Diana é uma moça muito dedicada.

- Eu acho que é mais que isso...

- Como?

- Nada não... Vamos embora?

-... Vamos.

Falou ainda estranhando que o seu amigo falou. A amizade entre os dois se estreitou bastante por causa da convivência quase que diária. Foram até suas salas, onde pegaram seus pertences e foram para casa.


Japão

Já era noite quando Ikki chegou em casa. Havia comido algo na rua e tudo o que queria era tomar um banho e deitar em sua cama após um dia cansativo de estudos. Passava pelo curto corredor quando um som lhe chamou a atenção, e ele vinha do quarto do seu irmão. Conhecia bem aquele som. Sabia que era falta de educação, mas não resistiu. Abriu a porta, deixando que som do violoncelo que seu irmão tocava chegasse mais claramente aos seus ouvidos. Não deixava de se surpreender toda vez que ouvia o instrumento, que seu irmão mais novo tocava com cada vez mais maestria, apesar de fazer aulas apenas há poucos meses. A peça tocada por ele era intensa, cheia de angústia nas notas, e não deixou de pensar que ele também se sentia daquela forma. Desde o anúncio da tal festa na Grécia ele estava arredio, pensativo, longe do mundo. Quando as notas cessaram, fez sua presença ser notada com alguns aplausos, o que fez Shun virar a cabeça assustado e depois envergonhar-se.

- Ikki?! Desde quando você está aí?

- Tempo suficiente para admirar você tocando.

Shun envergonhou-se mais ainda. Ikki pediu licença e entrou no recinto.

- Meus parabéns. Você está tocando cada dia melhor. Se continuar assim poderia se tornar até mesmo um profissional.

- Ai, Ikki. Não exagera. Isso é só um hobby.

- Eu acho que você deveria pensar melhor isso. Agora vem cá...

Ele então segurou na mão do irmão mais novo e fez sentar-se na cama, repetindo o gesto em seguida.

-... Você vem agido estranho nesses últimos dias. O que está acontecendo?

Ele não respondeu, apenas abaixou o olhar.

- Por acaso você não quer ir nessa festa?

O virginiano mordeu o lábio. Ele parecia mesmo incomodado com algo.

- Não é bem isso, mas...

- Mas o que?

- Como eu vou explicar... Eu acho que depois de praticamente nos matarmos nas batalhas no Reino Submarino, vai ser estranho nos encontrarmos com Poseidon e seus Generais novamente. Você se lembra que eu também não estava totalmente à vontade na primeira vez que fomos ao Santuário depois dos cavaleiros de ouro voltarem.

- Eu lembro, mas não demorou a você se acostumar.

- Só que dessa vez vai ter muito mais gente que eu não conheço. E...

- E...

Mesmo depois de tudo, tinha a impressão que ele ainda escondia o real motivo de estar assim.

- Bom, tem uma pessoa que eu queria encontrar lá, mas ao mesmo tempo estou preocupado.

De repente Ikki se viu de volta no tempo, quando Shun o contou sobre o que sentia por Hyoga. Ele já suspeitava, mas quando teve a confirmação não pode evitar a surpresa. Como o irmão mais velho, entendeu e apoiou a decisão dele, apesar do relacionamento ter sido um fracasso.

- Preocupado com o que?

- Sei lá. Desde que a Saori falou dessa festa, parece que a vontade de estou de vê-lo aumenta a cada dia. Eu tenho a sensação de que tenho um assunto inacabado para resolver.

- Shun, me escuta. Não adianta se preocupar por antecipação. Olha só, você vai fazer suas malas, viajar para a Grécia, encontrar essa pessoa, e depois você vai ver que ficou sofrendo aí à toa.

Disse em um tom de ordem, mas um sorriso no rosto, o que acalmou o virginiano.

- Acho que você tem razão, e é melhor eu começar a fazer mesmo, pois vamos depois de amanhã, bem cedinho.

- Eu também preciso fazer as minhas, mas eu estou morto hoje. Boa noite, Shun.

- Boa noite, nii-san.

O irmão mais velho caminhou até a porta do quarto, e antes de sair, virou e perguntou.

- Posso saber quem é?

- É segredo, por enquanto.

- Só não sendo alguém como aquele pato... Até mais.

- Até.

Enquanto Ikki ia para o quarto, Shun guardou seu instrumento e também foi preparar-se para dormir.


- Como você teve coragem de fazer isso, seu moleque?!

- Eu? Como que o senhor teve coragem?! Destruir uma vida, uma família, por ganância.

Ela observava a cena sem saber o que fazer. Seu marido e seu filho discutiam na sala, a ponto de chegar a se agredirem. Somente nesse momento aproximou-se para apartar.

- Parem com isso vocês dois!

- Quer saber, fora! Não quero ver mais sua cara na minha vida!

- Querido, por favor...

- Não precisa pedir duas vezes. Eu que não tenho mais vontade nenhuma de ficar no mesmo lugar que você.

Via o filho subindo para seu quarto, e ficou sem saber o que fazer. Depois de algum tempo, subiu atrás dele, vendo-o fazer suas malas.

- Por favor, não faz isso.

- Tarde demais. Mãe se cuida, tá? Não deixe ele tentar transformar meu irmão. Eu juro, eu volto um dia.

Com apenas uma mala cheia com tudo que achava necessário, desceu as escadas e sem olhar para a cara do pai, saiu de casa. Sua mãe foi até a porta, tentando ainda em vão chamá-lo de volta.

- Filho, por favor, não vá! Filho...

- Pierre!

Quando se deu conta, estava em sua cama. Já era dia, e estava sozinha. Seu marido já havia ido para o serviço. Ela havia tido aquele sonho mais uma vez. Havia sonhado com aquela noite horrível. Sentou-se na cama, e sentiu os olhos rasos. Além de não ver mais seu filho, não conseguiu cumprir o que ele lhe pediu. Seu filho mais novo teve que desistir de uma carreira promissora como jogador de Rugby para ir para uma Faculdade de Economia e Administração, para se tornar o novo presidente da empresa da família. Secretamente, o detetive que havia contratado viajava regularmente para Atenas em busca de qualquer pista que a ajudasse, mas parecia que a cada vez via com menos informação. Apegava-se apenas na fé de que um dia o veria novamente, e pra piorar, ainda havia aquela festa que seu marido falava nos últimos dias, por coincidência na Grécia. Não estava com a mínima vontade de participar de um evento daqueles, mas sabia que não ir não era uma opção. Foi para o banheiro, precisava recompor-se porque iria sair para comprar o vestido naquela tarde.


Santuário. Área de treinamento dos aspirantes.

Miro milagrosamente havia acordado cedo, e não tinha nada para fazer. Além disso, sentia-se excepcionalmente "atacado", e estava louco para encontrar e importunar um rosto conhecido. Assim que entrou na área de treinamento dos aspirantes, encontrou alguém que serviria. Enquanto descia, podia ouvir a voz que dava ordens.

- Andem seus molengas, não tem nem uma hora de treino e vocês já estão nesse estado?

Dizia uma voz autoritária para vários garotos e rapazes aspirantes a cavaleiros. Praticamente já estavam todos no chão, feridos e exaustos, e para completar a humilhação, quem os tratava daquela forma era uma mulher. Shina, a Amazona de Ophiuchus.

- Levantem-se, vamos para a próxima rotação de exercícios.

- Ei Shina, vai com calma com os garotos.

A voz masculina fez-se presente por trás. A amazona virou a cabeça, fazendo uma feição brava, como se perguntasse o que ele fazia ali.

- Eles são meus alunos. Eu os trato como achar melhor.

- Mas eu não sei o porquê. Finalmente temos paz, não precisamos de treinamentos tão severos.

- Nunca se sabe. Se algo acontecer, eu quero ter certeza eu e eles estarão prontos. Pena que todos por aqui não tenham essa mesma ciência...

Disse lançando um olhar atravessado para o visitante indesejado.

- Tá bom então... Mulher da cobra.

- O QUE VOCÊ DISSE?!

Ela estava furiosa, e deu um passo na direção dele, encarando os olhos azuis do cavaleiro de ouro. Ouviu alguns risinhos vindos dos seus alunos, e isso a deixou mais irritada. Perguntava-se o que raios ele fazia lá, a provocando sem motivo àquela hora da manhã. Miro, ao contrário, encarava os olhos verdes com um sorriso malandro no rosto. Atena não obrigava mais as Amazonas a usarem máscaras, mas é a primeira vez que via o rosto de uma tão de perto.

- Isso que você ouviu. Você não acha irônico? Uma amazona ser protegida por essa constelação?

Ela simplesmente não acreditava no que estava acontecendo.

- Escuta, você pode ser um cavaleiro de ouro, mas isso não significa que eu vou ficar quieta se você ficar me ofendendo.

- E o que você vai fazer? Você sabe que não pode me vencer na força

- Acredite, eu sempre arranjo um jeito de surpreender quem me subestima.

- Pois bem, vou ficar esperando, mulher da cobra.

Então Miro começou a se afastar, soltando uma leve gargalhada. Shina ainda bufava de ódio. Virou para seus alunos e disparou.

- 500 flexões.

- M... Mas mestra Shina...

- 600, e se eu ouvir mais uma palavra são 700.

Restou aos garotos obedecerem, começando todos a fazerem os exercícios ordenados enquanto a amazona imaginava uma forma de se vingar do cavaleiro de escorpião. Logo pensou em algo, que serviria talvez para humilhá-lo até mesmo em frente aos seus amigos dourados. Isso vez com que ela soltasse uma risadinha maléfica.

- Me aguarde inseto do rabo torto.


À tarde, Marin caminhava pelo Santuário, seguindo em direção à Vila das amazonas. Atena havia a dispensado mais cedo, então queria aproveitar para fazer uma faxina em sua casa, mas no momento em que passava por um pilar rachado pelo tempo, um braço a puxou para trás dele.

- AH!

- Shhh, calma, sou eu.

- Aioria? Seu louco. Pra que fazer isso?

- Queria fazer uma surpresa.

- E fez. Quase me matou do coração.

- Deixe-me dar meu pedido de desculpas então.

Então beijou os lábios dela de forma demorada. Marin apoiou-se na parede e abraçou o cavaleiro na altura do pescoço. Já fazia algum tempo que mantinham um relacionamento secreto. Tinham medo que Atena os proibisse, apesar do Santuário já ter mudado suas regras. Apesar de o beijo estar muito bom, Marin o desfez.

- Agora eu tenho certeza que você é louco. E se alguém vê a gente?

- Mas tá tão bom...

- Eu sei, mas lembra o nosso trato? Encontros, só à noite.

- OK.

O leonino fechou a cara chateado, dando espaço para ela sair.

- Não fica assim Aioria. Prometo te recompensar mais tarde, tá bom?

- Eu vou cobrar, viu? Na sua casa?

- Tem que ser. Na Casa de Leão é que não pode ser.

- Tem razão, desculpa. Você não acha que deveríamos acabar com isso? Contar logo para todos e esperar que Atena aceite?

- Meu maior medo não é dela, é do Mestre Shion. Ele não parece que é de aceitar muito esse tipo de relacionamento entre cavaleiros e amazonas.

- Bom, ele aceita o estilo de vida do Afrodite. Mas se você tem receio ainda, eu espero.

- Obrigada.

Deu um beijo delicado nos lábios do leonino.

- Até mais.

- Até.

Continua...


Notas:

- Espero que tenham gostado.

- A língua em que Shura e sua aluna falaram é o Basco. Ele tem status de língua oficial nas regiões do País Basco e de Navarra. Cerca de 700 mil pessoas tem essa língua como nativa. Historiadores e profissionais ainda tentam descobrir qual a origem do Basco, pois ele não tem similaridade com nenhuma outra língua falada no Europa.

- Euskaldun - Termo usado para se referir àquele que fala Basco.

- Até semana que vem.